Alice Grimm é uma das principais pesquisadoras do Brasil sobre oscilações climáticas. Como professora do Departamento de Física da UFPR, Grimm alerta para os efeitos do El Niño esperado para este ano e pontua a necessidade de políticas públicas de prevenção de desastres articuladas com o conhecimento científico
A cidade de Rio do Sul (SC), onde morava a família de Alice Grimm, debaixo de uma enchente em julho de 1983. Foto: Acervo Pessoal
Por Camile Bropp para “Ciência UFPR”
No Oceano Pacífico, a mais de 5 mil quilômetros do Brasil, fica o Niño 3.4, um ponto monitorado por satélites de agências científicas que medem se as águas superficiais estão mais quentes ou subiram de nível. Esses são os indicadores para a previsão do El Niño, a fase quente da oscilação climática chamada ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre o aquecimento e o resfriamento da superfície do mar, influenciando o tempo em quase todo o planeta. Dessa medição partiu o aviso de que as águas começaram a esquentar entre abril e junho deste ano com aceleração incomum, sugerindo um El Niño de grau “muito forte” para 2026, que deve ter seu pico de intensidade perto do fim do ano.
O El Niño acontece em intervalos irregulares de dois a sete anos e sempre é pauta pública, porque aumenta o risco de desastres e prejuízo econômico. Por sua localização e extensão continental, o Brasil é um dos países mais impactados por essa oscilação climática, que tende a ficar mais comum e intensa como resultado do aquecimento global. Hoje o El Niño já aumenta a propensão para seca e incêndios ao Norte, tempestades, enchentes e ciclones mais ao Sul, e crise hídrica em boa parte do país.
Isso leva à questão: como o Brasil, que está no caminho das rotas preferenciais das alterações causadas pelo El Niño, tem se preparado para essa e outras oscilações climáticas? Segundo a professora titular e pesquisadora Alice Grimm, do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde coordena o Laboratório de Meteorologia (Labmet), há urgência na revisão de posicionamentos.
Alice Marlene Grimm figura na lista da Universidade de Stanford entre os cientistas mais influentes do mundo, com destaque nacional no campo das ciências atmosféricas. Outras credenciais da pesquisadora passam pela revisão do quinto relatório (2013-2014) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), órgão científico da ONU sobre questões de clima, e pela atuação em comitês científicos internacionais, como o da Rede de Pesquisa em Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN) da Universidade de Columbia e o do Painel de Monções da Organização Meteorológica Mundial (WMO), no qual representou a América do Sul.
Os desastres climáticos que se repetem no país espelham entraves resistentes, como a insuficiência de planejamento estrutural de longo prazo e a falha de comunicação técnica entre a ciência e a gestão pública. Um exemplo disso está nos resultados do levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Paraná que expôs, em julho, que 60% das prefeituras do estado não possuem estrutura de Defesa Civil e 70% carecem de sistemas de alerta de riscos para a população.
Neste ano, a professora tem agido para tentar quebrar o ciclo de desinformação, apresentando pontos de vista científicos a gestores públicos. Uma dessa falas está marcada para essa segunda-feira (17), às 14 horas, em Curitiba, com transmissão on-line pelo canal de eventos da UFPR TV no YouTube.
Como pano de fundo dessa atuação está uma motivação antiga, a mesma que a levou a estudar oscilações climáticas. Em 1983, mestre em Ciências Geodésicas e à procura de um tema para doutorado, vivenciou o que significa um desastre natural para uma família. Os pais de Grimm perderam parte da casa onde residiam no Vale do Itajaí (SC) durante a enchente que deixou a cidade debaixo d’água, em julho daquele ano, durante um evento de El Niño. Assim a pesquisadora começou a construir sua trajetória na investigação de eventos climáticos de teleconexão, o conceito meteorológico que trata da ligação entre regiões distantes do planeta.
Na entrevista abaixo, Alice Grimm explica descobertas científicas recentes a respeito das oscilações climáticas naturais e das mudanças climáticas antrópicas, além de comentar os aspectos que colocam o Brasil em risco na pauta climática: o foco em reação em vez de prevenção, a desinformação, e as lacunas de dados confiáveis e adaptados ao continente para serem disponibilizados aos gestores públicos, entre outras questões.
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Fonte: Ciência UFPR