Agrotóxicos: entre o que se aplica, o que chega à cultura e o que efetivamente alcança o alvo

Quase três décadas de avanços tecnológicos tornaram a pulverização mais precisa, mas não eliminaram as perdas para outros compartimentos ambientais nem resolveram a enorme distância entre a quantidade aplicada e aquela que efetivamente alcança o organismo-alvo

Quando David Pimentel e Lois Levitan publicaram, em 1986, o artigo Pesticides: Amounts Applied and Amounts Reaching Pests, chamaram atenção para uma característica desconcertante do modelo de controle químico de pragas: frequentemente, menos de 0,1% dos agrotóxicos aplicados às culturas alcançava efetivamente as pragas-alvo. A eficiência, entretanto, variava muito conforme o tipo de aplicação. O problema levantado pelos autores era justamente a enorme distância existente entre a quantidade lançada no ambiente e aquela que efetivamente cumpria a finalidade para a qual havia sido aplicada.

Vinte e oito anos depois, Peter Kryger Jensen e Merete Halkjær Olesen abordaram o problema por outro ângulo. Em uma revisão publicada na revista Crop Protection, os pesquisadores analisaram estudos de balanço de massa das pulverizações, procurando determinar quanto do produto aplicado ficava depositado sobre a cultura, quanto chegava ao solo e quanto era transportado para fora da área tratada por deriva.

A comparação entre os dois trabalhos exige uma distinção fundamental. Chegar à cultura não significa chegar à praga. Pimentel e Levitan estavam interessados principalmente na parcela que efetivamente alcançava o organismo que se pretendia controlar. Jensen e Olesen analisaram sobretudo a eficiência física da pulverização. Assim, uma aplicação pode apresentar elevada deposição sobre folhas e frutos e, ainda assim, apenas uma pequena parcela da dose original alcançar o inseto, patógeno ou planta daninha que justificou sua utilização.

A tecnologia avançou, mas as perdas permaneceram

Entre os dois estudos ocorreu um importante desenvolvimento tecnológico. Melhorias nos bicos, controle do tamanho das gotas, assistência de ar, sistemas de reciclagem e equipamentos como os tunnel sprayers aumentaram substancialmente a capacidade de colocar o produto sobre a vegetação e reduzir determinadas formas de perda.  Jensen e Olesen encontraram situações em que a deposição sobre a cultura ultrapassava 70% ou mesmo 80%, mas também demonstraram enorme variação conforme cultura, estágio de desenvolvimento e tecnologia utilizada. Em videiras, por exemplo, pulverizadores convencionais apresentaram frações não contabilizadas entre aproximadamente 10,8% e 25,7%, enquanto nos sistemas em túnel esses valores ficaram entre 0% e 7,3%.

Isso demonstra um ganho tecnológico real. Mas não significa que o problema ambiental tenha desaparecido.  O fato é que em aplicações convencionais sobre macieiras, 20% a 40% da quantidade aplicada não foi recuperada nas plantas ou no solo. Em outros sistemas de fruticultura, a fração não contabilizada alcançou 38,2% na laranja, 50,4% no pêssego e 61,8% na tangerina. Além disso, as condições meteorológicas alteraram radicalmente os resultados: em um experimento com macieiras, a recuperação da dose caiu de 91% pela manhã para apenas 68% ao meio-dia, sob temperatura mais elevada e menor umidade relativa.

O paradoxo da eficiência

Há, entretanto, uma segunda dimensão que precisa ser incorporada a essa discussão. Enquanto aperfeiçoamos as tecnologias de aplicação, ampliamos enormemente a escala em que os agrotóxicos são utilizados pela agricultura. E isso significa que o problema não pode ser analisado apenas em termos percentuais.   Mas uma redução relativa das perdas não implica necessariamente redução da quantidade absoluta de substâncias químicas transferidas para o ambiente.  É que se a quantidade total aplicada aumenta, mesmo uma porcentagem menor de perda pode representar uma massa considerável de agrotóxicos alcançando lugares que nunca foram seus alvos.

E aquilo que não chega ao alvo não simplesmente desaparece. Jensen e Olesen lembram que as perdas durante a aplicação são inevitáveis e que a deposição no solo constitui uma fonte potencial de lixiviação e contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Os autores também chamam atenção para a deriva aérea, cuja quantificação continua metodologicamente difícil e que pode representar uma fração significativa do produto aplicado.

Assim, o que aparece como “perda” do ponto de vista agronômico deve ser entendido ambientalmente como transferência. O produto pode chegar ao solo, às águas superficiais e subterrâneas e à atmosfera e, por essas diferentes rotas, criar condições de exposição de organismos não alvo. É nesse contexto mais amplo que precisam ser considerados os impactos sobre plantas, microrganismos, insetos, polinizadores, organismos aquáticos, aves e também seres humanos. A extensão concreta desses efeitos, entretanto, precisa ser estabelecida por estudos toxicológicos e ambientais específicos, pois não foi objeto da revisão de Jensen e Olesen.

Mais precisão não resolve uma questão de escala

Colocados lado a lado, os dois estudos revelam uma contradição importante. Em 28 anos, aperfeiçoamos consideravelmente a capacidade de entregar o agrotóxico à cultura, mas não eliminamos sua transferência para compartimentos que não constituíam o alvo. Tampouco Jensen e Olesen oferecem evidências de que essa melhoria na deposição tenha produzido um aumento equivalente na fração da dose original que efetivamente alcança o organismo que se pretende controlar.

Por isso, o valor de menos de 0,1% apresentado por Pimentel e Levitan não deve ser simplesmente transportado para os dias atuais como se décadas de inovação tecnológica não tivessem ocorrido. Mas também não há nesses trabalhos evidência de que o problema fundamental identificado em 1986 tenha sido resolvido. Talvez esteja aí o aspecto mais inquietante dessa comparação.  A melhoria tecnológica tornou mais eficiente o processo de pulverização, mas simultaneamente aumentamos a escala na qual pulverizamos. Quando essas duas tendências são combinadas, ganhos relativos de eficiência podem ser anulados pelo crescimento absoluto da quantidade utilizada, mantendo ou mesmo ampliando a pressão química exercida sobre os sistemas ambientais.

A pergunta relevante, portanto, não deveria ser apenas quanto do agrotóxico conseguimos colocar sobre uma lavoura. Deveríamos perguntar quanto efetivamente chega ao organismo-alvo, quanto é necessário aplicar para produzir esse resultado e onde termina todo o restante. Afinal, aperfeiçoar a entrega é importante. Mas, diante da expansão do uso dessas substâncias, a questão ambiental fundamental continua sendo outra: quanto mais agrotóxico colocamos em circulação, maior é a importância de saber quanto dele vai parar justamente onde nunca deveria ter chegado.

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