Os dados publicados neste sábado pelo Poder360 deveriam provocar um escândalo nacional. O Brasil destinou, em 2024, o equivalente a 8,8% do Produto Interno Bruto apenas ao pagamento de juros da dívida pública, a maior proporção entre os países do G20. O dado se torna ainda mais impressionante quando se observa que, de 2023 para 2024, essa despesa saltou de 5,8% para 8,8% do PIB, um crescimento de três pontos percentuais em apenas um ano.
O mais revelador, entretanto, é que o Brasil não ocupa posição equivalente quando se considera o tamanho de sua dívida. Pela metodologia utilizada pelo Financial Stability Board, a dívida bruta brasileira correspondia a 88% do PIB, colocando o país apenas na oitava posição entre os membros do G20. O Japão, por exemplo, possui uma dívida próxima de 220% do PIB, mas gasta cerca de 2,5% de sua riqueza anual com juros. O Brasil deve proporcionalmente muito menos, mas paga muito mais para carregar sua dívida.
Essa diferença deveria ser suficiente para deslocar o debate público da obsessão quase religiosa com o tamanho da dívida para uma questão muito mais incômoda: por que o Estado brasileiro paga tanto para se endividar e quem se beneficia desse mecanismo?
A reportagem atribui o elevado custo da dívida aos riscos fiscais, à inflação, às incertezas institucionais, à taxa Selic e à composição dos títulos públicos, parte importante dos quais está indexada aos juros ou aos índices de preços. Esses elementos são reais e ajudam a explicar o mecanismo. Mas há um limite evidente nessa explicação: ela tende a apresentar o problema como resultado quase natural de variáveis econômicas, quando o próprio dado central revela uma escolha política de enormes consequências distributivas. O Brasil mantém uma estrutura na qual a remuneração dos detentores da dívida ocupa uma posição extraordinariamente protegida, enquanto educação, saúde, ciência, universidades e serviços públicos precisam disputar recursos sob a vigilância permanente da austeridade.
É justamente aqui que os dados publicados pelo Poder360 encontram as contribuições que Paulo Lindesay, diretor da ASSIBGE-SN e coordenador do Núcleo Rio de Janeiro da Auditoria Cidadã da Dívida, vem apresentando e que já foram discutidas neste blog. Em seus estudos, Lindesay insiste em um ponto que raramente ocupa o centro da cobertura econômica convencional: não basta perguntar quanto o Brasil deve; é necessário investigar como essa dívida se forma, como ela cresce, quanto já foi pago, quem recebe e por que o estoque continua aumentando apesar dos volumes gigantescos transferidos aos seus credores.
Em estudo recentemente analisado no Blog do Pedlowski, Lindesay mostrou que, entre 2018 e 2025, aproximadamente R$ 13,343 trilhões foram destinados ao serviço da dívida pública, somando juros e amortizações. Apenas em 2025, esse montante teria alcançado R$ 2,135 trilhões, enquanto os dados do primeiro semestre de 2026 já indicavam um ritmo capaz de superar novamente esse valor.
Esse é o ponto que transforma o ranking do G20 em algo muito maior do que uma curiosidade estatística. O Brasil não é apenas o país que paga proporcionalmente mais juros entre as principais economias do planeta. Ele mantém um sistema de drenagem contínua do orçamento público em favor do serviço da dívida. Enquanto isso, políticas sociais, universidades, institutos de pesquisa, hospitais e investimentos públicos são submetidos à lógica permanente da escassez.
No estudo sobre os desvios orçamentários da educação, comentado anteriormente neste blog, Lindesay mostrou precisamente a dimensão dessa assimetria. De um lado, trilhões de reais circulam pelo sistema da dívida; de outro, recursos destinados a funções sociais permanecem sujeitos a contingenciamentos, subexecuções e limites fiscais. A escassez, portanto, não se distribui igualmente pelo orçamento. Ela parece atingir com extraordinária precisão aquilo que atende à maioria da população, enquanto o serviço da dívida desfruta de uma capacidade de absorção de recursos que nenhuma universidade pública, nenhum hospital e nenhuma política de ciência e tecnologia jamais conheceram.
Os dados mais recentes reforçam esse diagnóstico. Em maio de 2026, o pagamento de juros nominais acumulado em 12 meses chegou a 8,48% do PIB, o maior patamar desde fevereiro de 2016. No mesmo período, o déficit primário correspondia a 1,14% do PIB, mas, quando os juros são incorporados, o déficit nominal saltava para 9,62%. A diferença entre esses dois números deveria ocupar um lugar muito maior no debate brasileiro, porque mostra que o problema fiscal não pode ser explicado apenas pela narrativa de um Estado que supostamente “gasta demais” com políticas públicas.
Em outras palavras, enquanto o debate cotidiano insiste em responsabilizar aposentadorias, salários de servidores, universidades, políticas sociais e investimentos públicos pela crise fiscal, uma parcela gigantesca do desequilíbrio passa pelo custo financeiro da dívida. O déficit primário e o déficit nominal contam histórias muito diferentes, e entre uma e outra está o peso dos juros.
Esse diagnóstico também ajuda a compreender a crítica de Paulo Lindesay ao PROPAG e, em particular, aos mecanismos de renegociação das dívidas estaduais. Como já discutido no Blog do Pedlowski, Lindesay questiona a ideia de que o estoque da dívida deva ser simplesmente reconhecido como um dado natural e incontestável, sobretudo quando nunca houve a auditoria pública e independente prevista na Constituição. Para ele, programas de renegociação podem acabar consolidando dívidas cuja formação permanece sem exame adequado e, ao mesmo tempo, impor novas rodadas de austeridade, privatizações e restrições aos investimentos sociais.
O caso do estado do Rio de Janeiro oferece uma demonstração particularmente didática dessa lógica. Dados apresentados pela Auditoria Cidadã da Dívida e divulgados neste blog mostram que o estado refinanciou cerca de R$ 15,2 bilhões em 1999 e, mesmo depois de pagar mais de R$ 31,8 bilhões, continuou vendo o saldo devedor crescer, superando R$ 108 bilhões apenas no contrato original. Considerando a dívida consolidada com a União, o valor alcançaria cerca de R$ 205,4 bilhões.
É difícil imaginar exemplo melhor daquilo que Lindesay chama a atenção ao reconstruir a história do endividamento brasileiro: uma dívida que recebe pagamentos sucessivos, consome parcelas crescentes dos recursos públicos e, ainda assim, parece adquirir uma extraordinária capacidade de nunca desaparecer. A dívida é paga, refinanciada, renegociada e novamente paga, enquanto seu estoque permanece ou cresce.
O dado publicado agora pelo Poder360 deveria, portanto, ser lido à luz dessa questão mais ampla. O fato de o Brasil liderar o G20 em gastos com juros não é apenas um problema de política monetária nem uma fatalidade decorrente da “desconfiança dos mercados”. Trata-se de uma estrutura de transferência de renda mediada pelo Estado. Os juros pagos pela dívida não desaparecem no ar; eles chegam a destinatários concretos. Por isso, qualquer discussão séria deveria identificar a composição dos credores, a estrutura dos títulos, os mecanismos de indexação e os beneficiários finais desse fluxo de recursos.
Também seria necessário perguntar por que o país aceita como normal pagar 8,8% de toda a riqueza que produz em um ano apenas em juros e, ao mesmo tempo, trata aumentos de recursos para educação, saúde, ciência ou servidores públicos como ameaças à responsabilidade fiscal. A contradição é particularmente evidente porque o Brasil ainda enfrenta déficits históricos de infraestrutura e serviços públicos. Em um país com tantas carências, a liderança mundial no pagamento proporcional de juros representa uma escolha distributiva de enorme alcance.
A reportagem do Poder360 acerta ao mostrar que o Brasil possui uma das dívidas mais caras do mundo. Mas a contribuição de Paulo Lindesay permite avançar para a pergunta seguinte, talvez mais importante: por que essa dívida é tão cara, por que continua crescendo depois de pagamentos trilionários e por que seu funcionamento permanece fora do escrutínio público que se aplica a praticamente qualquer outra despesa estatal?
A resposta não surgirá de mais uma rodada de cortes em universidades, congelamento de salários, redução de investimentos sociais ou privatização do patrimônio público. Essas medidas podem até liberar novos recursos, mas, enquanto a engrenagem financeira permanecer intocada, existe o risco de que apenas aumentem a quantidade de dinheiro disponível para alimentar o mesmo mecanismo.
O Brasil acaba de conquistar um título que ninguém deveria comemorar: é o campeão do G20 em gastos com juros em relação ao PIB. E talvez a pergunta decisiva não seja por que o país gasta tanto, mas por que a sociedade brasileira continua sendo convencida de que o problema fiscal está sempre na escola, no hospital, na universidade, na aposentadoria ou no salário do servidor, e quase nunca no sistema que transforma uma parcela gigantesca da riqueza nacional em remuneração financeira para os detentores da dívida.
Os dados apresentados pelo Poder360 e as análises de Paulo Lindesay apontam, por caminhos diferentes, para a mesma conclusão: o problema da dívida pública brasileira não é apenas contábil. É uma questão de poder, de prioridades e de distribuição da riqueza produzida pelo país. Enquanto essa discussão permanecer interditada, continuaremos ouvindo que falta dinheiro para quase tudo, ao mesmo tempo em que o Brasil encontra, ano após ano, recursos extraordinários para sustentar o mais caro sistema de juros entre as maiores economias do mundo.
