Evento fechado da Reserva Caruara, realizado em parceria com a UFF, reacende o debate sobre a legitimidade de uma conservação ambiental que restringiu o acesso de comunidades tradicionais à Lagoa de Iquipari enquanto reivindica o discurso do diálogo e da construção coletiva
A circulação de um convite para o I Workshop de Experiências Turísticas Ecossistêmicas, promovido pela Reserva Caruara em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), suscita uma série de questões que merecem ser debatidas publicamente. A primeira delas é bastante objetiva: apesar do nome, a atividade é um evento fechado, com participação restrita a convidados previamente selecionados e autorizados pelos organizadores. Embora o material de divulgação utilize uma linguagem que remete ao diálogo, ao compartilhamento de experiências e à construção coletiva, a própria dinâmica anunciada contradiz esse discurso ao impedir a participação da sociedade em geral e, especialmente, daqueles diretamente afetados pela existência da Reserva Caruara.
Esse aspecto é particularmente sensível porque a Reserva Caruara não é uma unidade de conservação criada espontaneamente em resposta a uma demanda da sociedade pela proteção ambiental. Ela constitui uma medida compensatória vinculada ao licenciamento ambiental do Porto do Açu, empreendimento cuja implantação alterou profundamente a dinâmica territorial do V Distrito de São João da Barra. Entre os impactos mais conhecidos está a drástica restrição do acesso de pescadores artesanais à Lagoa de Iquipari, espaço utilizado por gerações como fonte de sustento, trabalho e reprodução de modos de vida tradicionais.
Nesse contexto, discutir “experiências turísticas ecossistêmicas” sem a presença efetiva daqueles que perderam acesso ao território em nome da chamada conservação ambiental produz um paradoxo estridente. O discurso da valorização dos serviços ecossistêmicos culturais é incompleto quando ignora justamente o patrimônio cultural representado pelas práticas históricas da pesca artesanal, que também constituem parte indissociável da paisagem, da memória social e da identidade territorial da região.
Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao papel da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentada no material de divulgação como parceira da iniciativa. A questão que se coloca é simples e legítima: qual é exatamente o significado dessa parceria em um evento cuja participação é previamente definida pelos gestores da Reserva Caruara e, em última instância, pelo Porto do Açu? Ao figurar como parceira consentida de um encontro fechado, a UFF acaba associando sua imagem institucional a uma iniciativa que exclui justamente os segmentos sociais mais diretamente afetados pela implantação da Reserva Caruara.
Não se trata de discutir a qualidade técnica ou científica do workshop, mas de indagar sobre a responsabilidade institucional de uma universidade pública ao emprestar sua credibilidade a um evento privado que restringe o acesso ao debate. A direção da UFF considera compatível com sua missão institucional participar, como parceira, de uma atividade que se apresenta como espaço de diálogo, mas cuja participação depende de convite e autorização prévia? Em um território marcado por conflitos socioambientais ainda não resolvidos, seria de se esperar que uma universidade pública contribuísse para ampliar o debate público, e não para legitimar um processo deliberativo circunscrito a um grupo previamente selecionado.
Também merece atenção a própria estratégia de divulgação do evento. O convite enfatiza expressões como “pesquisa, conservação e turismo em diálogo”, “compartilhamento” e “construção coletiva”. Entretanto, em posição de destaque, informa que a participação ocorrerá “mediante convite e autorização prévia”. Há, portanto, uma evidente dissonância entre a mensagem transmitida e o formato efetivamente adotado. A linguagem visual busca comunicar abertura e diálogo, enquanto as regras de acesso revelam um encontro de natureza privada, reservado a um público previamente escolhido pelos organizadores.
Essa aparente falta de transparência se torna ainda mais evidente quando se busca obter informações adicionais sobre o workshop. Embora o site da Reserva Caruara disponibilize um link para o evento, o acesso não conduz a uma página contendo sua programação, objetivos, palestrantes, critérios de seleção dos participantes ou qualquer outra informação específica. Em vez disso, o visitante é direcionado para um conteúdo que não guarda relação com o workshop anunciado. Essa incongruência impede que o público conheça minimamente a estrutura do encontro e dificulta compreender quem participará das discussões e quais perspectivas estarão representadas.
Essa ausência de informações torna ainda mais pertinente questionar a natureza da parceria estabelecida entre a Reserva Caruara e a UFF. Se a proposta é promover um debate sobre turismo, conservação e serviços ecossistêmicos em um território marcado por conflitos socioambientais, seria razoável esperar que aspectos elementares do evento — como programação, convidados, critérios de participação e objetivos específicos — estivessem disponíveis de forma clara e acessível. A transparência é um componente indispensável da legitimidade, especialmente quando uma universidade pública associa seu nome a uma iniciativa dessa natureza.
Não se questiona o direito de uma instituição privada realizar eventos restritos aos seus convidados. O que merece problematização é a tentativa de apresentar um encontro dessa natureza como espaço de reflexão sobre questões de interesse coletivo em um território profundamente marcado por conflitos ambientais, sociais e fundiários. Quando se fala em turismo sustentável, conservação e serviços ecossistêmicos em uma área cuja criação implicou severas restrições ao acesso de comunidades tradicionais ao seu território histórico, transparência, pluralidade de vozes e participação pública deixam de ser detalhes organizacionais para se tornarem requisitos fundamentais de legitimidade.
Permanecem, assim, algumas perguntas que merecem resposta pública. Por que um workshop que afirma promover o diálogo sobre conservação e turismo não é aberto à sociedade? Haverá representantes dos pescadores artesanais que estão sendo prejudicados pela criação da Reserva Caruara? Pesquisadores que produziram estudos críticos sobre os impactos territoriais do Porto do Açu foram convidados? A programação e os critérios de participação serão finalmente tornados públicos? E, sobretudo, qual o sentido de a UFF figurar como parceira de uma iniciativa privada cujo formato restringe o debate público sobre um conflito socioambiental que permanece longe de ser resolvido?
Enquanto essas questões permanecerem sem resposta, será difícil não interpretar o workshop como mais um esforço de construção de legitimidade para um modelo de conservação ambiental corporativa que, ao mesmo tempo em que promove a proteção da biodiversidade e novas modalidades de turismo, continua associado à exclusão de comunidades tradicionais de territórios que, durante gerações, garantiram sua sobrevivência material, cultural e social. A verdadeira construção coletiva começa pela disposição de ouvir também aqueles cujas vozes foram historicamente silenciadas pelo mesmo processo que hoje se pretende apresentar como exemplo de sustentabilidade.

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