O negacionismo climático que une a política brasileira

Enquanto a ciência e a meteorologia alertam para a intensificação dos eventos extremos, o sistema político permanece preso à disputa eleitoral e ao consenso em torno da austeridade fiscal

Nesta quarta-feira, o portal UOL repercute uma matéria publicada pelo Estadão informando que, a partir de amanhã, o Brasil — especialmente a Região Sul — deverá ser atingido por um “ciclone bomba“, capaz de provocar tempestades severas, queda de granizo e ventos de alta intensidade. Caso as previsões se confirmem, o episódio poderá reproduzir, em escala ainda maior, os impactos recentemente observados nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde eventos extremos provocaram destruição material e perdas de vidas humanas. 

Entretanto, basta observar as manchetes dos principais veículos da mídia corporativa para perceber que esse alerta meteorológico recebe muito menos atenção do que a cobertura das pesquisas eleitorais e das convenções partidárias, que alimentam mais um ciclo de polarização política. Enquanto isso, permanece praticamente ausente qualquer discussão consistente sobre as diferenças programáticas entre os candidatos diante da emergência climática que o país já enfrenta.

Minha impressão é que essa dissintonia revela algo mais profundo: uma crescente desconexão entre as prioridades do sistema político e a realidade vivida pela população. A disputa eleitoral transcorre como se a sucessão de eventos climáticos extremos fosse um tema secundário, quando, na verdade, deveria ocupar posição central na agenda pública. Pouco ou nada se discute sobre as medidas necessárias para reduzir os impactos dos fenômenos previstos para os próximos meses — inclusive durante o próprio período eleitoral — e evitar novas perdas materiais e humanas, que, como de costume, tendem a atingir de forma mais intensa as periferias urbanas e os segmentos socialmente mais vulneráveis.

Há ainda um aspecto que merece destaque. Os sinais são cada vez mais claros de que, quando o assunto é adaptação às mudanças climáticas, os principais agrupamentos políticos nacionais compartilham uma forma de negacionismo, ainda que manifestada com diferentes intensidades. Em vez de priorizar investimentos capazes de preparar o país para enfrentar uma realidade climática em rápida transformação, prevalece o consenso de que a principal prioridade do Estado continua sendo assegurar o funcionamento do sistema de pagamentos da já impagável dívida pública. Nesse ponto, as divergências que dominam o debate político desaparecem: a manutenção da asfixia financeira do Estado em benefício do sistema financeiro parece reunir um consenso muito maior do que a proteção da população diante da intensificação dos riscos climáticos.

A consequência dessa escolha política é preocupante. Enquanto a ciência acumula evidências sobre a intensificação dos eventos extremos e os serviços meteorológicos conseguem antecipar com razoável precisão muitos desses fenômenos, a resposta institucional permanece marcada pela inércia. Em vez de investir de forma sistemática em prevenção, infraestrutura resiliente, fortalecimento da Defesa Civil e planejamento territorial, o país continua reagindo às tragédias apenas depois que elas ocorrem, multiplicando custos econômicos, sociais e humanos que poderiam ser significativamente reduzidos.

Romper esse negacionismo climático tácito dependerá, cada vez mais, da capacidade de mobilização da sociedade. Será necessário que universidades, organizações científicas, movimentos sociais, sindicatos, associações comunitárias e entidades ambientalistas construam uma agenda comum de pressão sobre os diferentes níveis de governo para exigir políticas permanentes de adaptação climática, acompanhadas de recursos orçamentários compatíveis com a dimensão do desafio. Sem essa pressão coletiva, o Brasil continuará tratando a crise climática como um problema do futuro, quando ela já se manifesta diariamente em enchentes, secas, ondas de calor, incêndios e tempestades que atingem milhões de brasileiros. A adaptação precisa deixar de ser um tema periférico e tornar-se uma prioridade de Estado, sob pena de perpetuarmos uma ruptura cada vez mais perigosa entre a realidade climática e as escolhas políticas que moldam o país.

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