A meta de 1,5 °C já ficou para trás: Paulo Artaxo alerta para a urgência climática

Cientista do IPCC alerta que reduzir rapidamente as emissões e iniciar medidas concretas de adaptação são tarefas simultâneas e urgentes diante de impactos climáticos que já atingem o Brasil

No debate realizado na última quinta-feira sobre o atual ciclo do El Niño, o professor Paulo Artaxo (USP), membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fez uma série de observações importantes sobre o avanço do aquecimento da atmosfera terrestre e suas consequências cada vez mais evidentes. Artaxo participou de uma atividade organizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), que reuniu também os pesquisadores Luciana Gatti (INPE) e  Roberto Verdum (UFRGS) para discutir as mudanças em curso no sistema climático e os desafios que elas colocam para a sociedade brasileira.

Para começo de conversa, Artaxo lembrou que, apesar de todas as conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas para enfrentar o aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, as emissões globais de gases de efeito estufa já ultrapassam 57 bilhões de toneladas por ano. Como resultado, a temperatura média global já aumentou cerca de 1,45 °C, enquanto nas áreas continentais esse aquecimento chega a aproximadamente 2,1 °C. No caso do Brasil, mantida a atual trajetória de aumento da temperatura, o aquecimento poderá atingir entre 3,5 °C e 4 °C, produzindo situações especialmente graves nas grandes cidades. Artaxo ressaltou ainda que o clima não se resume à temperatura, pois envolve também a precipitação e outros componentes do sistema climático; alterações importantes nos padrões de chuva já podem ser observadas em diferentes regiões.

Ao tratar dessas mudanças, Artaxo mencionou um estudo recente do MapBiomas que apontou uma redução de cerca de 30% no estoque de água do Pantanal, processo que já produz graves impactos ambientais, econômicos e sociais. No caso da Amazônia, ele destacou estudos que indicam que partes da floresta passaram da condição de sumidouro para a de fonte de carbono. Esse processo reforça a preocupação de que a Amazônia possa estar se aproximando do chamado ponto de não retorno, situação que produziria impactos não apenas sobre sua composição e estrutura florestal, mas também sobre sua capacidade de reciclar e transportar umidade para extensas áreas do território brasileiro.

Questionado sobre a implantação de grandes projetos econômicos na Amazônia, especialmente sobre a expansão da exploração de petróleo na região, Artaxo observou de forma enfática que esse tipo de iniciativa caminha na direção contrária aos esforços necessários para conter o aumento da temperatura global. A abertura de novas fronteiras petrolíferas amplia a oferta de combustíveis fósseis justamente quando a ciência climática indica a necessidade de reduzir rapidamente sua utilização e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa.

Outro ponto importante destacado por Artaxo foi a necessidade de o Brasil acelerar a implantação de medidas de adaptação a uma condição climática que deverá se tornar mais severa nas próximas décadas. Segundo ele, embora já existam recursos destinados a iniciar esse processo, o país utiliza pouco do dinheiro disponível e, em diversos casos, utiliza esses recursos de maneira inadequada. A adaptação deixou, portanto, de ser uma questão que pode ser adiada para algum momento futuro, pois parte das mudanças climáticas já está em curso e continuará produzindo consequências mesmo que o mundo consiga reduzir significativamente suas emissões nos próximos anos.

Finalmente, Artaxo observou que a comunidade científica já considera inalcançável a meta de limitar o aquecimento da atmosfera terrestre a 1,5 °C. Esse reconhecimento, longe de justificar qualquer acomodação, torna ainda mais urgente a redução rápida e consistente das emissões de gases de efeito estufa, pois cada fração adicional de grau amplia a intensidade e a frequência dos impactos climáticos. Ao mesmo tempo, governos e sociedades precisam iniciar imediatamente medidas concretas de adaptação, uma vez que os efeitos do aquecimento já começam a se manifestar nos territórios. Adiar essas duas tarefas significa aumentar deliberadamente a exposição da população a ondas de calor, secas, chuvas extremas, enchentes, perdas agrícolas, crises no abastecimento de água e outros eventos capazes de produzir graves consequências sociais e econômicas. A inação, portanto, não representa apenas um risco projetado para as próximas décadas; ela já cobra seu preço no presente e pode transformar fenômenos climáticos cujos impactos poderiam ser prevenidos ou mitigados em desastres de proporções cada vez maiores.

Quem desejar ouvir na íntegra as declarações de Paulo Artaxo e as contribuições dos demais debatedores, Luciana Gatti e Paulo Verdum, poderá acessar a gravação da atividade no canal do GENAT/UFPB [ Aqui!].

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