Expansão chinesa na produção de alimentos e investimentos na África mostram que a condição de grande comprador das commodities brasileiras não impede Pequim de construir alternativas — e até novos concorrentes — ao agronegócio brasileiro
Uma matéria publicada pela Folha de S.Paulo neste sábado (05/9), assinada por Roberto Samora, acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça das transformações que estão ocorrendo nas relações econômicas entre Brasil e China. Segundo Chenjun Pan, especialista do Rabobank, a China deverá ampliar sua participação nas exportações globais de carne de frango e poderá se transformar, na próxima década, em concorrente importante do Brasil em mercados como Oriente Médio, Ásia e África. A informação merece atenção porque vai muito além da avicultura: ela ajuda a revelar uma mudança que pode atingir progressivamente diferentes segmentos do chamado agronegócio brasileiro. A China tornou-se exportadora líquida de carne de frango em 2025 e vem aumentando rapidamente sua produção. Ainda existe enorme distância em relação ao Brasil, que permanece como potência exportadora do setor, mas o aspecto relevante não está apenas nos volumes atuais. O que importa é a trajetória. Estamos diante de um país que durante muito tempo ampliou suas importações de alimentos e matérias-primas e que agora procura aumentar a produção doméstica, diversificar fornecedores e, em determinados segmentos, criar excedentes capazes de disputar mercados internacionais.
Essa notícia ganha outra dimensão quando colocada ao lado da crescente presença chinesa na África. Como discuti recentemente neste blog, os investimentos chineses no continente africano não se limitam à aquisição de minerais ou à construção de obras isoladas. Ferrovias, rodovias, portos, energia e infraestrutura logística estão criando condições para ampliar a capacidade africana de produzir e exportar commodities agrícolas e minerais. Para a China, isso representa diversificação das fontes de abastecimento e redução da dependência de fornecedores específicos. Para o Brasil, entretanto, significa a possibilidade de surgimento ou fortalecimento de competidores justamente nos produtos em que nossa economia se tornou crescentemente especializada.
O caso do frango revela que essa transformação pode ocorrer também na direção inversa. A África poderá simultaneamente aumentar sua capacidade de fornecer matérias-primas para a China e tornar-se mercado para produtos chineses. Se o frango brasileiro passar a disputar consumidores africanos, asiáticos e do Oriente Médio com empresas chinesas, estaremos diante de uma mudança qualitativa na relação entre os dois países: a China continuará sendo um dos maiores compradores do Brasil, mas poderá ser também uma concorrente crescente dos produtos brasileiros nos mercados internacionais.
Há ainda uma conexão particularmente importante com a soja. A expansão chinesa da produção de frango não ocorre apenas porque existe demanda por proteína animal. A avicultura apresenta maior eficiência na conversão alimentar do que a suinocultura, utilizando proporcionalmente menos milho e farelo de soja. Se mudanças dessa natureza avançarem na estrutura de produção e consumo chinesa, poderão contribuir para reduzir o ritmo de crescimento da demanda por soja importada. Para um país que estruturou parcela considerável de sua expansão agrícola contando com a aparentemente inesgotável demanda chinesa, isso deveria soar como um sinal de alerta.
O problema torna-se mais sério porque essa transformação acontece num momento em que produtos brasileiros enfrentam dificuldades crescentes em mercados dos Estados Unidos e da União Europeia, seja por barreiras tarifárias, sanitárias, ambientais ou outras exigências regulatórias. Quando um mercado se fecha ou se torna menos acessível, exportadores procuram redirecionar mercadorias para outros destinos. Mas esses mercados alternativos são justamente aqueles onde novos competidores começam a aparecer. O resultado pode ser maior oferta, competição por compradores e pressão para baixo sobre preços e margens.
É por isso que talvez esteja chegando o momento de abandonar uma visão excessivamente confortável da relação Brasil-China. Durante as últimas décadas consolidou-se a percepção de uma complementaridade quase natural: o Brasil possui terra, água, minérios e capacidade de produzir commodities; a China possui população, indústria e enorme demanda por matérias-primas. O problema é imaginar que essa divisão internacional do trabalho permanecerá congelada. Nenhuma potência econômica trabalha para permanecer indefinidamente dependente de poucos fornecedores estrangeiros de alimentos, energia e minerais estratégicos.
A estratégia chinesa parece caminhar precisamente na direção oposta. Pequim amplia sua produção doméstica quando isso é possível, modifica padrões produtivos para reduzir dependências, investe na infraestrutura necessária para criar fornecedores alternativos na África e em outras regiões e, quando alcança escala suficiente, transforma cadeias antes voltadas ao mercado interno em plataformas exportadoras. O frango oferece um exemplo particularmente didático dessa sequência: importar, ampliar a produção doméstica, alcançar maior autossuficiência, gerar excedentes e finalmente exportar.
Nada disso significa que a China deixará de comprar commodities brasileiras no futuro próximo. O tamanho de sua economia torna essa hipótese pouco plausível. A questão estratégica é outra: como já foi observado neste blog, o Brasil poderá continuar sendo importante para a China sem continuar sendo indispensável. E existe uma diferença enorme entre essas duas condições. Essa possibilidade deveria preocupar especialmente um país que nas últimas décadas aprofundou sua dependência da exportação de soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose enquanto sua indústria perdeu participação relativa na economia. O sucesso recente das exportações de commodities acabou criando uma perigosa sensação de segurança, como se a demanda chinesa fosse uma espécie de garantia permanente para a economia brasileira.
A matéria publicada pela Folha sugere que essa garantia simplesmente não existe. A expansão chinesa na África e o avanço da própria China sobre mercados hoje ocupados pelo Brasil são duas faces de um mesmo movimento de reorganização das cadeias internacionais de produção e abastecimento. O maior comprador das commodities brasileiras pode continuar sendo nosso principal cliente enquanto simultaneamente constrói fornecedores alternativos e se transforma em nosso concorrente. Talvez essa seja a questão mais incômoda colocada pela notícia sobre o frango. O problema não é saber se a China continuará comprando do Brasil nos próximos anos, mas perguntar por quanto tempo o Brasil poderá sustentar um modelo econômico baseado na expectativa de que a China continuará precisando comprar aquilo que produzimos, nas quantidades e nas condições que interessam ao chamado agronegócio brasileiro. O frango pode ser apenas o primeiro aviso de que essa conta está começando a mudar.
