O avanço da AfD expõe o preço político de décadas de neoliberalismo e o fracasso de quem combate a extrema-direita sem enfrentar as condições sociais que a alimentam
A vitória do partido neonazista Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição estadual da Saxônia-Anhalt mostra mais do que uma simples vitória eleitoral. Ela expressa uma resposta de setores significativos da sociedade ao processo de degradação das condições de vida após décadas de aplicação do receituário neoliberal, que serviram para piorar a situação objetiva da maioria da população, enquanto os mais ricos se tornavam ainda mais ricos.
O processo alemão de viragem para o neonazismo pode parecer chocante e até inexplicável, mas representa, na verdade, a repetição de uma velha receita: utilizar o descontentamento produzido por políticas que empobrecem parcelas crescentes da população para atribuir a culpa justamente a quem não tem responsabilidade alguma pela crise. A receita baseada no ódio aos imigrantes, aos judeus, aos gays e a tudo aquilo que parece se desviar de um padrão supostamente aceitável tem sido utilizada à exaustão por partidos da direita tradicional em diferentes partes do mundo ocidental. Parte do suposto choque diante do avanço da extrema-direita advém mais de cinismo do que de uma preocupação real com os efeitos da volta do nazismo ao poder, ainda que em coligação com outros partidos. Uso aqui a palavra nazismo deliberadamente, porque é disso que se trata quando observamos a AfD e outros partidos de extrema-direita na Europa, sem tirar nem pôr.
Se colocarmos o que aconteceu na Alemanha em perspectiva com o cenário eleitoral brasileiro e o de outros países sul-americanos, ninguém deveria se surpreender com as semelhanças, na medida em que por aqui se repete parte da fórmula que acaba de obter êxito na Saxônia-Anhalt. Na ausência do fantasma da suposta substituição da população nacional por estrangeiros e muçulmanos, temos o uso intensivo do ódio aos pobres e aos programas sociais que procuram, ainda que de forma limitada, aliviar a chocante desigualdade social existente.
A questão central é que a crise geral do capitalismo, agravada pela intensificação da crise climática, constitui a base material a partir da qual o discurso de ódio se torna palatável para uma parcela significativa do eleitorado. O problema é que a extrema-direita vem se aproveitando do sentimento de desespero, insegurança e alienação que emerge desse processo de crise, enquanto a esquerda institucional e a direita tradicional se alternam na aplicação de medidas neoliberais que apenas contribuem para agravar a situação. Essa deveria ser a reflexão sincera que deveríamos estar recebendo dos dirigentes desses partidos, em vez das manifestações de surpresa e do aparente choque diante do crescimento eleitoral da extrema-direita. Afinal, torna-se muito mais fácil culpar os pobres e aqueles que foram alienados do melhor da festa do que abandonar o receituário econômico e político que continua dando vida ao monstro.

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