Extremos climáticos avançam sobre uma Amazônia que os mapas de risco ainda não enxergavam

Estudo publicado na Communications Earth & Environment mostra que o aquecimento extremo cresce muito mais rapidamente do que as temperaturas médias e identifica uma nova região crítica no centro-norte da Amazônia

Um estudo publicado na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, mostra que as mudanças climáticas na Amazônia são mais rápidas e territorialmente complexas do que indicam as médias anuais. O artigo “Rapid increase of climate extremes reveals new areas of concern in Amazonia” foi produzido por uma ampla equipe internacional e multidisciplinar. Jos Barlow, Nathália S. Carvalho e Cássio Alencar Nunes contribuíram igualmente e lideraram a redação, com a participação de dezenas de pesquisadores vinculados a instituições como INPE, IPAM, INPA, Embrapa, Museu Paraense Emílio Goeldi, Unicamp, UFAM, UFMT, Oxford, Lancaster, Exeter, Yale e NASA.

O principal mérito do trabalho está em deslocar o olhar das médias climáticas para os extremos, justamente as condições que produzem os efeitos sociais e ecológicos mais graves. A equipe analisou aproximadamente 7 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, divididos em cerca de 57,9 mil células com resolução de 11 quilômetros, utilizando dados de temperatura, precipitação, déficit de pressão de vapor e déficit hídrico acumulado entre 1981 e 2023. Os pesquisadores também consideraram as variações regionais do ano hidrológico e da duração dos períodos secos e úmidos.

Os resultados são alarmantes. Enquanto a temperatura média anual aumentou cerca de 0,21 °C por década, as temperaturas máximas extremas durante o período mais seco cresceram 0,49 °C por década. Isso representa aproximadamente 2,11 °C em 43 anos e uma velocidade de aquecimento mais de duas vezes superior àquela revelada pela tendência média anual.

O achado mais preocupante é territorial. A Amazônia meridional continua aparecendo como a região que mais aquece quando se observam as médias, sobretudo por causa do desmatamento e da degradação florestal. Entretanto, a análise dos extremos revelou uma extensa área crítica no centro-norte da Amazônia, até agora pouco destacada nos mapas de risco. Mais de 700 mil quilômetros quadrados registraram aumentos iguais ou superiores a 0,75 °C por década nas temperaturas máximas extremas da estação seca, o equivalente a mais de 3,2 °C durante o período analisado.

Essa região abriga florestas conservadas, savanas nativas, unidades de conservação e importantes territórios indígenas, incluindo áreas dos povos Yanomami e Waimiri-Atroari. Os efeitos dos extremos climáticos já aparecem na mortalidade de mamíferos, na redução de populações de aves, nas alterações das comunidades de peixes, na retração das superfícies aquáticas, nos incêndios em Roraima e nas florestas inundáveis do Rio Negro, além do agravamento da poluição atmosférica e das internações hospitalares em Manaus.

Outro resultado relevante é que o aumento do estresse hídrico está associado principalmente à elevação da temperatura, e não a uma redução generalizada das chuvas. Temperaturas maiores ampliam a demanda evaporativa da atmosfera e podem intensificar a perda de água pelo solo e pela vegetação. Assim, a floresta pode enfrentar condições progressivamente mais secas e inflamáveis mesmo sem uma diminuição proporcional da precipitação.

A equipe reconhece incertezas relacionadas às estimativas de evapotranspiração e às diferenças entre os bancos de dados de chuva. Entretanto, a retirada do episódio extremo de 2023-2024 reduziu a magnitude de algumas tendências sem alterar o padrão espacial principal. O centro-norte continuou concentrando os maiores aumentos das temperaturas extremas e do déficit hídrico, indicando uma transformação acumulada ao longo de mais de quatro décadas.

À luz do conceito de violência lenta elaborado por Rob Nixon, o estudo mostra como a crise climática se acumula em alterações graduais da temperatura, da umidade, da disponibilidade de água, da saúde humana e da sobrevivência das espécies. Os seus efeitos tornam-se visíveis em incêndios, secas e mortandades, mas suas causas permanecem dispersas no tempo e frequentemente distantes das populações atingidas.

A separação entre as principais frentes de desmatamento e a nova área de extremos climáticos também impede que a crise seja atribuída apenas a fatores locais. O desmatamento regional agrava o problema, mas as emissões globais têm papel decisivo. Os países ricos e grandes emissores históricos carregam, portanto, responsabilidade direta pela alteração das condições climáticas de territórios amazônicos que pouco contribuíram para produzi-la.

O artigo deixa uma advertência incontornável: olhar apenas para médias climáticas e mapas tradicionais de desmatamento significa enxergar uma parte cada vez menor do problema. Os extremos avançam mais rapidamente, alcançam territórios antes considerados menos ameaçados e produzem uma nova geografia do risco amazônico. Enquanto o debate público espera o desastre se tornar visível, a violência climática lenta continua preparando as condições para que ele aconteça.

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