Kássio Nunes Marques voltou a suspender o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, agora invocando, entre outros fundamentos, a ausência de comunicação formal de seu endereço à Justiça Eleitoral. A decisão sucede um relatório técnico que não encontrou os conteúdos denunciados no período examinado, embora tenha identificado lacunas decorrentes de mensagens apagadas ou editadas. Isso não equivale a uma absolvição de toda publicação, mas tampouco autoriza transformar suspeitas em comprovação de uma estrutura de desinformação.
O problema político é imediato: interromper um canal com milhões de seguidores na reta final do segundo turno reduz a capacidade de circulação de informações e de mobilização em favor de Lula. Sem precisar atribuir ao ministro uma intenção que não podemos demonstrar, é possível reconhecer que o efeito favorece seu adversário. Uma exigência administrativa pode ser corrigida; o tempo eleitoral perdido não pode ser devolvido. Cabe cobrar a proporcionalidade da medida e a aplicação dos mesmos critérios a todas as candidaturas.
Esse episódio reforça a necessidade de aprofundar a conexão entre redes e ruas. Uma campanha dependente de plataformas privadas e de canais sujeitos a interrupções permanece vulnerável justamente quando mais precisa alcançar a população. A comunicação digital precisa alimentar conversas presenciais, debates públicos e organização coletiva, enquanto a experiência das ruas deve fornecer conteúdo e perguntas às redes. Defender a liberdade de comunicação também significa construir meios de exercê-la para além da autorização de uma empresa ou de uma decisão individual.
E há matéria concreta para esse debate, começando pelo pagamento por horas trabalhadas defendido por Flávio Bolsonaro e sua base política. Conforme reportagem de Carlos Juliano Barros, no UOL, a proposta de Rogério Marinho prevê direitos proporcionais, mas especialistas alertam para a ausência de garantia de renda mensal e para dúvidas sobre o descanso semanal remunerado. O risco é transferir ao trabalhador a oscilação da demanda empresarial: menos horas oferecidas podem significar menos salário, mesmo quando suas despesas permanecem intactas.
Não é necessário inventar o fim automático das férias ou do 13º para expor a gravidade desse projeto. Basta perguntar quem decidirá quantas horas serão contratadas e quem suportará os períodos de menor movimento. O aluguel não diminui porque o patrão ofereceu menos trabalho; a alimentação dos filhos também não pode esperar a próxima convocação. A suposta liberdade de negociar individualmente ganha outro significado quando uma das partes controla o emprego e a outra precisa dele para sobreviver.
É esse conteúdo que precisa circular, com documentos, exemplos compreensíveis e debate público. A disputa eleitoral não pode ficar aprisionada ao vaivém de liminares enquanto propostas de precarização passam embaladas em slogans. Se Kássio interrompe o canal, a resposta precisa ampliar a presença nas ruas e a circulação de informação verificada. Porque o trabalhador tem o direito de saber, antes de votar, o que acontece quando seu salário vira variável e suas contas continuam fixas.
