Observatório dos Agrotóxicos: governo Bolsonaro bate recorde tóxico com mais 51 aprovações em 2021, totalizando 1.558 venenos liberados em 36 meses

agrotoxico-presidente

Os leitores do Blog do Pedlowski devem ter notado que o ano de 2021 foi bastante ativo nas publicações ligadas ao “Observatório dos Agrotóxicos” que foi criado logo no início de 2019 para documentar a promessa eleitoral (cumprida, é preciso que se diga) de acelerar a liberação de venenos agrícolas para atender a insaciável demanda do latifúndio agro-exportador de commodities.  

Como resultado da política de licenciamento “fast food” adotada pelo governo Bolsonaro, o Brasil se viu inundado por uma verdadeira tsunami de venenos agrícolas, a maioria proveniente de empresas chinesas e europeias, e com um número significativo deles banidos pela União Europeia em função de sua alta periculosidade para o meio ambiente e também para a saúde humana. 

Pois bem, como não podia ser diferente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), comandado pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS), fez publicar hoje (31/12) o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021 que traz a liberação de mais 51 agrotóxicos. Com isso, o governo Bolsonaro quebra o seu próprio recorde tóxico dos seus primeiros dois anos de mandato, alcançando um total de 1.558 agrotóxicos liberados em 36 meses de mandato.

É preciso que se diga que a imensa maioria dos agrotóxicos aprovados se destina para uso em poucas culturas agrícolas, todas elas voltadas para a exportação. No caso da soja e do milho, por exemplo, o objetivo é principalmente alimentar os rebanhos de animais na União Europeia e na China (principal parceiro comercial brasileiro).  Enquanto isso, ficamos imersos em um processo de agravamento da contaminação ambiental e também da população brasileira.

Como ainda não tive tempo para cria a planilha de dados para o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021  (o que impede a atualização da base de dados com todos os agrotóxicos liberados pela dupla Jair Bolsonaro/Teresa Cristina), farei isso nos primeiros dias de 2022.

Mas uma coisa é certa: o combate a um modelo agrícola fortemente dependente de venenos agrícolas e da devastação dos biomas da Amazônia e do Cerrado deverá ser uma prioridade para aqueles que desejam viver em uma sociedade onde o ato de se alimentar não seja uma espécie de suicídio cotidiano. E a construção desse modelo agrícola alternativo de base ecológica só será possível com a derrota desse modelo viciado em venenos mortais e que não tem como prioridade saciar a fome, seja no Brasil ou no resto do mundo.

Analistas -Tributários da Receita Federal de Santa Catarina e Paraná pedem exoneração dos cargos

receita federal

Cerca de 40 Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil dos estados de Santa Catarina e Paraná pediram exoneração dos cargos que ocupam em comissão e funções de chefia nas Agências, Delegacias e Equipes Regionais da 9ª Região Fiscal na tarde desta terça-feira (28). Em documento enviado à Superintendência da Receita Federal na 9ª Região Fiscal, eles solicitaram a exoneração como parte do movimento nacional pela valorização do órgão, após aprovação do orçamento de 2022 pelo Congresso Nacional que confirmou um corte de R$ 1,182 bilhão da Receita Federal.

Existe temor acerca dos impactos provocados pelo corte na verba da Receita Federal no próximo ano. Isso pode ter um grande impacto inclusive no sistema de segurança da infraestrutura tecnológica. O grande risco é a fragilização da segurança da base de dados, facilitando até mesmo a invasão por hackers, gerando um prejuízo inestimável. Trata-se da base mais confiável e mais utilizada no meio da administração pública.

O pedido de exoneração coletivo vem se somar às diversas ações de mesma natureza que estão ocorrendo nas demais regiões fiscais da Receita Federal do Brasil em todo país e visa fortalecer e valorizar os Analistas-Tributários e Auditores-Fiscais que, cientes de suas responsabilidades e da complexidade de suas atribuições, exigem o devido prestígio institucional para com a Receita Federal.

Os Analistas-Tributários exigem ainda a regulamentação do Bônus de Eficiência e Produtividade na Atividade Tributária e Aduaneira, criado através de medida provisória em 2016 e convertido na Lei 13.464/2017, e que, apesar de um acordo assinado há quase seis anos, nunca foi regulamentado. Sindicato Nacional dos Analistas-Tributários da Receita Federal do Brasil – Sindireceita Conselho Estadual de Delegacias Sindicais do Sindireceita em SC – CEDS-SC

A destruição do cerrado alimenta e potencializa as catástrofes climáticas no Matopiba

Área plantada do Matopiba alcançará 8,9 milhões de hectares até 2030

Um dos principais pontos de expansão do agronegócio exportador é a chamada região do Matopiba que é formada por porções territoriais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. É no Matopiba que grandes grupos empresariais têm aumentado exponencialmente os plantios extensivos da monocultura da soja, normalmente às custas do bioma Cerrado. Com esse avanço desenfreado (que é explicitamente apoiado pelos respectivos governos estaduais sob as benções do governo de Jair Bolsonaro), temos a exposição de grandes áreas outrora ocupados pelo Cerrado que assim tornam mais passíveis de serem impactadas pela erosão de seus solos. Um efeito secundário é o aumento do assoreamento de rios, além da perda da capacidade recarga de aquíferos, coisa que era garantida pela presença do Cerrado.

matopiba destruiçãoA região conhecida como Matopiba engloba áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. (© Marizilda Cruppe / Greenpeace) © Marizilda Cruppe / Greenpeace

Se somarmos a esse avanço da sojicultura em áreas de alto valor ecológico os impactos que acompanham as mudanças climáticas em curso na Terra, que tornam cada vez mais comuns a ocorrência de eventos meteorológicos extremos que causam altos volumes de precipitação em poucos espaços de tempo, veremos que as situações catastróficas que estão ocorrendo na Bahia, Tocantins e Piauí não têm nada de naturais.  O que estamos presenciando é uma combinação particularmente drástica entre eventos climáticos extremos e a consolidação de um modelo agrícola predatório que empurra os mais pobres para áreas periféricas normalmente desprovidas de infraestrutura urbana.

O interessante é que a cobertura dada pela mídia corporativa brasileira sobre a onda de destruição em curso em cidades localizadas sob a influência direta (ou indireta) da sojicultura  do Matopiba passa ao largo dessas conexões, optando pelo oferecimento de uma narrativa catastrofista na qual apenas a questão das mudanças climáticas é vagamente mencionada.

O fato é que a recorrência de situações climáticas extremas será o “novo normal” das próximas décadas, o que deveria estar obrigando a tomada de decisões em prol de políticas de conservação ambiental que protegessem os biomas amazônico e do Cerrado, bem como a adoção de politicas de reorganização das cidades.  Com isso, haveria alguma chance de que pudéssemos alcançar algum nível de preparação para evitar os mesmos tipos de cenas apocalípticas que estamos vendo nesse momento, especialmente na Bahia.

Lamentavelmente, o que tem se visto caminho no sentido ao contrário ao que precisamos. Com o forte controle da agenda político-econômica do governo Bolsonaro pela chamada bancada ruralista, e com a submissão de governos estaduais ditos de esquerda aos interesses do latifúndio agro-exportador, há pouca perspectiva de que tenhamos mudanças significativas em prol da adoção de um modelo agrícola de base agroecológica. 

Empresas correm para conter a inundação de fibras microplásticas nos oceanos

Novos produtos vão desde filtros e bolas para máquinas de lavar até tecidos feitos de algas e cascas de laranja

microplastico

Cerca de 700.000 fibras microplásticas são eliminadas de tecidos sintéticos durante cada ciclo de lavagem em uma máquina de lavar padrão. Fotografia: a-ts / Alamy

Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

De filtros a sacos e bolas, o número de produtos destinados a impedir a torrente de fibras microplásticas que saem das máquinas de lavar e para os rios e oceanos está aumentando rapidamente.

A Grundig tornou-se recentemente o primeiro fabricante de eletrodomésticos a integrar um filtro de microfibra em uma máquina de lavar, enquanto uma empresa britânica desenvolveu um sistema que elimina os filtros de retenção de fibra descartáveis.

Os empresários também estão enfrentando o problema na origem, desenvolvendo tecidos biodegradáveis ​​de algas e cascas de laranja e aprimorando uma proteína autocurativa descoberta originalmente nos tentáculos das lulas.

A poluição microplástica permeou todo o planeta, desde ocume do Monte Everest até os oceanos mais profundos. Sabe-se que as pessoas consomem as partículas minúsculas por meio de alimentos eágua , além de respirá-las . Foi demonstrado que osmicroplásticos prejudicam a vida selvagem, mas o impacto nas pessoas não é conhecido, embora os microplásticos danifiquem células humanasem laboratório.

As fibras de tecidos sintéticos, como acrílico e poliéster, são desprendidas em grande quantidade durante a lavagemcerca de 700.000 por ciclo de lavagem , sendo que o ciclo de lavagem “delicado”é pior do que os ciclos convencionais. Estima-se que 68 milhões de cargas de lavagem sejam feitas todas as semanas no Reino Unido.

Novos dados de 36 locais coletados durante a The Ocean Race Europe descobriram que 86% dos microplásticos nas amostras de água do mar eram fibras. “Nossos dados mostram claramente que os microplásticos estão presentes no oceano e que, surpreendentemente, o componente principal são as microfibras”, disse Aaron Beck, do Geomar Helmholtz Center for Ocean Research em Kiel, Alemanha.

A Grundig, que lançou sua máquina de lavar de captura de fibra em novembro, disse que o sistema capturou até 90% das fibras sintéticas liberadas durante os ciclos de lavagem. Os cartuchos de filtro são feitos de plástico reciclado e duram até seis meses, após os quais podem ser devolvidos gratuitamente.


Gelo marinho ártico
A poluição microplástica é um flagelo crescente no Ártico, bem como nos rios e oceanos em todo o mundo. Fotografia: Stefan Hendricks / Alfred-Wegener-Institut / PA

Um sistema que pode ser adaptado às máquinas de lavar existentes e não precisa de cartuchos de substituição foi criado pela empresa britânica Matter e recebeu recentemente £150.000 do British Design Fund. O aparelho, denominado Gulp , é conectado entre o tubo de saída e o ralo e prende as fibras em um recipiente que é esvaziado a cada 20 lavagens.

O fundador da empresa, Adam Root, ex-engenheiro da Dyson e grande mergulhador, disse que a ideia começou com uma doação de £ 250 do Prince’s Trust. “Usei-o para desmontar uma máquina de lavar e foi aí que tive o meu momento ‘eureca’.”

No Reino Unido, Alberto Costa e outros parlamentares estão fazendo campanha por um novo regulamento exigindo que todas as novas máquinas de lavarsejam equipadas com filtros de microfibra de plástico a partir de 2025, com o apoio do Women’s Institutee outros. A França introduziu a exigência de instalação de filtros a partir de 2025. A UE, a Austrália e a Califórnia estão considerando regras semelhantes.

Já existe uma gama de dispositivos de captura de microfibra no mercado, mas eles produziram um desempenho misto em testes independentes. Uma pesquisa da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, examinou seis produtos diferentes .

Um se destacou, o Xfiltra , que evitou que 78% das microfibras fossem pelo ralo. A empresa está focada em fornecer tecnologia aos fabricantes para integração em máquinas de lavar. Os cientistas testaram dois outros dispositivos que podem ser adaptados às máquinas – os sistemas de filtro Lint LUV-R e Planet Care– mas eles prendem apenas 25% e 29% das fibras, respectivamente.

Os outros três produtos testados foram utilizados no tambor da máquina de lavar. A sacola delavagemGuppyfriend, na qual as roupas são colocadas, coletou 54% das microfibras, enquanto uma sacola de lavagem protótipo do Quarto Elemento reteve apenas 21% das fibras. O último produto testado foi uma única bola Cora, cujos caules capturaram 31% das fibras, embora mais de uma bola pudesse ser usada.

Um relatório anterior da Agência Sueca de Proteção Ambientalencontrou desempenhos significativamente melhores dos produtos Planet Care e Guppyfriend, embora não tenha sido revisado por pares.

O professor Richard Thompson, que trabalha na Universidade de Plymouth e fazia parte da equipe de testes, alertou que os filtros não resolveriam sozinhos o problema das microfibras de plástico. “Também mostramos que cerca de 50% de todas as emissões de fibras ocorrem enquanto as pessoas vestem as roupas”, disse ele ao Guardian. “Além disso, a maioria da população humana não tem máquina de lavar.

“Tal como acontece com quase todos os problemas atuais associados ao plástico [poluição], o problema é mais bem resolvido por uma consideração mais abrangente na fase de design”, disse ele. “Precisamos projetá-los para minimizar a taxa de emissão, o que também deve fazer com que as roupas durem mais e, portanto, sejam mais sustentáveis.”

Uma dúzia de grupos que trabalham em tecidos melhores foram recentemente selecionados como finalistas em um desafio de inovação em microfibra de  US$ 650.000 (£ 482.000) conduzido pela Conservation X Labs. A AlgiKnit está criando fios biodegradáveis ​​a partir de algas marinhas, enquanto a Orange Fiber, no sul da Itália, está fazendo tecidos a partir de subprodutos da produção de sucos cítricos.

Outro finalista, a Squitex , desenvolveu uma proteína originalmente encontrada nos tentáculos da lula. A empresa afirma que é o material de autocura mais rápido do mundo e pode ser transformado em fibras para têxteis e revestimentos que reduzem o derramamento de microfibras.

Outros finalistas estão adotando uma abordagem diferente. A Nanoloom está criando tecidos anti-queda usando grafeno e outro grupo está usando lasers de alta potência para tratar a superfície dos tecidos para diminuir a probabilidade de perda de fibras.

O algodão, por ser um material natural, é biodegradável, mas sua produção costuma envolver o uso excessivo de água e agrotóxicos. A Better Cotton Initiative , que cobre mais de 20% da produção global de algodão, anunciou recentemente uma meta de redução das emissões de carbono por tonelada de algodão em 50% até 2030, em comparação com 2017. Outras metas adicionais abrangem o uso de pesticidas, saúde do solo e meios de subsistência de pequenos proprietários e o empoderamento das mulheres é esperado até o final de 2022.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A fome no Brasil: “A situação é mais tensa nas cidades”

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra luta contra as injustiças sociais. Uma conversa com Paulo Mansan

mst jwApoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcham com militantes dos sem-terra (Brasília, 14.8.2018)

A injustiça social é muito pronunciada em Pernambuco e nos estados vizinhos do Nordeste do Brasil. Nos últimos meses, a fome se alastrou devido às condições de pandemia e uma crise econômica. O Movimento dos Trabalhadores do Solo, MST, já distribuiu 890 toneladas de alimentos e 750 mil porções em seu estado. Como isso aconteceu?

Já em 2020, era previsível que a situação social no Brasil e especialmente no Nordeste se agravasse. A situação é mais tensa nas cidades do que no campo e por isso nós, como movimento com foco no campo, decidimos expandir nossas atividades na cidade. Junto com sindicatos, universidades e outros movimentos sociais, organizações e, principalmente, centenas de militantes de esquerda de nosso meio, iniciamos a campanha “Mãos da Solidariedade”. Agrupamos todos esses atores com nossa base, nossos assentamentos e ocupações no campo e, assim, criamos a base para esta campanha de solidariedade sem precedentes. Cada um de nossos assentamentos fornece gratuitamente alimentos colhidos em trabalho voluntário, em torno de 40 toneladas por mês.

Essa solidariedade é importante, mas como o seu trabalho difere de outras iniciativas em que pacotes de ajuda são distribuídos de caminhões para quem precisa?

Durante a pandemia, montamos uma rede de “bancos de alimentos” na capital Recife. Estas foram implementadas por “profissionais de saúde” voluntários. Esses “agentes” são inspirados em como trabalham em Cuba e foram treinados por nós para fornecer uma educação básica sobre a pandemia de Covid-19, especialmente nas favelas. A distribuição da comida é organizada através destes “bancos populares”, a das refeições através das “cozinhas populares solidárias” que instalamos. Isso cria uma conexão orgânica com os residentes, o que também permite um trabalho político conjunto.

Qual a conexão entre os atores da cidade e do campo, o MST está mudando atualmente seu caráter para se tornar uma organização urbana?

Tradicionalmente temos uma boa posição na população da capital pernambucana. Os “Amigos do MST” são muito ativos na capital Recife. Muitas das pessoas ativas que agora vivem em nossos assentamentos vêm originalmente das favelas das cidades. Para realizar as transformações políticas e sociais necessárias no Brasil, é necessária uma forte movimentação nas cidades. Mas isso não muda o fato de sermos essencialmente um movimento camponês, cujas principais preocupações são a produção de alimentos saudáveis ​​e baratos para a população pobre e a implementação da reforma agrícola há muito esperada no Brasil.

Haverá eleições presidenciais no Brasil em outubro de 2022. Qual a posição do MST sobre isso?

Não somos neutros porque o atual governo do fascista Jair Bolsonaro é diametralmente oposto aos nossos planos. Em 2022, portanto, é nossa tarefa conjunta lutar por um governo Lula. Jair Bolsonaro e seus aliados mais reacionários, mas também a grande mídia, gastam muita energia nos difamando. A campanha de solidariedade agora nos dá a oportunidade de reposicionar o MST. Isso é particularmente evidente quando se trata da questão da produção de alimentos saudáveis, porque o governo Bolsonaro significa produção tóxica. Somente em 2021, o uso de mais de 440 agrotóxicos foi aprovado no Brasil, incluindo muitos que são proibidos na Europa. Em nossa produção, por outro lado, contamos com a agroecologia. E porque nossa abordagem não é de caridade, mas de solidariedade viva,

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Chuvas extremas causando destruição e morte na Bahia e na Alemanha, o novo normal (anormal) das mudanças climáticas

Em julho de 2021, partes da Alemanha (primeira economia da Europa) foram arrasadas por eventos meteorológicos extremos que causaram inundações catastróficas que destruíram áreas urbanas e agrícolas, causando prejuízos bilionários e dezenas de mortes. Agora, no estertores de um ano já difícil para os brasileiros, o sul do estado da Bahia está vivenciando problemas altamente parecidos com o que a Alemanha vivenciou há cinco meses, mas com um número de mortos e desabrigados bem maior, ainda que o fenômeno esteja circunscrito em uma região relativamente menor (até agora são 20 mortos e 470 mil desalojados).

Aqui temos o encontro de semelhanças e diferenças, pois as chuvas extremas e concentradas no tempo são algo que já foi associado aos novos padrões climáticos causados pelo aquecimento global do planeta. Mas a diferença nos níveis de organização e agilidade das respostas tem a ver com o desmantelamento e o desfinanciamento da máquina pública, o que vem ocorrendo em nome da sustentação do pagamento de uma dívida pública bilionária, e, obviamente, nunca devidamente auditada.

Para piorar o cenário temos um presidente da república que decidiu tirar férias custeadas pelo tesouro federal, e que se omite (mais uma vez) de agir como o líder de estado que eventos extremos requerem. O mais lamentável é que em vez de se preocupar em liderar a resposta federal á catástrofe em curso na Bahia, o presidente Jair Bolsonaro continua se concentrando em espalhar fake news e se colocar como uma barreira para o processo de vacinação contra a COVID-19.

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Enquanto o presidente Jair Bolsonaro goza férias pescando em Santa Catarina, a população do sul da Bahia tente escapar das inundações causadas por chuvas extremas

O fato inescapável é que as mudanças climáticas estão aqui para ficar e eventos como os vistos na Alemanha e agora na Bahia se tornarão o famoso “novo normal”, o que implica em que nos preparemos para a repetição desse tipo de catástrofe causada por eventos meteorológicos extremos. É que se não houver a devida preparação em diferentes escalas espaciais, o que teremos será uma espécie de “ripple effect” (ou efeito cascata) que ampliará a magnitude dos danos, já que os sistemas naturais são feitos de interligações que tendem a exponencializar os impactos de eventos extremos.

Desta forma, se não houver uma mudança radical nas formas de gerir a cidades e os sistemas naturais onde elas estão inseridas (ou sobrepostas), o mais provável é que tenhamos mais repetições de inundações que causarão mais destruição e morte.  E aproveito para apontar que não se trata de um chute aleatório, mas uma informação baseada em incontáveis estudos realizados sobre o impacto das mudanças climáticas sobre as cidades (aliás, sugiro a leitura da dissertação defendida pelo meu orientando André Vasconcellos que fez um estudo sobre o grau de preparação da cidade de Campos dos Goytacazes para a época de mudanças que estamos vivendo).

Retrospectiva ambiental 2021 e perspectivas para 2022

Pesquisadores e profissionais do meio ambiente fazem um balanço deste ano na área ambiental e projetam o que deve mover o Brasil e o mundo no próximo ano

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Por um lado, desmatamento, enchentes, seca histórica, incêndios, degradação dos biomas, ameaças aos territórios de povos tradicionais e alertas de cientistas sobre a emergência climática. Por outro, acordos entre países para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, mais consciência e boas práticas entre as empresas e vozes ativas na sociedade civil mostrando a necessidade de mudanças profundas no modelo de desenvolvimento. O ano de 2021 termina com grandes desafios no campo ambiental para o Brasil e o mundo. Especialistas projetam um 2022 com obstáculos consideráveis, mas também com uma pitada de esperança para o Brasil, diante das eleições e de perspectivas de avanços em assuntos relevantes para a sustentabilidade do planeta.

“Foi um ano muito difícil para o meio ambiente e a biodiversidade brasileira, com grande expansão do desmatamento, especialmente na Amazônia, muita queimada no Cerrado, muita grilagem de terras públicas com retirada ilegal de madeira e ouro. Em Brasília, as bancadas do governo e dos lobbies do atraso aprovaram no Congresso Nacional vários projetos de lei contrários ao meio ambiente, sem levar em conta o agravamento da crise hídrica e do aquecimento global. Graças ao Poder Judiciário, que tem atuado à luz da Constituição Federal, o estrago não foi maior”, analisa Braulio Dias, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor da Universidade de Brasília (UnB). Ele e outros especialistas fizeram um balanço dos eventos mais marcantes da área ambiental em 2021 e traçaram algumas perspectivas para 2022. Veja a seguir:

Desmatamento na Amazônia

O ano foi marcado pela divulgação de novos recordes de desmatamento na Amazônia. De acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira teve aumento de 21,97% em um ano. No período da análise consolidada, que vai de agosto de 2020 a julho de 2021, a área desmatada foi de 13.235 quilômetros quadrados, a maior taxa registrada nos últimos 15 anos. O Governo Federal, que vem sofrendo forte pressão interna e externa para proteger a Amazônia, assumiu compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2028, mas foi fortemente criticado por atrasar a divulgação das informações do Inpe de forma proposital antes da COP26. “Neste tema da Amazônia, a credibilidade internacional do Brasil continuou a despencar em 2021. A decisão do governo de esconder os dados de desmatamento durante a COP26 foi a gota d’água”, frisa Braulio Dias.

Natureza e terras indígenas ameaçadas

Especialistas e pesquisadores identificaram diversos projetos de lei, decretos e Propostas de Emendas à Constituição (PEC) danosos ao meio ambiente ao longo do ano. Muitas dessas medidas avançaram e foram aprovadas no Congresso Nacional com rapidez inédita. Dentre os retrocessos estão a PEC 191/2020, que prevê a abertura de terras indígenas para mineração, hidrelétricas e agronegócio; as “leis de grilagem” (PL 2633/2020 e PLS 510/2021); e a “lei geral de licenciamento ambiental” (PL 3729/2004). “Há também as invasões de garimpeiros em terras indígenas, especialmente nas áreas Yanomami e Munduruku, com grandes consequências ambientais, além de humanas. As recentes liberações para a mineração sinalizam aberturas maiores”, pontua Philip Fearnside, também membro da RECN e do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O pesquisador também menciona o avanço da aprovação da pavimentação da BR-319, entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO). “É um dos eventos com maiores impactos no futuro na Amazônia”, salienta Fearnside.

Margens de rios em risco, população insegura

O Congresso Nacional aprovou em dezembro um projeto de lei que transfere da União para os municípios a competência para definir as regras de proteção às margens de rios, lagos, lagoas e demais cursos d’água de cidades brasileiras. O texto altera o Código Florestal e pode permitir a realização de intervenções e obras, além de facilitar a regularização de construções irregulares em Áreas de Preservação Permanente (APP). “Essas áreas devem ser conservadas, pois contribuem para a proteção da biodiversidade, ajudam a regular o microclima, protegem recursos hídricos e também oferecem bem-estar para as populações. Não faz sentido flexibilizar a legislação, gerando incertezas sobre as APPs e colocando a população em risco”, alerta André Ferretti, membro da RECN e gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário.

Seca histórica no Brasil

O Brasil iniciou o período de seca na região Centro-Sul, em maio, com o menor volume de chuvas registrado nos reservatórios em 91 anos. A escassez ligou um alerta geral nas autoridades sobre os riscos de um novo “apagão” no Brasil, exigindo medidas “excepcionais” para garantir o fornecimento de energia elétrica, sobretudo com o aumento do uso das usinas termelétricas. De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, que representam 70% da capacidade de armazenamento do País, finalizaram o mês de abril com nível médio de armazenamento de 34,7%. As chuvas nos reservatórios que asseguram o abastecimento de água nas metrópoles também tiveram menor intensidade no verão passado. No Sistema Cantareira, por exemplo, que abastece municípios da Grande São Paulo, o volume de chuvas no primeiro trimestre do ano foi o mais baixo desde o final da grave crise hídrica de 2016, que obrigou a região a utilizar o “volume morto” dos reservatórios.

Alerta vermelho sobre o aquecimento global

Em agosto, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas publicou seu aguardado relatório, apontando a “inequívoca” responsabilidade humana no aquecimento do planeta. Considerado o mais contundente estudo sobre o tema em três décadas, o trabalho dos cientistas demonstra que as atividades humanas são responsáveis por 98%, ou seja 1,07oC do total de 1,09oC que o planeta já aqueceu desde a Revolução Industrial. O IPCC também explica que o limite estabelecido no Acordo de Paris – 1,5oC de aquecimento em relação à era pré-industrial –, provavelmente será excedido nos próximos 20 anos. Somente uma redução drástica nas emissões de gases de efeito estufa poderá fazer a temperatura média da Terra se manter dentro da meta até o final do século.

Fenômenos climáticos extremos pelo mundo

Em junho, mais de 200 pessoas, a maioria idosas, tiveram morte súbita no Canadá por causa de uma onda de calor com temperaturas que chegaram a 50 graus Celsius. Mais de 170 mortes e prejuízos de cerca de 2 bilhões de euros foram provocados por enchentes no Oeste da Alemanha, em julho. No mês seguinte, o calor intenso provocou incêndios florestais devastadores no Mediterrâneo, atingindo regiões da Turquia e, principalmente, Itália e Grécia. Enchentes históricas foram registradas na China em julho e outubro, gerando destruição, deixando milhares de pessoas desabrigadas e provocando mais de 300 mortes, além dos prejuízos materiais. No Brasil, mais de 50 cidades baianas decretaram situação de emergência em dezembro por causa de fortes chuvas, que provocaram a morte de 10 pessoas, deixaram centenas de feridos, mais de 6 mil desabrigados. No mesmo período, no Norte de Minas Gerais, as enchentes foram responsáveis por cinco mortes e cerca de 2 mil desabrigados. “A realidade confirma o que a ciência vem dizendo há muito tempo: os fenômenos estão ocorrendo com mais frequência, mais intensidade e, por vezes, fora de um período esperado. No caso dos tornados no Brasil, o mais assustador é que percorreram áreas muito maiores que o comum, chegando a 350 quilômetros de extensão”, salienta Carlos Rittl, também membro da RECN, especialista em políticas públicas da Rainforest Foundation da Noruega e ex-secretário executivo do Observatório do Clima.

COP 26 – A aguardada Conferência do Clima da ONU

Sem condições de ser realizada em 2020 por causa da pandemia, a 26ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP26) ocorreu em Glasgow, na Escócia, em novembro. Cercada de grande expectativa, a reunião teve importantes anúncios de metas voluntárias dos países para “descarbonizar” a economia, mas também decepções. O Brasil comprometeu-se a zerar o desmatamento ilegal até 2028 e assinou acordo, junto com outros 100 países, para reduzir em 30% a emissão do gás metano até 2030. Muitas definições, no entanto, serão tratadas apenas na COP27, em 2022. O Brasil contou com a segunda maior delegação na conferência de Glasgow, atrás apenas do Reino Unido. Além de autoridades, líderes empresariais e celebridades presentes, também houve destaque para a participação de movimentos sociais e lideranças indígenas. A jovem ativista brasileira Txai Suruí, de 24 anos, foi a primeira indígena a discursar na abertura de uma conferência sobre clima.

COP15 – a Conferência da biodiversidade

A primeira parte da 15ª Conferência das Partes sobre a Biodiversidade das Nações Unidas, a COP15, foi realizada de forma virtual de 11 a 15 de outubro. As negociações presenciais em Kunming, na China, serão realizadas em abril de 2022. Como principal resultado do evento, mais de 100 países assinaram a Declaração de Kunming, comprometendo-se a criar um novo pacto global para proteção da biodiversidade. A criação de um fundo internacional para conservação ambiental, com uma dotação inicial de US$ 233 milhões do governo da China, foi outro resultado do evento.

Início da Década do Oceano

Entre as boas notícias ambientais do ano está o início da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. A Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu que entre 2021 e 2030 todos os países unam esforços para a geração e divulgação de conhecimento sobre o oceano. A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que é uma das instituições da sociedade civil representantes da Década do Oceano no Brasil, promoveu uma jornada de cocriação de soluções para o mar e as regiões costeiras. O Camp Oceano selecionou 19 propostas de todo o país para serem colocadas em prática a partir de 2022, totalizando R$ 3,7 milhões em apoio. Além disso, o primeiro Edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental ofereceu cinco bolsas para a produção de reportagens sobre a temática, que foram publicadas em veículos de comunicação de diferentes regiões do país, em variados formatos e plataformas.

Mudança no Ministério do Meio Ambiente

Em junho, o ministro Ricardo Salles foi exonerado do Ministério do Meio Ambiente, dando lugar a Joaquim Leite, que já ocupava uma secretaria do órgão. O ex-ministro foi alvo de operação da Polícia Federal, em maio, que resultou também no afastamento da cúpula do Ibama, por suspeita de facilitar o contrabando de madeira. A troca no comando foi recebida com um misto de alívio e baixas expectativas por ambientalistas. Salles ficou marcado por uma polêmica declaração em reunião ministerial em 2020, quando disse que a pandemia seria a oportunidade para modificar normas que seriam questionadas na Justiça, aproveitando o foco da mídia na Covid-19 para “passar a boiada” em regramentos. Com perfil mais discreto, a gestão de Leite segue a mesma linha de Salles.

Sai Trump, entra Biden

Na política internacional, o ano começou com uma grande novidade: a posse de Joe Biden, no dia 20 de janeiro, como presidente dos Estados Unidos. Com um discurso ambiental bem ensaiado, mencionando a crise do clima entre as suas prioridades, o novo mandatário recolocou os EUA no Acordo de Paris e apresentou a meta de reduzir em 50% as emissões do País até 2030, com um pacote trilionário de recuperação verde. Em abril, Biden promoveu uma cúpula de líderes mundiais sobre o clima em preparação para a COP26. Ao longo do ano, no entanto, contradições internas foram aparecendo. Impasses com senadores, inclusive do Partido Democrata, sobre incentivos à retomada verde e ao pacote de estímulo à energia limpa travaram a pauta ambiental nos Estados Unidos. O ano chega ao fim com uma série de dificuldades do novo governo em relação às negociações com o Congresso.

Perspectivas para 2022

Eleições no Brasil

Com mais espaço na agenda pública, pressões e interesses conflitantes internos e externos, especialistas acreditam que a pauta ambiental deve marcar presença nas campanhas de candidatos nas eleições gerais do Brasil em 2022. Além de escolher o presidente da República e os governadores, o pleito também definirá as bancadas da Câmara dos Deputados, a renovação de um terço do Senado – 27 cadeiras – e os representantes para as Assembleias Legislativas Estaduais e Câmara Distrital, no Distrito Federal. “O ano promete ser muito difícil na área política. Resta a esperança de termos alguns bons candidatos para as eleições e termos a felicidade de poder eleger governantes e legisladores competentes e comprometidos com os interesses da sociedade brasileira”, destaca Braulio Dias.

Olhos atentos à Amazônia

A política ambiental para proteger a Amazônia deve seguir atraindo a atenção da opinião pública tanto no Brasil quanto no exterior. Os relatórios periódicos de órgãos que acompanham de perto o bioma e a delicada situação das terras indígenas seguirão sob o foco da imprensa e das entidades dedicadas à causa ambiental. Caso a agenda do governo seja mantida, são esperadas pressões ao Brasil vindas a partir da perda de investimentos estrangeiros, possibilidade de boicote a produtos nacionais e até sanções comerciais de outros países.

COP27 do Clima, COP15 da Biodiversidade e Rio + 30

Entre os grandes eventos globais do próximo ano estão a COP27 do Clima, que será realizada no Egito, em novembro, com a missão de regulamentar diversos pontos do Acordo de Paris, como o mercado de carbono e outros mecanismos de apoio financeiro a países em desenvolvimento. A segunda parte da COP15 da Biodiversidade será realizada em abril, na China, com a missão de estabelecer diretrizes globais para a proteção das espécies até 2050. Outro evento relevante será o Rio + 30 Cidades, previsto para junho, para discutir o papel das mudanças climáticas mundiais nos grandes centros urbanos.

Fortalecimento da economia verde

O compromisso das empresas na proteção e conservação do meio ambiente deve seguir em alta, numa crescente conscientização sobre os impactos socioambientais de negócios econômicos. Maior fôlego para um mercado global de carbono, boas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) valorizadas pelas corporações, fundos verdes com a adesão de investidores e o fortalecimento de negócios com impacto socioambiental positivo são alguns dos movimentos de mercado que devem trazer o meio ambiente para o centro do mundo corporativo em 2022.

Hegemonia chinesa chega na produção científica e evidencia corrosão da hegemonia dos EUA e o aumento do atraso do Brasil

china eua produçãoChina superou pela primeira vez os EUA na publicação de artigos científicos

Graças ao jornal “Folha de São Paulo”, temos agora mais uma prova de que a hegemonia chinesa se consolida cada vez mais em plano global. É que a partir de um levantamento feito sobre a publicação de artigos científicos, a matéria mostra que a China ficou em primeiro lugar, deixando os EUA em segundo. Além disso, a matéria mostrou que a liderança chinesa se dá a partir de publicações nas áreas de de biologia molecular e a farmacologia, principalmente com pesquisas relacionadas diretamente à COVID-19.  Além disso, a China também está em primeiro lugar em assuntos como astronomia, agricultura, ciências da computação e engenharias.  Essa situação representa um verdadeiro rearranjo na “tectónica de placas” que controlam a dinâmica da ciência mundial.

Segundo os jornalistas Sabine Righetti e Estêvão Gamboa, os dados obtidos da  Plataforma Scimago incluem métricas de mais 20.000 periódicos científicos listados pela base Scopus, sendo artigos do tipo “revisados por pares”, o que reforça a noção de que estes artigos todos não refletem apenas uma dominância quantitativa, mas também qualitativa.

Como alguém que acompanha o debate em torno da dualidade “quantidade versus qualidade”, acrescento ainda que o governo chinês vem adotando medidas para conter a publicação de artigos de baixa qualidade científica e até mesmo o envolvimento de seus pesquisadores com revistas “predatórias”. Em função disso,  o governo chinês vem adotando uma série de sanções contra pesquisadores pegos adotando práticas impróprias, a quais incluem proibições temporárias de solicitação de financiamento ou perda de bolsas e promoções – seguem uma política introduzida em setembro do ano passado com o objetivo de eliminar as fábricas de artigos científicos e lidar com outras condutas impróprias. 

O Brasil no caminho inverso ao da China

Um caminho oposto está sendo adotado no Brasil onde não apenas temos os piores níveis de financiamento em ciência e tecnologia em mais de uma década, mas também a ação livre, leve e solta de revistas predatórias que ajudam um número indeterminado de pesquisadores a terem vantagens indevidas na obtenção de recursos estatais para o custeio de suas pesquisas.

O resultado da adoção desse caminho inverso ao chinês é que estamos perdendo tração na produção científica, seja em termos de quantidade, mas principalmente de qualidade. O resultado dessa perda de tração não deverá se dar no plano imediato, mas principalmente em médio e longo prazo, causando danos consideráveis à capacidade do Brasil de estabelecer novos padrões de competição nas próximas etapas da produção capitalista, as quais vão depender justamente da capacidade de investir e produzir ciência em áreas de ponta, tal qual os chineses estão fazendo neste momento.

O domínio chinês veio para ficar?

Uma pergunta que sempre pode aparecer é se esse sucesso chinês é do tipo “gigante de pés de barro”. A minha impressão é que não, pois o nível de investimento que está em curso dentro de um planejamento de fortalecimento em linha da ciência chinesa é uma garantia de que mesmo removido o peso das publicações de baixa qualidade, a China vai continuar se consolidando como principal potência científica do planeta.

Como ciência será a principal commodity das próximas décadas, a grande possibilidade é que a migração do centro da ciência mundial dos EUA para a China não apenas vá se manter, mas também irá se aprofundar, causando profundos impactos no desenho econômico da economia mundial. 

Já para o Brasil, mantidas a atual situação criada pelo chamado “teto de gastos”, o que nos espera é um aprofundamento do processo de dependência tecnológica e, consequentemente, de atraso em relação às potências científicas globais. Por isso, na campanha presidencial de 2022, a comunidade científica brasileira terá que se organizar para oferecer um conjunto de propostas que nos permitam superar a atual dinâmica que mistura pobreza de financiamento com ação livre de pesquisadores que abraçaram as revistas predatórias para inflar seus números.

A morte de Thomas Lovejoy, um cientista que aprendeu a amar e defender a Amazônia

Thomas-Lovejoy

Conheci Thomas Lovejoy no início de 1991 quando ele foi dar uma palestra na Divisão de Ciências Ambientais do Oak Ridge National Laboratory onde eu acabava de chegar para cumprir um período de intenso aprendizado que me colocou como um pesquisador interessado nos processos dos quais ele foi um dos precursores.  Em uma breve conversa após a conferência em que Lovejoy demonstrou seu profundo conhecimento sobre os processos ecológicos já angariado com seu projeto “Biological Dynamics of Forest Fragments Project (BDFFP; ou Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, PDBFF) que ele havia sido iniciado em 1979. Mas mais do que ciência, Lovejoy emanava um profundo respeito pela Amazônia, sua diversidade biológica e seus povos. Desde então, sempre que lembro de Lovejoy, penso em alguém com profunda capacidade científica, mas que também possuía um forte elegância para compartilhar seu conhecimento, sempre portando uma inconfundível gravata borboleta.

Hoje soube que Thomas Lovejoy falaceu de um câncer fulminante no pâncreas e que nos priva de sua sabedoria enquanto ele tinha 80 anos (mais de 50 deles relacionados com o estudo e a proteção da Amazônia brasileira), certamente com ainda muita contribuição para dar ao avanço da ciência amazônica, e especialmente na defesa da sua diversidade biológica e cultural.

A morte de personagens como Lovejoy não é uma perda apenas para familiares e amigos, mas todos aqueles que se beneficiaram da sua tenacidade científica, e dos esforços que realizou em prol da proteção e da conservação das florestas amazônicas.

Rest in peace Thomas Lovejoy!

América Latina pede que os EUA reduzam as exportações de lixo plástico para a região

Estudo revela que as exportações para a região dobraram em 2020 com a previsão de crescimento da prática, já que os EUA investem em usinas de reciclagem

plastic trashDilúvio de lixo plástico’: os EUA são o maior poluidor de plástico do mundo

Por Joe Parkin Daniels para o “The Guardian”

Organizações ambientais em toda a América Latina pediram aos EUA que reduzissem as exportações de resíduos plásticos para a região, depois que um relatório descobriu que os EUA dobraram as exportações para alguns países da região durante os primeiros sete meses de 2020.

Os Estados Unidos são o maior exportador de lixo plástico do mundo , embora tenham reduzido drasticamente a quantidade total que exporta desde 2015, quando a China – anteriormente o maior importador – disse que “não queria mais ser o depósito de lixo do mundo” e começou a impor restrições. Em outras partes do mundo, as importações estão aumentando, e não menos na América Latina, com sua mão de obra barata e sua proximidade com os EUA.

Mais de 75% das importações da região chegam ao México, que recebeu mais de 32.650 toneladas (29.620 toneladas) de resíduos plásticos dos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2020. El Salvador ficou em segundo lugar, com 4.054 toneladas, e Equador em terceiro, com 3.665 toneladas, de acordo com pesquisa realizada pelo Last Beach Cleanup, um grupo de defesa do meio ambiente com sede na Califórnia.

Embora as importações de resíduos perigosos estejam sujeitas a tarifas e restrições, raramente são aplicadas e os resíduos de plástico destinados à reciclagem – que até janeiro deste ano não eram considerados perigosos pela legislação internacional – que entram nos países importadores podem muitas vezes acabar como aterros, segundo pesquisadores com a Global Alliance for Incinerator Alternatives (Gaia).

Um relatório da Gaia publicado em julho também previu um maior crescimento no setor de resíduos plásticos na América Latina devido a empresas nos EUA e na China investindo em fábricas e usinas de reciclagem em toda a região para processar as exportações de plástico dos EUA.

Alguns veem a prática como uma forma de colonialismo ambiental. “O comércio transfronteiriço de resíduos plásticos é talvez uma das expressões mais nefastas da comercialização de bens comuns e da ocupação colonial de territórios do sul geopolítico para transformá-los em zonas de sacrifício”, disse Fernanda Solíz, diretora da área de saúde do Universidade Simón Bolívar do Equador .

“A América Latina e o Caribe não ficam atrás dos Estados Unidos”, disse Soliz. “Somos territórios soberanos e exigimos o respeito pelos direitos da natureza e dos nossos povos”.

A maioria dos países do mundo concordou em maio de 2019 em conter o fluxo de lixo plástico das nações desenvolvidas do norte global para os mais pobres do sul global. Conhecido como a emenda dos plásticos à Convenção da Basiléia, o acordo proibia a exportação de resíduos plásticos de entidades privadas nos Estados Unidos para países em desenvolvimento sem a permissão dos governos locais.

Mas, criticamente, os Estados Unidos não ratificaram o acordo e foram acusados ​​de continuar a canalizar seus resíduos para países ao redor do mundo, incluindo na África, sudeste da Ásia e América Latina.

“Os governos regionais falham em dois aspectos: o primeiro é a fiscalização na alfândega porque não sabemos realmente o que entra no país sob o pretexto da reciclagem, e também falham em seus compromissos com acordos internacionais como a convenção de Basileia.” disse Camila Aguilera, porta-voz de Gaia. “E aqui é importante ver o que vem sob os tipos de reciclagem, porque a reciclagem é vista como uma coisa boa.”

“Os países do norte global veem a reciclagem como algo para se orgulhar, esquecendo-se de redesenhar os produtos e reduzir o desperdício”, disse Aguilera. “É muito difícil para os governos tratar o plástico como lixo tóxico, mas é isso o que é.”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].