Os números mostram: agronegócio recebe muitos recursos e contribui pouco para o Brasil

Análise de geógrafos desmistifica a versão de que o agro é a maior força econômica brasileira

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Por Tatiana Merlino para “O Joio e o Trigo”

“Essa é a história do Reino de Agrus. Conta uma lenda que há muitas décadas existia um reino chamado Agrus. Era um lugar com muitas riquezas naturais e que de tão extenso, não dava para ver onde começava e nem onde terminava. O povo do reino de Agrus vivia da agricultura e da pecuária, que eram as mais prósperas de todo o mundo.” 

Assim começa o primeiro episódio do desenho animado “O Reino de Agrus”, que conta a lenda de um povo que tinha a agricultura e a pecuária como suas principais formas de sobrevivência.  “É um poderoso recurso para ensinar as crianças e os jovens sobre a importância que o agronegócio tem em nossas vidas. Ao mesmo tempo em que é uma forma de destacar e valorizar o trabalho no campo, especialmente o dos pequenos e médios produtores”, diz a apresentação sobre o desenho animado. A animação faz parte da campanha “Todos a uma só voz”, projeto de marketing do agronegócio nos meios de comunicação e com foco em crianças e adolescentes . 

A iniciativa é uma das muitas que tentam vender a ideia de que o agronegócio nacional é o salvador da economia brasileira. 

Versão falsa

No artigo “O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo”, realizado pela Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra) com apoio da fundação Friedrich-Ebert-Stiftung Brasil e recém publicado, os geógrafos Marco Antonio Mitidiero Junior e Yamila Goldfarb desmascaram a versão de que agronegócio é a maior força econômica do Brasil. 

“O Agro usa diversas estratégias para construir o consenso na sociedade brasileira de que é o setor mais dinâmico, moderno e importante da economia brasileira. No entanto, uma análise detalhada dos números do agro revela outra realidade. A de um setor que recebe muito e contribui pouco com o país”, afirmam Mitidiero Junior, que é professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (Anpege), e Goldfarb, pesquisadora e vice-presidente da Abra.

Para avaliar o papel do agronegócio na economia do país, os geógrafos analisaram a participação do setor na balança comercial brasileira, no Produto Interno Bruto (PIB),  na distribuição e no recebimento de créditos/financiamento, no ordenamento tributário, na produção de dívidas, na geração de postos de trabalho e renda; na relação com os impactos ambientais e no suprimento da demanda de alimentos. 

“A análise da balança de pagamentos e dos créditos recebidos pelo setor somados aos incentivos fiscais, como é o caso da Lei Kandir, à baixa arrecadação, como no caso do ITR, e à constante renegociação e perdão das dívidas do setor mostra um país atado a uma economia reprimarizada, de uso intensivo de recursos naturais e profundamente dependente”, analisam os autores. 

Domínio da matéria-prima bruta

Em 2019, na balança comercial brasileira, o total das exportações foi de 225 bilhões de dólares, superando o total de importações que chegou a 177 bilhões de dólares. Ou seja, houve um saldo positivo de 48 bilhões de dólares. As exportações estão dominadas pela agropecuária e pela indústria extrativa, pela venda de matérias-primas, enquanto nas importações o domínio marcante está nas compras da indústria de transformação, que correspondem aos produtos manufaturados. 

E a venda de algumas matérias-primas marcam as exportações brasileiras:  a soja (11,57% do valor total das exportações), o petróleo (10,74%), o minério de ferro (8,98%) e o milho (3,20%) são os quatro principais produtos exportados. O café em grão não torrado (2,03%) também se destaca, posicionando-se como o oitavo nas vendas ao exterior. 

A análise aponta para o fato de que a pauta exportadora é dominada pela venda de matérias-primas brutas, sem nenhuma elaboração, com participação tímida dos produtos semielaborados e a pífia importância da venda de produtos de alta elaboração. A soja participa com 11,57%, ao passo que o principal produto da indústria de transformação, que exige alta elaboração, são as plataformas de perfuração, com 1,24% das exportações, praticamente dez vezes menos. 

Já ao se olhar para as importações, há o predomínio dos produtos de média e alta elaboração. 

A partir da análise de determinados dados comerciais, explicam Goldfarb e Mitidiero Junior, a conclusão é que o agronegócio é o salvador da economia nacional. “Seu sucesso estaria expresso nesses números da balança comercial e indicaria que esse é o único caminho de desenvolvimento da economia brasileira. Investir no agro seria a salvação da lavoura”, afirmam os geógrafos. Porém, questionam: “Qual país rico e avançado alcançou esse status produzindo e exportando matéria-prima? Nenhum dos chamados países ricos desenvolveu sua economia sem investimentos pesados no setor industrial e de serviços, acompanhado por investimentos mais pesados ainda em educação, ciência e tecnologia, posicionando-se, a partir dessa estratégia, na divisão internacional do trabalho, da produção e do comércio”.

O gráfico apresenta o saldo da balança comercial do agronegócio e do agregado de outros setores da economia (indústria e serviços). 

Como a análise explica, a forma de exposição dos dados permite a visualização mais concreta, segundo a visão do agro, de que sem a agropecuária a economia brasileira teria ido à falência. Entre 2010 e 2020, os produtos da indústria e serviços dão prejuízo, segundo a ótica da balança comercial, ao passo que a venda dos produtos primários alcança superávits entre as trocas do setor e garante o superávit da balança comercial como um todo.

Retrato do atraso

Em 2019 e 2020, o agro garantiu superávit nas trocas comerciais de matérias-primas de 83,1 e 87,7 bilhões de dólares, respectivamente, enquanto o déficit do agregado dos demais setores chegou a 35 e 36,7 bilhões de dólares. 

Para esses dois anos, o Brasil conseguiu ter superávit geral de 48 e 50,9 bilhões de dólares. “O  argumento é um só, o agro garante a positividade da balança comercial. Contudo, o gráfico é o retrato do atraso. Trata-se da perpetuação histórica de inserção subalterna e dependente do Brasil no comércio e na economia global”, diz o texto dos geógrafos. 

Os autores afirmam que é importante problematizar as informações da balança comercial entre produtos primários, que obteve superávits na média de 82 bilhões de dólares nos últimos cinco anos. O principal produto primário de exportação brasileiro – que é o principal produto de exportação de toda a economia – é a soja. 

A diferença do valor de exportação entre o primeiro e o segundo produto mais vendido pelo agro mostra o peso dessa produção: em 2019, o Brasil exportou 26 bilhões de dólares em soja, sendo que o segundo produto primário mais vendido foi a carne bovina, com 7,6 bilhões de dólares. “O que para alguns pode ser interpretado como o sucesso da sojicultura, para outros mostra-se como uma clara dependência da pauta exportadora basicamente em um produto apenas”, sinalizam.

O terceiro mais vendido, em 2019, foi a celulose (7,4 bi), seguido do milho (7,2 bi) e da carne de frango (6,9 bi). O sexto colocado em vendas merece destaque pelo seu significado para além dos números, o farelo de soja, com 5,8 bilhões de dólares. 

Por que o Brasil precisa comprar produtos de fácil produção nacional?

No caso interno, analisando as exportações de matérias-primas, o Brasil isenta, por meio da Lei Kandir, a exportação da matéria-prima bruta. Pagar imposto não é, em geral, um hábito comum aos ruralistas, lembram os autores, o que conduz a exportações de mercadorias sem nenhuma industrialização. Ou seja, o próprio Estado brasileiro incentiva essa forma de inserção do país nas relações comerciais globais.

Os dados de importações de produtos agropecuários mostram outro aspecto das trocas comerciais brasileiras. Os quatro principais produtos agropecuários que o país comprou, em 2019, foram: trigo (1,4 bi dólares), peixes (1,1 bi dólares), produtos hortícolas, raízes e tubérculos (1 bi), e papel (850 milhões de dólares). Para nenhum desses produtos existem grandes limitações para produção nacional. “Mesmo com imenso superávit comercial entre os produtos do agro, por que o Brasil precisa comprar produtos de fácil produção nacional?”, questionam Yamila Gordfarb e Marco Antonio Mitidiero.

Os geógrafos analisam também a importação de arroz.  Os dados apontam que, entre os dez produtos agropecuários mais comprados do exterior, entre 2018 e 2020, o arroz ocupa a nona posição. As importações de arroz só cresceram nos últimos anos. Em 2018, foram 614 mil toneladas, chegando em 2020 a quase 1 milhão de toneladas compradas, com o detalhe de que a maior parte é de arroz sem casca semielaborado (730 mil toneladas). “O que faz um país com uma das maiores disponibilidades de terra e água para produção agrícola depender do mercado externo para suprir a demanda de um produto que é a base da alimentação de seu povo? A resposta não é difícil: a falta de uma política agrícola que assegure a soberania alimentar e demais interesses da economia nacional tem permitido que produtores rurais priorizem o lucro obtido com exportações, elevando a importação onerosa e descabida para compensar a falta do produto no mercado interno.”

PIB brasileiro X PIB do agro

O texto ainda analisa a participação do agro no Produto Interno Bruto (PIB).  De acordo com a tabela a seguir, a agropecuária compõe a menor fração do PIB brasileiro. Os dados mostram que, em média, o agro contribuiu com apenas 5,4% do PIB, enquanto o setor industrial com 25,5% e o setor de serviços 52,4%.  Ou seja, o setor que mais produz mercadorias para exportação é o que menos contribui na composição dos valores do cálculo geral de produção de riqueza.

A potência do agro resumiu-se, entre os anos de 2010 e 2018, a um pouco mais que 5% do PIB. Na nova classificação de intensidade tecnológica da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dividida entre alta, média-alta, média, média-baixa e baixa, as atividades econômicas da agricultura, pecuária, florestal e pesca são classificadas no menor estrato (“baixa”), com um percentual de intensidade tecnológica e participação no PIB de 0,27%, enquanto, por exemplo, a indústria farmacêutica (que produz vacinas) contribui com 27,98% e produtos de informática/eletrônicos 24%. 

“A pergunta que salta aos olhos é: como é que o Agro que ‘é tech, pop e tudo’ participa tão pouco da composição do PIB?”, questionam os pesquisadores. 

O agronegócio também passou a calcular o próprio PIB, usando uma metodologia particular e pouco clara, critica a análise. “Para sedimentar a narrativa de que o ‘Agro é tudo’, inventaram o ‘Produto Interno Bruto do Agronegócio’”. 

De acordo com tal cálculo, o agro seria responsável por mais de um quarto do PIB nacional, sendo que, em 2019, totalizou 20,5% e, em 2020, alcançou 26,6% do PIB. “Como é possível saltar de uma participação na casa dos 5% ao ano para 26%?”, perguntam os geógrafos. 

O “milagre” da multiplicação

O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), é o responsável pelo cálculo do “PIB do Agro”. 

“Em uma operação de multiplicação dos pães e peixes outros setores porteira afora foram aglutinados no cálculo. Nessa metodologia, calcula-se a soma dos valores da produção agropecuária básica/primária, dos insumos para atividade, da agroindústria (processamento) e do que eles chamaram de agrosserviços”, explicam os geógrafos.

Embora o agro seja o setor que menos gera riqueza, recebe muitos créditos. 

Ou seja, os créditos vão para quem não produz alimentos para os brasileiros, mas, sim, commodities para exportação. 

No Brasil, o sistema nacional de créditos é a principal política agropecuária e é realizado pelo Plano Safra. Os créditos são ofertados por instituições públicas e privadas para custeio, investimento, comercialização e industrialização e são distribuídos segundo categorias: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para os pequenos produtores familiares, o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) para os médios e para as demais categorias nas quais se encaixam, principalmente, os grandes produtores, o agro. 

No Plano Safra 2019/2020, por exemplo, os valores das contratações chegaram a 225 bilhões de reais, um valor superior ao Plano Safra 2018/2019 de 173,4 bilhões.

Os dados da tabela mostram que  os “demais”, ou seja, o agronegócio, é quem recebe, de longe, a maior fatia do bolo. No Plano Safra 2019/2020, enquanto o Pronaf, que congrega o maior universo de produtores no campo brasileiro, recebeu 29 bilhões de reais, o Pronamp recebeu 27,9 bilhões e o agro 134,8 bilhões. 

A desigualdade na distribuição dos créditos é potencializada ao se olhar para os dados de número de contratos, mostra o estudo. O Pronaf, que respondeu a 1.416.064 milhão de contratos, ficou somente com 12,8% dos recursos; o Pronamp, com 186.363 mil dos contratos e com 12,4% dos créditos; e os demais, que correspondem a apenas 328.066 mil contratos, receberam 59,9% da totalidade dos créditos.

“Isso resulta em uma imensa concentração de recursos nas mãos de um pequeno número de produtores rurais, em sua imensa maioria representantes do agro”, avaliam Goldfarb e Mitidiero.

Na regionalização do total de créditos concedidos para a safra 2019/2020, ao se comparar com o total de estabelecimentos rurais de cada região, segundo os dados do Censo Agropecuário do IBGE 2017, constata-se que o Sul recebe 34% dos créditos e possui 16,8% dos estabelecimentos rurais, o Centro-Oeste com 26% dos créditos e 6,8% dos estabelecimentos, o Sudeste com 24% dos recursos e 19,1% dos estabelecimentos, o Nordeste com 9% dos recursos, mas com 45,7% dos estabelecimentos, e o Norte com 7% do crédito e 11,4% dos estabelecimentos rurais. Relativamente, o Centro-Oeste com o menor número de estabelecimentos rurais é a região que mais recebe créditos. “Os dados não podiam apontar resultado diferente, pois é nessa região que a grande monocultura exportadora de commodities ganha mais força, com destaque para as fazendas de soja.” 

Nas safras de julho de 2016 a junho de 2017 e de julho de 2017 a junho de 2018, segundo dados do Banco Central, a pecuária foi a atividade que recebeu mais créditos, com 74,9 bilhões de reais, seguida pela soja com 61,9 bilhões, pelo milho com 25,9 bilhões, café com 15,4 bilhões e cana-de-açúcar 13,7 bilhões. 

Não paga a conta

Além de ser profundamente privilegiado na distribuição de recursos públicos, o agronegócio deixa pouco para o Brasil, ou seja, é um setor pouco tributado.

Um dado que explica a baixa arrecadação do setor, salienta a análise, é a isenção que recai sobre as exportações. Como exemplo, o artigo cita os valores pagos como Imposto de Exportação pelas Atividades de Agricultura, Pecuária e Serviços Relacionados, entre 2011 e 2019.

Como se vê na tabela, em 2014, ano em que mais impostos foram pagos, as Atividades de Agricultura, Pecuária e Serviços relacionados desembolsaram apenas 85 mil reais com imposto sobre exportações.

Os pesquisadores explicam que a desigualdade do sistema tributário brasileiro não se dá pela quantidade de tributos cobrados, mas, principalmente, por seu caráter regressivo, indireto e focado na taxação sobre o consumo. Por sua vez, a agropecuária de exportação é isenta de vários impostos.

O texto também avalia o Imposto Territorial Rural (ITR). O ITR é, desde 1997, autodeclaratório, assim como o Imposto de Renda, o que aumenta o risco de sonegação, uma vez que a fiscalização é praticamente inexistente. 

As alíquotas do ITR variam segundo o grau de utilização da terra e a dimensão da área total do imóvel rural. As alíquotas são maiores à medida que a dimensão do imóvel rural aumenta e o seu grau de utilização diminui. Embora seja de competência da União, 50% da receita do ITR fica com os municípios, podendo chegar a 100%, no caso dos que assinaram convênio com a Receita Federal para fiscalizar e cobrar o tributo. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cartografia, o Brasil deixa de arrecadar R$ 2 bilhões por ano em impostos na área rural. Há muita divergência quanto às declarações dos proprietários de terras e de órgãos governamentais quanto ao uso da terra. Cerca de 87% dos proprietários de terra declaram alcançar grau de utilização maior que 80% de suas terras, enquanto que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) indica que o grau de utilização média da terra no Brasil é da ordem de 59%. Esses dados mostram a grande evasão (sonegação) existente no caso do ITR. “O ITR representa uma injustiça fiscal não apenas pela baixa arrecadação, mas porque os grandes e médios proprietários passaram, em 2010, a pagar menos por hectare, fazendo cair a média de R$ 1,59 por hectare, em 2003, para R$ 1,52”, afirmam os geógrafos.

Agro é tóxico

O texto de análise também trata do mercado de agrotóxicos, que movimenta no Brasil, em média, 10 bilhões de dólares anualmente. Porém, as indústrias do setor são desoneradas integralmente do IPI (alíquota média estimada em 10%), PIS/Cofins (alíquota cheia estimada em 9,25%) e usufruem de desoneração parcial de ICMS e de Imposto de Importação, sendo que este último é extremamente mutável em decorrência das inúmeras alíquotas e dos volumes importados. 

Como os agrotóxicos são considerados insumos para atividade agrícola, assim como os fertilizantes, sementes, aviões para pulverização e maquinário, o gasto com a sua aquisição é abatido integralmente na apuração dos tributos sobre a renda (Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido)

Segundo estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), as isenções e reduções de imposto das empresas produtoras de agrotóxicos somam quase 10 bilhões de reais ao ano. Isso equivale a quase quatro vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente em 2020 (2,7 bilhões). A isso se somam, ainda, investimentos públicos nas transnacionais do setor. Nos últimos 14 anos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) emprestou 358,3 milhões a empresas do setor. 

Não gera emprego e renda 

A máxima de que o “Agro é pop” e gera empregos no Brasil também não se sustenta em nenhuma base de dados. Em 2020, durante a pandemia, o setor agropecuário não parou, com crescimento na produção alcançando recordes nas colheitas e na exportação de commodities. Contudo, 185.477 mil trabalhadores perderam seus empregos nessa safra, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE. 

Em 2020, quando o país bateu recordes de produção agrícola e pecuária, os preços dos alimentos também subiram de forma avassaladora e a fome voltou a ser uma realidade. O aumento dos preços dos alimentos, em geral, atingiu 14,09%, enquanto a inflação oficial foi de 6,29%, em 2020.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a inflação teve impacto de 6,22% para os pobres, mais que o dobro do impacto para os ricos, com 2,74%. No aspecto de comprometimento da renda, as famílias pobres comprometeram 37% dos seus orçamentos com gastos alimentares, energia e gás de cozinha, enquanto os ricos comprometeram apenas 15%. 

Com os impactos da pandemia na perda de renda das famílias, aliada ao aumento dos preços dos alimentos devido às escolhas econômicas dos governos federais mais recentes, o ano de 2020 terminou com os seguintes resultados: “do total de 211,7 milhões de brasileiros(as), 116,8 milhões conviviam com algum grau de Insegurança Alimentar e, destes, 43,4 milhões não tinham alimentos em quantidade suficiente e 19 milhões de brasileiros(as) enfrentavam a fome”, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. 

Insegurança alimentar é um projeto

No “tudo” que o agro invoca para si entra a fome. Com isso, o agro é, também, fome, diz a análise. “O agro molda, defende e planeja uma estrutura político-econômica de produção de alimentos que deságua no aumento da fome. Por isso, a insegurança alimentar no Brasil não é uma consequência inesperada de uma pandemia ou uma falha do sistema econômico, mas, sim, projeto”, concluem.

Os autores finalizam a análise explicando que o texto é muito mais que apenas “uma crítica à falsa ideia de que a economia brasileira é sustentada pelo agro e que, portanto, bastaria aprimorar a forma de atuação deste ou então industrializar (ou reindustrializar) a economia”. Eles dizem que “poderia parecer, em um primeiro momento, que para melhorar as condições de inserção econômica bastaria industrializar essa produção de commodities, já que com isso agregaríamos valor à produção e ganharíamos autonomia tecnoprodutiva”.

No entanto, acreditam que “o buraco é mais embaixo: Não se trata apenas de agregar valor à produção do agro, assim como não basta o agro passar a pagar mais impostos ou a produzir internamente seus insumos tecnológicos e todos os problemas estarão resolvidos. Um outro desenvolvimento, uma outra agropecuária, ou seja, uma outra forma de produzir e distribuir é o que nos move”. 

O que a análise pretendeu mostrar, afirmam, é que “nem do ponto de vista capitalista o país está no rumo certo. Isso porque o agro brasileiro é um tiro no pé do próprio desenvolvimento capitalista brasileiro”.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “O Joio e o Trigo” [Aqui!].

Não basta matar de fome, tem que envenenar também. Jair Bolsonaro flexibiliza lei dos agrotóxicos

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Em mais uma comprovação de que o governo Bolsonaro é ágil e eficiente quando se trata de aplicar políticas que fragilizam a proteção dos sistemas naturais e dos seres humanos, o presidente Jair Bolsonaro fez publicar no dia de ontem no Diário Oficial da União, o Decreto 10.833 de 2021 que altera o Decreto nº 4.074, de 4 de janeiro de 2002, que regulamenta a Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989, no tocante à “pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e afins.

E obviamente as alterações são para fragilizar e não aperfeiçoar a legislação até então regulando o uso de agrotóxicos no Brasil. A Campanha Permanente contra os Agrotóxicos já manifestou o seu repúdio ao Decreto 10.833 de 2021, e em especial ao seu Artigo 31, que abre “a possibilidade para registro de agrotóxicos cancerígenos, mutagênicos, teratogênicos, que causem distúrbio hormonal ou ao aparelho reprodutor. Este tipo de agrotóxico atualmente tem seu registro proibido em qualquer hipótese“, estabelecendo ainda que seria “possível haver “limites seguros” para essas substâncias”.

A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida afirma que por detrás do discurso de “modernização” da legislação, o real objetivo seria beneficiar as empresas transnacionais produtoras de agrotóxicos.  A Campanha adverte que este decreto seria um passo ousado na “completa desregulamentação dos agrotóxicos no Brasil, que pode ser completada a qualquer momento com a aprovação do PL6299/2002, o chamado Pacote do Veneno“. 

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Como alguém que vem estudando o emprego de agrotóxicos no Brasil há quase duas décadas, considero que a promulgação do Decreto 10.383/2021, em meio a um crescimento vertiginoso de aprovações de produtos banidos em outras partes do mundo, sinaliza que existe dentro do governo Bolsonaro um completo desrespeito por tudo o que já se conhece sobre os impactos ambientais e sobre a saúde humana de um número significativo dessas mesmas substâncias.

O resultado dessa desconsideração sobre o que já está estabelecido pelo conhecimento científico é que o Brasil viverá nos próximos anos um agravamento de uma série de doenças cuja ligação com o emprego de substâncias  cancerígenos, mutagênicos e teratogênicos tem sido convenientemente ignorado pela medicina brasileira.

De forma objetiva é possível dizer que o governo Bolsonaro não se contenta em propagar a fome e a miséria da maioria dos brasileiros, e age de forma explícita para também matar por envenenamento. Em relação aos amplos setores do latifúndio agro-exportador que estão por detrás desta decisão do presidente Jair Bolsonaro, a minha expectativa é que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), os grandes compradores internacionais estabeleçam um cordão sanitário que impeça a compra de commodities agrícolas brasileiras por causa dos riscos à saúde humana que elas efetivamente representam.

 
 

Luzia versus Heineken. Patrimônio arqueológico marcado para desaparecer para construção de fábrica da cervejaria holandesa

Quando se diz que a atual marcha do capitalismo é marcada pela destruição de tudo o que se vê pela frente, muitas pessoas não conseguem visualizar essa “démarche” capitalista.  Mas há horas em que determinadas ações ajudam a clarificar o que se quer dizer quando se diz que capitalismo é lucro acima de tudo, em que pese a destruição que essa busca possa causar.

Um exemplo disso é a opção de cervejaria holandesa Heineken de obter na justiça o direito de construir uma de suas fábricas nas imediações da região no município de Pedro Leopoldo (MG), onde foi encontrado os restos mortais de Luzia, considerado o fóssil humano mais antigo das Américas. Isso mesmo, em troca de produzir cerveja, a Heineken planeja, com autorização da justiça de Minas Gerais, passar os tratores por cima de um dos mais importantes sítios arqueológicos da América Latina (ver imagem abaixo)

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Para piorar, em documento oficial, o ICMBio afirma que “em nenhum momento o empreendedor avalia a compatibilidade do empreendimento com o Decreto de Criação e o seu Plano de Manejo“. Além disso, o documento do ICMBio pontua que “há risco geológico no local, avalia o instituto, o que impossibilitaria instalar a fábrica no local sem fazer mais estudos, sendo que os dois poços que o projeto prevê vão bombear 150m³ de água por hora, o que causaria grande impacto nos lençóis freáticos e nas três cavernas da região.

Como da justiça brasileira aparentemente nada pode se esperar, o jeito é aguardar que a notícia desse projeto de aniquilação da memória arqueológica brasileira chegue aos ouvidos dos acionistas da Heineken e do público holandês.  Sugiro até o lema para a campanha nos Países Baixos:Luzia ja, Heineken nee”

Brasil ultrapassa 600 mil vidas perdidas para Covid-19, Anistia Internacional Brasil exige justiça

600 mil

O Brasil atinge a triste marca de 600 mil pessoas que perderam suas vidas para a COVID-19 . São milhares de vozes silenciadas e famílias em luto pelos seus entes queridos. A marca atingida hoje é resultado direto e indireto das ações e omissões do Estado brasileiro e de autoridades públicas que deveriam garantir o direito básico à vida e à saúde e decidiram desrespeitar o princípio da vida em primeiro lugar.

Desde o princípio da pandemia da COVID-19 a Anistia Internacional Brasil alerta que o Estado brasileiro tem deveres constitucionais de garantir que brasileiros e brasileiras tenham seus direitos à vida e à saúde assegurados. É urgente que essas mortes que poderiam ter sido evitadas, sejam responsabilizadas

“As vítimas da pandemia da COVID-19 e seus familiares precisam de uma reparação e uma recuperação justas. Nós perdemos demais! A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), em um trabalho importante e corajoso, reuniu fatos e evidências que demonstram o quanto foram perniciosas determinadas ações e as muitas omissões daqueles que tinham o dever de agir para salvar vidas. Eles precisam ser responsabilizados. Fazer justiça é urgente e ela precisa vir de várias formas. Essas 600 mil vidas perdidas exigem de todas e todos respeito, que choremos por elas e que sigamos na busca por reparações e para que o Brasil possa ultrapassar este momento e retomar o caminho do respeito aos direitos e à vida de todas e todos.”, afirma Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

A Anistia Internacional Brasil e 16 organizações da sociedade civil estão à frente da campanha Omissão Não é Política Pública que exige que o Procurador Geral da República, Augusto Aras, não deixe impunes os possíveis crimes apontados pela CPI da Covid. E que todas as pessoas apontadas pelo relatório final da CPI sejam processadas judicialmente e devidamente responsabilizadas.

Barragem de Belo Monte: apenas uma turbina em operação devido à seca e peixes morrem devido ao aumento da temperatura da água

A estação seca deste ano na Amazônia expõe implacavelmente os erros de cálculo na construção da barragem de Belo Monte 11 GW no rio Xingu, no estado amazônico do Pará

belo monteBelo Monte (vista aérea 2016). Foto: christianrussau

Por Christian Russau para a Kobra

Desde 2011, os críticos da barragem de Belo Monte 11 GW, no rio Xingu, no estado amazônico do Pará, haviam alertado enfaticamente que a construção da barragem não só levaria a enormes consequências sociais e ecológicas, mas para o governo e consórcios de construção e a operadora logo se revelaria perdida. Agora fica claro com clareza implacável que os proponentes daquela que era então a terceira maior barragem do mundo estavam errados e os críticos estavam certos. Infelizmente, isso não é motivo de alegria para ninguém.

18 turbinas devem agora girar nas massas de água da barragem de Belo Monte, localizada atrás do reservatório, que retira 80% da água do rio da Volta Grande e a desvia para o reservatório, transformando e fornecendo eletricidade para a economia em expansão do Brasil e sociedade. No momento, uma turbina está girando e só está girando com metade de sua potência. Devido à atual seca na área da bacia do Xingu, o aproveitamento atual do potencial de geração de energia de Belo Monte é de apenas 2,67% desde o início de agosto, de acordo com reportagens da mídiaIsso é exatamente o que os críticos têm enfatizado repetidamente desde a decisão de construção em 2011 que a meta de 11 GW de plena carga só poderia ser atingida por alguns meses do ano, e que o cálculo da lucratividade da usina hidrelétrica ficaria, portanto, obsoleto. E é exatamente isso o que fica evidente no momento no rio Xingu.

Desde a sua conclusão, a usina de Belo Monte produziu menos do que os especialistas calcularam para a estação seca. No momento da construção, presumia-se que a usina geraria em média 690 MW por dia durante os meses de seca. A saída atual é de 300 MW. Esperava-se uma produção média de 4.000 MW para todo o ano. No ano passado era de 3.293 MW médios e em 2019 era de 3.027 MW médios, segundo dados do Operador Nacional da Rede Elétrica (ONS). Então Belo Monte nunca correspondeu às expectativas econômicas e hoje o desempenho é menor do que nunca.

Além disso, a seca fez com que a pouca água que restava esquentasse, levando ao aumento da morte de peixes, conforme a mídia agora está relatando . “Isso é um absurdo, porque são peixes que poderiam servir de alimento para a população, e alguns são peixes ornamentais que têm valor de mercado nas grandes cidades, como a Bandeira do Acará. Aqui temos o pacu que poderia servir de alimento, mas na momento só há comida para urubus ”, disse à mídia o professor de biologia Rodolfo Salm, da Universidade Federal do Pará (UFPA) . Em uma pandemia galopante como a de Corona, isso é ainda mais sério quando as pessoas mal conseguem sobreviver financeiramente e sua segurança alimentar está ameaçada.

Acontece que Belo Monte foi e é e continua sendo um fiasco : moradores: por dentro e também pescadores: por dentro, pescadores ornamentais: por dentro e pequenos agricultores: por dentro foram roubados seus meios de subsistência, os reassentamentos foram insuficientes, as indenizações inadequadas, Volta Grande passou de 100 quilômetros A extensão do rio estava quase esgotada, os índios e ribeirinhos moravam nas proximidades: por dentro não podiam mais usar o rio como área de pesca ou transporte de barcos, as pragas de mosquitos assombram a área, os rotores do turbinas picam peixes, peixes vão para a água aquecida e agora mostram os números da produção nua e crua também todo o fiasco econômico. E tudo isso em nome do “desenvolvimento” e da energia “verde”.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Atolado no pântano de Pandora, Paulo Guedes manda cortar 90% dos recursos destinados a bolsas e projetos de pesquisa científica

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em mais um golpe contra a ciência, cortou 90% dos recursos destinados a bolsas e apoio à pesquisa e projetos já agendados pelo CNPq. Em ofício encaminhado à Comissão Mista do Orçamento, Guedes mandou cortar R$ 690 milhões já previstos para projetos científicos, deixando apenas R$ 55 milhões

Sumaia-Villela-Agencia-BrasilCom o corte, restam apenas R$ 55,2 milhões de reais. Foto: Sumaia Villela Agência Brasil

“É um golpe duro na ciência e na inovação, que prejudica o desenvolvimento nacional. E que caminha na direção contrária da Lei 177/2021, aprovada por ampla maioria pelo Congresso Nacional”, afirmam a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Brasileira de Ciências, entre oito entidades que enviaram uma carta, na quinta-feira (7), ao presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, para que reverta a decisão.

“O PLN 16 destinava 690 milhões de reais para o MCTI, alimentando em particular as bolsas e o Edital Universal do CNPq, mas, em cima da hora, por força de um ofício enviado pelo Ministério de Economia na véspera da reunião da CMO, mais de 90% desses recursos foram transferidos para outros ministérios, restando apenas R$ 55,2 milhões de reais, destinados ao atendimento de despesas relacionadas aos radiofármacos”, denunciam.

Segundo as entidades, o argumento de Guedes de que os recursos já transferidos para Ciência e Tecnologia não estão sendo utilizados é uma afronta. “Já nos manifestamos anteriormente sobre a estratégia perversa de alocar 50% do total dos recursos do FNDCT para crédito reembolsável, o qual, uma vez não utilizado, será recolhido ao Tesouro no final do ano. Dá-se com uma mão, para retirar com a outra. Nesse processo, agoniza a ciência nacional”.

Leia a seguir a carta assinada pela oito entidades que compõem a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br) – Associação Brasileira de Ciências (ABC), Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), Conselho Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência Tecnologia e Inovação (Consecti), Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e Sustentáveis (IBCHIS) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

MANOBRA DO MINISTÉRIO DA ECONOMIA AFRONTA A CIÊNCIA NACIONAL

A modificação do PLN 16, feita na última hora, no dia de hoje, pela Comissão Mista do Orçamento do Congresso Nacional, atendendo a ofício enviado ontem pelo Ministro da Economia, subtrai os recursos destinados a bolsas e apoio à pesquisa do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações e impossibilita projetos já agendados pelo CNPq. É um golpe duro na ciência e na inovação, que prejudica o desenvolvimento nacional. E que caminha na direção contrária da Lei 177/2021, aprovada por ampla maioria pelo Congresso Nacional.

O PLN 16 destinava 690 milhões de reais para o MCTI, alimentando em particular as bolsas e o Edital Universal do CNPq, mas, em cima da hora, por força de um ofício enviado pelo Ministério de Economia na véspera da reunião da CMO, mais de 90% desses recursos foram transferidos para outros ministérios, restando apenas R$ 55,2 milhões de reais, destinados ao atendimento de despesas relacionadas aos radiofármacos.

O argumento utilizado pelo Ministério da Economia afronta a comunidade científica e tecnológica: afirma que os recursos já transferidos para o MCTI não estão sendo utilizados. Cabe lembrar que esses recursos são para crédito, são reembolsáveis, e não interessam à indústria. Já nos manifestamos anteriormente sobre a estratégia perversa de alocar 50% do total dos recursos do FNDCT para crédito reembolsável, o qual, uma vez não utilizado, será recolhido ao Tesouro no final do ano. Dá-se com uma mão, para retirar com a outra. Nesse processo, agoniza a ciência nacional.

Fazemos um apelo aos parlamentares para que revertam essa decisão, com todos os meios disponíveis para repor os recursos destinados ao MCTI e ao CNPq. Está em questão a sobrevivência da ciência e da inovação no país.

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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Hora do Povo” [Aqui!].

Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro, está preso no pântano de Pandora

guedesFoto: AFP

Por Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Se seu nome não tivesse sido mencionado na divulgação dos Documentos de Pandora , teria sido muito suspeito. Isto se dá porque o Ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, fundamentalmente não separa política de negócios. Assim, mesmo depois de ingressar no gabinete do terror de Jair Bolsonaro, ele não teria tirado suas mãos de empresas offshore em paraísos fiscais. Desta forma, Guedes encarna a reorganização neoliberal da economia do país, que é flanqueada pelo autoritarismo do chefe de Estado de ultradireita, o presidente Jair Bolsonaro. Claro, que o escândalo atingiu também o auxiliar de, Roberto Campos Neto, o presidente do banco central indicado por Bolsonaro, que também prefere acumular seus tesouros no exterior. Nenhum deles precisa tremer muito antes de uma investigação.

Nas eleições presidenciais de 2018, o nome de Paulo Guedes, em particular, fez com que houvesse grande otimismo nas associações patronais – que contribuíram para a vitória do Bolsonaro – e nas bolsas. O guru financeiro continuaria de onde o governo do presidente de fato Michel Temer parou. Com a privatização de empresas estatais e de infraestrutura em grande escala, com a remoção de obstáculos à exploração desenfreada de todos os recursos do país. Além dos esforços por suas políticas ultraliberais, houve a pandemia; e hoje, muitos brasileiros estão em situação pior e alguns estão ainda melhor do que antes. 

Nascido no Rio de Janeiro em 1949, Guedes aperfeiçoou-se no banco de investimentos Banco Pactual, do qual foi cofundador em 1983. Guedes estudou economia em Minas Gerais e na década de 1970 em Chicago, onde internalizou o liberalismo econômico sob a proteção de Milton Friedman. Passou seus conhecimentos no think tank de direita Instituto Millenium e na Universidade do Chile durante a ditadura de Pinochet . Uma ditadura de mercado à la Chile também é seu modelo.

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Este artigo foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Flexibilização de Áreas de Preservação Permanente (APP) pode deixar a população mais exposta a desastres naturais e crise hídrica

Propostas em votação na Câmara e no Senado podem reduzir ainda mais áreas verdes em grandes cidades. Medidas estão na contramão de políticas públicas adotadas com sucesso em diferentes países

unnamed (37)Vista do Mirante do Passaúna, em Curitiba / Foto: Rodrigo Santos – Pixabay

Elaborados para flexibilizar a definição sobre Áreas de Preservação Permanente (APP) em regiões urbanas, dois Projetos de Lei (PL) ameaçam a proteção às margens de rios, lagos, lagoas e demais cursos d’água de cidades brasileiras. O PL 2.510/2019, aprovado em regime de urgência na Câmara dos Deputados em agosto, e o PL 1.869/2021, pronto para ser votado a qualquer momento no Senado Federal, dão autonomia a municípios para legislarem sobre as APPs, alterando o Código Florestal e permitindo a realização de intervenções e obras, além de facilitarem a regularização de construções irregulares. A flexibilização é vista como retrocesso por organizações e entidades comprometidas com a conservação da natureza e o desenvolvimento sustentável no Brasil.

A definição das faixas mínimas a serem protegidas nas margens dos rios, conforme especificado no Código Florestal, visa a garantir que as funções gerais dessas áreas sejam minimamente resguardadas, tanto no espaço rural quanto no urbano. A tentativa de remeter a definição de APP ao legislador municipal pode facilitar a redução dessas áreas. Uma das consequências diretas deve ser o aumento dos riscos de deslizamentos de encostas e a potencialização dos efeitos das enchentes, causando prejuízos econômicos, sociais e sanitários. Além disso, recursos hídricos desprotegidos comprometem o fornecimento de água, agravando a crise hídrica e potencializando uma iminente crise energética.

Aliança Bioconexão Urbana, formada por oito organizações que defendem o uso de Soluções Baseadas na Natureza para enfrentar desafios das cidades, realça que proteger as nascentes e cursos d’água deveria ser uma prioridade nacional, já que os recursos hídricos são estratégicos para o abastecimento da população, irrigação de lavouras, geração de energia e o desenvolvimento das mais variadas atividades econômicas. “As APPs contribuem para a proteção da biodiversidade, ajudam a regular o microclima, protegem recursos hídricos e também oferecem bem-estar para as populações. Não faz sentido flexibilizar a legislação, gerando incertezas sobre essas áreas e colocando a população em risco”, alerta André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, uma das organizações que integram a Aliança Bioconexão Urbana.

Menos áreas verdes

Caso sejam aprovados, os projetos de lei podem reduzir ainda mais áreas verdes em grandes cidades, gerando ainda maior gasto público com serviços como o abastecimento de água. A medida vai na contramão de políticas públicas adotadas com sucesso em diferentes países em relação às chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que utilizam infraestrutura verde como estratégia para solucionar diversos desafios enfrentados pelas cidades.

Para Cecília Herzog, paisagista urbana, especialista em Preservação Ambiental das Cidades e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), os legisladores deveriam considerar que a natureza oferece uma série de serviços ecossistêmicos essenciais à qualidade de vida da população. “Diversos estudos comprovam que a manutenção da infraestrutura natural nas margens de rios reduz os sedimentos depositados nas águas e, consequentemente, gera economia de recursos ao poder público nos sistemas de tratamento e distribuição de água. Manter áreas verdes nas margens dos rios é uma maneira inteligente de gerar economia em gastos com dragagem dos reservatórios e também na aquisição de produtos químicos para tratamento”, salienta a especialista.

Além de preservar os recursos hídricos, APPs contribuem para a preservação da biodiversidade e podem ser importantes para melhorar a saúde e a qualidade de vida da população, conforme explica André Ferretti. “Com a adoção de parques e corredores ecológicos nas margens dos rios, é possível estimular a atividade física e o lazer, além de diversas atividades culturais e econômicas, gerando um ciclo virtuoso a partir do contato com a natureza. Áreas verdes devem ser compreendidas como grandes ativos das cidades”, ressalta.

E-book gratuito

Para saber mais sobre como as Soluções Baseadas na Natureza são importantes para que as cidades se preparem para os desafios das mudanças climáticas, a Fundação Grupo Boticário disponibiliza gratuitamente o e-book “Cidades Baseadas na Natureza – infraestrutura natural para resiliência urbana”. O material traz exemplos de diferentes metrópoles que adotaram com sucesso a infraestrutura verde para solucionar problemas urbanos. Baixe aqui.

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Conheça as organizações que integram a Aliança Bioconexão Urbana:

Fundação Grupo Boticário– Com 30 anos de história, a Fundação Grupo Boticário é uma das principais fundações empresariais do Brasil que atuam para proteger a natureza brasileira. A instituição atua para que a conservação da biodiversidade seja priorizada nos negócios e em políticas públicas e apoia ações que aproximem diferentes atores e mecanismos em busca de soluções para os principais desafios ambientais, sociais e econômicos. Já apoiou cerca de 1.600 iniciativas em todos os biomas no país. Protege duas áreas de Mata Atlântica e Cerrado – os biomas mais ameaçados do Brasil –, somando 11 mil hectares, o equivalente a 70 Parques do Ibirapuera.

Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) – Organização sem fins lucrativos que tem como objetivo subsidiar processos de tomada de decisão em temas relacionados à ciência, tecnologia e inovação. Atua por meio de estudos em prospecção e avaliação estratégica baseados em ampla articulação com especialistas e instituições. Trabalha diretamente com Soluções Baseadas na Natureza para cidades. 

Rede Brasil do Pacto Global da ONU – Iniciativa da Organização das Nações Unidas para encorajar empresas a adotar políticas de responsabilidade social corporativa e sustentabilidade. Criada em 2003, a Rede Brasil responde à sede do Pacto Global, em Nova Iorque, e preside o Conselho das Redes Locais na América Latina. Os projetos conduzidos no país são desenvolvidos por meio das Plataformas de Ação e dos Programas Internacionais. Atualmente estão em andamento cerca de 40 iniciativas, que contam com o envolvimento de centenas de empresas, assim como agências da ONU e agências governamentais.

ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade) – Rede global de mais de 2.500 governos locais e regionais comprometida com o desenvolvimento urbano sustentável. Ativos em mais de 125 países, a Rede influencia políticas de sustentabilidade e impulsiona a ação local para o desenvolvimento de baixo carbono, baseado na natureza, equitativo, resiliente e circular. A Rede e equipe de especialistas trabalham juntos oferecendo acesso a conhecimento, parcerias e capacitações para gerar mudanças sistêmicas em prol da sustentabilidade urbana.

WRI Brasil – Instituto de pesquisa que transforma grandes ideias em ações para promover a proteção do meio ambiente, oportunidades econômicas e bem-estar humano. Atua no desenvolvimento de estudos e implementação de soluções sustentáveis em clima, florestas e cidades. Alia excelência técnica à articulação política e trabalha em parceria com governos, empresas, academia e sociedade civil. O WRI Brasil faz parte do World Resources Institute (WRI), instituição global de pesquisa com atuação em mais de 60 países. 

BPBES – A Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – BPBES (do inglês, Brazilian Platform on Biodiversity and Ecosystem Services) foi constituída inicialmente como Grupo de Trabalho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência/SBPC. Suas atividades são desenvolvidas desde 2015 com destaque para o Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Em 2019, a Plataforma foi reestruturada para apoiar e fomentar a elaboração de novos relatórios, apoiando-se em três pilares: a coordenação executiva, conselho técnico-científico, e autores de diagnósticos.

Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) – O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) se espelha no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) e objetiva fornecer avaliações científicas sobre as mudanças climáticas de relevância para o Brasil, incluindo os impactos, vulnerabilidades e ações de adaptação e mitigação.

TNC – A The Nature Conservancy (TNC) é uma organização global de conservação ambiental dedicada à proteção das terras e águas das quais toda a vida depende. Guiada pela ciência, a TNC cria soluções locais inovadoras para os principais desafios do mundo, de forma que a natureza e as pessoas possam prosperar juntas. Trabalhando em mais de setenta países, a organização utiliza uma abordagem colaborativa, que envolve comunidades locais, governos, setor privado e a sociedade civil. No Brasil, onde atua há mais de 30 anos, o trabalho da TNC concentra-se em solucionar os complexos desafios de conservação da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica a partir de uma abordagem sistêmica, com foco na implementação e geração de impacto, para reverter as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade.

Outra falha do Facebook. Usuários relatam problemas

Os usuários relatam problemas com o Facebook. Esta é a segunda falha nesta semana

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Outra falha do Facebook. Usuários relatam problemas. Foto: Jirapong Manustrong / Shutterstock

O DownDetector possui um gráfico que mostra os relatórios de problemas enviados nas últimas 24 horas, em comparação com o número normal de relatórios por hora do dia. Alguns problemas geralmente são relatados durante o dia. O gráfico de hoje (07/10) mostra que em torno 18, o número de problemas relatados. e que isto aumentou significativamente.

Muitas horas de falha dos maiores sites

Na segunda-feira, 4 de outubro, ocorreu um grande fracasso dos maiores sites. Tudo começou por volta das 17:40, horário da Polônia, quando Facebook, Instagram, Messenger e WhatsApp deixaram de estar disponíveis em todo o mundo. Os serviços começaram a funcionar por volta da meia-noite, embora os problemas com o WhatsApp tenham durado mais tempo do que nos outros.

A Facebook Inc. relatou em uma postagem de blog que, após uma falha de seis horas em plataformas de propriedade da empresa, como Messenger, Whatsapp e Instagram, houve um constante “erro de configuração”. Na segunda-feira, havia cerca de 3,5 bilhões de usuários sem acesso às redes sociais.

A empresa não especificou quem fez a mudança nas configurações e se foi planejada. Vários funcionários do Facebook disseram à Reuters anonimamente que acreditavam que a falha foi causada por “um erro interno na forma como o tráfego da Internet é gerenciado, e a situação foi agravada por falhas nas ferramentas de comunicação interna. Entrevistados da Reuters disseram que isso poderia ter acontecido como resultado de inadvertência ação ou sabotagem. “

De acordo com o programa de monitoramento de rede da Downdetector, a falha do Facebook é a maior que já ocorreu.

Problemas do Facebook

O fracasso de segunda-feira ocorreu em um momento difícil para a empresa californiana. Nas últimas semanas, o Wall Street Journal publicou uma série de artigos baseados em informações da ex-funcionária do Facebook Frances Haugen, acusando a empresa de saber, entre outros, sobre os efeitos nocivos do Instagram nas crianças. De acordo com Haugen, o Facebook ficou sem resposta por muito tempo, embora soubesse que seus algoritmos alimentavam a desinformação e o ódio, e também eram usados ​​por cartéis de drogas e traficantes.

Conforme relatado pela Bloomberg, o valor estimado dos ativos do fundador do portal, Mark Zuckerberg, caiu quase US $ 7 bilhões como resultado do fracasso, empurrando-o para uma posição no ranking das pessoas mais ricas do mundo.

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Este texto foi inicialmente escrito em polonês e publicado pelo Onet [Aqui!].

Pescadores e ativistas se mobilizam em protesto ao leilão da ANP

Mobilização acontece nesta quinta-feira 7 de outubro, frente ao Hotel Windsor da Barra da Tijuca

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Pescadores e ativistas pelo clima estarão unidos em uma manifestação pacífica, no Rio de Janeiro, contra a 17ª Rodada de Leilões da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). 

A ação de ativismo que reúne várias entidades, dentre elas  a Associação dos Homens e Mulheres do Mar da Baía de Guanabara (Ahomar), Sindicato dos Pescadores Profissionais e Pescadores Artesanais, Aprendizes de Pesca e Pescadores Amadores do Estado do Rio de Janeiro (SindPesca-RJ) e a 350.org, organizações ambientalistas e de pescadores exigem o fim da exploração de combustíveis fósseis, para proteger o litoral brasileiro dos impactos dos combustíveis fósseis sobre as comunidades mais vulneráveis, a biodiversidade e o clima global. 

Entidades em Prol da vida 

Manifestantes denunciam os danos que os setores de petróleo e gás podem provocar sobre Fernando de Noronha, Atol das Rocas e os “oásis da pesca” no Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Afirmou o  diretor da 350.org na América Latina, Ilan Zugman,

Além das áreas protegidas que Zugman menciona, a atividade petrolífera e de gás nas bacias Potiguar e de Pelotas, duas das quatro que terão blocos ofertados no leilão, pode causar danos graves a áreas essenciais para a pesca e que ainda não se encontram oficialmente protegidas. A constatação vem de um estudo do Instituto Maramar, em colaboração com a 350.org, divulgado nesta terça-feira (05/10).

 Rebateu o ativista, Alexandre Anderson, presidente da Ahomar.

Como parte da campanha contra a 17ª Rodada de Leilões da ANP, a 350.org organizou um protesto submarino, na semana passada, em dois pontos do litoral brasileiro: Ilha do Arvoredo (SC) e Fernando de Noronha (PE). Ambas as áreas podem sofrer graves danos em caso de vazamentos de óleo nos blocos ofertados no certame.

compass

Este texto foi inicialmente publicado pela Rede TV+ [Aqui! ].