Produção agrícola no Paraná poderia aumentar com mais polinizadores

A conservação de matas e campos nativos é a principal tática para aumentar a população de polinizadores, como abelhas, moscas e morcegos, mas estado apresenta alto déficit de áreas que deveriam estar preservadas

mamangavaMamangava (xylocopini sp.) coberta de pólen de maracujá – esta é uma espécie de abelha nativa reconhecida pela sua grande capacidade de polinização. Foto: Andrei (Creative Commons 2.0)

Brasil, estima-se que a polinização realizada por animais como abelhas, moscas e morcegos gere um valor econômico de R$ 43 bilhões por ano na agricultura.

Ao mesmo tempo, a presença de vegetação nativa próxima às áreas cultivadas maximiza a polinização e melhora a produtividade e a manutenção da cultura agrícola.

Estima-se que a polinização realizada por animais como abelhas, moscas e morcegos gere um valor econômico de R$ 43 bilhões por ano na agricultura.

Em artigo publicado na revista Environmental Science & Technology, pesquisadores mapearam, pela primeira vez, a importância dos polinizadores para uma agricultura sustentável nos municípios brasileiros.

O estudo envolveu vinte e um colaboradores do Programa SinBiose/CNPq (Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) e contou com a participação das professoras Isabela Galarda Varassin e Marcia Cristina Mendes Marques, do Departamento de Botânica da UFPR. “Esse mapeamento associou as demandas de restauração, aliando um serviço ecossistêmico, que é a polinização, à conservação e restauração de áreas degradadas”, explica a professora Isabela.

Mapa do Estado do Paraná com faixa de valor econômico agregado pela polinização
Mapa do Estado do Paraná com faixa de valor econômico agregado pela polinização. Arte: Juliana Barbosa, com informações do Programa SinBiose/CNPq

A equipe analisou as principais culturas agrícolas brasileiras, identificando aquelas em que a polinização realizada por animais resulta em aumento da produção e retorno monetário. Outra análise é a da diferença entre a quantidade de vegetação natural existente e as áreas exigidas por lei em cada município, o chamado déficit de vegetação natural.

A partir da correlação entre essas duas métricas, foi possível elaborar um ranking de prioridades para restauração e conservação da vegetação natural, que tenham como foco a importância da polinização para cada localidade.

Paraná é um dos estados com maior déficit de áreas que, por lei, devem ser preservadas

Em relação aos dados relativos ao Paraná, percebe-se que a demanda de polinização varia de alta a intermediária na maioria dos municípios.

Produção de soja, laranja, feijão e café poderia ter um acréscimo entre 10% e 40% apenas com maior presença de polinizadores

Embora as principais culturas agrícolas não sejam altamente dependentes de polinização, elas podem se beneficiar desse serviço. São os casos da soja, laranja, feijão e café, que juntos produzem mais de 16 milhões de toneladas por ano, no Paraná. Com a polinização animal, essa produção pode aumentar entre 10% e 40%.

Em relação à conservação de áreas nativas, o Paraná possui o segundo maior déficit de Áreas de Preservação Permanente (em que não é permitida a exploração econômica direta) e de áreas de Reserva Legal (determinadas em lei e que deveriam estar contidas em cada propriedade). De acordo com os dados da pesquisa, cerca de 1,7 milhão de hectares precisam ser restaurados no Paraná para obedecer aos critérios legais.

Conscientizar agricultores da importância da polinização é ainda um desafio

Com os dados divulgados, é possível estabelecer contatos com o setor produtivo, para esclarecer os benefícios da polinização. Essa é preocupação recente entre os agricultores, conforme relata a professora Isabela. “Esperamos aliar o conhecimento científico à demanda existente na produção. É uma via de mão dupla bem interessante”.

Mapa do Estado do Paraná mostrando a relação entre demanda por recuperação de áreas de Área de Preservação Permanente e Reserva Legal e a demanda por polinização. Arte: Juliana Barbosa, com informações do Programa SinBiose/CNPq

Além disso, o estudo revela a necessidade de um planejamento integrado do uso da terra, que considere a conservação e a produtividade agrícola. Isso pode agregar valor à produção, como explica a professora Márcia. “Os consumidores dos produtos que saem do Brasil estão cada vez mais preocupados em saber como eles estão sendo gerados. Isso tem movimentado muito o mercado de uma forma geral. As empresas querem ter um selo de qualidade, com boas práticas de produção”.

Além de revelar o cenário nacional, os dados podem servir como instrumento de gestão pública, a principal contribuição do estudo na visão das pesquisadoras. “O Brasil tem uma das maiores biodiversidades do mundo e também um dos maiores produtores agrícolas. No momento em que os gestores virem que esse é o caminho, a gente vai a outro patamar de justiça ambiental e social”, reforça Márcia Marques.

Este texto foi inicialmente publicado pelo “Ciência UFPR” [Aqui!].

Brasil é o quarto maior emissor histórico de CO2, confirma estudo

Inclusão de dados de emissão por uso da terra empurra país para o alto do ranking, como mostrou Fakebook.eco em abril

tronco queimado

Em artigo publicado nesta terça-feira (5/10), o portal especializado em clima Carbon Brief confirma que o Brasil é o quarto país que mais contribuiu para as emissões históricas de CO2, depois de EUA, China e Rússia. Segundo o estudo, o Brasil é responsável por cerca de 5% das emissões no período 1850-2021, principalmente por causa do desmatamento descontrolado.

A análise do Carbon Brief incluiu as emissões da destruição de florestas e de outras mudanças no uso da terra, atualizando um estudo feito pela própria organização em 2019. Isso empurrou o Brasil para o topo do ranking, juntamente com a Indonésia (5º maior emissor histórico). Antes, eram consideradas apenas as emissões de combustíveis fósseis. O resultado confirma estudos anteriores que apontavam uma parcela maior de responsabilidade histórica do Brasil quando o uso da terra era levado em conta.

Em abril, o Fakebook.eco já havia desmentido afirmação de Jair Bolsonaro em carta ao presidente dos EUA, Joe Biden, de que o Brasil “é responsável por apenas 1% das emissões históricas de gases do efeito estufa, e menos de 3% do total corrente de emissões globais”.

A ideia de que o Brasil é um dos países que menos contribuíram para o aquecimento verificado vem de um estudo da década de 1990, feito por cientistas do governo brasileiro e apresentado pelo país na conferência de Kyoto, em 1997. A análise embasou a chamada “Brazilian Proposal”, ou Proposta Brasileira, que ajudou a sedimentar o entendimento de que a conta climática do Brasil é pequena porque o país não tinha quase nenhuma responsabilidade histórica pelo aquecimento observado hoje. Além de ser antigo, o dado da proposta original só levava em conta gás carbônico emitido por combustíveis fósseis.

Nos séculos 19 e 20, porém, o Brasil praticamente acabou com a Mata Atlântica. E, desde o final dos anos 1970, as emissões brasileiras são dominadas pelo desmatamento na Amazônia – em especial nos anos 1980, quando mais de 300 mil quilômetros quadrados de floresta foram abaixo. Estudos posteriores têm mostrado um quadro bem diferente: em 2014, por exemplo, um grupo de cientistas calculou todos os gases, incluindo uso da terra, e mostrou que o Brasil tinha a quarta maior contribuição histórica absoluta para o aquecimento global e a sétima maior contribuição per capita.

Em 2015, o físico Luiz Gylvan Meira Filho, autor principal do estudo brasileiro original, mostrou no Observatório do Clima um cálculo revisado segundo o qual a contribuição histórica do Brasil para o aquecimento verificado em 2005 era de 4,4% se considerados todos os gases.

Carbon Brief mostra que os EUA liberaram mais de 509 bilhões de toneladas (Gt) de CO2 desde 1850 e são responsáveis pela maior parte das emissões históricas: 20,3% do total global. A China ocupa o segundo lugar no ranking, com 11,4%, seguida por Rússia (6,9%), Brasil (4,5%) e Indonésia (4,1%).

De acordo com a análise, os humanos emitiram cerca de 2,5 trilhões de toneladas de CO2 na atmosfera desde 1850, um número que se alinha com os apresentados pelo IPCC e pelo Global Carbon Project.

Essas emissões cumulativas de COcorrespondem a um aquecimento em torno de 1,13oC – e as temperaturas em 2020 atingiram cerca de 1,2oC acima dos níveis pré-industriais.

“Embora a grande maioria das emissões de CO2 hoje venha da queima de combustíveis fósseis, atividades humanas como o desmatamento tiveram uma contribuição significativa para o total”, destaca o Carbon Brief. “As mudanças de uso da terra acrescentaram cerca de 786 Gt entre 1850 e 2021, o que equivale a quase um terço do total acumulado, com os dois terços restantes (1,718GtCO2) advindos de combustíveis fósseis e de cimento.”

Fonte: Carbon Brief

Este texto foi inicialmente publicado pelo Fakebook.eco [Aqui!  ].

EUA divulgam nova lei para barrar importação de produtos oriundos do desmatamento ilegal

Deforestation and Fire Monitoring in the Amazon in July, 2020Monitoramento de Desmatamento e Queimadas na Amazônia em Julho de 2020

 

O senador Brian Schatz e os congressistas Earl Blumenauer e Brian Fitzpatrick revelaram hoje o Forest Act (Fostering Overseas Rule of Law and Environmentally Sound Trade), uma nova legislação bipartidária dos Estados Unidos que permitirá ao governo federal deter o desmatamento ilegal de commodities no exterior.

A lei restringe o acesso aos mercados dos EUA para commodities originárias de terras ilegalmente desmatadas, numa tentativa de usar alavancagem de mercado para reduzir o incentivo atual para sacrificar florestas em benefício do uso agrícola, madeireiro e de mineração.  “Os produtos de desmatamento ilegal estão em toda parte.

Metade dos produtos nas mercearias americanas contém óleo de palma e a maior parte vem de terras desmatadas ilegalmente ao redor do mundo”, disse o senador Schatz, do Partido Democrata. “O desmatamento ilegal está ameaçando as comunidades locais e a vida selvagem e é um dos principais motores da mudança climática. Os consumidores americanos estão conduzindo esta destruição de forma inconsciente e não intencional, e nossa lei ajudará a pôr um fim a isso”.

“Os americanos não deveriam ter que se preocupar se estão contribuindo para o desmatamento ilegal toda vez que navegam pelas prateleiras de suas mercearias locais”, disse Blumenauer, também do Partido Democrata. “É hora de reprimir esta prática perigosa – que está poluindo nosso planeta, ameaçando as florestas e a vida selvagem, e ferindo comunidades grandes e pequenas”.

“O desmatamento ilegal impulsionado por commodities está causando estragos em nosso planeta ao contribuir para a emissão de gases de efeito estufa e ameaçando a biodiversidade e os habitats da vida selvagem em todo o mundo”, disse Fitzpatrick, do Partido Republicano. “Para piorar a situação, muitos americanos estão financiando inconscientemente o desmatamento ilegal quando estão comprando produtos do dia-a-dia em lojas.

“Tenho orgulho de me juntar ao senador Schatz e ao congressista Blumenauer na introdução da Lei Florestal Bipartidária. É hora de exigirmos transparência das empresas que lucram com commodities que são provenientes de desmatamento ilegal”, completou o republicano.

“O desmatamento é responsável por 10 a 15% das emissões anuais de gases de efeito estufa do mundo, sendo quase 40% de todo o desmatamento tropical é considerado desmatamento ilegal. Impulsionado principalmente pelo cultivo de gado, soja, óleo de palma e produtos de madeira, o desmatamento ilegal está frequentemente associado à corrupção, ao crime organizado e a abusos dos direitos humanos.” afirma o release oficial emitido pelo senado americano.

O que muda?

O Forest Act baseia-se na Lei Lacey, que proíbe o comércio de vida selvagem e madeira de fontes ilegais, para proteger a biodiversidade e a resiliência do ecossistema diante de um clima em mudança. Ao reduzir o desmatamento, a nova lei também reduzirá as chances de novas pandemias globais.

Especificamente o projeto de lei:

– Cria uma estrutura baseada no risco para aumentar a transparência e a apresentação de relatórios nas cadeias de fornecimento internacionais das empresas;

– Fornece assistência financeira e técnica que permite aos países, empresas e ao governo federal dos Estados Unidos coordenar soluções para reduzir o desmatamento ilegal;

– Incorpora o desmatamento nos estatutos de crimes financeiros para que os Estados Unidos possam processar aqueles que utilizam os lucros do desmatamento para financiar outras empresas criminosas ou terroristas; e

– Estabelece uma preferência de compra para o governo federal por produtos livres de desmatamento.

O projeto de lei também cria um comitê consultivo permanente para trazer a expertise das empresas e da sociedade civil para o processo. O comitê busca garantir que a implementação do programa será informada por experiências e conhecimentos desses atores.

A lei Forest é endossada por quase 40 grupos de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos, e sua carta de apoio está disponível aqui .

O texto completo do projeto de lei está disponível aqui . Um resumo de uma página está disponível aqui , e um resumo seção por seção pode ser encontrado aqui .

Grande vazamento de dados expõe os usuários da plataforma de streaming Twitch

In this photo illustration the Twitch app seen displayed onA Plataforma de streaming Twitch: há muito mais do que apenas um portal para gravações de jogos Foto: SOPA Images / LightRocket / Getty Images

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Este foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista Der Spiegel [Aqui!].

Estudo: Desmatamento na Amazônia pode expor 12 milhões de brasileiros a calor extremo

Sobrevoo no Pará (Foto Marizilda Cruppe/Amazônia Real/17/09/20

Por Lisandra Paraguassu, da Reuters

O desmatamento em larga escala da Amazônia, somado ao aquecimento global, pode elevar as temperaturas na região em até 11,5ºC e colocar a vida, a natureza e a economia sob risco extremo, mostrou estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade de São Paulo (USP).

O estudo, publicado nesta sexta-feira (1º) na revista científica Nature, usa modelos matemáticos para prever o que pode acontecer em diferentes condições climáticas, levando em consideração apenas o aquecimento global, apenas a savanização da Amazônia ou ambos.

Um cenário apenas com as mudanças climáticas previstas pelo painel de cientistas da Organização das Nações Unidas (ONU) poderia elevar essas temperaturas em 7,5ºC. Já a combinação das duas situações poderia elevar a temperatura média mais alta da região, à sombra, em 11,5ºC.

As temperaturas máximas na região, mostram as simulações, poderiam ficar acima dos 40ºC à sombra em pelo menos 7% dos dias do ano no final deste século, podendo ultrapassar os 46ºC.

Impacto na saúde humana

Um aumento de temperatura nesse patamar, mostram os pesquisadores, tem efeitos diretos na saúde humana.

“O estresse causado por exposição ao calor excessivo pode ser extremamente perigoso para humanos, incluindo o aumento do risco de condições intoleráveis para trabalhos na sombra e risco intenso de doenças causadas pelo calor”, diz o estudo.

Para além dos risco para a saúde, que diminuiriam a capacidade de trabalho e de sobrevivência de uma população que, em muitos casos, já tem dificuldades para viver, uma mudança nesse nível tem impactos diretos na capacidade econômica da região.

A própria atividade que hoje supostamente se beneficia da destruição das florestas — o desmatamento termina por abrir mais terras para a agricultura e a pecuária — seria diretamente atingida.

“O regime de chuva colapsa de tal forma que chega a reduzir em 80% o regime de chuvas no centro da Amazônia. E, no Centro-Oeste, que também é diretamente afetado, a redução das chuvas chega a 50%”, disse Paulo Nobre, pesquisador do Inpe e um dos autores do estudo. “No calor e o solo seco sem chuva, o efeito de amplificação térmica é enorme.”

Efeitos na agropecuária

A agropecuária brasileira, que hoje garante boa parte do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e a balança comercial do país, perderia boa parte da sua efetividade, como já mostrou um outro estudo, esse feito pela think thank Planet Tracker.

Ao analisar relatórios sobre o clima na Amazônia, a Planet Tracker detectou que o desmatamento já está alterando o regime de chuvas no país, o que impacta diretamente na capacidade brasileira de produzir duas, e em alguns casos até três, safras por ano. E é essa capacidade que levou o Brasil a ser um dos maiores produtores de grãos do mundo.

O modelo criado e analisado por Paulo Nobre e os pesquisadores Beatriz de Oliveira, da Fiocruz, Marcus Bottino, também do Inpe, e Carlos Nobre, da USP, apontam para um cenário para 2100. Isso porque foi usado no modelo matemático os dados de aquecimento global que se espera para aquele ano. Paulo Nobre, no entanto, alerta que a savanização da Amazônia já está acontecendo em diversos pontos. O cenário trágico pode chegar muito mais rápido.

Savanização acontece porque floresta não tem mais saúde para se manter viva. E a savanização da Amazônia já está ocorrendo. Já foram vistos lobos-guará na Amazônia, que é um animal do cerrado. Eles estavam lá porque se perderam? Claro que não. É porque o ambiente estava propício a eles

Paulo Nobre, pesquisador do Inpe

Paulo Nobre alerta que quem vê a floresta de cima, tomada por grandes árvores verdes, pode pensar que a transformação da Amazônia em cerrado é impossível, mas não é.

“Não temos como medir isso ainda a não ser com indicadores secundários, como a presença do lobo-guará. Mas indicadores prévios disso já estão presentes”, afirmou.

Recuperação comprometida

Em um artigo publicado em 2018 também na revista Nature, os pesquisadores Carlos Nobre e Thomas Lovejoy, apontaram que, com a combinação de mudanças climáticas previstas, o aumento das áreas desmatadas e o uso de fogo para “limpar” os terrenos na região a capacidade de recuperação da floresta diminui cada vez mais.

O “ponto de não-retorno”, em que talvez a Amazônia não consiga mais recuperar a floresta, estaria em algum momento quando o desmatamento chegasse a algo entre 20% e 25% do total da floresta, apontaram os pesquisadores.

Dados do Inpe de 2020 informam que, até agora, cerca de 729 mil km² já foram desmatados no bioma Amazônia — o correspondente a 17% do território original.

Apesar de outros cientistas contestarem essas previsões, vendo uma margem maior para a destruição total da floresta, há um consenso: não só o desmatamento precisa parar, como partes destruídas da floresta precisam ser recuperadas.

“O risco não é mais pequeno, ele é enorme. E essa é uma responsabilidade planetária”, diz Paulo Nobre.

Não é mais defender o fim do desmatamento por uma questão ética, mas por sobrevivência. Não existe vacina contra excesso de temperatura

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Este texto foi inicialmente publicado pela CNN Brasil [Aqui!].

Geraizeiros cobram governador Rui Costa (PT/BA)sobre licenças para desmatamento gigante expedidas para sojeiros

Delfin Rio S/A, uma das empresas que administra o Condomínio Cachoeira do Estrondo, no oeste da Bahia, obteve autorização para devastar 24.732 hectares, área maior que Recife; terreno herdado por socialites cariocas tem histórico de grilagem e violência 

geografia-formosaEmpreendimento fica em Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia. (Foto: Divulgação)

Por Mariana Franco Ramos para o “De Olho nos Ruralistas”

Comunidades geraizeiras de Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia, cobram do governador Rui Costa (PT-BA) o motivo da concessão de uma licença irregular ao Condomínio Cachoeira do Estrondo para devastar 24.732 hectares de vegetação nativa. A área, administrada por três empresas com longo histórico de grilagem, desmatamento ilegal, violência e até trabalho escravo, é maior que Recife.

A Autorização de Supressão de Vegetação Nativa (ASV) foi concedida pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) à Delfin Rio S/A Crédito Imobiliário, que pertencia ao empresário Ronald Guimarães Levinsohn, morto em janeiro de 2020, e que se envolveu em vários escândalos. Segundo informações do serviço MapBiomas e relatos das populações locais, já foram destruídos 3 mil hectares.

Na última quarta-feira (01), o Greenpeace Brasil, a Associação de Advogadas/os de Trabalhadoras/es Rurais no Estado da Bahia (AATR) e outras 54 organizações enviaram uma carta a Costa, à secretária do Meio Ambiente, Márcia Cristina Telles de Araújo Lima, e à coordenadora executiva da Coordenação de Desenvolvimento Agrário, Camilla Batista, pedindo a revogação da medida. 



Condomínio agrega 24 empresas do agronegócio, de diversos setores. (Foto: Divulgação)

De acordo com relatório da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM), a propriedade, na divisa com os estados do Maranhão, do Tocantins e do Piauí, se estende por 305 mil hectares, dos quais 150 mil estão ocupados com plantio de soja, milho e algodão.

Além da Delfin, são donos do empreendimento a Colina Paulista S.A e a Cia Melhoramentos do Oeste da Bahia (Cemob), também da família Levinsohn. Conhecido como Agronegócio Estrondo, o empreendimento conta ainda com participações de mais vinte pequenas empresas.

Casos de Pistolagem na região são frequentes  

Há dois anos, reportagem do observatório mostrou que a luta por terras no oeste baiano envolve casos de pistolagem e violência contra os geraizeiros, descendentes de indígenas e quilombolas que habitam a região há séculos. Ali, a atuação de milícias rurais é constante, tal como aportes de milhões de reais e dólares para a compra e venda de latifúndios.

Os fazendeiros da Estrondo são conhecidos pelo uso da violência para intimidar opositores. Em agosto de 2019, seguranças a serviço do grupo atiraram em Jossinei Lopes Leite, diretor da Associação Comunitária da Cachoeira, pouco antes de roubarem seu gado.

Como se não bastasse, uma das controladoras da Estrondo foi a maior multada por crimes ambientais, nos últimos 25 anos, em Formosa do Rio Preto. A Cemob, dos Levinsohn, somava mais de R$ 35 milhões por desmatamento ilegal, conforme a base de dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), consolidada pelo De Olho.

Herdeiras da Delfin têm vida de luxo no Rio 

Alheias aos casos de violência no campo, as herdeiras do espólio de Ronald Levinsohn, as irmãs Claudia e Priscilla, são personagens assíduas de encontros da aristocracia carioca. Elas costumam interagir com socialites como Narcisa Tamborindeguy, Andrea Rudge e Patrícia Leal, a ex-esposa do ex-bilionário Eike Batista. O observatório já falou sobre a dolce vita do clã, em 2019: “Da vida em êxtase das socialites Levinsohn à violência no campo no oeste da Bahia“.

Narcisa Tamborindeguy com Ronald Levinsohn. (Imagem: Reprodução/Instagram)

A excêntrica vida das irmãs Levinsohn é apresentada com alguma frequência em colunas sociais. Lu Lacerda, por exemplo, descreveu em seu blog o aniversário de Priscilla, uma festa extravagante para 700 pessoas na mansão da família, na Gávea, em 2014, com o seguinte tema inspirado no maior prêmio do cinema mundial: “Oscar: homens de preto e mulheres deslumbrantes”.

Ronald Lewinsohn foi padrinho do casamento de Narcisa com Boninho. A socialite e o diretor da Globo foram casados de 1983 a 1986 e tiveram uma filha juntos: Marianna Sobrinho. Em abril deste ano, ela postou uma foto da cerimônia ao lado do empresário e fazendeiro, com os dizeres: “saudades eternas”.

Irmãs já foram acusadas de trabalho escravo

Em 2009, as Fazendas Indiana e Austrália, que cultivam algodão e soja no Condomínio Estrondo, entraram simultaneamente na “lista suja” do trabalho escravo, cadastro do governo federal que lista infratores flagrados explorando esse tipo de crime.

A Austrália, da Cemob, que atuava também com mineração na região, explorava 39 trabalhadores para viabilizar a produção de soja. Entre os libertados, em outubro de 2005, havia três mulheres e um adolescente de 16 anos. Eles estavam em condições degradantes, alojados em barracos improvisados construídos com folhas de zinco e lona plástica.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), os diretores da Cemob na época eram Adilson Santana Borges, Claudia Vieira Levinsohn e Priscilla Vieira Levinsohn.

O Grupo Delfin foi o pivô de um grande escândalo financeiro nos anos 80, que a ditadura não conseguiu encobrir. A então maior empresa privada de crédito imobiliário (com mais de 3 milhões de depositantes) do país possuía elevados endividamentos junto ao Banco Nacional da Habitação (BNH). Em 1982, ela entregou dois terrenos, como forma de saldar os Cr$ 60 bilhões devidos.

No entanto, as propriedades valiam Cr$ 9 bilhões, cerca de um sexto da dívida. O acordo fraudulento envolveu os nomes dos ministros Mário Andreazza (Interior), Delfim Netto (Planejamento) e Ernane Galvêas (Fazenda). Acusados judicialmente, eles não chegaram a ser punidos. Milhares de contribuintes, porém, foram lesados com os chamados títulos de “poupalização”.

O patriarca esteve à frente, ainda, da UniverCidade. A instituição privada de ensino superior, com sede no Rio de Janeiro, foi usada para lavagem de dinheiro, encobrindo a origem ilícita da fortuna do empresário. Outro empreendimento da família é o Colinas Shopping, de São José dos Campos (SP), no Vale do Paraíba, administrado hoje por Priscilla.

Cargill e Bunge possuem silos dentro da mega-fazenda

Conforme o Greenpeace, a renovação da licença ao Cachoeira do Estrondo, concedida em 2019, não poderia ter acontecido, já que o “condomínio” não atende sequer às condicionantes do próprio Inema. O órgão exige que os empreendimentos comprovem “ter sob sua responsabilidade e domínio as áreas de preservação permanente e reserva legal”.

desmatamento soja

Área desmatada consta em ação judicial da Bahia. (Foto: Victor Moriyama/Greenpeace)

A posse de 43.339,33 hectares, declarados como Reserva Legal do Condomínio, é das comunidades tradicionais localizadas ao longo dos Rios Preto e Dos Santos, segundo decisão judicial de maio de 2017, confirmada pelo Tribunal de Justiça da Bahia (2018) e pelo Superior Tribunal de Justiça (2021).

O grupo responde ainda a processos por grilagem de terras. O estado da Bahia pede a anulação de diversas matrículas. Em 1999, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) notificou a fazenda como “mega-área de grilagem” de 444.306 hectares, registrados nos cartórios de Santa Rita de Cássia e Formosa do Rio Preto.

A área com a ASV faz parte da porção reivindicada pelo estado. Por isso, ela não poderia, de acordo com o Greenpeace, ser desmatada sem autorização do órgão estadual de terras (CDA), permissão que o Condomínio Estrondo não possui. O histórico de apropriação de territórios na região foi registrado na publicação “O Livro Branco da Grilagem de Terras no Brasil”, publicado em 1999, durante o governo FHC.

armazemArmazém da Cargill fica dentro do empreendimento. (Foto: Divulgação)

Apesar do histórico de irregularidades, o Condomínio Estrondo tem portas abertas para seus produtos em diversos países. O relatório “Cultivando Violência”, do Greenpeace, revelou que Cargill e Bunge, donas das marcas Elefante, Liza e Soya e fornecedoras de grandes redes, como Burger King e McDonald’s, possuem silos dentro da megafazenda e são responsáveis por colocar no mercado internacional toneladas de soja, produzidas à base de desmatamento e violência.

Empresa diz que pretende suprimir “só” 34,2% da área  

A reportagem tentou contato com a Delfin na tarde de sexta-feira (03), mas não conseguiu retorno. Ao jornal O Expresso, a empresa informou que possui licença legal emitida pelo Inema desde 2015, tendo recebido parecer favorável do Ministério Público da Bahia quanto à legalidade da emissão, em 2018, quando houve questionamentos semelhantes por parte de terceiros.

“Apesar de, por lei, poder suprimir até 80% da área em questão, a Delfin Rio S/A planeja suprimir 34,2% da área, portanto menos da metade da área permitida pelas autoridades competentes”, diz a nota. “É importante acrescentar que serão aplicadas todas as medidas mitigadoras e compensatórias previamente acordadas com os órgãos competentes”.

A Delfin destaca ainda que a propriedade “está legalmente constituída desde 1981, com registros no Cartório de Registro de Imóveis, Receita Federal, Incra e em cadastros ambientais”.

|Mariana Franco Ramosé repórter do De Olho nos Ruralistas. |

Foto principal (Divulgação/Agronegócio Estrondo): empreendimento fica em Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Associação Homens do Mar protocola pedido de anulação de audiência pública virtual promovida pela Exxonmobil para perfurar em Alagoas

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A Associação Homens do Mar da Baía da Guanabara (Ahomar) protocolou ontem um pedido de anulação junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) de uma audiência pública realizada pela multinacional Exxonmobil visando a aprovação do licenciamento ambiental das atividades de perfuração marítima de poços nos Blocos SEAL-M-351, SEAL-M-428, SEAL-M-430, SEAL-M-501, SEAL-M-503 e SEAL-M-573, na Bacia de Sergipe, Alagoas (ver imagem abaixo).

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Os fundamentos deste pedido estão explicados em um ofício ofício enviado pela Ahomar ao presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, onde são explicitados os pontos em que a legislação referente ao processo de licenciamento ambiental foi descumprida pela Exxonmobil e pela agência expedidora das licenças, no caso o próprio Ibama. Uma das razões principais para a Ahomar solicitar a anulação da referida audiência pública é que não houve a devida publicidade da realização da mesma, impedindo que os potenciais atingidos por uma atividade com grave potencial poluidor pudessem participar, apesar dos impactos das operações da Exxonmobil atingirem,por extensão, vários pontos do território brasileiro (ver imagem abaixo).

Upstream | ExxonMobil in Brazil

Ainda que não haja qualquer surpresa nesse tipo de manobra para evitar que os fundamentos do processo de licenciamento ambiental sejam cumpridos, é importante notar os esforços realizados pelas corporações para impedirem a livre manifestação dos potenciais atingidos, a qual é um dos pilares do processo legal ainda vigente no Brasil.

Felizmente, no presente caso, a Ahomar interviu de forma rápida e eficiente para anular uma audiência que não cumpriu a legislação. Isso mostra a importância da organização política de base, pois sem ela, as corporações econômicas agiriam de forma ainda mais livre, com os prejuízos já conhecidos sobre os sistemas naturais e as populações que as defendem.

 

 

A explicação técnica: como o Facebook desapareceu da internet

Centenas de milhões de pessoas de repente não puderam mais usar o Facebook, WhatsApp ou Instagram na noite de segunda-feira. Um sistema relativamente desconhecido, mas muito importante, desempenhou um papel crucial nisso.

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Logotipo do Facebook: tecnicamente desconectado do resto da internet por algumas horas. Foto: Dominic Lipinski / DPA

Por Hanno Böck para a Der Spiegel

Politicamente, o Facebook está atualmente sob pressão: a denunciante Frances Haugen forneceu ao Congresso dos Estados Unidos vários documentos internos da empresa e testemunhará no Capitólio nesta terça-feira. De acordo com sua avaliação pessoal, a empresa está bem ciente de muitos dos problemas sociais que seus serviços como Facebook e Instagram estão causando em todo o mundo e poderia fazer mais a respeito.

Para muitos, a suposição era, portanto, que as várias horas de falha do Facebook, WhatsApp e Instagram na segunda-feira estavam relacionadas a revelações sobre esses documentos internos ou à discussão política sobre eles. Mas provavelmente foi apenas um problema técnico mundano que levou ao fracasso. A causa da falha foi aparentemente uma configuração incorreta em um sistema que conecta a Internet no nível superior.

O chamado Border Gateway Protocol, ou BGP para abreviar, garante que os dados possam encontrar seu caminho na Internet. A Internet é basicamente composta de muitas redes menores que são conectadas umas às outras via BGP. Grandes jogadores como Google ou Facebook têm suas próprias redes e estão diretamente conectados ao BGP. Lá, eles têm que anunciar rotas regularmente. Estas são, por assim dizer, orientações técnicas que informam aos outros participantes do BGP como eles podem alcançar uma determinada rede.

É exatamente aqui que o problema surgiu na segunda-feira: a rede do Facebook havia desaparecido da rede BGP, como a empresa Cloudflare explicou em um post de blog . Não havia mais instruções técnicas dizendo aos outros nós da rede BGP como se conectar ao Facebook.

O Facebook não estava conectado ao resto da internet

Provavelmente, o motivo para isso foi um erro do próprio Facebook, que anunciou que uma alteração de configuração incorreta foi realizada em seus próprios sistemas de roteador, o que levou a esse efeito. O Facebook escreve que não há evidências de que os dados pessoais tenham sido comprometidos. Nesse caso, isso é bastante verossímil: tecnicamente, o Facebook simplesmente não estava conectado ao resto da internet.

A falha do Facebook também levou a efeitos indiretos. Inúmeros sistemas de computador e smartphones tentaram continuamente acessar o Facebook após conexões incorretas. Nos chamados servidores de nomes, que são responsáveis ​​por traduzir nomes de domínio como o Facebook.com em endereços da Internet, isso levou a um número significativamente maior de consultas e, portanto, a uma maior utilização.

O Facebook também enfrentou alguns problemas internos de acompanhamento. Toda a comunicação interna e a estrutura de trabalho do Facebook utilizam sistemas conectados à Internet aparentemente inacessíveis.

O sistema é frágil e tem problemas de segurança

O sistema BGP é um elemento importante da infraestrutura que mantém a Internet unida. Mas é sabido que é frágil e tem problemas de segurança sistêmica. No passado, acontecia repetidamente que o tráfego de dados era encaminhado para o endereço errado na rede BGP. Às vezes, algo assim é simplesmente um erro, às vezes, espionagem de dados.

Em 2019 , um experimento científico causou falhas generalizadas de BGP, especialmente na Ásia e na Austrália. Uma equipe internacional de cientistas queria ver se eles poderiam introduzir uma nova função no BGP. No entanto, um bug no software usado em muitos nós do BGP levou a travamentos do sistema nos servidores relevantes. O experimento foi então encerrado.

Os dados do Google mostram que muito poucos usuários sabem sobre o sistema BGP, embora ele essencialmente mantenha a Internet unida. A quantidade de pesquisas por sua abreviatura aumentou na segunda-feira, 18, de qualquer forma, de repente de forma acentuada .

Em última análise, a falha de seus serviços deve ter consequências apenas de curto prazo para o Facebook. Para a Internet, no entanto, surge a questão de como lidar com a centralização da infraestrutura e em que base está em parte a infraestrutura central da rede.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Der Spiegel [Aqui!].

Apagão do Facebook mostra que é preciso uma grande reconfiguração

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Foto: AFP

Por  Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Obrigado por isso: por sete horas, a economia da atenção parou em três das mídias sociais mais populares do mundo, onde a guerra da informação parou porque alguém no reino do Facebook pressionou a tecla Enter muito cedo. Isso causou muito ridículo, principalmente no Twitter, onde a empresa admitiu o mega-contratempo com uma de suas declarações sem sentido. Mas o assunto é sério, tirando o Instagram, que só a indústria da publicidade e seus embaraçosos influenciadores realmente precisam. O polvo de dados de Mark Zuckerberg controla os meios de comunicação com um alcance enorme, suas tecnologias estão interligadas e alcançam muitas esferas da economia e da sociedade.

O distúrbio mostra o lado negativo dessa concentração. A falha isolou o mundo não apenas das fotos de gatos, mas também de informações relevantes, e tornou a tecnologia temporariamente inutilizável em várias áreas. A vulnerabilidade do sistema em uma área estratégica para as sociedades é apenas uma das razões pelas quais o poder das corporações de mídia social deve ser quebrado. Eles são riscos para a segurança e a democracia. Eles têm soberania de dados sobre bilhões, seus algoritmos moldam a consciência, o ódio e a desinformação proporcionam lucros extras . Aliás, o Twitter não é mais engraçado.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Guedes e Campos Neto precisam ser investigados imediatamente

Coordenação da Campanha Tributar os Super-Ricos exige apuração das condutas de ministro da Economia e presidente do Banco Central

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A Coordenação da Campanha Tributar os Super-Ricos vem a público exigir providências urgentes frente à divulgação de que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central (Bacen), Roberto Campos Neto, mantêm contas em paraísos fiscais enquanto ocupam cargos estratégicos no governo brasileiro podendo se beneficiar de informações privilegiadas do sistema financeiro. 

Ao invés de promover justiça fiscal e a redução das desigualdades sociais, como determina a Constituição Federal, locupletam-se de forma, no mínimo, antiética, e se beneficiam dos efeitos da crise econômica, como a desvalorização da moeda nacional, por exemplo, num evidente conflito de interesses.

O ministro da Economia possui US$ 9,5 milhões (aproximadamente R$ 35 milhões na época do aporte) em empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Estima-se um lucro de R$ 16 milhões, só com a desvalorização do real frente ao dólar na gestão de Jair Bolsonaro. Campos Neto já foi denunciado em outra investigação (Panamá Papers) por remeter ilegalmente cerca de R$ 5 milhões do Brasil para Luxemburgo. 

Manter contas ou aplicações em paraísos fiscais, quando devidamente declaradas à Receita Federal, pode até não ser ilegal, mas é absolutamente incompatível com a ocupação de cargos públicos, especialmente em funções estratégicas como de ministro de Estado ou presidente do Bacen. Além disso, o Artigo 5º do Código de Conduta da Alta Administração Federal, proíbe expressamente essa conduta.

Regras que poderiam servir para controlar este tipo de planejamento tributário abusivo foram retiradas do PL 2.337/2021 no mês passado com a anuência e concordância do Ministro da Economia. Novas regras foram introduzidas no relatório do PL aprovado na Câmara dos Deputados, beneficiando os titulares de contas em paraísos fiscais, como desobrigação de que as transferências se deem pelo valor de mercado e a incidência de apenas 6% sobre os ganhos obtidos.

Antes do governo Bolsonaro, investimentos inferiores a R$ 100 mil não necessitavam ser declarados. Na gestão de Campos Neto, a isenção subiu para R$ 1 milhão, beneficiando os detentores de contas e aplicações financeiras nos paraísos fiscais.

Frente a estes recentes atos absurdos e inadmissíveis revelados, as entidades exigem a imediata investigação para sanar as irregularidades verificadas pelo sistema de apuraçã Pandora Papers, buscar a reparação pelos danos econômicos, além dos irreparáveis prejuízos à imagem da nação brasileira.

Coordenação da Campanha Tributar os Super-Ricos

4 de outubro de 2021