Quem ainda se surpreende com a existência de pessoas de extrema-direita nunca estudou a história brasileira

extrema direita

Uma das consequências mais comuns do pós atos pró-governo Bolsonaro é o uso das redes sociais e grupos de Whatsapp para as pessoas demonstrarem sua indignação e estupefação (sentimento mais frequente) em relação À existência de um segmento pequeno, mas não desprezível, da população brasileira que abraça o ideário de extrema-direita do presidente da república e sua entourage familiar.

Aos que sejam possuídos pelo sentimento de estupefação, sugiro respeitosamente que comecem a ler livros sobre a formação histórica do Brasil, a partir dos olhares de Caio Prado Junior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes. É que se não entendermos minimamente como se deu a evolução da formação política do Brasil, continuaremos sendo surpreendidos sem nenhuma razão pelos atos bolsonaristas.

O fato inescapável é que a história brasileira é assentada sobre o uso da violência extrema por uma minoria privilegiada contra a maioria, inicialmente os povos originários e depois os africanos escravizados. Além disso,  ao longo de 521 anos de história, nunca houve uma ruptura com os alicerces da sociedade escravocrata que deu origem ao Brasil independente.

Por fim, eu insisto que não há motivo para surpresa, mas seguiremos sendo surpresos se ignorarmos os elementos estruturais que explicam a existência dessa minoria que se caracteriza pelo desprezo completo pela construção de uma sociedade menos desigual e menos injusta. E, me perdoem os que veem nele uma espécie de candidato a “Führer” brasileiro, mas Jair Bolsonaro é apenas a face da hora dos membros de uma extrema-direita que possui completa ojeriza à maioria do povo brasileiro.

Se intenção dos atos bolsonaristas deste 7 de Setembro era mostrar força, terminaram por revelar isolamento e fragilidade

brasil hoje

Salvo algum acontecimento trágico ao longo deste 7 de Setembro, os atos promovidos preparados pelos segmentos que orbitam em torno do presidente Jair Bolsonaro foram desenhados para mostrar força e disposição para enfrentar um quadro político extremamente negativo, mas, em minha opinião, terminam por revelar isolamento e fragilidade. As cenas caóticas ocorridas na noite de ontem na entrada da Esplanada dos Ministérios (ver vídeo abaixo) são mais uma demonstração de permissividade da Polícia Militar e do governador do Distrito Federal (que teria ido passar o feriado no seu estado natal do Piauí)  do que força da militância bolsonarista. É que se fossem professores fazendo o que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, a resposta teria sido, digamos, mais firme.

Mas o que efetivamente Jair Bolsonaro sai ganhando se o que tivermos hoje em Brasília e em outras capitais brasileiras for a presença de pessoas brancas (uma grande parte composta por idosos) e que só mostram valentia porque sabem que não serão duramente reprimidas pelas forças policiais?

Aliás, há que se lembrar que o militante bolsonarista típico está acostumado a que o Estado exerça a violência em seu nome, de modo a garantir a persistência de um padrão de forte desigualdade econômica e social.  Assim, se essa for a base social com que Jair Bolsonaro pretende se manter no poder, se o jogo que vivemos fosse de pôquer, a mão dele seria claramente fraca.

Além disso, ainda que sejamos quase que um simulacro de regime democrático, esses atos não vão aumentar o apoio político dentro do congresso nacional ou, tampouco, vão parar as investigações policiais que estão cada vez mais próximas dos filhos de Jair Bolsonaro.

A mídia corporativa já até noticiou que entidades representativas de caminhoneiros entrarão com processos judiciais contra o presidente Jair Bolsonaro por buscar associar a categoria aos seus devaneios antidemocráticos, demonstrando a diminuição de sua base política.  Mas no caso dos caminhoneiros, esta falta de apoio já estava evidente após a entrada de um poucos caminhões estalando de novos na região da Esplanada dos Ministérios na noite de ontem.

Por outro lado, as análises aqui postas podem se mostrar precoces, caso algum tipo de invasão ocorra nas dependências do Congresso Nacional ou do Supremo Tribunal Federal. É que uma invasão acontecer, a situação política vai assumir outro ritmo, sem que isso signifique nada de bom para Jair Bolsonaro.

Arte e cultura dos povos originários: IPAM lança o terceiro ciclo do Amazoniar

‘Cultura e arte dos povos indígenas da Amazônia como forma de resistência’ é o tema do novo ciclo deste projeto. Inscreva-se!
povos
Em setembro, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) inicia o terceiro ciclo do Amazoniar, projeto que tem como objetivo promover um diálogo global sobre a floresta amazônica e sua influência nas relações entre o Brasil e o mundo. Serão quatro encontros entre setembro e outubro deste ano, com o tema ‘Cultura e arte dos povos indígenas da Amazônia como forma de resistência’.

“Os povos indígenas da Amazônia são detentores de profundos saberes sobre a região e usufruem da arte e da cultura para transmitir poderosas mensagens de inclusão e de resistência, com expressões criativas e que refletem suas identidades. São múltiplas linguagens com o poder de comunicar e transformar, que desempenham um papel fundamental na tomada de consciência sobre inúmeras emergências da Amazônia e da sua população”, diz Lucas Ramos, coordenador do Amazoniar.

Segundo o pesquisador sênior do IPAM e moderador dos próximos encontros do Amazoniar, Paulo Moutinho, diversos estudos científicos mostram que os territórios indígenas já demarcados ou aguardando demarcação na Amazônia foram os que mais preservaram as características originais de florestas e de vegetação nativa. “Tal preservação resulta, em grande medida, do modo de vida e cultura dos povos indígenas. Por isso é tão importante resguardar esta riqueza cultural e o direito destes brasileiros às suas terras”, explica. Para Moutinho, o mundo tem muito a aprender com a cultura dos indígenas. “São séculos de conhecimento tradicional acumulado que poderão ser fundamentais para a nossa sobrevivência futura. É essa conexão da Amazônia com o mundo que queremos fomentar com o Amazoniar.”

Todos os encontros acontecerão pelo Zoom, ao vivo, e terão interpretação para inglês.

Inscreva-se:

23/09 às 10h (Brasília) – Ouça essa história: a riqueza da literatura e das lendas indígenas

07/10 às 10h (Brasília) – Vozes indígenas: cantos tradicionais e atuais e como se misturam

21/10 às 10h (Brasília) – Perspectiva indígena: os povos tradicionais através da fotografia e do audiovisual

O que abordaremos nos encontros do terceiro ciclo do Amazoniar?

Quebrando estereótipos sobre os povos indígenas

Neste encontro que abre o novo ciclo do Amazoniar, o IPAM convida o público para uma conversa com Alana Manchineri, coordenadora dos jovens comunicadores da COIAB, e Denilson Baniwa, artista e educador. Eles vão compartilhar suas vivências pessoais, para iniciar a discussão sobre como as comunidades indígenas utilizam expressões artísticas para combater mitos e estereótipos.

Data: Quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Horário: 14h (Lima) / 15h (Nova York) / 16h (Brasília) / 21h (Europa Central)

Inscrições

Ouça essa história: a riqueza da literatura e das lendas indígenas

O segundo encontro propõe uma reflexão sobre os valores dos povos indígenas da Amazônia e sua visão de mundo através de lendas e da literatura produzida na região. O evento terá a participação de Daniel Munduruku (a confirmar), escritor e educador, que tem mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior e é um dos nomes mais importantes da literatura indígena no país.

Data: Quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Horário: 8h (Lima) / 9h (Nova York) / 10h (Brasília) / 15h (Europa Central)

Vozes indígenas: cantos tradicionais e atuais e como se misturam

No terceiro encontro, o Amazoniar abordará os cantos tradicionais dos indígenas da Amazônia e sua junção com ritmos urbanos populares, como rock e rap, como forma de conscientização da luta indigena. Participarão Cíntia Guajajara, professora, mestra em linguística e vice-coordenadora da Articulação das Mulheres Indígenas do Maranhão (AMIMA), além do músico Matsipaya Txucarramãe .

Data: Quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Horário: 8h (Lima) / 9h (Nova York) / 10h (Brasília) / 15h (Europa Central)

Perspectiva indígena: os povos tradicionais através da fotografia e do audiovisual

No último encontro do ciclo, o Amazoniar promove uma discussão sobre a produção fotográfica e audiovisual de artistas das comunidades indígenas. Erisvan Guajajara, comunicador e fundador da Mídia Índia, compartilhará suas perspectivas das produções culturais na região.

Data: Quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Horário: 8h (Lima) / 9h (Nova York) / 10h (Brasília) / 15h (Europa Central)

Sobre o Amazoniar

O Amazoniar é uma iniciativa do IPAM para promover um diálogo global sobre a floresta amazônica e sua influência nas relações entre o Brasil e o mundo.

O primeiro ciclo da série focou nas relações comerciais entre Brasil e Europa. O segundo teve como foco os povos indígenas e o seu papel como principais aliados no combate ao desmatamento e na conservação da floresta, sua contribuição para a ciência e para a cultura, bem como seu impacto no desenvolvimento sustentável da região.

Para fazer parte dessa comunidade global em defesa da Amazônia, cadastre-se na nossa newsletter .

Anvisa, que procrastina a liberação de vacinas e permite enxurrada de agrotóxicos banidos, para Brasil e Argentina em estilo pastelão

anvisa para jogo

Já notei neste blog a dualidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no tratamento da liberação de vacinas e agrotóxicos, sendo lenta e estrita para as primeiras e rápida e liberalíssima na liberação de agrotóxicos banidos em outros países.  Mas agora a Anvisa atingiu um patamar com ares de pastelão ao interromper o jogo entre Brasil e Argentina que era válido pelas eliminatórias da Copa FIFA de 2022 que deverá ser realizada no Qatar.

A cena digna de um filme pastelão tipo B dos agentes da Anvisa entrando de forma atabalhoada no gramado do estádio do Corinthians é daquelas de cobrir ainda mais de vergonha um país que já chafurda na completa vergonha no tocante ao enfrentamento da pandemia da COVID-19, inclusive com medidas singulares da própria Anvisa no sentido da frouxidão em que estamos neste momento na maioria do território brasileiro.

A questão envolvendo os 4 jogadores argentinos que teriam entrado no Brasil sem declarar procedência do Reino Unido em desobediência aos protocolos sanitários impostos pela Anvisa para estrangeiros chegando de países considerados como sendo de alta restrição poderia ter sido resolvida na chegada deles no aeroporto. Após a passagem deles pelos pontos de controle da Polícia Federal, restaria ainda a realização de testagens desde o momento em que entraram em território brasileiro, sendo que inexiste informação de que isto tenha sido feito pela Anvisa, pela CBF ou pela FIFA.

Eu só espero que a ação estrepitosa da Anvisa deste domingo ocorra nas manifestações que estão sendo convocadas pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro para a próxima 3a. feira (07/09). É que, com toda certeza, a chance de que haja disseminação do novo coronavírus será muito maior nas ruas do que foi nos poucos minutos em que a bola rolou na Neo Química Arena. 

 

Maior cúpula planetária da biodiversidade após início da pandemia ocorre em Marselha com senso de emergência

Emmanuel Macron: ‘Não há vacina para um planeta doente’.  Milhares de cientistas e especialistas em conservação se reúnem em Marselha para o maior encontro mundial sobre biodiversidade desde a pandemia

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O presidente francês disse que a humanidade deve resolver as crises em curso com o clima e a natureza juntos ou não resolver nenhum deles. Fotografia: Ludovic Marin / AFP / Getty Images

Por Patrick Greenfield e Phoebe Weston em Marselha, para o “The Guardian”

A maior cúpula da biodiversidade do mundo desde o início da pandemia foi inaugurada na cidade portuária francesa de Marselha com um alerta de Emmanuel Macron de que “não há vacina para um planeta doente”.

Falando na abertura do Congresso Mundial de Conservação da IUCN, o presidente ecoou advertências de cientistas importantes de que a humanidade deve resolver as crises em curso com o clima e a natureza juntos ou não resolver nenhum dos dois, conclamando o mundo a prevenir a perda de biodiversidade.

“Não há vacina para um planeta doente”, disse Macron, detalhando as tarefas urgentes de eliminar o uso de agrotóxicos, acabando com a poluição do plástico e erradicando as matérias-primas ligadas ao desmatamento das florestas tropicais das cadeias de abastecimento em todo o mundo.

Em um longo discurso, ele disse que o mundo deve chegar a um acordo sobre metas e assumir compromissos financeiros para a natureza equivalentes aos do clima, e disse que pressionará para que as regiões polares da Terra sejam reconhecidas como ativos globais comuns no lançamento do congresso.

Milhares de cientistas, especialistas em conservação e oficiais viajaram para a cidade mediterrânea para a cúpula, que sediará eventos presenciais e online, para discutir e compartilhar ideias relacionadas à proteção da natureza.

Ela ocorre depois que a pandemia forçou um atraso de um ano na reunião em Marselha e na cúpula da ONU sobre biodiversidade em Kunming, China, onde se espera que os países cheguem a um “acordo de Paris para a natureza”.

Em uma mensagem gravada, o primeiro-ministro chinês Li Keqiang disse que os países devem trabalhar juntos para criar um “mundo limpo e bonito”, destacando a enorme jornada de uma manada de elefantes asiáticos em Yunnan como um exemplo do crescente sucesso da China com os esforços de conservação.

“Muitos lugares foram atingidos por tempestades e inundações raras. Os eventos climáticos representam uma grave ameaça à sobrevivência e ao desenvolvimento da humanidade e tornam a proteção da natureza e as questões de segurança não tradicionais globais mais prescientes ”, disse Li.

Harrison Ford

Harrison Ford destacou o papel das comunidades indígenas na proteção da natureza. Fotografia: Guillaume Horcajuelo / EPA

O ator e ambientalista de Hollywood Harrison Ford, falando em nome da Conservation International , prestou homenagem ao papel dos jovens ambientalistas na proteção da natureza e no combate à crise climática.

“Os reforços estão a caminho”, disse Ford. “Eles estão sentados em salas de aula agora, se aventurando no campo pela primeira vez, escrevendo suas teses, estão liderando marchas, organizando comunidades, estão aprendendo a transformar paixão em progresso e potencial em poder. Mas eles ainda não estão aqui. Em alguns anos, eles estarão aqui. ”

Ford, um ativista apaixonado pela proteção da Amazônia, destacou o papel das comunidades indígenas na proteção da natureza.

Em um evento paralelo, grupos indígenas, acadêmicos e ativistas de 18 países se reuniram na cidade portuária para uma “contra conferência” chamada Nossa Terra, Nossa Natureza.

Os delegados querem destacar a forma como os povos indígenas são afetados negativamente em nome das ambições internacionais de criar espaço para a vida selvagem.

Um desafio importante é a meta política de proteger 30% do planeta até 2030, o que os ativistas dizem que pode violar os direitos de muitos povos indígenas.

“Acho que precisamos repensar a definição de áreas protegidas, aquelas que existem, e precisamos buscar um modelo mais sofisticado de biodiversidade e conservação”, disse o Dr. Mordecai Ogada, diretor da Conservation Solutions Afrika. “Precisamos quebrar a narrativa em pedaços muito menores e mais complexos.”

Centenas de manifestantes, incluindo representantes da Survival International, Extinction Rebellion, Rainforest Foundation e Minority Rights Group se reuniram na Porte d’Aix, que marca o antigo ponto de entrada para Marselha, e marcharam para o porto da cidade sob uma chuva torrencial. A manifestação foi encerrada com discursos, pequenas apresentações teatrais e cantos.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!  ].

Vaca louca em Minas e Mato Grosso, soja proibida na França: uma tempestade perfeita se arma no horizonte do agronegócio

tempestade

Dois fatos aparentemente desconectados sinalizam que problemas colossais estão se levantando no horizonte para o agronegócio brasileiro.  O primeiro fato foram os casos do chamado “Mal da Vaca Louca em frigoríficos de MG e MT que já tiveram como resultado a suspensão da exportação de carne bovina brasileira para a  China.  E essa suspensão traz impactos imediatos para o setor, visto que a China é o principal mercado consumidor da carne brasileira. O segundo fato foi o anúncio feito pelo presidente da França, Emmanuel Macron, O presidente da França, Emmanuel Macron, de que seu país não importa mais soja que seja fruto do desmatamento, “sobretudo na Amazônia”.  Essa declaração foi dada durante discurso no evento World Conservation Congress, em Marselha, deixando claro que a França segue sendo um forte entrave para a concretização do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul.

Pode ser uma imagem de texto que diz "Macron: Macron: França não importa mais soja fruto do desmatamento, sobretudo da Amazônia Época NEGÓCIOS Da redação de Época Negócios Há 22 horas"

Quando colocados juntos esses dois fatos evidenciam algo que já deve estar claro para os líderes do latifúndio agro-exportador que as ações de desmantelamento das estruturas de comando e controle, que geraram a condição rotulada pelo ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de “deixar a boiada passar” na área ambiental, estão finalmente sendo respondidas pelos principais parceiros comerciais do Brasil com barreiras comerciais, estejam elas na forma de impedimento sanitários ou simplesmente nos de natureza política.

Com isso, ainda que setores do chamado agronegócio estejam ainda firmes no barco presidencial tocado erraticamente pelo presidente Jair Bolsonaro, o mais provável é que os principais “players” do setor estejam já preparando para colocar seus tratores e colheitadeiras em outro barco, de modo a garantir que os problemas que estão aparecendo não sejam agravados.

Por isso, por mais ruidosos que sejam os atos convocados para o dia 7 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro está sendo colocado diante de uma tempestade perfeita, pois ele não terá muita sobrevida se for abandonado pelo agronegócio, visto o peso da bancada ruralista no congresso nacional.  O problema é que para desarmar essa tempestade ele terá que adotar posturas que vão totalmente de encontro ao que Bolsonaro tem vocalizado ao longo de mais de 30 anos de atuação partidária.

Corações desolados, almas destruidas: a estética do neoliberalismo

Markus Metz e Georg Seeßlen continuam sua crítica à estética do neoliberalismo com seu novo livro »Beute & Gespenst«

estéticaFoto: imago images / Jochen Tack

Por Jakob Hayner para o Neues Deutschland

As pessoas estão acostumadas a entender o neoliberalismo como uma ordem econômica. A disposição privada dos meios de produção já estava no cerne do liberalismo clássico, do qual seus representantes como Ludwig von Mises não deixaram dúvidas. Só que não está mais guarnecido pelo programa da burguesia revolucionária, que prometia liberdade mesmo que fosse negada à maioria. O neoliberalismo renuncia – pelo menos por causa de sua base capitalista monopolista – a tais promessas elevadas e só se apresenta como fiador contra males maiores, então o socialismo e o fascismo são mencionados, sendo que em caso de dúvida apenas o primeiro se refere. Mas o programa ideológico do neoliberalismo não se limita a essa retórica histórico-filosófica. O sucesso disso provavelmente está na forma de subjetivação, que o neoliberalismo impõe e oferece ao mesmo tempo. “A economia é o método; o objetivo é mudar o coração e a alma ”, disse Margaret Thatcher em uma entrevista de 1981 para o Sunday Times.

Georg Seeßlen e Markus Metz exploram como os corações e almas das pessoas mudam no neoliberalismo. Em 2018, a dupla de autores publicou um volume com textos sobre estética neoliberal na Verlag Bertz + Fischer. O “(sur) realismo capitalista” via na arte, na publicidade e na vida cotidiana os sinais de uma era em que a ideologia havia migrado da superestrutura para a base. O primeiro passo: A mentira da ideologia não é mais um encobrimento, mas uma exibição da falta de alternativas. É o que Mark Fisher chamou de Realismo Capitalista, superado na segunda etapa pelo Surrealismo Capitalista, que declara impossível qualquer descrição do mundo – mesmo aquela sem alternativa. Como resultado, a falta de alternativas é aumentada por nem mesmo aparecer como tal. Niiliberalismo foi a nova palavra de Fisher para isso, neoliberalismo niilista. Dessa perspectiva, qualquer um que tente descrever a totalidade capitalista hoje deve ser considerado um louco, um pensador conspiratório francamente paranóico.

Com seu novo livro »Beute & Gespenst. Lebenswelten im Neoliberalismus “, também publicado por Bertz + Fischer, Seeßlen e Metz apresentaram uma continuação do” (sur) realismo capitalista “. Para que o neoliberalismo continue, os sujeitos com seus desejos, seus desejos e identificações devem ser subordinados e integrados de tal forma que a economia política não lhes apareça mais como tal – e eles não possam mais articular interesses relevantes. Os autores diagnosticam que não há mais nenhuma linguagem para as lutas de distribuição. Para eles, é a expressão de uma negligência cultural, política e semântica. A cultura popular também serve principalmente para conter os sujeitos, a segmentação do cultural cria diferentes ambientes de vida: para vencedores e perdedores. O principal é que não há mais saída para essa cultura. Cada um ganha sua própria cela, na qual se pode morrer de tanto divertimento.

A politização da cultura foi – e continuará a ser – paga com a despolitização da vida, argumentam Metz e Seeßlen. O fato de tudo ir para a cultura, assim como o conteúdo neutralizado, dá ao volume o título: “Tudo que é conquistado vive como fantasma e presa, da magia ao comunismo. Portanto, o capitalismo também pode ser descrito como uma poderosa casa mal-assombrada. «Também aqui estás no encalço de Mark Fisher, que morreu em 2017, o grande investigador fantasma da cultura popular. Hauntology ele chamou, vestígios de um futuro perdido. E no fim das ilusões? »Fica-se sozinho com uma questão radical: que papel a arte pode desempenhar se não houver sociedade burguesa, sem democracia, sem ideais educacionais e ilusões, sem crítica, sem discurso, sem destinatários sociais, não há outra cultura senão a da competição e da baixeza? «A estetização do colapso da sociedade representou um problema para os teóricos de esquerda e comunistas há cem anos. Até a própria queda é experimentada como um prazer estético, corações desolados, almas destruídas. Metz e Seeßlen descrevem como isso acontece para torná-lo um momento de realização para que uma nova força negativa e um novo desejo comunista possam ser acesos em face da preparação dos sujeitos no neoliberalismo. almas destruídas. Metz e Seeßlen descrevem como isso acontece para torná-lo um momento de realização para que uma nova força negativa e um novo desejo comunista possam ser acesos em face da preparação dos sujeitos no neoliberalismo. almas destruídas. Metz e Seeßlen descrevem como isso acontece para torná-lo um momento de realização para que uma nova força negativa e um novo desejo comunista possam ser acesos em face da preparação dos sujeitos no neoliberalismo.

Markus Metz e Georg Seeßlen: Capitalist (sur) realism. Neoliberalismo como estética . Bertz + Fischer, 296 pp., Br., € 18.

Markus Metz e Georg Seeßlen: Booty & Ghost. Mundos vivos no neoliberalismo . Bertz + Fischer, 192 pp., Br., € 14.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Desmatamento e queimadas no sul do Amazonas agravam cenário na área de influência da BR-319

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O Observatório BR-319 teve acesso a uma denúncia feita pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) ao Ministério Público Federal (MPF) sobre desmatamento, queimadas e invasões de terras para abertura de um ramal que ligaria a comunidade ribeirinha Belo Monte, em Canutama, município da calha do Purus, a rodovia BR-319. Os detalhes e o documento da denúncia estão na edição 22 do Informativo do Observatório BR-319.

unnamed (38)Imagem 1 – O mapa mostra o avanço do desmatamento nos limites da FES de Tapauá. A linha vermelha é onde está a Unidade de Conservação. Os polígonos mais claros no lugar onde antes havia verde, são os pontos de desmatamento.

A situação é reflexo do avanço da destruição da floresta amazônica no Amazonas. Sem a governança e as medidas de fiscalização e comando e controle necessárias, o cenário favorece a violação aos direitos humanos de populações indígenas e tradicionais na área de influência da rodovia. 

Segundo o Informativo, a maior preocupação da CPT é com invasões na Floresta Estadual (FES) de Tapauá e na Floresta Nacional (Flona) de Balata-Tufari. Nas proximidades, vivem os povos indígenas Katawixi, em isolamento voluntário, e os Juma, em extinção. 

Imagem 2 – A imagem de satélite mostra a comunidade Belo Monte e a linha vermelha, o avanço do ramal para ligá-la a rodovia BR-319. Ao redor da linha, é possível notar a abertura da floresta para criação do que seria o ramal

A publicação também chama a atenção para o agravamento da situação em locais onde os registros de desmatamento e queimadas têm aumentado. “O fato de um município como Tapauá, por exemplo, que nunca registrou dados expressivos de desmatamento, mas que em 2021 passou a registrar, torna a situação muito preocupante”, é o que afirma a secretária executiva do Observatório BR-319, Fernanda Meirelles.

Saiba mais sobre essa e outras notícias na última edição do Informativo do Observatório BR-319, que também traz informações sobre monitoramento de desmatamento, queimadas e casos de Covid-19 nos 13 municípios da região. Leia no www.observatoriobr319.org.br.

OBR-319

O Observatório BR-319 é formado pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Fundação Vitória Amazônica (FVA), Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Transparência Internacional Brasil, WCS-Brasil e WWF-Brasil.

Incêndios são detectados em fazenda operada pela maior produtora de soja do Brasil

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Fogos ativos foram detectados na Fazenda Perdizes no dia 24 de agosto de 2021 em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso. A propriedade pertence e é operada pela SLC Agrícola , maior produtora de soja do Brasil. A Fazenda Perdizes consiste em áreas mantidas sob a propriedade da SLC Agrícola e por meio de joint ventures com outras empresas. Os incêndios detectados recentemente caem na parte da Fazenda Perdizes que a SLC Agrícola possui. Uma análise anterior realizada pela Aidenvironment, parceira do CRR, no início da temporada de incêndios de 2021, detectou outro incêndio na propriedade da SLC Agrícola na Fazenda Palmeira. O atual incêndio na Fazenda Perdizes mostra as conexões contínuas da empresa com o desmatamento para desenvolvimento e expansão de terras agrícolas.

A Fazenda Perdizes possui uma área total de 43.123 hectares (ha), dos quais 26.295 ha consistiam de área de cultivo durante a safra de 2019/20. A Figura 1 mostra a parte da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola que contém aproximadamente 5.840 ha de reserva legal. Os incêndios ativos detectados em 24 de agosto estão dentro da área de reserva legal (Figura 2). De acordo com o Código Florestal Brasileiro, essa área deve permanecer intacta e coberta com vegetação nativa.

Figura 1. Parte da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso, Brasil

Nota: A área verde é Reserva Legal

Figura 2:  Incêndios detectados em 24 de agosto na Reserva Legal de uma parcela da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso, Brasil

Nota: A fumaça dos fogos ativos é visível na parte central e sul da fazenda. As molduras do lado direito mostram o zoom para os incêndios e fumaça.

Fogos ativos adicionais foram detectados no dia 29 de agosto ainda na reserva legal da Fazenda Perdizes (Figura 3). Alertas de desmatamento do GLAD na mesma área sinalizaram possível desmatamento.

Figura 3. Fogos detectados em 29 de agosto na Reserva Legal de uma parcela da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso, Brasil

Fonte: CRR monitora o desmatamento pelos principais desmatadores, como SLC Agricola, por meio do conjunto de dados geoespaciais internos do parceiro CRR Aidenvironment. Os analistas de ambiente identificam pontos críticos de desmatamento e rastreiam alertas de incêndio para cadeias de suprimentos de commodities com base em dados da empresa, registros públicos e conjuntos de dados de parceiros locais. Nota: A fumaça dos fogos ativos move-se para as áreas próximas da parte central e sul da fazenda.

Em março de 2021, a SLC Agrícola informou que deixará de converter novas áreas em todas as suas propriedades após a safra deste ano. O compromisso anterior da SLC Agrícola de deter o desmatamento do Cerrado em setembro de 2020 também levou à continuação do desmatamento, apesar de sua promessa de desmatamento zero. Conforme relatado pela CRR , a empresa foi a maior desmatadora no Cerrado em 2020, e seus maiores compradores incluem Cargill, Bunge e Amaggi (uma joint venture entre Louis Dreyfus, Grupo Amaggi e Zen-Noh). Todos os três têm compromissos de desmatamento zero e estão expostos ao risco de desmatamento devido às relações comerciais contínuas com a SLC Agrícola. A Cargill em particular enfrentou pressão comercial sobre seu papel no desmatamento no Brasil. Em julho de 2020, a Cargill declarou publicamente   que “o início deliberado de incêndios na Amazônia é inaceitável”. Os incêndios contínuos e o desmatamento violam os compromissos de desmatamento zero dos clientes da SLC Agrícola e de grande parte das indústrias que consomem soja.

A SLC Agrícola é financiada principalmente por investidores brasileiros e bancos com baixa pontuação em políticas ESG, de acordo com a Forests & Finance . Os grandes investidores são Odey Asset Management (US $ 49 milhões), Bradesco, Vanguard, Grupo XP e BlackRock. Grandes credores incluem Itaú Unibanco (US $ 13 milhões) e BNDES. Em 18 de junho de 2021, a SLC anunciou a parceria com o Rabobank em empréstimo de R $ 200 milhões vinculado às metas de sustentabilidade da empresa. O CRR manteve discussões com o Rabobank sobre este empréstimo. As metas e KPIs deste empréstimo para redução das emissões de carbono “referem-se à própria meta comunicada publicamente da SLC Agrícola de reduzir as emissões de carbono escopo 1 e 2 em 25 por cento em 2030, mas com um horizonte de tempo mais curto. Isso inclui o uso da terra e a mudança no uso da terra, e seguirá o GHG Protocol ”, de acordo com o Rabobank. Os dados atuais de incêndio analisados ​​nesta Rede parecem estar em conflito com as políticas de desmatamento do Rabobank , o que pode gerar engajamento.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Proteção da Amazônia pode influenciar resultado das eleições de 2022

80% dos brasileiros consideram que Amazônia deve ser prioridade para candidatos à presidência

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Uma nova pesquisa sugere que a Amazônia já faz parte dos temas que os eleitores brasileiros levarão em conta na hora de votar em 2022. Oito em cada 10 brasileiros (80%) consideram que essa deve ser uma prioridade para candidatos à presidência da República ano que vem. Divulgado às vésperas do Dia da Amazônia, o levantamento mostra que seis em cada dez brasileiros (58%) afirmam que um candidato à Presidência da República aumentaria as chances de atrair seu voto se apresentar um plano específico para a proteção da Amazônia. A pesquisa mostra também que para 79%, é muito importante proteger a Amazônia.

“Diversas pesquisas já comprovaram que o brasileiro se preocupa com a Amazônia e quer vê-la protegida, mas esta é a primeira vez que essa preocupação aparece como fator de influência na decisão de voto. E isso coloca o Brasil no roteiro global de países onde o Clima é tema forte nas eleições.”, destaca Ana Toni, Diretora-Executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), instituto que encomendou a pesquisa ao PoderData, realizada entre os dias 21 a 23 de agosto de 2021. “Três anos de níveis recordes de desmatamento e queimadas evidenciaram a relação direta que existe entre a destruição da Amazônia e a atual política governamental. Os resultados confirmam que a atuação de Bolsonaro é contrária à opinião pública da maioria dos eleitores”, analisa a Diretora do iCS.

Mesmo quando a preocupação é com o crescimento econômico do país, a maioria dos brasileiros acredita que isso está relacionado à proteção da Amazônia. De acordo com a pesquisa, sete em cada dez brasileiros (71%) concordam que o desenvolvimento do Brasil depende da proteção da Amazônia, demonstrando que o brasileiro está fazendo uma relação entre o “bolso” e o meio ambiente. Apenas 1 em cada 10 (11%) concordam que para o Brasil se desenvolver, proteger a Amazônia não é uma prioridade. E menos de 1 em cada 10 (6%) concordam que o Brasil consegue se desenvolver mesmo sem proteger a Amazônia. Isso demonstra que a maioria dos brasileiros compreendem a relação entre a proteção da Amazônia e o desenvolvimento do país e concordam que há uma conexão direta entre a preservação da floresta e o desenvolvimento nacional. A quase totalidade dos brasileiros (89%) acredita que é preciso conservar a floresta amazônica porque ela é a maior riqueza do Brasil.

Também é consenso entre os brasileiros (83%) que a Amazônia faz parte da identidade nacional do Brasil. “Isso demonstra que quase a totalidade da população entende que na conformação de um imaginário de identidade nacional do Brasil, está compreendida a Amazônia como elemento constitutivo dessa identidade. Logo, se a Amazônia faz parte da identidade nacional, cuidar dela é também cuidar da nossa identidade como nação”, avalia Ana Toni. A pesquisa revela ainda que a maioria dos brasileiros (77%) concorda que é preciso conservar a Amazônia porque o futuro do planeta depende da floresta em pé.

Perguntados sobre os responsáveis pela destruição da floresta, pouco menos de um quarto dos brasileiros (22%) apontam para o Presidente Jair Bolsonaro e 15% para o Governo Federal. Quando perguntados sobre quem deveria cuidar da Amazônia, os entrevistados apontam para Bolsonaro (24%) e o Governo Federal (43%) como tendo a maior responsabilidade pela proteção da Amazônia, seguidos pelos militares (12%) e Congresso Nacional (6%). E sobre a principal causa do atual desmatamento na Amazônia, 29% dos brasileiros afirmam que é a ocupação ilegal de terras.

A pesquisa revela ainda que para 71%, ou 7 em cada 10 brasileiros, Bolsonaro não está trabalhando bem para proteger a Amazônia. A pesquisa aponta também que para 87%, ou 9 em cada 10 brasileiros, o Congresso Nacional não está trabalhando bem para proteger a Amazônia.

Ficha Técnica:

A pesquisa foi realizada pelo Instituto PoderData, a pedido do Instituto Clima e Sociedade (iCS), entre os dias 21 e 23 de agosto de 2021, com brasileiros e brasileiras com 16 anos de idade ou mais, ponderados parametricamente para refletir a composição da população brasileira. Ao todo, foram 2.500 entrevistas em 449 municípios nas 27 unidades da Federação. A margem de erro estimada é de +/- 2,0 p.p. para resultados do total da amostra. O intervalo de confiança é de 95%.