Incêndios estruturais aumentaram 43,7% no Brasil em 2020

Monitoramento diário de ocorrências de incêndios no País, realizado pelo Instituto Sprinkler Brasil, contabiliza 1244 reportagens

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 As notícias de incêndios estruturais aumentaram consideravelmente em 2020.  É o que revela levantamento do Instituto Sprinkler Brasil, organização sem fins lucrativos que tem como missão difundir o uso de sprinklers nos sistemas de prevenção e combate a incêndios em instalações industriais e comerciais no País. Por meio do monitoramento diário de notícias de incêndios no Brasil, o Instituto conseguiu capturar 1244 ocorrências de incêndios estruturais de janeiro a dezembro do último ano, representando alta de 43,7% ante 2019, quando foram registradas 866 notícias.

Os números representam uma alta progressiva em comparação com 2018, quando foram capturadas 531 reportagens, acionando um alerta para a falha nas medidas de prevenção. “Por acompanhar o assunto há décadas, sei que o dado que coletamos pela imprensa é menor do que acontece oficialmente. Se o recorte já nos mostra que muita coisa precisa ser feita para que tragédias sejam evitadas, imagine se tivéssemos acesso às informações oficiais. Esses incêndios tradicionalmente acontecem por problemas de qualidade de equipamento, falta de manutenção, erros de projetos e de instalação, problemas de treinamento da mão de obra e falta de interesse, de modo geral, dos proprietários na proteção contra incêndio, que fazem somente o mínimo necessário para ser aprovado pelos bombeiros”, diz Marcelo Lima, diretor-geral do ISB.

Os sinistros contabilizados são os chamados “incêndios estruturais”, ou seja, aqueles que poderiam ter sido contornados com a instalação de sprinklers e ocorreram em depósitos, hospitais, hotéis, escolas, prédios públicos, museus, entre outros. O ISB não inclui nas estatísticas os incêndios residenciais, que apesar de também serem incêndios estruturais, não são objeto de acompanhamento porque a legislação de segurança contra incêndio não se aplica a residências unifamiliares, onde acontece o maior número de ocorrências.

Entre as diferentes categorias de estruturas, os estabelecimentos comerciais (lojas, shopping centers e supermercados) registraram o maior número de notícias na imprensa nos últimos três anos, seguidos pelos depósitos e as indústrias, como revela o gráfico abaixo.

A legislação de prevenção e combate a incêndios é estadual e está atualizada. A de São Paulo é uma das mais avançadas do País e serve de modelo para grande parte do Brasil. “A questão está em aplicá-la corretamente”, explica Marcelo Lima.

“O estado exige a instalação de sistemas de incêndio, mas não faz qualquer exigência quanto ao nível de qualidade dos equipamentos. Não há certificação, exceto para extintores. Com isso, temos sistemas instalados por todo o Brasil que atendem plenamente à legislação, mas que provavelmente não funcionarão e isso só será descoberto no pior momento, durante uma ocorrência de incêndio”, conclui Lima.

Uso de sprinklers ainda é tímido  

Uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos junto a empresas multinacionais e de capital nacional com mais de 250 funcionários a pedido do ISB, revelou que o grau de adoção de sprinklers nas empresas é baixo. Apenas 36% das 300 companhias entrevistadas pelo Ipsos disseram contar com sistemas deste tipo em suas instalações. 

O levantamento mostrou ainda que apenas 14% das entrevistadas disseram contar com sistema deste tipo em todas as suas unidades e 22% declararam contar com o sistema em apenas algumas unidades operacionais.

O estudo detectou que o uso de sprinklers é maior entre as multinacionais. 48% das empresas estrangeiras, com operações no país, ouvidas pelo levantamento, disseram ter sprinklers em suas operações. Entre as empresas nacionais, o índice é de 34%.

O porte também influi na aderência a este tipo de tecnologia. O índice de uso sprinklers em empresas com mais de 500 funcionários é de 45%. Entre empresas menores, com 250 a 499 funcionários, o percentual é de 28%.

  Sobre o ISB (Instituto Sprinkler Brasil)   

O Instituto Sprinkler Brasil (ISB) é uma organização sem fins lucrativos que tem como missão difundir o uso de sprinklers – também conhecidos como chuveiros automáticos – nos sistemas de prevenção e combate a incêndios em instalações industriais e comerciais no País. Fundado em 2011, o ISB defende o uso desta tecnologia como a medida mais eficaz de evitar perdas humanas e materiais.

Estudo mostra que mudanças climáticas estão relacionadas ao aparecimento do coronavírus

A população mundial de morcegos carrega cerca de 3.000 tipos diferentes de coronavírus.

MORCEGOSAs gerações futuras podem enfrentar uma “bomba-relógio” ambiental se a mudança climática tiver um efeito significativo nas reservas essenciais de água subterrânea. Cardiff University – Arquivo

Um novo estudo, publicado na revista Science of the Total Environment, fornece a primeira evidência de um mecanismo pelo qual as mudanças climáticas podem ter desempenhado um papel direto no surgimento do SARS-CoV-2, o vírus que causa a pandemia de COVID-19.

As emissões globais de gases de efeito estufa durante o século passado tornaram o sul da China um hotspot para coronavírus transmitidos por morcegos, alimentando o crescimento de habitat florestal favorecido por morcegos.

O estudo revelou mudanças em grande escala no tipo de vegetação na província de Yunnan, no sul da China, e nas regiões adjacentes de Mianmar e Laos, no século passado.

Mudanças climáticas, incluindo aumentos na temperatura, luz solar e dióxido de carbono atmosférico, que afetam o crescimento de plantas e árvores, mudaram os habitats naturais de arbustos tropicais para savanas tropicais e florestas decíduas. Isso criou um ambiente adequado para muitas espécies de morcegos que vivem predominantemente em florestas.

Espécie de morcego

A quantidade de coronavírus em uma área está intimamente relacionada ao número de diferentes espécies de morcegos presentes. O estudo descobriu que outras 40 espécies de morcegos se mudaram para a província de Yunnan, no sul da China, no século passado, abrigando cerca de 100 outros tipos de coronavírus transmitidos por morcegos. Este ‘hotspot global’ é a região onde os dados genéticos sugerem que o SARS-CoV-2 pode ter surgido.

“A mudança climática no último século tornou o habitat na província de Yunnan, no sul da China, adequado para mais espécies de morcegos”, diz o Dr. Robert Beyer, pesquisador do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e primeiro autor do o estudo, que recentemente ganhou uma bolsa de pesquisa europeia no Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, na Alemanha.

“Entender como a distribuição global das espécies de morcegos mudou como resultado da mudança climática pode ser um passo importante na reconstrução da origem do surto de covid-19”, ele destaca.

Para obter os resultados, os pesquisadores criaram um mapa da vegetação do mundo como era há um século, usando registros de temperatura, precipitação e cobertura de nuvens. Em seguida, eles usaram informações sobre as necessidades de vegetação das espécies de morcegos do mundo para calcular a distribuição global de cada espécie no início do século XX.

Comparar isso com as distribuições atuais permitiu-lhes ver como a ‘riqueza de espécies’ dos morcegos, o número de espécies diferentes, mudou em todo o mundo no século passado devido às mudanças climáticas.

“Quando as mudanças climáticas alteraram os habitats, as espécies deixaram algumas áreas e se mudaram para outras, levando seus vírus”, explica Beyer. Animais e vírus, fazendo com que vírus mais nocivos sejam transmitidos ou evoluam ”.

A população de morcegos do mundo carrega cerca de 3.000 tipos diferentes de coronavírus, com cada espécie de morcego abrigando uma média de 2,7 coronavírus, a maioria sem sintomas.

Um aumento no número de espécies de morcegos em uma determinada região, impulsionado pela mudança climática, pode aumentar a probabilidade de que um coronavírus prejudicial aos humanos esteja presente, transmitido ou evoluído ali.

Coronavírus

A maioria dos coronavírus transmitidos por morcegos não pode afetar humanos. Mas é altamente provável que vários coronavírus conhecidos por infectar humanos tenham se originado em morcegos, incluindo três que podem causar mortes humanas: síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) CoV e síndrome respiratória aguda grave (SARS) CoV-1 e CoV-2.

A região identificada pelo estudo como um hotspot para um aumento impulsionado pelo clima na riqueza de espécies de morcegos também é lar de pangolins, que supostamente atuaram como hospedeiros intermediários para SARS-CoV-2. O vírus provavelmente passou dos morcegos para esses animais, que mais tarde foram vendidos em um mercado de animais selvagens em Wuhan, onde ocorreu o surto humano inicial.

Os pesquisadores ecoam os apelos de estudos anteriores pedindo aos formuladores de políticas que reconheçam o papel da mudança climática nos surtos de doenças virais e abordem a mudança climática como parte dos programas de recuperação econômica da COVID-19.

“A pandemia da COVID-19 causou tremendo dano social e econômico. Os governos devem aproveitar a oportunidade para reduzir os riscos de doenças infecciosas para a saúde, tomando medidas decisivas para mitigar as mudanças climáticas”, explica a professora Andrea Manica, do Departamento de Zoologia da Universidade de Cambridge, que participou do estudo.

“O fato de que a mudança climática pode acelerar a transmissão de patógenos da vida selvagem para os humanos deve ser um alerta urgente para reduzir as emissões globais”, acrescenta o professor Camilo Mora, da Universidade do Havaí, que iniciou o projeto.

Os pesquisadores destacam a necessidade de limitar a expansão de áreas urbanas, fazendas e áreas de caça em habitats naturais para reduzir o contato entre humanos e animais transmissores de doenças.

O estudo também mostra que, ao longo do século passado, as mudanças climáticas também levaram ao aumento do número de espécies de morcegos nas regiões da África Central e em manchas espalhadas na América do Sul e Central. (EU)

Este texto foi originalmente escrito em espanhol e publicado pelo jornal El Télegrafo [Aqui].

Proibição de mineração em áreas próximas a mananciais venceu consulta popular em cidade do Equador

tariquilNa freguesia rural de Tarqui, Cuenca, as pessoas foram votar em massa. Foto: Lineida Castillo / EL COMERCIO

O sim triunfou na Consulta Popular realizada na cidade de Cuenca em meio às eleições presidenciais realizadas no dia de ontem, segundo dados preliminares do Conselho Nacional Eleitoral do Equador (CNE). A proibição de atividades de mineração em grande escala atingiu 80%.

A primeira questão era: Você concorda com a proibição da mineração de metal, em média e grande escala, na zona de recarga de água do rio Tarqui , conforme delimitação técnica feita pela Empresa Municipal Etapa EP? Sim ou Não.

As quatro questões restantes tinham o mesmo texto e apenas alteraram as zonas de recarga dos rios Yanuncay, Tomebamba, Machángara e Norcay.

Essa consulta popular foi promovida pelo Conselho Cantonal de Cuenca e aprovada pelo Tribunal Constitucional  em setembro de 2020.

Segundo o prefeito de Cuenca, Pedro Palacios , ainda há dados não oficiais porque o boletim de consulta é o último a ser apurado. Palacios disse que uma vez oficializados os dados, o Ministério do Ambiente deve validar o georreferenciamento destas cinco zonas de recarga de água, que a Empresa Municipal Etapa delimitou.

Posteriormente, o Conselho Cantonal deve incorporá-los ao Plano de Uso do Solo. Ou seja, ratificar as áreas onde a atividade de mineração não poderia ser realizada.

Ele prevê que o primeiro debate sobre o plano seja em abril ou maio e o segundo em junho ou julho. Por sua vez, o presidente da Câmara de Mineração de Azuay, Patricio Vargas , reconheceu a derrota. Disse que agora espera que as disposições do Tribunal Constitucional sejam cumpridas. Entre outras condições, garantiu, é que a consulta não tenha efeito retroativo, por isso não afetaria projetos como o Loma Larga.

Além disso, acrescentou Vargas, que o Órgão de Águas certifica a delimitação das zonas de recarga de água e que o Município atua no estrito âmbito de suas atribuições. “Você não pode reivindicar funções que não possui. Não pode decidir interromper as atividades de mineração, que já estavam operacionais ”.

O prefeito Palacios disse que seus assessores jurídicos ratificaram que não se trata de uma reversão de concessão e “na verdade há partes ou locais de concessões que estariam fora das zonas de recarga de água, portanto, se houver depósitos lá, eles poderiam explorá-los”.

Mas Palacios insistiu que a consulta é clara porque a proibição de exploração está estabelecida e, atualmente, nenhum projeto está nessa fase, mas em exploração. Segundo ele, o Loma Larga , por exemplo, como não está em operação, não pôde passar para essa fase nas áreas definidas pela consulta.

O prefeito de Cuenca disse que, em caso de dúvidas, o Tribunal Constitucional será consultado .

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Este texto foi originalmente escrito em espanhol e publicado pelo jornal “El Comércio” [Aqui!].


Ex-presidente do INPE, físico Ricardo Galvão, ganha prêmio internacional “de Liberdade Científica e Responsabilidade” pela defesa dos dados de desmatamento da Amazônia

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Ricardo Galvão em frente do no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983. | SEESP

Por  Adam D. Cohen

Ricardo Galvão, o físico brasileiro que perdeu o cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) após defender seus dados sobre o desmatamento na floresta amazônica, receberá o prêmio 2021 de Liberdade e Responsabilidade Científica da Associação América para Avanço da Ciência (AAAS).

O Prêmio AAAS de Liberdade e Responsabilidade Científica homenageia cientistas que demonstraram liberdade científica e / ou responsabilidade em circunstâncias particularmente desafiadoras, às vezes em risco para sua segurança profissional ou física. Quando o presidente brasileiro Jair Bolsonaro atacou a legitimidade de um relatório destacando um aumento dramático no desmatamento na Amazônia, Galvão se manteve atrás dos números, uma decisão que lhe custou o emprego.

“O professor Galvão defendeu a ciência sólida em face da hostilidade”, disse Jessica Wyndham, diretora do Programa de Responsabilidade Científica, Direitos Humanos e Direito da AAAS. “Ele agiu para proteger o bem-estar do povo brasileiro e da imensa maravilha natural que é a floresta amazônica, um patrimônio mundial.”

O  INPEj, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do país, tem reputação internacional como líder no uso de satélites para detectar extração ilegal de madeira e queimadas em florestas tropicais. O Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real da agência pode detectar o desmatamento ilegal com rapidez suficiente para dar às autoridades policiais a chance de pará-lo.

Em 4 de julho de 2019, liderado por Galvão, o INPE publicou relatório mostrando que houve um aumento de 88% no desmatamento na Amazônia em junho de 2019 em comparação com o mesmo mês do ano anterior. O relatório citou uma possível ligação entre a eleição de Bolsonaro e o aumento pronunciado da degradação da terra. Bolsonaro concorreu à presidência em uma plataforma pró-desenvolvimento e começou a afrouxar as regulamentações ambientais imediatamente após assumir o cargo no início de 2019.

Em comentários feitos a jornalistas em 19 de julho, Bolsonaro acusou Galvão de mentir e estar “a serviço de alguma organização não governamental”. Na época, dados do INPE mostravam que um total de 4.701 km2 de terras haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2019, um aumento drástico em relação aos 2.809 quilômetros quadrados que haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2018. Galvão negou veementemente as afirmações de Bolsonaro , chamando-os de “não adequados para um presidente do Brasil”.

Bolsonaro, no entanto, continuou o ataque. Durante entrevista coletiva em 1º de agosto, ele afirmou que os números foram fabricados “para atacar o nome do governo e do Brasil”. Em seguida, o INPE divulgou nota para “reafirmar sua confiança na qualidade dos dados”, e Galvão foi demitido no dia 2 de agosto. Ele continua a atuar como professor de física aplicada na Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983.

Desde sua saída do INPE, Galvão não para de se pronunciar contra o que considera a hostilidade de Bolsonaro à ciência. A revista Nature nomeou o físico brasileiro como das “pessoas que mais importavam em ciência em 2019.”

“Não apenas como cientista, mas como cidadão brasileiro, estou muito preocupado com o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia”, disse Galvão em uma entrevista de agosto de 2019 ao Eos . “O líder de qualquer país deve estar ciente de que em assuntos científicos não há autoridade acima da soberania da ciência.”

AAAS estabeleceu o Prêmio de Liberdade e Responsabilidade Científica em 1980. As realizações que reconhece incluem agir para proteger a saúde, segurança ou bem-estar do público; concentrar a atenção do público em questões importantes relacionadas à pesquisa científica, educação e políticas públicas; e estabelecer precedentes importantes no desempenho das responsabilidades sociais dos cientistas ou na defesa da liberdade profissional dos cientistas e engenheiros.

Ricardo Galvão receberá o prêmio em uma cerimônia virtual no dia 10 de fevereiro, durante a 187ª Reunião Anual da AAAS. AAAS começará a aceitar nomeações para o prêmio de 2022 em 15 de abril. Mais informações sobre os requisitos de elegibilidade podem ser encontradas  aqui.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado no site oficial da AAAS [Aqui!].

Trabalhadores britânicos se juntam a ambientalistas para cobrar transição ecológica na aviação

Relatório divulgado hoje (8/02) critica socorro financeiro ao setor sem contrapartidas sociais e ambientais

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O Sindicato dos Serviços Públicos e Comerciais do Reino Unido (PCS), um dos maiores e mais atuantes do país, publicou nesta segunda-feira (08/02) um relatório que alerta para a vulnerabilidade dos postos de trabalho dos setores de aviação e turismo diante da crise climática. Segundo o documento, já está claro que a descarbonização desses segmentos é inevitável, mas as mudanças podem afetar severamente os interesses dos trabalhadores se não houver um projeto justo de transição.

O estudo, intitulado “Uma transição rápida e justa na aviação:  Mudança para uma mobilidade climaticamente justa” foi realizado pelo PCS em parceria com a rede global Stay Grounded, formada por 170 organizações globais pelo clima.

O ponto de partida da pesquisa é a crise provocada pela Covid-19, que imobilizou o tráfego aéreo. Segundo o documento, até agosto de 2020 governos ou entidades apoiadas por governos de 57 países destinaram cerca de 137 bilhões de euros para socorrer linhas aéreas durante a pandemia, sem contrapartidas ambientais e sociais. Apesar do socorro às empresas, ao menos 400 mil pessoas no setor de aviação foram demitidas nesses países, além de um número ainda maior de trabalhadores que tiveram redução de salários ou novos contratos em condições menos vantajosas.

A aviação é a modalidade de transporte de passageiros que mais contribuiu para o aquecimento global e também a que manteve, antes da pandemia, o ritmo de crescimento mais acelerado de emissão de gases de efeito estufa, diz o documento. As viagens de negócios normalmente representam entre 60% e 70% da receita das companhias aéreas, apesar de responderem apenas por 12% do número de passageiros. Os lucros oriundos das viagens de negócios permitiram que as companhias aéreas subsidiassem massivamente seus assentos econômicos, gerando um boom nos voos baratos de lazer desde o início do século XXI. Com as empresas forçadas a se adaptar às reuniões online e ansiosas para cortar custos desnecessários, analistas agora sugerem que todo este modelo de negócio está acabado.

O relatório divulgado hoje reconhece que a aviação que havia antes da pandemia se tornou inviável por questões econômicas e pela imposição de metas climáticas mais ambiciosas nas principais economias do mundo. Os autores defendem uma reformulação completa do setor aliada a outras transformações econômicas e de estilo de vida da população. E muitos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) já planejam a reconstrução do turismo em bases mais sustentáveis.

A aviação é um segmento de difícil descarbonização, diz o documento, e as soluções de tecnologias verdes, como a eletrificação de aeronaves, ainda estão muito distantes de estarem disponíveis. “É por isso que a redução das emissões da aviação exige uma diminuição significativa dos voos dos níveis pré-COVID-19”, defende o texto. “Uma possível tecnologia futura não deve ser uma desculpa para não agir agora.”

No ano passado, a Stay Grounded promoveu a campanha “Salve pessoas, não aeronaves” (#SavePeopleNotPlanes) que foi endossada por 350 organizações da sociedade civil e teve o apoio individual de 100 mil pessoas. A campanha destacou análises econômicas que apontaram o resgate do setor aéreo sem contrapartidas sociais e ambientais como a modalidade de socorro financeiro com menor retorno econômico entre os países do G20.

ArcelorMittal aciona plano de emergência e prejudica centenas de moradores em Itatiaiuçu (MG)

2 anos da lama invisível em Itatiaiuçu/MG! Plano de emergência da ArcelorMittal retirou famílias das casas e as mantém, até hoje, sem reparação!

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Hoje (8/2) se completam dois anos do acionamento do Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM) da ArcelorMittal em Itatiaiuçu (MG) (região metropolitana de Belo Horizonte), que removeu 205 famílias da Zona de Autossalvamento (ZAS) da barragem, com 84 moradores tendo sido retirados de suas casas.

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Dentro da ZAS estão 205 núcleos familiares que declararam sofrer danos e ter terrenos. Desses 205 núcleos familiares, 84 núcleos familiares foram completamente desalojados.  Esses desabrigados tiveram que sair de suas casas e estão morando em casas alugadas pela ArcelorMittal. Em sua maioria são caseiros(as), proprietários e moradores(as).

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A Assessoria Técnica Independente da Aedas em Itatiaiuçu construiu com a participação das pessoas atingidas a Matriz de Danos e a primeira etapa do Plano de Reparação Integral dos danos sofridos. Os documentos foram entregues para a Arcelor Mittal e estão em análise pela empresa. Está acordado que até 05 junho de 2021 seja assinado o Termo de Acordo Complementar, sob coordenação do judiciário que deverá contemplar todo o Plano de Reparação Integral dos danos individuais sofridos em razão do acionamento do Plano de Emergência. As negociações irão continuar durante este período.

Mas no dia de hoje, a comunidade atingida apresenta suas pautas de reivindicação à Arcelor Mittal :

– Reparação integral de todos os atingidos.

– Celeridade na aceitação da matriz de danos e início das indenizações.

– Manutenção digna dos terrenos da ZAS.

– Ações emergenciais para comerciantes e moradores das comunidades atingidas.

– Manutenção do auxílio emergencial como não-indenizatório por mais um ano.

– Que acionamento do PEABM não sirva de moeda de troca para adquirir nossos terrenos.

– Respeito à vontade e demandas dos atingidos.

– Sem passagem de transportes ou maquinários para construção do dique pela comunidade de Lagoa das Flores.

Esta postagem foi produzida com informações fornecidas pelo Movimento dos Atingidos por Barragens.

Reestruturação tributária: que os ricos paguem mais

Dentre do mega pacote de projetos que governo Bolsonaro enviou  ao congresso após a vitória de Bruno Pacheco e Arthur Lira está uma mensagem para realizar a chamada “Reforma Tributária”  que mudaria a forma de cobrança e distribuição dos recursos auferidos com o recolhimento de impostos no Brasil.  Ainda que o teor desse projeto específico ainda não seja plenamente conhecido, posso antecipar que ele não deverá corrigir (e talvez agravar) o cerne do problema tributário brasileiro: os pobres pagam impostos de mais, e os ricos quase não pagam nada.

Tomemos, por exemplo, o caso do Imposto  Predial e Territorial Urbano (IPTU) que acaba de ser majorado em todas as cidades brasileiras, inclusive aqui em Campos dos Goytacazes. Se olharmos o carnê que cada proprietário recebeu, veremos que com certeza a distorção de valores entre áreas ocupadas pelas classes mais ricas em relação aos bairros periféricos. 

Neste caso específico, o eleitor de Guarus, justamente o que elegeu Wladimir Garotinho têm serviços da Bangladesh enquanto paga impostos de Bélgica, enquanto que os da Pelinca vivem o contexto diametralmente oposto.

O caso de Campos dos Goytacazes é um excelente exemplo para ilustrar o fato de apesar do habitantes ricos das cidades brasileiras se doerem com os valores ínfimos de impostos que pagam, é sobre os mais pobres que o cutelo tributário sempre cai mais pesado.

Aliás, se olharmos outros impostos básicos, como no caso do Imposto de Renda, veremos a manutenção desse caráter regressivo do sistema de impostos brasileiros, onde a cobrança é mais pesada relativamente sobre os assalariados do que sobre os ultrarricos.  Em função disso é que qualquer reajuste nas tabelas de cálculo do imposto de renda é empurrado com a barriga pelos governos de plantão, a imensa maioria deles diretamente alinhados com os interesses dos donos do capital que se refastelam com a especulação financeira.

As distorções do caso brasileiro ficaram ainda mais evidentes no tratamento da crise causada pela pandemia da COVID-19 quando o custo da distribuição de paliativos financeiros para os que perderam seus empregos foi retirado do orçamento da União, prejudicando áreas estratégicas como saúde, educação e ciência e tecnologia, sem que se cogitasse como ocorreu na Argentina a taxação das grandes fortunas. E não custa nada lembrar que durante a pandemia em curso houve um aumento das fortunas dos bilionários brasileiros, a começar pelo setor da saúde.

A falta de uma discussão sobre a natureza distorcida do sistema tributário brasileiros é um dos calcanhares de Aquiles das estratégias adotadas até aqui para corrigir as abissais diferenças sociais existentes no nosso país, deixando os ricos livres para especular livremente no sistema financeiro, e chorar suas lágrimas de crocodilo quando se menciona a necessidade de se mudar radicalmente a distribuição dos custos dos tributos no Brasil. 

Estudo aponta que aquecimento global é responsável pela ameaça de enchente mortal no Peru

Lago PalcacochaO estudo descobriu que o aquecimento induzido pelo homem causou entre 85% e 105% do aumento de 1C observado na temperatura na região desde 1880. Isso, por sua vez, causou o recuo da geleira Palcaraju. Fotografia: Dan Collyns / The Guardian

Por Dan Collyns em Lima para o “The Guardian”

O aquecimento global causado pelo homem é diretamente responsável pela ameaça de uma inundação devastadora no Peru, que é objeto de um processo contra a empresa de energia alemã RWE , de acordo com uma nova pesquisa inovadora.

O estudo estabelece ligações entre as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo homem e o risco substancial de uma inundação perigosa no Lago Palcacocha , no alto dos Andes peruanos. A enchente resultante provocaria um deslizamento de terra mortal, inundando a cidade de Huaraz e ameaçando cerca de 120.000 pessoas no seu caminho.

Os litigantes do clima dizem que a pesquisa publicada na Nature Geoscience pode ser a chave para responsabilizar os principais poluidores por sua contribuição para a mudança climática.

Rupert Stuart-Smith, o principal autor do estudo, diz: “[Isso] mostra que o aquecimento causou o recuo da geleira Palcaraju que, por sua vez, aumentou o risco de inundação.

“Crucialmente, isso estabelece uma ligação direta entre as emissões e a necessidade de implementar medidas de proteção agora, bem como quaisquer danos causados ​​por inundações no futuro.”

Em 2017, juízes em Hamm, Alemanha, fizeram história legal ao aceitar um caso movido pelo fazendeiro Saúl Luciano Lliuya contra a RWE, o maior fornecedor de eletricidade da Alemanha, pedindo $ 20.000 (£ 14.660) pelos custos de prevenção de danos de uma possível inundação do lago. Os juízes estão examinando as evidências.

Roda Verheyen, advogada ambientalista de Hamburgo que representa Lliuya, disse esperar que o estudo “forneça evidências de causa e efeito que possam ser usadas em tribunais em todo o mundo”.

“Dado que o tribunal na Alemanha já aprovou que, legalmente, há responsabilidade pelos principais emissores, isso teria uma influência em todos os lugares”, disse ela ao Guardian.

Noah Walker-Crawford, um antropólogo da Universidade de Manchester que atua como consultor externo da Germanwatch sobre litígios climáticos, disse que o estudo “fornece mais suporte ao argumento de que a RWE contribuiu para o risco de inundação de lagos glaciais no Peru e deve ser responsabilizada financeiramente ”.

“Uma decisão a favor de Saúl Luciano Lliuya abriria um precedente significativo para futuras reivindicações contra grandes emissores”, acrescentou.

“Embora o caso de Luciano Lliuya diga respeito a uma pequena quantia de cerca de US $ 20.000, as reivindicações futuras podem ser na casa dos bilhões.”

O estudo descobriu que os aumentos de temperatura induzidos pelo homem causaram entre 85% e 105% do aquecimento 1C observado na região desde 1880. Isso, por sua vez, causou o recuo da geleira Palcaraju. As geleiras andinas , das quais cerca de 70% estão no Peru, estão entre as calotas polares das montanhas em recuo mais rápido e um dos impactos mais visíveis da crise climática.

O professor Gerard Roe, autor do estudo e pesquisador da Universidade de Washington, disse: “As enchentes ameaçam comunidades em muitas regiões montanhosas, mas esse risco é particularmente grave em Huaraz, bem como em outros lugares nos Andes e em países como Nepal e Butão , onde as populações vulneráveis ​​vivem no caminho das potenciais águas de inundação. ”

Esta não é a primeira vez que o Lago Palcacocha ameaça Huaraz. Em 1941, um pedaço de gelo se desprendeu da geleira em um terremoto, caindo no lago. O impacto causou uma enchente, matando cerca de 1.800 pessoas. O estudo também descobriu que essa inundação é influenciada pela mudança climática induzida pelo homem – tornando-se um dos primeiros impactos fatais da mudança climática a ser identificado globalmente.

“Uma série de novas ações judiciais estão tentando responsabilizar as empresas de alta emissão pelos custos das mudanças climáticas”, disse o professor Thom Wetzer, diretor fundador do Oxford Sustainable Law Program.

“Agora cabe aos litigantes traduzir a ciência em argumentos jurídicos de alto impacto. Quer este caso em particular prossiga ou não, ele mostra que há um enorme potencial para alavancar o poder da lei para responsabilizar as empresas privadas pelos impactos relacionados às mudanças climáticas. ”

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Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo “The Guardian” [Aqui!].

Parece revolução, mas é só neoliberalismo

O professor universitário em meio às cruzadas autoritárias da direita e da esquerda

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Escárnio, trabalho de Hirotoshi Ito, e os universitários: usando camuflagens progressistas, a esquerda está transformando os alunos em consumidores e os servidores públicos em serviçais  

Por  Benamê Kamu Almudras

Um amigo que leciona na área de humanas em uma grande universidade pública paulista, ao chegar para a sua aula em um curso de pós-graduação, percebeu um burburinho inusual entre os alunos. Perguntou-lhes se estava tudo bem, e um deles disse: “Não. Estamos fazendo um motim.” Outros expuseram o motivo da rebelião: a excessiva carga de leitura da disciplina. Meu amigo ficou surpreso, pois a carga de leitura era pequena. Os alunos tinham que ler e debater semanalmente apenas dois ou três projetos de colegas, cada um com vinte páginas no máximo.

O professor perguntou se os alunos teriam alguma sugestão para resolver o problema. Eles propuseram que cada um escolhesse por conta própria os projetos que quisesse ler e os colegas com quem discutir, formando pequenos grupos auto-organizados. Dessa forma, terminariam o semestre mais cedo. Atordoado, o professor disse que pensaria no assunto, para então negociar uma solução satisfatória para todos. Mas um aluno retrucou: “Não, professor. Você sempre quer negociar. O que nós queremos é romper hierarquias e questionar o seu poder.” O professor respirou fundo, disse que lhes escreveria a respeito mais tarde e continuou sua aula.

Depois de consultar colegas e enfrentar uma noite mal dormida, o professor respondeu aos alunos, dizendo que manteria a dinâmica inicial do curso. Vários alunos lhe enviaram longos e-mails de protesto, qualificando sua decisão como autoritária e reivindicando que a vontade deles fosse respeitada. Tomados por um misto de revolta e euforia, diziam estar lutando pela democratização da universidade e contra as estruturas de poder.

Na aula seguinte, o professor apontou aos alunos a pouca razoabilidade das demandas que faziam e explicou a importância da leitura e do diálogo intelectual para a formação de cada um. Resolveu tornar opcional a participação no resto do semestre. Para sua surpresa, ninguém deixou o curso. Os participantes do motim – um terço da turma – lhe pediram desculpas e agradeceram a preleção. Final feliz.

Só que não. Narro esse episódio (sem citar nomes para não expor as pessoas) porque, a meu ver, ele exemplifica um fenômeno mais geral que tem ganhado força e se tornado mais frequente nas universidades brasileiras e do exterior. Para descrevê-lo, tomo emprestada do mesmo amigo uma expressão usada por ele em sua preleção aos revoltosos. Adaptando uma famosa frase de Renato Russo (“Parece cocaína, mas é só tristeza”), esse professor disse aos alunos sobre o motim: “Parece revolução, mas é só neoliberalismo.” A primeira metade dessa analogia é, claro, puramente metafórica: refere-se à agitação política dos alunos. A segunda é metonímica, pois o neoliberalismo é fonte de tristeza e angústia para qualquer pessoa que tenha apreço pela educação pública e por ideias progressistas.

A rebelião contra esse professor é um exemplo de atitude neoliberal da parte dos estudantes. Não me refiro ao neoliberalismo como ideologia político-econômica, mas como forma cultural, em que o mercado, a ética individualizante e o espírito do consumismo são erigidos como o modelo cognitivo e normativo da vida social. Apesar de os alunos apresentarem sua pauta como democrática ou mesmo subversiva, o que eles estavam de fato exigindo era que a universidade fosse como um supermercado ou um restaurante, onde quem decide o que consome (que textos ler), quanto consome (quantos textos ler), por quanto tempo consome (quantas aulas ter) e como consome (como as aulas devem ser) são os consumidores. Subjacente à revolta estava a ideia de que o professor tem função parecida à de um gerente de hotel ou um alfaiate: servir ao cliente e satisfazer seus desejos. E o cliente, sabemos, tem sempre razão!

O episódio que narrei pode ter sido particularmente teatral e pedagógico, mas abundam casos semelhantes nas universidades. Em uma instituição pública fluminense da área de saúde, um aluno exigiu que o programa de pós-graduação desse aos estudantes garantias (termo tipicamente mercantil) de que todos terminariam seu doutorado com êxito. Levando ao extremo a mesma suposição de que o título (note bem, o título, e não o acesso à educação) é um direito de todos, uma aluna de história de uma universidade pública europeia que não escreveu sua tese de doutorado processou o departamento onde estudou, exigindo o diploma ou uma indenização pelo tempo investido (um termo-fetiche do neoliberalismo).

Outra professora de uma universidade pública localizada no Planalto Central recebeu de um aluno um e-mail em que ele declarava ter decidido que o melhor para ele seria não escrever o trabalho final da disciplina – e solicitava ser aprovado mesmo assim. Uma amiga que leciona ciências exatas em uma universidade mineira recebeu de seus alunos uma lista de temas que eles queriam ver tratados na palestra a ser dada por uma pesquisadora visitante. No meio da pandemia, um pós-graduando – bolsista com dedicação exclusiva – enviou uma mensagem de última hora a seu orientador, dizendo que não participaria de uma reunião online de seu grupo de pesquisas porque estava cansado.

Outra colega, da área de comunicação social e residente em uma grande cidade do Nordeste, se assustou quando um aluno de graduação criticou duramente em aula um importante texto que ele não tinha lido nem queria ler, pois tinha ouvido falar mal do autor em um documentário (outro fetiche neoliberal: o consumo doméstico de informação midiática). Quando a professora retrucou, dizendo que o aluno não poderia atacar o texto sem tê-lo lido, ela foi acusada de autoritarismo.

Parece, entretanto, que, aos olhos de tão exigentes consumidores, os professores também podem errar ao propor mais diálogo. Um estudante de ciência política questionou em público o método didático de um colega (baseado em discussões e debates) e solicitou que o professor desse mais aulas expositivas. Alegou que era muito disperso e se perdia ao ouvir os colegas. A mim um aluno sugeriu que eu modificasse o programa de um curso porque ele achava parte da bibliografia “maçante”. É também corriqueira a impolidez de pós-graduandos brasileiros, que não agradecem a seus orientadores por esforços que foram muito além de suas obrigações, não pedem desculpas por falhas que cometem e exigem reuniões, atestados e assinaturas, amiúde com prazos impraticáveis, em vez de pedi-los com boa antecedência e de forma cortês, como se espera em interações com professores, colegas, amigos e… prestadores de serviços.

Não uso estes últimos termos por acaso. A privatização do público denunciada por Hannah Arendt é hoje uma realidade tão abrangente e onipresente que, como o ar que respiramos ou como o diabo que vive nos detalhes, já nem a percebemos mais. Quando a coletividade política se transforma em um conjunto de indivíduos-consumidores competindo no mercado, perde-se a ideia de que o professor é um servidor público dedicado a formar cidadãos instruídos e qualificados. Mesmo na educação pública, e entre aqueles que falam em seu nome, cresce o desejo de que ela passe a servir, de modo neoliberal, a esse consumidor autocentrado e oportunista que busca minimizar custos e maximizar benefícios. Assim, o professor universitário é tratado cada vez menos como um servidor público e cada vez mais como um prestador de serviços a indivíduos – um serviçal privado.

A força do neoliberalismo como fenômeno cultural se revela até nos ambientes mais progressistas, entre pessoas identificadas (por elas mesmas e por outros) como sendo de esquerda e que dizem estar lutando contra injustiças sociais. Mais assustador é que tais pessoas apresentam sua fantasia neoliberal como se fosse um projeto emancipador. Com isso, expande-se a suposição devastadora de que o professor, caso não aceite o papel de um serviçal privado, só pode ser um opressor.

Suspeito que isso se deva, em parte, à maneira distorcida como alguns alunos veem a assimetria inerente à educação, imaginando que os corpos docente e discente são como classes sociais – de um lado, a classe exploradora; de outro, a explorada. Eles supõem que o professor detenha uma superioridade essencial e que a posição de aluno seja involuntária e permanente. Esquecem que ninguém nasce professor e que a assimetria da sala de aula é contextual e temporária. O professor é apenas alguém com mais experiência e conhecimento em determinada área, e não um sujeito social dotado de um poder inerente ou de mais conhecimentos genéricos que os alunos. Aliás, muitos alunos de universidades públicas com atitudes como as que descrevi têm eles próprios a intenção de seguir a carreira docente, o que torna ainda mais absurda a identificação que fazem do professor com o opressor.

Essa identificação enganosa provavelmente se deve também ao perfil demográfico do corpo docente. A despeito de variações que possam ocorrer nas diferentes instituições e áreas de conhecimento, há em geral, entre professores universitários, uma sub-representação de grupos discriminados e oprimidos por razões raciais, étnicas, religiosas, de gênero, de sexualidade ou de classe. Como muitos alunos são afetados por essas discriminações, não é de estranhar que alguns vejam seus professores como sujeitos privilegiados e dotados de grande poder.

Se isso ajuda a explicar a visão de que o professor é um opressor, é certo que não a justifica, pois há vários problemas nessa concepção. Primeiramente, ela ignora a desigualdade de posições sociais e institucionais entre professores, pois pressupõe que todos somos oriundos de setores sociais dominantes ou privilegiados, ou associados a eles. Embora algumas formas de hierarquização e discriminação sejam facilmente visíveis e identificáveis, outras não são. Há, por exemplo, muitos professores de universidades conceituadas que passaram por grandes dificuldades econômicas em sua juventude, sofreram preconceito e opressão ao longo da vida e, por terem estudado em universidades de menor prestígio (ou até de mais prestígio, mas estrangeiras), nunca são plenamente aceitos como pares por seus colegas, que julgam ter melhor pedigree social e acadêmico. E, dadas as desigualdades de ordem salarial, origem geográfica e classe entre professores, muitos enfrentamos dificuldades materiais reais, além do desprestígio social que marca toda a categoria.

Fora isso, a identificação do professor com o opressor e as revoltas contra docentes fazem com que se gaste tempo e energia atacando pessoas que, na maior parte das vezes, são aliadas dos alunos e lutam pelas mesmas bandeiras que eles, a começar pela defesa de uma universidade pública mais justa, inclusiva e democrática. O motim que descrevi no início deste texto, por exemplo, aconteceu em 2017, quando a democracia se deteriorava e o autoritarismo crescia aceleradamente no Brasil. Tenho certeza de que os revoltosos viam a situação nacional com a mesma preocupação que seu professor, mas preferiram usar seu tempo e energia lutando por “causas” miúdas como os supostos direitos de estudar menos e de decidir o que ler. Há algo de muito errado e perigoso quando estudantes tentam transformar em pauta política a redução do rigor e da qualidade da educação.

Grave é também o desvio feito pela ofensiva política progressista quando ela passa a atacar seus aliados. A expressão mais atroz dessa deturpação é a proliferação de acusações infundadas de racismo, sexismo, classismo, homofobia e transfobia feitas contra professores. Todas as denúncias desse tipo devem ser levadas a sério e investigadas, pois disso depende a luta por uma universidade mais justa e inclusiva. Sabendo que preconceitos e assédios são uma realidade cotidiana da academia, como de tantas outras áreas, defendo veementemente a importância política dessas denúncias e o direito de todas as pessoas de fazê-las.

O fato de que o racismo, o sexismo, o classismo, a homofobia e a transfobia sejam frequentes nas escolas não significa, porém, que todas as denúncias sejam verdadeiras. Pode-se dizer o mesmo, imagino, de outros ambientes profissionais, mas esse fenômeno ganha contornos específicos no caso da universidade. Embora raramente tenhamos a coragem ou o interesse de falar disso em público, não é segredo para acadêmicos brasileiros e estrangeiros que parte dessas acusações são atos oportunistas de pessoas movidas por objetivos mais imediatos e pouco louváveis, como obter uma aprovação não merecida, diminuir a carga de estudo e conseguir facilidades na concessão de um diploma. A manipulação de injustiças, violências e exclusões para benefício individual é talvez a expressão mais feroz e perversa da neoliberalização cultural da educação pública.

A refinada perversidade dessa manipulação interesseira se dá em diferentes níveis. Para começar, os professores mais comumente acusados são os que estão em situações profissionais mais frágeis, em estágios iniciais da carreira, sem grandes vantagens imediatas a oferecer a seus alunos e cuja destruição moral não traz prejuízo a seus difamadores. Outro alvo comum de acusações infundadas são professores oriundos de grupos sociais discriminados e fragilizados. O preconceito de alguns indivíduos contra o próprio grupo oprimido é uma triste realidade, mas o que quero salientar é que muitas vezes os professores mais atacados e desrespeitados – por calúnia e difamação, assim como por outros atos cotidianos e discretos – são os mais desprovidos de poder, tanto dentro quanto fora da universidade.

Outras vítimas preferenciais são professores altamente mobilizados por questões políticas. Um professor de filosofia pós-colonial ou de história contemporânea tem muito mais probabilidade de ser atacado por uma afirmação que algum aluno considere inapropriada do que um professor de filosofia medieval ou de história antiga. Abundam os casos de professores feministas e ativistas de direitos LGBTQIA+ acusados de sexismo, homofobia e transfobia por darem aula sobre textos tidos como politicamente inapropriados ou por cometerem eventuais deslizes de linguagem passíveis de punição pela impiedosa e infatigável milícia do vocabulário.

Recentemente um professor de uma respeitada universidade pública do Sudeste, especializado em pensamento afro-atlântico, foi chamado de racista por uma mestranda. Ela havia sido reprovada em sua disciplina por não frequentar as aulas, não apresentar um seminário obrigatório, não escrever o trabalho final e não responder a repetidas tentativas de contato. O oportunismo da calúnia fica evidente ao sabermos que a aluna só fez a denúncia seis meses depois de sua reprovação, e no momento que estouraram os recentes protestos antirracistas nos Estados Unidos. Mordendo a isca, os defensores dela não se furtaram a equiparar a reprovação ao brutal assassinato de George Floyd! Quando foi demonstrado que a denúncia era falsa, outro aluno de “pós” – de pós-graduação e de pós-verdade – defendeu os ataques dizendo que, sendo o professor um homem branco (aliás, abertamente gay e em estágio probatório na universidade), não importava se as acusações eram verdadeiras ou não. Se o professor fosse menos forte e decidido, talvez tivesse deixado de dedicar seu ensino e pesquisa a questões raciais, e a luta antirracista teria perdido, graças ao neoliberalismo de esquerda, um aliado em uma instituição de grande visibilidade.

O uso oportunista e individualista de questões sociais seríssimas prejudica a luta política não apenas por alimentar as conhecidas reações conservadoras e preconceituosas, mas também por silenciar vozes aliadas e privatizar bandeiras coletivas fundamentais. Muitas vezes as acusações são tão egocêntricas que supõem que, caso um indivíduo não seja beneficiado da maneira que exige, isso demonstra que toda sua categoria está sendo prejudicada. Há casos em que um candidato a pós-graduação, ao não ser admitido em processos seletivos com cotas para grupos discriminados (como todos os programas devem incluir), afirma que sua não admissão é sintoma de preconceito – mesmo que, obviamente, a vaga que ele não obteve seja destinada a outra pessoa da mesma categoria (vemos aqui o problema do fogo amigo: programas que não praticam ações afirmativas não correm o risco desse tipo de acusação e seu racismo passa incólume). É mais uma vez o “eu” autocentrado exigindo direitos de consumidor, sequestrando e usando como disfarce o “nós” coletivo que reivindica direitos sociais justos e corretos.

Essa privatização é mais uma expressão do poder do neoliberalismo cultural no ensino público. Ao contrário do que afirmam alguns, tal privatização não defende a educação: nega a própria ideia de educação. Não é à toa que muitos estudantes (mas não apenas eles) julgam que o incontestável direito à educação equivale a um suposto direito universal a um título, o bem maior almejado pelos consumidores da universidade. Tive a oportunidade de ler várias cartas de alunos, endereçadas a professores e a instituições, que defendiam não tanto o direito de estudar, mas sobretudo o de receber um diploma acadêmico, independentemente do mérito do estudante. Reivindicações desse tipo, fantasiadas de luta democrática e igualitária, negam o pressuposto de que algumas pessoas têm certos conhecimentos específicos que podem ensinar a outras, em geral mais jovens, que ainda não os têm – e que para adquiri-los é preciso estudar. Tais reivindicações impedem a formação de cidadãos esclarecidos e transformam o direito à educação em direito a boas notas, aprovações e títulos.

Mas a força do neoliberalismo cultural na educação não para por aí. Como observou o professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, apenas a lógica competitiva de mercado permite entender a proliferação de cruéis, rasos e injustos ataques militantes a intelectuais politicamente engajados. Em suas palavras, “para os atacantes, são chances de melhor se posicionarem no mercado epistêmico: quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital” (Folha de S.Paulo, 11/08/2020).

O artigo não se refere unicamente a agressões a docentes, mas não é coincidência que tenha sido escrito por um professor universitário a respeito de ataques sofridos por uma colega de profissão. Entre os vários supostos erros de que esta professora – a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz – foi acusada, estava o de, apesar de ser branca (judia, vale lembrar), ter dedicado décadas de pesquisa e atuação pública ao combate ao racismo. Afinal, como bem argumentou Gomes, a lógica do mercado raras vezes recompensa e estimula ataques a pessoas retrógradas e conservadoras. Racistas, sexistas, homofóbicos, transfóbicos, antissemitas e semelhantes seguem ilesos em suas reputações e fortalecidos em suas posições de poder, voz e visibilidade. Punindo e calando intelectuais progressistas, o neoliberalismo de esquerda dá mais espaço, mais vigor e mais protagonismo ao neoliberalismo stricto sensu que, pelo lado direito, ataca o ensino público e seus professores de forma igualmente atroz.

Infelizmente, contudo, a esse problema nós, os professores, temos também reagido de maneira tipicamente neoliberal. Por um lado, tendemos a atribuir a particularidades de certas situações e de indivíduos cada caso de abuso, desrespeito, privatização, calúnia ou difamação. Por outro, seguimos com o pacto não declarado de silêncio sobre essas questões por temermos, com razão, punições no mercado acadêmico. E muitas vezes cedemos na concessão das benesses exigidas pelos sujeitos neoliberais, seja por medo de eventual repercussão, seja por autoengano político. Com isso, acabamos por contribuir para a privatização da educação, no sentido amplo e cultural, e, claro, para a deterioração do ensino. Enquanto não entendermos que estamos diante de um fenômeno coletivo – o individualismo é um fenômeno coletivo – e enquanto não agirmos politicamente, ou seja, debatendo publicamente um problema político, a educação pública seguirá sendo atacada não apenas de forma espetacular, mas também rotineira e capilar; não apenas por governos e ideólogos de direita, mas também nos campi, nas ruas e nas mal denominadas redes sociais.

Assim, os professores universitários, sobretudo os de instituições públicas brasileiras, sofremos hoje duas virulentas ofensivas neoliberais. A direita nos ataca de modo neoliberal, combatendo em nome do mercado tudo que nossa educação pública conquistou a duras penas nas últimas décadas: inclusão social, expansão do ensino, ações afirmativas, financiamento à pesquisa, reflexões sofisticadas sobre a sociedade. A esquerda, usando camuflagens progressistas para disfarçar seu neoliberalismo, transforma alunos em consumidores, a educação em distribuição de diplomas, o rigor acadêmico em forma de opressão, os servidores públicos em serviçais privados.

Um lado defende abertamente o neoliberalismo, o outro pensa ser revolucionário. Mas ambos agem de forma mercantil e compartilham o ataque à educação pública e ao pensamento crítico. Ao castigarem os professores por ensinar, pensar e escrever, uns encontram nos outros os melhores aliados de suas cruzadas neoliberais autoritárias contra a liberdade de pensamento e de expressão. Assim como, em 1815, europeus católicos, protestantes e ortodoxos juntaram suas forças retrógradas em uma Santa Aliança contra os ideais republicanos, hoje em dia fanáticos à direita e à esquerda se unem religiosamente em uma aliança, desta vez não declarada, para combater a educação pública e os professores.

Quase todos os docentes de universidades públicas concordamos sobre os graves e evidentes perigos do neoliberalismo autoritário da direita, e fazemos o possível para combatê-lo. Mas para continuar e fortalecer essa luta devemos também romper nosso pacto de silêncio e reconhecer os perigos igualmente autoritários, igualmente violentos e igualmente neoliberais que vêm do outro lado – inclusive de nossos alunos.

É como um passo em direção a esse reconhecimento e a um debate amplo e democrático que escrevo este artigo. Apenas lamento que tenha de assiná-lo com um pseudônimo. O motivo disso está evidente. Nestes tempos de cruzadas autoritárias moralistas e de narcisismo midiático neoliberal, uma crítica como a que fiz aqui tem de lançar mão da privacidade autoral como escudo e refúgio.

* Benamê Kamu Almudras, sob pseudônimo, é docente de graduação e de pós-graduação em uma universidade pública de São Paulo

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Este texto foi inicialmente publicado pela Revista Piauí [Aqui!].

Política ambiental brasileira causa exclusão da Cargill, Bunge e ADM de fundos do Danske Bank

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Responsável por € 237 bilhões ( cerca de R$1,5 trilhão), o Danske Bank excluiu de dois de seus fundos as gigantes Cargill, Bunge e ADM, que operam no comércio de commodities agrícolas, em especial soja. A causa é o acelerado desmatamento de áreas florestadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal.

“Apesar dos compromissos das empresas [com políticas de proteção ambiental], a taxa anual de desmatamento das florestas tropicais da Amazônia continua em um ritmo alarmante”, afirmou Erik Eliasson, o diretor de investimento sustentável do Danske Bank, ao jornal Folha de S.Paulo.

A decisão foi baseada em dados de iniciativas de monitoramento de cadeias de commodities feitos pela ONG americana Mighty Earth, da pesquisa Chain Reaction, da iniciativa Trase. Os estudos estão em curso desde 2018 e apontam que  mais de 36 mil alertas de incêndio foram registrados nas proximidades dos silos da Cargill, Bunge e ADM em 2020 no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – que são rechaçados pelo governo – apontam que em novembro de 2020 o desmatamento atingiu seu nível mais alto desde 2008.

“Até que haja uma agenda política mais forte e planos de ação e compromissos concretos para proteger as florestas tropicais, as empresas que compram na região provavelmente estarão expostas e contribuindo para o desmatamento das florestas, independentemente de quão fortes práticas de manejo possam ter. Por sua vez, essas empresas podem ser afetadas por graves riscos de reputação e diminuição da demanda do consumidor”, concluiu Eliasson à Folha.

Cargill, ADM e Bunge alegaram respeitar a lei, que adotam voluntariamente a moratória da soja, que tenta conter o cultivo em áreas desmatadas recentemente, além de se valerem de políticas de monitoramento da cadeia e transparência. Com atuação em mais de 70 países, as três empresas somaram faturamento bruto conjunto de quase US$ 220 bilhões em 2019.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo site especializado “Money Report” [Aqui!].