Dados oficiais sobre focos de incêndio e rebanho bovino desmentem a falácia do “boi bombeiro” no Pantanal

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Enterrando de vez a falácia do “Boi Bombeiro” reiteradamente usada pelos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente?)  Thereza Cristina (Agricultura) para se eximir da destruição em curso no bioma Pantanal, o  gráfico abaixo mostra que cada ponto azul representa um município e o número de cabeças de gado obtidos pelo IBGE e o número de focos de calor do Monitoramento de Queimadas fornecido pelo Inpe  no respectivo município).

fogo gado

A conclusão da observação deste gráfico é  que existe uma relação direta entre o aumento do número de focos de incêndio e o tamanho do rebanho bovino no Pantal, onde quanto maior o rebanho, maior será o número de focos de calor, e não o contrário.

Assim, qualquer tentativa do governo Bolsonaro de se eximir das responsabilidades da pecuária extensiva em relação à destruição do bioma Pantanal deve ser ignorado, pois não passa de mais uma “fake news” bolsonarista.

Fornecedores de saladas do Reino Unido são investigados pelo lançamento de agrotóxicos em rios

Exclusivo: a Agência Ambiental age contra um local e analisa mais de 50 outros

rio UKPessoas cruzam uma ponte sobre o rio Itchen em Hampshire. Fotografia: Andrew Matthews / PA

Por Sandra Laville para o “The Guardian”

O órgão ambiental do Reino Unido está examinando se mais de 50 locais que fornecem saladas e vegetais para supermercados e outras empresas estão lançando poluição química em rios e riachos.

A ação segue revelações de que um produtor de saladas fornecedor de varejistas, incluindo Waitrose, estava despejando agrotóxicos em um córrego protegido em Hampshire.

Agência Ambiental (EA) tomou medidas contra a Bakkavor, que opera uma fábrica de agrião em Alresford, por descarregar neonicotinóides no Upper Itchen, um riacho de leito calcário protegido, depois que evidências foram coletadas pela instituição de caridade ambiental Salmon & Trout Conservation (S&T).

A Bakkavor importa safras de salada dos Estados Unidos e da Europa, além de cultivar seus próprios produtos. A produção é lavada no local e a empresa tem uma licença da EA para despejar águas residuais no Upper Itchen.

Especialistas da C&T forçaram a agência a agir sobre os poluentes do rio depois de trabalhar com a população local para fazer amostragem da água, o que sugeriu que produtos químicos estavam afetando comunidades de invertebrados, incluindo camarões de água doce, efeméridas e  tricópteros.

Os pedidos de liberdade de informação apresentados pela S&T revelaram que o acetamiprida, um neonicotinóide, estava sendo lavado das saladas para o rio em concentrações acima dos níveis aceitáveis.

O monitoramento pela EA confirmou que os agrotóxicos da lavagem das folhas da salada estavam indo para o rio. A agência está agora examinando mais de 50 outros locais onde as licenças foram emitidas permitindo-lhes lavar a produção de alimentos em rios e riachos. Ele está priorizando locais sensíveis onde o escoamento vai para  riachos de rochas calcáreas. 

Os riachos de rochas calcárias do Reino Unido, onde a água flui de fontes subterrâneas, fornecem habitats importantes para uma variedade de vida selvagem. Cientistas dizem que estão sendo devastados por um coquetel de poluentes da indústria, fazendas, descargas de esgoto e extração excessiva por parte das empresas de água.

Um porta-voz da EA disse: “Tomaremos medidas duras contra qualquer empresa ou indivíduo que cause poluição e danos significativos ao meio ambiente. Já atuamos diretamente com a Bakkavor e os resultados desse trabalho estão sendo incorporados à nossa abordagem com outras empresas que regulamos. Isso inclui avaliar os riscos em outros locais e priorizar os locais mais sensíveis. ”

Locais onde as empresas são suspeitas de poluição semelhante incluem córregos calcários como o River Test, o Avon e o Bourne Rivulet.

Charles Walker, um parlamentar conservador que preside o recém-formado grupo parlamentar de todos os partidos sobre riachos de calcáreo, disse que lavar a salada tem sido motivo de preocupação por muitos anos em relação ao seu impacto sobre riachos calcários e outros tipos de cursos d’água.

“Dou as boas-vindas à agência que analisa essas licenças. Riachos calcáreos são nossa barreira de recifes, nossas florestas tropicais. Oitenta e cinco por cento dos riachos calcários do mundo estão na Inglaterra e nossa administração deles nos últimos 50 anos tem sido lamentável ”, disse ele.

Uma das empresas que está sendo examinada pela EA é a Vitacress, uma fábrica de salada ensacada que despeja água de lavagem em um afluente do Rio Test. A EA disse: “Se o monitoramento demonstrar que um agrotóxico corre o risco de causar danos ambientais ao exceder os níveis aceitáveis ​​no meio ambiente, vamos exigir que sejam tomadas medidas para evitar isso.”

As empresas devem identificar os produtos químicos que estão ou podem estar presentes em seu descarte e fornecer essas informações em apoio ao seu pedido de licenças de descarga à EA.

A Dra. Janina Gray, da C&T, disse que não está sendo feito o suficiente para verificar a poluição química dos locais. “Ninguém achou que era um problema até que eles olharam”, disse ela. “Instamos a EA a examinar outras autorizações de descarte de lavagem de alimentos porque acreditamos que essas também podem estar despejando pesticidas nos rios.”

No mês passado, a EA revelou que nenhum rio inglês havia passado nos testes de poluição química e apenas 16% foram avaliados como estando em boas condições de saúde. Pela primeira vez, nenhum rio alcançou um bom estado químico, sugerindo que a poluição causada pela descarga de esgotos, produtos químicos e agricultura está tendo um grande impacto na qualidade do rio.

A Bakkavor anunciou que está fechando sua fábrica em Alresford no final deste mês. A empresa disse que o fechamento foi devido a uma perda significativa de negócios de um grande cliente em particular.

“Como parte de nossos testes regulares em nossa unidade de Alresford, que é monitorada pela Agência Ambiental, detectamos duas ocasiões de níveis ligeiramente mais altos de agrotóxicos em fevereiro e março deste ano”, disse um porta-voz. “Esta não era uma ocorrência comum e uma investigação completa foi realizada e ações corretivas foram tomadas, das quais a Agência Ambiental foi totalmente informada.”

Waitrose, um dos maiores clientes da empresa, disse que parou de fornecer saladas fornecidas pela Bakkavor. Um porta-voz da Waitrose disse: “Não fornecemos mais produtos do local em questão e entendemos que fechará suas portas (para sempre) em breve.”

A Vitacress disse que estava trabalhando com a EA. “Levamos todas as nossas obrigações ambientais muito a sério e sempre trabalhamos em estreita colaboração com a Agência Ambiental para garantir que estamos em conformidade com os regulamentos de licenciamento ambiental. Continuaremos a trabalhar com eles para garantir o melhor resultado para o meio ambiente, incluindo a assistência nesta revisão. ”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian [Aqui!].

Agricultura conservacionista e legislação é tema do VIII Ciclo de Palestras sobre Manejo e Conservação do Solo e da Água

Evento on-line será transmitido no Youtube da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de SP

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O VIII Ciclo de Palestras sobre Manejo e Conservação do Solo e da Água, com o tema agricultura conservacionista e legislação, será realizado on-line, em 20 de outubro de 2020, das 17h às 19h, pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O evento será transmitido no Youtube da Secretaria de Agricultura – acesse aqui.

Agricultura conservacionista é um conceito da Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO), que a classifica como “um sistema de agricultura que promove a manutenção de uma cobertura permanente do solo, o mínimo de perturbação do solo ou plantio direto e a diversificação de espécies de plantas. Aumenta a biodiversidade e os processos biológicos naturais acima e abaixo da superfície do solo, o que contribui para o aumento da eficiência do uso de água e nutrientes e para a melhoria e sustentação da produção agrícola”.

De acordo com a engenheira agrônoma Maria Argentina Nunes de Mattos, do Escritório de Defesa Agropecuária (EDA) de São José do Rio Preto, uma das organizadoras e incentivadora deste evento que vem sendo realizado desde 2013, foram programadas três palestras:

– Agricultura conservacionista, conceito e implantação no Estado de São Paulo, com ênfase em cana-de-açúcar, pelo pesquisador do Instituto Agronômico (IAC-APTA), Denizart Bolonhezi.

– Integração Lavoura Pecuária (ILP) e Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), conceito e como está esse sistema no estado de São Paulo, pelo pesquisador e professor Edemar Moro, da Universidade do Oeste Paulista (UNOESTE) de Presidente Prudente.

– E a palestra sobre plantio direto com exemplos da transformação da agricultura convencional ou pastagem degradada em agricultura conservacionista com implantação do sistema de plantio direto na palha – exemplos de Ocauçu (EDA Marília) e Capela do Alto (EDA Sorocaba) e outros que tiver da região de Ourinhos e Assis, pelo engenheiro agrônomo Márcio Minoro Harada Orozimbo, do Escritório de Defesa Agropecuária de Ourinhos.

A moderação será feita pelo engenheiro agrônomo Oswaldo Julio Vischi Filho, da Coordenadoria de Defesa Agropecuária.
Para participar o interessado deve acessar http://www.youtube.com/user/agriculturasp

The Guardian noticia caso de aliado de Bolsonaro preso com dinheiro nas nádegas

Polícia encontra dinheiro escondido entre as nádegas do aliado Bolsonaro

O senador  Chico Rodrigues foi pego com notas durante uma busca em sua casa

chico rodriguesChico Rodrigues teria 30.000 reais (mais de £ 4.000) em suas cuecas. Fotografia: Adriano Machado / Reuters

Por Tom Phillips no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

Os esforços de Jair Bolsonaro para se retratar como um cruzado anticorrupção sofreram outro golpe depois que a polícia supostamente apreendeu um maço de notas de banco entre as nádegas cerradas de um de seus aliados.

Chico Rodrigues, o vice-líder do presidente brasileiro no Senado, teria sido pego com a trouxa escondida na quarta-feira, durante uma busca policial em sua casa. A operação fez parte de uma operação contra a suspeita de apropriação indébita de fundos públicos para combater a COVID-19.

O jornal Estado de São Paulo disse que duas fontes disseram que 30.000 reais (mais de £ 4.100) foram guardados nas cuecas de Rodrigues, um senador pelo estado de Roraima, no Amazonas.

 Para dar uma ideia de como a situação era absurda, algumas das notas recuperadas estavam manchadas de fezes”, relatou a Revista Crusoé , a revista conservadora que divulgou a história.

“Foi um cenário de considerável constrangimento”, disse a Crusoé sobre o momento em que a polícia fez a descoberta enquanto vasculhava a casa do senador na capital de Roraima, Boa Vista.

Os brasileiros compartilharam a notícia com a hashtag viral #PropinaNaBunda (Bribe up the Bum). Muitos sugeriram que o achado seria lembrado “nos anais da história”.

Rodrigues não deu nenhuma explicação imediata para o conteúdo de sua cueca, mas negou qualquer irregularidade, dando a entender que rivais estavam tentando manchar seu nome. “Tenho um passado limpo e uma vida respeitável. Nunca me envolvi em nenhum tipo de escândalo ”, insistiu o homem de 69 anos.

O presidente de extrema direita do Brasil conquistou o poder em 2018 prometendo erradicar o roubo político depois do que alguns chamaram de a maior investigação de corrupção da história .

“Não acredito que haja [corrupção] em meu governo”, disse Bolsonaro na quarta-feira, ameaçando desferir um “chute no pescoço” de qualquer político fraudador.

Seu governo tem sido afetado por escândalos, incluindo suspeitas de que um de seus filhos políticos, Flávio,  chefiou uma rede de corrupção. Flávio Bolsonaro negou essas afirmações.

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Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

O que é preciso para ser prefeita ou prefeito de Campos dos Goytacazes?

Uma leitura do processo que antecede as eleições municipais de 2020

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Por Carlos Eduardo de Rezende & Marcos Pedlowski

O município de Campos dos Goytacazes possui a maior área territorial do Estado do Rio de Janeiro e uma dimensão populacional (~500 mil habitantes) que a caracteriza como uma cidade de médio porte. A década de 1990 representou um ponto de inflexão na cidade, pois aqui se instalaram novas instituições de ensino superior e as existentes ampliaram suas atuações. Portanto, hoje a cidade é de fato o segundo pólo universitário do estado e uma cidade mais cosmopolita.

A partir do início do Século XXI, vários municípios receberam recursos dos Royalties e participação especial na produção do petróleo, mas desconhecemos qual município tenha criado um fundo que possibilitasse o enfrentamento de problemas futuros. Este assunto foi colocado publicamente em um programa de rádio há muito tempo atrás, logo no início destes repasses oriundos da produção de petróleo. Hoje, um ponto que tem chamado atenção nesta eleição é que durante muitos anos o município recebeu cifras consideráveis de recursos provenientes desta fonte e nos debates este assunto ganha centralidade nos debates políticos devido à previsão de redução para o ano de 2021. Agora, a dependência desta fonte nos parece uma falha dos governos anteriores, e em nenhum momento é informada a população que o orçamento municipal de Campos dos Goytacazes está entre as 50 cidades brasileiras, seja este orçamento de 1,5 ou 1,7 bilhões de reais.

Neste ano com tantas dificuldades apontadas por inúmeras avaliações, temos 11 candidaturas, sendo duas lideradas por mulheres (PSOL e PT). A média de idade das cabeças de chapa é de 44 anos e a mediana de 37 anos, com um intervalo de 31 a 72 anos. Entretanto, a idade da candidata do PSOL é a que vem sendo questionada por alguns órgãos de imprensa, mas se esquecem que ela não é a mais jovem e os candidatos que hoje se reapresentam como alternativas também estão na mesma faixa etária e não possuem o preparo acadêmico e experiência profissional desta candidata. Na realidade este ponto chama atenção por trazer a discussão à questão de gênero ou racial, e tendo como intenção criar dificuldades ou até mesmo uma possível rejeição. Inclusive, cabe recordar aos detratores que a candidata é jovem e experiente, e em Campos dos Goytacazes já tivemos um prefeito que foi eleito com 29 anos.

Entre as 11 candidaturas têm pessoas que já atuaram politicamente em Campos dos Goytacazes, dois estão com mandatos, servidores públicos, setor de saúde, empresários, jornalista e professoras da rede pública e privada. Assim, todos possuem alguma experiência profissional. Entretanto, poucos possuem um preparo e proximidade para lidar com as dificuldades da população com maiores necessidades de assistência social.

Por outro lado, já parece óbvio que a maioria das candidaturas fala principalmente para a classe empresarial, quando se concentram em propostas para enxugar a máquina pública sem um diagnóstico preciso; consideram a retomada dos programas sociais um gasto e não um investimento na saúde e dignidade da população mais pobre.  Esse tipo de visão, pasmem, é a mesma que foi aplicada pelo prefeito Rafael Diniz desde que ele tomou posse. Essa similaridade entre candidatos e o prefeito que pretendem substituir levanta a questão de se eles refletiram objetivamente sobre a necessidade imperiosa de reincluir os pobres do orçamento municipal.

Em um recente artigo escrito pelo Prof. Isaac Roitman (Ex-Diretor do CBB – UENF, Professor Emérito da UNB, membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022-2030 O Brasil e mundo que queremos) ele observa que a educação é repetida como um mantra dos políticos – a cada eleição – como uma solução para o Brasil, mas ao invés de investimentos, a cada dia presenciamos ataques aos professores (ex.: já fomos chamados de vagabundos, maconheiros, entre outros absurdos) e o sucateamento do ensino público.  

Em  2019,  a Secretaria Municipal de Educação de Campos dos Goytacazes não realizou o envio das informações necessárias para saber a posição relativa da nossa rede municipal de educação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica que mede a qualidade do ensino nas escolas públicas. A inviabilização deste índice por parte do governo municipal poderá comprometer o repasse de recursos federais em 2021. Portanto, como professores e vendo duas candidaturas regidas por duas professoras, acreditamos na valorização da educação municipal com salários dignos, carreira atraente e condições adequadas de trabalho. Não menos importante sabemos que Campos dos Goytacazes como segundo polo universitário do Estado do Rio de Janeiro, também precisa de uma política municipal permanente que prestigie a graduação e  a pós-graduação.

*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e Marcos Pedlowski é professor associado do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Uenf.

Chico Rodrigues, o senador do dinheiro na cueca, defende garimpos em terras indígenas e o fim da reserva legal

rodriguesPego com dinheiro na cueca, o senador Chico Rodrigues (DEM/RR) defende a liberação dos garimpos em terras indígenas e a extinção das reservas legais em propriedades rurais. Moreira Mariz/Agência Senado. Fonte: Agência Senado

Em uma prova de que não há acidente nas relações publicamente amáveis entre o presidente Jair Bolsonaro e o agora envergonhado senador Chico Rodrigues (DEM/RR), fontes confiáveis da área ambiental o apontam como um ardoroso militante das causas anti-ambiente, incluindo a defesa dos garimpos ilegais em terras indígenas e do avanço do desmatamento.

No vídeo abaixo produzido pela TV Senado, Rodrigues dá vazão às teses que negam a dimensão da catástrofe ambiental em curso na Amazônia, bem como utiliza o mesmo tipo de nacionalismo canhestro para negar o direito da comunidade internacional em se preocupar com as questões ambientais brasileiras.

Como se vê no vídeo, Chico Rodrigues é uma pessoa bastante articulada e que se posiciona de forma clara. Essa loquacidade serve para desmanchar qualquer propensão a tratar a apreensão de dinheiro nas partes íntimas do senador pela Polícia Federal como o resultado da ação destrambelhada de uma pessoa tosca.  Me desculpem pelo trocadilho infame, mas o buraco parece ser mais embaixo. Na verdade, Rodrigues tem sido um dos mais fiéis e ativos aliados do presidente Jair Bolsonaro e sua cruzada contra o meio ambiente e os povos indígenas na Amazônia. De tosco, na verdade, ele não tem nada. Ser apanhado com dinheiro nas partes íntimas posteriores foi apenas, digamos, um acidente de percurso.

Chico RodriguesO presidente Jair Bolsonaro e o senador Chico Rodrigues em um momento de congraçamento público

Mas uma coisa positiva nesse imbróglio lamentável será o enfraquecimento político de um adversário das causas ambientais na Amazônia.  Isso torna a ação da Polícia Federal um serviço inestimável não apenas ao combate à corrupção, mas também à defesa do meio ambiente na Amazônia.

Chico Rodrigues, o senador descoberto com dinheiro nas nádegas, é o retrato acabado do governo Bolsonaro

Chico-Rodrigues-1O presidente Jair Bolsonaro e seu parceiro de “união estável”, senador Chico Rodrigues (DEM/RR) que acaba de ser flagrado pela Polícia Federal com dinheiro nas nádegas

O Brasil amanheceu hoje sob o impacto do conhecimento de que o vice-líder do governo Bolsonaro no Senado Federal, Chico Rodrigues (DEM /RR) foi encontrado com R$ 30 mil nas nádegas, tendo sido inclusive apreendidas cédulas sujas com fezes. Essa descoberta de dinheiro supostamente desviado do combate à pandemia da COVID-19 é um tirombaço certeiro na falsa imagem de improbidade com que o presidente Jair Bolsonaro compara o seu governo a todos os anteriores.

O problema, entre muitos outros, é que Jair Bolsonaro já declarou que mantinha uma “união estável” com Chico Rodrigues, dando a entender que o senador agora flagrado com dinheiro supostamente desviado dos cofres públicos seria um associado de confiança.

Pode-se até dizer que esse é apenas mais um episódio em que pessoas próximas ao presidente Jair Bolsonaro são flagradas em situações pouco lustrosas, a começar pelo próprio filho, senador Flávio Bolsonaro, e seu indecoroso sistema de “rachadinhas” que funcionou por anos no interior da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, segundo indicam as apurações policiais.  Entretanto, desconfio que a alegada capacidade “Teflon” do presidente Jair Bolsonaro pode estar sofrendo um irreversível processo de esgarçamento.  

Em tempo: a desventura de Chico Rodrigues periga colocar em xeque a boa fase desfrutrada pelos chamados “Democratas”, partido de Rodrigo Maia e David Alcolumbre, que controlam tanto a Câmara de Deputados como o Senado Federal, e que tinha até agora a expectativa de se posicionar como o principal partido de direita no Brasil.  Com sua pequena “travessura”, Chico Rodrigues pode ter jogado as chances eleitorais dos Democratas na latrina. A ver!

Dia dos Professores: entre celebrações e a necessidade de combater o desmanche da educação pública

dia dos professoresUnesco considera que a docência deve ser vista enquanto profissão, tendo os professores garantias e deveres básicos preestabelecidos – (crédito: Natalia Kolesnikova/AFP)

O dia 15 de Outubro é para ser um dia de festejos e celebrações, mas no Brasil ele se torna cada vez mais um dia de resistência contra os ataques que ocorrem em todos os níveis de governo e até no congresso nacional. Estes ataques foram sintetizados com inédita maestria pelo atual ministro (ou seria anti-ministro?) da Educação, o sr. Milton Ribeiro, que recentemente afirmou que “hoje, ser professor é ter quase uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa“.

Darcy Ribeiro, o criador, entre outras, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), dizia que “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é projeto“.  Todos os ataques realizados contra a educação pública e os professores mantém essa afirmação de Darcy não apenas atual, mas dolorosamente premonitiva das ações que hoje ocorrem para recolonizar o Brasil e deixar a maioria do seu povo alienado das melhores condições de ensino e acesso à cultura.

Por isso, tantos ataques e ações para quebrar a espinha dorsal do sistema público de ensino que são justamente os seus professores. Desmoralizar por meio de ações como o simples não pagamento dos salários devidos é uma das principais estratégias dos que operam para manter o Brasil afundado na ignorância e no atraso. 

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A melhor forma de reagir e resistir a esses esforços para desmanchar o sistema público de ensino, única via para educar milhões de brasileiros, é celebrar o dia de hoje com a consciência do papel chave que representamos no esforço para criar um país soberano e com equidade social.

 

Restaurem áreas degradadas para mitigar a crise climática, exortam cientistas

Restaurando terras naturais degradadas seria altamente eficaz para armazenamento de carbono e evitaria a extinção de espécies

guardian 1Cientistas observam a importância da restauração adequada da natureza para aumentar a biodiversidade e combater as mudanças climáticas. No Flow Country, Escócia, mostrado acima, a restauração do pântano de cobertura, um vasto reservatório de carbono natural, envolve a remoção de plantações florestais. Fotografia: Murdo MacLeod / The Guardian

Por Fiona Harvey para o “The Guardian”

Restaurar paisagens naturais danificadas pela exploração humana pode ser uma das formas mais eficazes e baratas de combater a crise climática, ao mesmo tempo em que aumenta a diminuição da população de vida selvagem, concluiu um estudo científico.

Se um terço das áreas mais degradadas do planeta fossem restauradas e a proteção fosse aplicada em áreas ainda em boas condições, isso armazenaria carbono equivalente à metade de todas as emissões de gases de efeito estufa causadas pelo Homem desde a revolução industrial.

As mudanças evitariam cerca de 70% das extinções de espécies previstas, de acordo com a pesquisa, publicada na revista Nature .

Cientistas do Brasil, Austrália e Europa identificaram vários lugares ao redor do mundo onde tais intervenções seriam mais eficazes, de florestas tropicais a pântanos costeiros e turfa de terras altas. Muitos deles estavam em países em desenvolvimento, mas havia pontos de acesso em todos os continentes.

“Ficamos surpresos com a magnitude do que encontramos – a enorme diferença que a restauração pode fazer”, disse Bernardo Strassburg, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e principal autor do estudo. “A maioria das áreas prioritárias está concentrada nos países em desenvolvimento, o que pode ser um desafio, mas também significa que a restauração é geralmente mais econômica.

Apenas cerca de 1% do financiamento dedicado à crise climática global vai para a restauração da natureza, mas o estudo descobriu que tais soluções baseadas na natureza” estavam entre as formas mais baratas de absorver e armazenar dióxido de carbono da atmosfera, os benefícios adicionais sendo proteção da vida selvagem.

guardian 2Calau rinoceronte, um habitante da floresta Belum Temengor de 130 milhões de anos, biologicamente rica, que se beneficia de proteção, mas também está sujeita à interferência humana, como a criação de lagos. Fotografia: Fazry Ismail / EPA

Restaurar a natureza não precisa ser feito às custas da agricultura e da produção de alimentos, disse Strassburg. “Se a restauração não for planejada de forma adequada, pode representar um risco para a agricultura e o setor de alimentos, mas, se feita de forma adequada, pode aumentar a produtividade agrícola. Podemos produzir alimentos suficientes para o mundo e restaurar 55% de nossas terras agrícolas atuais, com a intensificação sustentável da agricultura. ”

O estudo também afirma que o plantio de árvores , a “solução baseada na natureza” que tem recebido mais apoio até hoje , nem sempre é uma forma adequada de preservar a biodiversidade e armazenar carbono. Turfeiras pântanos e savanas também fornecem habitats para uma riqueza de espécies únicas e podem armazenar grandes quantidades de carbono quando bem cuidadas. Strassburg disse: “Se você plantar árvores em áreas onde não existiam florestas, isso irá mitigar as mudanças climáticas, mas às custas da biodiversidade”.

Nathalie Pettorelli, pesquisadora sênior da Zoological Society of London, que não esteve envolvida na pesquisa, disse: “Este artigo fornece mais evidências científicas de que a restauração ecológica é uma solução sensata e financeiramente viável para enfrentar as crises globais de clima e biodiversidade. A forma como os ecossistemas serão restaurados é tão importante quanto onde e quanto será restaurado. Garantir que a melhor ciência seja usada para tomar decisões sobre como restaurar cada ecossistema local será fundamental. ”

Três quartos de todas as terras com vegetação do planeta agora carregam uma marca humana. Mas alguns cientistas têm como meta restaurar 15% dos ecossistemas ao redor do mundo.

Alexander Lees, conferencista sênior em biodiversidade na Manchester Metropolitan University, que também não esteve envolvido com o estudo, disse: “[Esta] análise indica que podemos dar passos enormes para mitigar a perda de espécies e aumentar o dióxido de carbono atmosférico restaurando apenas 15 % de terras convertidas. A comunidade global precisa se comprometer com este pacto de retribuir rapidamente à natureza – é o negócio do século e, como a maioria dos bons negócios disponíveis por um tempo limitado ”.

O estudo se concentrou na terra, mas os oceanos também oferecem grandes benefícios ligados à biodiversidade e oportunidades para absorver dióxido de carbono e mitigar as mudanças climáticas, disse Richard Unsworth, professor sênior de biologia marinha na Swansea University e diretor do Projeto Seagrass , que restaura  habitats vitais de ervas marinhas.

Unsworth disse: “A restauração do habitat marinho também é vital para o nosso planeta e, sem dúvida, mais urgente, dada a rápida degradação e perda dos ecossistemas marinhos. Precisamos de habitats oceânicos restaurados, como ervas marinhas e ostras, para ajudar a promover a biodiversidade, mas também para ajudar a garantir o suprimento futuro de alimentos por meio da pesca e bloquear o carbono de nossa atmosfera.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Relatório da Agência Internacional de Energia favorece combustíveis fósseis, diz estudo

Edição deste ano inclui pela primeira vez cenário com medidas para limitar aquecimento global a 1,5˚C

GLACIERImagem: Henryk Sadura Getty Images

O lançamento da edição 2020 do relatório Perspectivas Energéticas Mundiais (World Energy Outlook – WEO) da Agência Internacional de Energia (AIE) foi acompanhado de fortes críticas de setores científicos e organizações financeiras. Esses analistas apresentam estudos que apontam vieses nos relatórios da instituição para favorecer o setor de combustíveis fósseis.

Na edição deste ano, a AIE incluiu pela primeira vez um cenário que leva em conta ações para o cumprimento da meta de manter o aquecimento global em 1,5˚C. A medida atende aos pedidos de uma coalizão de investidores, empresários e estudiosos que vêm alertando a organização para essa necessidade há pelo menos 2 anos. O cenário de desenvolvimento sustentável que já existia nos relatórios anteriores previa um caminho para a redução de emissões que só atingiria emissões zero líquidas em 2070, ou seja, 20 anos mais tarde do que preconiza o Acordo de Paris.

Horas antes da divulgação do relatório, foi apresentado um estudo da University of Technology Sydney, na Austrália, mostrando que de 2000 a 2020 a AIE superestimou de modo sustentado o papel dos combustíveis fósseis, da energia nuclear e dos mecanismos de captura e armazenamento de carbono (CCS) no mercado de energia global, ao mesmo tempo em que subestimou o crescimento das energias renováveis.

O otimismo exagerado da agência em relação às tecnologias de CCS, diz o estudo, se deve ao fato de que elas poderiam tornar as fontes fósseis viáveis por mais tempo em um cenário de descarbonização da economia global. Segundo o texto, metas climáticas mais ambiciosas acabaram por reduzir o interesse em medidas de mitigação desse tipo, embora isso não tenha sido observado pelos relatórios da AIE.

Antes disso, a ONG Reclaim Finance já havia publicado uma análise em que aponta armadilhas que impedem que os cenários climáticos sejam alinhados com o Acordo de Paris, colocando as estudos da AIE como fonte fundamental dessas “ciladas”. Segundo a organização, a agência age para manutenção dos investimentos em combustíveis fósseis. Em paralelo, a consultoria de investimentos Analytica Advisors publicou um informe com evidências sobre a influência do relatório anual da AIE nas decisões de investimento das principais companhias de óleo e gás.

O Perspectivas Energéticas Mundiais é produzido anualmente desde 1977 e mapeia as expectativas de oferta e demanda de energia para médio e longo prazos, tendo se tornado uma referência no tema, com influência sobre decisões de governo e de empresas. Criada em 1973 no âmbito da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a AIE expandiu suas atividades para além do foco original, o setor de petróleo e gás, mas seus laços com a indústria fóssil permanecem fortes.

Avanço pequeno

Para o chefe do setor de compras da Unilever, Marc Engel, a nova postura da agência é um passo importante, mas a organização continua criando cenários distorcidos. Tipicamente, o relatório da AIE traz três cenários, que podem mudar de nome ao longo dos anos, mas que ainda podem ser diferenciados entre pessimista (chamado nesta edição de “business as usual”), provável (“Central”) e otimista (“Climático”). Na edição deste ano foi incluído um quarto cenário chamado de “net zero emission” (NZE2050).

Segundo Engel, a AIE deve se comprometer a tornar o novo cenário o “Central” do próximo relatório. “Empresas como a Unilever, assim como investidores e tomadores de decisão política, precisam urgentemente de ferramentas para planejar o sucesso no alcance de nossas metas climáticas. Este não é um momento para meias medidas, e o mundo precisa que a AIE esteja liderando e não seguindo a nova agenda energética global”, afirma.

“Estamos satisfeitos em ver que há um cenário de 1,5˚C no WEO 2020, entretanto, este cenário não está incluído na análise principal e termina em 2030”, lamenta Odd Arild Grefstad, CEO da Storebrand, uma empresa de finanças e seguros norueguesa. “Eu conclamo a AIE a estender o cenário de 1,5˚C para pelo menos 2040 como o resto dos cenários e dar a ele a posição central no WEO de 2021, para que seja visto como necessário e possível de ser implementado.”

A inclusão de um cenário para o mercado de energia que inclui a meta de limitar o aquecimento global a 1,5˚C foi o segundo aceno da AIE para a sustentabilidade este ano. Antes, a agência publicou um relatório especial de Recuperações Sustentáveis pós-COVID e convocou em julho uma Cúpula de Transição Limpa, com ministros de energia de dezenas de países.

“A AIE deu um pequeno passo hoje e isto não teria acontecido se os atores preocupados não tivessem se manifestado e exigido mudanças”, avalia David Tong, ativista sênior da ONG Oil Change International. “Mas a AIE permanece presa em uma crise existencial: servir aos interesses dos combustíveis fósseis em que foi fundada ou se transformar para liderar uma revolução de energia limpa? A AIE e seu chefe, o Dr. Fatih Birol, não podem ter as duas coisas.

Fontes disponíveis para entrevistas:

• Autor do estudo The IEA World Energy Outlook: a critical review 2000-2020: Sven Teske, Research Director at the Institute for Sustainable Futures, University of Technology Sydney: Sven.Teske@uts.edu.au

• Hannah McKinnon, Director, Energy Transitions and Futures Program da ONG Oil Change International: hannah@priceofoil.org