Os efeitos dos 2 anos da pandemia da COVID-19 na Uenf

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Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Pandemia de COVID-19 trouxe muitos desafios para todos os países e isso não foi diferente para as instituições de ensino superior no Brasil e no mundo. Os países passaram por uma reorganização de procedimentos coletivos na área de saúde para enfrentar um vírus que se espalhou com grande velocidade. Neste mesmo período surgiu um forte movimento negacionista e contra o conhecimento científico em pleno Século XXI. No Brasil, não foi nada diferente, pois à frente do país tivemos vários políticos e médicos pregando o uso de um medicamento que a ciência não aprovava, mas, por fim, a vacinação foi a única saída e a mais correta para controlar a disseminação do vírus. Aliás, cabe ressaltar que esta prática sempre foi muito comum em nosso país, e, por várias gerações, eficaz no controle de outras doenças. Ainda no Brasil, presenciamos, com muita tristeza, a drástica redução nos investimentos na área de ciência e tecnologia.

Na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o primeiro movimento institucional foi o anúncio do reitor informando que faria uma parceria com a prefeitura para implantar o Laboratório de Referência Regional no Hospital Geral de Guarus (HGG) para emitir diagnósticos do Coronavírus, prevendo inicialmente 56 testes por dia (abril de 2020 Aqui!). Em maio de 2020, nova nota da reitoria dava conta da inauguração do laboratório e o número de análises passava para 100 por dia (Aqui!).

No mês de junho, durante a visita de um parlamentar à UENF, o Reitor solicita recursos para o que chamou de “Povoamento da UENF através da Inclusão Digital”. Embora a matéria enalteça as atividades da reitoria, fica a pergunta, porque as cidades da região não usavam a estrutura do Laboratório de Referência Regional do HGG e outras demandas que foram apresentadas e continuam na mesma? (Aqui!). Continuamos aguardando muitas respostas e resultados por parte desta reitoria. Para nossa surpresa, em setembro a reitoria divulga uma nota sobre o Laboratório Regional de Diagnóstico da COVID-19 onde informa que em agosto as atividades foram interrompidas por falta de material, mas também informa que foram feitos atendimentos no Norte e Noroeste Fluminense.

A informação é um pouco confusa, porque segundo a nota acima, as prefeituras não estavam enviando as amostras para os exames e depois informa que foram feitos vários atendimentos (Aqui!). Eu diria que falta uma última matéria dando conta de quantos atendimentos foram feitos por cidade, quantos projetos científicos foram realizados, se houve captação de recursos financeiros e, finalmente, se o Laboratório Regional de Diagnóstico da COVID-19 continua em pleno funcionamento no Hospital Geral de Garus (HGG). Todas essas informações são importantes para a sociedade e a parte relativa aos resultados é imprescindível para quem faz pesquisa sobre o tema. Acredito que seria de grande valia para a comunidade universitária e a sociedade regional tomar conhecimento sobre o que foi realizado neste projeto de cooperação que foi anunciado inúmeras vezes pelo Reitor.

Na nossa região, precisamente em Macaé, cientistas do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUPEM/UFRJ) durante o ano de 2020 realizaram mais de 15 mil testes. Este estudo acabou gerando um artigo no ano de 2021 na influente revista internacional Scientific Reports (Aqui!) do grupo de publicações científicas da Nature. Maiores detalhes sobre esta ação podem ser obtidos a partir desta página (Aqui!). Outro aspecto que chamou atenção foi a capacidade do grupo do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade se mobilizar junto à sociedade para viabilizar o projeto e estabelecer um mecanismo de transparência na prestação de contas dos quase 820 mil reais que foram captados através de diferentes doadores. Este procedimento, por sua vez, gera muita credibilidade pública principalmente em um momento em que as universidades têm sido duramente questionadas e atacadas de diferentes formas. Por este motivo faço questão de deixar aqui o reconhecimento público destas ações (Ver Aqui!) dentro da nossa região.

Escrevi esta introdução porque muito me preocupo com a Uenf e várias exposições públicas têm me incomodado durante este período de 2 anos com a Pandemia de COVID-19 e agora com o retorno presencial às atividades de ensino, pesquisa e extensão, e, administrativas. Primeiro o corpo docente não teve o espaço adequado, e necessário, para discutir sobre as aulas remotas quando foram implantadas e fomos surpreendidos por uma nota conjunta da Reitoria com o DCE (Aqui!). Outro ponto que preciso deixar claro é que passado todo este tempo, muitos dos direitos dos servidores permanecem não implementados (ex.: enquadramentos, progressões, insalubridade), o auxílio tecnológico foi transformado em auxílio retorno, colocando na responsabilidade do servidor a aquisição de material de proteção individual.

Os mais otimistas podem considerar que estamos no fim da pandemia, e, portanto, não seria um problema, mas o fato é que todo material de proteção é de responsabilidade da instituição. Ressalto ainda que, por mais que os indicadores, a redução nas internações e as mortes estejam caindo, a Pandemia ainda não terminou, segundo a Organização Mundial de Saúde. Assim, a instituição deveria ter sido preparada para um retorno seguro. E o que encontramos? A mesma situação de 2 anos atrás, agravada pela falta de cuidados e ajustes durante todo este período em que a instituição esteve sob regime de atividade remota.

O reitor e todos os seus assessores fazem parte de um projeto de continuidade da administração anterior, apenas mudaram suas cadeiras, conhecem, ou deveriam conhecer, os problemas que têm sido expostos sistematicamente pela comunidade universitária, principalmente pela ADUENF, inclusive em relação às salas de aula. Torno a dizer, estes problemas antecedem à Pandemia de COVID-19. Ao longo destes 2 últimos anos percebemos que o gramado da instituição estava cortado e foram instalados um sistema de iluminação com pequenos postes. Ainda neste período, foram comprados alguns equipamentos e realizados contratos de manutenção para vários equipamentos, este movimento é muito importante para nossas pesquisas, mas a instituição não funciona apenas com esses itens.

O mais precioso de uma instituição de ensino, pesquisa e extensão, são as instalações onde formamos os nossos estudantes, ou seja, as salas de aulas e estas precisam ser tratadas de forma adequada. Embora o Reitor tenha vindo a público dizer que a instituição estava totalmente preparada para o retorno, esta afirmativa carece de razoabilidade. As salas não possuem uma ventilação adequada, parte dos equipamentos está sucateada, as carteiras não possuem espaçamento de segurança devidamente marcado, o restaurante universitário ainda não funciona e várias disciplinas têm sido oferecidas em auditórios com um número excessivo de estudantes. A situação se arrastou por 2 anos sem qualquer melhoria das condições das salas aulas e se considerarmos que tivemos uma redução de custos (ex.: telefonia, água, energia, limpeza, no mínimo) com os servidores em casa, encontrar este cenário no retorno as atividades presenciais não é nada agradável e, diria mais, é uma falta de respeito com estudantes e todos os servidores técnicos e docentes.

Concluindo, sei que muitos dos colegas da Uenf não gostam que os problemas da instituição venham a público e que devemos tratar das nossas mazelas internamente, mas no momento isso me parece necessário tendo em vista o descaso e desrespeito perpetuados durante esses últimos anos.


*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Na surdina, Cláudio Castro, o governador por acaso do RJ, decreta a militarização da rede Faetec

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Em uma materialização do velho adágio que diz que “de onde nada se espera é que não sai nada mesmo”, o governador acidental do Rio de Janeiro decidiu decretar a militarização da rede de ensino técnico, ao impor via o  DECRETO Nº 48.003 DE 23 DE MARÇO DE 2022, que em um período de 90 dias a criação ” das Escolas Técnicas Cívico-Militares do Estado do Rio de Janeiro” (ver imagem abaixo).

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Para traduzir em miúdos o que Cláudio Castro (um ilustre desconhecido transformado em governador pela derrubada do governador Wilson Witzel) está tentando fazer, basta pensar em unidades escolares centenárias como o Instituto Superior de Educação Professor Aldo Muylaert (ISEPAM) em Campos dos Goytacazes ou o Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro na capital do estado tendo que repentinamente abandonar suas trajetórias históricas para se transformarem objetivamente em unidades de reprodução de uma ideologia militarizada de educação, preparando assim uma geração de futuros mestres que serão formados sob o peso dos coturnos militares.

Que Cláudio Castro vinha fazendo movimentos para apelar para os setores mais ligados ao presidente Jair Bolsonaro, isto já estava claro em suas muitas viagens a redutos bolsonaristas onde tentou, e continua tentando, chamar para si um capital eleitoral que nunca teve. Mas, convenhamos, a militarização da rede Faetec é um pouco demais até para um estado que se acostumou a viver em um ambiente político completamente degradado.

Obviamente existirão aqueles que saudarão a chegada dos comandantes militares nas escolas técnicas do Rio de Janeiro.  Para estes há uma ilusão de que o problema da nossa juventude não é falta de horizontes profissionais, mas de disciplina e códigos firmes de conduta. Entretanto, eu presumo que mesmo dentro do comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro haverá quem ache que este é um tremendo presente de grego (lembrando o Cavalo de Tróia), na medida em que a realidade das escolas técnicas é altamente complexa, e marcada pelo abandono e escassez de recursos. Isto sem falar na complexidade dos processos formativos que ocorrem na rede Faetec, nenhum deles afeitos à disciplina militar.

Um dos maiores problemas que eu vejo na concepção de que militarização é sinônimo de melhoria do quer que seja no âmbito escolar é que tal sistema não é proposto para as escolas particulares, especialmente naquelas em que estudam os filhos das elites.  A verdade é que nas escolas destinadas aos filhos das classes dirigentes o receituário seguirá modelos mais ligados aos conceitos formulados por Paulo Freire que são voltados para a construção de formas libertárias de pensamento, enquanto para os estudantes oriundos da classe trabalhadora se aplicará regras do adestramento militar, destinando-os a obedecer sem pensar.

A verdade inescapável é que esse decreto não pode ser tolerado, aperfeiçoado nem minimizado pelo impacto que criará na formação técnica e no desenvolvimento da juventude pobre do Rio de Janeiro. Esse decreto tem que ser contestado em todos os níveis para que chegue muito rapidamente a uma lata de lixo, único lugar que um instrumento tão regressivo e tão antagônico ao direito de uma escola pública de qualidade, democrática e inclusiva.

E que nas próximas eleições se trabalhe muito para retornar Cláudio Castro à obscuridade da qual ele nunca deveria ter saído. Simples assim!

Conflito militar na Ucrânia desencadeia ‘tempestade perfeita’ na agricultura global

Colheitas reduzidas e fertilizantes mais escassos prometem fome e dificuldades para dezenas de milhões

colheitadeira trigoUma colheitadeira trabalha em um campo em Mari El, uma república autônoma da Federação Russa, em 18 de agosto de 2002. OLEG NIKISHIN/GETTY IMAGES

Por Christina Lu , editora da Foreign Policy

A invasão da Ucrânia pela Rússia ameaça desencadear uma crise alimentar global, já que interrupções simultâneas nas colheitas e na produção global de fertilizantes estão elevando os preços dos alimentos e enviando ondas de choque econômicas em todo o mundo. 

Após um mês de guerra, economistas e agências de ajuda dizem que o mundo está enfrentando crises de fusão que podem rapidamente se transformar em uma emergência alimentar global. O conflito já reduziu as exportações russas e ucranianas de commodities cruciais, como trigo, óleo de girassol e milho, uma perturbação que se espalhou pelos países dependentes de importações no Oriente Médio e no norte da África. Ao mesmo tempo, a atual crise de energia aumentou drasticamente os preços dos fertilizantes e os custos de transporte, espremendo os principais insumos para a produção agrícola global. 

Essas interrupções convergiram em uma “tempestade perfeita”, disse Ertharin Cousin, membro distinto do Conselho de Assuntos Globais de Chicago e ex-diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos. “Isso pode resultar em um aumento cataclísmico nos preços dos alimentos.”

Juntos, a Rússia e a Ucrânia respondem por cerca de 30% das exportações globais de trigo, enquanto a Rússia é o maior exportador de fertilizantes do mundo. Os preços dos fertilizantes e dos alimentos já subiram para níveis recordes à medida que a guerra impede os embarques e as sanções ocidentais atingem a Rússia. Nas primeiras semanas do conflito, Kiev também proibiu as exportações de trigo e outros alimentos básicos, enquanto Moscou instou seus produtores de fertilizantes a suspender temporariamente as exportações.

Nos próximos meses, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação estima que os preços dos alimentos podem aumentar em até 20% , um aumento significativo que pode exacerbar a insegurança alimentar global. Quase 283 milhões de pessoas em 81 países enfrentam atualmente insegurança alimentar aguda ou estão em alto risco, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos , com 45 milhões à beira da fome. 

A invasão da Rússia pode ser um “ponto de inflexão” em uma crise de fome mundial, disse Cousin: “Toda a comunidade global será duramente atingida por isso”.

O aumento dos preços dos alimentos também pode alimentar a instabilidade política em países dependentes de importações. Os preços dos alimentos e a agitação política têm sido historicamente correlacionados: há uma década, os custos vertiginosos dos grãos – que elevaram os preços do pão em 37%  no Egito – contribuíram para a Primavera Árabe. No início de 2008, a disparada dos preços provocou tumultos e protestos globais.

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Relação entre preços dos alimentos e instabilidade política

“As pessoas reagirão quando estiverem com fome… quando o custo dos alimentos for tão alto que elas não possam pagar o aluguel”, disse Catherine Bertini, ilustre membro do Conselho de Chicago e também ex-diretora executiva do Programa Mundial de Alimentos. . 

O aumento dos preços já provocou distúrbios em países como o Sudão, que importa mais de 80%  de seu trigo da Rússia e da Ucrânia. Com o aumento dos preços do pão, milhares de manifestantes sudaneses enfrentaram gás lacrimogêneo e balas para protestar. Nas últimas semanas, os protestos também abalaram o Iraque  e a Grécia, onde centenas de agricultores se manifestaram contra a disparada dos preços dos fertilizantes.  

Se esses choques econômicos continuarem, a instabilidade pode se espalhar para outras regiões do mundo, disse Michael Tanchum, especialista em energia do Conselho Europeu de Relações Exteriores e do Instituto do Oriente Médio. “Desta vez, não será apenas uma Primavera Árabe, não será apenas o Norte da África, se as medidas não forem tomadas”, disse Tanchum.

Como os mercados globais de alimentos já estavam sobrecarregados pela pandemia do COVID-19, os economistas dizem que as consequências econômicas da guerra foram particularmente dolorosas – e especialmente para as nações que dependem fortemente do suprimento da Rússia e da Ucrânia. Quase 50 países dependem da Rússia e da Ucrânia para pelo menos 30% de suas importações de trigo, e 26 dependem deles para mais da metade de suas importações. 

“Isso está agravando uma situação já ruim”, disse Chris Barrett, economista agrícola da Universidade de Cornell. “A verdadeira preocupação agora é que a tempestade perfeita venha, pois ainda não estamos fora de perigo de todo o enorme deslocamento econômico causado pela pandemia.”

A crise energética em curso apenas intensificou essas pressões à medida que os preços disparados do gás natural aumentam os custos de produção de fertilizantes. O gás natural é necessário para produzir amônia e uréia, componentes-chave em fertilizantes à base de nitrogênio. Para fazer face a estes custos acrescidos, alguns produtores recorreram à redução da produção. Em março, a gigante de fertilizantes Yara International anunciou que teria que operar com cerca de metade da capacidade na Europa para acomodar o aumento dos preços e a manutenção planejada. 

Um choque de “essa magnitude nunca foi experimentado antes”, disse Svein Tore Holsether, CEO da Yara, que observou que cerca de 80% do custo de fabricação de fertilizantes à base de nitrogênio vem da energia. “O que estamos enfrentando agora são desligamentos completos de partes da cadeia de valor.”

Essa interrupção prejudicou países como o Brasil, que depende da Rússia para mais de um quinto de suas importações de fertilizantes. Diante de uma oferta cada vez menor, Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai pediram a exclusão de fertilizantes das sanções ocidentais à Rússia em março. “O Brasil depende de fertilizantes”, disse o presidente brasileiro Jair Bolsonaro a repórteres. “É uma questão sagrada para nós.” 

À medida que os cortes e a escassez chegam à próxima temporada de plantio, os especialistas alertam que seus impactos serão sentidos nos próximos meses – e em uma ampla variedade de culturas. 

Essa crise de fertilizantes “vai impactar todas as produções do mundo”, disse David Laborde, pesquisador sênior do International Food Policy Research Institute. “Não é só trigo.”

As agências de ajuda agora estão lutando para garantir financiamento suficiente para apoiar as populações em maior risco do mundo. Atender à necessidade global, no entanto, pode ser um desafio: em março, o Programa Mundial de Alimentos  anunciou que precisaria arrecadar US$ 71 milhões adicionais por mês para comprar alimentos suficientes . Mas, como seus recursos estão sobrecarregados pela guerra, disse a agência, também foi forçada a reduzir as rações para refugiados no Oriente Médio e na África. 

“Não temos escolha a não ser pegar comida dos famintos para alimentar os famintos”, disse David Beasley, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, em comunicado . 

“O ataque russo à Ucrânia foi um ataque a pessoas com insegurança alimentar em todo o mundo”, disse Barrett, o economista agrícola.Na pior das hipóteses, disse ele, “veremos dezenas de milhões de pessoas de repente enfrentando a fome.

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Este texto foi escrito em inglês e publicado pela revista “Foreign Policy”  [Aqui!].

Microplásticos encontrados no sangue humano pela primeira vez

Exclusivo: A descoberta mostra que as partículas podem viajar pelo corpo e se alojar em órgãos

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Microplásticos causam danos às células humanas em laboratório. Fotografia: David Kelly/Fotografia David Kelly

Por Damian Carrigton, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

A poluição causada por microplásticos foi detectada no sangue humano pela primeira vez, com cientistas encontrando as minúsculas partículas em quase 80% das pessoas testadas.

A descoberta mostra que as partículas podem viajar pelo corpo e podem se alojar em órgãos. O impacto na saúde ainda é desconhecido. Mas os pesquisadores estão preocupados porque os microplásticos causam danos às células humanas em laboratório e as partículas de poluição do ar já são conhecidas por entrar no corpo e causar milhões de mortes precoces por ano.

Enormes quantidades de resíduos plásticos são despejadas no meio ambiente e os microplásticos agora contaminam todo o planeta, desde o cume do Monte Everest até os oceanos mais profundos . As pessoas já eram conhecidas por consumir as minúsculas partículas através de alimentos água , além de inalá-las , e elas foram encontradas nas fezes de bebês e adultos .

Os cientistas analisaram amostras de sangue de 22 doadores anônimos, todos adultos saudáveis ​​e encontraram partículas de plástico em 17. Metade das amostras continha plástico PET, que é comumente usado em garrafas de bebidas, enquanto um terço continha poliestireno, usado para embalar alimentos e outros produtos. Um quarto das amostras de sangue continha polietileno, do qual são feitas sacolas plásticas.

“Nosso estudo é a primeira indicação de que temos partículas de polímero em nosso sangue – é um resultado inovador”, disse o professor Dick Vethaak, ecotoxicologista da Vrije Universiteit Amsterdam, na Holanda. “Mas temos que estender a pesquisa e aumentar o tamanho das amostras, o número de polímeros avaliados etc.” Outros estudos de vários grupos já estão em andamento, disse ele.

“Certamente é razoável se preocupar”, disse Vethaak ao Guardian. “As partículas estão lá e são transportadas por todo o corpo.” Ele disse que trabalhos anteriores mostraram que os microplásticos eram 10 vezes maiores nas fezes dos bebês em comparação com os adultos e que os bebês alimentados com garrafas plásticas estão engolindo milhões de partículas de microplástico por dia.

“Também sabemos, em geral, que bebês e crianças pequenas são mais vulneráveis ​​à exposição a produtos químicos e partículas”, disse ele. “Isso me preocupa muito.”

A nova pesquisa foi publicada na revista Environment International e adaptou as técnicas existentes para detectar e analisar partículas tão pequenas quanto 0,0007 mm. Algumas das amostras de sangue continham dois ou três tipos de plástico. A equipe usou agulhas de seringa de aço e tubos de vidro para evitar contaminação e testou os níveis de fundo de microplásticos usando amostras em branco.

Vethaak reconheceu que a quantidade e o tipo de plástico variaram consideravelmente entre as amostras de sangue. “Mas este é um estudo pioneiro”, disse ele, com mais trabalho agora necessário. Ele disse que as diferenças podem refletir a exposição de curto prazo antes das amostras de sangue serem coletadas, como beber de um copo de café forrado de plástico ou usar uma máscara facial de plástico.

“A grande questão é o que está acontecendo em nosso corpo?” disse Vethaak. “As partículas ficam retidas no corpo? Eles são transportados para certos órgãos, como passar pela barreira hematoencefálica?” E esses níveis são suficientemente altos para desencadear doenças? Precisamos urgentemente financiar mais pesquisas para que possamos descobrir.”

A nova pesquisa foi financiada pela Organização Nacional Holandesa para Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde e Common Seas, uma empresa social que trabalha para reduzir a poluição plástica.

“A produção de plástico deve dobrar até 2040”, disse Jo Royle, fundadora da instituição de caridade Common Seas. “Temos o direito de saber o que todo esse plástico está fazendo com nossos corpos.” A Common Seas, juntamente com mais de 80 ONGs, cientistas e parlamentares, estão pedindo ao governo do Reino Unido que aloque £ 15 milhões para pesquisas sobre os impactos do plástico na saúde humana. A UE já está financiando pesquisas sobre o impacto do microplástico em fetos e bebês e no sistema imunológico.

Um estudo recente descobriu que os microplásticos podem se prender às membranas externas dos glóbulos vermelhos e podem limitar sua capacidade de transportar oxigênio. As partículas também foram encontradas nas placentas de mulheres grávidas e, em ratas grávidas, elas passam rapidamente pelos pulmões para os corações, cérebros e outros órgãos dos fetos.

Um novo artigo de revisão publicado na terça-feira , em coautoria de Vethaak, avaliou o risco de câncer e concluiu: “Pesquisas mais detalhadas sobre como micro e nanoplásticos afetam as estruturas e processos do corpo humano e se e como eles podem transformar células e induzir a carcinogênese, é urgentemente necessária, principalmente devido ao aumento exponencial da produção de plástico. O problema está se tornando mais urgente a cada dia.”


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Dados de necrotérios sugerem o verdadeiro impacto da COVID-19 na África

Cerca de 90% das pessoas falecidas testadas em uma instalação de Lusaka durante surtos de coronavírus foram positivas para infecção por SARS-CoV-2, sugerindo falhas na ideia de um ‘paradoxo africano

Uma mulher com uniforme e máscara de enfermeira recebe uma vacina.

Um profissional de saúde em Lusaka é vacinado contra o COVID-19. Crédito: Xinhua/Shutterstock

Por Freda Kreier para a Nature

Quase um terço dos mais de 1.000 corpos levados para um necrotério em Lusaka em 2020 e 2021 deram positivo para SARS-CoV-2, o que implica que muito mais pessoas morreram de COVID-19 na capital da Zâmbia do que os números oficiais sugerem 1 . Alguns cientistas dizem que as descobertas minam ainda mais o ‘paradoxo africano’, uma narrativa de que a pandemia foi menos grave na África do que em outras partes do mundo.

Essa ideia surgiu depois que especialistas em saúde notaram que as nações subsaarianas estavam relatando números mais baixos de casos e menos mortes por COVID-19 do que o esperado . Mas os pesquisadores dizem que as descobertas da Zâmbia podem refletir uma verdade mais ampla – que um déficit de testes e infraestrutura médica tensa mascararam o verdadeiro pedágio do COVID-19 no continente. As descobertas ainda não foram revisadas por pares.

Ignorar a verdadeira extensão do COVID-19 em Lusaka e além “é muito errado. As pessoas estavam doentes. Eles tiveram suas famílias destruídas”, diz o coautor Christopher Gill, especialista em saúde global da Universidade de Boston, em Massachusetts. Um de seus colegas na Zâmbia morreu de COVID-19 enquanto trabalhava no projeto.

“Não é hipotético para mim”, diz Gill.

Casos de COVID em falta

Quando o SARS-CoV-2 começou a se espalhar globalmente, muitos pesquisadores de saúde temiam que o vírus devastasse a África subsaariana. Mas os números surpreendentemente baixos de casos de COVID-19 relatados na região levaram à percepção “de que a debilitação grave e as mortes causadas pelo COVID-19 eram de alguma forma menores na África em comparação com outros continentes”, diz Yakubu Lawal, endocrinologista do Federal Medical Medical Center. Centro Azare na Nigéria.

Lawal e outros cientistas especularam 2 que a relativa juventude da população africana poderia ter ajudado a poupar o continente, mas também suspeitavam que os números oficiais fossem subnotificados. A questão era por quanto.

Buscando respostas, Gill e seus colegas na Zâmbia testaram corpos em um dos maiores necrotérios de Lusaka para SARS-CoV-2 durante vários meses em 2020 e 2021. A positividade do teste foi de 32% no geral – e atingiu cerca de 90% durante o pico das ondas causadas pelas variantes Beta e Delta . Além disso, apenas 10% das pessoas cujos corpos continham o vírus após a morte deram positivo enquanto ainda estavam vivas. Alguns tiveram resultados falsos negativos, mas a maioria nunca foi testada.

Embora Gill e seus colegas não possam confirmar que todas essas pessoas morreram de COVID-19, os resultados ainda contrastam fortemente com os números oficiais. Até agora, houve menos de 4.000 mortes confirmadas por COVID-19 na Zâmbia, um país de cerca de 19 milhões de pessoas. Descobertas separadas publicadas em 10 de março sugerem que o ‘excesso’ de mortes da Zâmbia – aquelas acima do que normalmente seria esperado – de 1º de janeiro de 2020 até o final de 2021 excederam 80.000 3 .

Os números de Lusaka combinam com as estatísticas da África do Sul, onde um estudo de 2021 descobriu que apenas 4 a 6% das infecções por SARS-CoV-2 em duas comunidades foram oficialmente documentadas 4 . Um estudo mais aprofundado das mesmas comunidades mostrou que 62% dos participantes do estudo foram infectados pelo menos uma vez de julho de 2020 a agosto de 2021 5 . A coautora Cheryl Cohen, epidemiologista da Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo, África do Sul, diz que muitas dessas infecções eram assintomáticas , mas que as pessoas com sintomas também podem não ter sido detectadas devido ao custo e à dificuldade de fazer o teste.

Gill suspeita que uma das principais razões para a diferença entre seus resultados e as contagens oficiais é que a maioria das pessoas na Zâmbia que morrem de COVID-19 o fazem fora dos cuidados médicos. Quatro em cada cinco pessoas testadas no estudo nunca foram internadas em um hospital; a maioria das infecções não notificadas ocorreu em pessoas que vivem nos bairros de baixa renda de Lusaka.

“Ninguém está vacinado. Ninguém tem máscaras. Ninguém tem acesso aos cuidados médicos de que precisam”, diz Gill. “Estamos em uma população que já está estressada e insalubre, e então – bam! Entra a COVID-19.”

Vasta variação

Mas nem todos estão convencidos de que as descobertas de Lusaka invalidam a ideia do paradoxo africano. Na Etiópia, por exemplo, “nossa experiência é que as pessoas são infectadas com o vírus, são assintomáticas ou apresentam sintomas leves e se recuperam”, diz Amare Abera Tareke, fisiologista da Universidade Wollo em Dessie. “Embora seja difícil ignorar a descoberta atual, temos que levá-la com cautela.”

Gill teme que a ideia de que a África tenha sido poupada do pior da pandemia possa ter levado as pessoas a correr riscos desnecessários ou contribuído para “a falta de urgência” no fornecimento de vacinas às nações africanas.

“Acho que isso pode ser exclusivo de Lusaka”, diz ele, “mas cara, você realmente teria que se esforçar para explicar o porquê.”

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-00842-9

Referências

  1. Gill, CJ et ai. Pré-impressão em medRxiv https://doi.org/10.1101/2022.03.08.22272087 (2022).

  2. Lawal, Y. Int. J. Infectar. Des. 102 , 118-122 (2021).

    ArtigoGoogle Scholar

  3. Colaboradores da mortalidade por excesso de COVID-19. Lancet https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)02796-3 (2022).

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  4. Kleynhans, J. et ai. Emerg. Infectar. Des. 27 , 3020-3029 (2021).

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  5. Cohen, C. et ai. Lanceta Infect. Des . https://doi.org/10.1016/S1473-3099(22)00069-X (2022).

    ArtigoGoogle Scholar


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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela revista Nature [Aqui!].

Tsulama de Mariana: movido por escritório britânico em nome de 200 mil clientes, processo contra a mineradora BHP terá audiência no dia 4 de abril

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No próximo dia 4 de abril, o Tribunal de Apelação da Inglaterra inicia audiência da maior ação civil coletiva em número de clientes já apresentada nas cortes inglesas. Trata-se também de uma das 10 apelações mais importantes do ano, segundo a revista especializada inglesa The Lawyer.

O Caso de Mariana na Inglaterra, ajuizado pelo escritório multinacional PGMBM contra a mineradora anglo-australiana BHP, envolve mais de 200 mil autores. Entre eles, estão moradores de várias cidades de Minas Gerais e Espírito Santo, membros da comunidade indígena Krenak, 25 prefeituras, cinco autarquias, 530 empresas e 6 instituições religiosas.

No processo intitulado “Município de Mariana & Ors v BHP Group, BHP Billiton and BHP Group”, o PGMBM busca reparação integral para os danos causados aos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, localizada em Mariana (MG), em 2015. O desastre causou a morte de 19 pessoas e devastação generalizada em dezenas de cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo. Os rejeitos de minério de ferro liberados pela barragem se espalharam por quase 700 quilômetros ao longo da bacia do Rio Doce, desde Mariana (MG) até Linhares (ES), alcançando o Oceano Atlântico. A calamidade é considerada o maior desastre ambiental do Brasil.

“As multinacionais obtêm grandes lucros em suas operações internacionais e devem ser responsabilizadas pelos prejuízos que causam com essas atividades. A melhor maneira de fazer isso acontecer é que elas sejam responsabilizadas nas cortes de seus países de origem”, afirma Tom Goodhead, sócio-administrador do PGMBM. Por meio de joint venture com a Vale, a anglo-australiana BHP é coproprietária da Samarco, operadora da Barragem de Fundão que rompeu em 2015. 

O PGMBM, que é especializado em litígios de grande porte e causas coletivas contra grandes corporações, também move ação na Alemanha contra a empresa certificadora TÜV SÜD, responsável pelo laudo de estabilidade da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, que se rompeu em 2019, causando a morte de 270 pessoas.

Entenda o caso

Em 2018, o escritório PGMBM ajuizou uma ação coletiva na Inglaterra contra a BHP Group Plc (antiga BHP Billiton PIc) e BHP Group Limited, coproprietária da Samarco junto com a Vale, representando mais de 200.000 clientes.

Em julho de 2021, um painel de juízes (formado pelo do Tribunal de Apelação (Divisão Civil), Lord Justice Geoffrey Vos ; o Vice-presidente do Tribunal de Apelação Lord Justice Nicholas Underhill; e a e Lady Justice Sue Carr) reabriu o processo e concedeu permissão para recorrer da decisão negativa de 2020 sobre a jurisdição na Inglaterra. A próxima audiência está prevista para o dia 4 de abril e vai durar cinco dias inteiros, perante três juízes que então decidirão se o caso do PGMBM contra a mineradora BHP poderá ser julgado pela corte inglesa.

Sobre o PGMBM

O escritório PGMBM é uma parceria única entre advogados britânicos, brasileiros e americanos, motivados a defender vítimas de delitos cometidos por grandes corporações, com escritórios em Londres, Estados Unidos, Holanda e Brasil. O escritório é especializado em casos de poluição e desastres ambientais originados no Brasil e em outras partes do mundo, tratando de reclamações decorrentes dos desastres de Mariana e Brumadinho, bem como de vários outros desastres ambientais significativos. O PGMBM também está na vanguarda das reivindicações dos consumidores no Reino Unido, representando milhares de pessoas afetadas por grandes corporações. Essas reivindicações incluem processos contra Volkswagen, Mercedes, British Airways, EasyJet, Bayer AG, Johnson & Johnson e outras grandes empresas multinacionais.

Entrevista sobre a questão da qualidade da água em Campos dos Goytacazes

água

Estive hoje na redação do “Portal Viu” para participar de uma interessante entrevista com o jornalista Roberto Barbosa que teve como mote central a questão da qualidade (ou falta dela) da água que chega na torneira dos campistas via os serviços prestados pela concessionária “Águas do Paraíba” (ver vídeo abaixo).

Nessa entrevista fiz um esforço especial para utilizar uma linguagem que fosse o mais clara possível, pois considero que esta é uma questão que precisa ser entendida por todos da forma mais ampla, especialmente pelos clientes cativos da concessionária que são todos os campistas que recebem água em suas casas via a “Águas do Paraíba”.

Websérie mostra como um projeto sustentável salvou o pirarucu da extinção na Amazônia

Disponível no YouTube, “O Gigante da Amazônia” mostra como o manejo sustentável mudou o destino do pirarucu, espécie de grande importância econômica e cultural que quase foi extinta no passado

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Não faz muito tempo que a pesca desordenada gerou a diminuição drástica da população de pirarucus, um dos maiores peixes de água doce do planeta e considerado uma iguaria amazônica. O risco do desaparecimento da espécie levou à proibição da pesca que, atualmente, é permitida em Unidades de Conservação (UCs) praticantes do manejo sustentável. A atividade é considerada de extrema importância sociocultural, visto que é realizada há séculos por populações tradicionais indígenas e ribeirinhas, tanto para consumo quanto para comércio.

Desde 2010, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema/AM), IBAMA e Associação dos Moradores e Usuários da Reserva Mamirauá (Amurmam), tem auxiliado no aumento da renda de populações locais por meio do apoio ao manejo sustentável do pirarucu em Unidades de Conservação do Amazonas. O modelo se tornou exemplo mundial de investimento em programas de sustentabilidade como solução para o meio ambiente, além de aprimorar a qualidade de vida das pessoas que vivem na Amazônia. Disponível no YouTube da FAS, a websérie O Gigante da Amazônia explica, sob a ótica de pescadores comunitários, como é a rotina das famílias que dependem diretamente do manejo do pirarucu.

Na década de 1970, com a intensificação da exploração comercial do pirarucu, a espécie entrou em declínio. A pesca mínima e o período de defesa reprodutiva (de dezembro a maio) foram estabelecidos pelo Ibama. No entanto, devido à falta de fiscalização, a espécie passou a sofrer sério risco de extinção e, no ano de 1996, a pesca em grande escala foi proibida, sendo permitida apenas em áreas e reservas devidamente licenciadas para o manejo.

Devido à demanda de pescadores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no município Fonte Boa, localizado 678 km de Manaus, que queriam trabalhar legalmente, o Instituto Mamirauá – organização social fomentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações – criou o sistema de manejo participativo do pirarucu. O projeto foi aprovado em 1999 e, desde a sua implementação, tem funcionado de forma satisfatória. Atualmente, a pesca sustentável do peixe gera renda significativa para as famílias ribeirinhas e funciona como barreira de proteção dos rios. 

Para garantir a economia local, a FAS tem apoiado o manejo sustentável do pirarucu em cinco UCs na Amazônia, com investimento em infraestrutura, logística e mercado. No último ano, a fundação apoiou a captura e venda de 108 toneladas do pescado. Nas três freiras realizadas pela Fundação no último ano, foram comercializados 14.18 toneladas do peixe, que gerou um faturamento bruto de R$ 118.692.96 para as 67 famílias beneficiadas.

Edvaldo Corrêa, gerente do Programa Floresta em Pé, explica que o manejo da espécie é essencial para dar continuidade a projetos de sustentabilidade. 

“O manejo do pirarucu traz muitos benefícios para o ecossistema, porque ajuda na conservação da espécie e gera uma grande produtividade. Para as comunidades, gera renda e emprego, profissionalização para pescadores e investimentos em locais de uso comunitário, trazendo ganhos financeiros e sociais para as comunidades e para o meio ambiente”, afirma Edvaldo. 

Os ribeirinhos também relatam os benefícios do manejo para a comunidade. O pescador Joilson de Souza, por exemplo, enxerga a melhoria na vida dele e de outros familiares. Para ele, o manejo sustentável é a chance de unir o ofício familiar à geração de renda.

“O manejo se desenvolveu muito com o passar dos anos e melhorou bastante. E eu vejo meus irmãos e primos, que enxergam (o manejo) como a renda deles. Eles têm o pai como espelho para seguir adiante com o que o pai deixou para eles e têm isso como propriedade deles. Eles lutam por isso, assim como eu. Eu vivo por isso, eu luto por isso”, explica Joilson.

Conheça as etapas do manejo

Antes do pirarucu chegar às nossas mesas, o pescado passa por algumas etapas que dependem diretamente dos períodos de cheia dos rios. E são esses detalhes que a websérie da FAS aborda. 

1. Defesa e monitoramento dos lagos (Período de cheia)

Durante a entressafra, as famílias se dividem em turnos para vigiar os lagos – principais locais onde ficam concentrados os peixes -, garantindo que nenhum pescador exerça atividades nesse período, que é considerado inapropriado para pesca. Essa época deve ser respeitada para garantir o crescimento e reprodução da espécie.  

2. Contagem (Período de seca)

Durante a seca, é feita a contagem do número de peixes no lago. Por possuir respiração pulmonar, o pirarucu é uma espécie que precisa subir até a superfície para respirar, o que ocorre em intervalos de 20 minutos. É nesse momento que os pescadores especializados conseguem estimar o número de indivíduos.

3. Pesca (Período de seca)

A partir da contagem, é estabelecida a cota de pesca, que permite a retirada de 30% dos peixes adultos, a fim de não prejudicar a reprodução da espécie. O período de pesca é intenso e envolve toda a família dos pescadores: homens, mulheres e jovens, que se dividem nas funções de pesca, pesagem e limpeza.

4. Processamento e estocagem (Período de seca)

O pirarucu pode ser armazenado congelado ou dessecado ao sol e salgado. Geralmente, as partes mais vendidas são o filé, a ventrecha e a manta.

5. Escoamento (Período de seca)

Normalmente, as comunidades envolvidas na pesca estão localizadas em regiões muito distantes dos centros urbanos onde o peixe é comercializado. Por isso, na maioria das vezes, os pescadores vendem para intermediários que vão às comunidades e compram o pescado por um preço menor. Para contribuir com a valorização da cadeia produtiva e dos manejadores, a FAS apoia a participação dos produtores da Feira da FAS, onde o pescado é vendido por um preço justo. No último ano, o filé foi comercializado por R$25, a manta por R$18, a ventrecha R$14 e a carcaça por R$6.

Sobre a Fundação Amazônia Sustentável

A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil fundada em 2008, com a missão de “contribuir para a conservação ambiental da Amazônia, através da valorização da floresta em pé e sua biodiversidade, aumentando a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas associando a implementação e disseminação de conhecimento sobre desenvolvimento sustentável”. Com base em Manaus, a FAS coordena projetos ambientais, sociais e econômicos focados na conservação da floresta amazônica. É uma organização sem fins lucrativos, sem ligações político-partidárias, de utilidade pública e assistência social.

Mapa da água: como garantir uma água limpa para beber?

A única solução é coletiva: cobrar transparência dos fornecedores de água e mais controle sobre o uso de agrotóxicos e outros contaminantes que chegam aos rios e mananciais

água

Por Hélen Freitas para a “Repórter Brasil”

Água com agrotóxicos, metais e outros produtos que causam doenças crônicas como câncer. Esse é o cenário revelado com a publicação do Mapa da Água, que mostrou que a rede de abastecimento de mais de 700 cidades apresentaram substâncias químicas e radioativas acima do limite permitido pelo Ministério da Saúde. E quase metade dos municípios (48%) não informaram os resultados dos testes feitos na água. Tudo isso apenas acessando os dados oficiais das empresas, que são lançados no Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), do Ministério da Saúde.

O que pode ser feito para saber se a água que saiu da sua torneira hoje está contaminada? E como limpá-la? Desde a publicação do Mapa, a Repórter Brasil recebeu dezenas de questionamentos assim.

São diversos os métodos para desinfetar a água e torná-la potável. Alguns mais tradicionais, como cloração, decantação e filtragem, e outros mais específicos, como desinfecção por ultravioleta e dupla filtração. Porém, esses métodos são pouco eficientes para retirar a maior parte dos agrotóxicos ou outras substâncias químicas e radioativas presentes na água de todo o país, como revelou o Mapa da Água.

O maior problema está na fonte, o manancial de onde a água é retirada, afirma o presidente da Aliança Tropical de Pesquisa da Água José Francisco Gonçalves. “Boa parte da nossa água hoje, por conta da contaminação do solo e por serem muito próximas às cidades ou áreas agrícolas, já possui comprometimento quanto à qualidade química”. Ou seja, com fontes cada vez mais contaminadas, o tratamento necessário fica mais difícil, caro e, portanto, inacessível.

Desde 1997 está em vigor a Política Nacional de Recursos Hídricos, que tem como objetivo garantir a qualidade da água “à atual e futuras gerações”. No entanto, até hoje são poucas as ações realizadas para, de fato, limpar os mananciais que abastecem os municípios. O Guarapiranga, em São Paulo, é um grande exemplo. O sistema abastece 4,8 milhões de moradores da capital. Contudo, basta andar perto da represa para ver lixo e esgoto nas suas águas.

Sandra Kishi, procuradora regional da República, afirma que o Brasil deveria focar em uma abordagem preventiva em vez de se preocupar só com o tratamento da água. Para ela, atender todo o conjunto de parâmetros estabelecidos pela norma não é fácil, principalmente aos gestores de municípios mais pobres e sem capacidade financeira para custosos tratamentos. Com o uso de medidas preventivas, como barreiras sentinelas que impedem substâncias tóxicas de chegarem até o manancial, projetos de reflorestamento, melhoria da gestão de resíduos e de águas pluviais, teríamos uma água mais segura, sem gastos estrondosos.

“Tudo isso ajuda a sociedade a não arcar com o custo social de pagar altos valores em tecnologias caras de tratabilidade ou pior, seja alvo de epidemias de veiculação hídrica, usualmente traduzidas em intoxicações que podem ser letais ou com problemas crônicos diante da intoxicação”, pontua Kishi.

A criação de políticas públicas para a recuperação das áreas degradadas e ecossistemas poluídos se apresenta como a melhor solução. Com uma água limpa de verdade, os gastos do poder público com doenças crônicas causadas pelo consumo de água contaminada diminuiriam, enquanto aumentaria a produtividade das empresas.

“É um movimento social capitaneado pelo poder público, mas que precisa de envolvimento de todos os setores da sociedade, até mesmo do setor produtivo, porque sem água de boa qualidade eles também não conseguem produzir, e tendo um funcionário que está doente, ele vai ter uma produção menor, então é fácil convencer todos os setores, o que precisa é ter vontade”, afirma Gonçalves.

Como saber o que tem na sua água?

Uma das principais dificuldades é a informação sobre existência de substâncias perigosas. Responsáveis pelo abastecimento devem divulgar os resultados dos testes sempre que há um resultado fora do padrão, mas infelizmente isso ainda não acontece. Especialistas incentivam que os consumidores e a sociedade civil como um todo cobre os responsáveis pela água pelas informações a que têm direito.

Luva desenvolvida por pesquisadores da USP pode detectar agrotóxicos na água e em alimentos de forma rápida, barata e confiável (Foto: IFSC/USP)

Enquanto o movimento de transparência não acontece, algumas alternativas científicas tentam deixar esse processo mais barato e rápido, sem perder a confiabilidade das análises. Um desses projetos é a luva de borracha sintética capaz de detectar agrotóxicos em alimentos e na água. O trabalho foi coordenado pelo químico Paulo Augusto Raymundo-Pereira, pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

A luva detecta quatro grupos de agrotóxicos empregados em cultivos de cereais, frutas cítricas, café, algodão, cacau, banana, abacaxi, maçã e cana-de-açúcar: carbendazim, diuron, fenitrotiona e o paraquate, proibido em 2020. “O que a gente fez foi conseguir detectá-los de maneira confiável e, mesmo se a gente tiver uma mistura de substâncias na amostra, conseguimos uma excelente distinção entre eles”, afirma o pesquisador.

Segundo ele, a ferramenta traz versatilidade ao processo de detecção, já que pode ser usado no campo e laboratórios por qualquer pessoa, mesmo que não seja especialista no assunto. Além disso, a luva não precisa ficar restrita apenas à detecção de pesticidas, já que os sensores podem ser recalibrados para identificar qualquer outra substância seja na água ou nos alimentos.

Apesar de o protótipo ter ficado pronto em 2019, nenhuma empresa ou o governo procuraram o grupo de pesquisa para comprar a ideia e produzir a luva.

Apesar de o protótipo ter ficado pronto em 2019, nenhuma empresa ou o governo procuraram o grupo de pesquisa para comprar a ideia e produzir a luva

Água imprópria para consumo

Água marrom, com cheiro e gosto são sinais mais comuns de que ela não está boa para beber. Contudo, nem toda substância que pode causar danos à saúde, principalmente a longo prazo, aparecem facilmente, e nem todo brasileiro pode escolher qual água irá beber.

Nem toda substância que pode causar danos à saúde, principalmente a longo prazo, aparecem facilmente

De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, cerca de 36 milhões de pessoas não têm água encanada. A grande maioria é de moradores da região norte e nordeste do país que precisam consumir água de poços e rios sem nenhum tipo de tratamento, colocando em risco a sua saúde.

Localizada na capital paulista, represa Guarapiranga abastece milhões de pessoas e foi a que mais teve substâncias acima do limite. Tratamento preventivo evitaria o aparecimento de substâncias que geram riscos à saúde (Foto: Sabesp/Divulgação)

A insegurança em relação à água é um sentimento comum no Brasil. Não se bebe água direto da torneira, compra-se água engarrafada ou filtro caseiro, que mesmo assim não se sabe se realmente ela é pura. Na dúvida sobre a qualidade, muitas pessoas optam por ferver a água para poder eliminar as impurezas. 

O presidente da Aliança Tropical de Pesquisa da Água diz que qualquer ação doméstica não será suficiente para retirar possíveis metais pesados, compostos químicos e fármacos, entretanto, enfatiza “se a pessoa suspeita que a água que está chegando na sua casa tem problemas, deve ferver a água”.

Até 2018, pouco se sabia sobre a qualidade da água que chegava às casas dos brasileiros. Apesar de ser de interesse público, os dados ficavam fechados a sete chaves e só podiam ser acessados via Lei de Acesso à Informação. 

Hoje é possível baixar todas as informações sobre substâncias encontradas na água por meio do Sisagua. Porém, o sistema está longe de ser a solução perfeita. Os arquivos são extremamente pesados e difíceis de serem interpretados. Não há nenhum painel para acesso aos dados mais gerais e que possam ser filtrados por municípios, assim como há em outros sistemas governamentais como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O Ministério Público Federal também tentou facilitar o acesso à informação. Em 2021 lançou a ferramenta de monitoramento socioeducativo “Água Boa de Beber. De acordo com a procuradora Sandra Kishi, que coordena o projeto, o objetivo foi criar uma alternativa simples e confiável que incentiva o controle social sobre a qualidade da água. “Não tem direito humano mais básico do que saber qual a qualidade da água que está sendo oferecida para consumo”, afirma.

Água boa é um direito que deve ser garantido todos os dias e a todos, independente da região em que se vive. A solução existe, mas falta vontade de criar políticas públicas que irão garantir uma vida saudável aos brasileiros.


color compass

Este texto foi inicialmente publicado pela “Repórter Brasil”  [Aqui!].

Sob pressão dos fatos, Águas do Paraíba emite nota “estilo Chacrinha” que mais confunde do que explica

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De uma forma bem atípica, a concessionária “Águas do Paraíba” finalmente resolveu vir à público para tentar responder à divulgação dos resultados sobre a qualidade da água de torneira divulgados pelo “Mapa da Água” e repercutidos por mim neste blog. O problema é que a nota emitida pela concessionária que monopoliza os serviços de água e esgoto em Campos dos Goytacazes está contaminada pelo que eu caracterizo como sendo “estilo Chacrinha” que é aquele imortalizado pelo saudoso comunicador Abelardo Barbosa que dizia que não tinha vindo “para explicar para confundir”.

Uma primeira faceta curiosa da nota “Chacrinha” da Águas do Paraíba é que há um reconhecimento de que a empresa forneceu dados errados para o banco de dados do Sisagua (será que ofereceu mesmo), gerando uma desconformidade entre o que teria sido medido e o que foi informado ao Ministério da Saúde.  Aqui, assumindo então que agora os dados são verdadeiros, haveria que se agradecer ao pessoal do “Mapa da Água” por alertar, gratuitamente, a Águas do Paraíba de que os dados fornecidos estavam incorretos.

A segunda faceta é que, diferente do que consta no “Mapa da Água“, a Águas do Paraíba declarou que suas medições encontraram apenas um agrotóxico (qual?) nas águas que analisou.  O curioso é que em 2019 na edição anterior do “Mapa da Água”, os resultados para Campos dos Goytacazes eram de que os 27 agrotóxicos medidos na água servida aos campistas tinham sido detectados, sendo que 9 deles estavam acima dos limites máximos permitidos. Naquela ocasião, talvez por não ter havido a mesma repercussão de agora, a Águas do Paraíba não se deu ao trabalho de contradizer os dados divulgados.  Por outro lado, me parece curioso que agora apenas 1 dos 27 agrotóxicos tenha sido encontrado e dentro dos limites máximos permitidos. Faltou a nota da Águas do Paraíba nos contar como se conseguiu esta performance tão melhor agora.

A terceira faceta que me chamou a atenção é que a nota da “Águas do Paraíba” informou que  a “concessionária informa que seus processos de tratamento de água estão de acordo com as tecnologias e procedimentos necessários, conforme características da água bruta tratada em cada unidade, sendo suficientes para o atendimento dos parâmetros previstos na legislação vigente.”  Em outras palavras, a água estaria chegando nas torneiras em atendimento ao que a lei determina.  Aqui faltou dizer que a legislação brasileira é bem mais tolerante, por exemplo, no caso dos agrotóxicos. 

No seu “Atlas dos Agrotóxicos” a professora Larissa Bombardi mostrou que no caso do glifosato (hoje caracterizado pela  como sendo causador do Linfoma de Non-Hodgkin) tem um limite legal 5.000 maior no Brasil do que o valor praticado na União Europeia. Em outras palavras, atender os parâmetros previstos na legislação vigente não assegura aquilo que todo consumidor deseja, qual seja, que a água que chega em suas torneiras é totalmente seguro.

O fato é que pensada ou não parece replicar o estilo de comunicação do Chacrinha, a nota da Águas do Paraíba confunde mais do que explica. Como haverá uma audiência pública no dia 31 de março na Câmara de Vereadores para discutir a qualidade dos serviços prestados pela empresa, vamos aguardar para ver se até lá temos informes mais precisos e menos enrolados.  Afinal de contas, isto é o mínimo que se espera de uma empresa que cobra tão caro por seus serviços.