Entrevista sobre a questão da qualidade da água em Campos dos Goytacazes

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Estive hoje na redação do “Portal Viu” para participar de uma interessante entrevista com o jornalista Roberto Barbosa que teve como mote central a questão da qualidade (ou falta dela) da água que chega na torneira dos campistas via os serviços prestados pela concessionária “Águas do Paraíba” (ver vídeo abaixo).

Nessa entrevista fiz um esforço especial para utilizar uma linguagem que fosse o mais clara possível, pois considero que esta é uma questão que precisa ser entendida por todos da forma mais ampla, especialmente pelos clientes cativos da concessionária que são todos os campistas que recebem água em suas casas via a “Águas do Paraíba”.

Websérie mostra como um projeto sustentável salvou o pirarucu da extinção na Amazônia

Disponível no YouTube, “O Gigante da Amazônia” mostra como o manejo sustentável mudou o destino do pirarucu, espécie de grande importância econômica e cultural que quase foi extinta no passado

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Não faz muito tempo que a pesca desordenada gerou a diminuição drástica da população de pirarucus, um dos maiores peixes de água doce do planeta e considerado uma iguaria amazônica. O risco do desaparecimento da espécie levou à proibição da pesca que, atualmente, é permitida em Unidades de Conservação (UCs) praticantes do manejo sustentável. A atividade é considerada de extrema importância sociocultural, visto que é realizada há séculos por populações tradicionais indígenas e ribeirinhas, tanto para consumo quanto para comércio.

Desde 2010, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema/AM), IBAMA e Associação dos Moradores e Usuários da Reserva Mamirauá (Amurmam), tem auxiliado no aumento da renda de populações locais por meio do apoio ao manejo sustentável do pirarucu em Unidades de Conservação do Amazonas. O modelo se tornou exemplo mundial de investimento em programas de sustentabilidade como solução para o meio ambiente, além de aprimorar a qualidade de vida das pessoas que vivem na Amazônia. Disponível no YouTube da FAS, a websérie O Gigante da Amazônia explica, sob a ótica de pescadores comunitários, como é a rotina das famílias que dependem diretamente do manejo do pirarucu.

Na década de 1970, com a intensificação da exploração comercial do pirarucu, a espécie entrou em declínio. A pesca mínima e o período de defesa reprodutiva (de dezembro a maio) foram estabelecidos pelo Ibama. No entanto, devido à falta de fiscalização, a espécie passou a sofrer sério risco de extinção e, no ano de 1996, a pesca em grande escala foi proibida, sendo permitida apenas em áreas e reservas devidamente licenciadas para o manejo.

Devido à demanda de pescadores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no município Fonte Boa, localizado 678 km de Manaus, que queriam trabalhar legalmente, o Instituto Mamirauá – organização social fomentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações – criou o sistema de manejo participativo do pirarucu. O projeto foi aprovado em 1999 e, desde a sua implementação, tem funcionado de forma satisfatória. Atualmente, a pesca sustentável do peixe gera renda significativa para as famílias ribeirinhas e funciona como barreira de proteção dos rios. 

Para garantir a economia local, a FAS tem apoiado o manejo sustentável do pirarucu em cinco UCs na Amazônia, com investimento em infraestrutura, logística e mercado. No último ano, a fundação apoiou a captura e venda de 108 toneladas do pescado. Nas três freiras realizadas pela Fundação no último ano, foram comercializados 14.18 toneladas do peixe, que gerou um faturamento bruto de R$ 118.692.96 para as 67 famílias beneficiadas.

Edvaldo Corrêa, gerente do Programa Floresta em Pé, explica que o manejo da espécie é essencial para dar continuidade a projetos de sustentabilidade. 

“O manejo do pirarucu traz muitos benefícios para o ecossistema, porque ajuda na conservação da espécie e gera uma grande produtividade. Para as comunidades, gera renda e emprego, profissionalização para pescadores e investimentos em locais de uso comunitário, trazendo ganhos financeiros e sociais para as comunidades e para o meio ambiente”, afirma Edvaldo. 

Os ribeirinhos também relatam os benefícios do manejo para a comunidade. O pescador Joilson de Souza, por exemplo, enxerga a melhoria na vida dele e de outros familiares. Para ele, o manejo sustentável é a chance de unir o ofício familiar à geração de renda.

“O manejo se desenvolveu muito com o passar dos anos e melhorou bastante. E eu vejo meus irmãos e primos, que enxergam (o manejo) como a renda deles. Eles têm o pai como espelho para seguir adiante com o que o pai deixou para eles e têm isso como propriedade deles. Eles lutam por isso, assim como eu. Eu vivo por isso, eu luto por isso”, explica Joilson.

Conheça as etapas do manejo

Antes do pirarucu chegar às nossas mesas, o pescado passa por algumas etapas que dependem diretamente dos períodos de cheia dos rios. E são esses detalhes que a websérie da FAS aborda. 

1. Defesa e monitoramento dos lagos (Período de cheia)

Durante a entressafra, as famílias se dividem em turnos para vigiar os lagos – principais locais onde ficam concentrados os peixes -, garantindo que nenhum pescador exerça atividades nesse período, que é considerado inapropriado para pesca. Essa época deve ser respeitada para garantir o crescimento e reprodução da espécie.  

2. Contagem (Período de seca)

Durante a seca, é feita a contagem do número de peixes no lago. Por possuir respiração pulmonar, o pirarucu é uma espécie que precisa subir até a superfície para respirar, o que ocorre em intervalos de 20 minutos. É nesse momento que os pescadores especializados conseguem estimar o número de indivíduos.

3. Pesca (Período de seca)

A partir da contagem, é estabelecida a cota de pesca, que permite a retirada de 30% dos peixes adultos, a fim de não prejudicar a reprodução da espécie. O período de pesca é intenso e envolve toda a família dos pescadores: homens, mulheres e jovens, que se dividem nas funções de pesca, pesagem e limpeza.

4. Processamento e estocagem (Período de seca)

O pirarucu pode ser armazenado congelado ou dessecado ao sol e salgado. Geralmente, as partes mais vendidas são o filé, a ventrecha e a manta.

5. Escoamento (Período de seca)

Normalmente, as comunidades envolvidas na pesca estão localizadas em regiões muito distantes dos centros urbanos onde o peixe é comercializado. Por isso, na maioria das vezes, os pescadores vendem para intermediários que vão às comunidades e compram o pescado por um preço menor. Para contribuir com a valorização da cadeia produtiva e dos manejadores, a FAS apoia a participação dos produtores da Feira da FAS, onde o pescado é vendido por um preço justo. No último ano, o filé foi comercializado por R$25, a manta por R$18, a ventrecha R$14 e a carcaça por R$6.

Sobre a Fundação Amazônia Sustentável

A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil fundada em 2008, com a missão de “contribuir para a conservação ambiental da Amazônia, através da valorização da floresta em pé e sua biodiversidade, aumentando a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas associando a implementação e disseminação de conhecimento sobre desenvolvimento sustentável”. Com base em Manaus, a FAS coordena projetos ambientais, sociais e econômicos focados na conservação da floresta amazônica. É uma organização sem fins lucrativos, sem ligações político-partidárias, de utilidade pública e assistência social.

Mapa da água: como garantir uma água limpa para beber?

A única solução é coletiva: cobrar transparência dos fornecedores de água e mais controle sobre o uso de agrotóxicos e outros contaminantes que chegam aos rios e mananciais

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Por Hélen Freitas para a “Repórter Brasil”

Água com agrotóxicos, metais e outros produtos que causam doenças crônicas como câncer. Esse é o cenário revelado com a publicação do Mapa da Água, que mostrou que a rede de abastecimento de mais de 700 cidades apresentaram substâncias químicas e radioativas acima do limite permitido pelo Ministério da Saúde. E quase metade dos municípios (48%) não informaram os resultados dos testes feitos na água. Tudo isso apenas acessando os dados oficiais das empresas, que são lançados no Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), do Ministério da Saúde.

O que pode ser feito para saber se a água que saiu da sua torneira hoje está contaminada? E como limpá-la? Desde a publicação do Mapa, a Repórter Brasil recebeu dezenas de questionamentos assim.

São diversos os métodos para desinfetar a água e torná-la potável. Alguns mais tradicionais, como cloração, decantação e filtragem, e outros mais específicos, como desinfecção por ultravioleta e dupla filtração. Porém, esses métodos são pouco eficientes para retirar a maior parte dos agrotóxicos ou outras substâncias químicas e radioativas presentes na água de todo o país, como revelou o Mapa da Água.

O maior problema está na fonte, o manancial de onde a água é retirada, afirma o presidente da Aliança Tropical de Pesquisa da Água José Francisco Gonçalves. “Boa parte da nossa água hoje, por conta da contaminação do solo e por serem muito próximas às cidades ou áreas agrícolas, já possui comprometimento quanto à qualidade química”. Ou seja, com fontes cada vez mais contaminadas, o tratamento necessário fica mais difícil, caro e, portanto, inacessível.

Desde 1997 está em vigor a Política Nacional de Recursos Hídricos, que tem como objetivo garantir a qualidade da água “à atual e futuras gerações”. No entanto, até hoje são poucas as ações realizadas para, de fato, limpar os mananciais que abastecem os municípios. O Guarapiranga, em São Paulo, é um grande exemplo. O sistema abastece 4,8 milhões de moradores da capital. Contudo, basta andar perto da represa para ver lixo e esgoto nas suas águas.

Sandra Kishi, procuradora regional da República, afirma que o Brasil deveria focar em uma abordagem preventiva em vez de se preocupar só com o tratamento da água. Para ela, atender todo o conjunto de parâmetros estabelecidos pela norma não é fácil, principalmente aos gestores de municípios mais pobres e sem capacidade financeira para custosos tratamentos. Com o uso de medidas preventivas, como barreiras sentinelas que impedem substâncias tóxicas de chegarem até o manancial, projetos de reflorestamento, melhoria da gestão de resíduos e de águas pluviais, teríamos uma água mais segura, sem gastos estrondosos.

“Tudo isso ajuda a sociedade a não arcar com o custo social de pagar altos valores em tecnologias caras de tratabilidade ou pior, seja alvo de epidemias de veiculação hídrica, usualmente traduzidas em intoxicações que podem ser letais ou com problemas crônicos diante da intoxicação”, pontua Kishi.

A criação de políticas públicas para a recuperação das áreas degradadas e ecossistemas poluídos se apresenta como a melhor solução. Com uma água limpa de verdade, os gastos do poder público com doenças crônicas causadas pelo consumo de água contaminada diminuiriam, enquanto aumentaria a produtividade das empresas.

“É um movimento social capitaneado pelo poder público, mas que precisa de envolvimento de todos os setores da sociedade, até mesmo do setor produtivo, porque sem água de boa qualidade eles também não conseguem produzir, e tendo um funcionário que está doente, ele vai ter uma produção menor, então é fácil convencer todos os setores, o que precisa é ter vontade”, afirma Gonçalves.

Como saber o que tem na sua água?

Uma das principais dificuldades é a informação sobre existência de substâncias perigosas. Responsáveis pelo abastecimento devem divulgar os resultados dos testes sempre que há um resultado fora do padrão, mas infelizmente isso ainda não acontece. Especialistas incentivam que os consumidores e a sociedade civil como um todo cobre os responsáveis pela água pelas informações a que têm direito.

Luva desenvolvida por pesquisadores da USP pode detectar agrotóxicos na água e em alimentos de forma rápida, barata e confiável (Foto: IFSC/USP)

Enquanto o movimento de transparência não acontece, algumas alternativas científicas tentam deixar esse processo mais barato e rápido, sem perder a confiabilidade das análises. Um desses projetos é a luva de borracha sintética capaz de detectar agrotóxicos em alimentos e na água. O trabalho foi coordenado pelo químico Paulo Augusto Raymundo-Pereira, pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

A luva detecta quatro grupos de agrotóxicos empregados em cultivos de cereais, frutas cítricas, café, algodão, cacau, banana, abacaxi, maçã e cana-de-açúcar: carbendazim, diuron, fenitrotiona e o paraquate, proibido em 2020. “O que a gente fez foi conseguir detectá-los de maneira confiável e, mesmo se a gente tiver uma mistura de substâncias na amostra, conseguimos uma excelente distinção entre eles”, afirma o pesquisador.

Segundo ele, a ferramenta traz versatilidade ao processo de detecção, já que pode ser usado no campo e laboratórios por qualquer pessoa, mesmo que não seja especialista no assunto. Além disso, a luva não precisa ficar restrita apenas à detecção de pesticidas, já que os sensores podem ser recalibrados para identificar qualquer outra substância seja na água ou nos alimentos.

Apesar de o protótipo ter ficado pronto em 2019, nenhuma empresa ou o governo procuraram o grupo de pesquisa para comprar a ideia e produzir a luva.

Apesar de o protótipo ter ficado pronto em 2019, nenhuma empresa ou o governo procuraram o grupo de pesquisa para comprar a ideia e produzir a luva

Água imprópria para consumo

Água marrom, com cheiro e gosto são sinais mais comuns de que ela não está boa para beber. Contudo, nem toda substância que pode causar danos à saúde, principalmente a longo prazo, aparecem facilmente, e nem todo brasileiro pode escolher qual água irá beber.

Nem toda substância que pode causar danos à saúde, principalmente a longo prazo, aparecem facilmente

De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, cerca de 36 milhões de pessoas não têm água encanada. A grande maioria é de moradores da região norte e nordeste do país que precisam consumir água de poços e rios sem nenhum tipo de tratamento, colocando em risco a sua saúde.

Localizada na capital paulista, represa Guarapiranga abastece milhões de pessoas e foi a que mais teve substâncias acima do limite. Tratamento preventivo evitaria o aparecimento de substâncias que geram riscos à saúde (Foto: Sabesp/Divulgação)

A insegurança em relação à água é um sentimento comum no Brasil. Não se bebe água direto da torneira, compra-se água engarrafada ou filtro caseiro, que mesmo assim não se sabe se realmente ela é pura. Na dúvida sobre a qualidade, muitas pessoas optam por ferver a água para poder eliminar as impurezas. 

O presidente da Aliança Tropical de Pesquisa da Água diz que qualquer ação doméstica não será suficiente para retirar possíveis metais pesados, compostos químicos e fármacos, entretanto, enfatiza “se a pessoa suspeita que a água que está chegando na sua casa tem problemas, deve ferver a água”.

Até 2018, pouco se sabia sobre a qualidade da água que chegava às casas dos brasileiros. Apesar de ser de interesse público, os dados ficavam fechados a sete chaves e só podiam ser acessados via Lei de Acesso à Informação. 

Hoje é possível baixar todas as informações sobre substâncias encontradas na água por meio do Sisagua. Porém, o sistema está longe de ser a solução perfeita. Os arquivos são extremamente pesados e difíceis de serem interpretados. Não há nenhum painel para acesso aos dados mais gerais e que possam ser filtrados por municípios, assim como há em outros sistemas governamentais como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O Ministério Público Federal também tentou facilitar o acesso à informação. Em 2021 lançou a ferramenta de monitoramento socioeducativo “Água Boa de Beber. De acordo com a procuradora Sandra Kishi, que coordena o projeto, o objetivo foi criar uma alternativa simples e confiável que incentiva o controle social sobre a qualidade da água. “Não tem direito humano mais básico do que saber qual a qualidade da água que está sendo oferecida para consumo”, afirma.

Água boa é um direito que deve ser garantido todos os dias e a todos, independente da região em que se vive. A solução existe, mas falta vontade de criar políticas públicas que irão garantir uma vida saudável aos brasileiros.


color compass

Este texto foi inicialmente publicado pela “Repórter Brasil”  [Aqui!].

Sob pressão dos fatos, Águas do Paraíba emite nota “estilo Chacrinha” que mais confunde do que explica

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De uma forma bem atípica, a concessionária “Águas do Paraíba” finalmente resolveu vir à público para tentar responder à divulgação dos resultados sobre a qualidade da água de torneira divulgados pelo “Mapa da Água” e repercutidos por mim neste blog. O problema é que a nota emitida pela concessionária que monopoliza os serviços de água e esgoto em Campos dos Goytacazes está contaminada pelo que eu caracterizo como sendo “estilo Chacrinha” que é aquele imortalizado pelo saudoso comunicador Abelardo Barbosa que dizia que não tinha vindo “para explicar para confundir”.

Uma primeira faceta curiosa da nota “Chacrinha” da Águas do Paraíba é que há um reconhecimento de que a empresa forneceu dados errados para o banco de dados do Sisagua (será que ofereceu mesmo), gerando uma desconformidade entre o que teria sido medido e o que foi informado ao Ministério da Saúde.  Aqui, assumindo então que agora os dados são verdadeiros, haveria que se agradecer ao pessoal do “Mapa da Água” por alertar, gratuitamente, a Águas do Paraíba de que os dados fornecidos estavam incorretos.

A segunda faceta é que, diferente do que consta no “Mapa da Água“, a Águas do Paraíba declarou que suas medições encontraram apenas um agrotóxico (qual?) nas águas que analisou.  O curioso é que em 2019 na edição anterior do “Mapa da Água”, os resultados para Campos dos Goytacazes eram de que os 27 agrotóxicos medidos na água servida aos campistas tinham sido detectados, sendo que 9 deles estavam acima dos limites máximos permitidos. Naquela ocasião, talvez por não ter havido a mesma repercussão de agora, a Águas do Paraíba não se deu ao trabalho de contradizer os dados divulgados.  Por outro lado, me parece curioso que agora apenas 1 dos 27 agrotóxicos tenha sido encontrado e dentro dos limites máximos permitidos. Faltou a nota da Águas do Paraíba nos contar como se conseguiu esta performance tão melhor agora.

A terceira faceta que me chamou a atenção é que a nota da “Águas do Paraíba” informou que  a “concessionária informa que seus processos de tratamento de água estão de acordo com as tecnologias e procedimentos necessários, conforme características da água bruta tratada em cada unidade, sendo suficientes para o atendimento dos parâmetros previstos na legislação vigente.”  Em outras palavras, a água estaria chegando nas torneiras em atendimento ao que a lei determina.  Aqui faltou dizer que a legislação brasileira é bem mais tolerante, por exemplo, no caso dos agrotóxicos. 

No seu “Atlas dos Agrotóxicos” a professora Larissa Bombardi mostrou que no caso do glifosato (hoje caracterizado pela  como sendo causador do Linfoma de Non-Hodgkin) tem um limite legal 5.000 maior no Brasil do que o valor praticado na União Europeia. Em outras palavras, atender os parâmetros previstos na legislação vigente não assegura aquilo que todo consumidor deseja, qual seja, que a água que chega em suas torneiras é totalmente seguro.

O fato é que pensada ou não parece replicar o estilo de comunicação do Chacrinha, a nota da Águas do Paraíba confunde mais do que explica. Como haverá uma audiência pública no dia 31 de março na Câmara de Vereadores para discutir a qualidade dos serviços prestados pela empresa, vamos aguardar para ver se até lá temos informes mais precisos e menos enrolados.  Afinal de contas, isto é o mínimo que se espera de uma empresa que cobra tão caro por seus serviços.

No “Dia Mundial da Água”, o que afinal nos servem na torneira como sendo água pura?

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Em meio a uma pandemia mortal, efeitos das mudanças climáticas e conflitos militares, hoje se celebra o “Dia Mundial da Água”. Entretanto, no caso específico dos que se beneficiam de rios, como o Paraíba do Sul, que pertencem ao bioma da Mata Atlântica, as notícias não são nada boas. É que a Fundação SOS Mata Atlântica acaba de divulgar um estudo que mostra que apenas 7% dos rios pertencentes a este bioma apresentam água com boa qualidade.

Enquanto isso, aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, continuamos com a questão de qual seria efetivamente a água que nos é servida pela concessionária “Águas do Paraíba” com sendo de “excelente qualidade”.  É que como já divulguei aqui, o chamado “Mapa da Água“, se considerarmos apenas a contaminação por agrotóxicos, a qualidade da água que chega na torneira dos campistas não tem nada de “excelente”.

Como não antecipo que haja um movimento genuíno por parte da “Águas do Paraíba” para oferecer um retrato fiel da condição da água que chega em nossas torneiras, penso que a audiência pública que será realizada no dia 31 de março na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes será uma primeira oportunidade para que o poder público, a sociedade civil organizada e a população possa inquirir os representantes da “Águas do Paraíba” para aperfeiçoar o sistema de tratamento de modo a também remover toda uma classe de poluentes emergentes, incluindo os agrotóxicos mas não se resumindo a eles.

Até que respostas categóricas sejam dadas, fica a pergunta: afinal, o que nos servem na água que chega em nossas torneiras?

Wladimir torna facultativo o uso de máscaras faciais, enquanto no HGG papel higiênico e vasos sanitários estão em falta

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Sob aplausos animados do Sars-Cov-2,  o prefeito Wladimir Garotinho, aqui em um aperto de mão caloroso com o presidente Jair Bolsonaro, decretou o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras faciais em ambientes abertos e fechados

Movido sabe-se lá por qual tipo de orientação, o prefeito Wladimir Garotinho decretou o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes abertos e, pasmem, fechados (ver imagem abaixo). Essa decisão vai de encontro às orientações de pesquisadores como a pneumologista da Fiocruz, Margareth Dalcomo, que considera a abolição do uso de máscaras como prematura em função do quadro vacinal insuficiente em todo o Brasil.

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O fato é que ao decretar do fim do uso obrigatório do uso da máscara em um momento em que a pandemia ainda não passou para o estágio de epidemia é meio que brincar com a saúde alheia. Além disso, ao decretar o uso de máscaras, o prefeito de Campos dos Goytacazes dá um sinal errado em uma cidade em que, especialmente sob sua direção, nunca houve um real controle da situação.

O resultado mais provável é que ao subestimar a real situação sanitária da cidade que governa, Wladimir acabe tendo um rebote da pandemia, sendo obrigado a adotar atitudes que irão além de retomar a obrigatoriedade do uso de máscaras.

Por outro lado, se a rede municipal de saúde estivesse em boas condições até se poderia compreender essa volúpia anti-máscara do prefeito. Mas o que ouvi hoje de uma pessoa com parente internada no Hospital Geral de Guarus (HGG) é que naquela unidade hospitalar municipal está faltando até papel higiênico, o que se soma ao fato de que banheiros estão fora de operação, obrigando uso de baldes (sim, isso mesmo, baldes) para fornecer a água de descarga. Além disso, o serviço de limpeza é, no mínimo, escasso, deixando as áreas de internação em condições muito aquém do desejável.

Em  outras palavras, se uma nova onda de contaminações atingir a cidade, poderemos voltar aos piores momentos da pandemia na cidade de Campos dos Goytacazes, com o HGG operando nas condições descritas acima. E se isto ocorrer, já sabemos a quem dirigir as perguntas sobre quem orientou a decisão de relaxar o uso das máscaras faciais.

Finalmente, o incrível é lembrar que os gastos anuais com a Secretaria Municipal de Saúde estão nas centenas de milhões de reais. Todo esse dinheiro, aparentemente, passa longe do HGG.


Esta postagem foi atualizada às 20:43 para aperfeiçoar o relato das condições dentro do HGG.

Desmatamento em Bacias Hidrográficas do Sudeste e Centro-Oeste em 30 Anos equivale a 15 cidades de São Paulo

  • Análise da TNC Brasil indica que de 1988 a 2017 a perda da vegetação nativa em bacias localizadas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste chegou a 22,9 mil km² e pode acentuar as crises hídricas
  • Ações colaborativas e que priorizem as soluções baseadas na natureza são essenciais para mitigar os impactos dessa perda na disponibilidade hídrica

Análises realizadas pela The Nature Conservancy (TNC) Brasil indicam uma perda importante da cobertura vegetal nativa no entorno das bacias hidrográficas onde se localizam os reservatórios que fazem parte do Sistema Interligado Nacional (SIN) nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Esta perda, somada a efeitos de longo prazo na mudança e uso do solo, pode ter agravado as recentes crises hídricas que afetaram estas áreas. Outros fatores incluem fenômenos climáticos, aumento da demanda nos seus diferentes usos, crescimento populacional e gestão focada em obras de infraestrutura cinza.

Até 1988, o país havia perdido nessa área mais de 580 mil km² de vegetação natural e, de 1988 a 2017, outros 22,9 mil km² foram suprimidos. Para se ter uma ideia do tamanho da perda desses últimos 30 anos, basta comparar com as áreas do estado e da capital paulistas: as áreas devastadas correspondem a 10% do tamanho do estado de São Paulo e 15 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Os dados analisados são da série histórica disponibilizada pela iniciativa Mapbiomas, que traz informações sobre o uso e a ocupação das terras no Brasil, incluindo a região examinada.

mapa de vegetação

Essa perda de cobertura florestal é um dos fatores que tem impactado a reserva das chamadas “águas invisíveis”, tema deste ano definido pelas Nações Unidas para o Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março. Isso porque, a modificação do uso e ocupação da terra pode interferir nas áreas de infiltração natural, o que, por sua vez, afeta a capacidade de recarga da água armazenada no solo e nos aquíferos, chamado de “reservatório invisível”. Este cenário nos torna cada vez mais dependentes dos regimes de chuva, extremamente susceptíveis às mudanças climáticas.

Mitigar e reverter os impactos das mudanças de uso e ocupação do solo e do uso insustentável da água estão entre os maiores desafios dos setores públicos e privados e da sociedade como um todo. Ampliar a segurança hídrica em quantidade e qualidade para todos passa necessariamente pela proteção ambiental, pela eficiência dos usos e da infraestrutura do sistema de abastecimento da água, e fomento ao desenvolvimento social e econômico.

De acordo com o gerente de Água da TNC Brasil, Samuel Barrêto, a segurança hídrica começa com a gestão adequada das bacias hidrográficas, de forma a mantê-las ou recuperá-las para que sejam saudáveis e resilientes às mudanças climáticas, tendo suas funções ecológicas mantidas. A conservação e recuperação das bacias hidrográficas e, consequentemente, a geração de serviços ambientais contribuirão para atender aos usos múltiplos e promover a equidade social e a qualidade de vida da população. Sendo a segurança hídrica um pilar estruturante de interesse nacional para o desenvolvimento econômico, deve ser tratada de forma estratégica.

“Ao analisarmos os desafios da disponibilidade hídrica e adaptação às mudanças climáticas, precisamos pensar além de soluções focadas em obras de infraestrutura cinza. A conservação de bacias hidrográficas é indispensável para garantir o suprimento de água no longo prazo, com qualidade e em quantidade para seus diferentes usos, como, por exemplo, atividades agropecuárias e industriais, navegação e transporte, geração de energia elétrica e, principalmente, o abastecimento humano”, explica.

Coalizão pelas Águas

Uma das contribuições da TNC Brasil para a agenda hídrica é a promoção da conservação e recuperação de florestas, de forma a contribuir com o equilíbrio entre oferta e demanda de água. Como cobenefício, as soluções baseadas na natureza podem fornecer um terço das soluções para o combate às mudanças climáticas.

É dentro dessa visão sistêmica que nasce a nova fase da Coalizão pelas Águas, uma iniciativa que, entre outras estratégias, usa os serviços da natureza na gestão hídrica, engajando o setor público e as empresas na conservação, recuperação e governança de bacias hidrográficas.

O objetivo é ampliar a escala e o impacto da recuperação das bacias em regiões do Cerrado, Mata Atlântica e Amazônia. Os locais foram estrategicamente selecionados para esta nova fase do trabalho da Coalizão, por conta do papel da Amazônia na formação dos rios voadores (umidade que abastece grande parte da América do Sul), além da sua rica biodiversidade terrestre e aquática; da importância do Cerrado como região produtora de alimentos no Brasil e mundo; e do papel-chave da vegetação nativa da Mata Atlântica em prover água para a população de grandes áreas metropolitanas. E, sobretudo, o objetivo é fortalecer a participação de todos na boa governança da água.

Primeira fase

Entre 2015 e 2021, numa parceria com mais de dez empresas globalmente reconhecidas do setor privado e mais de 90 parceiros do setor público e da sociedade civil, a Coalizão realizou diversas ações com o objetivo de contribuir com a segurança hídrica em regiões metropolitanas do país onde vivem cerca de 42 milhões de pessoas.

Os resultados foram a restauração e conservação de 124 mil hectares e a alavancagem de mais de R$ 240 milhões de reais; beneficiando cerca de 4 mil famílias, incluindo investimento de mais de R$ 20 milhões de reais em pagamento por serviços ambientais.

Esses resultados promissores levaram ao desenvolvimento de uma nova etapa, incorporando novas geografias e abordagens, como a relação entre segurança hídrica e segurança alimentar com a resiliência das bacias hidrográficas, de forma a ampliar a escala e o impacto necessários.

TNC

A The Nature Conservancy (TNC) é uma organização global de conservação ambiental dedicada à proteção das terras e águas das quais toda a vida depende. Guiada pela ciência, a TNC cria soluções locais inovadoras para os principais desafios do mundo, de forma que a natureza e as pessoas possam prosperar juntas. Trabalhando em 76 países, a organização utiliza uma abordagem colaborativa, que envolve comunidades locais, governos, setor privado e a sociedade civil. No Brasil, onde atua há mais de 30 anos, o trabalho da TNC concentra-se em solucionar os complexos desafios de conservação da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica a partir de uma abordagem sistêmica, com foco na implementação e geração de impacto, para mitigar as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade.

Relatório: O maior estudo ainda mostra que a ivermectina falhou em reduzir as hospitalizações por COVID-19

ivermectinaSoumyabrata Roy/NurPhoto/Getty Images

Por Noah Y. Kim para o “Mother Jones”

O medicamento antiparasitário Ivermectina tornou-se um campo de batalha partidário durante a pandemia de COVID-19, já que influenciadores antivacinas e políticos republicanos o anunciavam como uma cura milagrosa, para o ceticismo generalizado de especialistas em doenças infecciosas. 

Um estudo revisado por pares recentemente apresentado pelo Dr. Edward Mills, professor de ciências da saúde da Universidade McMaster, no Canadá, ofereceu novas evidências significativas de que a ivermectina era o óleo de cobra do coronavírus o tempo todo. 

No maior estudo já analisado sobre a eficácia da ivermectina no tratamento do coronavírus, Mills e seus colegas pesquisadores descobriram que pacientes com COVID-19 em risco de doença grave que receberam ivermectina não se saíram melhor do que aqueles prescritos com placebo, informou Wall Street Journal na sexta-feira.

“Este é o primeiro grande estudo prospectivo que deve realmente ajudar a acabar com a ivermectina e não dar credibilidade ao uso dela para o COVID-19”, disse Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical do Baylor College of Medicine. 

Dos 1.358 pacientes, os pesquisadores prescreveram metade de um curso de três dias de pílulas de ivermectina e a outra metade com placebo. Eles então rastrearam quantos pacientes foram hospitalizados ao longo de quatro semanas, a rapidez com que os pacientes livraram o vírus de seus corpos e as taxas de mortalidade, entre outras variáveis. Os pesquisadores analisaram os dados de várias maneiras diferentes e não encontraram casos em que a ivermectina afetasse os resultados dos pacientes.

No início da pandemia, alguns pesquisadores levantaram a hipótese de que a ivermectina poderia ajudar, depois que alguns estudos pareciam mostrar um benefício. No entanto, pesquisas consistentemente falharam em validar essas descobertas anteriores, e muitos dos estudos originais que iniciaram a mania da ivermectina foram descobertos empregando métodos falhos . No entanto, a ivermectina permaneceu um tratamento preferido entre o flanco anti-vacinas do Partido Republicano, muitos dos quais continuaram a tomar a droga mesmo quando especialistas médicos alertaram que não havia provas concretas de que funcionava.

Minha colega Kiera Butler acompanhou a estranha jornada da ivermectina desde o início como o ato de acompanhamento do desacreditado medicamento contra a malária hidroxicloroquina, elogiado por Trump. Em janeiro, ela escreveu que os médicos sabiam há mais de um ano que o medicamento antiparasitário não era eficaz contra a COVID-19 e que o FDA havia alertado explicitamente  contra prescrevê-lo a pacientes com Covid.

Mas, no entanto, muitos médicos continuaram a prescrever a droga de qualquer maneira , cobrando custos reais para o público na forma de seguros altíssimos e despesas do Medicare: às vacinas – no entanto, muitos pacientes de COVID, que optaram por ivermectina e outros tratamentos não testados em vez de vacinas, exigiram internações longas e caras”.


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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo site “Mother Jones” [Aqui!].

O derretimento da ordem de Bretton Woods, um dos subprodutos do conflito militar na Ucrânia

melting bretton woods

A principal e mais importante notícia que deveria estar sendo oferecida em complemento à repetitiva cobertura da ação militar russa na Ucrânia é que estamos presenciando o rápido derretimento da ordem de Bretton Woods cujas estruturas foram lançadas sobre as brasas ainda quentes da Segunda Guerra Mundial.  É que, de forma inadvertida ou racional, o que os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) fizeram foi acelerar a “desdolarização” da economia mundial e o início de discussões avançadas para que sejam criados mecanismos paralelos (e que eventualmente substituirão) as organizações criadas pelos chamados acordos de Bretton Woods.

Os crescentes sinais do derretimento da ordem de Bretton Woods têm aparecido antes do conflito militar na Ucrânia, mas agora parecem ter adquirido uma velocidade mais acelerada. Exemplos disso são a possibilidade real da venda de petróleo da Arábia Saudita para a China com o pagamento em Yuan (inaugurando ou fortalecendo o chamado “petroyuan”, algo que se repete na venda de petróleo russo para Índia onde o pagamento deverá ser feito em rublo ou rúpia, deixando de fora o dólar.

Mas a derrocada da ordem de Bretton Woods também tem desdobramentos importantes para a importância de suas agências como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), já que o alinhamento entre China-Rússia-Índia tem como objetivo lançar novos mecanismos de integração econômica que moverão ainda mais os centros mais dinâmicos do capitalismo da América do Norte e Europa para a Ásia.

putin jinpingGostando-se deles ou não, Vladimir Putin e Xi Jinping são os artífices de um sistema alternativo ao de Bretton Woods

Desta forma, a virulência de sanções e banimentos que estão sendo impostos à Rússia por causa da ação militar na Ucrânia tem pouco a ver com motivos humanitários e mais com um esforço (provavelmente inútil) de retardar o movimento do pêndulo capitalista de oeste para leste. Mas o problema é que ao congelar as reservas russas que estavam depositadas em seus bancos, os países da Otan estão adiantando, em vez de atrasar, o movimento pendular que está ocorrendo em termos do centro mais dinâmico do capitalismo. Esse movimento, independente do cálculo feito pelos governos ocidentais, via alterar completamente o funcionamento da economia mundial, e afetará o processo de trocas econômicas e financeiras que ainda mantém de pé uma ordem política que não serve mais para manter as relações geopolíticas globais em um mínimo de equilíbrio.

Assim, enquanto a mídia corporativa nos mantém ocupados com uma versão unilateral do que está acontecendo na Ucrânia, a verdadeira notícia está sendo ocultada de todos que se contentam em receber versões pasteurizadas do conflito. O problema  aqui é que quando os movimentos sendo gestados pelos países do novo eixo dinâmico do capitalismo se transformarem em realidade, o que deverá ocorrer será uma surpresa tão grande quanto aquela que ocorreu quando os guardas do Muro de Berlim desistiram de cumprir suas funções.

Trânsito transformado em selva e o anunciado plano de mobilidade urbana: solução ou repetição de velhos erros?

serrinha

Muitos esperaram (ingenuamente em minha opinião) que a pandemia da COVID-19 causasse formas espontâneas de solidariedade e uma consequente diminuição das atitudes individualistas cultivadas pela ideologia neoliberal no nosso cotidiano.  Como alguém que dirige todos os dias em uma cidade de porte médio onde inexistem mecanismos de restrição de atitudes antagônicas ao bom dirigir, só posso dizer que vivencio uma piora impressionante nos padrões de comportamento dos motoristas e demais participantes da selva que é o trânsito de veículos em Campos dos Goytacazes.

O que mais salta aos olhos é que semáforos que já não era muito levados em conta antes da pandemia, agora se transformaram em elementos meramente decorativos, especialmente se estamos falando de motociclistas e ciclistas, ainda que o comportamento dos motoristas não seja lá muito melhor.

A obediência aos padrões mínimos de civilidade estão simplesmente ausentes, pois a cada esquina ou cruzamento, o perigo é obedecer e não obedecer a sinalização, pois parece que vivemos em uma cidade de daltônicos, já que a maioria simplesmente passa sem medo de serem felizes. Aos que não querem colisões ou perdas de vida, comportamento no qual eu me incluo, precisam ter atenção redobrada, pois ainda se corre o risco de  sermos culpabilizados por algum incidente provocado por algum condutor  imprudente.

As obras realizadas de uma forma claramente caótica pelo governo municipal parecem ter exponencializado esse comportamento de “vale tudo”, e quem teve o azar de precisar passar pelas áreas beneficiadas pelas reformas sabe bem do que estou falando.  Tendo que ir a uma escola localizada em um trecho relativamente calmo, mas próximo das obras, tive o desprazer de ver pais (um deles portando um visto adesivo em defesa do voto  impresso) retornando na contramão, apenas para não ter que cruzar uma esquina bloqueada. 

Diante desse cenário, fico me perguntando o porquê de tanta omissão do poder público municipal em relação à modernização do controle de trânsito em Campos dos Goytacazes. Aqui inexiste qualquer mecanismo de controle de velocidade ou de câmeras que captem violações e facilitem a punição aos que as realizam. É como se ainda vivêssemos  em uma cidade pequena, quando, na verdade, possuímos características de uma cidade média com mais de 600 mil habitantes.

A minha hipótese é de que não se pretende investir para alcançar um nível mínimo de civilidade, seja por aumentando os efetivos da Guarda Municipal de forma substancial, ou na aquisição de equipamentos de controle de velocidade, isto sem falar nas estruturas de sustentação da sinalização existente porque existem muitas claramente em péssimas condições em vias importantes de circulação ( a Avenida Felipe Uébe é um exemplo crasso disso). 

Não posso deixar de citar aqui que todo esse caos é agravado pela existência (ou seria inexistência?) de um sistema público de transportes que é vexaminoso em todos os aspectos que se pense. Com isso, além de se deixar o cidadão pobre largado à própria sorte, temos um incentivo a que se coloque mais veículos nas ruas, aumentando os congestionamentos que, por sua vez, exacerbam os comportamentos individualistas que mencionei no início desta postagem. Em suma, temos uma receita perfeita para que nossas ruas e avenidas se transformem em campos da morte, e o máximo que o governo municipal até aqui se dispôs a fazer é dar uma tapeada na condição do pavimento.

Por isso tudo, é que estou curioso para conhecer em detalhes o  Plano de Mobilidade Urbana que será será apresentado e discutido em audiência pública que será realizada na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes na próxima segunda-feira (21/03). Quem sabe ali vejamos apresentados caminhos para que saiamos do padrão caótico em que nos encontramos.  Eu sinceramente espero que não seja mais uma daquelas geringonças destinadas a perpetuar um modelo falido de transporte público que vive pendurado no poder público e no tesouro municipal.