Ausente da abertura da COP26, Jair Bolsonaro consolida condição de pária internacional do Brasil

principe charlesO Príncipe Charles, herdeiro do trono do Reino Unido, falando na abertura da COP26 em Glasgow, capital da Escócia

Começou hoje em Glasgow a 26a. edição da Conferência para Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) com os discursos iniciais dos líderes de governo ali presentes enfatizando a situação crítica em que se encontra o planeta em função das chamadas “mudanças climáticas” (ver vídeo abaixo).

Uma voz que não foi ouvida nessa cerimônia de abertura foi a do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que resolveu fugir das suas responsabilidades sob a alegação pífia de que somente críticas o esperariam na capital escocesa.

Ainda que isto seja verdade, o que além de tudo seria merecido visto o papel desastroso do governo Bolsonaro no agravamento das emissões de gases estufa pelo Brasil, fugir dessa conferência não é, nem de perto, uma opção que um líder minimamente preocupado com o seu país deveria ou poderia adotar. Aliás, dentre os governantes que não estão incapacitados, pelas razões que sejam de estarem em Glasgow para participar da COP26, Jair Bolsonaro é provavelmente o único que optou por não estar lá por vontade própria..

Essa fuga de Glasgow é apenas o corolário de uma trajetória para colocar o Brasil em uma posição de destaque como pária nos debates sobre os esforços para providenciar respostas articuladas para os desafios criados pela crise climática. Essa posição pode até agradar aos frequentadores do “cercadinho” do presidente Bolsonaro em Brasília, mas certamente trará graves dificuldades para os interesses estratégicos do Brasil, inclusive na área comercial.

COP26- Protests

Protestos antes do início da COP26, em Glasgow, na Escócia / Foto: Ian Forsyth/Getty Images (30.out.2021)

Sobre todos os ângulos, a decisão de fugir da COP26 é um verdadeiro tiro no pé que está sendo dado por Jair Bolsonaro e seu grupo de ministros negacionistas. Deixar os interesses do Brasil a uma delegação composta por verdadeiros desconhecidos (alguém sabe o nome do atual ministro do Meio Ambiente) e por um vice-presidente general que é completamente ignorado pelo presidente capitão trará consequências desastrosas. E isso deverá ficar evidente mais cedo do que tarde. Isso virá porque Jair Bolsonaro conseguiu efetivamente transformar o Brasil em um pária. Simples assim!

Estados da Amazônia Legal não estão preparados para eventos climáticos extremos

  • Estratégias para adaptação às mudanças climáticas ainda são incipientes na Amazônia Legal
  • Estados têm falta transparência dos dados públicos sobre governança climática
  • Falta coordenação do governo federal para orientar ações de contingência em todo o território nacional

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bori conteudo

Ao mapear as políticas públicas dos nove estados da Amazônia Legal em relação às mudanças climáticas, relatório lançado nesta terça (26/10) revela que nenhum deles possui sistemas de alerta e planos de contingência permanentes para eventos extremos, como inundações, secas, incêndios florestais e ondas de calor. O estudo é de autoria do Achados e Perdidos, iniciativa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da Transparência Brasil, realizada em parceria com a Fiquem Sabendo e com financiamento da Fundação Ford.

A implementação de políticas subnacionais para gestão das mudanças climáticas na Amazônia Legal foi analisada a partir de informações obtidas em respostas a pedidos de informações via Lei de Acesso à Informação (LAI), bem como dados disponíveis nos portais dos órgãos ambientais de cada Estado. Os dados foram cruzados com dez indicadores desejáveis para controle da situação de emergência climática na região, divididos em três grupos: governança, mitigação e adaptação.

O relatório indica que, embora os Estados da região tenham desenvolvido políticas e estratégias voltadas para as emergências climáticas, elas se encontram em diferentes estágios de implementação e, com isso, poderiam não ser eficazes no controle de eventuais cenários complexos de meteorologia e hidrologia. A Amazônia Legal corresponde à totalidade dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do estado do Maranhão.

A Amazônia foi escolhida para ser analisada por ser uma das regiões mais vulneráveis ao impacto das mudanças climáticas no mundo, que vem sofrendo com a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. De acordo com relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o aquecimento na bacia amazônica, a maior bacia hidrográfica do mundo, aumentou entre 0,6 Cº e 0,7 Cº, desde 1979.

A equipe do Achados e Perdidos identificou que não é satisfatória a transparência nos dados públicos, assim como a acessibilidade às informações sobre governança climática. Além disso, afirmam que, embora existam diretrizes nacionais para a redução dos impactos das mudanças climáticas, estabelecidas por meio da Política Nacional sobre Mudança do Clima, o país ainda carece de uma coordenação do governo federal para orientar as ações em todo o território nacional.

De acordo com a avaliação de Jéssica Botelho, coautora do relatório, é necessário haver uma governança multinível, envolvendo Estados e municípios. “É fundamental termos uma gestão ambiental nacional alinhada com as estratégias subnacionais, de Estados e municípios, de tal forma que agregue ações de impacto global, regional e local, fortalecendo assim as medidas de mitigação e adaptação das mudanças climáticas”, ressalta.

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Este material foi originalmente publicado pela Agência Bori [   ].

A extinção do “Bolsa Família” sinaliza uma nova etapa na guerra aos pobres no Brasil

bolsa familiaGoverno Bolsonaro extingue “Bolsa Família” e deixa milhões de brasileiros passando fome e sem alternativas à vista

Em meio a mais um caso aparente de caos organizado, o governo Bolsonaro deixou morrer o “Bolsa Família“, sem que haja ainda um programa que permita a entrega de recursos para milhões de brasileiros que hoje passam fome.  Essa extinção por morte desassistida se soma a outras ações do governo Bolsonaro, como o virtual esvaziamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)  que tem contribuído para viabilizar a entrega de alimentos produzidos pela agricultura familiar em escolas públicas. Assim, para avançar as políticas ultraneoliberais que alimentam os lucros fabulosos e crescentes dos bancos, está evidente que o governo Bolsonaro decidiu exterminar todas as políticas sociais que, de alguma forma, serviram nos últimos 20 anos para aliviar a pobreza e a fome no Brasil.

Mas enquanto avança sua guerra contra os pobres, Jair Bolsonaro arranja um tempo para ser ignorado na cúpula do G-20 onde vem passando por situações embaraçosas, pois está sendo evitado por quase todo os líderes presentes. Mas nem isso parece ser um problema para o presidente brasileiro que vem aproveitando a agenda sem compromissos para praticar seu turismo de rua em Roma, como se no Brasil não houvessem milhões de pessoas passando fome (ver imagem de passeio de Jair Bolsonaro pelas ruas de Roma).

bolsonaro roma

A questão que merece ser refletida não é nem a posição de Jair Bolsonaro acerca dos pobres e da necessidade de manter uma estrutura de amortecimento para a crise social que as políticas de seu (des) governo agravaram. Bolsonaro e seu governo são, digamos, incorrigíveis. O problema maior são as elites econômicas que se comportam como se não houvesse nada de ruim ocorrendo sob o “Sol de parador”, pois está claro que se depender dos banqueiros e latifundiários, Jair Bolsonaro não só continuará presidindo o Brasil, mas como haverá cobrança para que aprofunde sua guerra contra os pobres.

Um elemento que também merece reflexão é sobre a posição dos partidos ditos de esquerda que nas suas administrações em estados e municípios não estão se comportando de forma muito diferente do governo federal. Isso revela que mesmo que Jair Bolsonaro seja derrotado eleitoralmente em 2022, haverá necessidade de se organizar a classe trabalhadora para enfrentar a devastação social e ambiental que suas políticas estão criando.  Em outras palavras, não se pode ter qualquer ilusão que a simples vitória eleitoral vai nos tirar do atoleiro em que fomos colocados pela dupla Bolsonaro e Guedes.

Ao olhar para ruas cada vez mais cheias de brasileiros desempregados e passando fome, a certeza que fica é que o caminho de saída não se fará pela via das urnas.

Ilhas do Pacífico: onde as casas afundam no mar

O aquecimento global está colocando em risco a subsistência de muitas ilhas do Pacífico

ilhas marshall

Por Barbara Barkhausen para o Neues Deutschland

As Ilhas Marshall, que estão a meio caminho entre a Austrália e o Havaí, no Pacífico Norte, têm quase 60.000 cidadãos. Eles consistem em duas cadeias quase paralelas de ilhas e atóis, que cobrem uma área de terra de 181 quilômetros quadrados. As 1225 ilhas maiores e menores se estendem por uma área marítima de quase dois milhões de quilômetros quadrados. Talvez o fato geográfico mais importante no momento seja outra coisa: a área terrestre sobe, em média, apenas cerca de dois metros acima do nível do mar. E isso está se tornando um problema existencial no curso das mudanças climáticas. Devido ao aquecimento dos oceanos e ao derretimento das calotas polares, o nível do mar pode subir mais de dois metros até o final deste século.

Mas ainda se espera poder prevenir o pior. As Ilhas Marshall estão enviando cinco delegados para a conferência climática da ONU em Glasgow, Escócia. Nesse caso, trata-se principalmente de aumentar significativamente as “ambições climáticas”, como explicou Clarence Samuel, da Diretoria de Mudanças Climáticas das Ilhas Marshall, à rádio neozelandesa RNZ.

Há muito se sabe que a nação insular é um dos países mais ameaçados do planeta. Um estudo de 2018 do US Geological Survey concluiu que muitos atóis baixos podem estar inabitáveis ​​em meados deste século. Agora, o Banco Mundial está alertando que o futuro próximo do país parece sombrio. Um relatório intitulado “Mapping the Marshall Islands”, que foi produzido ao longo de um período de dois anos, prevê um verdadeiro cenário de desgraça e tristeza. Os pesquisadores esperam que em breve o nível do mar possa subir tanto que vários edifícios na capital Majuro ficarão permanentemente inundados e ilhas inteiras desaparecerão.

As Ilhas Marshall podem perder partes importantes de suas terras e infraestrutura, disse Artessa Saldivar-Sali, especialista em gestão de risco de desastres do Banco Mundial e chefe de trabalho do relatório. Se o nível do mar subir um metro, cerca de 40 por cento dos edifícios em Majuro ficariam permanentemente inundados. Quase todos os cerca de 20.000 habitantes também seriam freqüentemente afetados pelas inundações.

A modelagem na qual o relatório é baseado leva em consideração vários cenários de aumento do nível do mar e mostra os efeitos.Uma ferramenta de visualização mostra uma divisão de edifício por edifício. De acordo com Saldivar-Sali, a modelagem é tão específica que mostra onde a erosão costeira fará com que as casas mergulhem no mar, onde haverá perda significativa de terra e onde a água salgada invadirá nascentes de água doce. Este último pode colocar em risco não apenas o abastecimento de água, mas também a produção agrícola. No entanto, o relatório também mostra onde o país pode ou deve se adaptar: onde canteiros de obras teriam de ser adiados, edifícios realocados, terrenos amontoados ou níveis de piso aumentados – opções que estão amplamente associadas a custos elevados.

Kathy Jetñil-Kijiner, poetisa e embaixadora do clima nas Ilhas Marshall, ficou chocada ao ler o relatório. Ela já sabia que seu país tinha “um futuro sombrio”, disse ela, mas agora isso se tornou ainda mais claro. Ela também ficou chocada ao descobrir: “Uma das ilhas que estará 100 por cento submersa e completamente coberta é Jaluit”, disse ela. Esta é a ilha de onde vem sua família. “É o país do qual minha filha tem o nome.”

Com as complicações da vida diária ou de sobrevivência, também existem problemas jurídicos. As Ilhas Marshall podem até perder seu status de nação se a estabilidade, a delimitação do território e a população forem perdidas. Em certas circunstâncias, a extensa zona marítima exclusiva e, portanto, o acesso a importantes áreas de pesca podem ser perdidos – um problema que os chefes de Estado e de governo da região discutiram no “Fórum das Ilhas do Pacífico” em agosto.

Outro perigo advém do lixo nuclear que os Estados Unidos encerraram em um bunker de concreto em Runit, parte das Ilhas Marshall, durante a Guerra Fria. Desde o final dos anos 1970, 85.000 metros cúbicos de lixo nuclear foram armazenados na ilha, incluindo plutônio-239, uma das substâncias mais tóxicas do planeta. O lixo fica diretamente no chão da ilha, coberto por uma tampa de concreto com 50 centímetros de espessura. Como o nível do mar aumentou, a cúpula ameaça se quebrar. Se o plutônio penetrar no oceano, poderá contaminar grandes partes do Pacífico.

Outros Estados insulares do Pacífico já estão sofrendo com as mudanças climáticas. Cinco ilhas desabitadas nas Ilhas Salomão desapareceram no mar em 2016, e uma aldeia em Kiribati já teve que ser realocada. Inundações e tempestades já tornaram muitos terrenos inutilizáveis ​​aqui nos últimos anos: os poços de água doce tornaram-se muito salinos e as plantações foram destruídas.

Alguns relatos da mídia dizem que Kiribati, como as Ilhas Marshall, pode ser inabitável em alguns anos. Cerca de 100.000 pessoas teriam então que ser reassentadas. Originalmente, a nação insular já havia investido em terras em Fiji para realocar seus cidadãos lá, se necessário. No entanto, de acordo com reportagens da mídia do início do ano, o país está atualmente sendo convertido em uma fazenda comercial com “assistência técnica” da China, que produzirá alimentos para o estado do Pacífico. Planos para uma ilha artificial na qual cerca de 30.000 pessoas poderiam viver também foram discutidos.

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Este artigo foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui! ].

Presidente Kennedy (ES): entidades e movimentos sociais enviam carta ao Consulado da Holanda de alerta e cobrança de respostas sobre impactos sociambientais do Porto Central

porto central

Presidente Kennedy, 27 de outubro de 2021.

Prezado Sr. A.J.M. Schilte,

Representante do Consulado Holandês no Espírito Santo.

Saudações capixabas e holandesas.

As organizações da sociedade civil capixaba, do Norte Fluminense e da Holanda mobilizadas pela Campanha Nem um poço a mais!, solicitamos uma urgente reunião com o consulado holandês no Espírito Santo.

Vimos por meio desta carta alertar o consulado, o governo e a sociedade civil holandesa, para que observem e impeçam as violações de direitos humanos e a destruição da natureza, implicadas na instalação do Porto Central e na expansão da exploração offshore no Sul do Espírito Santo e Norte do Rio de Janeiro.

Como deve ser de conhecimento do consulado, empresas holandesas estão diretamente envolvidas nos projetos de expansão da indústria do petróleo e gás e em sua infraestrutura, no mar e ao longo da costa atlântica. Seus investidores, consultores, prestadores de serviços e tecnologia petroleira para a exploração fóssil não são bem-vindos.

O Porto Central não pode ser construído! Ameaça direitos humanos, põe em risco a natureza.

Sob um governo fascista e racista como o de Bolsonaro, o Porto Central não dá garantias e salvaguardas concretas para questões fundamentais, mal definidas e pouco observadas nas condicionantes do licenciamento.

  • O que farão com 400 famílias de comunidades de pesca artesanal que vivem, protegem e trabalham no mar, nos rios e nas áreas alagadas, na região de Presidente Kennedy, mais as comunidades de Marataízes e do norte do Rio de Janeiro?
  •  Vão realmente destruir os berçários, interditar os acessos e impossibilitar a reprodução dos modos de vida da região?
  • Quais as garantias de salvaguardas para as comunidades quilombolas do Sul do Espírito Santo? Vão ignorar a Convenção 169 da OIT?
  • Como vão garantir a segurança da população em geral, das mulheres e meninas, das mulheres negras, pescadoras, artesãs, diante da chegada de 2 mil homens jovens, de outras regiões, trabalhadores precarizados para as obras de construção?
  • Como farão para não degradar a Igreja de Nossa Senhora das Neves, um Patrimônio histórico, nem profanar a tradicional Romaria das Neves, quando da construção e instalação do porto?
  • Vão mesmo destruir 1100 hectares de terra protegida (Mata Atlântica, áreas alagadas e mata de restinga), toda a fauna e flora, para dar lugar às instalações do porto?
  • Repetirão, no Sul do Espírito Santo e norte do Rio de Janeiro, os danos que causaram no porto de Suape (PE), no porto do Açu(RJ) na vida marinha e na sociedade da região?
  • Afinal, que tipo de desenvolvimento está sendo proposto? Para quê? e para quem?
  • Que órgãos de governo e quais empresas holandesas estão envolvidas na exploração petroleira e em sua infraestrutura, na bacia do Espírito Santo e na bacia de Campos?

Esperando por respostas positivas para tratarmos diretamente deste assunto, agradecemos.

Cordialmente,

FAPAES – Federação das Associações de Pescadores Profissionais, Artesanais e Aquicultores do Espírito Santo

ANP-Articulação Nacional de Pescadoras.

Colônia de Pescadores e Aquicultores  Z14(Presidente Kennedy-ES).

FECOPES – Federação das Colônias e Associações de Pescadores do Estado do Espirito Santo.

CONAQ – Coordenação Nacional de Quilombos

COEQ – Coordenação Estadual de Quilombos do Espirito Santo.

AMQBC-Associação De Moradores Quilombolas de Boa Esperança e Cacimbinha(Presidente Kennedy-ES).

MAROBART-Associação De Artesãs Da Praia De Maroba(Presidente Kennedy-ES).

MST-Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

MPA-Movimento dos Pequenos Agricultores.

Fórum Estadual de Mulheres/ES

Coletivo FEPNES/ES

CDDH-Centro de Defesa dos Direitos Humanos Regional Sul – Pedro Reis(Cachoeiro Do Itapemirim-ES)

FASE/ES

INSTITUTO VISÃO SOCIAL.

IMANE-C PELA PAZ

IFF-Instituto Federal Fluminense-Campus Bom Jesus do Itabapoana

Movimento Baía Viva/RJ

Fórum Suápe/PE

Both ENDS – Holanda

Millieudefensie – Holanda

MNDH –ES

ACAOA-Associação dos Cultivadores de Algas da Orla de Aracruz-ES.

APAPS-Associação dos Pescadores Artesanais de Porto de Santana e Adjacências-ES

Campanha Nem um poço a mais!

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Por não ter nada de bom para dizer, Jair Bolsonaro foge da COP26 e vai fazer turismo na Itália. Pior para o Brasil

cop26

Em meio ao caos econômico, sanitário e social em que o Brasil está metido neste momento, muito em parte por causa das desastrosas políticas ultraneoliberais adotadas pelo ministério da Economia sob o comando de Paulo Guedes, o presidente Jair Bolsonaro resolveu fugir da 26a. edição da Conferência do Clima que será realizada em Glasgow, capital da Escócia, a partir deste domingo (31/10).  Em vez de se juntar a maioria dos líderes mundiais que estarão na COP26 para discutir a adoção de políticas de mitigação (senão de controle) da crescente climática em que estamos metidos. Em vez disso, o presidente do Brasil resolveu dar uma de “Leão da Montanha”, saiu pela direita, e foi fazer turismo na Itália onde deverá participar como mero expectador da reunião anual do chamado G-20, que nesta edição não contará com a presença de Xi Jinping e Vladimir Putin.

Bolsonaro-Roma-29-10-21-868x644Para fugir da COP26, Jair Bolsonaro resolveu fazer turismo de rua na Itália

Ao contrário da reunião do G-20 que não trará medidas efetivas para o quer que seja, a COP26 deverá trazer uma série de resoluções que poderão sim afetar a forma pela qual a economia mundial funciona, pelo menos nos próximos anos. Nesse sentido, não estar presente na COP26 certamente não será benéfico para o Brasil, independente de quem seja o seu presidente em 2023. Ao se negar a discutir seriamente medidas de confronto da crise climática, o governo Bolsonaro está contribuindo para um maior aprofundamento do isolamento diplomático em que o Brasil já se encontra.

O fato é que ao se recusar a estabelecer propostas de controle das emissões de gases estufa, e objetivamente agir para aumentá-las, o governo Bolsonaro está levantando barreiras com nossos principais parceiros comerciais, inclusive a China (que, aliás, já impõe um congelamento na importação de carne brasileira). E é importante notar que, ainda que as decisões da COP26 fiquem aquém do que se precisa para conter o avanço da crise climática, países que são centrais no controle das emissões, como é o caso do Brasil, não serão poupados de cumprir suas responsabilidades. Em outras palavras, as barreiras que já sendo levantadas são apenas o princípio do que virá pela frente.

Finalmente, há que se observar a declaração do vice-ministro Hamilton Mourão que justificou a ausência de Jair Bolsonaro sob a alegação de que se fosse o presidente brasileiro seria alvo de apedrejamento, não havendo nada de prático que pudesse ser feito. Pelo jeito, o general Mourão, do alto de sua soberba, ainda não entendeu sobre o que significa ser apedrejado dentro da diplomacia mundial. A verdade é que até agora Jair Bolsonaro não foi sequer incomodado, apesar de todas as ações bizarras na área ambiental. No entanto, o castigo pode até tardar, mas virá. Pior para o Brasil.

O agro é offshore: a face agrária dos citados nos Pandora Papers

Do casal que patrocina o Palmeiras aos irmãos Grendene, donos da Azaleia, base de dados evadida por consórcio de jornalistas contém empresários que atuam no agronegócio e mandam divisas para fora por meio de paraísos fiscais

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Por Leonardo Fuhrmann para a “De olho nos Ruralistas”

Os Pandora Papers mostram que ter empresas offshore para não pagar impostos no Brasil é uma prática comum entre grandes empresários do sistema financeiro, autoridades econômicas do governo Jair Bolsonaro, financiadores de fake news e grandes devedores de impostos e tributos. Mas a atitude, que tem algo de tech e nada de pop, é também uma marca do agronegócio.

A partir dos nomes citados em reportagens do consórcio de jornalistas – que no Brasil tem a participação da Piauí, El País Brasil, Metrópole, Poder 360 e Agência Pública —, De Olho nos Ruralistas identificou nomes importantes do agronegócio brasileiro que mandam divisas para fora do país, sem custos e impostos.

A manutenção de contas no exterior, caso sejam declaradas à Receita Federal, não configura crime em si. Revela, no entanto, como alguns ricos fogem de tributação e ganham com o enfraquecimento da moeda brasileira em relação às estrangeiras. No caso do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, donos de offshores, o conflito de interesses fica claro: eles comandam uma política econômica que lhes favorece.

No caso do agronegócio, um setor que tem demonstrado apoio ao atual governo como poucos, o benefício é triplo: os custos com máquinas e insumos importados ficam menores, os lucros aumentam em moeda nacional e eles também ganham com a especulação contra o real no exterior. Em vários casos, os empresários citados tem diversos negócios em áreas distintas da educação à comunicação, mas sempre com um braço no agronegócio.

Família Lamacchia, da Crefisa, atua no campo desde 1940

O empresário José Roberto Lamacchia é conhecido por ser dono do Centro Universitário FAM, a Faculdade das Américas, e do banco Crefisa, ambos patrocinadores do Palmeiras, atual campeão da Copa Libertadores da América. Sua esposa, a advogada Leila Pereira, deve se tornar a próxima presidente do clube.

O agronegócio está na família de José Roberto Lamacchia desde 1940. (Foto: Palmeiras)

Os negócios do casal incluem redes de clínicas médicas e veterinárias, empresas de publicidade, serviços cadastrais e cobrança e a holding Crefipar. Eles aparecem no Pandora Papers como proprietários da offshore Koba Investors Limited, criada em 2008 nas Ilhas Virgens Britânicas.

A face ruralista de Lamacchia vem de família. Morador de Birigui, no interior paulista, o pai do palmeirense atuava no setor bancário e na produção de café, entre outros produtos agrícolas, pelo menos desde os anos 40. José Roberto e seu irmão mais velho, Antonio Luiz, iniciaram a Crefisa na década de 60. José Roberto criou a Agropecuária Arauc em meados dos anos 70. A empresa foi incorporada em 2015.

Antonio Luiz ficou com a JL Agropecuária, atualmente JL Participações, que administra junto com os filhos. O grupo é dono de fazendas em Nova Andradina, Iguatemi, Sonora, Campo Grande e Bataguassu, no Mato Grosso do Sul, e Rondonópolis, no Mato Grosso.

Irmãos Grendene colecionam fazendas no Matopiba

Do gado à soja, irmãos Grendene tem fazendas em vários estados. (Foto: Reprodução)

Já citados no Bahamas Leaks, de 2016, e no Paradise Papers, de 2017, os irmãos gêmeos gaúchos Pedro e Alexandre Grendene Bartelle também aparecem no atual vazamento. Alexandre preside a ABG, nas Ilhas Virgens Britânicas. Pedro dirige duas empresas no Delaware, estado dos Estados Unidos com legislação liberal para a criação de offshores. São a PGB San Marino USA, criada em 2016, e a PBCW San Peter USA, de 2017.

Eles são mais conhecidos pela atuação no ramo de calçados: são donos das marcas Azaleia, Olympikus Rider e Vulcabrás. Mas os irmãos atuam em diferentes ramos, inclusive o agronegócio. São donos de empresas de siderurgia, empreendimentos imobiliários e fazendas em Farroupilha (RS), Valparaíso e Andradina (SP) e em Baianópolis, Barreiras e São Desidério (BA). Seus negócios rurais incluem gado de corte, cana-de-açúcar e grãos.

Os irmãos Grendene chegaram a ser condenados em primeira instância por sonegação fiscal em 2000, na Justiça Federal no Rio Grande do Sul. Em 2010, Pedro voltou a ser investigado pela Polícia Federal, desta vez por evasão de divisas. Alexandre é sócio de um cassino em Punta Del Este, no Uruguai. Foi lá, no bairro de Beverly Hills, que os gêmeos comemoram, no ano passado, 70 anos de vida.

Sócia de Soros tem dívida de R$ 27 milhões com a União

Sócia de Soros também está no Pandora Papers. (Foto: Divulgação)

Sócia da Adecoagro, ligada ao megainvestidor George Soros, e dona da Companhia Monte Alegre, Corina Almeida Leite é outro nome do agronegócio na lista do Pandora Papers. Segundo as investigações do consórcio de jornalistas, ela mantém a offshore Etiel Societé Anonyme, que, segundo um documento do Pandora Papers, detinha US$ 500 mil em ações da Adecoagro em 2016. A empresa tem sede nas Ilhas Virgens Britânicas.

Corina tem uma dívida com a União de R$ 27,4 milhões. A empresária é de uma família tradicional do setor.  Segundo pesquisa genealógica do professor Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela é prima de Marcelo Weyland Barbosa Vieira, presidente da Sociedade Rural Brasileira entre 2018 e 2020 e atualmente um dos conselheiros da entidade.

Casada com Francisco Almeida Leite, ela é filha de Mário Barbosa Vieira. Marcelo é filho de Milton Barbosa Vieira. O avô de Corina e Marcelo, Jorge Vieira, é fundador da Usina Monte Alegre, em uma fazenda mais do que centenária em Minas Gerais, que hoje está incorporada ao grupo Adecoagro. A família também atua no confinamento de gado.

Donos de jornais, rádios e TV são fazendeiros 

Yolanda Queiroz,  da retransmissora da Globo no  Ceará. (Foto: Divulgação)

Citada nas reportagens dos Pandora Papers como empresária de comunicação, Yolanda Vidal Queiroz, morta em 2016, tinha muitos outros negócios. O Grupo Edson Queiroz, pertencente à sua família, é dono de rádios, da TV Verdes Mares, retransmissora da Rede Globo no Ceará, e do jornal Diário do Nordeste.

O grupo também tem a engarrafadoras de água Minalba, além de outras distribuidoras, fabricantes de bebidas, a distribuidora de gás Nacional e da Copa Energia e a fábrica de fogões Esmaltec. São donos ainda da Esperança Agro, com produção de leite, mel e gado de corte. A Esperança tem três fazendas no Ceará, uma no Maranhão e outra no Piauí.

Os Pandora Papers mostram uma offshore registrada em seu nome, a Water Overseas S.A.. A empresa consta no documento de transferência de suas ações para os filhos e netos.

Di Genio foi multado por desmatamento no MS

Os Panama Papers, que reuniam documentos vazados em 2016, já tinham uma grande participação de empresas e pessoas ligadas ao agronegócio, como a JBS, gigante do setor de carnes pertencente aos irmãos Joesley e Wesley Batista, a família Benedictis, então proprietária do Laticínios Shefa, e sócios de duas gigantes do ramo de papel e celulose: a Suzano, da família Feffer, e a Klabin.

A família Ferreira Telles, antiga dona da marca de cachaça Ypioca, é outra citada como dona de offshores. Eles são donos da Agropaulo, que produz etanol de cana e milho e tem fazendas no Ceará e Rio Grande do Norte, além de pecuária no Tocantins. Outros empresários do ramo de bebidas e alimentos, Jorge Paulo Lemann, Marcel Hermann Telles e Carlos Alberto Sicupira, da Ambev, Laerte Cadonho, da Dolly, Walter Faria, da Cervejaria Petrópolis, e Francisco Ivens Júnior, da M. Dias Branco (dona de marcas como a Piraquê e a Adria), apareciam como donos de offshores.

Mais conhecido pelo colégio e cursinho Objetivo e pela Universidade Paulista (Unip), o empresário João Carlos Di Genio foi mais um citado nos Panama Papers. Di Genio é dono da Fazenda Di Genio, em Pereira Barreto (SP), a Águas Claras, em Iguatemi (MS), a Aimoré, em Juti (MS), e a Maruins e Santa Maria em Machadinho D’Oeste. Nos dois últimos municípios, Di Genio foi multado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por desmatamento, em 2006. Em Machadinho D’Oeste, duas autuações somaram R$ 1,21 milhão. Em Juti, a multa foi de R$ 3 mil. A criação de gado nelore é a atividade principal das propriedades.

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O fazendeiro e dono de offshore Di Genio já foi multado pelo Ibama. (Foto: Unip)

Blairo Maggi e dirigentes do BTG foram citados em outros vazamentos

O ex-ministro de Temer Blairo Maggi tem dinheiro em paraíso fiscal. (Foto: Beto Barata/PR)

Dono da BRPec, empresa que recebeu a maior multa por desmatamento no Pantanal nos últimos vinte anos, o banco BTG teve seus principais dirigentes citados como proprietários de offshore. Seus nomes aparecem na base de dados que ficou conhecida como Bahamas Leaks, de 2016. A BRPec recebeu uma multa de R$ 57.999.500, em 12 de maio de 2018, em Corumbá, maior município do Mato Grosso do Sul, na fronteira com Bolívia e Paraguai, e uma das capitais da pecuária no Brasil.

Dirigentes do banco, Sérgio Cutolo dos Santos, Guilherme da Costa Paes e André Esteves apareceram como beneficiários dessas empresas no exterior.  Esteves é um dos dez maiores bilionários brasileiros, segundo a revista Forbes. Santos ocupou cargos importantes no governo federal: foi ministro da Previdência no governo Itamar Franco e presidente da Caixa Econômica Federal na primeira gestão Fernando Henrique Cardoso.

Outro nome ligado à política e ao agronegócio a aparecer como dono de offshore é o de Blairo Maggi. Dono da Amaggi, uma das principais produtoras de soja do mundo, Blairo foi ministro da Agricultura no governo Michel Temer, senador pelo Mato Grosso e governador do estado. Seu nome apareceu nos Paradise Papers, documentos evadidos em 2017.

| Leonardo Fuhrmann é repórter do De Olho nos Ruralistas. |

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Este texto foi originalmente publicado pela “De olho nos Ruralistas” [Aqui!].

Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza e Recife registram baixa carga do coronavírus em seus esgotos. Brasília e Rio de Janeiro seguem com cargas elevadas, mas em queda

Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza e Recife registram baixa carga do novo coronavírus em seus esgotos. Brasília e Rio de Janeiro seguem com cargas elevadas, mas com tendência de queda

covid esgotos

Brasília se mantém com elevada carga viral, apesar de sua redução nas últimas semanas. No Rio de Janeiro a carga do novo coronavírus caiu para o patamar registrado no primeiro semestre de 2021. Em Fortaleza e Recife foram observadas baixas cargas. Em Belo Horizonte e Curitiba a carga viral também está num patamar baixo

Boletim de Acompanhamento nº 07/2021 da Rede Monitoramento COVID Esgotos, com dados até 16 de outubro, semana epidemiológica 41, identificou baixas cargas do novo coronavírus em quatro capitais: Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza e Recife. Porém, outras duas cidades se mantiveram com elevadas cargas virais: Rio de Janeiro e Brasília, sendo que a capital federal registrou elevadas cargas do novo coronavírus nas últimas semanas em seu esgoto, apesar da redução verificada entre as semanas 38 e 41. Veja as informações por cidade a seguir.

Belo Horizonte (MG)

Em Belo Horizonte a Rede Monitoramento COVID Esgotos observou uma tendência de redução da carga do novo coronavírus nos esgotos nas bacias dos ribeirões Arrudas e Onça entre as semanas epidemiológicas 38 (de 19 a 25 de setembro) e 41 (10 a 16 de outubro) em comparação ao período das semanas 35 (29 de agosto a 4 de setembro) e 37 (12 a 18 de setembro).

Entre as semanas 38 e 41, a menor carga viral foi registrada na semana 38: 5,4 bilhões de cópias do vírus por dia para cada 10 mil pessoas. Já entre as semanas 35 e 37, a carga variou entre 23,7 e 34,4 bilhões de cópias por dia para cada 10 mil pessoas, conforme o gráfico a seguir.

Evolução da carga viral no esgoto de Belo Horizonte

Especificamente na semana epidemiológica 40 (3 a 9 de outubro), o novo coronavírus foi detectado em baixa concentração (de 1 a 4 mil cópias por litro das amostras) somente nas duas estações de tratamento de esgotos de Belo Horizonte: ETE Arrudas e ETE Onça, o que está indicado em amarelo no mapa “c” a seguir. Nos demais pontos da rede de esgotamento monitorados, o vírus não foi detectado, o que está representado em verde no mesmo mapa abaixo. Entre as semanas 38 e 41, os pontos com média concentração viral, destacados em laranja, ficaram na faixa entre 4 mil e 25 mil cópias do vírus por litro.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas em Belo Horizonte entre as semanas epidemiológicas 38 e 41

Dentre os seis pontos especiais de monitoramento na capital mineira, na semana 41, o novo coronavírus foi detectado somente no Aeroporto Internacional de Confins e no lar de idosos acompanhado pela Rede Monitoramento COVID Esgotos. Conforme a tabela a seguir, ambos os pontos monitorados tiveram concentrações consideradas baixas: na faixa entre 1 e 4 mil cópias por litro das amostras. Na semana anterior os seis pontos não tiveram registro da presença do novo coronavírus nas amostras coletadas. Acesse aqui o boletim temático lançado em outubro com a análise dos pontos especiais de monitoramento de BH.

Concentração do novo coronavírus no esgoto dos pontos especiais de monitoramento em Belo Horizonte

Brasília (DF)

Brasília apresentou uma tendência de redução da carga do novo coronavírus em seus esgotos entre as semanas epidemiológicas 38 (de 19 a 25 de setembro) e 41 (10 a 16 de outubro). Nesse período a redução foi de aproximadamente 44%, caindo de 830 bilhões para 371,6 de cópias do vírus por dia para cada 10 mil habitantes, considerando a soma das cargas das oito estações de tratamento de esgotos (ETEs), que, juntas, atendem a cerca de 80% da população do Distrito Federal. Apesar da queda, a carga viral total da semana 41 permanece elevada.

Evolução da carga viral no esgoto do Distrito Federal

Ainda entre as semanas epidemiológicas 38 e 41, a concentração viral oscilou para cima em determinadas estações de tratamento de esgotos e para baixo em outras ETEs. Para a Rede Monitoramento COVID Esgotos, tal fenômeno sugere que a circulação do vírus não ocorreu de modo uniforme nas diferentes regiões do DF nesse período. Além disso, essa pode ser uma das explicações para a divergência entre a redução da carga total do vírus no esgoto do Distrito Federal, enquanto houve aumento do número de casos de COVID-19 registrados entre as semanas 38 e 40.

Como pode ser percebido nos mapas a seguir, todos os pontos de monitoramento no DF tiveram altas concentrações do novo coronavírus (acima de 25 mil cópias por litro) ou médias concentrações (de 4 mil a 25 mil cópias) entre as semanas 38 e 41, as quais estão indicadas respectivamente em vermelho e laranja nos mapas a seguir.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas no DF entre as semanas epidemiológicas 38 e 41

Curitiba (PR)

Entre as semanas epidemiológicas 38 (de 19 a 25 de setembro) e 41 (10 a 16 de outubro), Curitiba registrou algumas das menores cargas e concentrações do novo coronavírus em seu esgoto. No período a menor carga observada foi de 14,4 bilhões de cópias por dia para cada 10 mil habitantes na semana 39 (26 de setembro a 2 de outubro) e a maior ocorreu na semana 38: 24,4 bilhões de cópias. Já na semana 41, houve um leve aumento para 21 bilhões de cópias por litro para cada 10 mil habitantes em relação à semana anterior. Somente a carga viral da semana epidemiológica 13 (28 de março a 3 de abril) foi menor que a mínima das últimas quatro semanas epidemiológicas: 10,3 bilhões de cópias do vírus.

Evolução da carga viral no esgoto de Curitiba

 Na semana epidemiológica 41, Curitiba teve um ponto de monitoramento em que não foi detectada a presença do novo coronavírus, a ETE Atuba Sul, indicado em verde no mapa “d” a seguir. Esta foi a primeira vez em que o vírus não foi detectado nesse ponto desde o início do monitoramento na capital paranaense em março. Também houve pontos com baixa concentração viral (1 a 4 mil cópias por litro das amostras) e média concentração (4 mil a 25 mil cópias por litro), indicados respectivamente em amarelo e laranja nos mapas a seguir.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas em Curitiba entre as semanas epidemiológicas 38 e 41

No ponto especial de monitoramento do Aeroporto Internacional Afonso Pena, o vírus não foi detectado nas semanas epidemiológicas 38 e 41. Já nas semanas 39 e 40, as concentrações medidas foram respectivamente de 7.720 cópias por litro, considerada média, e 107 cópias por litro, considerada baixa, conforme a tabela a seguir.

Concentração do novo coronavírus no esgoto do ponto especial de monitoramento em Curitiba

Fortaleza (CE)

Conforme os dados da Rede Monitoramento COVID Esgotos, nas semanas epidemiológicas 38 (de 19 a 25 de setembro) a 41 (10 a 16 de outubro), a carga do novo coronavírus aumentou na Estação de Pré-Condicionamento, que recebe a maior parte do esgoto coletado em Fortaleza, em comparação às quatro semanas anteriores. Apesar do aumento da carga viral, que oscilou entre 1,92 bilhão de cópias por dia para cada 10 mil habitantes na semana 41 e 9,63 bilhões de cópias na semana 38, a carga verificada ainda permanece baixa na capital cearense.

Evolução da carga viral no esgoto de Fortaleza

Na semana epidemiológica 41, a Rede Monitoramento COVID Esgotos detectou o novo coronavírus somente na Estação de Pré-Condicionamento e com uma baixa concentração viral (entre 1 e 4 mil cópias do vírus por litro), indicada em amarelo no mapa “d” a seguir. Entre as semanas epidemiológicas 38 e 41, todos os pontos monitorados em Fortaleza não tiveram a presença do vírus detectada ou tiveram, no máximo, uma baixa concentração viral.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nos pontos monitorados em Fortaleza entre as semanas epidemiológicas 38 e 41

Recife (PE)

Entre as semanas epidemiológicas 37 (de 12 a 18 de setembro) e 41 (10 a 16 de outubro), a Rede Monitoramento COVID Esgotos registrou em Recife baixas cargas virais, que variaram entre 3 bilhões (na semana 40) e 5,8 bilhões de cópias por dia para cada 10 mil pessoas (na semana 38). Com isso, houve um leve aumento da carga viral em relação às semanas epidemiológicas anteriores. Ainda assim, Recife permanece com baixa carga viral em seu esgoto.

Evolução da carga viral no esgoto de Recife

Ainda no período entre a semana 37 e a 41, todos os pontos de monitoramento em Recife tiveram baixa concentração do novo coronavírus (entre 1 e 4 mil cópias por litro) ou mesmo a ausência do vírus, situações respectivamente indicadas em amarelo e verde nos mapas a seguir.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas em Recife entre as semanas epidemiológicas 37 e 41

Rio de Janeiro (RJ)

Nas semanas epidemiológicas 38 (de 19 a 25 de setembro) a 41 (10 a 16 de outubro), a Rede Monitoramento COVID Esgotos registrou que as cargas virais no esgoto do Rio de Janeiro caíram e voltaram ao patamar observado no início deste ano. Entre as semanas 38 e 41, a carga viral na capital fluminense caiu de 516,6 bilhões para 61,65 bilhões de cópias do vírus por dia para cada 10 mil habitantes. Esta é a menor carga desde a semana epidemiológica 3 de 2021 (17 a 23 de janeiro), quando foram registrados 45,49 bilhões de cópias por dia para cada 10 mil habitantes.

Nas semanas 38 a 41, a tendência geral de diminuição das concentrações e cargas virais no esgoto do Rio de Janeiro, já apontada no Boletim de Acompanhamento nº 06/2021, se manteve em todos os pontos monitorados.

Evolução da carga viral no esgoto do Rio de Janeiro

Em termos de concentração viral, o novo coronavírus não foi detectado na Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) Pedra da Guaratiba na semana epidemiológica 39, assim como aconteceu na ETE Penha na semana 41. Também nesta semana, a Rede Monitoramento COVID Esgotos registrou a menor concentração viral da série histórica para o ponto de monitoramento ETE Deodoro: 650 cópias por litro das amostras.

Nos mapas a seguir é possível ver a melhora das concentrações virais entre as semanas 38 e 41, sendo que as áreas em verde indicam a não detecção do vírus. As porções em amarelo, laranja e vermelho representam respectivamente os pontos de monitoramento com baixa concentração viral (1 a 4 mil cópias por litro), média concentração (4 mil a 25 mil cópias por litro) e alta concentração (acima de 25 mil cópias).

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nos pontos monitorados no Rio de Janeiro entre as semanas epidemiológicas 38 e 41

Sobre a Rede Monitoramento COVID Esgotos

A Rede Monitoramento COVID Esgotos, lançada em webinar realizado em 16 de abril, acompanha as cargas virais e concentrações do novo coronavírus no esgoto de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. Esse trabalho, uma das maiores iniciativas brasileiras de monitoramento da COVID-19 no esgoto, busca ampliar as informações para o enfrentamento da pandemia de COVID-19.

Nesse sentido, os resultados gerados sobre a ocorrência do novo coronavírus no esgoto das cidades em questão podem auxiliar as autoridades locais de saúde na tomada de decisões relacionadas à manutenção ou flexibilização das medidas de controle para a disseminação da COVID-19. Também pode fornecer alertas precoces dos riscos de aumento de incidência do vírus de forma regionalizada.

Com os estudos, o grupo pretende identificar tendências e alterações na ocorrência do vírus no esgoto das diferentes regiões monitoradas, o que pode ajudar a entender a dinâmica de circulação do vírus. Outra linha de atuação é o mapeamento do esgoto para identificar áreas com maior incidência da doença e usar os dados obtidos como uma ferramenta de alerta precoce para novos surtos, por exemplo.

O último Boletim de Acompanhamento se soma aos boletins já publicados da Rede Monitoramento COVID Esgotos e aos 34 Boletins de Acompanhamento produzidos no contexto do projeto-piloto Monitoramento COVID Esgotos, realizado com base em amostras de esgotos em Belo Horizonte e Contagem (MG). As lições aprendidas com o projeto-piloto são a base para os trabalhos da Rede.

A Rede é coordenada pela ANA e INCT ETEs Sustentáveis com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e conta com os seguintes parceiros: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além disso, a Rede conta com a parceria de companhias de saneamento locais e secretarias estaduais de Saúde.

Sobre os parceiros do projeto

ANA

Criada pela Lei nº 9.984/2000, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) é a agência reguladora dedicada a implementar a Política Nacional de Recursos Hídricos, a Lei das Águas, e coordenar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH). Com a aprovação do novo marco legal do saneamento básico pela Lei nº 14.026/2020, também cabe ao órgão editar normas de referência para a regulação dos serviços públicos de saneamento básico.

Esse trabalho é feito por meio de ações de regulação, monitoramento, gestão e planejamento de recursos hídricos. Além disso, a ANA emite e fiscaliza o cumprimento de normas, em especial as outorgas em corpos d’água de domínio da União – interestaduais, transfronteiriços e reservatórios federais. Também é a responsável pela fiscalização da segurança de barragens de usos múltiplos das águas outorgadas pela instituição.

INCT ETEs Sustentáveis

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (INCT ETEs Sustentáveis) estuda questões sobre o esgoto sanitário, notadamente para países em desenvolvimento, de forma a contribuir para a promoção de mudanças estruturais e estruturantes nos serviços de esgotamento sanitário, a partir da capacitação profissional, desenvolvimento de soluções tecnológicas apropriadas às diversas realidades nacionais, construção e transmissão de conhecimento para a sociedade, órgãos governamentais e empresariais.

O golpe mais recente de editores predatórios: artigos piratas e reformulados

Para frustrar os esquemas de publicação que minam os acadêmicos e a publicação acadêmica, periódicos legítimos deveriam mostrar seu funcionamento

preda1Ilustração de David Parkins

Por Kyle Siler , Philippe Vincent-Lamarre , Cassidy R. Sugimoto e Vincent Larivière para a Nature

Em 2018, a US Federal Trade Commission (FTC) ganhou uma decisão de US $ 50 milhões contra a editora OMICS por práticas comerciais enganosas. A investigação da FTC descobriu que a OMICS aceitou e publicou quase 69.000 artigos em disciplinas acadêmicas com pouca ou nenhuma revisão por pares. O julgamento contra o infame editor, localizado em Hyderabad, Índia, foi difícil de aplicar. Mas o estigma resultante ainda traz uma penalidade. Nos dois anos após a FTC ter apresentado sua reclamação, os artigos da OMICS publicados sob seu selo caíram 40%. Afinal, um editor sem reputação é preferível a um editor com reputação ruim.

Editores predatórios cobram taxas de publicação sem realizar serviços anunciados, como arquivamento, indexação ou controle de qualidade. Eles costumam usar o engano total, como conselhos editoriais falsos ou fatores de impacto, para parecerem legítimos. Os pesquisadores podem enviar trabalhos a esses veículos de maneira ingênua ou cinicamente; mesmo artigos não lidos ou desleixados são recompensados por decisões de mandato, contratação e promoção de algumas universidades. Freqüentemente, esses artigos não avaliados atraem pouca atenção. No entanto, como às vezes são coletados por mecanismos de busca acadêmicos não seletivos, como o Google Scholar, eles podem ser encontrados – e lidos – como parte do corpus científico.

Um ano após o julgamento da FTC, o principal conselheiro científico do Governo da Índia, Krishnaswamy VijayRaghavan, lamentou a dificuldade de reprimir a “ameaça” dos editores predadores. Ele os comparou à Hydra, a criatura do mito grego que brota duas cabeças para cada uma delas cortada.

Para ter uma visão melhor desse monstro de muitas cabeças, construímos um banco de dados de editores que não foram indexados em bancos de dados bibliográficos seletivos, como Web of Science ou Scopus. Atualmente, este banco de dados, denominado Lacuna, indexa mais de 900.000 artigos em 2.300 periódicos de 10 editoras, uma pequena fração da margem da publicação acadêmica. No momento, inclui principalmente periódicos que anunciam falsamente a revisão por pares e outros serviços acadêmicos. No entanto, nosso objetivo de longo prazo é indexar publicações em todo o espectro de legitimidade, de falsificações maliciosas a start-ups fragmentadas e com poucos recursos. Nosso trabalho preliminar já revelou práticas enganosas que não havíamos previsto. A marca OMICS foi removida de muitos títulos, por exemplo. E periódicos predatórios estão reeditando – aparentemente por iniciativa própria sem qualquer consentimento – artigos reais revisados por pares que foram publicados em outros lugares.

Melhor rastreamento é uma vertente de uma estratégia mais ampla para derrotar esta Hydra. Outras vertentes são melhor educação e incentivos para autores que enviam manuscritos, e maior transparência em torno de como os periódicos legítimos vetam o trabalho.

Marca enterrada

Em 2020, a OMICS alterou centenas de URLs e revisou sites e composição para remover referências a OMICS. Também introduziu uma marca ‘Hilaris’. Embora os títulos das revistas renomeadas tenham permanecido listados nas páginas da OMICS, as menções à OMICS estão ausentes nas páginas da Hilaris, bem como nas de outras subsidiárias. O Journal of Surgery , por exemplo, continua sob a nova marca com o mesmo prefixo DOI, ISSN, e editor-chefe, sem menção a OMICS.

Seguimos links para os 737 periódicos listados no site da OMICS. Mais de 80% (600) são rotulados com outras marcas que são entidades corporativas distintas. Entre os mais proeminentes, Longdom tem endereços na Espanha e na Bélgica; Hilaris também está localizada na Bélgica, mas em um endereço diferente. iMedPub LTD está localizado no Reino Unido. O número de periódicos cresceu mais rapidamente do que o número de publicações, sugerindo que muitos periódicos são conchas com pouco conteúdo. Além disso, o conteúdo das subsidiárias está retroativo (consulte ‘Artigos antigos em novas marcas’). Embora estas subsidiárias tenham sido constituídas a partir de 2015 e ainda em 2020, os artigos datados de anos anteriores estão associados apenas aos novos títulos, sem qualquer menção à OMICS. (Hilaris, iMedPub,Longdom e OMICS não responderam às nossas perguntas sobre retroalimentação e se isso fazia parte de uma prática de rebranding.)

ARTIGO ANTIGO EM NOVAS MARCAS: gráfico de barras mostrando o número de artigos em subsidiárias da OMICS incluindo papéis retroativos

Fonte: K. SIler et al .

Achamos que a OMICS está reconfigurando as histórias de publicação de muitos de seus periódicos. Aqui está um exemplo: Advances in Pharmacoepidemiology & Drug Safety publicou sua primeira edição em 2012 sob o selo OMICS, em seguida, removeu o logotipo OMICS em 2015 e apareceu como um jornal independente até ser rebatizado como um selo Longdom em 2019. Em seu início, Robert H. Howland, da University of Pittsburgh, na Pensilvânia, e Richard L. Slaughter, da Wayne State University, em Detroit, Michigan, foram listados como editores-chefes. Howland disse à FTC em 2016 que foi listado como editor sem seu consentimento ou conhecimento. Sob Longdom, apenas Slaughter está listado como editor-chefe. Ele morreu em 2016.

Artigos falsificados

Uma tática que os periódicos predatórios têm usado é imitar periódicos legítimos de longa data online (ou às vezes para adquirir os títulos). Predadores confiam na reputação do jornal para coletar taxas1 sem fornecer serviços acadêmicos. Em agosto, a acadêmica Anna Abalkina, da Universidade Livre de Berlim, relatou que uma lista de publicações do COVID-19 mantida pela Organização Mundial da Saúde continha centenas de artigos de três dessas revistas, muitas delas totalmente fora do escopo. (Uma revista supostamente sobre linguística tinha artigos sobre COVID-19, nutrição e anemia gestacional).

A indexação de nosso banco de dados Lacuna revelou outra prática alarmante: a republicação de cópias piratas de artigos de fontes legítimas, sob novos DOIs, sem creditar o periódico original e, às vezes, não o autor original. Um pesquisador examinando o que parecem ser ‘edições anteriores’ vê artigos reais revisados por pares copiados de periódicos legítimos.

Várias anomalias nos levaram a descobrir que pelo menos nove artigos no Journal of Bone Research and Reports , sob a marca iMEDPub LTD, foram retirados diretamente do jornal da Elsevier Bone Reports . (Reportamos isso ao Bone Reports; um representante da Elsevier disse que o assunto agora está sob investigação.) A primeira pista foram os nomes bizarros de alguns autores, como “centro urbano” e “parlamentar”. Muitos nomes de autores apareceram com um caractere extra (por exemplo, “John Smitha” e “Mary Jonesb”) – indicando que eles foram copiados de um documento contendo sobrescritos.

Títulos de artigos da “Bonny Reports” foram modificados pelo uso de sinônimos: por exemplo, “Uma nova aplicação do método ultrassônico” tornou-se “uma aplicação completamente única da técnica inaudível [sic]”. (Este artigo específico foi republicado em pelo menos dois periódicos OMICS.) Alguns artigos foram totalmente plagiados da fonte da Elsevier, com a única diferença sendo as sentenças redigidas. Em outros casos, as palavras do artigo da Elsevier foram substituídas por sinônimos, talvez para criar a ilusão de originalidade e evitar a detecção de plágio. As trocas incluíram “conhecimento” para “dados” e “questões intelectuais” para “distúrbios cognitivos”. Substituições mais complicadas incluíram acrônimos interpretados incorretamente: por exemplo, a palavra comum “an” tornou-se “Associate in Nursing”,e “sd” foi escrito como “Mount Rushmore State” (um apelido para o estado americano de Dakota do Sul) em vez de “desvio padrão”. Outros estudiosos identificaram ‘frases torturadas’ semelhantes em diferentes revistas científicas2 .

Para gerar essas diferenças, levantamos a hipótese de que o OMICS usou algum tipo de software rudimentar de geração de sinônimos, ou talvez as obras foram traduzidas do inglês para outro idioma e depois de volta para o inglês. Outros ‘papers’ foram preenchidos com textos de fontes desconhecidas, talvez traduzidos de jornais em outros idiomas além do inglês. A OMICS datou suas cópias mutiladas, criando a ilusão de que eram anteriores às publicações originais e legítimas da Elsevier.

Engano de mercado

Por que ter todo esse trabalho? Uma possibilidade é que a OMICS esteja semeando jornais incipientes para atrair clientes pagantes. Além disso, OMICS tem notas de rodapé em alguns artigos plagiados alegando que o trabalho foi apresentado em conferências predatórias, sugerindo falsamente que se trata de eventos profissionais vibrantes. (O julgamento da FTC concluiu que tais conferências são uma fonte significativa de receita para a empresa.)

Há evidências de que essa prática não se limita ao OMICS. Uma equipe da empresa de serviços acadêmicos Cabells International compila listas de editores predatórios e também identificou contrabando em um jornal sequestrado (ou seja, um ‘clone’ ilegítimo de um jornal legítimo). O site do jornal falso apareceu acima de sua contraparte genuína em pesquisas na web, e um artigo que continha mostrava os números das páginas da publicação original, um retângulo branco brilhante onde o nome do jornal original havia sido obscurecido e até mesmo o dedo de alguém segurando um papel que estava sendo fotografado. Outros estudiosos também encontraram evidências de ‘clonagem’ e ‘reciclagem’ para produzir um ‘arquivo fictício’ para periódicos que cobram taxas de publicação3. Nosso trabalho reunindo o banco de dados Lacuna deve ajudar a identificar e rastrear esses tipos de práticas.

Inimigo adaptável

A publicação predatória floresceu à medida que os periódicos mais conceituados cobram taxas de publicação dos autores e os acadêmicos continuam sob intensa pressão para publicar. OMICS é apenas a ponta do iceberg de um modelo de negócios fraudulento em rápida evolução. Seguindo a decisão contra a OMICS, o economista Derek Pyne da Thompson Rivers University em Kamloops, Canadá, observou que havia centenas de editoras ilegítimas menores. “Muitos … para o FTC ir atrás.”

O vice-presidente da India University Grants Commission, Bhushan Patwardhan, advertiu que os editores predatórios são um “inimigo determinado e adaptável”. Se um editor ganha notoriedade, criar novos sites com outras marcas é barato, fácil e lucrativo. Os baixos custos marginais da publicação online permitem que os periódicos fraudulentos operem de qualquer lugar, especialmente onde suas práticas comerciais podem operar impunemente. Para combatê-los, é fundamental saber como atraem pesquisadores e evitam a detecção.

Segundo uma estimativa, índices respeitados como o Web of Science cobrem apenas cerca de um terço das publicações acadêmicas. Dezenas de milhares de periódicos em outros idiomas estão excluídos, assim como títulos que não atendem aos limites de citação. E a presença ou ausência de um periódico nessas bases de dados não é suficiente para distinguir entre editores falsos ou legítimos.

O banco de dados Lacuna visa tabular trabalhos publicados omitidos dos principais sistemas de indexação: isso permitirá a exploração de matizes de legitimidade na comunicação científica e revelará diversos locais de publicação, bem como periódicos ilegítimos, de nicho e emergentes.

Embora possa ser conveniente falar sobre periódicos predatórios e legítimos, essas não são classificações binárias. Existem diferentes tipos e graus de práticas de publicação questionáveis4 . A captura de dados para periódicos que carecem de indexação e metadados permitirá uma análise mais aprofundada por bibliotecários, pesquisadores, administradores e formuladores de políticas. Isso permitirá a compreensão de editores não indexados de vários tons de legitimidade para sustentar insights cienciométricos e informar políticas.

Matar a Hydra de fome

Em vez de cortar repetidamente cabeças para que novas cresçam, a política que combate a publicação predatória deve se concentrar em matar a Hydra de recursos. Aqui está o que recomendamos.

Auditar revisões por pares

 Para determinar se um periódico é predatório, os avaliadores contam com muitas pistas ‘indiretas’, como links mortos em sites, gramática do inglês deficiente ou falta de listagens em instituições como o Comitê de Ética em Publicação (COPE) ou o Diretório de Acesso Aberto Revistas (DOAJ). Mas é o conteúdo da revisão por pares que mostra a seriedade com que os periódicos examinam as submissões. Se os periódicos não estiverem dispostos a publicar suas revisões por pares, elas devem estar sujeitas à auditoria dos financiadores.

Falsificar a revisão por pares em grande escala seria muito difícil para jornais predatórios notórios. Periódicos quase predatórios revelariam avaliações de baixa qualidade ou ignoradas. Periódicos de alto status baseados em reputação também podem ser expostos. Mesmo com maior transparência, demarcar periódicos legítimos e ilegítimos será controverso. No entanto, essa demarcação deve ser baseada nas informações mais relevantes, não em pistas indiretas e sinais de status.

A obrigatoriedade de alguma forma de revisão por pares aberta se encaixa com outras iniciativas para melhorar a ciência por meio do compartilhamento de dados. Abrir a ‘caixa preta’ desmistificaria o processo e forneceria novos insights5 . Compartilhar avaliações cegas por pares online – ou pelo menos confidencialmente com as partes interessadas – permitiria aos financiadores, pesquisadores, bibliotecários e instituições identificar fraudes e encorajar boas práticas em periódicos legítimos.

Vincule a garantia de qualidade ao financiamento

 As universidades modernas têm sistemas para examinar os fornecedores. Eles poderiam expandir esses sistemas para incluir pagamentos a periódicos (tanto com base em assinaturas quanto com taxas de processamento de artigos). Os requisitos podem incluir revisão por pares aberta, bem como a adesão aos Princípios de Acesso Aberto Justo , que estipulam explicações de como as taxas de publicação são gastas. Mandatos de financiadores já estimularam mudanças na publicação acadêmica, como aquelas em torno do acesso aberto impulsionado por requisitos dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, da Fundação Bill e Melinda Gates e do Wellcome.

Em vez de depender de listas de terceiros de periódicos aceitáveis e inaceitáveis (como as listas de Beall ou Cabells, que podem estigmatizar editores bem-intencionados, mas com recursos limitados), os financiadores podem exigir que as taxas de publicação só sejam pagas a periódicos que cumpram regras de transparência.

Isso exigiria que os periódicos mudassem as práticas, mas a digitalização significa que os editores podem coletar e arquivar dados de revisão por pares com mais rapidez do que antes. Financiadores científicos e contribuintes merecem responsabilidade pelos bilhões de dólares investidos anualmente em publicações acadêmicas. Os acadêmicos que decidem para onde enviar o trabalho merecem maior transparência sobre a revisão por pares (por exemplo, conteúdo, taxas de rejeição e tempo médio para decisão). Essa transparência vai matar o Hydra de fome e melhorar os padrões de todos os periódicos.

Apoie periódicos emergentes de boa fé

Diversas plataformas – como o Open Journal Systems do Public Knowledge Project – permitem a disseminação de periódicos a um custo modesto. SciELO (no Brasil) e Redalyc (no México) são exemplos de infraestruturas de publicação acadêmica que fornecem periódicos de qualidade e acesso aberto a acadêmicos e edições em seus idiomas nativos. Nossas análises preliminares descobriram que os acadêmicos da América Latina eram muito menos propensos a publicar em periódicos OMICS do que os da Ásia Central, Oriente Médio e África. Novos critérios de legitimidade podem evitar que periódicos bem-intencionados e emergentes sejam classificados incorretamente. A institucionalização de caminhos para a legitimidade de novos editores diminuiria as barreiras de entrada de acadêmicos e instituições carentes.

Não recompense artigos em jornais predatórios

Muitas universidades e financiadores inadvertidamente alimentam editores predatórios quando dão valor à quantidade e usam métricas mal informadas para avaliar a qualidade. Autores que publicam em periódicos questionáveis abrangem o continuum entre bem-intencionado e ingênuo, desonesto e cúmplice 6 . Informar os pesquisadores – especialmente os pesquisadores em início de carreira – sobre os perigos é essencial; o mesmo ocorre com a revisão de políticas para que os pesquisadores não sejam tentados a comprar publicações “fáceis”.

No entanto, nossa esperança é ir além disso, destruindo o monstro com mudanças sistêmicas no sistema de publicação acadêmica, em vez de colocar cargas de monitoramento extras sobre estudiosos individuais. Se os financiadores e instituições recompensarem periódicos de qualidade transparentes, os periódicos predatórios morrerão de fome.

Nature 598 , 563-565 (2021)

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-021-02906-8

compass

Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado pela Nature [Aqui! ].

Agrotóxicos perigosos têm uma nova onda de novos registros no Brasil

Maior consumidor global: cerca de 2.300 defensivos agrícolas em uso no Brasil. Relatórios de especialistas sobre o aumento das taxas de mortalidade infantil em comunidades que obtêm água em áreas de cultivo de soja
Com a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, agricultores e comunidades indígenas lutam há anos contra o uso de agrotóxicos tóxicos. FONTE:Larissa Silva Santos / MST. LICENÇA:CC BY 3.0 BR
Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília. Em audiência pública da Comissão de Meio Ambiente do Brasil sobre os efeitos do uso de agrotóxicos, renomados cientistas criticaram o aumento do uso de agrotóxicos . Eles também pediram apoio para práticas alternativas de controle de pragas ambientalmente corretas.

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES), por cuja iniciativa foi convocado o debate, destacou que as populações rurais, como pequenos agricultores e comunidades indígenas, não têm como se defender, pois a aplicação de agrotóxicos por aviões ainda é permitida. Ele se referiu ao aumento do uso de agrotóxicos, proibidos na União Européia (UE) e nos Estados Unidos por causa de sua neurotoxicidade. Segundo Contarato, ela própria constatou que os indígenas mato-grossenses sofriam de sintomas como febre, vômito, dor de cabeça e diarreia após a aplicação de agrotóxicos.

Segundo o senador, a explosão do uso de agrotóxicos no Brasil não é acompanhada de aumento da produção agrícola: desde 2010, a venda de agrotóxicos no Brasil aumentou 43% ao ano ; segundo o instituto de estatísticas, a área cultivada para intermediários e as culturas permanentes aumentaram apenas 20% no mesmo período.

Desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o cargo em janeiro de 2019, um número recorde de pelo menos 1.257 pesticidas foi aprovado , dos quais apenas 160 são orgânicos para uso na agricultura orgânica. Já com seu antecessor Michel Temer, a aprovação de novos medicamentos triplicou desde meados de 2016 . Atualmente, cerca de 2.300 pesticidas estão em uso, tornando o Brasil o maior consumidor global.

Muitos desses “novos” produtos foram proibidos na UE há 20 anos, com base em evidências científicas de seus efeitos nocivos para os seres humanos e a natureza. Eles são ignorados pelo governo brasileiro. Por exemplo, 522 dos “novos” produtos recentemente aprovados contêm substâncias ativas, 53 das quais estão proibidas ou nem foram aprovadas na UE.

De acordo com o Atlas “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e as relações com a União Europeia”, o pesquisador exilado Larissa Bombardi 80 por cento de todos os pesticidas vendidos no Brasil são utilizados no cultivo industrial de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar  As consequências para a saúde entre 2007 e 2017 incluíram oficialmente 41.612 intoxicações , incluindo 514 bebês.

No entanto, o número real é muito maior: um novo estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Princeton, da Fundação Getulio Vargas e do Insper , documentou que a disseminação do glifosato nas plantações de soja levou a um aumento de 5% na mortalidade infantil em comunidades que recebem água de áreas de cultivo de soja. Isso equivale a um total de 503 mortes infantis adicionais por ano relacionadas ao uso de glifosato no cultivo da soja.

Falando na audiência, Eloisa Dutra Caldas, professora de toxicologia da Universidade de Brasília, disse que a exposição ocupacional a agrotóxicos é particularmente grave para os pequenos proprietários.

A coordenadora nacional do movimento sem terra MST, Antônia Ivoneide, criticou o fato de muitas lavouras orgânicas de pequenos proprietários terem sido prejudicadas por envenenamento aéreo em monoculturas vizinhas. Isso é economicamente prejudicial para os produtores orgânicos que não podem mais vender suas safras como tais. A pulverização de misturas tóxicas do ar contamina solos, rios e lençóis freáticos a quilômetros de distância.

Mais de 60 por cento das empresas agroquímicas licenciadas no Brasil têm sede na China, que por sua vez é a maior compradora da soja brasileira. Segundo o agrônomo Leonardo Melgarejo, os empresários aproveitaram a situação política e jurídica do Brasil: “Há uma enxurrada de venenos proibidos na UE, que são fabricados com nomes diversos e em combinação com outros nomes sem nenhuma análise Sem ser avaliados, esses dados antigos apareceram como “novos”, como um “conjunto de dados limpo”. A China se beneficia da soja importada, até porque a quantidade de veneno liberada é mil vezes maior do que a que volta para o feijão.

Pesquisadores agroecológicos, como Regina Sambuichi, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, argumentaram na audiência que existem métodos alternativos de controle de ervas daninhas e pragas que são menos tóxicos ou não tóxicos e têm a mesma eficácia. Os únicos interessados ​​na maior utilização dos produtos hoje consumidos na agricultura são, segundo ela, as empresas agroquímicas internacionais.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui! ].