Com a pandemia fora de controle, trabalhadores brasileiros são jogados nos braços da COVID-19

Depois que muito outros milhares de brasileiros morrerem por causa da insensibilidade e irresponsabilidade dos governantes que colocam o lucro acima da vida, lembrem bem dessa imagem de um ônibus carregando trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro. É nesse sistema de transporte público aquém da dignidade dos transportados, que governantes como Marcelo Crivella e Wilson Witzel estão jogando os trabalhadores nos braços mortais da COVID-19.

pandemia isolamento

O fato inescapável é que as elites econômicas do Brasil estão satisfeitas em poder jogar milhões de trabalhadores pobres no cadafalso em nome da manutenção das políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro e do seu ministro banqueiro, Paulo Guedes. É que, ao contrário dos trabalhadores, as elites possuem jatos, helicópteros que podem levar seus membros para o interior de mansões nababescas.

No futuro quando se olhar para essas imagens, poderemos lembrar que em meio a uma pandemia letal e com a curva de contaminação ainda longe do seu pico, os trabalhadores foram sacrificados para que os ricos pudessem continuar suas vidas luxuriantes, como se nada estivesse acontecendo.

Enquanto isso, a COVID-19 segue sua margem implacável: o Brasil possui no momento em números oficiais um total 742.084 de pessoas infectados pelo coronavírus e 38.497 mortos. E isto sem levar a óbvia subnotificação que omite uma quantidade ainda desconhecida de pessoas afetadas pela pandemia.

 

Levantamento global da “Der Spiegel” coloca Brasil no grupo dos países com curva de contaminação em ascensão

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Curva de contaminação do Brasil calculada pelo European CDC entre 18 de março e 07 de junho de 2020.

A prestigiosa revista alemã “Der Spiegel” publicou hoje em seu caderno de Ciências, um levantamento do comportamento da curva de contaminação por coronavírus em escala planetária, e dividiu os países em 4 situações possíveis : Sinken (Queda),  Sinken Stark (Queda forte), Steigen (Ascensão), Steigen Stark  (Ascensão Forte) and Konstant  (Constante).

O Brasil, apesar da tentativa de desaparecimento dos dados que vem sendo feita pelo Ministério da Saúde, aparece no grupo de países que se encontram com a curva de contaminação em ascensão, com uma taxa de 15% de novos casos diários (ver figura abaixo).

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Legendas: Sinken (Queda), Sinken Stark (Queda Forte), Steigen (Ascensão), Steigen Stark  (Ascensão Forte) and Konstant  (Constante).

Por outro lado, é importante notar que outros países como  Inglaterra, Itália, Perú e Alemanha estão colocados como estando com a curva de contaminação em queda. Já Estados Unidos e Rússia estão com a curva em estado constante, o que indica proximidade do pico de contaminação. Já a Índia está no mesmo comportamento do Brasil e a uma taxa maior de novos casos de contaminação.

Um país que não está na figura, mas que aparece na versão completa da tabela, e que apresenta pergil de Ascensão Forte é a Suécia, que foi, por um tempo, apresentada pelo governo Bolsonaro como exemplo de país que não adotou o isolamento social e teve um comportamento considerado excelente.  A questão é que agora a Suécia apresenta um perfil semelhante de ascensão aos apresentados por África do Sul e Equador, dois países com economias de pior nível de desenvolvimento (ver figura abaixo).

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Suécia que não adotou o isolamento social agora é palco de uma forte ascensão dos novos casos de contaminação por coronavírus

Mas voltando ao Brasil, os dados da Der Spíegel mostram que definitivamente não é o momento de governadores e prefeitos adotarem medidas de afrouxamento do isolamento social. É que o ritmo atual de 15% de casos novos pode atingir rapidamente os níveis que estão ocorrendo em países com ritmo de ascensão forte como é o caso da antes tão decantada Suécia.

Por causa de Bolsonaro, comitê liderado pelos democratas no congresso dos EUA se opõe a qualquer acordo comercial com o Brasil

congresso euaO presidente do Comitê de Formas e Meios da Câmara de Deputados, Richard Neal, discute seu pedido ao comissário do IRS Charles Rettig para obter cópias das declarações fiscais do presidente Donald Trump, enquanto fala com repórteres no Capitólio dos EUA em Washington, EUA, em 4 de abril de 2019. REUTERS / Yuri Gripas

WASHINGTON (Reuters) – O Comitê de Caminhos e Meios da Câmara dos EUA disse nesta quarta-feira que se opõe ao plano do governo Trump de expandir os laços econômicos com o Brasil, dado seu histórico de direitos humanos e meio ambiente sob o presidente Jair Bolsonaro.

O presidente do comitê, Richard Neal, e seus colegas democratas no painel disseram ao representante de comércio dos EUA, Robert Lighthizer, em uma carta que o governo de Bolsonaro havia demonstrado “um completo desrespeito aos direitos humanos básicos”.

“Nós nos opomos fortemente a perseguir qualquer tipo de acordo comercial com o governo Bolsonaro no Brasil. O aprimoramento da relação econômica EUA-Brasil neste momento minaria os esforços dos defensores dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais brasileiros para promover o estado de direito e proteger e preservar comunidades marginalizadas ”, escreveram eles.

Autoridades comerciais americanas e brasileiras concordaram no mês passado em acelerar as negociações com o objetivo de concluir um acordo sobre regras comerciais e transparência este ano, incluindo facilitação do comércio e “boas práticas regulatórias”.

Mas os democratas no comitê disseram que o governo de Bolsonaro não pode estar realisticamente preparado para assumir novos padrões de direitos dos trabalhadores e proteções ambientais estabelecidos no acordo comercial EUA-México-Canadá, dado seu próprio histórico ruim sobre direitos humanos e outras questões importantes.

O representante Kevin Brady, o republicano no comitê, disse a repórteres que desconhecia a carta.

Em vez de buscar um acordo comercial com o Brasil, os legisladores democratas disseram que Lighthizer deveria intensificar a aplicação das leis americanas e levantar preocupações sobre as práticas comerciais desleais do Brasil com o governo brasileiro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, desenvolveu um relacionamento próximo com Bolsonaro, um ex-capitão do exército de direita. A Casa Branca disse na semana passada que os Estados Unidos forneceram ao Brasil 2 milhões de doses de hidroxicloroquina para uso contra o coronavírus, apesar das advertências médicas sobre os riscos associados ao medicamento antimalária.

Reportagem de Andrea Shalal e David Lawder; Edição por Richard Chang e Tom Brown

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Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Epidemia de COVID-19 avança de forma heterogênea e ainda sem controle no Brasil

epicovid 2Conclusão é de estudo conduzido por pesquisadores do Imperial College London e apresentado em seminário on-line organizado pela FAPESP. Maior inquérito sorológico realizado no país também aponta discrepância entre estados e que casos reais da doença superam em sete vezes os notificados (imagem:Pixabay)

Por Karina Toledo  para Agência FAPESP

A quarentena decretada em março por prefeitos e governadores de todas as regiões brasileiras promoveu uma queda substancial na taxa de contágio do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Mas, ao contrário do observado em países asiáticos e europeus que também adotaram medidas de isolamento social, o achatamento da curva epidemiológica no Brasil não foi suficiente para fazer o número de casos e de mortes por COVID-19 parar de crescer.

Segundo estimativa feita por pesquisadores do Imperial College London (Reino Unido), no final de fevereiro, o número de reprodução (Rt) do SARS-CoV-2 em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas estava entre 3 e 4. Isso significa que, nesses locais, cada indivíduo infectado transmitia o vírus para mais de três pessoas em média, fazendo a epidemia avançar rapidamente. No início de maio, estima-se que o Rt havia caído para valores entre 1 e 2.

“Houve uma redução acentuada na intensidade da transmissão, o que significa que o isolamento social ajudou a salvar muitas vidas e das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Mas em nenhum estado o Rt caiu abaixo de 1. E somente quando isso ocorrer poderemos dizer que a epidemia está sob controle. O número de infecções diárias cairá significativamente, seguido pelo número de mortes”, disse Thomas Mellan, primeiro autor de um estudo que buscou descrever a evolução da COVID-19 em 16 estados brasileiros por meio de modelagem matemática. Ainda em versão preprint (sem revisão por pares), o artigo foi postado na plataforma medRxiv em 18 de maio.

Na avaliação do pesquisador, a adesão insuficiente da população ao isolamento social parece ser um dos fatores que explicam a menor eficácia dessa “intervenção não farmacológica” na contenção da doença no Brasil. “O motivo exato não está claro, mas ao analisar o Relatório de Mobilidade Comunitária do Google [baseado em dados de localização de usuários em 131 países] observamos que a redução da mobilidade da população brasileira durante a quarentena é menor do que a registrada na maioria dos países europeus”, contou Mellan à Agência FAPESP.

Alternativas metodológicas

A metodologia do estudo foi apresentada por Mellan e por seu colega do Imperial College London Samir Bhat no dia 21 de maio, durante o webinar “COVID-19 – Epidemiological monitoring and measurement of infectivity rates in key countries”, organizado pela FAPESP e transmitido ao vivo pelo canal da Agência FAPESP no Youtube.

Na ocasião, Bhat explicou que o objetivo do trabalho foi estimar a taxa de ataque (número de pessoas infectadas) e o Rt do novo coronavírus no Brasil, usando como referência o número de mortes por COVID-19 confirmado pelo Ministério da Saúde.

“Há várias estratégias para determinar esses indicadores epidemiológicos: vigilância populacional de infecções [testagem em larga escala para detectar casos sintomáticos e assintomáticos], análises genéticas [inferir o Rt com base em linhagens virais sequenciadas], inquéritos de soroprevalência [avaliar por amostragem o porcentual da população que tem anticorpos contra o vírus], estimar com base no número de casos reportados [método fortemente influenciado pela quantidade de testes realizados no local] ou estimar a partir do número reportado de mortes, que julgamos ser a forma mais segura para países como o Brasil, mas não é livre de erro”, ponderou Bhat.

Os resultados do estudo britânico indicam que cinco estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco e Amazonas – concentram 81% das mortes relatadas até o momento no país. Estima-se que, nesses locais, a porcentagem de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 varie de 3,3% (com intervalo de confiança de 95%, podendo variar de 2,8% a 3,7%) em São Paulo para 10,6% (de 8,8% a 12,1%) no Amazonas. O estado com a segunda maior taxa de ataque foi o Pará (5,05%), seguido por Ceará (4,46%) e Rio de Janeiro (3,35%). Entre os 16 estados estudados, Minas Gerais apresentou menor proporção de infectados (0,13%), seguido por Santa Catarina (0,23%) e Paraná (0,25%).

Considerando a margem de erro da pesquisa, os números estimados pelo grupo do Imperial College London para São Paulo e Paraná estão próximos do encontrado nas capitais desses estados por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) na primeira fase do estudo EPICOVID19-BR: 3,1% na cidade de São Paulo e 12,5% em Manaus (AM). Realizado entre os dias 14 e 21 de maio, o inquérito sorológico abrangeu coleta e análise de amostras de sangue de mais de 25 mil pessoas, em 133 cidades. O objetivo foi calcular o porcentual da população que já desenvolveu anticorpos contra o SARS-CoV-2. O trabalho foi coordenado pelo reitor da UFPel, Pedro Curi Hallal, que foi um dos palestrantes do seminário on-line promovido pela FAPESP na semana passada.

Nas principais cidades do Pará, o estudo apontou que o índice de infectados chega a 24,8% na cidade de Breves, 15,4% em Castanhal e 15,1% na capital Belém. Em Tefé, município do interior do Amazonas, a taxa de soroprevalência foi de quase 20%.

No conjunto das 90 cidades em que o grupo do EPICOVID19-BR conseguiu testar mais de 200 pessoas (número mínimo para fazer as análises), a taxa de soroprevalência foi estimada em 1,4%, podendo variar de 1,3% a 1,6% pela margem de erro da pesquisa. Segundo os autores, os resultados não devem ser extrapolados para todo o país, nem usados para estimar o número absoluto de casos no Brasil, pois são cidades populosas, com circulação intensa de pessoas e que concentram serviços de saúde. De qualquer modo, a comparação dos números estimados pelo grupo da UFPel e os números oficiais do Ministério da Saúde aponta que, para cada caso confirmado de COVID-19 nesses municípios, existem sete casos reais na população.

Várias epidemias em uma

Os resultados do EPICOVID19-BR indicam que a região Centro-Oeste é a menos afetada do país até o momento. Nenhum teste positivo foi registrado nas nove cidades estudadas, embora já existam casos e óbitos notificados nesses locais. No Rio Grande do Sul, onde já foram concluídas, entre abril e maio, três ondas de testes sorológicos em nove cidades, a taxa de soroprevalência encontrada também foi baixa: variando entre 0,05% (primeira coleta) e 0,22% (terceira coleta).

A região Norte, por outro lado, tem hoje o cenário epidemiológico mais preocupante do país, segundo a pesquisa brasileira, abrigando 11 das 15 cidades com maior proporção de infectados.

A conclusão vai ao encontro dos resultados do modelo britânico, que mostram uma ampla heterogeneidade nas taxas de ataque dos estados estudados, sendo que as regiões Norte e Nordeste parecem estar em um estágio avançado da epidemia, que, em escala nacional, ainda pode ser considerada incipiente.

“Apesar dessa heterogeneidade, no entanto, em nenhum estado a imunidade de rebanho parece estar próxima de ser alcançada”, afirmam os pesquisadores do Imperial College, referindo-se à taxa necessária de infectados (estimada entre 60% e 70%) para que o vírus não consiga mais se propagar na população. “Dado o estágio inicial da epidemia no Brasil, há perspectiva de agravamento da situação caso outras medidas de controle não sejam implementadas”, concluiu o estudo.

Em busca de soluções

Além de Hallal e dos pesquisadores britânicos, o rol de palestrantes do seminário on-line contou com Cécile Viboud, pesquisadora do Centro Internacional Fogarty, vinculado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, e Michael Levitt, ex-professor da Universidade Stanford (Estados Unidos) hoje baseado em Israel e vencedor do Nobel de Química em 2013. A mediação foi feita pelo professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Rui Maciel.

“Este é o primeiro de uma série de seminários on-line que a FAPESP pretende promover na tentativa de contribuir para a busca de soluções contra a COVID-19, instigando cientistas nacionais e internacionais e trazendo à tona perguntas e discussões relevantes”, afirmou durante a abertura Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fundação.

Em sua apresentação, Viboud apresentou resultados de estudos de modelagem que buscaram avaliar o impacto de diversas intervenções adotadas no início de janeiro para conter a epidemia na China, principalmente nas cidades de Xangai e de Wuhan.

“Uma das primeiras coisas que nos interessamos foi quantificar as mudanças no número de reprodução. Inicialmente, vemos um período de rápido crescimento da epidemia, com Rt de 2,5. Após 23 de janeiro muitas intervenções foram feitas, incluindo forte distanciamento social, e o Rt cai rapidamente abaixo de 1, e assim permanece até agora”, contou a pesquisadora.

Já Levitt, que tem sido um crítico contundente das políticas de isolamento social, argumentou que, ao contrário do que sugerem os principais modelos epidemiológicos – entre eles o do Imperial College London –, a COVID-19 não cresce exponencialmente, ainda que nenhuma medida de contenção seja implementada.

“Este seria um fenômeno realmente aterrorizante, pois saltaríamos de três casos para 1 milhão em um período de duas semanas caso houvesse crescimento exponencial puro”, disse.

Após avaliar as informações sobre os casos confirmados na China, Levitt concluiu que a curva epidemiológica da doença segue o padrão da chamada curva de Gompertz ou função Gompertz, modelo matemático em que o crescimento é menor no começo e no fim do período temporal.

“Essa coisa toda sobre achatar a curva não tem sentido, pois a curva começa a se achatar sozinha desde o primeiro dia da epidemia”, argumentou.

Na avaliação de Hallal, de fato a taxa de crescimento de novos casos e de mortes começou a baixar em países como Itália, Espanha e Inglaterra bem antes de ser atingido o porcentual de infectados necessário para a imunidade de rebanho.

“Com as medidas de isolamento, o vírus acaba circulando menos e o número de pessoas suscetíveis que ele encontra não é tão grande. A boa notícia é que não é preciso haver tanta gente infectada para os casos começarem a cair. Por outro lado, como a maior parte da população ainda não tem imunidade, é bem provável que daqui a algum tempo venha outra onda da doença. Não podemos subestimar o valor do distanciamento social”, disse à Agência FAPESP.

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Este artigo foi originalmente publicado Revista Fapesp [Aqui!].

Governo Bolsonaro brinca com fogo ao provocar a China

guedes china 2O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, está preocupado com possíveis repercussões econômicas e políticas das citações desairosas que foram feitas à China na reunião ministerial de 22 de abril.

No dia 12 de maio escrevi uma postagem neste blog acerca do que entendo ser uma relação esquizofrênica do presidente Jair Bolsonaro e vários de seus ministros com o principal parceiro comercial do Brasil, a República Popular da  China. Eis que ontem o jornal Folha de São Paulo publicou um artigo assinado pelos jornalistas Gustavo  Uribe e Bernardo Caram indicando o medo de que estão possuídos o ministro da Fazenda Paulo Guedes e seus pares militares de ministério em função da possível divulgação de partes ainda sob sigilo do vídeo da malfadada reunião ministerial de 22 de abril. 

guedes china

A razão para as preocupações de Paulo Guedes e seus companheiros seriam as menções nada honrosas que são feitas à China, a começar as que emanaram do próprio Jair Bolsonaro. Do falado pelo ministro Paulo Guedes já se sabe que ele disse que a China seria uma espécie de sujeito rico, mas chato, que se precisa aturar porque ele tem poder de compra. Mas o trecho abaixo indica que Guedes pode ter dito coisa ainda pior.

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Em favor de Guedes há o reconhecimento dele que a China hoje compra 3 vezes mais do Brasil do que, por exemplo, os EUA. Entretanto, é quase certo que a liderança chinesa não recebeu com um mínimo de riso a afirmação de que os chineses são vistos como chatos que precisam ser tolerados porque podem comprar bastante commodities brasileiras (que é isso que o Brasil está vendendo para eles).

Como já afirmei em outras ocasiões não sou um especialista em China, apenas estive lá por duas vezes quando pude interagir com cientistas e autoridades das cidades que visitei (i.e., Yantai e Shenzen).  E posso dizer que os cientistas e líderes chineses são extremamente gentis, mas não são chegados a piadas de mau gosto ou desrespeito ao que eles entendem ser seu direito de ter relações apenas com quem lhes retorna a gentileza. Desta forma, é mais do que provável que o governo Bolsonaro já tenha causado fissuras consideráveis na disposição dos líderes chineses em manter relações comerciais com o Brasil nos níveis atuais. Há que se lembrar que o embaixador da China,Yang Wanming, já mostrou forte exasperação com os filhos do presidente Jair Bolsonaro por afirmações proferidas em relação à pandemia da COVID-19 em março. 

O problema é que desde então, os ataques desferidos de dentro do governo Bolsonaro contra a China não cessaram e parecem ter tido seu ápice na reunião ministerial de 22 de abril.  Por isso, a situação econômica do Brasil que já se encontra na fase do real ser considerado como moeda tóxica (afungentando assim até os especuladores do mercado financeiro), ainda poderá piorar em breve, caso os chineses não esperem o fim da pandemia para dar o troco a Jair Bolsonaro et caterva.

Esta situação toda é causada pelo alinhamento ideológico (para não dizer submissão) do presidente Jair Bolsonaro ao governo de Donald Trump que, curiosamente, decidiu fechar as fronteiras dos EUA aos brasileiros por causa da gestão caótica da pandemia da COVID-19 por parte do governo federal. E durma-se com um barulho desses.

 

Caos ambiental e descontrole da COVID-19 transformam o Brasil e os brasileiros em párias mundiais

Enterros triplicam, e cemitério de Manaus abre valas comuns para ...A transformação do Brasil no principal epicentro da pandemia da COVID-19 terá efeitos devastadores na sua já debilitada imagem internacional

Há algum tempo comecei a alertar que os inúmeros retrocessos ocorridos na frágil governança ambiental construída a duras penas por sucessivas governos iriam transformar o Brasil em uma espécie de pária ambiental no resto do mundo.  Em 2019 vimos uma sucessão de manifestações acerca dos incêndios devastadores que ocorreram na Amazônia graças ao afrouxamento da governança ambiental e das estruturas de comando e controle que impediam o avanço desenfreado de madeireiros e garimpeiros ilegais sobre as florestas protegidas na forma de unidades de conservação e terras indígenas.  

Aos incêndios na Amazônia ainda se somou o alarme no tocante à aprovação frenética de agrotóxicos altamente perigosos pelo governo Bolsonaro, o que resultou na sinalização da Rússia que iria parar de comprar a soja brasileira caso não fosse diminuída a quantidade de resíduos do herbicida Glifosato. Depois disso veio o anúncio da multinacional Nestlé de que suspenderia a compra de café do Brasil pelo mesmo motivo.

pesticidesA mistura de desmatamento descontrolado e uso intenso de agrotóxicos banidos  em outras partes do mundo tende a fechar mercados importantes para as commodities agrícolas brasileiras

Por cima disso ainda tivemos o incidente em Brumadinho com o rompimento de mais uma barragem de rejeitos da mineradora Vale que resultou no maior acidente de trabalho da história do Brasil, e da contaminação do Rio Paraopebas, afluente do Rio São Francisco.  Neste caso, o resultado prático foi o banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o mais rico do mundo, de seu portfólio de investimentos, o que deverá ser seguido por outros fundos de investimentos de porte similar. 

Incidente ambiental causado na mina em Brumadinho resultou no banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o maior do mundo

Pois bem, esses casos de desconstrução da governança ambiental já tinham causado um esgarçamento inédito da imagem do Brasil, e afastado investidores internacionais que retiraram do Brasil algo em torno de US$ 62 bilhões, sendo que apenas na Bolsa de Valores de São Paulo, a fuga de capitais foi de estrondosos US$ 44,5 bilhões.

Se tudo ia morro abaixo como fruto de ações do governo Bolsonaro que, para dar o devido o retorno aos segmentos que financiaram a eleição de Jair Bolsonaro, ignoraram a mudança de postura dentro das economias desenvolvidas em relação ao descuido com o meio ambiente, a coisa agora tomou area drásticos com a forma pífia de enfrentar a pandemia da COVID-19.

A verdade é que, a despeito de nuances aqui e ali, a imensa maioria dos governos mundiais adotou os protocolos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no tocante às respostas a serem dadadas para combater a COVID-19. O Brasil, graças à forma não-científica e atabalhoada que está sendo empregada por Jair Bolsonaro e seus ministros do núcleo duro do seu governo, agora é visto como um dos poucos países (senão o único) onde a pandemia fugiu do controle do governo central. E isso por causa dos próprios vícios do chefe do executivo. Saliente-se que a coisa ainda poderia estar pior se não fosse pela ação de governadores e prefeitos que têm, limitadamente, se insurgido contra a vontade do presidente Bolsonaro, e adotado as sugestões da OMS.

China encara a fatura econômica de vencer o vírus | Economia | EL ...As ações do presidente Jair Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19 têm contribuído para destruir significativamente a imagem do Brasil no exterior

Mas agora o estrago na imagem do Brasil já se tornou evidente, e o que se vê são os governos estrangeiros tentando esvaziar suas embaixadas em Brasília. E esse desdobramento terá consequências econômicas sérias, pois se os representantes desses governos forem removidos do território brasileiro por medida de segurança, o mesmo se dará com os dirigentes das empresas multinacionais. E, pior, isso implicará em mais fuga de capitais, agravando o desequilíbrio do câmbio, o que poderá provocar uma série de desabastecimentos, já que o Brasil de depende de insumos importados para quase tudo o que é produzido por nossa indústria, a começar pela farmacêutica.

Finalmente, haverá ainda consequências sanitárias para os brasileiros que ainda conseguirem viajar para fora do país após a pandemia, seja a turismo ou a trabalho. No momento, qualquer que chega na Europa tem que passar por uma quarentena de duas semanas. Esse prazo será provavelmente será aumentado, dependendo da progressão do número de contaminados e mortos pela COVID-19 nos próximos meses. No momento, já temos mais de 220 mil casos oficiais de contaminados e beiramos a marca de 15.000 mortos Mas esses valores são claramente subestimados, e se estima que a pandemia só regredirá a partir de meados de agosto. Até lá, dependendo do que for feito pelo governo Bolsonaro, o estrago na imagem do Brasil será irreversível, e seremos objetivamente transformados por um bom tempo em párias como país e como indivíduos, e deveremos ser tratados como uma espécie de casta de intocáveis.

Enquanto isso o desmatamento avança na Amazônia (o que causará incêndios ainda maiores dos ocorridos em 2019), o ministério da Agricultura continua aprovando agrotóxicos altamente perigosos como o Fipronil e o Dicamba, e o presidente Jair Bolsonaro insiste em colocar os brasileiros de volta em postos de trabalho inexistentes,  de preferência à base de cloroquina.  O único que, apesar de “surpreso”, parece já ter aprendido alguma coisa nessa situação toda foi o Sr. Junior Durski, da hamburgueria Madero, que previu que a COVID-19 causaria “apenas” algo em torno de 7.000 mortos. É que seus restaurantes reabertos continuam entregues às moscas por causa do medo dos clientes de se contaminarem enquanto mastigam seus sanduíches caros.  A Durski, eu digo apenas….  descobriu o elementar, meu caro Watson!

Brasil deve registrar quase 90 mil mortes por Covid-19 até agosto, diz estudo nos EUA

O Brasil deve registrar cerca de 88,3 mil mortes por Covid-19 até o dia 4 de agosto deste ano. O número está no novo relatório do Instituto para Métrica e Avaliação de Saúde (IHME, na sigla em inglês) da Escola de Medicina da Universidade de Washington, divulgado nesta quarta-feira (13). 

hospital santo andréOs pacientes afetados pelo coronavírus são tratados em um hospital estabelecido em uma academia em Santo André, São Paulo, Brasil, em 11 de maio de 2020. AFP

Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres

O documento inclui ainda projeções para oito estados do país, os primeiros a registraram mais de 50 casos. São Paulo deve ser o ente da federação mais afetado, com quase 39 mil óbitos e o Paraná o mais poupado, com menos de 250.

O cenário pode ser mais ou menos desolador, a depender dos desdobramentos desta crise no país. A projeção é feita com base em uma espécie de fotografia do momento.

Como esses números são calculados por estatísticas matemáticas e consideram uma série de variáveis que serão atualizadas frequentemente, eles levam em conta uma faixa de flutuação. Isso quer dizer que, na melhor das hipóteses, o país poderá contar neste período indicado pelo estudo 30,3 mil mortos pelo novo coronavírus, e 193,8 mil, na pior.

“Desafio assustador”

“As projeções do IHME para o óbitos no Brasil indicam claramente que sistema de saúde público do país está enfrentando um desafio assustador”, disse o diretor do instituto, Christopher Murray. “O nosso objetivo ao anunciar esses dados é informar às autoridades que determinam as políticas para que possam agir e se mobilizar para lidar com a Covid-19”, completou.

Murray afirma que outros estados do país devem ser acrescentados ao estudo e reitera que as estimativas do IHME serão revistas na medida em que novos dados forem incorporados e analisados pelas pesquisas. O Brasil teve 11.519 mortes pelo novo coronavírus contabilizadas oficialmente até terça-feira, quando o número de casos chegava a 168.331.

O estudo destaca ainda a preocupação com a falta de recursos necessários para que o país possa lidar com a pandemia. Estima que o Brasil tem um déficit de mais de 3.000 leitos de tratamento intensivo, número que deve crescer ao longo da crise. A falta de leitos deve afetar os estados de maneira diferente. Segundo o IHME, só no Amazonas faltavam 1.000 leitos de tratamento intensivo até terça-feira, assim como em São Paulo.

O documento também apresenta estimativas para os outros países da região mais afetados pelo vírus: México (6,8 mil; com faia de 3,6mil a 16,8 mil) Peru (6,4 mil; com faixa de 2,7 mil a 21,7 mil) e Equador 5,2 mil; com faixa de 4,8 mil a 6,1 mil). Feito com a ajuda da Organização Panamericana de Saúde e a rede de colaboradores do IHME, que já somam mais de 5 mil pessoas em 150 países.

“É importante para os países e regiões olharem com atenção a capacidade dos hospitais, recursos necessários, e a atual trajetória dos casos do novo coronavírus. A epidemia na América Latina está acontecendo depois da Europa. É hora de sermos vigilantes, acompanhar os dados e implementar as medidas de saúde pública relevantes”, disse o diretor-assistente da organização, Jarbas Barbosa.

Projeções

O instituto ainda atualizou as projeções que já havia feito para os óbitos nos Estados Unidos em 147 mil. Trata-se de 10 mil mortes a mais do que esperava há alguns dias.

As projeções do IHME de mortes por Covid-19 em oito estados brasileiros*:

· São Paulo: 36.811 óbitos (Faixa de 11.097 a 81.774)

· Rio de Janeiro: 21.073 óbitos (Faixa de 5.966 a 51.901)

· Pernambuco: 9,401 óbitos (Faixa de 2.468 a 23.026)

· Ceará: 8.679 óbitos (Faixa de 2.894 a 18.592)

· Maranhão: 4.613 óbitos  (Faixa de 868 a 12.661)

· Bahia: 2.443 óbitos (Faixa de 529 a 8.429)

· Paraná: 245 óbitos (Faixa de 170 a 397)

Fonte: IHME (*os dados são projetados até 4 de agosto de 2020)

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

O destino do Brasil como pária global no mundo pós-pandemia

bolsonaro pariaA combinação entre o desmanche da governança ambiental com o tratamento dado à pandemia da COVID-19 pelo governo Bolsonaro colocará o Brasil na posição de pária global

Venho há algum tempo insistindo na tese de que o Brasil, graças ao processo de desmantelamento da precária governança ambiental comandado pelo governo Bolsonaro, se encaminhava para se tornar um pária ambiental que, por causa disso, seria alienado dos principais fóruns e decisões políticas de alcance global. É que a estas alturas do campeonato e com o conhecimento científico acumulado, existe um certo acordo sobre a necessidade de se rever as formas de apropriação do ambiente natural. 

A eclosão da pandemia da COVID-19 acabou colocar ainda mais pressão para que práticas dominantes na produção e consumo em escala global.  É que qualquer um que se aventure a ultrapassar o limiar das “fake news” (notícias falsas) que, repercutem o negacionismo em relação à gravidade da pandemia, verá que já está explicitado a ligação entre a disseminação do “novo” coronavírus e a destruição de ecossistemas naturais para a implantação de grandes áreas de monoculturas e suas co-irmãs, as mega fazendas industriais.

coronavirusA forma do governo Bolsonaro tratar a pandemia da COVID-19 causa espanto no resto do mundo. E o pior da pandemia ainda nem começou….

A junção de uma mudança paradigmática entre os mecanismos dominantes de apropriação da Natureza com o reconhecimento de que a COVID-19 prosperou tão eficazmente justamente por causa da degradação ambiental deverá gerar uma pressão global para que acordos multilaterais sejam firmados para diminuir a velocidade da destruição de grandes ecossistemas naturais, como é o caso das florestas tropicais. Aliás, isto acabará ocorrendo também porque já se prognostica que a erradicação dessas florestas poderá contribuir para a ocorrência de pandemias ainda mais graves.

Um exemplo de como essa pressão irá ocorrer foi a recente  da Assembleia Geral de acionistas da mineradora Vale que decidiu retirar todos os pedidos para mineração em terras indígenas na Amazônia que se encontravam sob análise pela Agência Nacional de Mineração. Essa decisão decorreu da pressão externa, especialmente daqueles grupos conhecidos como “acionistas críticos”. Interessante lembrar que a empresa alemã Siemens já havia informado em agosto de 2019  que não venderia equipamentos para serem usados em áreas de mineração dentro de terras indígenas no Brasil.

Mas a condição de pária global a que o Brasil vinha se candidatando a ocupar deverá levar um empurrão adicional  para ser reconhecido como tal pela forma irresponsável com que o governo Bolsonaro vem tratando a pandemia da COVID-19.   Não é por acaso que grandes veículos da mídia internacional estão colocando o presidente Jair Bolsonaro na companhia nada ilustre de um pequeno número de governantes que negam a gravidade da pandemia (os outros três negacionistas do coronavírus são Gurbanguly Berdymukhamedov (do Turcomenistão), Daniel Ortega (da Nicarágua) e Alexander Lukashenko da Bielo-Rússia). Esse grupo de negacionistas recebeu o nada elogioso rótulo de “Aliança das Avestruzes” pelo Financial Times.

aliança das avestruzesJair Bolsonaro, Alexander Lukashenko, Daniel Ortega e Gurbanguly Berdymukhamedov, grupo de líderes negacionistas, que formam a “Aliança das Avestruzes”. Fonte: Financial Times

E o pior é que o final previsto para o período mais duro da pandemia da COVID-19 (para a maioria dos analistas isto ocorrerá no Brasil no final de junho) irá coincidir com o início de um grande de queimadas na Amazônia, a qual deverá superar os números recordes alcançados em 2019. Me arrisco a dizer que a combinação entre o gerenciamento desastroso que o governo Bolsonaro está dando à COVID-19 combinada com as imagens de grandes áreas em chamas na Amazônia será uma espécie de “last straw” (ou a gota que fará o balde transbordar) da falta de paciência de grandes investidores e agentes governamentais com o Brasil.  Por isso, mesmo pesando os grandes interesses econômicos envolvidos,  o primeiro acordo econômico que deverá ser bombardeado será o firmado entre o Mercosul e a União Europeia.  A estas alturas do campeonato, esse acordo é o que se chama em inglês de um “lame duck” (ou pato manco em português), que não terá muita chance de se tornar realidade.

Por isso tudo é que me arrisco a dizer que o Brasil sairá muito mais isolado econômica e politicamente do que entrou na pandemia.  A ver!

 

Agrotóxicos, câncer, padrões duplos, e o que a Bayer tem a ver com os incêndios na floresta amazônica

AVIÃOFoto: Rafi Bablan, CC BY 2.5

Por Christian Russau, ativista de Direitos Humanos e membro do conselho da Ethical Shareholders da Alemanha

Como a Bayer se aproveita das novas leis de participação acionária alemãs em tempos de distanciamento social da Corona, para nós, que somos ativistas de direitos humanos, este ano não é possível participar ativamente da AGM da Bayer para criticar a diretoria da Bayer  diretamente como fizemos nas últimas décadas. Mas, no entanto, a nossa crítica é mais importante do que nunca. Então, aqui vamos nós.

A Bayer vende agrotóxicos no Brasil que são proibidos na União Europeia (UE). Fiz duas investigações, uma em 2016 e a segunda em 2019.

A investigação em 2016 mostrou que a Bayer estava vendendo oito substâncias ativas de agrotóxicos no Brasil em 2016 que não são autorizadas a nível da UE, como afirma o Banco de Dados de Agrotóxicos da UE. Em 2016, as substâncias proibidas na UE que eram vendidas no Brasil eram as seguintes:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Dissulfotom
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Ioxinil
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe

Mas em 2019, o número havia aumentado para 12, como uma nova investigação em 2019 mostrou:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Etiprol
  • Etoxissulfuron
  • Fenamidona
  • Indaziflam
  • Ioxinil
  • Oxadiazam
  • Propinebe
  • Thidiazuron
  • Tiodicarbe
  • Tirame

Isso significa que, entre 2016 e 2019, houve um aumento de 50% nas vendas de produtos agroquímicos da Bayer no Brasil, proibidas na UE.

Isso me lembrou do ano de 1988, quando o então CEO da Bayer, Hermann J. Strenger, se recusou a admitir que a Bayer estava usando padrões duplos. Strenger disse na época: “Nós fazemos os mesmos requisitos de nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão, como [na Alemanha].” Mas ele admitiu: “De fato, no Brasil, por exemplo, não tem leis como na República Federal da Alemanha”.

Então, 32 anos depois, a Bayer ainda vende no Brasil alguns herbicidas, inseticidas e fungicidas com ingredientes ativos que são proibidos na Europa. Então, como seria possível não falar de padrões duplos?

Por que estamos focando no Brasil?

Por que colocamos nosso foco no Brasil? Porque o Brasil está no centro do interesse de crescimento da Bayer. O CEO da Bayer, Werner Baumann, disse na Assembleia Geral Anual de 2018 que o interesse da Bayer em adquirir a Monsanto seria no setor de sementes e no crescimento desse setor: vamos analisar mais de perto esse tipo de crescimento da empresa. O tipo de semente da Bayer (e agora também a antiga Monsanto ”) geralmente é geneticamente modificado, e isso acompanha o crescimento de venenos agrícolas. Se juntarmos essas três variáveis ​​- sementes geneticamente modificadas, venenos agrícolas e crescimento – juntas, apenas um denominador comum pode ser encontrado em todo o mundo: o Brasil. Essa ainda é a triste realidade, e com um governo de extrema direita como o de Jair Bolsonaro está ficando cada vez pior. Somente em 2019, em um ano de governo, o governo de direita em Brasília liberou mais 503 agrotóxicos

Nos EUA, vemos os processos legais em andamento contra a Bayer/Monsanto, na Europa as pessoas estão cada vez mais querendo se livrar da Glyphosate & Co, na Índia, mais e mais estados estão se declarando “livres de agrotóxicos”, e a China está mostrando preocupação com a contaminação por agrotóxicos. Então: para a Bayer, só resta o Brasil. E há uma razão para isso: “503 novos agrotóxicos, o que significa – como um cientista conhecido  da FIOCRUZ colocou: “O Brasil se tornará um paraíso para os venenos agrícolas”. Já é.

E a Bayer continuará participando, talvez mais do que nunca, na venda e distribuição de agroquímicos altamente tóxicos no Brasil. Pode ser algum tipo de tática de sobrevivência suicida diante da aquisição de vários bilhões de dólares da Monsanto, mas a Bayer buscará crescimento a qualquer preço. Qualquer veneno que possa ser vendido será vendido.

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra

O Brasil é o inferno dos agrotóxicos na Terra. Vejamos os fatos: o Brasil é o líder mundial no uso de venenos agrícolas. 7,3 litros de veneno agrícola por cidadão brasileiro por ano representam a média nacional. A província transgênica de Mato Grosso detém o recorde mundial: no estado brasileiro de Mato Grosso são aplicados 13,3% (140 milhões de litros) de todos os agrotóxicos usados ​​no Brasil.  Apenas no pequeno município de Sapezal, no estado de Mato Grosso, em 2012, nove milhões de litros de venenos agrícolas foram utilizados.  Em Sapezal, o uso de per capita de agrotóxicos é de 393 litros, 52 vezes superior à média nacional de 7,3 litros.

Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso constatou que houve 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático em 13 municípios (64.746 habitantes de acordo com o último censo de 2015), nos quais foram cultivados soja, milho e algodão entre 1992 e 2014. Em comparação, nos 13 municípios comparáveis ​​(219.801 habitantes de acordo com o último censo de 2015), onde o turismo predominou em vez da agricultura, o número de casos de câncer foi de apenas 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes em municípios predominantemente agrícolas, enquanto em municípios predominantemente turísticos, há uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes. Assim, em municípios onde os agrotóxicos são fortemente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior em um fator de 8.

No ano passado, perguntei ao CEO da Bayer Baumann: quanto remédio anticâncer (volume e vendas) sua empresa farmacêutica enviou ao estado de Mato Grosso em 2016 e 2017? Infelizmente, não recebi uma resposta.

Incêndios florestais da Amazônia na floresta tropical

O mundo teve que testemunhar em 2019 uma temporada de incêndios na floresta amazônica com um enorme aumento ano a ano nos incêndios ocorridos na floresta amazônica. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil registrou um aumento de 77% ano a ano. No final de agosto, o céu acima da cidade de São Paulo escureceu durante o dia, apesar de estar a milhares de quilômetros da Amazônia. O governo de Bolsonaro fez sua parte no jogo horrível. Mas e a Bayer?

Em setembro de 2019, a Bayer declarou participar da chamada “Coalizão Brasileira de Clima, Floresta e Agricultura”.  A Bayer declarou então: “Estamos adotando uma posição clara para exigir a aplicação de leis de proteção florestal e impulsionar a intensificação sustentável da agricultura”. A Bayer argumenta que o princípio a ser adotado seria: “Quanto mais bem-sucedidos formos em intensificação sustentável, menor pressão sobre novas extensão do uso da terra”. Traduzindo isso para o discurso do mundo real: mais agrotóxicos da Bayer em terras usadas agrícola e, em seguida, a Amazônia seria salva.

Curiosamente, é preciso lembrar que os municípios da Amazônia brasileira com as maiores taxas de desmatamento ilegal são os mesmos com o maior aumento no uso de venenos agrícolas.

Então, Bayer, pare de espalhar besteiras, como uma empresa de ciências como você deveria saber muito melhor … Ou é mais uma decisão estratégica?

No Paraguai, o movimento anti-agrotóxicos e as comunidades indígenas têm um slogan popular: Ñamosêke Monsanto! – É a língua guarani e traduz para “Fora Monsanto!” O mesmo se aplica naturalmente à Bayer.

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Este artigo foi inicialmente publicado em inglês pela Association of Ethical Shareholders [Aqui].

Fundação Rosa Luxemburgo lança relatório sobre comércio global de agrotóxicos perigosos por multinacionais alemãs

Agrotóxicos perigosos da Bayer e da BASF: um comércio global com padrões duplos

agrotóxicos cover

As duas empresas agroquímicas alemãs são responsáveis ​​por sérios problemas de saúde entre trabalhadores agrícolas na África do Sul e grupos indígenas no Brasil.

Os gigantes agroquímicos alemães Bayer e BASF estão entre os quatro maiores produtores de ingredientes ativos do mundo. Em um novo estudo internacional, a Rosa-Luxemburg-Stiftung, INKOTA-netzwerk e MISEREOR, juntamente com a rede brasileira Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e a organização sul-africana Khanyisa, documentam como as duas empresas comercializam um grande número de ingredientes ativos na África do Sul e no Brasil com suas próprias marcas, bem como em produtos de fabricantes nacionais que não são aprovados na UE. A Bayer possui pelo menos sete ingredientes ativos que não são aprovados na África do Sul e a BASF em pelo menos quatro. No Brasil, as duas empresas agroquímicas comercializam pelo menos 12 ingredientes ativos que não são aprovados na UE. Sete dos ingredientes ativos no mercado nos dois países foram explicitamente proibidos na UE devido a riscos ambientais e à saúde. Trata-se de um negócio perverso, com padrões duplos, que deve ser claramente rejeitado da perspectiva dos direitos humanos.

O estudo examina os casos em que a aplicação de pesticidas da Bayer e da BASF levou a envenenamentos graves e outras doenças entre trabalhadores agrícolas na África do Sul e grupos indígenas no Brasil. Nas fazendas de citros na África do Sul, o envenenamento durante a pulverização resultou em hospitalização dos trabalhadores. No Brasil, vilas inteiras são fortemente envenenadas pela aspersão de agrotóxicos por aviões, e um grande número de ingredientes de agrotóxicos é liberado nas águas subterrâneas. No caso de uma comunidade indígena em Tey Jusu, um tribunal brasileiro confirmou que os habitantes foram envenenados por um avião pulverizando um produto da Bayer.

Entre outras descobertas, os autores do estudo concluíram que o governo alemão deveria proibir a exportação de ingredientes ativos que não são aprovados na UE. Os governos da África do Sul e do Brasil, por sua vez, devem aprovar uma lei que proíba a importação de ingredientes ativos e agrotóxicos que não são aprovados na UE ou em outros países.

Quem desejar baixar o relatório completo sobre os agrotóxicos perigososo da Bayer e da Basf, basta clicar Aqui!.

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Este texto foi originalmente publicado em inglês pela Rosa Luxemburg Stiftung [Aqui!].