Cubanos têm despedidas de heróis nos grotões que os médicos brasileiros desprezam

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O vídeo abaixo mostra a despedida do médico cubano Ramon Reyes, que participava do programa Mais Médicos e que atendia há cinco anos no distrito de Batinga que faz parte do município de Itanhém, extremo sul do estado da Bahia.  As cenas mostram o trajeto do Dr. Reyes pelas ruas pobres de Batinga no último domingo (2/12) pouco antes de deixar o Brasil por conta da decisão do governo de Cuba frente às ameaças do presidente eleito.

As cenas de Batinga estão se repetindo nas milhares de cidades e distritos em que os médicos cubanos foram, em alguns casos, os primeiros a sentar pé para tratar dos segmentos mais pobres e mais socialmente marginalizados da população brasileira.

Essas despedidas que se assemelham ao que normalmente se concede aos que são considerados “heróis” do povo brasileiro deveriam estar sendo mostradas nas telas de TV e colocadas em lugares destacadas das capas dos principais jornais brasileiros. É que este movimento, que agora é de tristeza, expressa o combustível para reações fortes ao projeto ultraneoliberal do governo brasileiro e seus “Chicago boys” (que, aliás, de boys não tem nada).

Entretanto, como a mídia corporativa não está interessada em mostrar essas cenas de mobilização social que se expressam na forma de despedidas emocionadas, é quase certo que num futuro não muito distante muitos fiquem surpresos com um levante social que, supostamente, ninguém viu de onde veio. É que no desmantelamento do “Mais médicos” está expresso com despudor toda a indiferença das elites brasileiras frente às reais necessidades dos milhões de pobres criados pelo sistema de concentração de riqueza existente no Brasil.

É importante notar que, ao contrário de algumas previsões, a quase totalidade dos médicos cubanos está retornando para o seu país onde não deverão ficar muito tempo, pois já existem outros países interessados na “expertise” deles, a começar pelo México, agora governado pelo presidente Andrés Manuel Lopez Obrador.

Finalmente, a classe médica que não reclame se, em vez de receber o tratamento dado aos médicos cubanos, veja o antagonismo crescer em relação a ela. É que a população, que agora ficará desassistida pela partida dos cubanos, certamente não esquecerá o tipo de pressão que foi exercido para impedir a continuidade de um programa que levou atendimento de saúde a quem nunca tinha visto isso antes. 

Ministro das Relações Exteriores de Cuba dá dura resposta a Bolsonaro sobre a questão dos “médicos escravos”

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Após indicar o deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), que possui várias pendências judiciais do tempo em que secretário de saúde em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, por suposta fraude em licitação, tráfico de influência e caixa 2 [1], o presidente eleito foi alvo de uma duríssima declaração do ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez (ver vídeo abaixo) 

Quem se der ao trabalho de ouvir todas as ponderações de Bruno Rodriguez sobre a conjuntura que se abre no Brasil após a saída dos profissionais médicos cubanos do programa “Mais médicos” verá que ele está muito bem informado sobre o que se passa por aqui, especialmente em termos da ocorrência de trabalho escravo.

Agora, convenhamos, quem será que estará bem mais suprido de médicos e, sim, de ministro de relações exteriores a partir de 1 de janeiro?

Finalmente, nas declarações do ministro de relações exteriores de Cuba fica mais uma vez demonstrada a máxima de quem fala o que quer, ouve o que não quer. E se depender do que venho acompanhando na Europa, posso afiançar que a vergonha brasileira só está  começando.


[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/11/20/bolsonaro-anuncia-deputado-mandetta-como-futuro-ministro-da-saude.ghtml

Sicko, SOS Saúde: aquilo no que querem nos transformar já é realidade nos EUA

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Ninguém mais do que o cineasta Michael Moore já nos mostrou o que aconteceu com a saúde nos EUA a partir da extrema privatização dos serviços hospitalares.  Moore também nos mostrou a contrapartida que aparece sob a forma da saúde pública oferecida em Cuba.  

A extrema contradição entre os dois países foi mostrada ao mundo no filme “SiCKO” que foi lançado em 2007 e até hoje expõe uma realidade que apenas se aprofundou na última década, com mais cidadãos estadunidenses sendo privados de serviços básicos de saúde.

Para quem nunca assistiu ao SiCKO, posto abaixo o filme na íntegra e dublado em português. Para quem não tiver tempo ou vontade de assistir  o filme todo, sugiro que se assista a partir de 1:44:00. 

Mas atenção: se depender dos cortes impostos pelo novo teto constitucional imposto por Michel Temer (com o voto do presidente eleito) e as sinalizações de que os cortes não só serão mantidos, como também aprofundados.

Daí que não é difícil ver que o nosso futuro será cada vez menos parecido com o presente dos cubanos. E  isso ficará ainda mais fácil de ver quando todos os mais de 8.000 cubanos do “Mais médicos” tomarem o rumo de casa.

Fidel Castro, da vida para a história

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Eu não sou o que pode se chamar um fã de Fidel Castro (aliás fã dele era meu pai que faleceu em 2002), pois guardo com ele grandes divergências aos rumos dados à gloriosa revolução cubana. Mas como negar o seu papel histórico na luta pela soberania dos povos do mundo?

Fidel Castro continuará, como Che Guevara continua sendo, a ser um ícone para todos aqueles que desejam um mundo menos injusto e mais fraterno. E isto não é pouco num mundo onde a decomposição galopante do sistema capitalista nos empurra cada vez mais para perto da bárbarie que foi prevista por Friederich Engels e Rosa de Luxemburgo.

Alguns cronistas da mídia corporativa já anunciam que a morte de Fidel Castro significa a morte da esquerda. Esse tipo de correlação é mais do que esperado, pois a morte de Fidel era esperada e ansiada por quase seis décadas por tudo o que ele representou, representa e representará.  Esses anúncios fúnebres nada mais são do que desespero pela agonia em que o capitalismo se encontra e da qual não tem como se recuperar.

Mas nada disso mais importa para Fidel que saiu da vida e para história. E da história nenhum cronista mesquinho poderá retirá-lo.

Uma última nota para expressar o que Fidel Castro era. Em vez de ser de ter seu cadáver circulado por Cuba para ser objeto de adoração imposta ou voluntária, Fidel Castro determinou que seu corpo fosse cremado.  Fecha o pano.

 

Obama vai para Cuba e rouba um dos últimos bordões da direita brasileira

Enquanto no Brasil a direita está envolvida numa tentativa de golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, as cenas vindas de Havana, mostram o presidente estadunidense marchando célere pelas ruas molhadas da capital cubana. 

Mas o que Barack Obama não sabe é que com essa histórica visita, a primeira de um presidente à ilha em 88 anos, é que ele está roubando um dos maiores, e certamente últimos, da direita brasileira, o “Vai para Cuba!”.

É provável que depois da ida de Obama a Cuba, os líderes da  tentativa da derrubada de Dilma vão querer ir a Cuba, nem que seja para fazer um pit stop antes de se dirigirem para Orlando onde irão visitar o Pateta, símbolo apropriado para a visão de país que temos visto sendo apresentada nas  raivosas manifestações que a direita brasileira vem realizando desde que Dilma Rousseff tomou posse no ano passado. 

Abaixo algumas imagens da visita de Obama a Cuba.

Vai para Cuba? O Obama foi!

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Durante as manifestações pró-impeachment da presidente Dilma Rousseff um slogan repetido à exaustão pelos presentes para expressar sua suposta oposição a um governo supostamente interessado em instalar o comunismo no Brasil era “vai para Cuba”.

Pois bem, hoje (20/03/16) Barack Obama se torna o primeiro presidente estadunidense a visitar a ilha caribenha desde a guerra que derrubou o ditador e aliado Fulgêncio Batista. Essa visita é um passo a mais na normalização das relações diplomáticas e comerciais entre os dois países vizinhos.

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Agora, sem discutir as implicações futuras dessa reaproximação para a revolução cubana, eu fico imaginando a cara dos manifestantes da elite brasileira que devem estar babando de vontade de fazer a mesma coisa que Obama fez, qual seja, visitar um dos mais belos países da Terra.  Mas quem manda ficar defendendo ideias e slogans anacrônicos!

Liberdade de expressão só é boa em Cuba?

Depois do reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, há uma onda de artigos e outros tipos de materiais avaliando o efeito que esta medida trará na liberdade de expressão na ilha governada por um partido dito comunista. Como sou de uma linha ideológica que teve militantes mortos ou aprisionados pelo governo liderado por Fidel Castro, não compartilho da ilusão de que lá se vive uma democracia proletária. Aliás, desde que Fidel decidiu abraçar o modelo inventado por Josef Stálin não haveria porque esperar que a ação do Partido Comunista Cubano se assemelhasse aos primeiros anos de governo revolucionário do Partido Bolchevique na Rússia revolucionária.

Mas  por que tantos, inclusive alguns militantes supostamente de esquerda, se preocupam tanto com a liberdade de expressão em Cuba, se está mais do que demonstrado que esse fetiche da democracia burguesa tampouco existe nos chamados países do capitalismo central? Além disso, depois das revelações de Edward Snowden, e da ação do governo britânico contra o jornal The Guardian que as publicou, ficou mais do que claro o tamanho da liberdade que se tem para expressar desacordo contra os governos centrais dentro de seus próprios limites territoriais.

E no Brasil, esse fetiche só serve mesmo para alimentar as paranoias esquisitas das viúvas da ditadura militar de 1964 que creem fielmente que hoje vivemos uma ditadura bolivariana e demandam a volta dos militares ao poder. De resto, liberdade de expressão não é algo tangível ou sequer alcançável num país onde persistem diferenças abissais entre ricos e pobres até que se resolva esse fosso.

Enquanto essa situação perdurar liberdade de expressão continuará sendo algo que a mídia corporativa alardeia toda vez que quer constranger algum governante para depois exigir gordas verbas publicitárias em troca de um tratamento mais ameno. Basta ver o que vem acontecendo com os diferentes governos comandados pelo dupla PT-PMDB para ver como a mídia corporativa usa e abusa de sua liberdade de se expressar, sem que se preocupe em, por exemplo, pagar os tributos devidos ao fisco nacional.

Assim, quem quiser realmente se preocupar com a liberdade de expressão que gaste suas energias no Brasil, e deixemos os cubanos cuidarem da deles.