Amazônia em chamas, devastadora matéria mostra que o “The Intercept” não é só #VazaJato

deforestation 1Na fronteira da reserva indígena dos Jupaús, a floresta encontra porções de terra ocupadas por gado. Sem a vegetação nativa, a solo superficial da região seca e se esgota rapidamente. A maioria das pastagens é degradada e abandonada dentro de 10 ou 15 anos.  Foto: Gabriel Uchida Fonte: The Intercept

Enquanto causa sensação e gera júbilo e raiva com sua série de reportagens sobre as entranhas da operação “Lava Jato” (agora corretamente rebatizada de #VazaJato), o site “The Intercept”, em colaboração com o Pulitzer Center, acaba de lançar uma devastadora reportagem sobre a guerra promovida pelo governo Bolsonaro contra as florestas da Amazônia e dos povos que vivem em seu interior.

Lançada em português e inglês, a matéria faz uma análise ampla sobre as origens do atual ciclo de devastação e explica com dados irrefutáveis alguns dos meandros que estão determinando o avanço da franja de desmatamento no interior da Amazônia brasileira.

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Mas a reportagem assinada por Alexander Zaitchik também auxilia a entender o ódio incontrolável que é mostrado contra os povos indígenas que resistem aos planos de devastação que estão sendo facilitados pelo desmanche das estruturas de governança e pelo desmantelamento dos órgãos de manejo e proteção ambiental sob o governo Bolsonaro. O exemplo dos Apurinãs e dos Uru-Eu-Wau-Wau que são citados como exemplos dessa resistência deverá se repetir em outras partes da Amazônia, pois os povos indígenas sabem que não irão sobreviver sem as florestas de onde tiram sua reprodução social, cultural e econômica.

urueuwauwauMembros da tribo Jupaú, incluindo Arima e seu filho, Awapu, fazendo uma ronda para detectar invasões ou grilagem. A reserva abriga importantes bacias hidrográficas que servem toda a floresta. Fotos: Gabriel Uchida, Fonte: The Intercept.

Como alguém que realiza pesquisas na e sobre a Amazônia desde 1991 creio que a matéria poderia ter abordado de forma mais aprofundada os agentes econômicos e políticos que estão por detrás da nova fase de devastação que está ocorrendo sob o beneplácito do governo Bolsonaro. Entretanto, considero que o conteúdo em geral é ede excelente qualidade e merece ser devidamente lido e difundido. Isto sem falar nas excelentes imagens que oferecem um excelente apoio às informações que a reportagem contém.

E com esta reportagem, o site “The Intercept” reforça a imagem de um veículo de mídia capaz de fazer jornalismo investigativo de alta qualidade. Isto certamente é a pior informação que os membros do governo Bolsnaro vão recolher da reportagem. Aliás, o fato desse material estar sendo publicado simultaneamente em português e inglês apenas reforçará a repercussão.

 

Ricardo Salles inventa conceito para tentar ocultar desmatamento explosivo da Amazônia

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Ricardo Salles “inventa” conceito para tentar encobrir o sol com a peneira na questão do aumento explosivo do desmatamento na Amazônia.
Mais um membro do governo Bolsonaro que parece obstinado a cobrir o sol com a peneira é o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que está empenhado em criar a noção de “desmatamento relativo” para obscurecer a dramática situação que está se desenvolvendo sob o seu comando na parte brasileira da bacia Amazônica.
É que pego com uma conta errada onde errou o cálculo do percentual de desmatamento anual na Amazônia em duas ordens de grandeza (Salles disse que era de 0,002% quando era de 0,16%), o antiministro do Meio Ambiente agora partiu para menosprezar as tendências temporais do desmatamento, partindo para uma definição objetivamente enganadora do “desmatamento relativo”.

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A idéia do desmatamento relativo é claramente mais uma invencionice de Ricardo Salles, na medida em que ele propõe jogar isso contra o conceito de desmatamento zero, o que ele chama de “desmatamento absoluto”, em uma tentativa de desprezar a perseguição de uma meta que é acima de tudo coerente. O fato é que na Amazônia brasileira já sobram terras desmatadas para a prática da agricultura e da pecuária, e o avanço do arco de desmatamento atende a outros interesses, incluindo a pilhagem ilegal de minérios e madeira, e a incorporação de novas porções de terras ao processo de especulação financeira. Aqui há que se ressaltar a presença de fundos financeiros no mercado de terras amazônicas, o que hoje é um dos principais motores do desmatamento.

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Intensidade do desmatamento na região amazônica aumento, de acordo com dados do Inpe. Foto: /Divulgação
O interessante é que em 2005 fui o co-autor de um estudo publicado pela revista Environmental Conservation onde fizemos projeções de desaparecimento de unidades de conservação em Rondônia a partir de cálculos de desmatamento que a princípio Ricardo Salles certamente diria que o desmatamento existente era “relativo” e, consequentemente, desprezível. O problema é que calculamos naquele trabalho a curva do desmatamento e ela se apresentou numa forma exponencial. O resultado é que 14 anos depois daquela publicação, os nossos cálculos acabaram sendo ultrapassados pela velocidade com que a descaracterização das áreas avaliadas ocorreu, justamente pelas mãos de madeireiros e outros tipos de ocupantes ilegais das suas terras.
O mais grave da postura divercionista de Ricardo Salles é que ela estimula a ação criminosa contra os órgãos de proteção ambiental, colocando em risco a vida de servidores que estão subordinados diretamente a ele. Um caso típico da ação criminosa ocorreu no dia de ontem (04/07) em uma área indígena justamente no sul de Rondônia onde batedores a serviços de madeireiros atearam fogo em um caminhão de combustível pertencente ao IBAMA em uma tentativa de evitar a ação fiscalizatória do órgão.

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Mapa mostra localidade do distrito de Boa Vista do Pacarana, região onde caminhão-tanque foi incendiado. — Foto: Reprodução/Google Earth
Diante da postura oficial do governo Bolsonaro, evidenciada de forma explícita por essa postura divercionista do ministro do Meio Ambiente, não é difícil imaginar que não apenas estão em risco o Fundo Amazônia e o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, mas a próprio comercialização de commodities agrícolas brasileiras por causa do avanço explosivo do desmatamento na Amazônia.
A razão para um eventual banimento da agrícola brasileira é simples. É que se o atual governo brasileiro finge que não entende a importância central das florestas amazônicas para a regulação do clima da Terra, a maioria dos governos dos países desenvolvidos entende perfeitamente. E esses governos também sabem que suas populações se tiverem de opt entre comer um bife de um animal alimentado com soja produzida na Amazônia e não fazer isso para proteger o clima, a maioria irá preferir adotar outra dieta. O exemplo do boicote da rede sueca de supermercados Paradiset está aí para provar o que estou afirmando.

General Augusto Heleno tenta tampar o sol com a peneira e ataca rigor científico dos dados de desmatamento na Amazônia

deforestationDados mostram que desmatamento disparou no governo Bolsonaro (Paulo Pereira/Greenpeace)

Alguém de dentro da área de inteligência do governo federal, área que está sob o comando do general da reserva Augusto Heleno deveria informá-lo que se há uma coisa em que o Brasil possui expertise científica internacional é na área de sensoriamento remoto, muito em parte aos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Ao fazer isto, os comandados do general Augusto Heleno ajudariam a que não passasse vexame pessoal nem aumentasse o derretimento da imagem internacional do Brasil, que já não era muito boa para começo de conversa.

Digo isso porque o general Augusto Heleno teria afirmado em entrevistado à rede inglesa BBC  que os índices de desmatamento na Amazônia são “manipulados“, em uma tentativa óbvia de negar o óbvio que foi a disparada das taxas de desmatamento na bacia amazônica, fato que deverá trazer pesadas consequências econômicas para o Brasil, a começar pela não assinatura do tão celebrado acordo de livre comércio com a União Europeia.

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O fato é que se há manipulação em algum lugar é para diminuir o impacto dos números que estão sendo levantados pelo Inpe em suas várias plataformas de acompanhamento da evolução do desmatamento na Amazônia. 

Como conheço de perto alguns dos pesquisadores do Inpe que estão há várias décadas aperfeiçoando as formas de mensuração do desmatamento,  deixo o meu testemunho de que eles são sérios e competentes, o que pode ser atestado pelo vigoroso corpo de produção publicado nas melhores revistas científicas do mundo.

A verdade que não pode ser tampada como alguém tenta tampar o sol com a peneira é que o desmatamento disparou na Amazônia, muito em parte graças ao desmantelamento das estruturas de monitoramento e fiscalização que eram realizadas pelo Ibama e pelo ICMBio. Ao paralisar a fiscalização e a repressão aos saqueadores das riquezas amazônicas, o governo Bolsonaro, sob a liderança do ainda ministro (ou seria antiministro?) Ricardo Salles, liberaram forças que estão agindo de forma devastadora, produzindo as taxas que o Inpe, mas não apenas ele, já estão medindo com o devido controle científico.

Por isso, antes de agir para tentar ocultar a verdade, o que o general Augusto Heleno deveria agir e rapidamente instruir outros braços do governo Bolsonaro a reverter o curso atual sob pena de termos que sofrer as consequências da situação que está se desdobrando e sendo efetivamente pelos estudiosos das mudanças do uso e cobertura da terra, justamente com os dados gerados pelo Inpe. 

Noruega e Alemanha admitem hipótese de extinção do Fundo Amazônia

Principais doadores são contra mudanças propostas pelo governo Bolsonaro na gestão do fundo bilionário. Após reunião com embaixadores, ministro Ricardo Salles também menciona possibilidade do fim do programa.

 

amazoniaFundo Amazônia foi criado em 2008 majoritariamente com doações da Alemanha e da Noruega

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e os embaixadores de Noruega e Alemanha se reuniram nesta quarta-feira (03/07) para discutir um impasse criado pelas mudanças que vêm sendo implementadas pelo governo Bolsonaro para alterar a administração o Fundo Amazônia, o programa de financiamento à proteção da maior floresta tropical do mundo.

Após a reunião, tanto Salles quanto os embaixadores Nils Martin Gunneng (Noruega) e Georg Witschel (Alemanha) admitiram a possibilidade de que o programa venha a ser extinto caso o impasse não seja resolvido. Tanto a Alemanha quanto a Noruega mostraram contrariedade com a extinção de dois comitês responsáveis pela gestão do fundo, que foi oficializada pelo governo Bolsonaro na semana passada.

Antes disso, os governos alemão e norueguês já haviam rejeitado publicamente a proposta de Brasília de usar parte dos recursos do fundo para indenizar proprietários que vivem em áreas incluídas em unidades de conservação da Amazônia, o que hoje nao é permitido. Os europeus também rejeitaram as insinuações do governo brasileiro de que há indícios de irregularidades em contratos do fundo.

Após a reunião de hoje, Salles disse que o governo brasileiro ainda trabalha com os europeus para resolver o impasse, mas também admitiu a possibilidade de extinção do programa. “Em teoria, sim”, afirmou Salles. “Mas o que estamos falando aqui é de continuidade, de algo com mais afinco, mais dedicação e maior sinergia entre os diversos envolvidos”, disse.

Já o embaixador norueguês Nils Martin Gunneng, quando perguntado se continuidade do programa estava garantida, respondeu “nao”. “Como o ministro disse, teoricamente isso é uma opção, mas nós trabalhamos para continuar”, completou. O alemão Witschel, por sua vez, respondeu: “Existe essa possibilidade, mas queremos evitar o pior cenário”.

O ministro Salles e os embaixadores não detalharam quais pontos sobre o fundo estão sendo discutidos, mas o diplomata norueguês disse que ter ficado “surpreso” com a extinção do Comitê Orientador do Fundo Amazônia (Cofa) e do comitê técnico do programa. Por outro lado, ele disse que o “ministro nos assegurou que o diálogo continua”-

“Nossa conversa hoje clarificou um pouco o caminho para uma solução positiva”, disse, por sua vez, Witschel. Ainda segundo o embaixador alemão, os países doadores apresentaram questionamentos ao governo brasileiro e que esperam as respostas até a segunda quinzena do mês.

O Fundo Amazônia foi criado em 2008 majoritariamente com doações da Alemanha e da Noruega, responsáveis por 99% dos 3,3 bilhões de reais que já foram repassados.

A verba é administrada por uma equipe montada para cumprir essa tarefa dentro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os projetos financiados têm como objetivo a redução do desmatamento e da emissão de gases de efeito estufa.

No início de junho, em uma carta enviada a Ricardo Salles, e ao então ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz, os dois governos europeus defenderam o atual modelo de gestão e afirmaram que nenhuma das “auditorias financeiras ou de impacto que foram realizadas revelou qualquer ato ilegal ou de má gestão de recursos do fundo”.

“Esperamos que o BNDES continue a administrar o fundo e a aprovar os projetos planejados, de acordo com os entendimentos e diretrizes existentes. Nós também acreditamos que o aperfeiçoamento da eficiência, impacto e transparência do fundo podem ser abordados dentro da atual estrutura de governança”, disse a carta, que foi assinada pelos embaixadores Georg Witschel e Nils Gunneng.

Nos últimos meses, Salles também vem pressionando o BNDES. Em maio, o banco afastou Daniela Baccas, que tinha 15 anos de carreira no banco e era responsável pela gestão do fundo. O motivo do desligamento, segundo o BNDES, seria a averiguação das suspeitas levantadas pelo ministério. A decisão ocorreu após Salles ter anunciado que sua pasta teria encontrado indícios de “inconsistências” em contratos que recebem apoio do fundo.

Em condição de anonimato, funcionários do BNDES disseram à DW Brasil que o ministro teria iniciado uma “cruzada” contra o fundo, com falas agressivas contra a equipe e ausência de propostas.

Na carta, os embaixadores não só rejeitaram a possibilidade de problemas nos contratos como defenderam o atual modelo de composição do Cofa e a independência do BNDES para gerir o fundo.

“A estrutura de governança do Cofa vem servindo bem ao Fundo Amazônia por mais de 10 anos. Contar com uma representação diversificada e balanceada de autoridades e de membros da sociedade civil no Cofa contribui para uma maior transparência de informação e de prestação de contas na tomada de decisões. […] A competência e independência do BNDES na gestão do fundo é chave”, apontou o documento. “A governança do fundo segue as melhores práticas globais de governo aberto e participação democrática.”

Ainda segundo os embaixadores, o fato de o BNDES – e não o Cofa –, ser responsável por aprovar os projetos evita potenciais conflitos de interesse.

A carta ainda abordou a redução do desmatamento da Amazônia nos últimos 15 anos e apontou que “a experiência brasileira mostra que governos isoladamente não conseguem reduzir o desmatamento” e que isso demanda um “esforço conjunto entre autoridades públicas, empresas, ONGs e comunidades locais”.

Por fim, os embaixadores afirmaram que qualquer mudança para “o aperfeiçoamento da eficiência, impacto e transparência do fundo” deve ser abordada “dentro da atual estrutura de governança” do fundo.

JPS/ots

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Revelado: desmatamento desenfreado da Amazônia é impulsionado pela ganância global por carne

Investigação expõe como o enorme setor de carne bovina do Brasil continua a ameaçar a saúde da maior floresta tropical do mundo.

guardian 1Os vaqueiros movimentam o gado de fazendas da Terra do Meio, onde alguns fazendeiros foram vistos desrespeitando os embargos ao desmatamento. Foto: João Laet / The Guardian

Por Dom Phillips e Daniel Camargos em São Félix do Xingu, André Campos em São Paulo e Andrew Wasley e Alexandra Heal em Londres para o The Guardian

As vacas pastavam sob o sol amazônico do meio-dia, perto de uma ponte de madeira que atravessava um rio. Era uma cena idílica de tranquilidade pastoral, ocasionalmente interrompida por uma motocicleta roncando na estrada de terra que corta parte da fazenda de gado da Lagoa do Triunfo para uma comunidade próxima.

Mas esta pastagem é uma terra que a fazenda foi proibida de usar para o gado desde 2010, quando foi embargada pela agência ambiental Ibama para o desmatamento ilegal. Ali perto havia mais sinais de pastagem fresca: grama curta, comedouros e sal para gado.

A enorme fazenda de 145.000 hectares (358.302 acres) é uma das várias pertencentes à empresa AgroSB Agropecuária SA – conhecida na região como Santa Bárbara. Localizada em uma área ambientalmente protegida, a Lagoa do Triunfo fica a mais de 600 km da capital do estado do Pará, na margem ocidental da “fronteira agrícola” do Brasil – onde a agricultura ingressa na floresta tropical. Chegar leva horas dirigindo por estradas de terra e um passeio de balsa saindo de São Félix do Xingu, uma cidade de gado acessível somente de avião até algumas décadas atrás.

A AgroSB fornece gado para a JBS, a maior empresa de embalagem de carne do mundo e única fornecedora de carne bovina, frango e couro em todo o mundo, com 350.000 clientes em mais de 150 países.

Uma investigação conjunta do Guardian, da Repórter Brasil e do Bureau of Investigative Journalism constatou que, em 2018, a fazenda Lagoa do Triunfo entregou centenas de cabeças de gado para outras fazendas também de propriedade da AgroSB para engorda. O gado foi enviado dessas fazendas para o abate nas plantas da JBS.

guardian 2Em 2018 a fazenda Lagoa do Triunfo entregou centenas de cabeças de gado para fazendas de propriedade da AgroSB para engorda. Foto: João Laet / The Guardian

Embargos são impostos por violações ambientais, como fazendeiros ou proprietários de terras que cortam árvores e desmatam ilegalmente, e servem tanto como uma medida de punição quanto de proteção para permitir que a terra se recupere. Entre 2010 e 2013, pelo menos 12 áreas de terra na Lagoa do Triunfo foram embargadas, e o Ibama multou a AgroSB mais de US $ 18 milhões – a taxas atuais – pelo desmatamento na fazenda Lagoa do Triunfo.

Nossa equipe de investigação visitou terras claramente demarcadas como embargadas em sites do governo e encontrou vacas pastando lá. Um trabalhador agrícola disse que o gado podia vagar em áreas que os funcionários sabiam que estavam sendo embargados. “Você não pode cortar a vegetação”, disse o funcionário. “A vegetação cresce e nós trabalhamos com o gado dentro.” O Guardião está retendo seu nome em caso de retaliação.

O trabalho da ONG Trase, com sede em Estocolmo, visto exclusivamente pela nossa equipe, revela em que medida a demanda internacional por carne bovina está provocando o desmatamento, com milhares de hectares da Amazônia sendo derrubados todos os anos para fornecer carne aos mercados mundiais.

O AgroSB é um poderoso império agrícola pertencente ao grupo Opportunity, co-fundado por Daniel Dantas, um empresário polêmico que Bloomberg descreveu como o “bad boy” das finanças brasileiras. Ela possui meio milhão de hectares em todo o Pará e há muito tempo atrai controvérsias. Ao longo da última década, o AgroSB foi acusado de desmatamento ilegal, mantendo trabalhadores em condições de escravidão e pulverizando uma comunidade que ocupa uma de suas fazendas com agrotóxicos – acusações que negou veementemente.

O escândalo também cercou a JBS, que é fornecida pela AgroSB. Em 2017, após uma investigação do Ibama, a empresa de carnes foi multada em US $ 7,7 milhões pela compra de gado de fazendas com áreas embargadas, incluindo outra fazenda de propriedade da AgroSB. A empresa se comprometeu a parar de comprar gado da fazenda.

No mesmo ano, Joesley Batista, CEO de sua controladora, quase derrubou o governo do presidente Michel Temer após secretamente registrá-lo aparentando endossar suborno – Temer foi indiciado, mas nunca tentou e sempre negou as acusações, alegando que a gravação foi editada. Joesley e seu irmão Wesley, então CEO da JBS, admitiram uma extensa rede de suborno em um acordo de barganha.

guardian 3Rações para gado em área embargada na fazenda Lagoa do Triunfo. Foto: João Laet / The Guardian

Em um email, um porta-voz da AgroSB disse que qualquer desmatamento ocorreu antes da aquisição da Lagoa do Triunfo, em 2008. “A AgroSB não realiza o desmatamento para aumentar sua área, mas recupera áreas degradadas. Isso traz progresso social e ambiental para todos, porque na mesma área é possível produzir mais, sem desmatamento, em relação ao meio ambiente ”, disse o porta-voz.

“O modelo de negócios da AgroSB está ancorado na aquisição de áreas abertas e pastagens degradadas, que são fertilizadas, recuperadas e transformadas em pastagens de alta intensidade ou plantações de grãos – o que aumenta a produção de alimentos por hectare e captura dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. as plantações e em mais de 250.000 hectares de florestas (reserva legal) mantidas em suas propriedades. ”Ele apontou que:“ Não há irregularidade na comercialização / transferência de gado ”.

Ele disse que apenas 7% da fazenda foi embargada, e acrescentou que, como a AgroSB foi bem sucedida em apelar contra alguns dos outros embargos em suas terras, a empresa acredita que também irá derrubar os embargos na Lagoa do Triunfo.

guardian 4A cidade de São Félix do Xingu com o rio Xingu ao fundo. Foto: João Laet / The Guardian

A franja “oeste selvagem” da floresta amazônica

Com uma população de 125.000 e mais de dois milhões de cabeças de gado, a cidade de São Félix do Xingu cobre uma área maior que a Escócia. A criação de gado alimentou seu crescimento de postos remotos da Amazônia para uma cidade movimentada, e há sinais claros de riqueza aqui.

Apenas fora da cidade, muito dinheiro estava sendo jogado em uma corrida de cavalos em um campo cheio de 4×4. Enquanto dois jóqueis esporeavam seus cavalos pela rudimentar pista de corrida, um comentarista berrou e homens sacudiram maços de dinheiro enquanto suas apostas chegavam.

Houve mais de US $ 35 mil em prêmios durante dois dias de corrida, disse Valdiron Bueno, dono de duas lojas de materiais agrícolas e do organizador da corrida. Bueno construiu seu negócio mais de 20 anos depois de chegar aqui com apenas as roupas nas costas. “Não foi fácil. Eu chorei muito ”, disse ele.

guardian 5Um evento de corrida de cavalos fora da cidade de São Félix do Xingu. Foto: João Laet / The Guardian

São Félix do Xingu era principalmente floresta quando Arlindo Rosa, agora presidente do sindicato de produtores rurais da cidade, chegou em 1993. “Não havia praticamente nenhuma dessas fazendas … não havia rodovia, não havia nada”, disse ele.“As pessoas vieram de fora com o espírito de criar gado”, disse seu vice-presidente, Francisco Torres, que chegou em 1987.

Ambos os homens foram críticos do que eles viam como controles ambientais excessivamente zelosos. Torres criticou o Ibama como uma “indústria de multas”, tomando emprestada uma frase do presidente Jair Bolsonaro, que desmantelou a proteção do meio ambiente e conta com o apoio de agricultores como esses. “Como você vai trabalhar se não conseguir desmatar uma área, principalmente uma pequena?”, Disse Rosa.

Mas os embargos não parecem ter afetado os negócios da AgroSB, descobriram as investigações do Guardian e do Réporter Brasil.

Um porta-voz da JBS disse: “Os fatos apontados não correspondem aos padrões e processos adotados pela Companhia”, indicando uma auditoria independente de 2018 que mostrou que “mais de 99,9% das compras de gado da JBS atendem aos critérios socioambientais da empresa e Compromisso da Pecuária Pública ” – acordo firmado entre grandes empresas de gado e Greenpeace em 2009. Seguiu-se em 2011 um acordo entre a JBS e outras empresas de carnes com procuradorias federais de não comprar gado diretamente de áreas embargadas ou ilegalmente desmatadas.

Um porta-voz disse ao Guardian via e-mail: “A JBS tem uma política de compra responsável de matérias-primas e não compra animais de fazendas envolvidas no desmatamento de florestas nativas, invasão de reservas indígenas ou áreas de conservação ambiental, ou que são embargados pelo Instituto Brasileiro de Nutrição. Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ”.

A auditoria independente constatou que a empresa havia feito um progresso impressionante no acerto dos procedimentos e no fechamento de fazendas com áreas embargadas pelo Ibama. No entanto, embora o sistema exclua fazendas com áreas embargadas, a auditoria observou que outras fazendas de propriedade da mesma empresa ainda podem vender para a JBS. Concluiu que: “Fornecedores indiretos de gado para a JBS ainda não são verificados sistematicamente, uma vez que a JBS ainda não conseguiu adotar procedimentos auditáveis para seus fornecedores indiretos”.

 

guardian 6Gado pastando na Terra do Meio, no município de São Félix do Xingu. Foto: João Laet / The Guardian

Documentos oficiais do Estado vistos pelo Guardian e pela Repórter Brasil mostram que de janeiro a outubro de 2018, Santa Bárbara entregou pelo menos 296 cabeças de gado da fazenda Lagoa do Triunfo à sua fazenda Espiríto Santo em Xinguara, no mesmo estado.

Entre julho e dezembro de 2018, Santa Bárbara enviou pelo menos 1.977 bovinos da fazenda Espirito Santo para dois frigoríficos da JBS no Pará. Em janeiro, pelo menos 936 bovinos foram enviados da fazenda do Espírito Santo para o matadouro da JBS em Redenção, no Pará.

guardian 7Fazenda Lagoa do Triunfo. Foto: João Laet / The Guardian

Ao longo de 2018, Santa Bárbara também enviou pelo menos 729 bovinos da fazenda Lagoa do Triunfo para serem engordados em sua fazenda Porto Rico, em Xinguara. Em abril de 2018, 36 bovinos da fazenda Porto Rico foram enviados para abate na fábrica da JBS em Tucumã, no Pará.

A crescente demanda internacional por carne bovina se tornou um fator-chave na destruição da floresta amazônica, com novos números vistos por nossa equipe revelando a extensão total do desmatamento diretamente ligado a um punhado de grandes corporações de alimentos. A carne vinculada ao desmatamento é exportada globalmente, inclusive para os principais mercados do leste da Ásia e da Europa.

Uma investigação feita pela Trase revelou como até 5.800 km2 de floresta estão sendo derrubados na Amazônia e em outras áreas anualmente para serem convertidos em pastagens usadas para criação de gado, com animais de áreas desmatadas que fornecem suprimento de matadouros que produzem carne para os mercados globais.

As empresas da cadeia de fornecimento da JBS são potencialmente responsáveis ​​pela destruição de entre 28.000 e 32.000 hectares (280-320 km2) de floresta por ano para carne bovina exportada, segundo dados reunidos pela Trase. Não há sugestão de que a carne da Lagoa do Triunfo seja exportada. A AgroSB afirma que comprou a terra em 2008, depois que o desmatamento já havia acontecido. A JBS destaca que possui “um dos maiores sistemas privados de monitoramento de fornecedores do mundo… que abrange a Amazônia Legal”. Tem trabalhado no conceito GTA-Verde, que cobriria todos os elos da cadeia de suprimentos e “evitaria a entrada de gado de áreas desmatadas ilegalmente na indústria da carne ”.

Os dados mais recentes mostram que o desmatamento na Amazônia brasileira tem aumentado desde 2012. Entre agosto de 2017 e julho de 2018, cerca de 7.900 km2 foram destruídos.

guardian 8Transporte de gado na Terra do Meio, no município de São Félix do Xingu, no estado do Pará, na Amazônia. Foto: Joao Laet / The Guardian

No mais abrangente estudo desse tipo já produzido, o TRASE utilizou dados alfandegários, agrícolas, sanitários e de desmatamento para mapear as exportações brasileiras de gado dos mercados internacionais que os consomem de volta para os mais de 3.000 municípios onde o gado foi criado.

A análise inclui dados sobre fornecedores “indiretos”, que geralmente são fazendas intermediárias que não vendem diretamente para os matadouros, mas fornecem outras fazendas que podem transportar gado para o abate. Esta é uma parte “anteriormente invisível” da cadeia da carne, dizem os pesquisadores, que não são monitorados quanto aos riscos de desmatamento.

O “mapa” da cadeia de suprimentos foi então cruzado com conjuntos de dados oficiais sobre a expansão das pastagens, taxas de desmatamento e números da produção pecuária regional para calcular um “risco” de desmatamento associado a empresas específicas e aos principais mercados internacionais de exportação.

Devido ao alto volume de carne bovina brasileira embarcada para a China e Hong Kong, esses mercados estão associados à maior quantidade de desmatamento no total – 16.000 e 22.500 hectares por ano – segundo a análise. A UE também importa mais de US $ 600 milhões em carne bovina do Brasil a cada ano. E isso aumentará se a UE e os Estados membros aprovarem um novo acordo comercial com o Brasil, o Uruguai, a Argentina e o Paraguai para deixar gradualmente 99.000 toneladas de carne bovina sul-americana de baixa tarifa na Europa a cada ano.

Erasmus zu Ermgassen, pesquisador chefe da Trase, disse que enquanto alguns frigoríficos monitoram seus fornecedores diretos, nenhum monitora seus fornecedores indiretos. “Há um enorme potencial para usar a terra de forma mais eficiente e sustentável no setor de carne bovina brasileiro e para melhorar a subsistência rural, investindo na pecuária em pastagens existentes.”

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Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Cláusula de precaução do Acordo EU-Mercosul instala pânico e insatisfação no agronegócio brasileiro

clausula 4Cláusula da precaução incluída pela União Europeia deverá atingir em cheio as exportações da soja brasileira que é geneticamente modificada, rica em resíduos de agrotóxicos e produzida em áreas desmatadas.

O acordo de livre comércio que agora de ser concluído pela União Europeia e pelo Mercosul certamente deve ter servido como motivos para celebração dentro do poderoso agronegócio brasileiro dado o volume potencial de negócios em que as commodities agrícolas brasileiras estarão envolvidas nas próximas décadas.

Mas o que em um primeiro instante foi motivo de júbilo rapidamente passou para o rol das preocupações por causa da chamada “Cláusula de Precaução” (que mais uma espécie de cláusla da preocupação) que a União Europeia (EU) inseriu no acordo com o Mercosul para impedir que os consumidores europeus sejam expostos a produtos contaminados por agrotóxicos que já foram banidos ou que estejam acima dos níveis de resíduos permitidos pela Europa. Outro componente significativo dessa cláusula é a restrição a produtos originados de áreas desmatadas.

clausula 3

Com base na “cláusula da precaução” a EU poderá recusar a compra de produção originada de áreas desmatadas.

Como já abordei neste blog, esta cláusula traz em si o risco de ser “para inglês ver” na medida em que apenas com pressão social organizada no Brasil e na Europa ela terá algum efeito prático efetivo.  O problema, para o latifúndio agro-exportador brasileiro, é que seus líderes sabem que há o risco real de que pressionada pelos seus habitantes, a EU passe a efetivamente cobrar das exportações vindas do Mercosul o mesmo tipo de restrição sanitária que cobra dos agricultores europeus. E aí é  que o bicho pega, pois o chamado agronegócio brasileiro vem tomando o sentido contrário de qualquer preocupação ambiental ao conseguir apenas nos primeiros 6 meses do governo Bolsonaro a liberação recorde de 239 agrotóxicos (30% deles banidos na União Europa) e o aumento explosivo do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

cláusula 1

O interessante é que já venho alertando há algum tempo sobre o risco real de que o Brasil passasse a sofrer uma espécie de isolamento sanitário por causa do uso excessivo de agrotóxicos em suas exportações. Agora, com esse acordo com a EU, o risco não só aumenta como o Brasil explicitamente aceitou para si a tarefa de aplicar as regras sanitárias vigentes na Europa.

Como de bobos nada tem, os representantes do agronegócio já estão sendo citados como preocupados com a inclusão do princípio de precaução do capítulo sanitário, que é visto como sendo “um absurdo” e com potencial de causar  “dano enorme” ao Brasil. 

clausula 2

Mas as preocupações com a inclusão das preocupações ambientais não deverão ficar apenas no seio dos latifundiários, visto que neste momento o governo Bolsonaro está envolvido num virtual desmanche da governança ambiental criada a partir da década de 1970, e o ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, estaria se preparando para alterar ou extinguir dezenas de unidades de conservação e alterar o Sistema Nacional de Unidade de Conservação (SNUC).  O problema aqui é que a EU certamente já sabe disso e terá nesse desmanche um ótimo motivo para apertar o garrote nas exportações brasileiras.

clausula 5

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, e Tereza Cristina, o da Agricultura, durante visita à terra indígena no estado do Mato Grosso onde soja é cultivada ilegalmente.

Como já disse, a efetiva aplicação da “cláusula da precaução” só se dará com a ação organizada no Brasil e nos países que compõe a União Europeia.  Mas, mesmo assim, não deixa de ser divertido ver o latifúndio agro-exportador esperneando. Mais engraçado será acompanhar as explicações dadas pelo presidente Jair Bolsonaro para ceder em um item tão cara a um dos segmentos que o apoiaram eleitoralmente para tomar o caminho justamente o contrário do que está agora acordado com a EU.

Finalmente, para quem desejar ler uma avaliação crítica da capacidade (ou disposição) da EU  de aplicar a cláusula de precaução, sugiro a leitura do relatório preparado pela rede “Bilaterals” [Aqui!].

Desmatamento e mudanças climáticas podem dividir a Amazônia em duas

Em estudo publicado na Nature Climate Change, pesquisadores do Museu Goeldi e parceiros demonstram que a Amazônia pode ter metade de sua área reduzida a fragmentos até 2050. A porção oriental da região tende a perder 95% de suas florestas e o Pará será o estado mais prejudicado.

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Crédito: Ricardo Funari Getty Images

Por Agência Museu Goeldi 

O maior bloco de floresta tropical do mundo pode estar severamente ameaçado. Uma em cada dez espécies de árvores do mundo cresce na Amazônia e mais da metade pode estar ameaçada de extinção em três décadas. Este é um dos achados de recente estudo publicado na revista Nature Climate Change, onde quatro pesquisadores do Brasil e da Holanda apresentam uma análise combinando cenários de impactos do desmatamento e das mudanças climáticas com conclusões alarmantes. De acordo com a previsão do cenário mais pessimista, conhecido como business as usual, metade da floresta ao sul da Amazônia pode ser reduzida a fragmentos, levando muitas espécies a um sério risco de extinção.

O grupo de pesquisadores inicialmente produziu mapas da distribuição original de cada uma das 10.071 espécies de árvores amazônicas conhecidas anteriores às mudanças induzidas pela humanidade. Estes mapas foram sobrepostos para fornecer o número médio de espécies para cada quadrado de 10×10 quilômetros dentro da floresta, estimando a riqueza de espécies nestes espaços, que foi de, aproximadamente, 1.500 espécies para cada um dos quadrados. O mapeamento do local onde as espécies podem ser encontradas é importante para se obter os limites de temperatura e precipitação onde elas estão aparentemente confortáveis, explica o primeiro autor do estudo, Vitor Gomes. Ao sobrepor a distribuição original das espécies ao desmatamento total da Amazônia até o ano 2013 (cerca de 10%), foi observado que um total de 807 espécies podem ser classificadas como ameaçadas de extinção. Segundo o estudo, até 2013 o desmatamento já havia atingido áreas aptas à distribuição de 98,7% das espécies de árvore na Amazônia.

A seguir, o grupo avaliou os impactos do desmatamento e das mudanças climáticas segundo projeções para o ano de 2050. Surpreendentemente, as mudanças climáticas se mostraram capazes de superar os impactos do desmatamento nos próximos 30 anos. As perdas de áreas aptas provocadas pelo desmatamento variaram entre 19 e 33%, enquanto que a variação com base nas mudanças climáticas variou entre 47 e 53%. “Apesar do maior potencial de perda provocado pelas mudanças climáticas, ambos os cenários apresentam resultados alarmantes e podem ter consequências severas para a biodiversidade amazônica”, considera Vitor Gomes – que defendeu tese de doutorado sobre este assunto no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (MPEG/Embrapa/UFPA), tendo sido antes beneficiado pelo programa Ciência Sem Fronteiras.

Os autores do estudo consideraram que um cenário futuro realístico deveria apresentar ambos os impactos combinados e os resultados desta combinação se traduziram em perdas ainda maiores. As perdas podem variar entre 53 e 65%, do cenário mais otimista ao mais pessimista. Tais perdas resultariam em uma redução da riqueza de espécies entre 43 e 58%. “Apesar do importante papel das florestas tropicais na regulação do clima, conservação da biodiversidade e fornecimento de serviços ecossistêmicos, corremos o risco de perder quase 60% da riqueza arbórea da Amazônia”, diz Rafael Salomão, coautor do estudo, pesquisador do Museu Goeldi e professor da Universidade Federal Rural da Amazônia, em Belém, Brasil.

Mesmo o cenário combinado mais otimista prevê uma perda de mais da metade das áreas aptas à distribuição das espécies arbóreas amazônicas. O número total de espécies ameaçadas nos cenários combinados pode variar entre 4.872 (48,4%) e 4.993 (49,6%). Apesar da pequena diferença entre os cenários combinados, no mais otimista, o número de espécies classificadas como “Criticamente Ameaçadas” (CR) é menor, caindo de 22% (mais pessimista) para 11% (mais otimista). O cenário mais pessimista é baseado nas tendências atuais de desmatamento e emissões de CO2, considerando a ausência de ações mitigadoras ou o aumento da governança. Um dos mapas apresentados no estudo mostra a Amazônia divida ao meio no cenário mais pessimista. Uma das metades, formada pelas porções leste, sul e sudeste da Amazônia, aparece severamente fragmentada e, a outra metade, formada pelas porções norte, central e oeste, aparece com um formato ainda contínuo.

Amazônia dividida ao meio

Espécies comuns na metade fragmentada, tal como Protium altissimum (Aubl.) Marchand., podem enfrentar grande ameaça de extinção. Esta espécie é a segunda mais abundante na Amazônia, ocorrendo com grande número de indivíduos. Na área severamente fragmentada o desmatamento já é bastante intenso, especialmente na região conhecida como “arco do desmatamento”. O bloco contínuo pode sofrer menor impacto do desmatamento, mas não está imune às mudanças do clima. A espécie Eperua falcata Aubl., muito comum no Planalto das Guianas, e também uma das mais abundantes na Amazônia, pode perder até 63% das áreas aptas à sua distribuição. Segundo Hans ter Steege, coautor do artigo e pesquisador do Naturalis Biodiversity Center em Leiden, Holanda, espécies como a E. falcata, podem ter grande dificuldade de encontrar novos ambientes no futuro. As árvores desta espécie não conseguem espalhar suas sementes a mais do que 15 metros de distância e seus indivíduos precisam de cerca de um século para atingirem a maturidade. “Muitas populações de espécies movem-se lentamente. Eu comumente leio artigos inferindo que, devido às mudanças climáticas, alguns tipos de florestas serão encontrados em outras regiões em 2050. Mas como estas florestas podem ao menos chegar lá? Elas pegarão um trem?”, questiona.

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Apesar dos resultados alarmantes, o estudo destaca o importante papel da rede de áreas protegidas da Amazônia. Estas áreas podem prevenir a redução da riqueza de espécies em relação às previsões dos impactos futuros. “Mesmo que estas áreas não sejam totalmente imunes às mudanças no clima, que pode sobrepor limites físicos ou geográficos, nossos modelos mostram que as florestas fora da rede de áreas protegidas podem perder até um terço a mais de espécies”, diz Vitor Gomes. Os autores acrescentam que o cenário mais pessimista aparenta ser cada vez mais realista, pois o desmatamento na Amazônia está aumentando novamente e os esforços atuais para limitar o aquecimento global são claramente insuficientes.

Ima Vieira, coautora do artigo e pesquisadora do Museu Goeldi, em Belém, Brasil, alerta para o grande risco que a floresta amazônica corre por conta da aprovação do Projeto de Lei 2362/2019 no Brasil, que propõe a eliminação da reserva legal nas propriedades rurais. Ima diz: “Se isso acontecer, cerca de 89 milhões de hectares podem ser diretamente ameaçados pelo desmatado na Amazônia. Já ficamos impressionados com os resultados deste estudo, imagine o que pode vir pela frente com esse nível de retrocesso ambiental? A floresta do futuro pode ser dividida em vários blocos, onde muitas espécies correriam sérios riscos de extinção. É fundamental o avanço da governança ambiental na região, considerando as áreas protegidas e as reservas legais como instrumentos complementares da proteção da biodiversidade. Nesse quadro, a Amazônia Oriental pode perder 95% de suas florestas e o estado do Pará será o mais prejudicado, porque já é o campeão regional em perdas de diversidade”.

O estudo finaliza com o exemplo da Floresta Atlântica, que, apesar de hoje possuir pouco mais de 10% de sua cobertura original, foi alvo do alerta de diversos estudos ao longo de mais de um século e, portanto, deixar que a Amazônia tenha o mesmo destino não seria uma opção.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Agência Museu Goeldi [Aqui!].

Greenpeace bloqueia na França chegada de navio carregado de farelo de soja contaminado com desmatamento no Brasil

O produto saiu do porto de Cotegipe, onde a grande maioria da soja exportada vem do Cerrado brasileiro, e tinha como destino o mercado europeu

forest killerA ação busca chamar a atenção para a necessidade urgente de ação por parte de governos e empresas frente à crise climática.

Por Greenpeace Brasil

“Já que o governo Francês é incapaz de cumprir seu compromisso de combater o desmatamento e as mudanças climáticas, decidimos fazer isso por eles”, disse Cecile Leuba, da campanha de florestas do Greenpeace França. Na manhã de hoje (no horário do Brasil), cerca de 50 ativistas bloquearam a chegada do navio cargueiro ELLIREA, que saiu do porto de Cotegipe, em Salvador, com destino ao porto de Sète. O cargueiro transportava 50 mil toneladas de farelo de soja , que provavelmente seria usado para alimentação animal na França e na Eslovênia, destinos finais da carga do navio.

A ação acontece duas semanas após a publicação pelo Greenpeace Internacional do relatório Contagem Regressiva para a Extinção, que expõe o modelo de negócio predatório de grandes empresas em tempos de crise climática. De 2010 a 2020, período no qual  centenas de empresas se comprometeram a acabar com o desmatamento em suas cadeias produtivas, de diversas commodities agrícolas, 50 milhões de hectares de floresta foram desmatadas em todo o mundo para ampliar essa produção — o equivalente a uma área quase do tamanho de Minas Gerais.

Para chamar a atenção para a necessidade urgente de ação frente à crise climática, que faz vítimas no mundo todo, os ativistas do Greenpeace bloquearam o acesso do navio ao cais, em Sète, impedindo que ele atracasse, com um ativista pendurado em sua âncora. Os quatro guindastes que seriam utilizados para descarregar o produto também foram ocupados por ativistas, com banners com as mensagens “Agricultura industrial = desmatamento” e “Aviso: soja de desmatamento”. No casco do navio foi pintada a mensagem “Assassino florestal”.

O cultivo de soja já foi um dos principais vetores de desmatamento da Amazônia, até o estabelecimento da Moratória da soja em 2006. Porém, o cultivo do grão se expande sobre o território do  Cerrado brasileiro, a Savana mais biodiversa do mundo, deixando um rastro de desmatamento e muitas vezes conflitos sociais pelos territórios radicionalmente ocupados pela população indígena e outras populações tradicionais. O Cerrado, que ocupava 24% da área do Brasil, já perdeu quase metade de sua vegetação original. Mesmo assim,  a soja da região continua ganhando os mercados internacionais: ao menos 88% desse grão que sai do porto de Cotegipe vem do Cerrado e tem como destino países como a China, Espanha, Alemanha e França, onde o produto é majoritariamente usado na alimentação de animais de corte , como frangos, porcos e bois.

“Diversas empresas fizeram uma promessa há 10  anos aos seus consumidores, de que fariam a sua parte para acabar com desmatamento nos produtos que comercializam, isso teria um papel fundamental para minimizar a emergência climática que estamos enfrentando”, disse Rômulo Batista, da campanha de florestas do Greenpeace Brasil. “O curioso é que as mesmas empresas que ajudaram a sociedade a criar a Moratória da Soja, um importante mecanismo de proteção da Amazônia, hoje se negam a preservar o Cerrado e isso é inaceitável”, completa.

Os ativistas franceses exigem que os governo de seu país implemente regras mais rígidas para a entrada de produtos agrícolas não apenas do Brasil, mas de diversos outros países, com a comprovação que os produtos não têm relação com desmatamento e violações dos direitos humanos. Os franceses também buscam chamar a atenção de sua população sobre o consumo excessivo de carne e laticínios e seu impacto em ambientes como o Cerrado, a Amazônia e o Gran Chaco todos na América Latina.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!].

Angela Merkel classifica situação no Brasil sob o governo Bolsonaro como “dramática”

merkelAngela Merkel afirmou no Parlamento Alemão que a situação do Brasil sob o governo Bolsonaro é “dramática”.  

A chanceler alemã Angela Merkel fez pronunciamento no parlamento alemão onde apresentou suas razões para apoiar a aprovação do acordo comercial de livre comércio entre a União Europeia (EU) e o Mercosul, a despeito da graves violações aos direitos humanos e ao avanço explosivo no desmatamento na Amazônia (ver vídeo abaixo).

Merkel afirmou ainda que vai trabalhar com todas as suas forças para que o está acontecendo no Brasil neste momento não siga acontecendo, especialmente na questão do desmatamento da Amazônia. Nesse sentido, Merkel afirmou que “vejo com preocupação as ações do presidente brasileiro [sobre o desmatamento], e se a oportunidade surgir no G20 pretendo ter uma conversa clara com ele.” 

O problema para Merkel é que dificilmente ela será ouvida por Bolsonaro cujo compromisso político primeiro e único é com as forças políticas que o elegeram, incluindo aí as forças que hoje saqueiam e desmatam ilegalmente amplas porções da floresta amazônica.

Mas não deixa de ser impressionante que um líder da direita europeia classifique a situação do Brasil como dramática sob o governo Bolsonaro.  O fato que a nossa situação econômica, política e social é definitivamente dramática, com tendências a piorar.  Entretanto, é preciso aparecer uma líder da direita europeia para que finalmente alguém diga a coisa como a coisa é. Dramático!

Medo de boicote à produção agrícola brasileira força ruralistas a pedirem controle do desmatamento “ilegal” a Ricardo Salles

amazon deforestationMedo de boicote faz bancada ruralista pressionar Ricardo Salles por controle do “desmatamento ilegal” na Amazônia.

O ClimaInfo traz hoje a informação de que membros da chamada Frente Parlamentar da Agropecuário (FPA) (leia-se os representantes do latifúndio agro-exportador) se encontraram ontem (25/06) com o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para pedir medidas para o combate ao chamado “desmatamento ilegal” nas florestas brasileiras.

clima info desmate ilegalRuralistas se encontram com Ricardo Salles para pedir controle do “desmatamento ilegal” na Amazônia. Medo de boicote é a razão mais provável para o gesto.

Há quem possa ver nessa visita da FPA a Ricardo Salles apenas uma manobra diversionista para enganar observadores internacionais menos atentos (ou quiçá os negociadores da União Europeia que estão negociando o acordo comercial com o Mercosul).

Mas eu tendo a concordar com os editores do ClimaInfo que apontam para um possível medo da bancada ruralista em relação às pressões pela realizações de boicotes à compra da produção agrícola brasileira seguindo os exemplos de Johannes Cullberg, da rede de supermercados sueca Paradiset) que já baniu produtos brasileiros da maior cadeia de venda de produtos orgânicos da Escandinávia e de Sônia Guajajara, importante liderança indígena e candidata a vice-presidente pelo PSOL nas eleições presidenciais de 2018, que recentemente defendeu em Bonn, Alemanha, o boicote à produtos agrícolas vindos de áreas de conflitos sociais no Brasil.

Johannes Cullberg e Sônia Guajajara são duas das faces mais visíveis de um crescente movimento de boicote à produção agrícola brasileira que está ocorrendo principalmente na Europa e ameaça se alastrar no resto do mundo.

O problema é que a não ser que o governo Bolsonaro faça um giro de 180 graus no processo de destruição da governança ambiental que vem sendo executado de forma diligente por Ricardo Salles, há a possibilidade concreta de que haja uma unificação dos diferentes movimentos de boicote aos produtos brasileiros.  É que, ao contrário do que alardeiam os membros da FPA, a situação brasileira está sendo acompanhado de perto por pesquisadores, lideranças políticas e ativistas sociais estrangeiros que, por isso mesmo, são praticamente imunes a qualquer jogo de cena que venha a ser feito apenas com finalidade de distração (vide a carta dos 602 pesquisadores e o manifesto das mais de 340 organizações sociais que pedirem que a EU condicione suas negociações com o Mercosul à contenção do desmatamento na Amazônia).

A verdade é que sem a combinação de uma intensa pressão externa e a ação política interna, o Brasil e suas florestas serão devastados por defensores de uma forma arcaica de avançar a fronteira agrícola.  Os números do desmatamento que está ocorrendo na Amazônia são a prova irrefutável de que sem o devido processo de pressão política e econômica, o ritmo da devastação será incontrolável.

Resta saber agora se Ricardo Salles terá disposição ou capacidade de reverter o seu curso atual que é o de um cético das mudanças climáticas globais que está literalmente deixando a motosserra cantar na Amazônia brasileira.