Brasil chega a 150 mil mortos pela COVID-19, e Bolsonaro dá “rolé” de moto no Guarujá

bolso guarujáO presidente Jair Bolsonaro dando um “rolé” de motocicleta no Guarujá no dia em que o Brasil chegou a 150 mil mortes causadas pela COVID-19

Fale-se o que se falar do presidente Jair Bolsonaro, mas ele é uma figura coerente com suas ideias. Hoje, enquanto o Brasil atingiu a infame marca de 150 mil mortos pela COVID-19, o líder da extrema-direita brasileira aproveitou o final de semana prolongado na cidade do Guarujá (SP), onde foi visto dando uma “rolé” de motocicleta, sem máscara de proteção,  e aproveitando para abraçar e tirar fotografias ao lado de apoiadores (ver vídeo abaixo).

Enquanto isso, o chamado “Consórcio do Nordeste” se articula para colocar em prática um plano nacional de vacinação contra o coronavírus. Essa medida inédita na história dos esforços nacionais durante processos epidêmicos colocará em xeque o governo federal, e seu líder motoqueiro, na medida em que deverá gerar tensões inevitáveis por causa da já anunciada oposição do presidente Jair Bolsonaro ao um caráter obrigatório para a vacinação contra a COVID-19.

E antes que eu me esqueça: se alguém me perguntar se eu culpo o presidente Jair Bolsonaro por sua postura nefasta durante a pandemia que já custou a vida de 150 mil brasileiros, e deverá ainda custar as vidas de muitos outros, eu diria que a História o julgará e o colocará no devido lugar (provavelmente uma lata de lixo).  Mas há que se lembrar de quem objetivamente operou para colocar um político que em 30 anos de vida pública nada fez para merecer ser reeleito. E falo aqui das elites econômicas do Brasil que sabiam o que causariam ao país e, principalmente, à maioria pobre da população que optaram por instalar e apoiar um presidente que transita alegremente de moto em um dia tão lamentável para centenas de milhares de famílias brasileiras.

 

“Governo Bolsonaro lidou muito bem com a pandemia”, diz Mourão”

À DW, vice-presidente afirma que o Brasil está fazendo um bom trabalho contra a covid-19, apesar dos quase 150 mil mortos, que a relação entre os Poderes está “cada vez melhor” e que Ustra foi um “homem de honra”.

mourão

“As coisas aqui no Brasil estão tranquilas e indo bem”, diz Mourão

Em entrevista ao programa de TV Conflict Zone, da DW, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que no Brasil “está tudo ok”, apesar do aumento das queimadas da Amazônia e no Pantanal, da epidemia de COVID-19 e da forte polarização política.

Na opinião do vice-presidente, o governo brasileiro está fazendo um bom trabalho na luta contra a COVID-19, apesar dos quase  150 mil brasileiros mortos pela doença no país. “Já curamos mais de 4 milhões de pessoas aqui no Brasil. Portanto, acho que, apesar desse número de casos e de mortes, lidamos muito bem com essa crise pandêmica.”

Ele ressalta que o governo não concorda com a tortura, mas afirma que o antigo regime militar só poderá ser bem avaliado daqui a alguns anos. “Eles fizeram coisas muito boas pelo Brasil, e outras coisas não foram tão bem. E isso é história, e a história só pode ser julgada com o passar do tempo”, afirma.

Quando questionado sobre a idolatria do presidente Bolsonaro por um dos mais conhecidos torturadores do período ditatorial, Mourão afirma que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra “era um homem de honra e um homem que respeitava os direitos humanos de seus subordinados”. 

Ao ser questionado sobre o caos institucional no Brasil, para o qual ele mesmo apontou num artigo de opinião, o vice-presidente afirma que a relação entre os diferentes Poderes está “cada vez melhor”.

DW: Vice-presidente Hamilton Mourão, há alguns meses, o senhor disse a jornalistas: “Está tudo sob controle, só não sabemos de quem”. Uma admissão perigosa, não? Quão ruim é o caos no governo?

Hamilton Mourão: Está tudo bem no nosso governo. Essa era uma espécie de piada que eu costumava dizer, ok? Não foi algo que quis dizer diretamente. Foi uma brincadeira, só uma brincadeira, porque aqui no Brasil está tudo ok.

Que tipo de piada foi essa? Dois ministros da Saúde saíram no espaço de um único mês, durante um período de emergência sanitária. Um ministro da Justiça renunciou, um ministro da Educação correu para os Estados Unidos poucos dias depois de deixar o cargo dizendo: “Não quero brigar! Quero ficar quieto, me deixem em paz, porém não me provoquem!”. Isso não é caos suficiente para o senhor?

Não, não é, não é. São coisas que acontecem em qualquer governo. A forma como o ministro da Educação saiu, bom, não foi um grande problema para nós, e o senhor sabe, o Brasil é um país muito diferente e, bem, algumas coisas que acontecem aqui não acontecem em outros países. É nossa cultura.

Então, por que o senhor escreveu um artigo sobre isso? Dia 14 de maio, o senhor escreveu, em um texto publicado no Estado de S. Paulo: “Nenhum país vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil”, e alertou que o estrago institucional está levando o país ao caos. Foi o senhor que mencionou o caos e chamou a atenção para ele. O senhor escreveu: “Tornamo-nos incapazes do essencial para enfrentar qualquer problema: sentar à mesa, conversar e debater.” Essa foi uma forte acusação ao seu próprio governo, não foi? Porque são líderes como o senhor que deveriam unificar seu país.

Bem, o país está sofrendo com o que acontece no mundo inteiro. Há um tribalismo excessivo. E os lados políticos são todos muito, diria, polarizados. Há muita polarização na política. Mas nosso governo está conduzindo bem o país e até hoje as coisas estão melhorando, e a relação entre os diferentes Poderes está cada vez melhor. Tivemos algumas dificuldades alguns meses atrás, mas agora está tudo ok.

Eduardo Pazuello
“O ministro Pazuello sabe muito sobre logística, que foi o principal problema em nosso Ministério da Saúde”, diz Mourão

É mesmo? Além disso, o presidente, a família dele e vários associados estão mergulhados em investigações criminais e legislativas até o joelho. Isso também está ok?

Essa questão ainda está em investigação e, claro, está nas mãos do Judiciário. E temos que esperar para que esse processo chegue ao fim.

Ao alertar sobre todo esse caos, como fez em maio passado, o senhor estava se preparando para os militares intervirem e começarem a lidar com o caos? Em junho, o presidente lançou abertamente a ideia de uma intervenção militar, dizendo que “as Forças Armadas não cumprem ordens absurdas” do Supremo ou do Congresso. Isso era uma ameaça?

Isso não é verdade. Em primeiro lugar, as Forças Armadas estão alinhadas com sua missão constitucional, e não estão saindo dela. As coisas aqui no Brasil estão tranquilas e indo bem. E deixo bem claro que a democracia é um valor não só para o governo Bolsonaro, mas também para as nossas Forças Armadas. Então não existe nenhuma ameaça ao Supremo Tribunal Federal ou ao sistema Legislativo aqui no Brasil.

E o fato de Bolsonaro ter participado de protestos diante de bases militares, onde seus apoiadores pediam uma intervenção armada para se livrar de governadores, juízes e legisladores que imponham lockdowns em resposta à pandemia? Nenhuma ameaça ali também, suponho.

Bem, na questão da pandemia, as pessoas têm que entender que o Brasil é um país muito desigual. Somos desiguais socialmente, economicamente e, claro, geograficamente. Então, desde o início da pandemia, a gente vem tentando lidar com a curva sanitária, com a curva econômica e com a curva social. É assim que o governo Bolsonaro lidou com essa pandemia.

Bem, ele participou de atos que exigiam uma intervenção armada, não foi? Para se livrar de governadores, juízes e legisladores. O que é isso, senão uma ameaça à democracia?

Claro que isso não é uma ameaça à democracia.

Bem, o governador de São Paulo, João Doria, achou que era, não achou? Ele disse: “O Brasil acorda assustado com as crises diárias, por agressões gratuitas à democracia, à Constituiçãoao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro, pare com agressões, pare com os conflitos.

Não, isso acontece porque há polarização na política. O governo de São Paulo se opôs a Bolsonaro. Isso é muito mais conversa do que, digamos, ação.

Bem, é uma conversa perigosa, não é?

Isso acontece.

É uma conversa perigosa.

É a maneira como as pessoas se comportam. Não, não é perigosa. É perigoso quando você tem poder de fazer o que quer, mas ninguém tem poder de fazer o que quer aqui no Brasil.

Atualmente, muitas pessoas parecem pensar que vocês estão fazendo política através do medo. Eduardo Costa Pinto, da UFRJ, afirma: “Esse é o problema de ter um governo cheio de militares durante uma crise institucional. Os militares vão lutar com unhas e dentes para se manter no poder, e eles têm armas, o que torna difícil uma mediação política.” Por que encher o governo com todo esses militares, se vocês não estão planejando que os militares assumam o poder?

Em primeiro lugar, deve ficar bem claro que não somos um governo militar. Bolsonaro e eu fomos eleitos por mais de 57 milhões de brasileiros, ok? E claro que temos algumas pessoas no governo que vêm do meio militar, mas estão aqui pensando pelo bem do Brasil e respeitando nossa Constituição e nossas leis.

O Tribunal de Contas na União está investigando agora o que chama de possível militarização excessiva do serviço público civil. E é excessiva, não é? O tribunal disse em junho que havia até 3 mil militares em cargos públicos. Para que você precisa de 3 mil militares em cargos públicos?

Bem, em primeiro lugar, tem que ficar muito claro que qualquer governo no Brasil tem mais de 2 mil militares em cargos públicos porque temos um Gabinete de Segurança, que pertence ao presidente, que tem mais de mil militares, e nessa contagem de militares estão os que trabalham no Ministério da Defesa. Portanto, não temos um número tão grande de militares ocupando empregos civis em nosso governo. Isso é algum tipo de desinformação que veio por meio de alguns canais diferentes.

E todos esses militares são qualificados para fazer o trabalho que estão fazendo? Estou pensando no atual ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Ele é um general da ativa que seguiu as ordens do presidente. Essa é sua única qualificação? Ele não sabe nada sobre saúde ou drogas, sabe?

Bem, você não precisa ser médico para ser ministro da Saúde. O que você precisa ser é um homem que entenda a administração pública e, mais, que não seja conivente com corrupção. E, claro, o ministro Pazuello sabe muito sobre logística, que foi o principal problema no nosso Ministério da Saúde.

E ele sabe obedecer às ordens mais do que os outros ministros da Saúde, não é? Ele sabe fazer o que lhe mandam. Essa é sua principal qualificação, não é?

Bem, ele tem as qualificações e tem feito um trabalho muito bom, e isso foi atestado por todos os secretários de diferentes estados aqui no Brasil. Eles estão todos estão muito satisfeitos com o trabalho que o ministro Pazuello vem realizando, pois todo o apoio necessário para combater e controlar a pandemia chegou a todos os pontos do nosso país.

Senhor vice-presidente, o presidente Bolsonaro nunca escondeu sua admiração pela antiga ditadura militar brasileira. O senhor compartilha dessa admiração?

Bem, tivemos um período de presença militar que durou cerca de 20 anos. Eles fizeram coisas muito boas pelo Brasil e outras coisas não foram tão bem. E isso é história, e a história só pode ser julgada com o passar do tempo. Ainda estamos a cerca de 50 anos desse período. Precisamos de mais 50 anos para que esse período seja bem avaliado.

Bem, durante a votação para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Bolsonaro dedicou seu voto a um dos mais notórios torturadores do regime, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Este homem foi condenado por tortura durante os 21 anos de ditadura militar. No ano passado, seu presidente o chamou de herói nacional. Na unidade que ele dirigia foram identificados 502 casos de tortura. O senhor tem heróis bastante bons em seu governo atualmente, não é?

Em primeiro lugar, não concordamos com tortura. A tortura não é uma política com a qual nosso país simpatize. E claro, quando há muita gente que lutou contra a guerrilha urbana no final dos anos 60 e início dos anos 70 do século passado, e muitas dessas pessoas foram injustamente acusadas de serem torturadoras.

Então o coronel Brilhante Ustra foi injustamente acusado, e o senhor também pensa que ele foi um herói, apesar dos 500 casos de tortura que foram atribuídos à unidade dele?

O que posso dizer sobre o homem Carlos Alberto Brilhante Ustra, ele foi meu comandante no final dos anos 70 do século passado, e era um homem de honra e um homem que respeitava os direitos humanos de seus subordinados. Então, muitas das coisas que as pessoas falam dele, eu posso te contar, porque eu tinha uma amizade muito próxima com esse homem, isso não é verdade.

Então ele foi injustamente condenado por tortura? Foi tudo inventado? O julgamento foi forjado?

Em primeiro lugar, não estou alinhado com a tortura, e, claro, muitas pessoas ainda estão vivas daquela época, e todas querem colocar as coisas da maneira que viram. É por isso que eu disse antes que temos que esperar que todos esses atores desapareçam para que a história faça sua parte. E, claro, o que realmente aconteceu durante esse período … esse período passou.

Bem, considerando que o senhor e seu presidente não estão preparados para condenar os torturadores, mas apenas a tortura, o senhor não entende por que tanta gente no Brasil e internacionalmente duvida do seu compromisso, do compromisso do seu governo, com a democracia? O senhor pode entender isso?

Bem, democracia é um dos nossos objetivos nacionais permanentes. Não vemos o Brasil fora da democracia. Nosso principal objetivo hoje é fazer do Brasil a democracia mais brilhante do Hemisfério Sul.

É mesmo? E com gente como Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, outro general aposentado, ele disse que acredita que cabe aos militares colocar essa casa em ordem, essa casa, ou seja, o Brasil. Outra ameaça? Você tem todas essas pessoas que estão preparadas para fazer ameaças, mas diz que realmente não há uma ameaça. Estou confuso, senhor vice-presidente.

Bem, isso faz parte da discussão sobre a polarização na política que temos. Ok, são mais palavras do que ações, porque você não vai citar uma única ação do governo Bolsonaro que tenha sido uma ameaça real à democracia aqui no Brasil.

Jair Bolsonaro atende a apoiadoresBolsonaro em ato contra o Congresso: “Não há sentimentos dúbios do presidente sobre a democracia”, diz Mourão

Mas as palavras são importantes na política, não são? O senhor está minimizando tudo, mas até o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, alertou em junho sobre as atitudes dúbias do presidente em relação à democracia. Dubiedade, essa não é uma grande característica para um líder democrático, não é? Ele é dúbio em relação à democracia.

Bem, acho que não há como pensar que haja sentimentos dúbios no presidente Bolsonaro em relação à democracia. Inclusive, no sábado passado, por exemplo, o Bolsonaro e o ministro Toffoli jantaram juntos. Portanto, se o ministro Toffoli tivesse alguma dúvida sobre o comportamento do presidente Bolsonaro, eles não estariam juntos na casa dele. 

O ex-ministro da Justiça Sérgio Moro acusou Bolsonaro de interferir numa investigação sobre a família do presidente, basicamente tentando obstruir a Justiça. Esta é uma alegação altamente prejudicial de um ministro que costumava ser querido e respeitado pelo presidente Bolsonaro, não?

Bom, o senhor Moro fez essas acusações. Elas estão sendo investigadas pelo STF. Estamos aguardando que esta investigação seja concluída. E, claro, temos que esperar que esse processo termine. Eu mesmo, bem, estou ao lado do presidente Bolsonaro durante todo esse tempo e posso dizer que ele não interferiu na Polícia Federal, no trabalho da Polícia Federal para ajudar alguns de seus filhos que estão sendo acusados de algumas coisas erradas.

Como o senhor sabe que não? Como o senhor sabe disso? Ele disse que não interferiu?

Como sei disso? Bem, estou com o Bolsonaro desde 2018. Temos trabalhado juntos, e posso dizer que ele não está interferindo no trabalho da Polícia Federal. A Polícia Federal está fazendo seu trabalho. Eles estão investigando todo esse caso, e nosso sistema Judiciário está investigando os problemas que um de seus filhos tem. Então, eu vejo que esse processo está acontecendo da mesma forma que todos os processos aqui no Brasil.

Qual a importância da verdade em sua administração? Vamos pegar a questão do desmatamento e das queimadas este ano na Amazônia. Dia 10 de agosto, o senhor disse que agentes do governo estavam executando medidas urgentes para conter o desmatamento e as queimadas. Um dia depois, o presidente Bolsonaro disse exatamente o contrário: “Não acharão nenhum foco de incêndio, ou corte de hectare desmatado. Essa história de que a Amazônia arde em fogo é mentira”. Na verdade, era a afirmação dele que era mentira, não? Porque a Amazônia estava claramente pegando fogo naquele ponto.

Bem, não negamos o que está acontecendo, e temos trabalhado muito duro para impedir qualquer desmatamento ilegal e incêndios ilegais que acontecem na Amazônia. O que está claro é que o desmatamento vem aumentando desde 2012, tendo acelerado no ano passado. Desde a segunda quinzena de junho, o desmatamento vem diminuindo. Então o trabalho está começando a render agora e claro, ainda temos o problema dos incêndios. Estamos na estação seca. O período de seca de ano a ano começa a ficar cada vez maior e, claro, temos que ter mais recursos, temos que colocar mais recursos no combate às ilegalidades que acontecem na Amazônia.

Sim, mas quando Bolsonaro, no dia 11 de agosto, disse que não há fogo, que a notícia de que a Amazônia está queimando é mentira, isso mesmo é uma mentira. Não era verdade, era? Simplesmente não era verdade. Então, por que mentir sobre essas coisas?

O que acontece na Amazônia, na questão dos incêndios, é muito claro. Temos mais de 500 mil fazendeiros na Amazônia, e uns 5% deles, uns 25 mil fazendeiros, trabalham em seus campos com fogo. E está bem, esse é um sistema muito antigo para trabalhar no campo. Portanto, temos que fazê-los parar com isso, para que os incêndios não cresçam ano a ano.

O fato é que esses são os piores incêndios em uma década, não são? Em setembro, seus satélites registraram mais de 32 mil mil focos de incêndio na floresta, 61% de aumento em relação ao mesmo mês do ano passado. E tanto em setembro quanto em agosto, quando seu presidente estava nos dizendo que não havia incêndios, o fogo foi igual ou superior ao recorde mensal do ano passado. Então o diretor de ciências do seu Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia disse: “Tivemos dois meses com muito fogo, já está pior que no ano passado. Os satélites podem ver isso”. Por que você nega que está pior do que no ano passado?

Não, não negamos. Não negamos nada, ok? Setembro deste ano está pior do que setembro do ano passado. Mas, como eu disse antes, cerca de 70% desses incêndios estão ocorrendo em áreas que já foram desmatadas há muitos, muitos, muitos anos e que são ocupadas por fazendeiros. Apenas um terço deles está acontecendo em áreas em que eles não deveriam acontecer. E nós estamos lutando contra eles. Desde o início da Operação Brasil Verde 2, que lançamos no mês de maio, paramos cerca de 6 mil focos de incêndio. Portanto, temos feito nosso trabalho.

Hamilton Mourão com Jair Bolsonaro“Estou com o Bolsonaro desde 2018. E posso dizer que ele não está interferindo na PF”, diz o vic-presidente

Vocês têm feito seu trabalho, mas não de forma muito eficaz, ao que parece, de acordo com relatórios locais. Se os incêndios são tão graves, e ainda há 32 mil focos na Floresta Amazônica, um aumento de 61% em relação ao mesmo mês do ano passado, isso não é muito eficaz, não é?

Bem, como eu disse, esta temporada está muito seca, então é o momento em que o fogo ocorre. E, claro, você diz 32 mil focos de incêndio. Trinta e dois mil focos em uma área de 5 milhões de quilômetros quadrados. Acho que você pode concordar comigo que não é algo tão gigante. As pessoas estão falando no mundo todo, porque a Amazônia é muito grande. Então, o que está sendo passado para todo o mundo é que toda a Amazônia está pegando fogo, e isso não aconteceu. Os incêndios acontecem, como eu falei para vocês, em áreas já desmatadas há muitos, muitos anos.

Grupos de direitos humanos acusam seu governo de enfraquecer deliberadamente os esforços de seus próprios agentes federais para impedir o desmatamento. A Human Rights Watch afirma que, embora as autoridades federais tenham imposto milhares de multas por desmatamento ilegal, um decreto presidencial permitiu que a maioria delas não fosse paga. Qual é o propósito de se fazer isso?

Não, não somos coniventes com ilegalidades na Amazônia. Por exemplo, nossas legislações ambientais dizem que qualquer propriedade na Amazônia pode explorar 20% de sua área. Os outros 80% devem ser preservados.

Mas o governo deixa as pessoas escaparem sem pagar multas. Por quê? Quase todo mundo se livra de pagar as multas.

Bom, se as pessoas não pagam multa, a terra que eles têm vai ser apreendida. Mas até hoje, temos um problema de regulação da posse da terra. Precisamos regulamentar isso. Esse é um grande problema que ainda temos no Brasil. E estamos tratando disso no Conselho Nacional [da Amazônia], do qual eu sou o chefe. Esse é um dos meus principais objetivos. Tenho trabalhado junto com o nosso ministro da Agricultura para que possamos seguir em frente com isso, porque é muito importante que resolvamos esse problema, porque só a repressão contra quem está errando não vai acabar com as ilegalidades. Precisamos avançar com a regulamentação fundiária.

Bem, por que esses grupos criminosos envolvidos no desmatamento deveriam parar quando suas penalidades são perdoadas e eles nem mesmo são obrigados a pagar multas? Isso significa que todos se safam sem penalidades, que é exatamente o que vocês queriam. E o senhor Bolsonaro não fez segredo algum de suas intenções. Ele atacou abertamente seus próprios órgãos ambientais, que chamou de “indústrias da multa” e prometeu acabar com seu “festival de sanções”. Então, ele deixou bem claro que queria tirar as sanções, tirar as punições e deixar toda a extração ilegal de madeira ir em frente. Ele foi bem claro sobre isso.

O presidente Bolsonaro falava disso quando era candidato, e candidato, você sabe, fala muita coisa.

Então não era verdade na época? Todos os relatos locais dizem que foi exatamente isso que ele fez.

Colocamos cerca de 300 milhões de dólares em multas. Isto é muito dinheiro. Então, nossos agentes ambientais, eles têm liberdade para fazer seu trabalho. Eles estão aplicando multas a todos que praticam ilegalidades.

Bem, esses não são os relatos vindos da região. Senhor vice-presidente, uma palavra final sobre a pandemia: no que diz respeito ao coronavírus, você tem cerca de 4,7 milhões de casos confirmados, o terceiro maior número de casos no mundo depois dos Estados Unidos e da Índia. Mais casos do que toda a Europa. Não é um ótimo registro, não é mesmo?

Bem, como eu disse antes: ok, o Brasil tem muitas desigualdades. Ok, não somos um país igual. Temos problemas sociais e econômico. E, claro, temos uma geografia enorme aqui no Brasil. Então, tentamos lutar contra isso da melhor maneira possível. Lamentamos por termos perdido as vidas de quase 150 mil brasileiros, mas já curamos mais de 4 milhões de pessoas aqui no Brasil. Portanto, acho que apesar desse número de casos e de mortes, lidamos muito bem com essa crise pandêmica.

De que ajudou o presidente ter chamado a COVID-19 de gripezinha e ter dito às pessoas: “Acho que quase todos vocês vão pegar um dia. Tem medo do quê?” Que tal ter medo de morrer ou ter problemas de saúde no longo prazo ou coágulos sanguíneos? Ele não tem muita simpatia pelo seu povo, tem?

Claro, o presidente sempre se preocupou com as pessoas. O presidente desde o início da pandemia, disse muito claramente: Temos que cuidar da saúde e temos que cuidar da economia, porque sabemos que tem muita gente aqui no Brasil, bom, eles têm muita dificuldade para ganhar seu dinheiro porque estamos vivendo em um período de crise econômica em que não temos empregos para todos. Da noite para o dia, essas pessoas perderam qualquer chance de ter algum tipo de renda. Então o presidente, que conhece as pessoas comuns, sabia disso.

fecho

Esta entrevista com o vice-presidente do Brasil, general Hamilton Mourão, foi inicialmente publicada pela Deutsche Welle Brasil [   ].

Pandemia ocultada: com quase 5 milhões de infectados e mais de 146 mil mortos, Brasil continua como um dos epicentros da COVID-19

 

covid19

A mídia corporativa brasileira foi gradualmente se adaptando à narrativa ditada pelos grandes grupos econômicos e financeiros que, de fato, controlam o governo Bolsonaro. Com isso, todas as notícias que povoavam as manchetes dos grandes veículos da mídia brasileira em março de 2020 agora estão sendo ocultadas em pontos menos nobres, raramente aparecendo nas manchetes e editoriais.

Essa ocultação da gravidade continuada da pandemia da COVID-19 tem várias consequências, sendo que a primeira é que se perde a noção da situação em que efetivamente nos encontramos. Os dados continuam alarmantes, pois segundo dados do site Worldmeters, o Brasil continua acumulando diariamente algo em torno de estratosféricos 30 mil casos, com cerca de 600 mortos a cada dia. Esses números estão mantendo o Brasil como o segundo país em número de óbitos causados pela COVID-19.

Em meio a essa ocultação midiática, vemos os governos estaduais e municipais seguindo a mesma linha adotada desde sempre pelo governo Bolsonaro e autorizando a volta de todo tipo de atividade, sob a chamada “bandeira verde”, sinalizando o contrário do que aquilo que ocorre de fato, qual seja, a continuidade de altos níveis de contaminação e de mortos.

Em algum momento futuro da História do Brasil, os analistas do período em que vivemos apontarão para os responsáveis pela situação vexaminosa em que a maioria dos brasileiros, especialmente os mais pobres, foram postos em meio a uma pandemia letal, sendo literalmente abandonados à mercê da própria sorte. Um lugar particularmente desonroso caberá aos proprietários de veículos de mídia que preferiram ocultar a pandemia, colaborando diretamente para que números desnecessariamente altos de contaminados e mortos fossem alcançados. A História será especialmente madrasta para aqueles que podendo informar e educar, preferiram se ajustar a um discurso que representa a mais pura forma de cumplicidade.

E depois, quando cobrados por essa postura infame, ainda invocam a tal “liberdade de expressão”. É muito cinismo!

 

O delírio do capitão motosserra

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Por 

O Sr. Arnold é o autor de “A Terceira Margem do Rio: Poder e Sobrevivência na Amazônia do Século XXI”.

Este artigo faz parte da série Opinião A Amazônia Viu o Nosso Futuro , sobre como os povos da região vivem as versões mais extremas dos problemas do nosso planeta.

Em meio a conflitos políticos e fumaça visível do espaço, o futuro da Amazônia raramente foi tão nebuloso. Ambientalistas veem uma floresta tropical desaparecendo de conseqüências globais. Líderes indígenas veem uma casa ancestral ainda sendo explorada por colonos após 500 anos de violência genocida. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, vê uma área valiosa desperdiçada por homens das cavernas” e marxistas.

Sessenta por cento da maior floresta tropical do mundo está dentro das fronteiras do Brasil e, desde 2006, viajei milhares de quilômetros na Amazônia, testemunhando como o rio e seu povo passaram por um século de mudanças ecológicas e culturais em uma geração. Por algumas semanas no ano passado, incêndios que bateram recordes na região chamaram a atenção do mundo com uma intensidade que lembra as campanhas de Salve a Floresta da década de 1980, mas este ano, a terra está queimando durante uma pandemia que interrompeu viagens, prejudicou o ambiente esforços de proteção e incentivou mineiros, madeireiros e fazendeiros a invadir terras indígenas com impunidade.

nyt 1Crédito: Amanda Perobelli / Reuters

Nesta primavera, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi capturado em um vídeo instando Bolsonaro a usar a distração do coronavírus como uma cobertura para afrouxar as regulamentações ambientais. “Precisamos fazer um esforço aqui neste período de calmaria em termos de cobertura da imprensa porque as pessoas estão falando apenas sobre a COVID-19”, disse ele, enquanto valas comuns eram cavadas para vítimas do coronavírus em Manaus, capital do Estado do Amazonas.

Bolsonaro, que no mês passado culpou “camponeses e índios” pelos incêndios florestais, encarna a história brutal da Amazônia. “Capitão Motosserra”, como ele se autointitulou presunçosamente , passou seus anos de formação como paraquedista do Exército, idolatrando os generais e autocratas da ditadura apoiada pelos Estados Unidos que governou o Brasil de 1964 a 1985.

Durante o “Milagre Econômico” do Brasil na década de 1970, o presidente militar Emílio Médici proclamou a Amazônia “uma terra sem homens para homens sem terra”, sugerindo que sua selva não desenvolvida e tribos instáveis ​​eram ao mesmo tempo a causa – e a solução – do Brasil desgraças. “Precisamos iniciar o relógio da Amazônia”, escreveu ele em 1971, instando o Brasil a compensar o tempo perdido abrindo a rodovia Transamazônica de 3.400 milhas que passa pelo coração da floresta. Brasileiros do Nordeste assolado pela seca poderiam começar uma nova vida ao longo da rodovia, resolvendo “o problema indígena” ao longo do caminho.

Para os migrantes que atenderam ao chamado do Sr. Médici, o caminho para a salvação terminou em fome. O rico solo superficial de seus terrenos recém-desmatados foi arrastado por chuvas torrenciais. A maioria foi forçada a abandonar seus sonhos, mas não antes que inúmeras tribos fossem massacradas, devastadas por doenças ou realocadas à força, às vezes minutos antes da chegada dos tratores.

nyt 2Crédito: Arquivo Bettmann / Imagens Getty

nyt 3Leo Correa / Associated Press

Décadas depois, milhares de estradas, estrondeando com caminhões madeireiros e reboques de gado, espinha de peixe na floresta tropical na espinha da Transamazônica e rodovias semelhantes. Ao longo da delicada bacia hidrográfica do Amazonas – responsável por mais de 15% das descargas dos rios do planeta nos oceanos – gasodutos e hidrelétricas bombeiam energia para cidades em todo o Brasil. Fazendas industriais enviam bilhões de dólares em carne bovina e soja para um mundo faminto. Manaus hospeda fabricantes multinacionais como Harley Davidson e Samsung ao lado de laboratórios de biotecnologia e universidades que são faróis de pesquisa na floresta tropical.

Trinta milhões de pessoas vivem na bacia amazônica – mais do que as populações dos cinco países nórdicos juntos. Eles incluem povos indígenas, migrantes de todo o Brasil e imigrantes de todo o mundo. No entanto, Bolsonaro gostaria que você acreditasse que a Amazônia é uma selva indomada. Seus apelos por novas estradas, represas, minas e fazendas pintam uma falsa escolha – salvar os brasileiros, ou salvar a floresta tropical – que ignora o fato de que o Brasil tem desenvolvido agressivamente a Amazônia desde o início da Revolução Industrial.

Com o aquecimento do planeta nas próximas décadas, a Amazônia se tornará um berço de descobertas humanas ou uma cena de crime ecológico. A questão para o século 21 não é como extrair mais matéria-prima da floresta, mas como capacitar seu povo a viver de forma sustentável na floresta, da maneira que os indígenas brasileiros faziam antes que os europeus cometessem genocídio no continente.

A Amazônia nunca foi uma terra “sem homens”. Quando um bergantim espanhol navegou pela primeira vez ao longo do rio em 1542, a bacia era o lar de pelo menos oito milhões de pessoas que praticavam a agricultura em grande escala que aproveitava o ciclo natural das águas subindo e descendo.

Armas e armaduras eram de pouca utilidade na floresta. À beira da fome, os espanhóis, portugueses e outros colonizadores dependeram dos povos indígenas para sobreviver, retribuindo essa generosidade com violência. Como na América do Norte, ondas de colonos trataram as tribos como subumanas, mesmo quando exigiram seu trabalho e conhecimento em nome da coroa.

Varíola eviscerou cidades indígenas. Tribos que escaparam de doenças foram capturadas como escravas, frequentemente realocadas para as capitais do sul do Brasil por “bandeirantes” selvagens cujas façanhas foram elevadas ao mito nacional. Outras tribos foram reassentadas em cidades modelo governadas por clérigos ou diretores brancos que os obrigavam a usar roupas, adotar o cristianismo e se casar com seus colonizadores.

nyt 4Biblioteca do Congresso

Algumas tribos fugiram rio acima, apenas para serem capturadas gerações depois, durante o boom da borracha. O Ministério das Relações Exteriores britânico enviou um inspetor, Sir Roger Casement, que havia investigado a brutalidade do rei Leopoldo II no rio Congo, para relatar as acusações de abuso trabalhista. Depois de testemunhar um sistema de cotas de borracha que dependia de amputação progressiva, tortura e estupro para estimular a produção, Sir Roger usou uma nova frase, “crimes contra a humanidade”.

O colapso da indústria da borracha brasileira – depois que um inglês contrabandeou mudas de borracha para a Europa em 1876 – desacelerou as atrocidades, mas não por muito tempo.

Na primeira metade do século 20, o Brasil construiu estradas, linhas telegráficas, portos e pistas de pouso para integrar a floresta tropical ao resto do país, abrindo caminho para “Ordem e Progresso”. Fronteiros como Cândido Rondon e os irmãos Villas Bôas lutaram para proteger os indígenas, mas o Serviço de Proteção aos Índios do Brasil acabou sendo corrompido por burocratas e especuladores.

nyt 5Cortesia Noel Villas Bôas

Na década de 1960, à medida que pistas de pouso foram construídas na Amazônia, alguns exploradores erradicaram tribos usando táticas de guerra, atraindo-as para clareiras – jogando açúcar e outros presentes – e depois bombardeando-as com dinamite. Os corpos foram enterrados ao longo do rio enquanto grileiros abriam caminho para o interior.

Sempre que essas histórias de pestilência e matança são saneadas, as histórias de resistência indígena são apagadas. Os brasileiros glorificam a lenda do cacique Manau Ajuricaba, que preferiu a morte à escravidão, mas a morte não pode ser o único caminho para a liberdade indígena no imaginário brasileiro.

Nas décadas de 1960 e 1970, tribos se organizaram para preservar suas terras e patrimônio com o apoio de ativistas e do clero do Movimento de Teologia da Libertação. Na década de 1980, quando as hidrelétricas ameaçaram o rio Xingu, uma indígena, Tuira Kayapó, encostou seu facão no rosto de um engenheiro hidrelétrico , alertando sua empresa para que saísse da terra.

Os direitos indígenas foram garantidos na Constituição brasileira de 1988, e a Amazônia foi consagrada como patrimônio nacional – com direito à terra garantido aos povos indígenas que ali viviam. Mas as violações persistiram. Na década de 1990, líderes como o xamã Yanomami Davi Kopenawa viajavam pelo mundo para soar o alarme sobre os garimpeiros invadindo o território de seu povo. Seus piores temores se concretizaram em 1993, quando uma tribo Yanomami – incluindo crianças e idosos – foi massacrada por um bando de garimpeiros. Os perpetradores foram condenados por genocídio.

O fato de quase um milhão de indígenas brasileiros ter sobrevivido na Amazônia é uma prova de sua resiliência – e da vastidão da floresta. Hoje, as tribos combinam a engenhosidade tradicional com a tecnologia moderna para defender suas terras, compartilhar suas histórias e ajudar grupos isolados a evitar a exploração e o derramamento de sangue que se abateu sobre seus ancestrais. Até o capitão Chain Saw notou: “Os índios estão evoluindo”, disse Bolsonaro em janeiro . “Cada vez mais eles são seres humanos como nós.”

Brasileiros de direita e esquerda se arrepiam com a noção de que administraram mal a maioria de seu território enquanto negligenciam os milhões de pessoas que vivem lá. Quando os incêndios do ano passado atraíram a ira de líderes e investidores internacionais, Bolsonaro disse a um grupo de repórteres europeus: “A Amazônia é nossa, não sua ”, ecoando uma suspeita de longa data no Brasil de que os estrangeiros estão de olho na Amazônia.

Muitos apontam como os Estados Unidos trataram seus povos indígenas e florestas primárias como evidência de que os forasteiros devem ficar calados. “Não quero nenhum gringo nos pedindo para deixar um residente da Amazônia morrer de fome debaixo de uma árvore”, disse o ex-presidente brasileiro e fundador do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, a uma audiência na Cúpula da Amazônia de 2009.

nyt 6Mario Tama / Getty Images

Como dupla cidadania americana e brasileira que testemunhou os fracassos sociais, ambientais e econômicos de ambos os países, vejo a Amazônia de duas perspectivas. A pressão internacional muitas vezes forçou os líderes do Brasil a viver de acordo com os ideais de sua Constituição. A Amazônia é vital para a regulação do carbono e o abastecimento de água doce da Terra, e abriga pelo menos 10% de sua biodiversidade– e todos no planeta dependem de sua saúde.

Mas isso não significa que a Amazônia seja de todos. Concertos beneficientes de Celebridades e desenhos animados nas manhãs de sábado dedicados a salvar a floresta tropical reforçaram inadvertidamente as atitudes colonialistas em relação à Amazônia. Enquanto esses esforços agitavam a consciência do mundo, eles tendiam a agrupar a flora e a fauna com as pessoas, retratando as comunidades indígenas como espécies de um passado distante que precisavam ser protegidas, ao invés de seres humanos tensos presentes com ambições para o futuro.

Tanto capitalistas quanto ambientalistas podem querer resistir, mas o futuro já chegou à floresta tropical brasileira – e se parece muito com o passado: caótico, injusto e insustentável.

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Bruno Kelly / Reuters

nyt 8Felipe Dana / Associated Press

Em cidades como Manaus, as elites se deleitam com as vistas do pôr-do-sol do rio em edifícios altos e comem sushi em shopping centers com ar-condicionado. Uma classe média em ascensão, composta principalmente de brasileiros não indígenas, participa de festivais de food truck, torneios Texas Hold ‘Em e cervejarias artesanais. Durante a Copa do Mundo FIFA de 2014 e as Olimpíadas de 2016, vi multidões de fãs internacionais de futebol inundarem Ubers e Airbnbs.

Mas, embora os luxos tenham crescido, serviços essenciais como transporte público, segurança e saúde são de qualidade inferior ou inexistentes. Prisões superlotadas rotineiramente sofrem espasmos com tumultos horríveis enquanto funcionários do governo negociam com chefes do crime para obter votos de seus bairros. Os moradores carecem de água, saneamento e eletricidade. Os bairros urbanos são dominados por traficantes de drogas e policiais desonestos, enquanto as tribos no interior são ameaçadas por mineiros, perfuradores e madeireiros. Eles deixam em seu rastro mercúrio, óleo derramado, tocos de árvores, sobreviventes de violência e agressão sexual e patógenos como a gripe, que são tão novos lá quanto o coronavírus.

Durante a pandemia, milhares de pessoas na Amazônia morreram em suas casas porque não há hospitais suficientes. Em sua resposta apressada, asprópriasequipes de socorro do governo podem ter sido responsáveis ​​pela disseminação do vírus enquanto se apressavam em fornecer drogas testadas e não comprovadas como a cloroquina para as tribos vulneráveis.

Os resultados caóticos desse desenvolvimento desordenado não são tão visíveis em nenhum lugar como em Altamira, no Pará, no norte, onde a hidrelétrica de Belo Monte acionou suas primeiras turbinas em 2016 às margens do Rio Xingu.

A barragem era uma parceria público-privada, parte da tentativa amplamente admirável do presidente Lula de evocar uma nova história na Amazônia, uma de desenvolvimento verde sustentável, ecoturismo e inclusão indígena.

Ainda assim, quando a barragem foi anunciada, os líderes indígenas foram rápidos em se organizar contra ela, retardando o desenvolvimento por tempo suficiente para negociar concessões ambientais e econômicas do consórcio Norte Energia que supervisiona o projeto.

nyt 9IndígenasLunae Parracho / Reuters

Na prática, essas avaliações de impacto eram ridículas. E embora a Norte Energia diga que suas operações são baseadas nas melhores práticas no que diz respeito aos direitos humanos e responsabilidade ambiental, suas promessas de fornecer assistência financeira e habitacional para os moradores indígenas deixaram a região em desordem. Thaís Santi, procuradora federal, acusou o governo brasileiro e a Norte Energia de “etnocídio” em 2015 por integrar à força grupos indígenas na sociedade moderna, muitas vezes colocando as gerações mais jovens contra os mais velhos.

Quando viajei para Altamira em abril de 2016, a cidade havia aumentado de 30.000 habitantes para mais de 100.000 em apenas alguns anos. Os professores abandonaram as aulas para trabalhar na barragem. Em uma comunidade acostumada a se locomover a pé ou de bicicleta, os hospitais foram invadidos por pedestres atropelados por carros. A margem do rio onde as crianças brincavam foi empurrada para um calçadão com uma pista de skate onde crianças sem skates sentaram-se na borda do halfpipe, olhando para suas antigas piscinas naturais.

nyt 10Andre Penner / Associated Press

Em toda a cidade, os outdoors da Norte Energia prometiam projetos de construção – parques, escolas e hospitais – com datas de conclusão indefinidas.

A nova Altamira orgulhava-se de sua reputação de “Cidade do Trabalho”, mesmo que todos os seus serviços básicos, desde energia, transporte, parques e segurança pública, fossem terceirizados para o consórcio. Famílias que passaram gerações vivendo à luz do fogo no Rio Xingu foram forçadas a se mudar para residências suburbanas conectadas à energia da Norte Energia que elas não podiam pagar.

Um pescador com quem conversei lamentou não ter visto o rio há semanas, acrescentando: “Eu costumava acordar lá todas as manhãs”.

Sem liderança local, transparência e forte supervisão, parcerias público-privadas como essas se tornam bestas de duas cabeças: a burocracia kafkiana trabalhando a serviço de negócios vorazes. Mas um plano real para o futuro da Amazônia precisará inspirar tanto os industriais quanto os ambientalistas. É preciso reconhecer a Amazônia como vital para os bens comuns globais, mas também como um lar para milhões de brasileiros com direito à soberania e autodeterminação.

O mito da floresta tropical intocada perdurou porque é fácil para os consumidores imaginar. É mais fácil arrecadar fundos contra escavadeiras que derrubam florestas antigas do que apoiar fazendeiros itinerantes que queimam pastagens para pastar seu gado ósseo. É mais fácil encomendar móveis certificados pelo código florestal na Amazônia do que questionar como a madeira de lei da floresta amazônica acabou na passarela da Ponte do Brooklyn. É mais fácil condenar os frigoríficos industriais do que entender como a crescente classe média da China – e a guerra comercial dos EUA – alimentam a demanda por carne bovina e soja da Amazônia. É mais fácil torcer por um chefe com um cocar e um arco do que se unir em torno de líderes indígenas com bicicletas sujas, celulares e espingardas.

Erros de desenvolvimento – das cidades modelo colonial ao boom da borracha, à Transamazônica e a Belo Monte – mostram como, apesar dos desafios de viver na floresta, ou talvez até por causa deles, este lugar de tirar o fôlego inspira grandes sonhos. E grandes sonhos são exatamente o que a Amazônia precisa.

nyt 11Victor Moriyama para o The New York Times

Uma lição de 2020 é que, em momentos de crise, ideias politicamente impossíveis podem se tornar possíveis da noite para o dia. A COVID-19 estimulou a telemedicina, o ensino à distância e a renda básica universal da periferia ao mainstream. O apoio global ao movimento Black Lives Matter despertou milhões de pessoas para ver a história – e o futuro – sob uma nova luz. Incêndios florestais apocalípticos na costa oeste da América estão queimando em conjunto com incêndios agrícolas na Amazônia, mostrando como nosso futuro climático está entrelaçado entre os hemisférios.

Resolver problemas antigos exigirá fazer novas perguntas. Como drones e veículos autônomos podem melhorar o transporte na Amazônia? Como as constelações de satélites poderiam conectar vilas remotas a uma melhor educação e assistência médica? Como cidades como Manaus, Santarém e Belém podem se tornar líderes internacionais em biotecnologia, ao invés de centros de embarque de commodities?

nyt 12Carl De Souza / Agence France-Presse – Getty Images

Primeiro, o governo Bolsonaro deve reconhecer que a Amazônia está se urbanizando tão rapidamente quanto qualquer região do mundo. Em vez de incentivar os desenvolvedores a mergulhar mais fundo na floresta, ela deve investir nas cidades existentes. Conceda contratos para mais escolas, centros de tratamento de água e hospitais, e não para estradas de penetração e prisões privadas.

Em segundo lugar, reduzir a escalada da guerra contra as drogas e voltar a focar na corrupção nos corredores dos governos estaduais e locais. O tráfico é um problema, mas a questão mais preocupante é que os traficantes podem fornecer às comunidades uma sensação de segurança e coesão que elas não obtêm do estado.

Terceiro, embora as exportações agrícolas do Brasil estejam em alta, os pecuaristas dependem excessivamente de fertilizantes e pesticidas, da destruição de novas terras e de práticas trabalhistas abusivas semelhantes à escravidão. Em vez de incitar os agricultores a limpar novas pastagens, ajude os agricultores a criar rebanhos mais saudáveis ​​nas terras existentes.

Por último, um suposto presidente da lei e da ordem como Bolsonaro deveria redobrar – e não enfraquecer – as agências que fazem cumprir as leis ambientais e os direitos indígenas. Restaurar financiamento para as agências de proteção ambiental e indígena do Brasil. Elabore novos acordos de biotecnologia que garantam que as espécies sejam coletadas, estudadas e analisadas no Brasil pelos brasileiros para que a bioprospecção do futuro não seja tão exploradora como a extração ilegal de madeira e a mineração de ouro hoje.

Os conselhos indígenas devem desempenhar um papel de liderança ao decidir quais terras e conhecimentos são sagrados, o que pode ser compartilhado com o mundo e a melhor forma de recuperar uma parte justa das recompensas. Com os recursos certos, eles poderiam ser administradores exemplares da terra, reduzindo o risco de incêndio, organizando equipes de aplicação da lei para defender suas fronteiras e ensinando ao mundo o respeito por uma floresta que estranhos geralmente observam por meio de satélites.

Claro que tudo isso supõe que Jair Bolsonaro está governando racionalmente, no interesse de todos os brasileiros. Como a pandemia de coronavírus deixou claro, como sua contraparte nos Estados Unidos, Bolsonaro tem os olhos no passado, não no futuro, e não tem temperamento e autoridade moral para liderar um tour pelo palácio presidencial, muito menos um democracia multirracial. Até mesmo os generais da era da ditadura que Bolsonaro tanto admira ficariam envergonhados de sua falta de estratégia na região mais vital do Brasil.

As pesquisas mostram que os brasileiros valorizam a floresta tropical e entendem a ameaça da crise climática. Se o Capitão Serra Elétrica continuar a cortar a Amazônia, a próxima geração de líderes brasileiros vai cortar seu governo.

O Amazonas não é um rio plácido, mas um redemoinho das preocupações mais urgentes de nossa era: mudanças climáticas, saúde pública e justiça econômica e ambiental. Não é um atraso e seu povo não é atrasado. Na verdade, eles estão vivendo as versões mais extremas dos problemas mais urgentes do nosso planeta, lutando por suas vidas – e pelas vidas de seus filhos.

Chris Feliciano Arnold é o autor de “A Terceira Margem do Rio: Poder e Sobrevivência na Amazônia do Século XXI”.

Foto da capa de Victor Moriyama para o The New York Times. Foto de destaque da capa por Carl De Souza / Agence France-Presse – Getty Images

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times” [Aqui!].

Enquanto o Pantanal ardia em chamas, o governo Bolsonaro pouco fez para ajudar

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Por TATIANA POLLASTRI e DAVID BILLER para a Associated Press

PORTO JOFRE, Brasil (AP) – Depois de horas navegando no Pantanal brasileiro em busca de onças no início deste mês, Daniel Moura encalhou seu barco para avaliar os danos causados ​​pelo fogo. Em todas as direções, ele viu apenas devastação. Sem vida selvagem e sem apoio das autoridades federais.

“Costumávamos ver onças aqui o tempo todo; Certa vez, vi 16 onças-pintadas em um único dia ”, disse Moura, um guia dono de uma unidade de ecoturismo, à beira do rio, no Parque Estadual Encontro das Águas, que este ano viu 84% da vegetação destruída.

“Onde estão todos aqueles animais agora?”

Maior área úmida tropical do mundo, o Pantanal é popular para a observação de felinos furtivos, juntamente com jacarés, capivara e muito mais. Este ano está excepcionalmente seco e queimando a uma taxa recorde. Os incêndios têm sido tão intensos que a certa altura a fumaça atingiu São Paulo, a 1.400 quilômetros de distância.

ap 2Uma onça-pintada se agacha em uma área recentemente queimada por incêndios florestais no parque estadual Encontro das Águas, no Pantanal próximo a Pocone, Mato Grosso, Brasil, domingo, 13 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

ap 3Incêndio consome uma área próxima à rodovia Trans-Pantanal no Pantanal perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, sexta-feira, 11 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

O governo do presidente Jair Bolsonaro afirma que mobilizou centenas de agentes federais e militares para apagar as chamas. No entanto, ao longo da única rodovia que atravessa o Pantanal norte, dezenas de pessoas – bombeiros, fazendeiros, guias turísticos e veterinários – disseram à Associated Press que o governo exagerou em sua resposta e há poucas botas federais no local.

A pouca assistência concreta veio principalmente de aviões lançando água de cima, disseram os moradores, mas isso só aconteceu após um grande atraso e teve como alvo principalmente fazendas em vez de áreas protegidas. Para piorar as coisas, várias aeronaves permaneceram paradas no início do inferno.

“Não consigo ver muita ajuda federal; somos basicamente nós aqui ”, disse Felipe Augusto Dias, diretor executivo do SOS Pantanal, um grupo ambientalista.

ap 4Turistas sentam-se na grade de uma ponte depois que seu ônibus turístico de pesca esportiva ficou preso em uma ponte danificada por incêndios florestais, na rodovia Trans-Pantanal no Pantanal perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, sexta-feira, 11 de setembro de 2020. (AP Foto / Andre Penner)

Os dois lados da Rodovia Trans-Pantanal – área que deveria apresentar poças de água, mesmo na época da seca – estava seca. Até domingo, quase um quarto do Pantanal – uma área maior que o tamanho de Maryland – havia sido consumido pelo fogo, de acordo com imagens de satélite da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A vegetação do Pantanal pode se regenerar rapidamente com a chuva, mas os animais selvagens que sobrevivem ficam presos sem habitat.

Ao longo dessa paisagem chamuscada estavam animais feridos e desorientados, além de cadáveres carbonizados de outros. No rio, Moura passou por uma sucuri morta de 2 metros de comprimento, enroscada em um galho de árvore caído. Um cervo, perdido e sozinho em meio a arbustos queimados, olhou para o barco. O céu era de uma laranja apocalíptica.

Os incêndios no Pantanal começaram a queimar intensamente em julho e continuaram até setembro. O número de incêndios até agora este ano – mais de 17.000 – ultrapassa o total de 12 meses para todos os anos registrados, desde 1998, e é o triplo da média anual, de acordo com dados da agência espacial do governo, que usa satélites para conte as chamas.

ap 5Um veado ergue-se às margens do rio Piqueri no Parque Encontro das Águas perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, sábado, 12 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

Os incêndios, quer sejam intencionalmente ou resultantes de quedas de raios, podem facilmente sair de controle na estação seca. Uma investigação da Polícia Federal indica incêndios para limpar pastagens em quatro fazendas espalhadas por 25.000 hectares (quase 100 milhas quadradas), disse o detetive Alan Givigi. O incêndio queimou áreas de preservação e um parque nacional.

Discursando na Assembleia Geral das Nações Unidas na semana passada, Bolsonaro disse que o Brasil foi alvo de uma campanha de desinformação e comparou a vulnerabilidade do Pantanal à da Califórnia – sem notar que os incêndios florestais no Pantanal deste ano destruíram uma área duas vezes maior que as da Califórnia.

“Grandes incêndios são consequências inevitáveis ​​da alta temperatura local, além do acúmulo de matéria orgânica em decomposição”, disse ele em sua mensagem pré-gravada.

Com a grande ausência de agentes do governo, os bombeiros e voluntários esculpiram aceiros e usaram baldes e mangueiras para combater paredes de chamas. Em uma estrada de terra ao largo do Trans-Pantanal, um homem carregando uma bacia de água correu de seu caminhão-pipa improvisado até um trecho de vegetação em chamas. Teve pouco efeito, pois o vento redirecionou as chamas em direção a uma árvore, fazendo-a explodir como se tivesse sido encharcada com gasolina.

ap 6Abutres estão perto da carcaça de um jacaré nas margens do rio Cuiabá no parque estadual Encontro das Águas, no Pantanal próximo a Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, sábado, 12 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

Uma garça sobrevoa um jacaré nas margens do quase seco rio Bento Gomes, no Pantanal próximo a Pocone, Mato Grosso, Brasil, segunda-feira, 14 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

Um jacaré surge de um campo verde enquanto um incêndio consome uma área próxima à rodovia Trans-Pantanal no Pantanal perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, sexta-feira, 11 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

O Ministério da Defesa do Brasil disse à AP que os números variam de dia para dia, mas em 14 de setembro, a Marinha tinha 172 militares no Pantanal em Mato Grosso, junto com 139 agentes federais e 11 aeronaves. No mesmo dia, o Corpo de Bombeiros do Estado de Mato Grosso informou que a contagem de Marinha e agentes era de apenas 60 e havia apenas um avião.

Durante os cinco dias que os jornalistas da AP percorreram o Pantanal neste mês, eles não viram um único membro das Forças Armadas do Brasil.

O ministério da defesa não respondeu às perguntas da AP sobre a disparidade entre seus números e os dos bombeiros.

O Instituto Chico Mendes, que administra os parques federais para o Ministério do Meio Ambiente, contratou cinco aviões para lançar água em Mato Grosso, informou um comunicado do ministério.

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Mas os pilotos reclamaram que não tiveram permissão para voar quando chegaram em meados de agosto, quando os incêndios já estavam queimando há semanas, apesar de visibilidade suficiente para fazê-lo.

“Os pilotos disseram claramente: se aqueles cinco aviões lutassem durante aquela semana, não teria havido um grande incêndio”, disse Mario Friedlander, ambientalista e fotógrafo que trabalha na região há 40 anos e veio como voluntário, disse à AP. “O incêndio teria sido drasticamente controlado.”

Um piloto disse que a missão estava atrasada porque os responsáveis ​​queriam esperar a chegada do ministro do Meio Ambiente. Mas, quando o pânico se instalou, ele disse que os aviões foram ordenados a decolar para apagar incêndios em pontes no Trans-Pantanal e depois mandados parar novamente.

Só depois da chegada do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em 18 de agosto, os voos começaram com certa regularidade, disse o piloto, que pediu anonimato por temer perder o emprego.

O ministério do meio ambiente se recusou a responder aos repetidos pedidos de comentários. No entanto, uma fonte do Instituto Chico Mendes disse que jogar água de aviões só ajuda se houver apoio de solo, o que às vezes não existia. Caso contrário, voar pode ser ineficaz, disse a fonte, que falou sob condição de anonimato porque não estava autorizado a falar publicamente.

Enquanto isso, com o aumento dos incêndios, animais foram feridos, deslocados ou morreram. Os bombeiros e a secretaria de meio ambiente de Mato Grosso criaram um centro de resgate de animais.

ap 9Um jacaré fica em um campo verde enquanto um incêndio consome uma área próxima à rodovia Trans-Pantanal no Pantanal perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, sexta-feira, 11 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

ap 10A veterinária Karen Ribeiro segura um jabiru, enquanto outros veterinários examinam a asa do pássaro ferido, em um centro criado para animais feridos em incêndios no Pantanal perto de Poconé, estado de Mato Grosso, Brasil, sexta-feira, 11 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

“Tentamos ter esperança de resgatar os poucos animais que pudermos”, disse a veterinária Karen Ribeiro após tratar a asa ferida de um jabiru – uma ave enorme que é um símbolo do Pantanal.

Dias, o diretor do SOS Pantanal, também disse que os voluntários começaram a se concentrar menos no combate a incêndios do que em resgatar animais, deixando frutas em lugares onde criaturas perdidas podem encontrá-las.

Depois de oito horas de busca, Moura, o guia, finalmente encontrou uma onça. Ele estava mancando; provavelmente ele havia queimado as patas, disse ele. Eventualmente, ele se deitou em um local de vegetação parcialmente queimada.

No início deste mês, o governo brasileiro aprovou 13,9 milhões de reais (cerca de US $ 2,5 milhões) para combater os incêndios, embora a maior parte do dinheiro dependa de Mato Grosso obter a aprovação de projetos antes do prazo de 90 dias. Há uma semana, enviou 43 bombeiros da guarda nacional para a região.

Os novos fundos e tropas chegaram quase dois meses após o início das chamas no Pantanal e pouco antes das chuvas serem previstas.

Moura disse duvidar que o dinheiro chegue a tempo de fazer alguma diferença.

“Infelizmente, é essa a situação”, disse Moura. “Eles agem como se estivessem apagando o fogo, e nós agimos como se acreditássemos nisso”.

ap 11Pássaros passam voando enquanto um incêndio consome uma área próxima à rodovia Trans-Pantanal no Pantanal perto de Pocone, estado de Mato Grosso, Brasil, sexta-feira, 11 de setembro de 2020. (AP Photo / Andre Penner)

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Biller contribuiu do Rio de Janeiro. Mauricio Savarese contribuiu de São Paulo.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Associated Press [Aqui!].

A démarche destrutiva de Ricardo Salles revela a verdadeira (anti) natureza do governo Bolsonaro

bolsonaro-ricardo-sallesJair Bolsonaro e Ricardo Salles, os dois artífices do caos ambiental brasileiro

No dia de ontem, a reunião de um hoje amputado Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) decidiu aprovar uma série de graves regressões existentes para a proteção de manguezais, áreas de restingas e mananciais hídricos brasileiros. Os interessados nessas regressões são os segmentos de sempre (latifundiários, incorporadores imobiliários, fabricantes e grandes usuários de venenos agrícolas, e empresários ligados à criação de camarão) e o carrasco é o anti-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

As votações pela anulação de resoluções que protegiam áreas ecologicamente sensíveis e impediam a retirada excessiva de água para irrigação, bem como a queima de embalagens de agrotóxicos, foram por uma maioria expressiva, refletindo a expulsão da sociedade civil e de órgãos ambientais da composição do Conama. Em outras palavras, essa foi uma maioria friamente calculada e produzida a partir do primeiro dia em que Ricardo Salles sentou o pé no Ministério do Meio Ambiente para transformá-la em uma espécie de “Ministério dos Poluidores”. 

Essa atuação de Ricardo Salles é uma expressão acabada da materialização do “passa boiada” que ele publicamente explicitou na malfadada reunião ministerial de 22 de abril. O avanço dessa démarche trará graves impactos para o meio ambiente brasileiro, com o potencial de causar graves alterações que atingirão quem hoje vive nos estados costeiros, seja pela perda de serviços ambientais ou pela invasão por parte de grandes conglomerados internacionais que irão impor uma espécie de recolonização de praias e restingas, bem como a completa destruição de ecossistemas de manguezais. Isto sem falar no aprofundamento da verdadeira orgia do veneno em que transformou a liberação de agrotóxicos banidos em outros países, mas liberados para uso no Brasil.

E que ninguém se engane acerca do significado dessa regressão ambiental, pois ela estava mais do que anunciada pelo então candidato Jair Bolsonaro, ainda que nunca tivesse explicado como ela se daria.  Assim, o que estamos agora vendo é a apenas uma pequena fração do processo de destruição que está sendo planejado para ocorrer no Brasil enquanto o atual governo ultraneoliberal de Bolsonaro/Guedes estiver no poder. Entender isso será a primeira condição para que haja a devida reação.  Do contrário, não vai sobrar nada para ser protegido quando esse governo chegar ao seu fim que promete ser melancólico.

Quem desejar entender melhor o que ocorreu ontem na reunião do Conama, sugiro a leitura da nota técnica preparada pela organização não-governamental “Política por Inteiro”, que pode ser acessada [Aqui!].

Governo Bolsonaro não vai tão bem como parecia: EXAME/IDEIA mostra que aprovação caiu aos níveis do início da pandemia da COVID-19

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A aprovação de Jair Bolsonaro despencou, de 40% para 35%, nas últimas semanas, segundo pesquisa publicada pela Exame/Ideia nesta sexta-feira (25). O levantamento também indicou que 42% da população reprova as ações do Governo Federal. 

A pesquisa, que entrevistou 1.200 pessoas por telefone, em todas as regiões do país, entre os dias 21 e 24 de setembro, indica alta do preço da cesta básica somada a redução do auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300, foram essenciais na reprovação de Bolsonaro. 

Aprovacao-Bolsonaro

Segundo reportagem publicada no portal Exame, a maior rejeição a Bolsonaro encontra-se nos grupos mais vulneráveis. No grupo dos mais insatisfeitos estão aqueles que não conseguiram completar o ensino fundamental (41%) e ganham até um salário mínimo (54%). Já entre os brasileiros que seguem apoiando o governo, a maioria é formada por pessoas com renda superior a cinco salários mínimos (49%), com diploma universitário (40%) e é moradora da região centro-oeste (42%).

O levantamento também indicou que hoje 34% dos brasileiros consideram o governo ótimo ou bom. Outros 26% avaliam a gestão de Jair Bolsonaro como regular e 39% classificam sua administração como ruim ou péssima.

Ainda segundo a reportagem, no grupo dos mais decepcionados com o presidente estão aqueles que não conseguiram completar o ensino fundamental (41%) e ganham até um salário mínimo (54%). Já entre os brasileiros que seguem apoiando o governo, a maioria é formada por pessoas com renda superior a cinco salários mínimos (49%), com diploma universitário (40%) e é moradora da região centro-oeste (42%).

Aprovacao-governo

A questão para mim é simples: determinadas pesquisas ainda não tinham captado a mudança de humor que está ocorrendo na população em função da situação catastrófica em que se encontra a maioria dos brasileiros neste momento.  Como sempre disse para pessoas mais próximas, os números ainda não estavam captando bem determinadas mudanças súbitas que já deveriam estar acontecendo. 

Se essa pesquisa já está sendo capaz de identificar uma mudança de humor sustentada ou não são outros quinhentos. Mas nada do que está acontecendo na vida real dos brasileiros pobres indica que a opinião pública vá mudar favoravelmente sem que haja uma mudança radical na política econômica do governo Bolsonaro.  

Um erro que pode se mostrar fatal foi a redução de R$ 600 para R$ 300 que afetou justamente os segmentos que aparecem como mais descontentes na pesquisa da Exame/Ideia. Como diria Sherlock Holmes: elementar, meu caro Watson!

Observatório dos agrotóxicos: em dois atos, governo Bolsonaro aumenta tsunami de agrotóxicos no Brasil

bolso-agrotoxicos

Enquanto o fogo consome a Amazônia e o Pantanal e quase 140 mil brasileiros já morreram por causa da COVID-19, o governo Bolsonaro segue sua marcha firme de liberações de agrotóxicos, com a publicação dos Atos 51 e 55  de 2020 por meio dos quais mais 45 agrotóxicos foram autorizados para comercialização no Brasil, totalizando 323 venenos agrícolas liberados apenas em 2020. Com isso, o grande “total” de produtos liberados em pouco mais de 20 meses de governo Bolsonaro chega a incríveis 826 agrotóxicos.

pais de origemPaíses que sediam indústrias que fabricam os agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro em 2020

Essa nova rodada de aprovações reforça o papel da China como principal produtora dos agrotóxicos consumidos pelo Brasil, sendo que o gigante asiático concentra 51,7% de todo os produtos liberados pelo governo Bolsonaro. Este dado reforça a relação simbiótica entre o latifúndio agro-exportador brasileiro e a China. É que não apenas a China é a principal compradora da soja, justamente a commodity que mais precisa dos agrotóxicos “Made in China” para se tornar viável.

Outro aspecto recorrente é aprovação de agrotóxicos proibidos pela União Europeia em uma proporção costumeira de 30%.  Aí estão incluídos produtos como a Ametrina, o Fipronil e o Tiametoxam.  Outros produtos controversos como o Dicamba e o Glifosato continuam sendo aprovados em que pesem todos os problemas de regulação que estão enfrentando nos EUA, que possui uma legislação comparativamente mais flexível do que a adotada pela União Europeia.

Um detalhe que emerge das análises que tenho feito sobre a produção dos agrotóxicos que estão sendo aprovados no Brasil é que empresas europeias como Basf, Bayer e a própria Syngenta estão deslocando a produção de determinados venenos não apenas para a China, mas também para países dentro da União Europeia como Espanha e Itália, provavelmente com um mecanismo de escapar de mecanismos regulatórios mais estritos já existentes na Alemanha e Suíça para produtos banidos nestes países , mas que continuam sendo produzidos por corporações sediadas nestes países.

No tocante à toxicidade desses produtos, as recentes mudanças realizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para mudar os critérios de impacto sobre a saúde humana acabaram criando uma situação que é, no mínimo, curiosa. É que para todos os produtos aprovados nestes dois atos, a toxicidade humana é menor do que a ambiental. Em outras palavras, produtos reconhecidamente tóxicos e que estão banidos em outros países justamente pelos seus danos à saúde humana como é o caso da Atrazina e do Acefato, no Brasil agora passaram a ser mais perigosos para o meio ambiente do que para os seres humanos.

Mural Virtual - Educação Ambiental: CHUVA DE VENENO AMEAÇA PARQUES NACIONAIS

Enquanto isso as chamas incineram as florestas da Amazônia e os animais do Pantanal para abrir mais caminho para os venenos que estão sendo liberados pelo governo Bolsonaro. E com isso, claro, teremos mais veneno nos nossos rios, na água que consumimos e na comida que ingerimos. 

Para acessar a planilha contendo os agrotóxicos liberados pelo Ato 51, basta clicar [Aqui] .

Para acessar a planilha contendo os agrotóxicos liberados pelo Ato 55, basta clicar [Aqui!] .

Para acessar a planilha contendo todos os agrotóxicos liberados em 2020, basta clicar  [Aqui!].

 

 

Noruega dará acesso universal gratuito a satélite no qual o governo Bolsonaro gastaria R$ 49 milhões

Noruega acaba com brincadeira de satélite da Defesa e da Polícia Federal

O Planet fornecerá mapas de base de alta resolução de todos os trópicos, cobrindo mais de 64 países em desenvolvimento, com atualização mensal

world map

Por Luiz Nassif para o Jornal GGN

A brincadeira cara do Ministério da Defesa e da Polícia Federal, de terem um satélite para chamarem de seu, acabou. O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) teve queda de financiamento para atender aos desejos da ala policial do governo.

A brincadeira acabou. Ontem, o Ministério do Clima e Meio Ambiente da Noruega assinou um contrato com a Kongsberg Satellite Services (KSAT), que, juntamente com a Planet e a Airbus , fornecerá acesso universal ao monitoramento de alta resolução por satélite dos trópicos.

Através dessa coalisão, as três organizações disponibilizarão novas tecnologias para a Iniciativa Internacional de Clima e Florestas da Noruega (NICFI). É um contrato de 37 milhões de euros para proteger as florestas tropicais do mundo.

O Planet fornecerá mapas de base de alta resolução de todos os trópicos, cobrindo mais de 64 países em desenvolvimento, com atualização mensal.

Qualquer pessoa poderá utilizar os dados, até o vice-presidente Hamilton Mourão, responsável pelo monitoramento da Amazônia, e que recentemente acusou funcionários do INPE de vazar informações – mesmo sabendo que as informações eram públicas. O que comprovou que uso de informações falsas é um estilo de governo que transcende Bolsonaro

A partir de meados de outubro, qualquer pessoa poderá baixar os mapas-bases mensais prontos para análises por meio da plataforma de imagens de satélite online da Planet, o Planet Explorer.

A Airbus também fará parte da equipe, contribuindo com seu acervo de imagens SPOT de alta resolução. Os satélites da Airbus foram relevantes para o uso comercial de imagens de satélite permitindo a cobertura de grandes áreas em tempo recorde.

A Airbus Defense monitora a terra há mais de trinta e cinco anos. Segundo François Lombard, chefe de Negócios de Inteligência da Airbus Defesa e Espaço,  “nosso arquivo SPOT 5 permitirá aos usuários voltar no tempo e entender os processos que levaram à situação atual, a fim de ajudar a evitar que aconteçam novamente no futuro.”

Embora a Global Forest Watch esteja fornecendo acesso a dados geoespaciais ao público por meio do contrato do NICFI, ela também está trabalhando com a Autoridade de Desenvolvimento Florestal na Libéria, Associação de Conservação da Amazônia (ACA) e muitos mais.

fecho

Este texto foi originalmente publicado no Jornal GGN [Aqui!].

A perda da credibilidade do governo brasileiro frente aos dilemas internacionais e na degradação ambiental das florestas

fogo

Por Junio Cesar dos Santos Carmo e  Gabriel Henrique Alves*

Com o pós Guerra Fria e a entrada no século XXI novas demandas tomaram espaço na agenda internacional, perdendo o caráter estrito voltado para segurança e armamento como definição de poder. Com o adjunto do acordo de Paris (2015), do Protocolo de Kyoto (1997), da Agenda 2030 e outras convenções que permeiam a temática da preservação ambiental, quanto a redução da emissão de gases, desenvolvimento sustentável, energias renováveis e etc; a pauta sobre meio ambiente tem adquirido relevante proporção nos debates internacionais. Entre 2019 e 2020, ocorreu um crescimento considerável nos incidentes que envolvem desastres ambientais, sobretudo no que tange às queimadas e a emissão de CO₂. Nesse sentido, o Brasil obteve palco em inúmeros canais de telecomunicações internacionais, vis a vis, a degradação ambiental na Amazônia e no momento atual com os incêndios no Pantanal. Tais notícias trouxeram novamente a discussão sobre a irresponsabilidade dos Estados latino-americanos na proteção do meio ambiente e a necessidade de um estatuto internacional para a “preservação da Amazônia”. A constituição do sistema anárquico internacional tem um impacto direto nas relações entre os países, nas quais em sua maioria (se não na sua totalidade) são moldadas por interesses ou aspirações que mantenham/aumentem o status quo desses atores no paronama global.

Entretanto, na habilidade de causar dano, estimar capacidades e o comportamento entre os Estados, os jogos de interesses se mostram claros na entrevista que o Presidente da França, Emmanuel Macron participou no dia 26 de agosto de 2019 ao abordar sobre as queimadas na Amazônia, uma vez que afirmou que “a nossa casa está queimando”. Nesta mesma linha de raciocínio sobre, o Presidente francês pontuou acerca da irresponsabilidade do Governo de Jair Bolsonaro ao ressurgir com o tema da “internacionalização da Amazônia”, uma vez que as medidas de contenção aos incêndios que vem devastando a região são ínfimas.

As aspirações de Macron são muito claras ao considerar às pressões populares quanto à sua inexequibilidade às propostas de governo nos resguardos de preservação ambiental. No entanto, o Presidente se contrapôs ao consentir uma redução de 50% sobre os impostos da licença para caça na França (algo praticado por cerca de 1,2 milhões de franceses). Outro aspecto estratégico se exemplificou no argumento de ser necessário a criação de um Estatuto Internacional para Amazônia; indicação que teve apoio de grande parte dos líderes da União Europeia e pelo próprio G-7, o que levou a interromper o acordo de livre comércio entre o MERCOSUL e a UE, tido como pretexto as queimadas e a urgência por uma tomada de decisão eficiente pelo Governo brasileiro (Gazeta do Povo, 2019). Esta interrupção permite que França tenha mais tempo para reorganizar sua situação frente ao acordo, visto que 1,7% do PIB é voltado para o setor agrícola e o sistema tarifário disposto na proposta teria impacto direto sobre a economia francesa tanto na importação quanto exportação (Aicep Portugal Global, 2018, p 5), assim como uma forma que Macron encontrou para melhorar sua imagem na mídia em relação às pautas ambientais. Portanto, mais uma vez o sul-global sofre com interferência por países com maior poder econômico e influência no sistema internacional.

O Presidente Donald Trump iniciou a saída dos EUA do acordo de Paris, quanto a redução da emissão de gases, sendo que o país que detém de 4% da poluição mundial e um dos líderes que apoiam fervorosamente a produção e consumo de combustíveis fósseis (The Guardian, 2020). Este advento, por maior que tenha tido certa repercussão internacional, os constrangimentos sob os norte-americanos não foram os mesmos quanto à questão da Amazônia. Ademais, a Austrália enfrentou uma das piores queimadas nos últimos anos, com mais de 10 milhões de hectares queimados e 28 mortos, devido ao evento chamado Dipolo do Oceano Índico que provocou uma seca intensa, pouca chuva e temperaturas perto dos 45oC (BBC, 2020). Mesmo que as queimadas tenham justificativas de cunho climático (“natural”) – o que o mesmo não ocorre na Amazônia por ser uma região muito úmida e sofrer com uma agressiva exploração ambiental – não existiu uma repercussão internacional que culpasse o Governo ou que evidenciasse uma necessidade de interferência igual na América Latina, sobretudo, porque interferir nas políticas australianas, estado-unidense bem como o status da Amazônia, intitularia-se como uma violação ao princípio de soberania previsto no artigo 3º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) dos países que ali estão estabelecidos.

Não obstante, ao fazer uma análise sobre imagem do Brasil no exterior, especialmente em relação ao Governo Bolsonaro, os noticiários intitulam o Presidente como um “líder vingativo” e que apresenta uma postura “irresponsável e perigosa”, um caráter que influi diretamente sob as pressões e os constrangimentos internacionais sofridos (BBC, 2020). Pontuações que atribuem fuga de investidores do país, perda de credibilidade internacional e a ameaça a própria diplomacia brasileira, principalmente em relação ao MERCOSUL com o re-alinhamento das política externa brasileira com a dos Estados Unidos.

Todavia, as ações negligentes e pouco efetivas para conter as queimadas e a degradação ambiental da Floresta Amazônica e na região Pantanal são um reflexo não só governamental, mas dos impactos industriais e dos fazendeiros, como gerados pela agricultura, pecuária e mineração. “A área desmatada no ano passado na maior floresta tropical do mundo – 60% da qual está no Brasil – foi estimada em 10 mil quilômetros quadrados, correspondente aproximadamente ao tamanho do Líbano” (DW, 2020). Na Amazônia, cerca de 80% do desmatamento é resultado de ações da pecuária, sendo que em uma escala nacional, a região norte abarcou 52,5% dos focos de queimadas de 2019, logo em seguida o cerrado com 30,1% e a Mata Atlântica 10,9%. As queimadas no Brasil cresceram cerca de 82% em relação a 2018 com mais de 71 mil focos, sendo o maior número registrado nos últimos 7 anos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Num panorama mundial, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), até 40% da população mundial sofrerá com a falta de água e até 2050 esse número subirá para 2/3. 

Nesta lógica, as alterações climáticas e o próprio aquecimento global são resultado direto do consumo desenfreado do ser humano, da produção em larga escala pelas indústrias, pela falta de responsabilidade dos líderes mundiais bem como a uma de consciência moral, que fomentará consequências exorbitantes no futuro com aumento das temperaturas, do nível do mar, perda de biomas e extinção de espécies e uma ação mais violenta da natureza como resposta. O cenário brasileiro vem sendo uma avalanche, com perda de fiabilidade, protagonismo nas Nações Unidas e principalmente no MERCOSUL. Atualmente, o Pantanal é a nova vítima, e de acordo com o New York Times os incêndios por fazendeiros acarretaram perda de 10% da áreas úmidas do país, sendo que as queimadas na maior planície alagada do planeta, resultaram em mais de 7 mil milhas, ou seja, 11 mil km de áreas degradadas de acordo com o estudo feito pela NASA (The New York Times, 2020, tradução pelo autor). Nesse sentido, não apenas o Brasil, mas a sociedade internacional como um todo precisa de fato tomar medidas que recuem esse processo destrutivo e que saiam apenas das negociações e ratificações de convenções e tratados para o plano prático e real, sem fazer um análise segregacionista e muito menos colonial, visto que a longo prazo os resultados podem ser irreversíveis.

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Junio Cesar dos Santos Carmo – Graduado em Geografia com Ênfase em Geoprocessamento pela Pontifícia Universidade Católica – MG, Engenharia de Agrimensura e Cartografia pela Faculdade de Engenharia de Minas Gerais, MBA em Gestão de Pessoas pela Faculdade Pitágoras, Mestrando em Engenharia de Processos e Sistemas pelo IETEC. Hoje é Coordenador de regularização fundiária do GVM Advogados.

Gabriel Henrique Alves – Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa no Instituto de Ciências Sociais e Políticas