A floresta tropical como presa

Madeireiros e fazendeiros continuam a penetrar na floresta tropical e a devastar mais áreas do que nunca. O presidente Bolsonaro até quer legalizar a apropriação de terras griladas – também às custas dos povos indígenas.

serraria humaitáMais de duas vezes mais áreas desmatadas do que em 2019: serraria perto da cidade de Humaitá, no sul do estado do Amazonas.  (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)

Não se sabe muito sobre os Ituna-Itatá. A comunidade indígena vive em auto-isolamento voluntário nas profundezas da floresta amazônica brasileira. Quantas pessoas pertencem ao grupo étnico é amplamente desconhecido; você nem sabe o que os Ituna-Itatá se chamam. Com todas essas ambiguidades, uma coisa é certa: o habitat de Ituna-Itatá está sob séria ameaça.

A área em que vivem é de 142.000 hectares. Floresta intocada até onde os olhos podem ver, pelo menos é essa a teoria, afinal a Terra Indígena Ituna-Itatá está protegida. Pessoas de fora só podem entrar na área com uma permissão especial. No entanto, a realidade é diferente. Imagens da organização ambientalista Greenpeace mostram florestas em chamas e fumaça sobre as copas das árvores. O Greenpeace documentou a destruição com voos e mapas. Somente no ano passado, 12.000 hectares de floresta foram destruídos. Isso faz de Ituna-Itatá um triste recordista como a área indígena mais destruída no Brasil em 2019, mas também um exemplo particularmente drástico de um desastre natural causado pelo homem.

A situação da floresta amazônica tem sido difícil nos últimos anos, mas a situação piorou novamente após a crise mundial da coroa. Enquanto a atenção do mundo está focada no combate ao vírus que se espalha, lenhadores, garimpeiros e fazendeiros estão penetrando mais profundamente na floresta amazônica. Em janeiro, fevereiro, março e abril deste ano,  imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) documentaram a limpeza de cerca de 1.200 km2 de floresta. Mais do que nunca, desde que a coleta de dados começou em 2015 e um aumento de mais de 50% em comparação a 2019; também foi um ano ruim para a  floresta tropical .

Desde que assumiu o cargo no início do ano passado, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez pouco para impedir a destruição. Ele vê um tesouro na Amazônia que deve finalmente ser criado. O político de extrema direita deseja usar a região economicamente, especialmente para a poderosa indústria agrícola. Bolsonaro também deve sua ascensão aos barões da carne e soja, agora ele deve retribuir o favor, com novas áreas para gado e campos. Além disso, os operadores de minas desejam os tesouros que estão adormecidos sob as raízes dos gigantes da selva.

Leis de proteção ambiental têm sido continuamente enfraquecidas por Bolsonaro e seu gabinete, e agências de proteção enfraquecidas. As conseqüências dessa política logo se tornaram aparentes: milhares de hectares de floresta pegaram fogo em meados do ano passado, densas nuvens de fumaça escureceram até cidades distantes como São Paulo. O mundo ficou assustado. Porque a floresta amazônica é enorme, mas também extremamente frágil. Se a floresta continuar sendo cortada, todo o ecossistema poderá tombar, a floresta se tornará uma savana – com consequências imprevisíveis para toda a humanidade.

O coronavírus pode acabar com grupos inteiros de povos indígenas

Ambientalistas, pesquisadores e políticos, portanto, deram o alarme. Houve protestos contra os incêndios e até boicotes aos produtos brasileiros. O presidente Bolsonaro relutou em agir. Ele proibiu por 60 dias a queima de áreas florestais na floresta tropical e enviou tropas, com sucesso, a limpeza diminuiu, as chamas se apagaram. Mas assim que os soldados voltaram para o quartel, os madeireiros e fazendeiros começaram tudo de novo, sem diminuir.

O governo brasileiro reagiu no início deste ano. No início desta semana, ela ordenou tropas para proteger a floresta na região amazônica. Ao mesmo tempo, no entanto, toda uma série de leis e iniciativas devem ser aprovadas que representam uma ameaça maciça à floresta e às pessoas que vivem nela. Um projeto visa permitir que as empresas explorem minerais e extraiam petróleo nas regiões indianas sem que os povos que vivem lá tenham uma opinião maior. Ao mesmo tempo, a autoridade do estado para a proteção dos povos indígenas introduziu novos regulamentos que facilitam a obtenção de títulos legais para ocupantes de terras em áreas indígenas. E, finalmente, há a “MP 910”, um decreto emitido por Bolsonaro em dezembro que fornece uma espécie de anistia para piratas na Amazônia. Embora uma continuação tenha sido removida da agenda do Congresso brasileiro nesta semana após muitos protestos, Bolsonaro continuará tentando converter o decreto em lei. Porque o momento é favorável. Quem está interessado na legalização de pastagens e campos ocupados ilegalmente em tempos de pandemia?

O Brasil  foi o primeiro país da América Latina a ser diagnosticado com COVID-19. Para não enfraquecer a economia, o governo ainda não emitiu uma quarentena em todo o país, Jair Bolsonaro descreveu o vírus como uma gripe e chamou os governadores, que impuseram toque de recolher como assassinos de emprego. A situação agora é dramática, atualmente existem quase 180.000 casos registrados oficialmente e mais de 12.000 pessoas já morreram. O patógeno está se espalhando cada vez mais rápido e há muito tempo chegou à região amazônica. Lá ele atingiu principalmente a metrópole de Manaus, as pessoas mortas são enterradas em valas comuns, o sistema de saúde entrou em colapso, e há uma preocupação crescente de que a pandemia também possa levar à extinção em massa as comunidades indígenas de todo o Brasil.

Quando madeireiros e garimpeiros penetram cada vez mais profundamente em áreas como Ituna-Itatá, eles não trazem apenas motosserras e gasolina como aceleradores de incêndio, mas também patógenos como o coronavírus.  Esses patógenos podem se espalhar rapidamente em comunidades tradicionalmente coexistentes, e grupos e comunidades inteiros podem ser eliminados quando forasteiros levam a COVID-19 para suas áreas, diz Carolina Marçal, do Greenpeace. O governo brasileiro não apenas desviaria o olhar, como também facilitaria o trabalho de ladrões de terra, lenhadores e garimpeiros. “Bolsonaro é um criminoso e deve ser detido”, diz Marçal, para o bem do povo, mas também para o bem da floresta.

De fato, no final, foram principalmente os membros das comunidades tradicionais que protegeram a floresta com violência armada, mas também pressionando as autoridades a defender seus direitos especiais. Agora, no entanto, mais e mais pessoas estão se retirando cada vez mais fundo nas florestas por medo de infecção pelo coronavirus. Madeireiros e garimpeiros agora estão agindo livremente em muitas áreas. Eles não parecem temer o coronavirus, e há muito tempo perceberam que não precisam ter medo do governo, que deveria proteger as áreas indígenas e as que as florestas que existem nelas.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo jornal “Süddeutsche Zeitung” que está sediado na cidade de Munique [Aqui!]. 

Do Minecraft para a vida real: Felipe Neto avisa que passou o tempo de se “passar pano” para Jair Bolsonaro

xfelipe-neto

Felipe Neto diz em vídeo que acabou o tempo de passar o pano para Jair Bolsonaro.

Por força das minhas relações familiares, acompanho diariamente o que fala e escreve o “Youtuber” e “Digital Influencer” (os chamados “influenciadores digitais“), Felipe Neto.  Ele, que apoiou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, vem há algum tempo sendo uma espécie de voz solitária nesse mundo frequentado por milhões de crianças e adolescentes brasileiros contra o governo Bolsonaro.  Por causa disso, acabou sofrendo perseguições da milícia digital que defende o presidente Jair Bolsonaro, tendo enviado sua mãe para fora do Brasil quando ela se tornou alvo de ameaças.

Importante notar que até bem pouco tempo, Felipe Neto se ocupava de produzir seus conteúdos para o canal que possui no Youtube e na página que possui no Twitter. No Youtube ele possui quase 38 milhões de seguidores e no Twitter cerca de 11 milhões. Isso o torna definitivamente um personagem relevante em um mundo que a maioria dos pais e mães não tem muita penetração (o que, convenhamos, é um reflexo dos tempos em que vivemos).

Pois bem, hoje Felipe Neto publicou um vídeo na sua página no Twitter em que se dirige a seus congêneres e artistas em geral que é uma espécie de manifesto contra “o passa pano” para o governo Bolsonaro (ver vídeo abaixo).

Erro
Este vídeo não existe

Apesar do conteúdo da mensagem ser para e sobre seus pares, Felipe Neto aponta para aspectos que não podem mais ser ignorados por todos aqueles que não querem ver o rompimento de pressupostos básicos da, frágil, democracia brasileira. Como ele mesmo diz, não como se calar mais sobre as ameaças que estão sendo feitas não apenas as instituições do Estado brasileiro, mas sobre a própria liberdade.

Certamente haverá quem desconsidere o que Felipe Neto fala no vídeo por ele ter apoiado o impeachment de Dilma Rousseff. De minha parte, prefiro tê-lo do lado dos que defendem a democracia e o nosso direito de pensarmos de forma diferente sem termos que nos preocupar em sermos punidos ou, pior ainda, eliminados fisicamente por causa disso.

Pode-se dizer que Felipe Neto, ao contrário de muitos de seus pares que se calam, decidiu sair do mundo do “Minecraft” para defender a democracia brasileira  nas telas e fora delas. 

 

A marcha dos CNPJs insensíveis até o STF: o risco é o tiro sair pela culatra

 

bolso empresáriosBolsonaro foi a pé do Palácio do Planalto para o encontro de última hora com o presidente do STF, Dias Toffoli, acompanhando de empresários e representantes da indústria. (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

Logo quando o Brasil beira os 9.000 mortos pela COVID-19, o presidente Jair Bolsonaro organizou na final da manhã desta 5a. feira (07/05) uma espécie de marcha dos CNPJs insensíveis (ver a lista completa dos participantes desta marcha, clique Aqui!) até o Supremo Tribunal Federal para demandar o fim do processo de isolamento social.

O principal argumento apresentado pelos porta-vozes dos empresários foi que o processo de quarentena, ainda que compreensível e justificado, estaria colocando a indústria brasileira em uma espécie de processo comatoso que poderá se transformar em morte, caso não haja um reaquecimento da demanda. Em função disso, os diletos líderes empresariais pediram que o presidente do STF não dificultasse a vigência de decretos que facilitem o reinício plena das atividades econômicas no Brasil, em que pese o fato de estarmos em um moment ode aceleração da curva de infecção do coronavírus.

Esse argumento é uma espécie de repaginamento do argumento do presidente Jair Bolsonaro de que “os brasileiros precisam e querem trabalhar”. O curioso é que o setor industrial brasileiro já vem em franca crise faz alguns anos, tendo perdido relevância na balança comercial brasileira, muita em função de uma política de desindustrialização adotada por seguidos governos.  Entretanto, até aqui, suas lideranças optaram por permanecer passivas frente ao projeto ultraneoliberal de Paulo Guedes.

Mas essa inovação discursiva traz um problema: o maior problema da indústria nacional, segundo declaram os presentes no STF, é que não há demanda, principalmente porque o poder de compra dos trabalhadores vem sendo seguidamente solapado na forma da retirada de direitos trabalhistas e precarização do trabalho. Assim, mesmo que se volte a produzir, não haverá quem compre a produção, a não ser que se mude as diretrizes neoliberais do governo Bolsonaro que aposta até aqui no favorecimento dos interesses do rentismo e na privatização de empresas estatais, fatores esses que acabam se misturando já que os bancos controlam as empresas que vem comprando as empresas estatais privatizadas.

Neste caso é que começa o que considera o dilema do presidente Jair Bolsonaro. Se ele continuar seguindo as orientações do dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, haverá uma diminuição ainda maior do poder de compra dos trabalhadores e um aumento do controle internacional de setores estratégicos da economia nacional, sem que haja qualquer incentivo para uma expansão do consumo interno. 

Em um período que já era de profunda crise econômica mundial, e que foi agravada pela pandemia da COVID-19, a retomada do consumo só acontecerá com investimentos públicos em áreas chaves da produção industrial e do aparato logístico como parecem desejar os ministros militares que vivem se chocando com as diretrizes ultraneoliberais emanadas do Ministério da Fazenda. 

Já operando em um espécie de caminho estreito por causa da percepção de que mais atrapalha do que ajuda no combate e controle do coronavírus,  o presidente Jair Bolsonaro se vê ainda mais apertado após a sua capitulação ao chamado “Centrão” no Congresso Nacional. A questão é de como ele irá escapar da arapuca em que se meteu, e que pode ter subido alguns degraus de piora quando decidiu levar parte da nata do empresariado nacional em uma espécie de marcha dos insensíveis até o STF. 

Finalmente, como eu já escrevi em diferentes momentos, os setores das elites econômicas que decidiram abraçar o projeto político impulsionado pelo então candidato Jair Bolsonaro agora estão tendo suas caras insensíveis expostas para uma população que se encontra sobre forte tensão por causa do avanço no número de perdas humanas causadas pela pandemia da COVID-19.  Mas, agora, pode ser tarde para, pelo menos, fingir arrependimento.

O preço final do negacionismo da COVID-19 será calculado em vidas perdidas

Coronavirus-Covid19-Hospital-HRAN-Ambulancia-Enfermeira-Socorrista-Bmbeiros-04Abr2020

Como já foi dito aqui, o presidente Jair Bolsonaro está em uma restrita lista de líderes mundiais que ainda negam a gravidade da crise sanitária causada pela COVID-19. Se esse negacionismo não tivesse efeitos práticos, esse negacionismo do presidente do Brasil não teria nada de novidade, pois ele se somaria a uma lista de negações que ele professa (a começar pela que nega a natureza hedionda da tortura).

O problema é que, como presidente da república, e um líder que arrasta uma parcela da população brasileira para abraçar suas negações, Jair Bolsonaro produz uma conta social que é contada no número de pessoas mortas pela negação de colocar todas as forças e recursos disponíveis ao governo federal para conter o avanço da pandemia no Brasil..

Essa conta social nos apresentada não apenas em número de mortes, mas também de pessoas que ficarão sequeladas pelas diversas mazelas que são causadas pela COVID-19 em casos mais drásticos da infecção. Mas, por enquanto, os números (subnotificados, é preciso que se frise) já colocam o Brasil como o 9o colocado em número total de casos, o 6o colocado no número de mortos, e o 2o em número de casos graves (ver imagem abaixo).

tabela covid 19 2

Há que se notar ainda que o crescente número de mortos está se localizando nas áreas mais pobres, o que indica que são os trabalhadores e a juventude pobre que estão arcando com o principal peso da negação disseminada por Jair Bolsonaro e pelos detentores de grandes fortunas que o seguem.

Por outro lado,  o Brasil, ao contrário de outros países, está tendo uma concentração de infecções pelo novo coronavírus na faixa de 20 a 39 anos, o também derruba a tese do isolamento vertical que tem sido defendida pelo presidente da república. Essa diferença é fundamental para que se entenda as vias pelas quais o coronavírus está disseminando na população brasileira,  de forma até a minimizar o baixíssimo número de testes realizados para determinar se uma pessoa está contaminada ou não.

O avanço rápido da pandemia deverá implicar em um aprofundamento das medidas de isolamento social e não o contrário, como vem sendo apregoado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. Esse aprofundamento será a única forma de se deter um aumento ainda mais acelerado no número de infectados e, por consequência, no número de pessoas mortas pela COVID-19. 

Uma coisa é certa: depois que o pior da pandemia passar, o Brasil terá que fazer um ajuste com os responsáveis para que tenhamos chegado ao ingrato posto de um dos principais focos mundiais da pandemia. Isto será o mínimo que se poderá fazer para honrar a memória dos milhares que morrerão por causa da insistência em se negar a Ciência e o conhecimento que ela disponibilizou para que o pior fosse evitado.

 

O depoimento de Sérgio Moro na íntegra: um material para ser lido lenta e cuidadosamente

moro e bolsonaro

O ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, havia solicitado ontem ao Supremo Tribunal Federal que a íntegra do seu depoimento dada na Polícia Federal fosse tornado público. Pois bem, menos de 24 horas depois do pedido de Moro, o jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil, obteve com exclusividade a íntegra do depoimento dado no último sábado (02/05) sobre as acusações que Sérgio Moro fez contra Jair Bolsonaro no ato de sua demissão do Ministério da Justiça.

Abaixo segue o depoimento dado por Sérgio Moro, para o qual sugiro uma leitura lenta e cuidadosa. Afinal, é a história dos próximos anos do Brasil que esteja sendo nos apresentada na forma de um oráculo pelo ex-juiz.

depoimento

Leia a íntegra do depoimento de Moro:

Na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba no Estado do Paraná, onde presente se encontrava CHRISTIANE CORREA MACHADO, Delegada de Polícia Federal, Matr. 10.568, Chefe do Serviço de Inquéritos da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado – DICOR, e WEDSON CAJÉ LOPES, Delegado de Polícia Federal, lotado no SINQ/DICOR, compareceu Sergio Fernando Moro

QUE tomou conhecimento pela imprensa sobre a determinação do Ministro Celso de Mello sobre a sua oitiva, tendo se colocado à disposição para prestar declarações, informando o fato à Polícia Federal;  

QUE perguntado sobre sua definição sobre interferência política do Poder Executivo em cargos de chefia no âmbito da Polícia Judiciária, respondeu que entende que seja uma interferência sem uma causa apontada e portanto arbitrária;  

QUE durante o período que esteve à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve solicitações do Presidente da República para substituição do Superintendente do Rio de Janeiro, com a indicação de um nome por ele, e depois para substituição do Diretor da Polícia Federal, e, novamente, do Superintendente da Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro, que teria substituído o anterior, novamente com indicação de nomes pelo presidente; 

QUE, durante sua gestão, apenas concordou com a primeira substituição, pois, circunstancialmente, o Superintendente do RJ, RICARDO SAAD, havia manifestado interesse de sair, por questões familiares, e a sua troca já estava planejada pelo Diretor Geral, sendo nomeado um nome com autonomia pela própria Polícia Federal, o que garantia a continuidade regular dos serviços de Polícia Judiciária;  

QUE na sua gestão preservou a autonomia da Polícia Federal, em relação a interferência política e pediu demissão no dia 24 de abril de 2020, com o mesmo objetivo;  

QUE durante a sua coletiva ocorrida em 24 de abril de 2020 narrou fatos verdadeiros, cujo objetivo era esclarecer os motivos de sua saída, preservar autonomia da Polícia Federal, da substituição de Diretor e de Superintendentes, sem causa e com desvio de finalidade, como reconhecimento posteriormente pelo próprio Supremo Tribunal Federal em decisão proferida no dia 29 de abril que suspendeu a posse do DPF ALEXANDRE RAMAGEM; 

QUE perguntado se identificava nos fatos apresentados em sua coletiva alguma prática de crime por parte do Exmo. Presidente da República, esclarece que os fatos ali narrados são verdadeiros, que, não obstante, não afirmou que o presidente teria cometido algum crime;  

QUE quem falou em crime foi a Procuradoria Geral da República na requisição de abertura de inquérito e agora entende que essa avaliação, quanto a prática de crime cabe às Instituições competentes;  

QUE em agosto de 2019 houve uma solicitação por parte do Exmo. Presidente da República de substituição do Superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, RICARDO SAAD;  

QUE essa solicitação se deu de forma verbal, no Palácio do Planalto;  

QUE não se recorda se houve troca de mensagens sobre esse assunto;  

QUE não se recorda se alguém, além do declarante e do Exmo. Presidente da República tenha presenciado essa solicitação;  

QUE no entanto, reportou esse fato tanto ao Diretor da Polícia Federal, MAURÍCIO VALEIXO, como ao Dr. SAAD;  

QUE os motivos dessa solicitação devem ser indagados ao Presidente da República,  

QUE, após muita resistência, houve, como dito acima, concordância do Declarante e do Dr. VALEIXO, com a substituição;

QUE o presidente, após a concordância, declarou publicamente que havia mandado trocar o SR/RJ por motivo de produtividade;  

QUE para o Declarante não havia esse motivo e a própria Polícia Federal emitiu nota pública, informando a qualidade do serviço da SR/RJ, o que também pode ser verificado por dados objetivos de produtividade;

QUE só concordou com a substituição porque o novo SR, CARLOS HENRIQUE foi uma escolha da PF e isso garantia a continuidade regular dos serviços da SR/RJ e a própria Polícia Federal informou na nota acima que ele seria o substituto;  

QUE o Presidente, contrariado, deu nova declaração pública afirmando que era ele quem mandava e que o novo Superintendente seria ALEXANDRE SARAIVA;  

QUE o Diretor da Polícia Federal ameaçou se demitir e que o Declarante conseguiu demover o Presidente;  

QUE tem presente que ALEXANDRE SARAIVA é um bom profissional, no entanto não era o nome escolhido pela Polícia Federal,  

QUE o presidente já havia indicado ao Declarante a intenção de indicar ALEXANDRE SARAIVA, mas que da sua parte entendia que a escolha deveria ser da Polícia Federal;  

QUE mesmo antes, mas, principalmente, a partir dessa época o Presidente passou a insistir na substituição do Diretor da PF, MAURÍCIO VALEIXO;  

QUE essa pressão foi, inclusive, objeto de diversas matérias na imprensa;  

QUE conseguiu demover o presidente dessa substituição por algum tempo;  

QUE o assunto retornou com força em janeiro de 2020, quando o Presidente disse ao Declarante que gostaria de nomear ALEXANDRE RAMAGEM no cargo de Diretor Geral da Polícia Federal e VALEIXO iria, então, para uma Adidância;  

QUE isso foi dito verbalmente no Palácio do Planalto;  

QUE, eventualmente o General Heleno se fazia presente;  

QUE esse assunto era conhecido no Palácio do Planalto por várias pessoas;  

QUE pensou em concordar para evitar um conflito desnecessário, mas que chegou à conclusão que não poderia trocar o Diretor Geral sem que houvesse uma causa e que como RAMAGEM tinha ligações próximas com a família do Presidente isso afetaria a credibilidade da Polícia Federal e do próprio Governo, prejudicando até o Presidente;  

QUE essas ligações são notórias, iniciadas quando RAMAGEM trabalhou na organização da segurança pessoal do presidente durante a campanha eleitoral;  

QUE os motivos pelos quais o Presidente queria substituir VALEIXO por RAMAGEM devem ser indagados ao Presidente;  

QUE RAMAGEM, pela questão da proximidade, o Declarante afirma que o presidente, nessa época, lhe dizia que era uma questão de confiança;  

QUE o presidente chegou a sugerir dois outros nomes para Diretor Geral da Polícia Federal, ao invés de RAMAGEM, mas que os nomes não tinham a qualificação necessária, segundo a opinião do Declarante;  

QUE, ainda em janeiro, o Declarante sugeriu dois nomes para o Presidente, FABIANO BORDIGNON e DISNEY ROSSETI para substituir VALEIXO;  

QUE a troca geraria desgaste para o Declarante, mas, pelo menos, não abalaria a credibilidade da Polícia Federal ou do Governo;  

QUE a substituição sem causa do DG e a indicação de uma pessoa ligada ao Presidente e a sua família seriam uma interferência política na PF;  

QUE os dois outros nomes eram ANDERSON TORRES e CARRIJO e ambos não tinham história profissional na Polícia Federal que os habilitassem ao cargo, além de também serem próximos à família do presidente;  

QUE no começo de março de 2020, estava em Washington, em missão oficial com o Dr. VALEIXO;  

QUE recebeu mensagem pelo aplicativo Whatsapp do Presidente da República, solicitando, novamente, a substituição do Superintendente do Rio de Janeiro, agora CARLOS HENRIQUE;  

QUE a mensagem tinha, mais ou menos o seguinte teor: “Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”;  

QUE esclarece que não nomeou e não era consultado sobre as escolhas dos Superintendentes; QUE essa escolha cabia, exclusivamente, à Direção Geral da Polícia Federal;

QUE nem mesmo indicou o Superintendente da Polícia Federal do Paraná;

QUE os motivos para essa solicitação entende que devem ser indagados ao Presidente da República; QUE falou sobre a solicitação de troca do Diretor VALEIXO, ainda em Washington;

QUE até aventaram a possibilidade de atender ao Presidente para evitar uma crise;  

QUE, no entanto, o Diretor VALEIXO afirmou que não poderia ficar no cargo se houvesse uma nova substituição sem causa do SR/RJ por um nome indicado pelo Presidente da República;

QUE o Diretor VALEIXO declarou que estava cansado da pressão para a sua substituição e para a troca do SR/RJ; QUE por esse motivo e também para evitar conflito entre o Presidente e o Ministro o Diretor VALEIXO disse que concordaria em sair;

QUE nesse momento não havia nenhuma solicitação sobre interferência ou informação de inquéritos que tramitavam no Rio de Janeiro;  

QUE, por esse motivo, o Declarante, apesar da resistência, cogitou aceitar as trocas, desde que o substituto do Diretor Geral fosse de sua escolha técnica e pessoa não tão próxima ao presidente;  

QUE depois, porém, entendeu que também não poderia aceitar a troca do SR/RJ sem causa;

QUE a partir de então cresceram as insistências do PR para a substituição tanto do Diretor Geral quanto do SR/RJ;

QUE, certa feita, provavelmente, no mês de março o PR passou a reclamar da indicação da Superintendente de Pernambuco;  

QUE essas reclamações sobre o superintendente no Estado de Pernambuco não ocorreram anteriormente;

QUE entende que os motivos da reclamação devem ser indagados ao Presidente da República;  

QUE é oportuno destacar que as indicações para Superintendentes vêm da Direção Geral, mas passam pelo crivo da Casa Civil e que não houve nenhum óbice apontado em relação a esses nomes;  

QUE o Presidente não interferiu, ou interferia, ou solicitava mudanças em chefias de outras Secretarias ou órgãos vinculados ao Ministério da Justiça, como, por exemplo, a Polícia Rodoviária Federal, DEPEN, Força Nacional;  

QUE o presidente, apenas uma vez, solicitou a revogação da nomeação de Ilona Szabo para o Conselho Nacional de Política Criminal do Ministério da Justiça, órgão consultivo, e que o Declarante, após relutar, concordou em aceitar a solicitação;

QUE o Declarante perguntado se as trocas solicitadas estavam relacionadas à deflagração de operações policiais contra pessoas próximas ao Presidente ou ao seu grupo político disse que desconhece, mas observa que não tinha acesso às investigações enquanto ainda evoluíam;

QUE crescendo as pressões para as substituições, o Presidente lhe relatou verbalmente no Palácio do Planalto que precisava de pessoas de sua confiança, para que pudesse interagir, telefonar e obter relatórios de inteligência;

QUE perguntado se havia desconfiança em relação ao Diretor VALEIXO, o Declarante respondeu que isso deve ser indagado ao Presidente; QUE o próprio Presidente cobrou em reunião do conselho de ministros, ocorrida em 22 de abril de 2020, quando foi apresentado o PRÓ-BRASIL, a substituição do SR/RJ, do Diretor Geral e de relatórios de inteligência e informação da Polícia Federal;

QUE o presidente afirmou que iria interferir em todos os Ministérios e quanto ao MJSP, se não pudesse trocar o Superintendente do Rio de Janeiro, trocaria o Diretor Geral e o próprio Ministro da Justiça;

QUE ressalta que essas reuniões eram gravadas, como regra, e o próprio Presidente, na corrente semana, ameaçou divulgar um vídeo contra o Declarante de uma dessas reuniões;

QUE nessas reuniões de conselho de ministros participavam todos os ministros e servidores da assessoria do Planalto;

QUE a afirmação do Presidente de que não recebia informações ou relatórios de inteligência da Polícia Federal não era verdadeira;

QUE o Declarante, em relação ao trabalho da Polícia Federal, informava as ações realizadas, resguardado o sigilo das investigações;

QUE o Declarante, por exemplo, fazia como ministros do passado e comunicava operações sensíveis da Polícia Federal, após a deflagração das operações com buscas e prisões;

QUE o Declarnte fez isso inúmeras vezes e há mensagens de Whatsapp a esse respeito ora disponibilizadas;

QUE ilustrativamente, isso aconteceu após as buscas e prisões envolvendo o atual Ministro do Turismo e o Senador Fernando Bezerra, mas que essas informações não abrangiam dados sigilosos dos inquéritos;

QUE pontualmente comunicou essas operações antecipadamente, em casos sensíveis e que demandavam um apoio do presidente, como na expulsão do integrnte do PCC, vulgo “FUMINHO” de Moçambique;

QUE quanto a relatórios de inteligência, esclaree que a PF não é órgão de produção direta de inteligência para a Presidência da República;

QUE os relatórios de inteligência da Polícia Federal sobre assuntos estratégicos e de Segurança Nacional são inseridos pela sua diretoria de Inteligência no SISBIN e que a ABIN consolida essas informações de inteligência, juntamente, com dados de outros órgãos e as apresenta ao Presidente da República;

QUE o próprio Declarante já recebeu relatórios de inteligência da ABIN que continham dados certamente produzidos pela inteligência da Polícia Federal;

QUE o próprio Presidente da República em seu pronunciamento na sexta-feira, dia 24 de abril de 2020, declarou que um dos motivos para a a demissão do Diretor Geral da PF seria a falta de recebimento de relatórios de inteligência de fatos nas últimas 24 horas;

QUE o argumento não procede, pois os relatórios de inteligência estratégica da Polícia Federal eram disponibilizados ao Presidente da República via SISBIN e ABIN;

QUE também não justificaria a demissão do Diretor VALEIXO a susposta falta de disponibilização dessa inteligência, já que cobrada pelo Presidente ao Declarante dois dias anteriores à exoneração do Diretor;

QUE o presidente nunca solicitou ao Declarante a produção de um relatório de inteligência estratégico da PF sobre um conteúdo específico, causando estranheza que isso tenha sido invocado como motivo da demissão do Diretor Geral da PF;

QUE perguntado se o presidente da República, em algum momento lhe solicitou relatórios de inteligênca que subsidiavam ingestigaçãoes policiais, o Declarante respondeu que o Presidente nunca lhe pediu até porque o Declarante ou o Diretor  VALEIXO jamais violariam sigilo de investigação policial;

QUE na quinta-feira, dia 23 de abril de 2020, o Presidente enviou ao Declarante por mensagem de Whatsapp um link de notícia do site “oantagonista” informando que a PF estaria no encalço de Deputados Bolsonaristas, QUE antes que o Declarante pudesse responder, o Presidente mandou outra mensagem afirmando que este seria mais um motivo para a troca da PF;

QUE o Declarante ficou apreensivo com a mensagem;

QUE o Declarante reuniu-se com o Presidente às 9h do dia 23 de abril de 2020, e trataram da substituição do Diretor Geral da Polícia Federal;

QUE o Presidente lhe disse que VALEIXO seria exonerado, a pedido, ou de ofício, e que nomearia o DPF ALEXANDRE RAMAGEM, porque seria uma pessoa de confiança do Presidente, com o qual ele poderia interagir;

QUE o Declarante informou ao Presidente que isso representaria uma interferência política na PF, com o abalo da credibilidade do  governo, isso tudo, durante uma pandemia;

QUE o Declarante também disse poderia trocar o Diretor VALEIXO desde que houvesse uma causa, como uma insuficiência de desempenho ou erro grave, mas não havia nada disso;

QUE o Declarante pediu ao Presidente que reconsiderasse, mas que se isso não ocorresse o Declarante seria obrigado a sair e a declarar a verdade sobre a substituição;

QUE o Presidente lamentou, mas disse que a decisão estava tomada;

QUE o Declarante reuniu-se  em seguida com os ministros militares do Palácio do Plananto e relatou a reunião com o Presidente;

QUE a reunião foi com os Ministros Generais RAMOS, HELENO e BRAGA NETTO;

QUE o Declarante informou os motivos pelos quais não podia aceitar a substituição e também declarou que sairia do governo e seria obrigado a falar a verdade;

QUE na ocasião o Declarante falou dos pedidos do Presidente de obtenção  de Relatórios de Inteligência da PF, que inclusive havia sido objeto de cobrança pelo Presidente na reunião de conselho de ministros, oportunidade na qual o Ministro HELENO afirmou que o tipo de relatório de inteligência que o Presidente queria  não tinha como ser fornecido;

QUE os Ministros se comprometeram a tentar demover o Presidente,

QUE o Declarante retornou ao MJSP na esperança de a questão ser solucionada;

QUE logo depois vazou na imprensa que o Planalto substituiria VALEIXO e que, em decorrência, o Declarante sairia do governo;

QUE o MJSP foi contatado por muitos jornalistas e políticos querendo confirmar, mas que o Declarante entendia que não poderia confirmar, já que tinha esperança de que o Presidente mudaria de idéia;

QUE à tarde do dia 23 de abril de 2020, recebeu uma ligação do Ministro RAMOS indagando se seria possível uma solução intermediária, com a saída de VALEIXO, mas a nomeação de um dos nomes que o Declarante já havia informado antes, a saber: FABIANO BORDIGNON ou DISNEY ROSSETI;

QUE o Declarante informou que haveria um impacto ao governo e à sua credibilidade, mas que, garantida a nomeação técnica e de pessoa não proximamente ligada à familia do presidente, a solução seria aceitável;

QUE ligou para o Diretor VALEIXO, que concordou com a substituição sugerindo o nome de DISNEY ROSSETI;

QUE o Declarante ligou em seguida ao Ministro RAMOS e então manifestou a sua concordância, mas ressaltou que seria a única mudança e que não concordava com a troca pretendida do superintentdente da SR/RJ;

QUE o Ministro RAMOS ficou de levar a questão ao Presidente e de retornar, mas não o fez;

QUE à noite do dia 23 de abril de 2020, recebeu informações não oficiais de que o ato de exoneração do Diretor VALEIXO havia sido encaminhado para publicação;

QUE buscou a confirmação do fato no Planalto com os ministros BRAGA NETTO e RAMOS, tendo o primeiro informado que não sabia e o segundo informado que iria checar e retornar, mas não o fez;

QUE, durante a madrugada do dia 24 de abril de 2020, saiu a publicação, o que tornou irreversível a demissão do Declarante;

QUE o Declarante não assinou o decreto de exoneração de MAURÍCIO VALEIXO e não passou pelo Declarante qualquer pedido escrito ou formal de exoneração do Diretor VALEIXO;

QUE na manhã do dia 24 de abril de 2020, encontrou-se com VALEIXO e ele lhe disse que não teria assinado ou feito qualquer pedido de exoneração;

QUE VALEIXO disse ao Declarante que, na noite do dia 23 de abril de 2020, teria recebido uma ligação do Planalto na qual o Presidente teria lhe dito que ele, VALEIXO, seria exonerado no dia seguinte e lhe perguntado se poderia ser “a pedido”;

QUE VALEIXO disse ao Declarante que como a decisão já estava tomada não poderia fazer nada para impedir, mas reiterou que não houve, nem partiu dele, qualquer pedido de exoneração;

QUE VALEIXO poderá esclarecer melhor o conteúdo dessa conversa;

QUE perguntado em regra, como ocorrem as exonerações no âmbito do Ministério da Justiça e como se dá o processo de assinatura no Diário Oficial da União, respondeu

QUE pedidos de nomeação e de exoneração são assinados eletronicamente pelo Declarante e enviados ao Palácio do Planalto;

QUE não delegava essa função a subordinados;

QUE decretos assinados pelo Presidente da República e em concurso com o Declarante, quando sua origem era um ato produzido pelo MJSP, o que seria o caso da exoneração do Diretor VALEIXO, sempre eram assinados previamente pelo Declarante, pelo sistema eletrônico SIDOF, antes de encaminhados ao Planalto;

QUE nunca, pelo que se recorda, viu antes um ato do MJSP ser publicado sem a sua assinatura, pelo menos, eletronicamente;

QUE em virtude do ocorrido decidu exonerar-se e informar em pronunciamento coletivo os motivos de sua saída;

QUE o Declarante entendeu que havia desvio de finalidade na exoneração do Diretor MAURÍCIO VALEIXO, à qual se seguiria a provável nomeação do DPF ALEXANDRE RAMAGEM, pessoa próxima à família do presidente, e as substituições de superintendentes, tudo isso sem causa e o que viabilizaria ao Presidente da República interagir diretamente com esses nomeados para colher, como admitido pelo próprio Presidente, o que ele chamava de relatórios de inteligência, como também admitido pelo próprio Presidente;

QUE reitera que prestou as declarações no seu pronunciamento público para esclarecer as circunstâncias de sua saída, para expor o desvio de finalidade já reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal e com o objetivo de proteger a autonomia da Polícia Federal;

QUE reitera que em seu pronunciamento narrou fatos verdadeiros, mas, em nenhum momento, afirmou que o Presidente da República teria praticado um crime e que essa avaliação cabe às instituições competentes;

QUE posteriormente, no mesmo dia 24 de abril de 2020, o Presidente da República fez um pronunciamento no qual confirmou várias declarações feitas pelo Declarante, como a de que o presidente poderia substituir o Diretor Geral, os superintendentes, qualquer pessoa na pirâmide do Poder Executivo Federal; que o Presidente da República, apesar disso, apesar disso, não esclareceu o motivo pelo qual realizaria  essas substituições, salvo que o Diretor VALEIXO estaria cansado mas, mais uma vez, o Declarante  reitera que o cansaço do diretor VALEIXO era oriundo das pressões por suas substituição e de superintendentes;

Que o Presidente também reconheceu que uma da causas para a troca seria a falta de acesso a relatórios de inteligência da PF, mas que, como o Declarante já esclareceu acima, o Presidente já detinha esse acesso, do que legalmente poderia ser acessado, via SISBIM e ABIN;

Que ademais, como dito acima, nunca houve pelo Presidente, um pedido ao Declarante de algum relatório específico de inteligência propriamente dito e que, portanto, não teria sido atendido;

Que, quanto às informações ou relatórios sobtre investigações sigilosas em curso, o Presidente nunca pediu nada da espécie ao Declarante ou ao Diretor VALEIXO, até porque, ele sabe que não seria atendido.;

Que o Presidente também alegou como motivo da exoneração de VALEIXO uma suposta falta de empenho da Polícia Federal na investigação de possíveis mandantes da tentativa de assassinato perpetrada por ADÉLIO;

Que a Polícia Federal de Minas Gerais fez um amplo trabalho de investigação e isso foi mostrado ao Presidente ainda no primeiro semestre do ano de 2019, numa reunião ocorrida no Palácio do Planalto, com a presença do Declarante, do Diretor VALEIXO, do Superintendente  de Minas Gerais e com delegados responsáveis pelo caso;

Que na ocasião, o Presidente não apresentou qualquer contrariedade em relação ao que lhe foi apresentado;

Que essa apresentação ao Presidente decorreu da sua condição de vítima e ainda por questão de Segurança Nacional, entendendo o Declarante que não havia sigilo legal oponível ao Presidente pelas circunstâncias especiais;

Que a investigação sobre possíveis mandantes do crime não foi finalizada em razão de decisão judicial contrária ao exame do aparelho celular do advogado de ADÉLIO;

Que o Presidente tinha e tem pleno conhecimento desse óbice judicial;

Que o Declarante entende que antes do final das investigações não é possível concluir se ADÉLIO agiu ou não sozinho e que, de todo modo, o Declarante, ao contrário do que afirmado publicamente pelo Presidente da República na data de hoje (02 de maio de 2020) jamais obstruiu essa investigação, ao contrário, solicitou à Polícia Federal o máximo empenho e ainda chegou a informa à AGU, na pessoa do Ministro ANDRÉ MENDONÇA, da importância de que a AGU ingressasse na causa para defender o acesso ao celular, não pelo interesse pessoal do Presidente, mas também  pelas questões relacionadas à Segurança Nacional;

Que o Presidente, no pronunciamento de sexta-feira 24 de abril, também reclamou da falta de empenho do Declarante e da Polícia Federal para esclarecer as declarações do porteiro de seu condomínio  acerca do suposto envolvimento do Presidente no assassinato de MARIELE e ANDERSON;

Que tal reclamação não procede pois foi o próprio Declarante que solicitou  a atuação do MPF e da Polícia Federal na apuração do caso e a Polícia Federal colheu depoimento do porteiro no qual ele se retratou, além de realizar outras diligências;

Que, após pronunciamento do Presidente da República, no qual este afirmou que o Declarante mentia, e que ainda teria condicionado a troca do Diretor Geral à nomeação do Declarante ao Supremo Tribunal Federal, o Declarante, ao responder consulta do Jornal Nacional sobre o que foi dito pelo Presidente, reputou necessário, para restabelecer a verdade dos fatos encaminhar ao Jornal Nacional as mensagens trocados com o Presidente na manhã do dia 23 de abril de 2020, e ainda a troca de mensagens com a Deputada Federal, CARLA ZAMBELLI, pessoa muito ligada ao Presidente, a qual, inclusive, estava no pronunciamento do Presidente;

Que nas mensagens com a Deputada, fica clara a posição do Declarante  de rejeitar a possibilidade de aceitar a substituição do Diretor Geral e  no nome de ALEXANDRE RAMAGEM como condição para sua indicação ao STF;

Que de todo modo tal ofensa ao Declarante sequer faz sentido, pois se tivesse interessado na indicação ao STF, teria simplesmente aceito a substituição;

Que lamenta muito ter repassado as mensagens trocados em privado, mas que não teria como aceitar as afirmações feitas pelo Presidente no pronunciamento dele, a respeito do Declarante; Perguntado: Como o Presidente da República reagia a respeito de operações da Polícia Federal desencadeadas em razão de mandato deferidos pelo Supremo Tribunal Federal?  Havia algum interesse específico do Presidente da República sobre alguma investigação em curso no STF? Respondeu Que no tocante às indagações, o Presidente enviou mensagem ao Declarante na manhã do dia 23 de abril de 2020 com o link de matéria de jornal a respeito do Inquérito no STF contra deputados bolsonaristas, e agregou que este, seria “mais um motivo para a troca na PF”;

Que o Declarante esclareceu ao Presidente que a Polícia Federal cumpria ordens nesse inquérito, mas o Declarante entende que o Presidente jamais poderia ter elencado esse Inquérito como motivo para a troca do diretor Geral da PF;

Que deve ser indagado ao Presidente os motivos dessa mensagem e o que ele queria dizer;

Que há uma outra mensagem do Presidente sobre esse tema ora disponibilizada;

Que o Presidente jamais pediria ao Declarante ou ao Diretor VALEIXO qualquer interferência ou informações  desse Inquérito porque sabia que nem o Declarante e nem o Diretor VALEIXO atenderiam uma solicitação dessa natureza;  

Que o Declarante gostaria de sintetizar as provas que pode indicar a respeito do seu relato;

Que inicialmente indica como elementos de prova o depoimento do Declarante;  

Que, segundo, a mensagem que recebeu do Presidente da República no dia 23 de abril de 2020 e as demais mensagens ora disponibilizadas;

Que, terceiro, todo o histórico de pressões do presidente de troca do SR/RJ, por duas vezes e do DG e que, inclusive, foram objetos de declarações públicas do próprio Presidente da República, inclusive em uma delas com invocação de motivo inverídico para a substituição do SR/RJ, ou seja, a suposta falta de produtividade;

Que quarto, as declarações efetuadas pelo Presidente da República em seu pronunciamento, nas quais ele admite a intenção  de trocas dois superintendentes, inclusive, novamente o do Rio de Janeiro, sem apresentar motivos, também admite a substituição do Diretor VALEIXO invocando motivo inconsistente, já que o cansaço do Diretor era provocado pelas próprias pressões do Presidente, também admite que um dos motivos para a troca era obter acesso ao que  ele denomina relatórios de inteligência produzidos pela PF através da SISBIN e da ABIN, ou seja, jamais tinha ele acesso a toda informação de inteligência da PF a qual ele tinha legalmente  acesso;

Que, quinto, as declarações do Presidente no dia 22 de abril de 2020, na reunião com o conselho de ministros, e que devem ter sido gravadas como é de praxe, nas quais ele admite a intenção de substituir o superintendente do Rio de Janeiro, o Diretor Geral e até o Ministro, ora Declarante, e também admite no mesmo contexto sua insatisfação com a informação e no que ele denomina relatórios de inteligência da PF aos quais afirma que  não teria acesso, o que, como já argumentado, não é verdadeiro;

Que, sexto, podem ser requisitados à ABIN os protocolos de encaminhamento dos relatórios de inteligência produzidos com base em informações a ela repassadas pela PF e que demonstrariam que o Presidente da República já tinha, portanto, acesso às informações de inteligência da PF as quais legalmente tinha direito;

Que, sétimo, esses protocolos podem também ser solicitados à Diretoria de Inteligência da PF, Que, oitavo, as declarações apresentadas peo Declarante, podem ser confirmadas entre outras pessoas,  pelo DPF VALEIXO, pelo DPF SAAD, pelos SRMG, e pelos ministros militares acima mencionados;

Que, nono, o Declarante disponibiliza, neste ato, seu aparelho celular para extração das mensagens trocadas, via aplicativo Whatsapp, com o Presidente da República (contato “Presidente Novíssimo”) e com a Deputada Federal CARLa ZAKMBELLI (contato Carla Zambelli II) e que são as relevantes, no seu entendimento, para o caso, Que o Declarante esclarece que não  disponibiliza as demais mensagens pois tem caráter privado (inclusive as eventualmente apagadas), ou se tratam de mensagens trocadas com autoridades públicas, mas sem qualquer relevância para o caso, no seu entendimento;  

Que o Declarante esclarece que tem só algumas mensagens trocadas com o Presidente, e mesmo com outras pessoas, já que teve , em 2019, suas mensagens interceptadas ilegalmente por HACKERS, motivo pelo qual passou a apagá-las periodicamente,

Que o Declarante esclarece que apagava as mensagens não por ilicitude, mas para resguardar privacidade e mesmo informações relevantes sobre a atividade que exercia, inclusive, questões de interesse nacional;

Que, além da mensagem acima mencionada, o Declarante, revendo o chat de conversa com o Presidente identificou várias outras mensagens que podem ser relevantes para a investigação, inclusive outra mensagem sobre o Inquérito no STF e outra com determinação do Presidente de que o Dr. VALEIXO seria “substituído essa  semana a pedido ou ex-ofício”, além de outra com indicativo de desejo dele de substituição do SR/PE;

Que o Declarante destaca ainda mensagens que, de maneira geral, amparam outras declarações prestadas pelo Declarante como a de que comunicava ao Presidente operações sensíveis, após deflagração; Aberta a palavra ao Declarante para esclarecimentos adicionais:

Que, respeitosamente, diante das declarações públicas do Presidente da República, entende que a caberia a ele esclarecer os motivos das sucessivas trocas pretendidas na SR/RJ, da troca efetuada do DG da Polícia Federal bem como, que caberia a ele esclarecer que tipo de informação ou relatório de inteligência de PF pretendia  obter mediante interação pessoal com o DG ou SR/RJ, além de esclarecer que tipo de conteúdo pretendia nesses relatórios de inteligência, já que tinha acesso à produção de inteligência da PF via SISBIN e ABIN e, igualmente, esclarecer porque essa demanda reiterada no dia 23 de abril de 2020 ao Declarante justificaria as substituições do Diretor Geral, de superintendentes e até mesmo  do Ministro da Justiça e Segurança Pública;

Que, por fim esclarece, diante das ofensas realizadas pelo Presidente da República, que o Declarante permanece fiel aos compromissos de integridade e transparência, bem como de autonomia das instituições de controle, superiores a lealdade pessoais; Consigno as presenças dos Procuradores da República ANTÔNIO MORIMOTO JUNIOR, Matrícula 1088, HERBERT REIS MESQUITA, Matrícula 1383 e JOÃO PAULO LORDELO GUIMARÃES TAVARES, Matrícula 1464, os quais foram designados pela Procuradoria Geral da República para este ato, conforme autorizado pelo Ministro Relator, os quais realizaram questionamentos complementares ao longo deste ato. Nada mais disse e nem lhe foi perguntado. Foi então advertido (a) da obrigatoriedade de comunicação de eventuais mudanças de endereço em face das prescrições do Art.224 do CPP. Encerrado o presente que, lido e achado conforme, assinaram com a Autoridade Policial, com o Declarante, com os Advogados, GUILHERME SIQUEIRA VIEIRA, OAB/PR 73938, VITOR HUGO SPRADA ROSSETIM, OAB/PR 70386  e RODRIGO SANCHEZ RIOS., OAB/PR19392, que apresentaram procuração para ser juntada aos autos, e comigo ……………………………… FRANCISCO ANTONIO LIMA DE SOUSA, Escrivã (o) de Polícia Federal, Matr. 17.990, lotado (a) e/ou em exercício nesta DICOR/PF, que o lavrei.

A quem serve calar a boca da imprensa?

bolsonaro cala a boca

O presidente Jair Bolsonaro teve, mais uma vez,  uma reação intempestiva ao ser questionado por profissionais de imprensa sobre as implicações das mudanças operadas a seu mando em postos de direção da Polícia Federal (ver vídeo abaixo).

Em qualquer sociedade que se pretenda democrática, a obrigação dos governantes é responder, até à exaustão se for necessário, as perguntas que lhes sejam apresentadas por profissionais de imprensa.

Ao mandar calar a boca profissionais que lhe faziam perguntas coerentes e de interesse da sociedade em geral, o presidente Jair Bolsonaro demonstra sua intolerância para com os filtros que toda democracia que mereça o nome impõe a quem governa.

Resta saber até quando essa atitude autoritária será tratada com benevolência pelos proprietários da mídia corporativa.

The Wall Street Journal aponta que Brasil pode ter mais casos de coronavírus que os EUA

Em matéria assinada pelas jornalistas Luciana Magalhães e Christiana Sciaudone, o principal veículo de mídia especializada no mercado financeiro dos EUA, o “The Wall Street Journal” (WSJ), o Brasil aparece como o novo centro mundial da pandemia causada pelo novo coronavírus (ver capa da matéria abaixo que mostra enterros na cidade de Manaus), superando, inclusive, os EUA.

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A matéria aponta que, ao contrário dos números oficialmente divulgados pelo Ministério da Saúde, as jornalistas, usando uma base de dados desenvolvida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, apontam que a quantidade real de infectados pelo coronavírus no Brasil já deve ter ultrapassado a casa do primeiro milhão de casos.

Dentre os aspectos apontados pela matéria do “WSJ” para explicar tamanha discrepância entre os dados oficiais do Ministério da Saúde e o que deve estar ocorrendo na realidade estão a precária estrutura urbana, o baixo número de testes realizados para determinar os casos de pessoas infeccionadas pelo coronavírus, e a postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro em relação aos riscos associados à COVID-19.

Como o WSJ não é exatamente um veículo interessado em prolongar o desaquecimento da economia capitalista, este artigo deverá ter sido recebido com especial atenção nos círculos financeiros globais, sendo praticamente inevitável que haja uma aceleração dos capitais especulativos que ainda permanecem no Brasil.

Enquanto a pandemia se agrava e o número de mortes tende a crescer de forma igualmente grave, o Brasil continua sendo distraído pela confusão política criada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Pandemia e golpe de estado no Brasil?

bolsonaro-manifestaçãoContrariando orientações do Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro saúda apoiadores que podem golpe de estado em meio à pandemia da COVID-19.

Começo esta postagem mostrando o gráfico da curva ascensional dos casos de infecção do coranavírus nos países que se tornaram o epicentro desta pandemia.  A partir dessa curva se pode notar que o Brasil caminha para em breve substituir um grupo de países que até agora liderou a corrida das infecções e mortes (i.e., Espanha, Itália e Alemanha), e deverá passar a disputar o primeiro lugar nos dois quesitos com os EUA.

curva ascensão

O fato é que neste início de segunda-feira (04/05), o Brasil já ocupa o 10o no número de infecções, o 7o  no número de óbitos e o 2o  no número de casos graves. E, pior, como a tendência de crescimento está evidente na curva ascensional mostrada acima, tudo indica que teremos semanas bastante difíceis pela frente, na medida em que a pandemia deverá se alastrar para cidades médias e pequenas, mais do que já se alastrou. O momento então é de extremo cuidado e de persistência nas medidas de isolamento social, cuidados com a higiene pessoal e uso de máscaras faciais.  Tais cuidados já estão mais do que anunciados como as únicas formas de se evitar o alastramento do coronavírus.

Enquanto isso a pandemia come solta pelo país afora, o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez reuniu seus apoiadores e se misturou a eles em claro confronto com as recomendações emanadas do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. E em meio a desfiles de bandeiras estrangeiras na rampa do Palácio do Planalto (no caso as bandeiras dos EUA e de Israel como mostra a imagem abaixo), Jair Bolsonaro dá a entender que pode realizar um golpe de estado com o apoio das forças armadas.

bandieras

Ainda que não se possa desprezar o pendor autoritário do presidente da república, prefiro chamar a atenção para outro aspecto da aglomeração de ontem: apesar de barulhenta e cheia de atos anti-democráticos contra profissionais da mídia corporativa, a aglomeração expressou em quantidade o real apoio que Bolsonaro possui na população brasileira, qual seja, um apoio residual (ver imagem abaixo mostrando tomada aérea da aglomeração em frente do Palácio do Planalto).

Apesar de ruidosa, a manifestação pró-golpe de estado foi raquítica em termos de participantes, revelando o real tamanho de Jair Bolsonaro.

Outro aspecto que me parece merecer a atenção que a mídia corporativa não tem nada. Ao chamar seus apoiadores para se aglomerarem em público, contradizendo tudo o que se sabe sobre as vias de disseminação do coronavírus, Bolsonaro está (consciente ou inconscientemente) possibilitando que seus apoiadores adoeçam em taxas maiores do que aqueles que estão aderindo ao isolamento social.

Essa propensão de colocar seus apoiadores em um processo de sacrifício em nome da causa lembra o que fez o pastor Jim Jones que,  em 18 de novembro de 1978,  resultou na morte de 918 pessoas  em um misto de suicídio coletivo e assassinatos em Jonestown, uma comuna fundada pelo fundador do Templo Popular.  Um aspecto que é pouco falado sobre Jim Jones é que ele viveu um ano no Brasil antes de se instalar na Guiana. Além disso, as ideias de Jones tinham um pendor socialista.  Mas o maior problema é que, ao contrário de Jones que sacrificou apenas seus seguidores, a indiferença de Jair Bolsonaro em relação ao potencial letal do coronavírus pode exportar as mortes para além daqueles que professam suas ideias.

Resta saber o que vão fazer os setores que apoiaram e continuando apoiando a via ultraneoliberal do atual governo. Até onde eu sei sobre determinadas figuras, não há muita propensão ao suicídio coletivo em nome de qualquer causa que seja. Essa indisposição para o auto-sacrifício por parte dos segmentos das elites que ainda o apoiam deverá pesar nas decisões que já devem estar em curso sobre o destino do presidente Jair Bolsonaro.

Em tempo, quando atacou as medidas de isolamento social, o empresário bolsonarista Junior Durski, proprietário do Madero, estimou que o Brasil não “poderia parar por 5 ou 7 mil mortes“.  Pois bem, o Brasil já ultrapassou o limite superior das previsões de Junior Durski e parece rumar para um recorde fúnebre sem precedentes na sua história recente. Por onde será que Durski anda e o que ele tem a nos dizer agora? 

Ex-presidente da Colômbia afirma que o Brasil é um barco à deriva no meio da pandemia

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O ex-presidente da Colombia (1994-1998) e ex-secretário geral da União das Nações da América do Sul (UNASUR) entre 2014 e 2017, Ernesto Samper Pizano (e membro de uma das famílias mais ricas daquele país), caracterizou a situação do Brasil como “um barco à deriva” no meio da pandemia da COVID-19 por causa da atuação errática do presidente Jair Bolsonaro.

Samper lembrou em sua página oficial da rede social Twitter que quando a pandemia começou, Bolsonaro afirmou que a COVID-19 não passava de uma “gripezinha”, e que agora que o Brasil já passou das 5.000 mortes, o presidente do Brasil pergunta às famílias dos mortos o que querem que ele faça. Em função disso, Samper dispara uma sentença inclemente: o Brasil é um barco à deriva (ver imagem abaixo).

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Uma primeira observação sobre as afirmações do ex-presidente colombiano é que Samper está corretíssimo em sua caracterização da situação do Brasil no meio dessa pandemia. É que depois de sabotar as medidas de confinamento social, atacar os governadores e prefeitos que as adotando, e demitir o precário mas minimamente funcional Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro explicita a sua falta de contato com qualquer proposta de tratamento organizado das necessárias respostas ao agravamento da pandemia em território brasileiro.

A minha segunda observação se dá em relação ao papel que o Brasil não terá na liderança regional após a passagem da pandemia. É que tendo ignorado todas as medidas de contenção da crise sanitária e deixado a maioria dos seus trabalhadores ao mar, o governo Bolsonaro certamente enfrentará uma séria crise social ao final da pandemia, o que impedirá que ocupe qualquer papel relevante da reorganização da economia regional. E é esta a sinalização que as declarações do ex-presidente colombiano deixam claro.

Como um ocupante deste barco à deriva chamado Brasil, a minha expectativa é que as medidas que estão em curso a partir das comunidades mais afetadas e dos movimentos sociais em geral, possamos nos preparar para minimizar as perdas humanas que a pandemia causará, para depois nos defrontarmos com os responsáveis pela situação “à deriva” em que fomos deixados. Esse será um ajuste necessário, até para que tenhamos alguma possibilidade de reconstruir o Brasil no pós-pandemia.

Coronavírus já causou 5 vezes mais mortos do que Bolsonaro previu. E a contagem continua

bolsonaro máscara

Fala-se muitos dos erros políticos e comportamentais do presidente Jair Bolsonaro, especialmente após a eclosão das crises com os agora ex-ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública).  Me perdoem os que estão concentrados nessa faceta, digamos, mais política dos erros de Bolsonaro, penso que ao fazer isto, se está “passando pano” para erros mais graves que ele cometeu durante a pandemia causada pela COVID-19.

O fato é que, desde o início da crise sanitária em que estamos envolvidos por causa do coronavírus, o presidente brasileiro tem sido um dos principais (senão o principal) líderes do negacionismo a-científico da letalidade da COVID-19.  

Prova disso foi a previsão furada que ele fez no dia 22 de março de que o a COVID-19 não causaria o mesmo número de mortos alcançado pela gripe H1N1, que beirou um total de 800 óbitos. O pior é que ele fez isso em uma entrevista dada ao um programa com razoável audiência, o Domingo Espetacular que é veiculado pela Record TV.

Ao fazer um anúncio sem qualquer base científica e persistentemente trabalhar contra o isolamento social, o presidente Jair Bolsonaro se tornou uma espécie de aliado mór do coronavírus no Brasil.

O resultado dessa ação que desafia o conhecimento científico em torno das características do coronavírus e de seus mecanismos de difusão é que neste domingo (26/04) o Brasil já atingiu de 4.057 de mortos, apenas nos registros oficiais e que ignoram uma flagrante subnotificação dos infectados e mortos pela pandemia no Brasil. Esse valor, antes que o Brasil tenha atingido o pico do número de mortes, pasmem, é cinco vezes maior do que o previsto por Bolsonaro no dia 22 de março.

Assim, mesmo que o presidente Bolsonaro agora alegue que não é coveiro para ficar discutindo o número de mortos, o seu erro de avaliação cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) irá assombrar o seu governo.  E quando isso acontecer,  nem a horda de robôs que operam nas redes sociais a favor de Bolsonaro será capaz de evitar que o povo brasileiro cobre explicações sobre como foi possível errar tanto em meio a uma pandemia mortal.

E, sim, há que se lembrar que a contagem de mortos ainda parece longe de terminar. Simples assim!