Rodrigo Duterte afirma que as Filipinas estariam “afundadas na merda” se ele seguisse os exemplos de Trump e Bolsonaro

Apesar de frequentemente comparado aos líderes populistas dos EUA e do Brasil,  o presidente Rodrigo Duterte disse que a abordagem ‘o diabo que se importe’ poderia causar estragos nas Filipinas.

duterteO presidente Rodrigo Duterte fala durante uma reunião ministerial transmitida em 8 de julho de 2020.  

As Filipinas estão à beira da recessão, mas a reabertura total de sua economia, enquanto milhares de novos casos de coronavírus ainda estão sendo registrados diariamente, coloca o país em risco de “pandemônio”, disse o presidente Rodrigo Duterte. 

Em comentários pré-gravados ao ar na quarta-feira de manhã, Duterte disse que está optando por uma reabertura parcial da economia para salvar meios de subsistência e garantir empregos – e para evitar repetir os erros de líderes como Donald Trump, dos EUA, e Jair Bolsonaro, ambos do Brasil. com quem ele é freqüentemente comparado.

“Nos Estados Unidos e no Brasil, os presidentes são corajosos. Bolsonaro tem dinheiro; ele é como Trump “, disse ele, citando o estilo “o diabo que se preocupe” (i..e., irresponsável) dos dois presidentes

“Somos pobres. Não podemos permitir um pandemônio total”.

Ele acrescentou: “Se seguirmos os exemplos de outros países, abrindo toda a nossa economia e milhares e milhares de novos casos acontecerem – então estaríamos afundados em uma merda profunda”.

Duterte passou a expressar preocupações sobre emular as “ações ousadas” de países como EUA, Brasil e outros.

“Antes de tudo, não temos dinheiro suficiente para lidar com a pandemia. Temos que ser muito cautelosos na reabertura de nossa economia ”, afirmou Duterte. “Agora, o que realmente aconteceu nesses países foi que, embora eles abrissem sua economia para receber dinheiro nos cofres do governo, houve um aumento [nos casos]. Eles enfrentaram problemas com recaídas. ”

Atualmente, os EUA têm o maior número de infecções e mortes do mundo, com mais de 3 milhões e 132.000, respectivamente. No entanto, Trump subestimou repetidamente a gravidade do coronavírus e instou os estados a reabrir.

Enquanto isso, o Brasil, em segundo lugar no ranking de infecções e mortes, se opôs aos bloqueios, com o presidente Bolsonaro dizendo que eles prejudicariam a economia. Até o próprio Bolsonaro testou positivo para o COVID-19, que ele considerou “uma gripezinha”.

Nas Filipinas, por sua vez,  ocorreu um forte isolamento social por três meses por causa da pandemia, mas os novos casos de coronavírus continuam aumentando. Até agora, o país registrou mais de 50.000 casos confirmados, com mais de 1.300 mortes.

Ainda assim, as apostas econômicas são altas para as Filipinas. Em seu relatório de Perspectivas Econômicas Globais de junho , o Banco Mundial revisou sua previsão de PIB para o país em até 8%, prevendo que a economia provavelmente contrairá em 2020. O banco disse que a contração provavelmente também resultaria em um aumento na pobreza.

Mas Khoon Goh, chefe de pesquisa da Ásia no Grupo Bancário da Austrália e Nova Zelândia (ANZ), disse que a decisão de Duterte é um “caminho razoável a seguir”.

“Manter bloqueios rigorosos causa um enorme dano econômico a um país. É particularmente difícil para as famílias de baixa renda e para as que não fazem parte do setor formal da economia ”, disse Goh à VICE News em um e-mail.

“Uma reabertura gradual permitirá que a atividade econômica seja reiniciada, enquanto esperamos evitar um agravamento do surto. É uma decisão muito difícil e haverá possíveis resultados negativos de qualquer maneira, por isso é difícil avaliar qual tem o menor custo. Como vimos nos EUA, a reabertura muito rapidamente resultará em um aumento de infecções. ”

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Este texto foi publicado originalmente em inglês pela site de notícias Vice  [Aqui!].

Jair Bolsonaro testa positivo para a COVID-19 e aprofunda a agonia do seu governo

bolsonaro embaixadorTrês dias após celebrar a independência dos EUA ao lado do embaixador estadunidense em Brasília, Jair Bolsonaro testa positivo para a infecção por coronavírus

A informação agora oficialmente confirmada de que o presidente Jair Bolsonaro ontraiu a COVID-19 (ver abaixo imagem com o resultado do exame) é a comprovação de que quem brinca com fogo, cedo ou tarde acaba chamuscado.

resultadoExame do presidente Jair Bolsonaro que testou positivo para a COVID-19. Reprodução/CNN

Mas há desde o resultado da confirmação do contágio algumas diferenças básicas entre a situação do presidente Jair Bolsonaro e milhões de brasileiros pobres que vivem no sobressalto por terem contraído a COVID-19 ou terem que se arriscar todos os dias para sair de casa em busca do seu sustento.

A primeira é que em menos de 24 horas o presidente do Brasil pode acessar seu plano privado de saúde para realizar um teste para detecção do coronavírus e começar um protocolo de tratamento para a COVID-19 em uma unidade hospitalar que poderá tratá-lo no mais alto padrão.

A segunda é que em vez de ter se submeter ao isolamento imposto pela COVID-19 em um quarto apertado em área sem água e serviço de esgotos, Jair Bolsonaro se hospedará em sua residência oficial, onde receberá a atenção ininterrupta de profissionais altamente qualificados em todas as áreas em que ele demandar a devida atenção.

Essas duas diferenças parecem ser triviais, mas não o são para milhares de famílias que hoje se debatem para cuidar de membros que foram acometidos pela COVID-19.  Por isso, sem que eu tenha me juntar aos que desejam o sucesso do coronavírus sobre o organismo  de um presidente do qual discordo frontalmente, penso que é importante notar estas distinções.

Bolsonaro tira a máscara em frente a jornalistasJair Bolsonaro retira a máscara que usava no momento em que fez o anúncio do seu teste positivo para COVID-19, colocando em risco os jornalistas presentes

Lamentavelmente, ao menos em sua primeira entrevista pública após a divulgação do diagnóstico positivo, o presidente Jair Bolsonaro não parece disposto a reconhecer que a sua COVID-19 não é a mesma que está acometendo os brasileiros mais pobres. A maior prova disso foi que ele retirou a máscara que usava no momento em que informou o resultado positivo, colocando em risco a saúde dos jornalistas presentes. Ao trivializar a própria doença e se mostrar em público sem portar uma máscara que o impeça de difundir o coronavírus, o presidente do Brasil contribuiu para banalizar ainda mais uma condição que não tem nada de banal.

Concluo dizendo que a confirmação da infecção por COVID-19 de Jair Bolsonaro ocorre em um momento particularmente ruim, na medida em que a pandemia está fora de controle e o governo federal não demonstra a capacidade mínima de que poderá agir para minorar a catástrofe que se alastra pelo Brasil tal qual fogo em pastagem seca.

Depois de muito brincar com o perigo, Jair Bolsonaro pode ter sido contagiado pelo coronavírus

bolsonaro covid19O presidente Jair Bolsonaro estaria com sintomas de COVID-19 e aguardando o resultado de um teste realizado nesta segunda-feira

Desde março quando a pandemia começou a se espalhar com mais força pelo Brasil, o presidente Jair Bolsonaro trabalhou de forma acintosa para sabotar todos os esforços para combater e controlar de forma eficaz a disseminação da COVID-19.

Evidências do descaso presidencial com a letalidade da infecção causada pelo coronavírus tem sido tão explícito que um juiz chegou a determinar que ele usasse uma máscara de proteção em público.

Agora, a rede CNN Brasil acaba de informar que o presidente Jair Bolsonaro está os primeiros sintomas de que está com a COVID-19, aguardando para amanhã o resultado do laudo que poderá confirmar ou não se isto é verdade.

Em uma rara demonstração de precaução presidencial, a agenda semanal de Jair Bolsonaro já foi cancelada, mesmo porque ele está com sintomas de febre, independente de ser causada pela COVID-19 ou não.

Agora, se o resultado do laudo for positivo, a crise política e econômica em que o Brasil está enfiado deve se aprofundar, pois, ao contrário do que disse inicialmente o presidente brasileiro, sua idade e passado recente com múltiplas intervenções cirúrgicas o colocam em um claro grupo de risco. 

E não nos esqueçamos que no caso de um impedimento mais prolongado, Jair Bolsonaro será substituído pelo general Hamilton Mourão que não representa qualquer garantia de que a crise brasileira será minimizada. Aliás, a chance maior é que aconteça justamente o contrário.

Aguardemos, pois!

A cruzada de Jair Bolsonaro contra as máscaras realça a natureza anti-científica do seu governo

O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores na frente do Palácio do Planalto

Em uma matéria assinada pelo jornalista Daniel Carvalho, o jornal Folha de São Paulo informa que o presidente Jair Bolsonaro ampliou a sua cruzada contra o uso de máscaras cirúrgicas ou artesanais como forma de diminuir a transmissão de coronavírus em diversos tipos de ambientes, incluindo presídios onde hoje a pandemia da COVID-19 dá sinais de estar se ampliando velozmente. A  cruzada é tão abrangente que agora Jair Bolsonaro está isentando estabelecimentos comerciais de  “afixar cartazes informando sobre o uso correto de máscaras“.

Note-se que este mesmo presidente está promovendo uma liberação exponencial para a venda de armas com medidas que impedem, entre outras coisas, que se possa realizar o rastreamento de procedência de munições. 

Mas o que está cruzada revela é a mais perfeita desconsideração com regras mínimas de segurança em um momento que a pandemia da COVID-19 já atingiu números oficiais alarmantes, com 1.604.885 infectados e quase 65 mil mortos.

A razão mais óbvia para esta ação agressiva contra uma ferramenta básica de defesa das pessoas contra um vírus letal é reafirmar a posição de ceticismo frente às evidências amplamente aceitas em relação à utilidade do uso de máscaras no enfrentamento da pandemia. Ao dificultar a imposição do uso e até ao acesso de informações que esclareçam o seu uso correto, Jair Bolsonaro está objetivamente contribuindo para que setores ainda mais amplos da população deixem de se proteger e, por consequência, aumente o tempo de duração da pandemia.

bolsonaro mascaraA marcha de Jair Bolsonaro contra o uso de máscara revela o caráter anti-científico do seu governo

O que mais chama a atenção nesse processo que causa perplexidade em líderes mundiais, inclusive os de direita como o ex-presidente da Colômbia. Juan Manuel Santos, que considerou uma loucura a condução feita por Jair Bolsonaro da pandemia, é a aceitação tácita, e até mesmo a participação na cruzada de Bolsonaro contra as máscaras, parte do judiciário e do legislativo, bem como de governadores e prefeitos.

Uma possível explicação para que o presidente Jair Bolsonaro possa continuar com sua cruzada anti-ciência é a informação de que a maioria dos mortos pela COVID-19 são homens negros e pobres que normalmente habitam as periferias pobres das grandes cidades brasileiras. 

As características demográficas da maioria dos mortos também explica o porquê das cenas de multidões sorvendo bebidas alcóolicas em bairros frequentados principalmente pela classe média branca cuja maioria votou em Jair Bolsonaro para presidir o Brasil. Nesse sentido, há um encontro entre classe e cor da pele entre os que alimentam a cruzada promovida por um presidente que nunca mostrou preocupação pela maioria dos que estão morrendo ao longo de seus quase 30 anos no parlamento brasileiro. A negação das máscaras é, portanto, um encontro perfeito entre criador (a classe média) e a sua criatura (Jair Bolsonaro) (ver vídeo abaixo).

Por fim, nada mais coerente então que deixar os ministérios da Saúde e da Educação abandonados no mar de incompetência em que o governo federal se transformou nas mãos de um presidente que despreza as evidências científicas mais básicas. E segue a cruzada.

Carta aberta denuncia situação de calamidade na Unidade Pré Hospitalar de Travessão (UPHT)

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Carta aberta à população de Campos dos Goytacazes

“A situação da saúde pública não está nada fácil para a população, muito menos para os profissionais de saúde, em Campos dos Goytacazes”.

Além dos problemas noticiados nas redes sociais e imprensa sobre a Unidade Pré Hospitalar de Travessão (UPHT) que vão desde a obra entregue com entupimentos, insalubridade das enfermarias, falta de ventilação adequada, mofo nas paredes, falta de higienização dos ares condicionados, até os problemas que se agravam com a pandemia.

Como se não bastasse a escassez de EPI’s, a falta de álcool em gel nos suportes para pacientes e funcionários, a falta de médicos em finais de semana, a população está exposta a uma gestão sem competência e compromisso com a vida humana.

Essa semana chegaram testes rápidos para serem realizados nos funcionários. Os testes só foram utilizados durante três dias da semana e recolhidos sem a devida justificativa.

O que nos deixa estarrecidos é que alguns funcionários testaram positivo e isso não resultou em seu afastamento da função como requer o protocolo.

Foi necessária a mobilização de alguns profissionais para que o trabalhador tivesse seu direito garantido, além de evitar maior exposição e contaminação de colegas e pacientes.

Assustador é que nesta unidade alguns profissionais utilizam um argumento vil: “todo mundo tem que pegar para imunizar”. Isso significa que não cumprem o protocolo em seu atendimento e, provavelmente se expõem nas ruas, colocando muitas vidas em risco e quando retornam aos seus plantões.

A UPHT é uma amostra do que está ocorrendo no município. Quais protocolos estão sendo seguidos com seriedade? Que direito os profissionais de saúde recorrem a um pensamento liberal se dando o direito de banalizar o risco que a população está exposta a um vírus com tamanha letalidade?!

Diante dessas questões pedimos à população que se conscientize, que defenda o direito a uma politica pública de qualidade e que juntos possamos exigir dos ´gestores´ ações efetivas na proteção e combate à pandemia, em caráter emergencial de forma que as mortes sejam evitáveis.”

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Esta carta aberta foi originalmente publicada no perfil mantido pelo jornalista Saulo Pessanha na rede social Facebook [Aqui!].

Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo lança visitação virtual ao Museu de Pesca de Santos

Visita online é uma réplica da estrutura física do espaço e contém parte do acervo real; Museu é uma das principais atrações turísticas de Santos

museu de pesca

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo lança a visitação virtual do seu Museu de Pesca, um dos mais importantes pontos turísticos de Santos, no litoral. Fechado devido à pandemia do novo coronavírus desde março de 2020, o espaço poderá agora ser explorado pelo público por meio destsite .

Este é o primeiro produto do Projeto VVV – Venha Visitar Virtualmente, da Secretaria de Agricultura, que tem o objetivo de virtualizar a visita aos seus espaços culturais e educativos da Pasta.

O Museu de Pesca recebe público de mais de 50 mil pessoas, anualmente. Mantido pelo Instituto de Pesca (IP-APTA), o espaço tem a missão de divulgar as ações de pesquisa do IP e destacar a importância da preservação do meio ambiente e da vida aquática, promovendo a educação ambiental. No local são desenvolvidas atividades educativas não formais, com o intuito de promover a preservação ambiental, estimular a sustentabilidade pela correta utilização dos recursos naturais, marinhos e continentais, além de promover a aquicultura sustentável.

A versão virtual do Museu de Pesca é uma réplica da estrutura física do espaço, contendo em cada ambiente parte de seu acervo real. Na visita presencial, para o grande público, as principais atrações são um imponente esqueleto da baleia Balaenoptera physalus, com 23 metros de comprimento e sete toneladas, e os diversos exemplares de tubarões.

“O lançamento do Museu Virtual permitirá aos visitantes assíduos, principalmente crianças, aplacar a saudade enquanto o mesmo está fechado, e estimulará potenciais novos visitantes, uma vez que a visita virtual gera curiosidade sobre as atrações do Museu”, afirma Thaís Moron, pesquisadora do IP e diretora do Museu de Pesca.

A ideia da virtualização do espaço partiu de Cibele Silva, bióloga e integrante do Centro de Comunicação e Transferência do Conhecimento (CECOM) do Instituto, devido ao impedimento da visitação ao espaço físico neste momento de controle do contágio do novo coronavírus e para dar oportunidade a pessoas de fora da região e até mesmo do Estado de conhecer o acervo do Museu. O Projeto VVV é coordenado por Cibele e foi planejado e desenvolvido por Bruna da Silva, Gabriela Pereira e Raphaela Horti, estagiárias do Instituto de Pesca.

Gabriela Pereira foi a principal responsável pelo desenvolvimento da mídia para virtualização e interatividade entre equipamento e visitante. “Criar o mapa do museu em uma versão virtual, ainda mais interativo, foi um desafio para mim, pois não sou da área de informática. Porém, meus conhecimentos de design gráfico ajudaram na parte visual e, por ser estudante de Ciências Biológicas, meu entusiasmo em poder fazer parte de um projeto que comunica a importância da preservação do meio ambiente e dos seres aquáticos foi a grande motivação para aprender o que não sabia e conseguir fazer a entrega”, diz Pereira.

O Projeto VVV deve lançar nas próximas semanas a visitação virtual do Planeta Inseto, exposição mantida pelo Instituto Biológico (IB-APTA).

Museu de Pesca

O acervo do Museu de Pesca é composto por exemplares de diversas espécies de peixes, crustáceos, aves e mamíferos marinhos taxidermizados ou suas ossadas, conchas de moluscos, areias, além de maquetes de embarcações, aparelhos e equipamentos utilizados na pesca e em pesquisa oceanográfica, obras artísticas dentre outros.

Sua Sede atual, construída no local de uma fortificação datada do século XVIII, abrigou inicialmente a Escola de Aprendizes-Marinheiros, e, a partir de 1933, o Instituto de Pesca Marítima, nome pelo qual passou a ser denominada (a partir de 1932) a Escola de Pesca do Estado de São Paulo, fundada em 1928, no Guarujá. “É um prédio histórico, de localização privilegiada e que oferece ao visitante a experiência de estar em uma construção antiga e apreciar uma belíssima paisagem por meio das janelas do piso superior”, afirma Thaís.

Link para visitação:
http://view.genial.ly/5ee8f8dbdc504b0d7c7e6b15/interactive-image-visitacao-virtual-ao-museu-de-pesca

Endereço:
Avenida Bartolomeu de Gusmão, 192
Ponta da Praia – Santos (SP) – Brasil
CEP 11030-906
Contato: (13) 3261-5260
E-mail: museu@pesca.sp.gov.br / agendamentomuseu@pesca.sp.gov.br

Crise no governo do Brasil: escândalos e mais de um milhão de pessoas infectadas com coronavírus

Escândalos, problemas econômicos e infecções crescentes por coronavírus enfraquecem enormemente o governo do presidente de direita Jair Bolsonaro. Os pedidos de demissão estão ficando mais altos

congresso nacionalEdifício do congresso nacional na capital do Brasil, Brasília. Foto: Adveniat / Jürgen Escher

Por Thomas Milz para a KNA

Uma tempestade está se formando no Brasil: vários escândalos estão enfraquecendo o governo de Jair Messias Bolsonaro, enquanto a economia está caminhando para uma queda histórica em face do crescente número de infectados pelo coronavírus. Na última sexta-feira, o Brasil quebrou a barreira de um milhão de infecções. No sábado, a marca de 50.000 mortes por COVID-19 foi ultrapassada. Isso coloca o Brasil em segundo lugar no mundo, atrás dos EUA.

Mais de um milhão de infectados e 50.000 mortos

No início da semana passada, especialistas viram primeiros sinais de queda no número de infectados por coronavírus no estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil, o epicentro da pandemia da COVID-19. Com quase 2.000 mortos, um novo recorde semanal foi estabelecido lá, como noticiou a mídia brasileira no sábado. A Organização Mundial da Saúde  (OMS) anunciou outro recorde no domingo: com 54.700 novas infecções em um dia, o Brasil quebrou o recorde do dia anterior, em 26 de abril que pertencia aos EUA.

No entanto, o número de mortes por  COVID-19, localizado em 50.659 no domingo, provavelmente será ainda maior. Segundo especialistas, 21.289 mortes previamente registradas como doenças respiratórias graves podem ser casos de COVID-19. Devido à falta de testes, a verdadeira extensão da doença dificilmente será estimada.

As cidades que haviam afrouxado as medidas de isolamento social para conter a expansão do coronavírus devido à pressão das associações empresariais, agora precisavam apertá-las novamente, como na metrópole de Porto Alegre, na região sul. No Rio de Janeiro, a região mais afetada depois de São Paulo, milhares lotaram as praias bloqueadas no fim de semana. Nem a polícia nem os oficiais do departamento de regulamentação intervieram para fazer cumprir o requisito da máscara.

Os governos locais atualmente estão sozinhos na luta contra o coronavírus. Diante de vários escândalos, o governo federal é quase incapaz de agir, tanto o cargo de Ministro da Saúde como o de Ministro da Educação não estão preenchidos. Não existe uma ideia de como e quando as escolas e universidades abrirão novamente.

Investigação ao filho de Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, que está sob investigação por campanhas de ódio e “fake news”  (notícias falsas), anunciou sua renúncia na quinta-feira. Horas depois, ele fugiu para Miami com seu passaporte diplomático. Somente depois que ele desembarcou nos Estados Unidos, o presidente Bolsonaro renunciou oficialmente. Atualmente, os brasileiros estão proibidos de entrar nos EUA com passaportes simples.

O próprio presidente Jair Bolsonaro está sob pressão depois que os investigadores detiveram um ex-policial (Fabrício Queiroz) que estava escondido na casa de seu advogado por mais de um ano na quinta-feira. O ex-policial é amigo íntimo de Bolsonaro há 30 anos e foi considerado um intermediário entre sua família e milícias que operam no Rio de Janeiro. Flavio, filho de Bolsonaro, senador, teria lavado centenas de milhares de euros com a ajuda desse intermediário.

Pedido de demissão

Os problemas legais da família Bolsonaro estão dificultando cada vez mais o trabalho do governo. O ministro da Justiça Sergio Moro renunciou em abril depois que Bolsonaro tentou influenciar a investigação policial do Rio. Enquanto isso, não há ideia de como ajudar a economia atingida pela pandemia causada pelo coronavírus. A produção econômica pode cair em até 9% em 2020, e o déficit orçamentário ameaça aumentar em cinco vezes. No Congresso, as reivindicações pelo impeachment de Bolsonaro estão ficando mais fortes.

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Este artigo foi publicado originalmente em alemão pela Domradio.de [Aqui!].

TV alemã ZDE mostra a pandemia da COVID-19 no Brasil como ela realmente é

covid alemanha

Um dos aspectos inquietantes que sempre rondam a minha mente é de como os brasileiros, mesmo após passadas as marcas de 1 milhão de infectados e de pelo menos 50 mil mortos pela COVID-19, ainda se arriscam às ruas como se nada de especial estivesse acontecendo. Aos olhos do resto do mundo, essa situação causa profunda estranheza, pois a letalidade da pandemia já é algo mais do que estabelecido.

Como tenho assistido a muitos programas de TVs estrangeiras, me arrisco a dizer que parte do problema está na forma pela qual a pandemia da COVID-19 está sendo apresentada aos brasileiros pela mídia corporativa, especialmente pelas redes de TV. É que, apesar de buscarem mostrar um suposto compromisso jornalístico de apresentar a verdade à população, a cobertura que está sendo feita omite as cenas mais explícitas da letalidade da pandemia, especialmente entre os mais pobres. A cobertura aqui, como em tantos outros casos, tem sido superficial e fragmentada, sendo um dos elementos indutores de uma espécie de letargia que torna as infecções e mortes causadas pela coronavírus, algo que é distante do cotidiano das pessoas; uma espécie de filme que só passa na TV do vizinho.

Vejamos por exemplo, uma matéria que foi ar neste domingo na Alemanha via o canal de TV ZDE, um canal de televisão público e um dos maiores da Europa, que faz uma síntese bastante efetiva de todos os ângulos que a pandemia da COVID-19 assumiu no Brasil, e isto tudo em menos de 2 minutos. E o interessante é que nem se precisa entender alemão para seguir o fio da meada da reportagem que mostra cenas que a mídia brasileira vem omitindo da maioria da população.

Entre outras coisas, o que fica apontado na matéria é que no Brasil, os números da COVID-19 continuam a subir, sendo que o nosso país tem o segundo maior número de casos e a terceira maior mortalidade no mundo.  E as causas da expansão da pandemia são relacionados à falta de testagem, inexistência de infraestrutura hospitalar, e a ação do presidente Jair Bolsonaro que é mostrado naquela infame cena em que ele chegou à cavalo em uma manifestação em que seus apoiadores pediam o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal há umas semanas atrás.

Mas o que deve impressionar a audiência alemã são as condições caóticas em que corpos estão sendo retirados em comunidades pobres e a multiplicação de valas coletivas em diferentes partes do território brasileiro.  Essas cenas certamente estão chocando uma audiência que atravessou e perdeu duas grandes guerras mundiais, pois os alemães sabem que só em condições de degradação extrema do funcionamento do Estado é que as Nações devem lançar mão de valas coletivas.

Mas volto a dizer, parte da distância que se está criando entre a maioria da população e os resultados da pandemia da COVID-19 é fruto exatamente da falta de informação sobre o que, de fato, está acontecendo. E não me parece que a culpa por isso seja só do governo Bolsonaro que, como a reportagem da ZDE mostra, tem se esforçado para minimizar a gravidade da pandemia.

1 milhão de infectados e e os erros do Brasil no combate à COVID-19

Um milhão de infectados e os erros do Brasil no combate à COVID-19

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialFotomontagem de Beatriz Abdalla/Jornal da USP sobre fotos de Palácio do Planalto

O novo coronavírus desembarcou em terras nacionais em um momento de fragilidade política, econômica e social que contribui para piorar um cenário que já seria naturalmente complicado

Por Luiz Roberto Serrano para o Jornal da USP*

A pandemia da COVID-19 chegou ao Brasil num péssimo momento. Qualquer um seria ruim, evidentemente, mas ela desembarcou aqui num momento de confusão e desagregação política, fragilidade econômica e carências sociais historicamente acumuladas. O potencial infeccioso e mortal dessa doença desconhecida exigia que o país a enfrentasse sob o comando de uma liderança firme, clara, decidida, que orientasse, e até mesmo guiasse, a sociedade na travessia do deserto que se vislumbrava à frente.

O primeiro sinal já foi desanimador. Ainda no início de fevereiro, o governo brasileiro hesitou em enviar aviões para resgatar brasileiros em Wuhan, na China, origem da pandemia, alegando que seria uma operação muito cara. Felizmente, enviou. O sofrimento pelo qual passaram, antes de nós, a China, a Itália, Espanha e os Estados Unidos – só para citar alguns países – apontaram caminhos a serem seguidos no combate à covid-19, especialmente em relação ao isolamento social, mas não foram observados e absorvidos, a não ser isoladamente pelo Ministério da Saúde, e a oportunidade de nos precavermos por antecipação foi jogada pela janela.

O fato é que tudo degringolou, com o presidente da República desdenhando da gravidade da pandemia, desautorizando as orientações emanadas do seu próprio Ministério da Saúde, entrando em guerra com os governadores que tentaram conter o avanço da doença, e o Ministério da Economia, de tendência liberal, resistindo e demorando para colocar recursos à disposição de empresas e trabalhadores e da população em geral para preservar, pelo menos, os sinais vitais da economia. Resultado: já alcançamos a marca de um milhão de brasileiros infectados, ultrapassamos os 49 mil mortos e o Produto Interno Bruto desliza perigosamente para uma queda que aponta para 10% em 2020.

O presidente Jair Bolsonaro insistiu desde o princípio que a pandemia não passava de uma “gripezinha”, que a morte é um fato inevitável da vida, participou de manifestações políticas sem máscaras e distanciamentos recomendados para todos os brasileiros e concentra todas as suas energias apenas na permanente disputa política que envolve o seu governo, o congresso, o sistema judiciário e a sociedade. Sua postura mina e combate a orientação de médicos e cientistas e governadores de que o isolamento é a melhor arma no momento para combater o alastramento do vírus e estimula parcela considerável dos brasileiros a não cumpri-lo e a se arriscarem nas ruas e nos locais de trabalho e públicos, especialmente o transporte coletivo.

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialJair Bolsonaro, durante manifestação recente em Brasília – Foto: Reprodução/Twitter

É compreensível que a parcela da população cuja renda depende de atividades diárias, especialmente os trabalhadores informais e as empresas produtivas e de serviço, que só dependem da presença física de sua clientela para operar, se sintam prejudicadas pela política de isolamento e estejam angustiadas para gerar caixa. Até mesmo as grandes empresas, com maior lastro financeiro, sofrem ao operar abaixo de sua capacidade de produção e comercialização, mesmo, entre estas, as que têm canais de venda digitais. É de se esperar que almejem que tudo volte ao normal rapidamente. A questão é que esse rapidamente, esse retorno precoce, pode gerar um aumento na taxa de contaminação na população cujas consequências ainda são imprevisíveis.

Esse sufoco seria menor, em parte evitável, se o governo, principalmente o Ministério da Economia, irrigasse a economia com recursos que azeitassem o seu funcionamento em patamares pelo menos de sobrevivência. Este deveria ser o papel de um Estado que compreendesse e aceitasse sua função de estimulador da atividade econômica em momentos de grave crise. Não é o caso do Ministério da Economia dirigido por Paulo Guedes, de orientação liberal e preocupado, acima de tudo, com o desequilíbrio fiscal sensível que herdou de governos anteriores. Claro, o governo ofereceu recursos às empresas e à população, mas insuficientes, boa parte dos quais ficou empoçado nos bancos, eternamente preocupados com a inadimplência, e chegaram à ponta, a quem deveria recebê-los, lentamente, quando chegaram. Numa crise como a atual, um governo deveria fazer um balanço entre o que é mais importante e urgente para a sociedade e o que é administrável com políticas de longo prazo. O equilíbrio fiscal ou o combate à COVID-19?

Cidade do Rio de Janeiro flexibiliza medidas de isolamento socialO auxílio emergencial foi criado para socorrer trabalhadores informais durante a pandemia. Foto: Leonardo Sá/Agência Senado

Como efeitos colaterais graves, é preciso registrar o desmonte do Ministério da Saúde, órgão gestor e gerador de imprescindíveis políticas públicas, especialmente do SUS, que é o sustentáculo do atual combate à pandemia, de norte a sul do Brasil. Qual a perspectiva de reconstrução desse órgão vital para a saúde pública no Brasil quando os especialistas da área foram afastados e não há sinais de que profissionais do ramo voltem a ter espaço em seus quadros, especialmente os diretivos?

At last but not at least, o que será da educação e da ciência no Brasil? Não foi a COVID-19 que instalou uma séria crise na educação brasileira, ela vem de antes, graças à desimportância que o atual governo dá ao tema, vital para o futuro do país. Os recentes titulares do Ministério da Educação não tinham qualquer intimidade com o tema e se guiavam por dogmas ideológicos retrógrados. Não há perspectiva de melhora.

Nestes tempos de COVID-19, o isolamento aconselhava pesados investimentos num sistema de aulas à distância nos ensinos fundamental e médio, cujo alunato, em sua maioria, é carente de recursos tecnológicos eficientes para acompanhá-lo. Não foi feito com a necessária abrangência, até porque é uma tarefa de grande porte num país com as dimensões do Brasil. Haverá sérias lacunas a preencher quando as aulas forem retomadas.

O esforço e a eficiência das Universidades, especialmente as públicas, na promoção de pesquisas sobre medicamentos, terapias, equipamentos para o combate à COVID-19, deu-lhes uma notoriedade ímpar diante da sociedade brasileira, evidenciando sua importância para a ciência brasileira e o desenvolvimento do país. Parte significativa delas, entre elas a USP, mobilizou seus recursos para o ensino à distância para que a formação dos quadros que dirigirão o país no futuro prosseguisse com o mínimo de prejuízo no momento. Mas dos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia não emanou qualquer orientação.

A retomada da vida normal na sociedade brasileira no período pós-pandemia, que não se sabe, ainda, quando e como se dará, é profundamente desafiador, exigirá um grande esforço de reconstrução e renovação em todas as áreas da vida da sociedade. Aprendemos com os acertos e erros cometidos neste período tão perturbador? Sairemos melhor do outro lado?

A resposta está nas mãos de todos os brasileiros.

*Luiz Roberto Serrano é Superintendente de Comunicação Social da USP

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP [Aqui!].