Trash science: as conferências caça-níqueis são apenas a ponta do iceberg

As atribulações dos últimos dias não me permitiram abordar de forma rápida ao material que o jornalista Maurício Tuffani publicou na plataforma “Direto da Ciência” acerca da volta com força total das conferências científicas caça-níqueis ao Brasil (Aqui!).

O fato das conferências caça-níqueis serem as irmãs gêmeas das revistas de “trash science” apenas reforça o caráter predatório das mesmas. É que como já mostrou o próprio Maurício Tuffani em determinados casos há uma espécie de ligação direta entre a conferência caça-níquel e uma revista predatória, a qual é normalmente publicada online pelos mesmos “empreendedores” da área da publicação científica.

Para mim a pergunta que realmente importa é de porque pesquisadores em diferentes níveis de desenvolvimento de sua carreira científica se submetem a este tipo de esquema de vulgarização da ciência. As respostas são muitas, mas a principal parece ser a preferência dada pelos órgãos de fomento por premiar a quantidade e não a qualidade do que é publicado como sendo produto de investigação científica.

Algo que chama a minha atenção toda vez que este assunto surge é o quase completo silêncio que se forma por parte da ampla maioria da comunidade científica, e não apenas da brasileira. Esse é definitivamente um fenômeno global e que responde a um processo de comodificação da ciência. A diferença é que no Brasil enquanto muitos participam ativamente dos eventos e revistas que produzem e disseminam lixo científico, poucos falam aberta e criticamente do problema.

Felizmente um núcleo de resistência a este processo de vulgarização do conhecimento científico está se formando, graças ao trabalho de indíviduos como Maurício Tuffani e Jeffrey Beall que vem apontando não apenas para a existência do problema, mas também para a necessidade urgente de que saiamos de uma posição de negação do óbvio para outra que recoloque a produção da ciência dentro dos marcos rigorosos que permitiram avanços impressionantes no entendimento de processos naturais e sociais nos últimos quatro séculos.

Finalmente, para os interessados em não cair nas malhas das conferências caça-níqueis, sugiro a leitura dos critérios propostos pelo professor Jeffrey Beall para identificar quando nos deparamos com esse tipo de pseudo evento científico, o qual pode ser acessado (Aqui!).

Em carta à editores da Nature, Jeffrey Beall conclama ação coletiva contra os jornais de trash science

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Em uma dura carta publicada nesta 5a. feira (16/06) (ver imagem abaixo) na seção “Letter to the editor” de uma das principais revistas do mundo, a Nature, o professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver demanda uma ação clara contra as revistas que publicam “trash science” (que ele chama de predatórias) (Aqui!).

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Em linhas gerais, o que Jeffrey Beall aponta é que as revistas predatórias estão ameaçando a credibilidade da ciência ao fingir ou negligenciar a realização de uma séria revisão de suas publicações por outros cientistas que não os autores (o chamado processo de peer review).   Beall aponta em sua carta que, ao ignorar a avaliação rigorosa por pares, as revistas predatórias estão poluindo a literatura científica com informações periféricas ou mesmo com simplesmente lixo científico.

Mas em sua carta aos editores da Nature, o prof. Beall vai além da mera denúncia quando insta as instituições de ensino superior a que parem de utilizar o número de artigos científicos publicados como uma medida de desempenho acadêmico. Além disso, Beall argumenta que pesquisadores e revistas científicas sérias não deveriam mais citar artigos oriundos de revistas envolvidas na publicação de “trash science“, e bibliotecas de universidades deveriam excluir as revistas científicas de suas bases de metadados. 

Entretanto, Jeffrey Beall também cobra ações claras de empresas que ofereçam serviços à editoras científicas no sentido de que parem de se relacionar com revistas de “trash science“.  As cobranças de Beall pela eliminação de editoras e revistas predatórias envolvidas na publicação de “trash science” atingem até gigantes do setor de referenciamento como a Scopus, a Web of Science da Thomson Reuters, e o US National Center for Biotechnology Information.

Uma cobrança final do prof. Beall é dirigida aos defensores das publicações de acesso aberto. Para Beall, esses defensores deveriam parar de fingir que o modelo de acesso aberto baseado na regra de ouro do “autor paga, revista publica” está totalmente livre de sérios problemas estruturais de longa duração.

Como alguém que vem acompanhando a questão dos impactos do “trash science“, penso que o prof. Jeffrey Beall está prestando um grande serviço à ciência mundial, e em especial à de países como o Brasil, onde a construção de uma vigorosa comunidade científica ainda está engatinhando. Particularmente ara mim, a ditadura oficializada da quantidade sobre a qualidade serve apenas para a criação de uma casta de tigres de papel cuja serventia ao avanço da ciência é basicamente nenhuma. Além disso, a negligência em rejeitar a premiação de autores “trash science” está criando sérias distorções não apenas na distribuição de verbas públicas para a pesquisa científica, mas também a realização de concursos públicos para professores nas universidades públicas. Com isso, o que temos é a possibilidade de um gigantesco salto para o passado que já está causando graves danos à ciência brasileira.

Lamentavelmente no caso brasileiro esse importante alerta do prof. Jeffrey Beall chega num momento de desarranjo da sistema científico nacional como resultado da dissolução do Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Em função disso, é bem provável que as medidas cirúrgicas que Beall sugere caiam em ouvidos completamente surdos.  Os pesquisadores brasileiros que vem turbinando seus CVs Lattes com lixo científico agradecem!

Marketing blogueiro: lançamento do “Direto da Ciência”

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Em tempos de crise generalizada existem diferentes posturas para enfrentá-las. O jornalista Maurício Tuffani,  que é especializado em ciência, ensino superior e meio ambiente, adotou o caminho da “highway” e não da “downway”.  É que ele acaba de lançar um arrojado projeto editorial na forma de um blog que tratará dos diferentes aspectos que cercam a ciência e sua produção.  Estou falando do lançamento do “Direto da Ciência” que ele acaba de iniciar com um artigo sobre o envolvimento de professores da Universidade Estadual de Campinas numa situação pouco clara na reprodução do que eu venho chamando de “trash science” (Aqui!).

Dado o silêncio que normalmente cerca determinados imbróglios envolvendo pesquisadores, brasileiros ou não, o lançamento de um veículo como o “Direto da Ciência” me parece fundamental para que não continuemos desinformados sobre os caminhos e descaminhos pelos quais a comunidade científica vem trilhando em tempos de comodificação da ciência.

E a experiência acumulada pelo jornalista Maurício Tuffani o credencia a transformar este projeto em um instrumento sólido de disseminação de informação e debate de ideias sobre a ciência brasileira. Afinal como editor de ciência, blogueiro e repórter da Folha de S.Paulo, e editor-chefe das revistas Scientific American Brasil e Galileu (Editora Globo). e ainda como diretor editorial da revista Unesp Ciência,  ele demonstrou ter o necessário rigor e expertise para tratar de assuntos espinhosos que a maioria dos pesquisadores brasileiros prefere não se pronunciar publicamente.

Por isso, tudo é que recomendo que os leitores deste blog passem a também a acessar o “Direto da Ciência”.

Segunda geração de “revistas trash” amplia risco de vulgarização da ciência

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O professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall publicou em seu site há poucos dias a ocorrência de uma segunda onda de editores de revistas de “trash science” (Aqui!). Esses editores nada mais seriam do que indivíduos que tendo trabalhado nas primeiras editoras “trash” decidiram criar seus próprios veículos para angariar recursos com autores incautos ou não. 

Eis que na manhã deste sábado (05/03) as minhas caixas de correio eletrônico amanheceram repletas de convites de revistas científicas obscuras, mas que estranhamente conseguiram me achar.

E, como não sou o único que deve ter sido “premiado”,  isto me leva a pensar que se há oferta, há demanda. Em outras palavras, se o número de revistas está proliferando é porque a competição permite que isto ocorra. Mas ainda há que se considerar que a relação custo/benefício deve estar ao lado dos editores destas revistas predatórias, já que só é preciso enviar um arquivo e depois pagar para que um pseudo-artigo possa ser citado como tendo sido publicado.

No caso brasileiro onde a adaptação a este tipo de oferta vem se dando sem nenhum tipo de amarra mais consistente, é bem provável que quem se serviu da primeira geração de editores “trash”, agora parta para abraçar sem nenhum remorso essa segunda onda de editores predatórios.

O pior é que naqueles poucos casos onde há algum tipo de cobrança de transparência como foi o caso do evento noticiado pelo jornalista Maurício Tuffani no seu blog (Aqui!) envolvendo a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que se vê é a procrastinação em oferecer as respostas devidas.

O problema é que ao não se ignorar e rechaçar (em vez de abraçar) as revistas que proliferam lixo científico, corremos o risco de que em algum tempo não possamos mais separar o que é ciência real e o que simplesmente lixo científico. No caso de países como o Brasil, os custos desta complacência com os editores “trash” compromete o avanço científico que conseguimos com tanta dificuldade

Docente da UFPA que teve título de doutor cassado por plágio é exonerada de funções administrativas

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No dia 27 de outubro de 2015 repercuti a cassação do título de doutorado de uma docente da Universidade Federal do Pará (UFPA) por motivo de plágio (Aqui!).  O caso era mais peculiar já que a docente era responsável pelo processo de avaliação institucional da instituição, e ainda atuava como avaliadora de cursos de graduação em plano nacional pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) que é vinculado ao Ministério da Educação (MEC).

Pois bem, quase quatro meses após essa cassação, o Diário do Pará publicou uma matéria comunicando que a referida professora havia sido exonerada de suas funções administrativas (seja isso lá o que for), tendo que retornar aos cofres públicos todos os valores que recebeu, na forma de gratificações e progressões salariais, como recompensa por deter um título que acabou sendo cassado.

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Eu costumo dizer que no meio acadêmico (que está longe de ser composto por anjos), a pessoa vive ou sobrevive pelo que se pode ligar ao seu nome em termos de ações de formação de novos pesquisadores e, mais importante, publicações.  Assim, o “nome” é algo pelo qual se pode ser laureado ou excomungado e enviado para o inferno acadêmico. Nesse caso, a professora em questão deve estar experimentando algumas labaredas fortes.

Se isso for verdade, alguns poderiam dizer que ela está recebendo o que merece, já que quem comete plágio acadêmico conhece bem os riscos envolvidos, especialmente quando já se chegou ao nível de doutoramento. 

Apesar disto ser verdade, existem evidências suficientes de que os plágios de dissertações e teses se tornou uma epidemia mundial. O que parece variar é o tempo que se leva para apurar e punir, especialmente se quem plagiou estiver em postos altos de comando como foi o caso da ministra da Educação da Alemanha, Annette Schavan, que teve seu título de doutora na Universidade de Dusseldorf cassado em 2013 e acabou tendo que renunciar ao cargo (Aqui!). Mas, no caso em tela, o incrível é que se passou mais de uma década para que se chegasse ao veredito de que a docente da UFPA cometido plágio!

Por outro lado, dizer que o plágio se tornou epidêmico sem explicar as causas, torna-se insuficiente.  No caso brasileiro, além dos elementos prosaicos que envolvem retornos financeiros para os títulos de pós-graduação, penso que a lógica produtivista que tem guiado a consolidação do nosso sistema nacional de pós-graduação é uma das causas principais não apenas para a proliferação do plágio, mas como da lerdeza existente em identificar e punir os transgressores.

É que presos a uma lógica de que quantidade é que importa, docentes e dirigentes institucionais acabam permitindo toda sorte de frouxidão na condução da formação dos futuros mestres e doutores, e que não raramente deságua na aprovação de documentos claramente desqualificados.  A lógica dominante é que quase ninguém lê as dissertações e teses, mas os artigos, capítulos de livros ou livros que as mesmas geram.

Essa lógica perversa que permite a proliferação do plágio também facilita a proliferação exponencial das chamadas “editoras predatórias” que se especializam em publicar “trash science“, muitas vezes financiadas com dinheiro público.  É que neste mundo imperfeito que se gera a partir da quantidade sobre qualidade, também se sabe que a imensa maioria desse lixo científico tampouco será lido ou, se lido, levado à sério.

De minha parte, venho insistindo que o atual contexto de valoração da quantidade sobre a qualidade precisa ser urgente e radicalmente transformado.  Do contrário, continuaremos produzindo uma ciência que é tão cara quanto inútil para as necessidades estratégicas do Brasil. Lamentavelmente, poucos quadros qualificados têm se mostrado dispostos a falar abertamente desse problema. E se isso continuar assim, não tenho dúvidas que outros casos de plágio vão surgir. Resta saber se vão ser apurados e punidos e numa velocidade mais célere. E tome “trash science“!

A crescente economia paralela das publicações acadêmicas

Por Jeffrey Beall, publicado originalmente em inglês Aqui!

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Identifcador de objeto científico?

Há evidências de uma economia paralela está se  desenvolvendo em torno da indústria das publicações  acadêmicas. Os componentes desta economia paralela incluem editoras predatórias, empresas de métricas fictícias, falsos serviços de revisão de línguas, e agora, uma empresa fornecedora  de

A empresa que vende a identificação de um indicador não-padrão é chamado  de Identificador de Objeto Científico (SOI). É evidente que esta é uma tentativa de criar uma identificação ao longo das linhas do DOI, ou  Identificador de Objetos Digitais.

Contudo, o termo  Identificador de Objeto Cientifico é mal escolhido, pois “objeto científico” soa como um termo para uma peça de equipamento de laboratório – como um microscópio – Ao invés de um objeto digital,  que essencialmente é um arquivo de computador.

A principal coisa que promove o mercado cinza de publicações acadêmicas é o sistema de pagamentos de autores. Existem inúmeras pequenas e  “start-ups“,  ou  mesmos empresários individuais, que copiam funções e os planos de negócios das editoras tradicionais e das empresas que lhes dão suporte.

O mercado cinza fornece serviços diretamente aos autores acadêmicos ou a empresas que os vendem para os autores.

Todos estas empresas procuram receitas obtidas da venda de serviços a autores acadêmicos, direta ou indiretamente. Eles querem o dinheiro obtido de agências de fomento, fundos pessoais, dinheiro de fundos, de bibliotecas acadêmicas, e de decanatos.

O problema é que empresas   como a empresa Scientific Object Identifier – são cópias tolas de empresas legítimas.

Geralmente  a criação de uma nova empresa neste ramo significa o envio de milhares de mensagens “spams” para os membros da comunidade científica.

Embora seja ótimo que o movimento de acesso aberto tenha o acesso à publicação de artigos científicos seja mais fácil, ele também resultou na desestabilização da publicação acadêmica e o estabelecimento do caos.

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Vencendo a batalha do acesso aberto, perdendo a guerra científica

  1. Agradeço a Ravi Murugesan por  me alertar sobre o artigo sobre halitose Aqui!.

Sequestro de nomes de revisas científicas: a nova tática do “trash science” para garantir freguesia

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Em seu blog, Prof. Jeffrey da Colorado University-Denver abordou recentemente mais um caso de sequestro de nome de revista científica tradicional por um editor predatório (Aqui!). A estratégia aparentemente básica de sequestrar nomes de revistas é mais uma das muitas que estão sendo adotadas por editores de “trash science” para atrair cientistas incautos (ou não) para continuar garantindo os lucros de um mercado em visível expansão.  Como o próprio professor Jeffrey Beall já identificou, e o jornalista Maurício Tuffani repercutiu em seu blog, a lista de editoras predatórias cresceu 33% apenas em 2015 (Aqui!) sem que haja qualquer indicação de que o fenômeno vá começar a regredir num futuro imediato.

A questão da expansão mundial do “trash science” é particularmente aguda para países com sistemas científicos em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, por causa da ênfase na quantificação da produção que, muitas vezes, acaba permitindo que muito lixo científico seja produzido e, pior, que os seus produtores sejam generosamente irrigados com um pool de verbas que está bastante curto por causa da crise econômica mundial.

Como em tantas outras empreitadas, há que se perguntar como pesquisadores que se pretendem sérios se permitem atrair por revistas que se valem de esquemas como o do sequestro de títulos para oferecerem seus préstimos.  A questão é que se as agências de fomento, como o CNPq e a Capes não se dão ao trabalho o joio do trigo (ou melhor, ciência de verdade de lixo científico de baixíssima qualidade ), o que está se fazendo de forma prática é a autorizar a abertura de uma temporada interminável de produções que não merecem nem um pingo da tinta que é usada para passá-las dos ambientes virtuais das revistas “trash” para a condição de cópias impressas. A pouca disposição das agências de fomento de identificar e punir quem se vale de “trash science” paraa acessar recursos públicos escassos não isenta os pesquisadores que se valem das editoras predatórias para engordar de forma fictícia os seus currículos. Mas a combinação desses dois aspectos parecem explicar o crescimento da oferta de editoras predatórias que estão pelo mundo afora (principalmente na África e na Ásia) dispostas a colocar online qualquer coisa que alguém se habilite a pagar pela publicação.

O interessante nisto tudo é que a simples menção de que estamos metidos num momento delicado da ciência por causa da ação desenvolta das editoras predatórias cria o mesmo ambiente de silêncio sepulcral que se observa nos filmes sobre a máfia. Aliás, manifestações recentes contra o trabalho do Prof. Jeffrey Beall beiram a reação histérica que vimos em outros casos de personagens que aparecem em público para nos mostrar facetas indesejáveis do nosso cotidiano. Mas pensando bem, motivos para isso devem existir, já que a movimentação de recursos em direção às editoras predatórias nem sempre advém dos recursos privados dos pesquisadores que se dispõe a colocar seus nomes nessas “obras”. Dai que atirar no mensageiro é sempre mais fácil do que reconhecer que a mensagem que ele traz.

O crescimento acelerado do “trash science”. Um caso clássico de oferta e demanda?

Ao longo de 2015 tratei aqui neste blog do problema do crescimento e validação do “trash science” e de seus efeitos perversos sobre o processo de disseminação de conhecimento científico, bem como da distribuição de verbas estatais para pesquisadores.

Para minha pouca surpresa, a reação inicial que obtive de muitos pesquisadores foi de rejeição à publicização até da existência deste problema. Apesar de não concordar, acho até compreensível que muitos não queiram nem ouvir falar sobre qualquer esforço de separar “o trigo do joio”. Afinal, além de se manterem num Olimpo com pés de barros, esses pesquisadores estão sendo beneficiados pela concessão de verbas pelas principais agências de fomento brasileiras.

O pior é que ao longo do ano passado tive ainda que presenciar a tentativa de linchamento do Professor Jeffrey Beall por causa de uma postagem em seu blog acerca da eficiência da plataforma Scielo em disseminar artigos e revistas ali hospedados.  O ultraje que acometeu dezenas de editores de revistas brasileiras só tem paralelo no imenso silêncio que existe acerca do problema e das consequências do “trash science” para a ciência, e especificamente a brasileira.

Agora, já nos primeiros dias de 2016 estou sendo novamente procurado para publicar em revistas predatórias, como mostra a imagem abaixo.

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Além de deixar curioso sobre como meu endereço eletrônico institucional foi “fisgado” pelos editores do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, não posso deixar de pensar que se eles estão me alcançando, o mesmo estará ocorrendo com centenas de outros docentes de universidades brasileiras. É que dentro das leis estritas de mercado, raramente há oferta se não houver um mínimo de demanda. Em outras palavras, tem gente que está respondendo positivamente a este pedido de convite.

Mas será por falta de ignorância e excesso de boa fé, combinadas com a necessidade de engordar o CV Lattes, que isto ocorre? A minha resposta é… dificilmente. É que, apesar do incômodo gerado pela “black list” do Professor Beall, quase todo mundo já sabe da sua existência e das formas de acessá-la.

No caso do convite acima, bastou identificar a editora do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, a AD Publications (ver cabeçalho da sua página na internet) e depois acessar a lista do Professor Jeffrey Beall (Aqui!) para saber a resposta.

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E não deve ser surpresa que a AD Publications está na Beall´s List of Predatory Publishers.  Mas isto também deixar claro que estar listado não é um fator de inibição para os editores que o próprio professor Beall continuam a se reproduzir como cogumelos em pastagens após dias de chuva intensa.

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Entretanto, a pergunta que me parece mais relevante é a seguinte: quantos pesquisadores se sentem na obrigação de verificar listas como a formulada pelo Professor Beall? E mais importante ainda: será que o trabalho iniciado pela CAPES para remover jornais “trash” do Qualis Capes vai continuar sem a pressão de jornalistas como Maurício Tuffani que é um dos poucos a tratar do problema de forma aberta na mídia corporativa (Aqui!)?

Eu diria que em tempos de forte restrição financeira e das imensas pressões pela validação meritocrática do trabalho das universidades, deixar de atacar o problema do “trash science” será um tremendo tiro no pé.  É que nada melhor para quem justificar cortes orçamentários do que fisgar publicações “trash” para desvalorizar toda a comunidade científica brasileira. 

E, sim, continuo esperando uma posição coletiva dos editores de revistas científicas brasileiras sobre o problema, de preferência no mesmo tom de ultraje com que procuraram demonizar o trabalho do Professor Jeffrey Beall. Caso contrário, o ultraje não terá passado de uma tentativa de se assumir responsabilidades.

Ciência brasileira na encruzilhada: grandes desafios, orçamentos dilapidados

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Algo que vem passando despercebido na cobertura caolha que a mídia corporativa faz da crise econômica e política que grassa nos diferentes níveis da federação brasileira é o profundo corte de verbas públicas para as universidades e centros de pesquisas nacionais.  Se a coisa já foi tenebrosa em 2015, os cortes orçamentários projetados pelo governo federal e por governos estaduais colocam a maioria dos grupos de pesquisas em um estado de comatose profunda. É que sem recursos mínimos, a maioria das pesquisas que requerem um mínimo de insumos para fluírem são efetivamente inviabilizadas.

O mais impressionante é que neste momento a sociedade brasileira está sendo assolada por um grande número de problemas que demandam respostas científicas precisas que impulsionem a adoção de soluções. Vejamos, por exemplo, a recente disseminação do vírus zika e e a febre chikungunya (lê-se chicungunha), cujos efeitos sobre a saúde humana deixam pálidos aqueles causados pela dengue (Aqui!). A ausência de recursos para pesquisar essas doenças certamente causará mortes e deformações e, de quebra, aumentará ainda mais a sobrecarga da rede pública de saúde, a qual já se encontra totalmente sobrecarregada.

Eu poderia ainda mencionar a falta de qualquer resposta institucional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) à hecatombe socioambiental iniciada pelo rompimento da barragem do Fundão da Mineradora Samarco em Mariana (MG). Em um país minimamente organizado para atender as demandas reais que emergem na sociedade, uma agência como o CNPq já teria convocado pesquisadores a se associarem em redes para pesquisarem os diferentes compartimentos ambientais que foram devastados pelo TsuLama. Mas até agora a única iniciativa de que se tem é da Fundação de Amparo  à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) que lançou um edital para pesquisadores interessados em investigar o TsuLama da Samarco e as medidas necessárias para sua mitigação no âmbito do Rio Doce (Aqui!). O problema é que premida pelo encurtamento de recursos, a capacidade de financiamento da Fapemig é consideravelmente menor, e não deverá aportar os recursos minimamente necessários para que pesquisas de grande fôlego sejam realizadas, de modo a estabelecer os limiares de ações de mitigação para este incidente ambiental de proporções apocalípticas.  Tanto isto é verdade que o edital para a recuperação do Rio Doce é de magros R$ 4 milhões, o que se mostra claramente insuficiente para pesquisar uma tragédia de dimensões ainda incalculáveis. 

Mas o que me incomoda mesmo é notar que apesar da magreza do aporte financeiro, continuamos imersos numa cultura institucional que obriga a comunidade científica brasileira a continuar sua rotina de privilegiar a quantidade em detrimento da qualidade.  E isto se traduz na pressão para continuarmos a publicar em quantidades que justifiquem ranqueamentos e premiações. E como já abordei de forma repetida aqui neste blog, tal pressão cria um terreno fértil para a legitimação do “trash science” como forma de qualificar a comunidade científica nacional.  O fato é que não se ouve no plano da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) qualquer ajuste na forma de se avaliar os programas de pós-graduação, em que pesem as evidências de que estamos profundamente contaminados com a cultura do “trash science” onde quantidade é o que importa.

A somatória desses problemas acaba colocando a comunidade científica brasileira diante de um grande dilema. Como evoluir a ciência e atender as demandas emergentes num ambiente de cobertor curta e critérios que privilegiam a quantidade? Algumas respostas estão surgindo e apontam não apenas para formas alternativas de financiamento (como é o caso do mecanismo do “crowdfunding”), mas também para o estabelecimento de redes de cooperação que ultrapassem os limiares do personalismo imposto pelo “trash science”. Ainda que embrionárias, muitas iniciativas no caso do TsuLama da Samarco apontam para a adoção de uma tomada de posição que privilegia a cooperação científica em detrimento do egotismo que grassa atualmente na maioria da comunidade cientifica brasileira.

Essas redes de cooperação são para mim a principal esperança de que possamos superar a encruzilhada em que se encontra a ciência brasileira neste momento. É que formas genuínas de cooperação em rede poderá se mostrar como a única forma de vencermos ao mesmo tempo a falta de recursos e a pressão para que nos submetamos todos à lógica do “trash science”. E como nenhum país se desenvolveu até hoje sem comunidades científicas efetivamente qualificadas, a superação dessa encruzilhada tem tudo a ver com o destino do Brasil enquanto nação independente.

Jeffrey Beall publica capítulo em livro lançado em Portugal sobre a produção científica no mundo do “trash science”

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O Professor Jeffrey Beall da Colorado University-Denver que se especializou na divulgação de revistas e editoras predatórias que produzem e disseminam o que eu chamo de “trash science” acaba de contribuir com o capítulo em um livro publicado pela editora portuguesa Livros Labcom (Aqui!).

Ainda que estejamos mais informados e alertas para os efeitos danosos e os interesses econômicos que estão por detrás da disseminação de milhares de revistas que combinam captação de recursos via autores e a disseminação exponencial de ciência de baixa qualidade, o fato é que o problema está longe de ser controlado, como bem demonstrou a recente reviravolta nos graus atribuídos a centenas de revistas na base Qualis.

Como a situação nas universidades brasileiras que se apresenta para a comunidade científica já em 2016 é de uma combinação esquizofrênica de mais cortes de verbas e aumento da pressão por produção científica. Em função desse cenário é importante que haja um debate amplo e aberto sobre os rumos que a produção científica vem tomando por causa das revistas e editoras predatórias que se aproveitam do nicho de mercado criado por essa combinação nefasta. Do contrário, vamos correr o risco  termos ainda mais “trash science” sendo vendida como ciência.

Um aspecto final nessa obra é de que ao contribuir para um livro de “acesso aberto”, Jeffrey Beall mostra que o seu problema não é com a forma de disseminação da ciência, mas com a qualidade e  o conteúdo do que está sendo vendido como ciência pelas editoras e revistas que produzem e disseminação “trash science”. 

Disponibilizo abaixo todas as informações sobre a obra que constam do sítio da Livros Labcom, e também o link para baixar a obra gratuitamente. 

Comunicar e Avaliar Ciência

por Anabela Gradim e Catarina Moura (Org.)

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Sinopse

A comunidade científica é hoje o resultado inequívoco do modo como os últimos anos acentuaram exponencialmente o desafio de definir e estabilizar parâmetros que permitam que a comunicação e avaliação de ciência possam beneficiar da credibilidade necessária à sustentabilidade de um complexo paradigma. Pensado na sequência – e como resultado – de uma conferência internacional sobre Modelos de Publicação Emergentes organizada no âmbito de um projeto dedicado, justamente, à Comunicação de Ciência, este livro reflete e faz eco, a partir de treze ensaios, das preocupações dos milhares de investigadores, professores, estudantes e bibliotecários que sentem, sobre o seu trabalho (sobre o seu futuro), a pressão permanente de um sistema cujo intrincado agenciamento permanece, até certa medida, opaco.

Índice

Introdução – 1

Parte I
INTEGRIDADE ACADÉMICA E INDICADORESDE PRODUÇÃO E AVALIAÇÃO

Os editores predatórios estão a destruir a integridade da comunicação académica- 11
Jeffrey Beall

Por Albert Einstein, o editor, você, e eu – 31
Allen W. Wilhite e Eric A. Fong

Produção científica nas ciências sociais e humanidades:problemas e alternativas – 47
João Costa

A universidade portuguesa nos rankings: estratégias de melhoria – 57
Paula Pechincha, António Marques e José António Sarsfield Cabral

A avaliação da produção científica em biotecnologia, direito e artes:proposta de um modelo – 87
Sofia Fernandes

 

Parte II
DESAFIOS DO OPEN ACESS NA POLÍTICA CIENTÍFICA

Editores predatórios e modelos de Open Access – 111
Anabela Gradim

OpenAIRE e comunicação da ciência: a infraestrutura Open Accesspara a investigação na Europa – 127
Pedro Príncipe

Eu sei que tu sabes que eu cito: uma visão estratégicada publicação em ciência –  135
João Fernando Ferreira Gonçalves

Ciência e técnica vitivinícola 30 anos de desafios – 149
J. Silvestre; S. Canas; J. Eiras Dias

Parte III
TEORIAS, MÉTODOS E ESTUDOS DE CASOEM COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA

Investigação em, sobre e através da Arte do ponto de vista da publicação:aspectos epistemológicos e de validação – 157
Francisco Paiva

Argumentação gráfica: a modelização diagramáticana comunicação da ciência – 177
Irene Machado

Cartografia dos métodos digitais: no cruzamento entre os estudos sociaisda ciência e tecnologia e as ciências da comunicação? – 203
Chiara Carrozza e Tiago Santos Pereira

A necessidade de uma melhor comunicação da matemática na imprensa – 241
Susana Simões Pereira, José Manuel Pereira Azevedoe António José de Oliveira Machiavelo

FONTE: http://www.livroslabcom.ubi.pt/sub/livro.php?l=147#sthash.eb9sCOaI.dpuf