Nature publica duas cartas que lamentam o fim da Lista de Jeffrey Beall

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A respeitada revista Nature publicou na sua edição do último dia 27 de Abril duas cartas de lamento sobre o encerramento da lista de revistas predatórias (trash science) do professor Jeffrey Beall (ver abaixo).

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De forma geral as cartas assinadas pelos professores Vinicius Giglio e Osmar Luiz e a do professor Wadim Strielkowski apontam na mesma direção: a Beall´s List cumpria um papel inestimável na identificação de editores e revistas predatórias, e seu desaparecimento deixou muita gente perdida na selva formada pelas publicações “trash”.

Mas ambas as cartas vão além do lamento e cobram que editoras e instituições de pesquisa estabeleçam critérios que contribuam para a identificação de revistas científicas meritórias de publicação, bem como a necessidade de que sejam estabelecidos bancos de dados que permitam a rápida identificação destes reprodutores de lixo científico, de modo a que a comunidade científica os evite. 

Por fim, a carta assinada por Strielkowski aponta para a necessidade de que sejam estabelecidos comitês de ética cientifica para que estes estabeleçam diretrizes que possam facilitar a identificação das revistas e editoras predatórias.

Ainda que eu considere todas essas considerações mais do que necessárias, tendo a ficar cético quanto à disposição da comunidade cientifica mundial,  e a brasileira em particular, de atacar frontalmente o problema representado pelas revistas reprodutoras de “trash science“.  É que as revistas predatórias apenas suprem um nicho de mercado que está diretamente associado à aceitação explícita do dogma do “publicar ou perecer” que guia premiações individuais e alocação de verbas estatais e privadas para a pesquisa científica em todo o mundo. A verdade é que enquanto a cultura do produtivismo, que premia quantidade em vez de qualidade, não for revista como critério de alocação de verbas e estabelecimento de padrões salariais, o mais provável é que as revistas predatórias continuem a florescer como cogumelos em pastagens em dias de chuva.

Assim, até que se mudem os padrões de premiação, o mais provável é que cada vez mais tenhamos lixo acadêmico sendo apresentado como ciência genuína.  E de lá da sua trincheira na Universidade do Colorado, é bem provável que Jeffrey Beall ainda seja quem mais saiba os caminhos que deveriam ser trilhados para que se evite essa verdadeira hecatombe que ronda a ciência mundial. Resta saber se alguém vai procurá-lo para ouvir o que ele tem a dizer. A ver!

Revista da Fapesp mostra os rumos e riscos da difusão das revistas “trash science”: até personagem fictício pode ser membro de corpo editorial

“Dra. Fraude” se candidata para vaga de editora

Quarenta e oito publicações predatórias aceitaram uma personagem fictícia em seu corpo editorial

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© VERIDIANA SCARPELLI

 

Representantes de conselhos editoriais de 360 revistas científicas de acesso aberto receberam em 2015 um e-mail de uma certa Anna Olga Szust, jovem professora do Instituto de Filosofia da Universidade Adam Mickiewicz, na Polônia. Na mensagem, ela se dispunha a atuar como editora das publicações, embora oferecesse escassas credenciais acadêmicas: no currículo, havia apenas alguns trabalhos apresentados em conferências e um capítulo de livro, cujo título sugeria que jovens mulheres nascidas na primavera seriam mais atraentes fisicamente do que as outras. Em pouco tempo, vieram respostas. Anna foi aceita como editora por 48 periódicos e quatro chegaram a convidá-la para assumir o posto de editora-chefe “sem responsabilidades”, como escreveu um dos interlocutores. Houve também uma oferta para ela ajudar a criar uma nova revista.

A facilidade com que a inexperiente e desconhecida professora foi atendida já seria grave. O caso, porém, revela algo muito pior: Anna Olga Szust não existe. A inicial do nome do meio e o sobrenome, juntos, formam a palavra polonesa oszust, que pode ser traduzida como fraudador ou trapaceiro. A personagem foi criada por pesquisadores de universidades da Polônia, da Alemanha e do Reino Unido, que a apelidaram de “Dra. Fraude”, numa investigação sobre o modo de operar das chamadas revistas predatórias, como são conhecidas as publicações que divulgam papers sem submetê-los a uma genuína revisão por pares – basta pagar para ver o artigo publicado.

“Anna foi criada justamente para ser uma péssima opção como editora”, disse à revista The New Yorker Katarzyna Pisanski, professora da Escola de Psicologia da Universidade de Sussex, no Reino Unido, uma das organizadoras do teste, coordenado por Piotr Sorokowski, pesquisador da Universidade de Wroclaw, na Polônia. O grupo publicou um artigo em março na Nature narrando a experiência – sem, contudo, revelar o nome das revistas. A frequência com que pesquisadores recebem convites por e-mail para integrarem o corpo editorial até mesmo de periódicos fora de sua área de especialização motivou o grupo a investigar o que havia de errado na forma de recrutamento. Os e-mails assinados pela “Dra. Fraude” foram enviados a 360 periódicos escolhidos aleatoriamente, parte deles indexados no Journal of Citation Reports (JCR), ligado ao Web of Knowledge, e parte no Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj, em inglês). Também serviu como base uma lista de revistas de acesso aberto suspeitas compilada por pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

Nenhuma revista indexada no JCR respondeu ao e-mail. O estudo mostra que, dos periódicos que responderam à mensagem, poucos questionaram Anna O. Szust sobre sua experiência. E nenhum fez qualquer tentativa de entrar em contato com a instituição com a qual a falsa pesquisadora manteria vínculo. O currículo da“Dra. Fraude” foi cuidadosamente construído pelos autores do estudo. O e-mail continha seus interesses acadêmicos, dentre os quais história da ciência e ciências cognitivas, endereço eletrônico, uma fotografia e link para sua página hospedada no site da Universidade Adam Mickiewicz. Também foram criadas contas em redes sociais, como o Google+, o Twitter e o Academia.edu. Pelo menos uma dúzia de revistas condicionaram a indicação de Anna como editora a alguma forma de pagamento ou doação. Em alguns casos, foi exigido pagamento de uma taxa. Um periódico chegou a cobrar US$ 750, depois reduziu o valor para “apenas US$ 650”.

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© VERIDIANA SCARPELLI

 

Outros periódicos pediram à personagem que organizasse uma conferência e informaram que os trabalhos submetidos ao evento seriam publicados desde que os autores pagassem uma taxa. Um editor chegou a sugerir a partilha dos lucros: 60% para a revista e 40% para Anna. De acordo com a pesquisa, das oito revistas do Doaj que aceitaram Anna como editora, seis permanecem no diretório.

Publicar em uma revista de acesso aberto de prestígio não custa barato. Revistas da Public Library of Science (PLOS), por exemplo, podem cobrar de US$ 1.495 a US$ 2.900 para publicar um artigo. “Já as revistas predatórias cobram muito menos, entre US$ 100 e US$ 400”, disse em entrevista a The New York Times Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, criador de uma lista de publicações predatórias utilizadas no estudo. Na avaliação de Beall, a responsabilidade não deve recair apenas sobre os editores predatórios, pois a maioria dos pesquisadores que paga para publicar em revistas de baixo nível sabe exatamente o que está fazendo. “Acredito que há inúmeros pesquisadores que conseguiram emprego ou promoções valendo-se de artigos que publicam nesse tipo de revista, atribuindo essa produção científica como parte de suas credenciais acadêmicas”, criticou.

David Crotty, diretor da editora Oxford University Press, concorda que as revistas predatórias se tornaram mais presentes porque satisfazem uma necessidade de mercado. “Os editores predatórios de fato agem de maneira desonesta e enganosa, mas, ao mesmo tempo, atendem ao desejo de alguns autores de enganar os responsáveis pela avaliação de seu desempenho”, escreveu Crotty em artigo publicado em fevereiro no portal The Scholarly Kitchen. Enquanto os periódicos considerados legítimos, que se baseiam na revisão por pares, costumam demorar meses ou até mais de um ano para analisar e aceitar ou rejeitar um artigo para publicação, as revistas predatórias reduzem esse tempo a poucas semanas, ao adotarem um sistema de seleção frouxo ou inexistente.

Algumas instituições começam a propor ações para coibir o avanço das revistas predatórias. A Associação Mundial de Editores Médicos (Wame) divulgou no dia 18 de fevereiro um alerta no qual afirma que instituições científicas e centros de pesquisa precisam começar a monitorar pesquisadores que atuem como editores ou membros de conselhos editoriais de publicações suspeitas. Como medida punitiva, sugere às instituições o afastamento deles.

Um estudo recentemente publicado na revista BMC Medicine também destacou a necessidade de organizações científicas e de ensino serem mais rígidas com pesquisadores que corroboram as práticas das publicações predatórias. No estudo, os autores, entre eles Virginia Barbour, presidente do Committee on Publication Ethics (Cope), chama a atenção para os perigos da ação dessas revistas na área médica. “Quando não submetida ao escrutínio rigoroso da revisão por pares, a pesquisa clínica de baixa qualidade pode ter seus resultados incluídos, por exemplo, em um trabalho de revisão, poluindo o registro científico. Em biomedicina, isso pode resultar em danos aos pacientes”, conclui o estudo.

FONTE: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/04/19/dra-fraude-se-candidata-para-vaga-de-editora/

“Trash science” surfa na crise da ciência brasileira

Por forças das circunstâncias tenho deixado de falar do grave representado pela disseminação de editoras predatórias que publicam o que chamo de “trash science“. Mas volto e meia me deparo com evidências cristalinas que o problema está cada vez maior, especialmente num contexto de encurtamento de verbas para a realização de pesquisas científicas como é o caso do Brasil sob o governo “de facto” de Michel Temer.

É que a diminuição marcante no aporte de verbas para a pesquisa científica até agora não produziu nenhuma mudança nos critérios produtivistas de avaliação da produção acadêmica de programas de Pós-Graduação que é feita pela CAPES ou no plano individual pelo CNPq. Essas duas agências que há muito deveriam estar repensando seus métodos de avaliação continuam apertando os botões de avaliação como se tudo estivesse como dantes no quartel de Abrantes.  Mas o problema é que não está nem perto disso.

Uma prova de que o “trash science” está ocupando cada vez mais espaço nas publicações feitas no Brasil me foi confirmada recentemente quando fui chamado a avaliar uma tese de doutoramento onde o candidato havia cumprido uma dessas normas estapafúrdias de publicar como pré-condição para defender sua tese e me deparei com um daqueles periódicos que já constavam na defunta lista do Professor Jeffrey Beall como sendo “predatório”.  O pior é que ao notar minha menção de que deveria ter procurado publicar em uma revista qualificada, o candidato me afiançou que havia verificado no horroroso “Qualis Capes” e a mesma estava bem qualificada.  O candidato ficou ainda mais surpreso quando o informei que o “Qualis Capes” não serve para medir nada além do que a frequência de publicações feitas por brasileiros em uma determinada revista, e que efetivamente ele havia publicado seu artigo numa revista disseminadora de “trash science“. Mas meus encontros com o “trash science” não têm ocorrido apenas em bancas examinadoras, pois tenho visitado instituições que mostram até com orgulho a publicação de suas pesquisas em revistas que já foram caracterizadas como predatórias.

O problema disso tudo é que estamos entrando num ciclo vicioso que deverá trazer efeitos mais catastróficos para a ciência brasileira mais do que a própria falta de verbas.  É que falta de verbas até se resolve com estratégias de otimização de gastos, mas não há nada que resolva a instalação deu ma lógica que legitima a manutenção de altos níveis de publicações, nem que para isso se precise recorrer a revistas que somente existem para, por um lado, enriquecer alguns espertos e, por outro, dar um verniz de produtividade científica.

Também não posso deixar de notar que o desaparecimento do blog do Professor Jeffrey Beall, sabe-se lá por quais razões,  serviu como um alívio para centenas de editores de revistas científicas brasileiras que não mais precisam se importar com a lebre que Beall levantou sobre a falta de impacto na comunidade científica internacional do que é publicado no Brasil.  Agora que o mensageiro partiu, os que se incomodavam com sua mensagem estão podendo levar seus negócios à frente sem maiores incômodos com questões relacionadas à robustez da produção científica nacional. Já os editores e usuários das revistas predatórias estão livres, leves e soltos para continuarem disseminando lixo como se ciência fosse.

Uma coisa é certa: se a própria comunidade científica não se organizar para cobrar a produção de novos critérios de avaliação pela Capes e pelo CNPq, corremos o risco de experimentar um retrocesso histórico gravíssimo, tanto pela inundação de caráter bíblico de produções “trash science” como pela partida de jovens pesquisadores que sairão do Brasil em busca não apenas de melhores condições de financiamento mas também de ambientes mais sérios de avaliação de seu trabalho.

Jeffrey Beall publica lista de 2017 e mostra o trash science em franco crescimento

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Graças ao trabalho voluntário do professor Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado-Denver, que lança desde 2011 a sua lista de editoras e revistas predatórias, pesquisadores de todo o mundo vem gradativamente sendo municiados com as informações necessárias para que evitem contribuir para a expansão do que eu rotulei como “trash science”.  Esse trabalho é particularmente importante para países como o Brasil que vivem sobre a pressão crescente para que seus cientistas publiquem mais, mesmo que o ambiente de financiamento de suas pesquisas enfrentem cenários de completa incerteza como o que é atualmente oferecido pelo governo “de facto” de Michel Temer.

Pois bem, o professor Beall acaba de liberar a sua lista anual de editoras e revistas predatórias, e ainda acrescentou dados relativos a métricas fajutas e revistas legítimas que foram sequestradas por editoras predatórias (Aqui!).   Uma rápida olhada nas tabelas abaixo vai mostrar que a invasão do “trash science” está se tornando um problema crucial para a ciência mundial, pois o avanço em todos os indicadores escolhidos é impressionante.

Esse crescimento exponencial na produção de “trash science” se deve a uma combinação de variáveis que estão invariavelmente ligadas à s da produção científica em mais uma commodity. Mas obviamente sobram os aspectos relacionados à distribuição de verbas públicas e privadas para pesquisadores, bem como benefícios funcionais, seja no aumento de salários ou na obtenção da almejada estabilidade empregatícia dentro de universidades e instituições de pesquisa.

No caso brasileiro, todas as evidências apontam para a penetração irrestrita das editoras e e revistas predatórias dentro da nossa comunidade científica. Um fato que vem contribuindo para isso é a adoção de uma opção quantativa (no caso o número de publicações alcançadas por um determinado pesquisador) para se definir todo tipo de premiação, seja no plano individual ou dos programas de pós-graduação. 

E, pior, a única manifestação pública que ouvi nos últimos anos sobre a lista preparada pelo professor Beall foi um repúdio coletivo por parte de editores de revistas científicas brasileiras contra uma postagem que ele publicou acerca do alcance limitado da plataforma Scielo  (Aqui!).

Mas como nunca é tarde para se aprender, espero que os pesquisadores e instituições de pesquisa brasileiros comecem a prestar mais atenção no trabalho de Jeffrey Beall. É que se isso não acontecer, corremos o risco de virarmos uma espécie de mais um paraíso do “trash science” ao modo do que já ocorre em muitos países da periferia capitalista.   A verdade é que continuar fingindo que o problema não existe vai atrasar ainda mais a evolução do nosso sistema nacional de ciência.

Nunca é demais lembrar que os próximos anos serão marcados por uma forte contenção de verbas para a pesquisa científica no Brasil.  Isto nos obriga a cobrar critérios mais claros para o que vai ser distribuído. Do contrário, acabaremos vendo o grosso dos recursos indo para as mãos dos que não hesitam recorrer ao trash science para turbinar seus currículos.

Por ora, resta-me saudar o incansável trabalho de Jeffrey Beall. É que sem ele não teríamos a menor ideia do tamanho do problema ou de como evitar cair nas milhares de arapucas que vendem gato por lebre.

 

No Direto da Ciência, professor emérito da UNB coloca o dedo na ferida

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Em um artigo publicado hoje no blog “Direto da Ciência” do jornalista Maurício Tuffani, o professor emérito da Universidade Nacional de Brasília (UnB) Nagib Nassar fala de suas expectativas sobre a nova presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e aproveita para colocar o dedo na ferida da ciência nacional (Aqui!).

Apesar de não compartilhar da mesma expectativa positiva, pois penso que os elementos estruturais que o Prof. Nassar aponta corretamente em seu texto independem da pessoa do presidente do CNPq. Entretanto, não há como deixar de observar que as questões apontadas como problemáticas pelo Prof.  Nassar no processo de distribuição de recursos estão corretas. 

Aliás, como já venho observando faz algum tempo, a cultura de priveligiar quantidade versus qualidade na distribuição, por exemplo, das bolsas de produtividade do CNPq geraram uma série de vícios ao permitir, entre outras coisas, o avanço das publicações “trash science” como fontes legítimas de validação de produtividade científica (Aqui!Aqui! e Aqui!).  Esse avanço do “trash science” é inegavelmente um sub-produto da corrupção do processo de “revisão por pares” que é citado pelo Prof. Nassar como um dos sintomas do descontrole que estaria existindo dentro do CNPq no processo de avaliação de projetos de pesquisas submetidos para eventual recebimento de verbas públicas. 

Ainda no tocante à entrega de bolsas de produtividade, penso que se pode ir além nos questionamentos apresentados pelo Prof. Nassar. É que ele aponta a incapacidade de muitos pesquisadores de Nível 1 (A e B) de serem autores principais nos numerosos artigos que incluem em seus currículos na Base Lattes do CNPq. eu vou além e afirmo que muitos pesquisadores 1 que eu conheço não mostram a capacidade de sequer entender a responsabilidade que este tipo de outorga meritocrática implica no desenvolvimento de uma cultura científica dentro de suas instituições. Na verdade, muitos desses pesquisadores ditos do topo da cadeia alimentar da ciência brasileira não raramente se mostram incapazes de demonstrar um mínimo de erudição científica. Este é para mim um sinal ainda pior de que essas bolsas estão sendo distribuídas de acordo com critérios equivocados.

Mas concordo com o Prof. Nassar que um problema adicional grave que foi criado nos últimos anos é de que os que recebem as bolsas de produtividade acabam por concentrar o grosso dos recebimentos de recursos nas diferentes modalidades oferecidas pelo CNPq. Essa situação acaba implicando numa condição permanente de elitização de quadros científicos e inibe a possibilidade de que possamos ter avanços reais na produção científica nacional, o que acaba por reforçar o caráter periférico daquilo que é produzido pela ciência brasileira.

Tenho total concordância com o que o fato de que todo esse processo tem resultado na formação de uma geração de pós-graduados com baixíssima capacidade de liderar futuros cientistas. Como professor de Metodologia da Pesquisa por mais de 18 anos tenho notado a progressiva erosão de conhecimentos básicos acerca dos fundamentos que devem guiar uma pesquisa que possa posteriormente resistir a um processo mais rigoroso de revisão por pares (peer review).  E a causa disso é a pressão vinda do CNPq e também da Capes para que haja mais quantidade de produções, mesmo que sem a necessária qualidade.

Finalmente, voltando ao início deste texto, não possuo muita esperança de que as distorções atuais sejam corrigidas fácil ou rapidamente. Entretanto, a minha expectativa é que mais lideranças da comunidade científica façam como o Prof. Nassar para que comecemos a traçar estratégias que nos permitam sair desse atual estado de coisas, onde poucos têm disposição para tocar nas feridas que ele tão claramente tocou.

Jeffrey Beall e os “super achievers” da ciência salame

O Professor Jeffrey Beall, que costumeiramente traz análises e revelações sobre os efeitos da propagação exponencial de revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas, acaba de produzir uma postagem lapidar sobre o irmão siamês do “Trash science“, o também pernicioso “Salami science” (Aqui!).

E Jeffrey Beall faz isto tratando do caso de dois “super achievers” (pesquisadores que se notabilizam por produzirem “solo” ou acompanhados um número acima da média de publicações anuais) da ciência mundial cuja produção combinada é de deixar a maioria dos que conhecem o caminho que um determinado artigo precisa percorrer para ser finalmente publicado se perguntando qual é o segredo de tamanha produtividade.   O próprio Jeffrey Beall desvenda parte do mistério ao destrinchar as publicações, e as claras repetições de conteúdos, dos professores Shahaboddin Shamshirband e Dalibor Petković em revistas científicas aparentemente sérias.

Eu mesmo já tratei neste blog do papel negativo que a prática do “Salami science” causa tanto na qualidade da ciência, como nos sistemas de premiação e distribuição de recursos para a pesquisa científica , e que é potencializada pela existência do mercado de “Trash science (Aqui! e Aqui!).

Uma coisa que é citada por Jeffrey Beall e com a qual eu concordo é sobre o risco de que a tolerância ao “Salami science” acarreta para a comunidade científica, na medida em que o sistema do “peer review” se funda no compromisso de que um dado experimento seja submetido apenas numa dada revista, impedindo a multiplicação de submissões e, consequentemente, de publicações de um mesmo resultado. Ao se romper com essa regra básica, tudo se torna possível. Até o rompimento dos padrões éticos que deveriam guiar a busca de publicar um artigo científico. É que se isto se tornar prática, não haverá muito o que se esperar em termos de qualidade e rigor.

Outro aspecto que Jeffrey Beall é a política de “hands off” que os chamados “super achievers” gozam em suas instituições. Eu mesmo já tenho presenciado a existência de pesquisadores extremamente prolíficos em seu número de publicações, mas que são claramente incapazes de contribuir minimamente para a qualidade intelectual dos programas de graduação e pós-graduação nos quais participam. A estes “super achievers” resta a desculpa de que são “ratos de laboratório”  que se ocupam apenas de suas pesquisas.  Mas até aí morreu o Neves. É que apesar de todas as suas omissões e incongruências, os “super achievers” são vendidos dentro de suas instituições como o exemplo a ser seguido, já que seriam eles os pilares da captação de recursos tão escassos quanto necessários.

Entretanto, o que pouco se fala é que ao se sobrevalorizar os supostos “super achievers“, o que se faz é contribuir para a privatização das pesquisas já que eles acabam por monopolizar espaços físicos dentro de suas instituições e a distribuição de verbas pelas agências de fomento.

Ainda que o aparecimento do “Salami science” e do “Trash science” seja parte de uma evolução da indústria das publicações científicas e da comodificação da ciência mundial, ignorar os seus efeitos deletérios por mais tempo poderá trazer danos irreparáveis para a produção e evolução do conhecimento científico, especialmente nos países localizados da periferia do Capitalismo.  O problema aqui é saber se haverá quem queira enfrentar os dois irmãos siameses de frente.  É que com raras exceções, como as do Professor Jeffrey Beall nos EUA (Aqui!) e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) no Brasil, a maioria dos que conhecem o problema prefere olhar para  o outro lado.

Governo dos EUA move ação contra editor de “trash science”

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A partir da página pessoal do jornalista Maurício Tuffani na rede social Facebook tomeiconhecimento de um desdobramento bastante peculiar em relação ao OMICS Group Inc, um dos principais produtores mundiais de “trash science”.  É que a partir do blog “Retraction Watch”, pudemos tomar conhecimento de uma ação movida por úm órgão do governo dos EUA, o Federal Trade Commission, contra o OMICS Group por uma série de violações de códigos de conduta, começando pelo anúncio de que usaria o sistema de “avaliações por pares”, quando este não seria o caso (Aqui!).

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Mas os problemas envolvendo as práticas comerciais do OMICS Group também envolveriam a ocultação dos altos custos associados à publicação de artigos em suas muitas revistas até que fosse dado o “aceite”. A partir começaria a ocorrer outra prática considerada prejudicial aos pesquisadores incautos que seria a dificuldade de retirar um dado determinado do processo de publicação. Ao fazer isto, o  OMICS Group impediria que o artigo pudesse ser resubmetido em outra revista. 

Outra parte da ação da FCT contra o OMICS Group envolve a realização de conferências (provavelmente caça-niqueis) com taxas de inscrição muito caras e que prometem a presença de pesquisadores renomados que acabam não comparecendo. Em outras palavras, o OMICS Group cobra caro e não entrega o prometido.

Essa ação de caráter pioneiro certamente não será a última que será movida contra editores predatórios. A novidade aqui é que está se inaugurando este novo momento na relação da comunidade científica com as editores predatórias se dá pela força da intervenção direta do governo dos EUA.  Mas é interessante notar que parte dos elementos utilizados para construir o caso contra o OMICS Group já eram de conhecimento de boa parte da comunidade científica,. Isto levanta a questão óbvia de porque tanta gente ainda se dispunha a enviar artigos científicos para serem analisados para possível (e quase certa) publicação por este editor de “trash science”.

Para quem quiser ler a íntegra da ação da FCT, basta clicar (Aqui!)

A expansão das revistas de”trash science”: por que devemos nos importar?

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Não sei se estou sendo alvo pessoal de uma campanha de marketing de diferentes “editoras” de revistas que disseminam “trash science”, mas minhas contas de correio eletrônico estão sendo especialmente bombardeadas nas últimas semanas com anúncios me convidando a publicar artigos em áreas que vão desde a pediatria até a engenharia de materiais (vejam abaixo três amostras destes convites)

A coisa é tão escancarada que nem é preciso visitar o blog do Prof. Jeffrey Beall (Aqui!) para verificar se editora e revista estão na sua lista de revistas predatórias.  E só esse fato explicita o fato de que o mercado de lixo científico está em processo de florescimento e não o contrário.

A pergunta que se sucede, por que o mundo do “trash science” para estar tão bem a despeito de esforços localizados para mostrar a verdadeira natureza dessa parte da indústria das publicações científicas? A primeira ideia que me ocorre é que seguindo as leis de mercado, oferta e demanda acabam se retroalimentando. Mas a coisa me parece ser mais complexa, pois se olharmos os custos envolvidos para que se publique nessas revistas caça-níqueis, há também que se introduzir análises sobre quais são os ganhos que os pesquisadores ou proto-pesquisadores acabam recebendo em troca pelos investimentos que fazem.

O mais crítico disso tudo é que ao se banalizar e incorporar como válidos artigos que não seriam publicados em revistas que sejam minimamente sérias no uso do processo de revisão por pares (ou peer-review), temos uma contaminação perigosa não apenas no que é tomado como sendo ciência, mas também nos processos de premiação e contratação. 

Outro aspecto que me preocupa com o caminho praticamente livre que essas revistas trash possuem é o processo anti-pedagógico que elas cumprem junto às novas gerações de pesquisadores. É que se tacitamente legitimar a publicação nesses veículos, e ainda por cima premiar quem faz isto, o que estamos dizendo a jovens pesquisadores é que o vale-tudo está oficializado na disseminação do conhecimento científico. Se isto já é um problema em países onde a comunidade científica já é robusta e bem consolidada, imaginemos o que isto causa nos países da periferia capitalista.

Finalmente, no caso brasileiro afora algumas tentativas de expor os malefícios do “trash science” (cito explicitamente os esforços do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!)), o silêncio é quase total e as publicações de baixa qualidade em inglês canhestro abundam.  No caso brasileiro, o silêncio sepulcral do CNPq e da CAPES  sobre este problema, bem como a objetiva falta de ação para coibir  a premição do “trash science” são sinais de que temos um árduo desafio pela frente. Resta saber quem vai querer comprar esta briga, especialmente num tempo em que convivemos com um encurtamento brutal de verbas para a pesquisa.

A universidade do “Trash Science” como emblema de uma sociedade desigual no Brasil

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Um dos meus interesses desde que comecei este blog em 2009 é a situação da universidade brasileira, mormente os aspectos degenerativos impostos pelo produtivismo acadêmico imposto pelas nossas principais agências de fomento, principalmente nas duas últimas décadas.  Num afã de colocar o nosso sistema científico (que depende quase 100% da produção vinda de universidades e institutos de pesquisa públicos), assistimos à erupção sem xeques do que eu alcunhei de “trash science“. 

Mas a produção de “trash science” (em português claro a produção de lixo científico como se ciência fosse) trouxe impactos que vão muito além da colocação de trabalhos em revistas científicas que ignoram a regra da “revisão por pares” e aceitam em publicar qualquer coisa que seja em troca de um punhado de dólares. É que ao se aceitar tacitamente que o “trash science” seja internalizado como legitimo, as agências de fomento como o CNPq e a Capes contribuem para um verdadeiro vale tudo atinja todos os aspectos da produção de ciência no Brasil, bem como os sistemas de premiação com bolsas e financiamentos de projeto de pesquisa e, por último, o sistema de contratação de docentes e pesquisadores via concursos públicos.

Em função dos amplos efeitos degenerativos que a cultura do “trash science” gera, eu não me surpreendo com a notícia trazida hoje pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog “Direto da Ciência” sobre um imbróglio envolvendo docentes da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que participaram de bancas que aprovaram um sócio num concurso público para docente na Escola Polítécnica da USP, e na sua banca de doutoramento (Aqui!). A notícia pode ser surpreendente para a maioria dos leitores do  “Direto da Ciência“, visto que estamos falando de profissionais que atuam nas duas principais universidades brasileiras, mas não a mim.

É que eu já tomei ciência de coisas bem piores na minha própria instituição, envolvendo situações assemelhadas e que não apenas foram aprovadas pelos colegiados internos, mas também solenemente ignoradas pelo Ministério Público quando denunciadas. E novamente notemos que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) é também muito bem avaliada, inclusive no tocante à suposta qualidade de seu corpo docente.

Mas então diante de qual fenômeno estamos confrontados? Em minha opinião, de uma combinação perversa entre o patrimonialismo que reverbera historicamente na sociedade brasileira com um recobrimento cínico de meritocracia acadêmica que é fornecida pela difusão e legitimação do “trash science” como mecanismo artificial e fraudulento de melhorar o desempenho internacional da ciência brasileira.  Não é preciso dizer que considero essa combinação nefasta, visto que não apenas internalizamos o padrão conservador que prevalece historicamente na sociedade brasileira, mas como damos legitimidade a personagens que se especializam na produção de lixo científico que apenas serve para seus fins particulares, inclusive a de facilitar esquemas desvelados pelo “Direto da Ciência“. E o produto mais acabado disso é a formação de uma geração inteira de mestres e doutores sem qualquer condição para alavancar de forma sólida a evolução da ciência brasileira, visto que lhes falta a necessária preparação intelectual para tanto.

E tome “trash science” !

Jeffrey Beall desmonta um dos mitos do “trash science”: revistas predatórias e a transferência da propriedade intelectual

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Um dos mitos que cercam a rendição de muitos pesquisadores às revistas de “acesso aberto” é de que estas permitem, em troca de um taxa pela publicação de um dado artigo científico, que os autores mantenham seus direitos intelectuais sobre suas pesquisas. Essa “regra de ouro” das publicações de acesso aberto (muitas delas comprovadamente apenas esquemas de captação de dinheiro de pesquisadores incautos ou não) serve como desculpa para que muitos evitem as editoras tradicionais, onde o procedimento do “peer review” ainda é majoritariamente utilizado para que um artigo seja aceito.

Eu digo majoritariamente porque já existem evidências suficientes de que este não é necessariamente o caso, bastando para isso visitar sites como o “Retraction Watch” (Aqui!) para que se verifique que os problemas envolvendo a retirada de artigos publicados atingem tanto editores predatórios como as grandes corporações que dominan a publicação de documentos científicos.

Entretanto, voltando à questão do mito de que as revistas de “acesso aberto” não demandam a entrega de direitos intelectuais dos autores dos artigos que puiblicam, o professor Jeffrey Beall, responsável entre outras contribuições pela “Beall´s List” de editoras e revistas predatórias, acaba de demonstrar que isto não é verdade. Segundo o que o professor Beall apurou a maioria das revistas de acesso aberto mantidas por editoras predatórias demandam sim que os autores abram mão de seus direitos de propriedade intelectual, em que pese o pagamento de taxas nem sempre módicas para publicar artigos científicos (Aqui!).

A derrubada deste mito deveria levantar algumas questões preciosas sobre o que motiva muitos pesquisadores no Brasil, e fora dele, a recorrerem a revistas cujo padrão de controle sobre a qualidade do que publicam é, no mínimo, muito precário.  Como já observei aqui, na base desta ação está o fato de que agências de fomento e bancas examinadoras formadas para contratar docentes em instituições de ensino superior faz algum tempo optaram por premiar a quantidade em vez da qualidade. Como a maioria dos pesquisadores já sabe disso, a opção lógica para muitos deles foi de jogar na privada qualquer escrúpulo com o rigor científico para poderem multiplicar o número de artigos publicados, a maioria deles sem nenhuma contribuição real para o avanço do conhecimento.

Aliás, tudo estaria “tranquilo e dominado” se não fosse por indivíduos (dentro da comunidade científica e fora dela) que decidiram não se omitir em relação à naturalização de práticas de publicação que atentam contra o desenvolvimento da ciência. Dentre estes nomes eu sempre destaco os casos do Professor Jeffrey Beall (Aqui!)e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) cujos trabalhos  em prol da qualidade científico venho acompanhando. Mas certamente existem muitos outros que hoje fazem um trabalho semelhante de defesa da integridade e do rigor que deveria acompanhar a ciência como é o caso do já citado Retraction Watch.

Lamentavelmente não vejo ainda uma reação mais coordenada e coerente para que o lixo científico produzido por editoras e revistas predatórias seja tratado de forma adequada em prol do desenvolvimento da ciência brasileira.  No caso brasileiro, o silêncio oficial das principais agências de fomento (CNPq e Capes) e das principais sociedades científicas (como a Academia Brasileira de Ciência (ABC) e a SBPC) contribui diretamente para que não haja um debate mais amplo sobre os malefícios da adesão ao “trash science“.

A minha expectativa é depois dessa contribuição do professor Jeffrey Beall sobre a questão da propriedade intelectual, alguma ação mais abrangente seja adotada para que se recoloque a qualidade sobre a quantidade do que se é publicado. A ver!