Atingidos pela Vale tripudiam de publicidade da empresa com informações concretas; humor desconstrói razão cínica de marketing movido por um otimismo calculado
Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Em vez de se distanciar da realidade, uma paródia feita pelo movimento Atingidos pela Vale [ver acima] escancara o realismo, ignorado pela Samarco na série de peças publicitárias veiculadas nos últimos dias sobre a catástrofe de Mariana (MG), em novembro. Em meio ao sarcasmo e a imagens de lama e destruição, são transmitidas informações que milhões de brasileiros não puderam ver nos comerciais exibidos em TV aberta.
O nome da campanha da Samarco era: “É sempre bom olhar para todos os lados”. Título da paródia: “É sempre bom olhar o nosso próprio lado”. Em apenas 44 segundos os Atingidos pela Vale – lembremos que a Vale possui metade das ações da Samarco – fazem um resumo da ópera com dados que a empresa esmerou-se em driblar ao longo dos comerciais dirigidos pela Tom Comunicação: “Em vídeo com trabalhadores, Samarco faz o que não deve ser feito: escárnio”.
Confira aqui o texto do vídeo:
“Nós somos a Samarco. Agimos prontamente após o rompimento da barragem em Minas Gerais. Estamos investindo em milhões em limpeza. Da nossa própria imagem. Muitos perderam com esse desastre. E podem perder ainda mais se nada for feito. Estamos falando, é claro, dos nossos acionistas. Afinal, uma empresa do nosso tamanho não pode pagar multa. Precisamos investir em publicidade e dar lucro. Não somos culpados. Não vamos ser responsabilizados. É sempre bom olhar para o nosso próprio lado”.
Aqui, as informações inseridas como legenda:
- “Desastre foi recorde mundial de lama vazada, em volume e percurso”.
- “A Samarco é da Vale e da BHP, duas das maiores mineradoras do mundo”.
- “Vale tenta livrar Samarco de pagar multa de R$ 2 bilhões” (Título no jornal Valor).
- “Até hoje, nenhuma multa foi paga pela empresa”.
- “Lucro da Samarco foi de R$ 2,8 bilhões em 2014”.
O vídeo se encerra com uma versão do slogan da Samarco nas peças publicitárias, “fazer o que deve ser feito”. Com um complemento: “Fazer o que deve ser feito para dar lucro”. O comercial da empresa já está sendo questionado tanto pelo Ministério Público como pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar),
DO OTIMISMO AO CINISMO
Em novembro, mencionamos em um dos primeiros textos do blog o livro “Cândido”, um clássico de Voltaire. O personagem central era um otimista incorrigível. Diante de uma catástrofe, um terremoto em Lisboa, o filósofo francês fazia uma crítica a leituras menos ácidas do mundo feitas por autores como Leibniz e Rousseau. A comparação pode ser agora atualizada com os vídeos. O esforço publicitário da Samarco bem poderia levar a assinatura de Cândido e de seu mestre, o Doutor Pangloss. A paródia dos Atingidos pela Vale traz de volta o tema à realidade.
Pode ser feita também uma analogia com a história do cinismo, ou dos cínicos. Em sua versão original, na Grécia Antiga, eles eram desafiadores, atrevidos, quebravam paradigmas estabelecidos. Depois, o termo foi progressivamente sendo assimilado ao contrário: ao conformismo. Ou, como desenvolveu o filósofo Peter Sloterdijk em sua Crítica da Razão Cínica, a um certo modo de perpetuar as distorções da burguesia – a começar da desigualdade.
A Samarco dialoga com esse cinismo contemporâneo. Os trabalhadores, com o movimento original. O maior expoente daquele cinismo antigo era Diógenes, aquele que procurava com sua lanterna homens autênticos. Acaba de ser criada, portanto, uma espécie de Lanterna da Samarco. Procura-se uma empresa – da mineração à publicidade – com valores autênticos.
FONTE: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/02/20/video-candido-da-samarco-sobre-mariana-ganha-parodia-realista/