A Uenf tem reitoria ou feitoria?

Resultado de imagem para feitorias

Após longo e tenebroso inverno, a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) veio a público para, tal qual a montanha, parir um rato. Falo aqui da nota lançada nesta 4a. feira para, aparentemente, dar satisfações públicas para os que demandam o retorno às aulas, sem que tenham sido resolvidas questões básicas para assegurar um funcionamento com um mínimo de condições de trabalho e de transmissão das cargas pedagógicas [1].

O conteúdo desta nota é uma espécie de repetição dos argumentos surrados que a reitoria da Uenf apresentou ao longo do segundo semestre de 2017 primeiro para impedir a deflagração da greve de professores e técnico-administrativos e segundo para quebrar decisões democráticas que foram tomadas pelas assembleias de categoria.

Mas o pior dessa nota é que, num momento em que as universidades públicas estão sob forte ataque nos estados e em nível federal, a postura de naturalizar a ausência de um calendário de pagamentos e a inexistência de verbas de custeio,  a reitoria da Uenf joga para a plateia ao pregar a volta às aulas “mesmo considerando que não temos ainda as condições ideais, como a garantia do pagamento dos salários em dia, a infraestrura ideal nos campi e a garantia da total execução do orçamento, é importante retomarmos as aulas, pois o ensino – base para o desenvolvimento da pesquisa e extensão – é um dos pilares e razão de existência da Universidade.

Digo que a reitoria joga para a plateia na medida em que existem segmentos do estudantado que insistem em que os professores da Uenf trabalhem sem salários, como se fosse aceitável que qualquer profissional tivesse que passar por essa situação degradante; sejam eles professores com doutorado ou trabalhadores de campo com nível de ensino elementar.  Ao fazer isso, a reitoria da Uenf legitima a visão neoliberal de que para qualquer trabalhadores ficar sem salários não passa de um “mero aborrecimento” , tal como escreveram vários juízes em sentenças em que negavam o direito dos servidores estaduais de receberem seus salários em dia.

A reitoria da Uenf comete ainda um desserviço ao usar o fato do ensino “ser um dos pilares e razão da existência da Universidade” para demandar o retorno às aulas sem que existam garantias mínimas no sentido de garantir serviços de segurança e limpeza, bem como o suprimento de materiais de ensino. Da forma que a Uenf se encontra, o máximo que poderá ser oferecido serão aulas conteudistas no melhor estilo “cuspe e giz”. Além disso, no período noturno sobrará aos que frequentam o campus Leonel Brizola a decisão de assistir às aulas resultará na aceitação do risco e da insegurança pessoal.

Por mais desagradável que possa soar, não hesito dizer que esta reitoria aceitou se transformar numa espécie de feitoria do (des) governo Pezão. Só isso se explica a propensão de aceitar a desconstrução do modelo de universidade idealizado por Darcy Ribeiro e na transformação da Uenf em um “escolão” onde a inovação do conhecimento será, quando muito, uma mera declaração de intenções.

Reconheço que todo movimento de greve tem início e fim. Mas não cabe à reitoria da Uenf ditar quando greves começam ou terminam. E muito menos cabe à reitoria da Uenf impor sobre os servidores que aceitem ter seus direitos trabalhistas violados em nome de um retorno às aulas que ela mesma reconhece se daria sob condições precárias.

Mas é importante  notar que apesar da reitoria da Uenf, o ano de 2018 será fundamental para que se avance mecanismos de defesa da Universidade do Terceiro Milênio e do modelo de consciência cidadã que guiou o seu desenho institucional revolucionário. E muito fará a reitoria da Uenf, se não atrapalhar quem quiser cumprir o papel que ela aceitou abandonar em nome da boa convivência com o (des) governo Pezão.

Finalmente, há que se lembrar algo que está ausente na nota da reitoria. Por decisão da própria reitoria, professores e servidores técnico-administrativos foram colocados efetivamente em férias coletivas neste mês. Assim, se ainda não foram realizadas assembleia para discutir os próximos passos da luta em defesa da Uenf, as reclamações devem ser encaminhadas ao reitor e ao Colegiado Executivo que decidiram por essas férias coletivas. Simples assim.


[1] http://www.uenf.br/dic/ascom/2018/01/24/nota-da-reitoria-24-01-18/

5 pensamentos sobre “A Uenf tem reitoria ou feitoria?

  1. Carlos disse:

    Você não vai cansar nunca de viver nessa sua bolha custe a quem custar? Além de utópico uma universidade com condições ideais (por favor, se houver alguma pública no Brasil me conte), você está ajudando a afundar cada vez mais a nossa Universidade. Caro colega, se analisar esse ano terá a menor nota de corte no processo seletivo, o que indica que além de perder os alunos que já desistiram de nossa universidade, não há interesse em novos alunos de ao menos conhecerem. Creio, mas posso estar errado (ao contrário de você que está sempre correto) que você deve atuar no mesmo time de desmonte de nossa universidade. Receberam pelo ano de 2017, sem sequer encerrar um período que seja referente a esse ano. É isso que seu sindicato defende? Isso que é justiça? Meu caro, empregado, formado, você só consegue olhar para seus próprios ideais. Reveja o número de alunos matriculados, desesperados, despreparados para lidar com a incerteza de mais um ano em vão. Como posso crer que suas medidas são efetivas se em nada afetou o calendário de pagamento, que não foi feito e nem deixou de ser feito por causa da greve? A UENF tem um futuro escuro. Salas cada vez mais vazias, sonhos cada vez mais distantes. Creio que é esse futuro que você queira defender. Todos erramos, porém vejo uma persistência em medidas que pioram a situação. Se formou pelas pesquisas ou pela paixão em passar o que lhe foi ensinado? São futuros, são jovens, são os que você deveria ensinar a lutar, resistir, aprender, ouvir. Vocês tem frustrado, meu caro, o futuro de nossa UENF. Torço para tempos melhores, melhores consciências, melhores instrumentos de luta, e uma melhor compaixão. É tempo de união. Tempo de mostrar o valor da universidade, não esvazia-la somente por intolerância e teimosia. Espero que reflita.

    • Carlos, compaixão deveria ser primeiro para aqueles que passaram 2017 sem seus salários em dia. Sem isso, não há muito o que conversar. E mais, que tipo de ensinamento estaríamos dando se aceitassemos conformados ao desrespeito aos nossos direitos básicos. Estou na UENF desde 1998 e já formei dezenas de pesquisadores e é a opinião deles que realmente me importa. Finalmente, vou querer ver como se comportarão figuras como você se as aulas voltarem e os atrasos salariais também.

      • Carlos disse:

        Os atrasos agora não são mais salariais visto que receberam o ano de 2017 sem sequer terminarem o período. Válido seria terminar ao menos 2017.1 e 2017.2 antes de citar novamente atrasos. Admita que o método da greve foi falho, pois não trouxe ganhos. O que foi feito ia ser feito de qualquer maneira. Que sirva de aprendizado. Porque não responder sobre a evasão? Acompanhei o processo seletivo e abaixaram muito as notas de corte o que indica que a UENF não está sendo escolhida por novos alunos. Vejo os alunos desta instituição em desespero. Os professores receberam pelo ano letivo, o atraso não é justo, mas o salário sem de fato terem sido abertos os períodos de 2017.1 e 2017.2 também não me parecem corretos. O salário foi recebido. E o prejuízo a instituição? Como recuperar? Assisti a situação e penso que educar seus alunos na luta seria melhor do que coloca-los a assistir, sem nada poder fazer, o atraso de seu ano letivo, sem recuperação. Já repito:o salário atrasado foi recebido. O tempo perdido? Quem irá banca-los? Essa é uma UNIVERSIDADE, ela é de todos. Juntem-se todos a lutar por ela. Mude a estratégia.

      • Carlos, você parece esquecer que recebemos salários atrasados e sem nenhum tipo de ressarcimento, inclusive o 13o salário de 2016 que nos foi pago com um ano de atraso. Me desculpe, mas cabe aos professores da UENF avaliarem se este movimento deu certo ou não, mas posso dizer que a maioria dos meus colegas esperaria mais solidariedade de quem parece querer que trabalhemos. É que trabalho sem salário continua sendo trabalho escravo. E não se preocupe com a reposição das aulas, pois ela ocorrerá, aliás, como sempre ocorreu em greves anteriores. E quando as aulas voltarem, e elas voltarão, vou realmente acompanhar como os que tanto parecer querer aulas vão defender que a UENF não seja transformada num escolão e com mensalidades caras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s