Aquecimento global e miopia: estudo alerta para perda de biodiversidade em hotspots e suas consequências negativas

snow lepard

Os leopardos da neve vivem nas altas montanhas – aqui no Pamir. Quando fica mais quente, eles geralmente não conseguem se mover mais alto. Foto: dpa / Igor Kovalenko / epa

Os botos-vaquita no Golfo da Califórnia, os lêmures em Madagascar, os elefantes da floresta na África Central e os leopardos das neves no Himalaia, todos têm uma coisa em comum: eles estão na via de mão única para a extinção se a mudança climática elevar a temperatura global em três graus Celsius.

Esses animais não estão sozinhos neste destino. A menos que as nações melhorem drasticamente a implementação do Acordo de Paris de 2015 para reduzir as emissões de CO2, o aquecimento global destruirá irreversivelmente os lugares com a mais rica diversidade de animais e plantas em nosso planeta. Essa é a avaliação preocupante da situação de um estudo publicado na revista “Biological Conservation” (Endemism increases species’ climate change risk in areas of global biodiversity importance) como botos vaquita, leopardos das neves, lêmures e elefantes da floresta, que estão sujeitos a condições ambientais muito específicas em locais muito específicos para sua sobrevivência, são as mais afetadas pelas mudanças climáticas.

O grupo internacional de cientistas liderado pela ecologista brasileira Mariana Vale, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisou 8.000 avaliações de risco publicadas sobre a biodiversidade em quase 300 “pontos quentes” em terra e no mar sob a perspectiva de um aumento da temperatura global de três graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. A investigação não é um mero exercício acadêmico do tipo “e se?”. Porque o mundo já está a caminho de um aquecimento global de três graus. A temperatura mundial já subiu um grau acima do nível pré-industrial. Os autores do estudo alertam que os três graus seriam atingidos no máximo até o final deste século, mesmo que os países aderissem às metas estabelecidas no acordo climático de Paris de redução das emissões de CO2. »Mudanças climáticas ameaçam áreas

Mais de 90% de todas as espécies endêmicas – ou seja, nativas de uma determinada área – e 95 por cento de todas as espécies marinhas endêmicas são afetadas pela extinção se a terra aquecer mais dois graus, de acordo com o estudo. Parece ainda mais ameaçador em habitats muito especiais. Nas regiões montanhosas, 84% dos animais e plantas endêmicos estão ameaçados de extinção, enquanto nas ilhas é 100%. “Muitas dessas espécies não conseguem se adaptar às mudanças climáticas por diversos motivos”, diz Vale. Essas espécies têm necessidades ambientais muito específicas para sua vida, sua reprodução e sua alimentação e, portanto, não podem simplesmente migrar para novos ambientes.

Além das mudanças climáticas, outro problema é a crescente perda de habitat para animais e plantas não endêmicas devido ao uso de cada vez mais terras para agricultura, cidades e estradas. “Isso impede que muitas espécies se mudem para áreas climaticamente mais adequadas, o que tem sido uma resposta normal e efetiva aos eventos climáticos da história da Terra”, diz Vale.

Mark Costello, um dos autores do estudo, se preocupa com a sobrevivência dos animais marinhos quando as temperaturas sobem. Sua pesquisa mostrou que “muitos animais marinhos não conseguem sobreviver a temperaturas médias anuais de mais de 20 graus”, diz o biólogo marinho da Universidade de Auckland (Nova Zelândia).

Agora pode-se perguntar: é realmente tão ruim se algumas espécies nunca mais forem vistas? O encolhimento de espécies ocorreu com frequência na história da Terra e a evolução sempre produziu espécies novas e maravilhosas. Wolfgang Kießling da Geo-Zentrum Nordbayern da Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg torna claras as dimensões do atual processo evolutivo. “A perda de espécies é preocupante porque leva muito tempo para ser equilibrada novamente por meio de processos evolutivos”, disse Kießling, também co-autor do estudo. “Durante a maior extinção em massa induzida pelo clima na história da Terra, na fronteira do Permiano-Triássico, levou cinco milhões de anos para a biodiversidade global retornar ao nível que estava antes da extinção das espécies. Este não é um problema para a terra, mas para a humanidade.

Em um pedido urgente,  a Dra. Vale deixa claro que não se trata apenas de preservar plantas bonitas, animaizinhos fofos e peixes coloridos como belos enfeites em nosso mundo. O especialista enfatiza que a humanidade depende da biodiversidade para sua própria sobrevivência. Não se trata apenas de segurança alimentar, água e energia, mas também de “nosso bem-estar espiritual e emocional”. Conduzir espécies ao extermínio é, portanto, “não só eticamente errado”, mas também “estúpido da nossa parte”, diz Vale, acrescentando, tendo em vista a crise da coroa: “Os cientistas vêm alertando sobre isso há muito tempo, assim como fizeram têm alertado sobre a crescente probabilidade de uma pandemia alertaram sobre a degradação ambiental generalizada. Queremos esperar até ficarmos sem recursos? Espero que não.”

fecho

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deustchland” [Aqui!].

Um comentário sobre “Aquecimento global e miopia: estudo alerta para perda de biodiversidade em hotspots e suas consequências negativas

  1. Pingback: Aquecimento global e miopia: estudo alerta para perda de biodiversidade em hotspots e suas consequências negativas – Mágica Mistura✨

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s