Afinal, o que explica a posição pró-Putin de Jair Bolsonaro?

bolsonaro putin

Enquanto a guerra corre solta na Ucrânia, muitos se perguntam o que pode estar causando o giro do presidente Jair Bolsonaro para fora da órbita dos EUA para, aparentemente, se inserir campo de Vladimir Putin.  Antes que alguém ache que esse alinhamento é apenas mais um sinal de desconhecimento primário das regras de alinhamento geopolítico, especialmente em períodos de guerra, onde atores mais frágeis evitam optar por determinados campos em face dos altos custos que uma escolha errada pode causar, eu penso que há sim uma racionalidade por detrás da postura do presidente brasileiro.

Pensemos para além da aparente proximidade de personalidades, algo que pode jogar algum tipo de influência, para nos concentrarmos na realidade geopolítica que está se abrindo a partir de um alinhamento russo-chinês para alterar o status quo que predomina desde o final da segunda guerra mundial.  Para começar o comércio exterior brasileiro é hoje basicamente dependente da China e da Rússia para vender parte significativa de suas commodities agrícolas e minerais, as quais deverão ter uma oscilação para cima até que as brasas esfriem em solo ucraniano.

E não nos esquecemos de que a Rússia, em meio aos preparativos o estabelecimento do que parece ser uma nova ordem global multipolar, se tornou uma ávida compradora de ouro, tendo acumulado mais ouro do que dólares americanos, moeda da qual o Banco Central russo começou a se desfazer desde 2014, tendo acumulado mais em euros e ouro (que representa 23% das reservas russas). Com Jair Bolsonaro pretendendo ampliar a corrida do ouro na Amazônia, essa aproximação com o governo de Vladimir Putin faz muito sentido, ainda que às custas de destruição ambiental e social na Amazônia, e guerra no leste da Europa.

Desta forma, ainda que o vice-presidente Hamilton Mourão tenha tentado oferecer uma posição pró-EUA, o que seria de se esperar já que ele é um recruta da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e, com isso, um resultado da maior influência dos EUA na formação do oficialato brasileiro após o Golpe Militar de 1964, a posição que deve ser levada a sério é a de Jair Bolsonaro que, como estamos vendo, está indo ao encontro do eixo Rússia-China, ainda que momentaneamente e refletindo uma posição de setores minoritários das próprias forças armadas brasileiras.

Uma curiosidade a mais nessa situação é que o presidente brasileiro esteve na Rússia e se encontrou com Vladimir Putin uma semana antes da invasão à Ucrânia. Naquele momento houve uma fanfarronice, que partiu de nada menos do ex-(anti) ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que tentava apresentar Jair Bolsonaro como uma exitosa pomba da paz. Agora com as bombas caindo que flocos de neve em solo ucraniano, há que se ver para onde irá o discurso dos setores mais duros dos apoiadores de Bolsonaro que são sabida e abertamente pró-EUA.

De toda forma, que não se despreze a linha de ação de Jair Bolsonaro como um mero reflexo de mais uma ação desastrada de um neófito em diplomacia internacional. É que Jair Bolsonaro é apenas a face de um governo que opera a partir das formas mais puras de pragmatismo (do tipo “é dando que se recebe). De qualquer forma, os resultados das opções sendo tomadas por Jair Bolsonaro sobre o conflito russo-ucraniano vão ter repercussões, e graves. Resta esperar para ver quais serão.

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