O avanço da doença no coração agrícola norte-americano expõe uma geografia global da injustiça ambiental e o colonialismo químico que continua envenenando trabalhadores e comunidades rurais
O excelente artigo da jornalista Daisy Yuhas, publicado pelo EL PAÍS América, expõe uma realidade que há décadas vem sendo denunciada por pesquisadores da saúde ambiental: a agricultura baseada no uso intensivo de agrotóxicos produz alimentos, mas também produz doenças. O que ocorre no Vale do Rio Grande, no Texas, está longe de ser um problema regional. Trata-se de um retrato inquietante do modelo agrícola intensivo que domina grande parte do planeta, uma paisagem de alta produtividade construída à custa da exposição permanente de trabalhadores e comunidades rurais a substâncias químicas capazes de comprometer sua saúde por toda a vida.
No centro da reportagem está o crescimento do número de casos de doença de Parkinson em uma das regiões agrícolas mais importantes dos Estados Unidos. Médicos e pesquisadores passaram a identificar uma concentração incomum de pacientes e, a partir dessa constatação, investigações científicas começaram a relacionar esse fenômeno à exposição crônica a herbicidas e outros produtos químicos utilizados nas lavouras.
Entre eles está o paraquat, considerado um dos herbicidas mais tóxicos já comercializados no mundo. Diversos estudos epidemiológicos vêm associando sua exposição ao aumento do risco de desenvolvimento da doença de Parkinson e de outras alterações neurológicas graves. Embora dezenas de países tenham proibido sua utilização e a Anvisa tenha determinado seu banimento no Brasil em 2020, a substância continua cercada de intensa disputa política e econômica. Setores do agronegócio e da indústria química resistiram durante anos à sua retirada do mercado e seguem pressionando por flexibilizações regulatórias sempre que surgem oportunidades políticas para isso.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa que, apesar da proibição do uso interno, o Brasil continua produzindo paraquat para exportação. Ou seja, reconhece oficialmente que o herbicida oferece riscos inaceitáveis para sua população, mas mantém uma cadeia industrial dedicada a fabricar e comercializar esse mesmo produto para outros países. A lógica é simples e perversa: aquilo que é considerado perigoso demais para os brasileiros continua sendo uma mercadoria perfeitamente aceitável quando os riscos recaem sobre trabalhadores e comunidades estrangeiras.
Esse aspecto talvez seja o mais importante da discussão. A exposição aos agrotóxicos não é apenas um problema ocupacional, restrito àqueles que manipulam diretamente os produtos. Trata-se de um problema territorial e de saúde pública. A deriva dos produtos químicos rompe os limites das propriedades rurais e transforma comunidades inteiras em populações expostas, ampliando desigualdades ambientais e sanitárias e distribuindo os riscos de forma profundamente injusta.
Sob essa perspectiva, o avanço do Parkinson no Vale do Rio Grande deve ser compreendido como parte de uma verdadeira geografia da injustiça ambiental. Os benefícios econômicos da agricultura intensiva concentram-se nas grandes corporações do agronegócio e da indústria química, enquanto os custos são espalhados pelo território, recaindo sobre trabalhadores rurais, moradores de pequenas comunidades, crianças que frequentam escolas próximas às lavouras e sistemas públicos de saúde que terão de arcar com tratamentos de longa duração.
Essa dinâmica dialoga diretamente com o conceito de “colonialismo químico”, desenvolvido pela geógrafa brasileira Larissa Bombardi. Segundo essa perspectiva, existe uma divisão internacional dos riscos ambientais em que países e populações periféricas são transformados em mercados consumidores ou produtores de substâncias proibidas ou severamente restringidas nos países centrais. Empresas multinacionais e cadeias globais do agronegócio deslocam para territórios considerados mais vulneráveis os impactos sanitários e ambientais de produtos que suas próprias sociedades já não aceitam utilizar.
O caso brasileiro ilustra perfeitamente esse mecanismo. O país permanece entre os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos e continua autorizando diversos princípios ativos proibidos na União Europeia. Ao mesmo tempo, mantém a produção de paraquat para exportação, reproduzindo uma lógica em que os lucros permanecem privados enquanto os riscos são internacionalizados e socializados entre populações com menor capacidade de influenciar decisões regulatórias.
O mérito da reportagem do EL PAÍS está justamente em humanizar aquilo que frequentemente aparece apenas como estatística. Histórias como as do ex-professor Leo Ramírez e da ex-enfermeira Esmeralda Garza mostram como uma doença neurodegenerativa pode transformar radicalmente a vida de pessoas que jamais imaginaram estar sujeitas a esse risco simplesmente por viverem próximas às áreas cultivadas.
O caso texano também evidencia uma contradição recorrente nas políticas agrícolas contemporâneas. Enquanto a ciência acumula evidências sobre os efeitos dos agrotóxicos, a regulação continua lenta e frequentemente submetida à influência econômica do agronegócio e da indústria química. Milhares de ações judiciais já foram movidas contra fabricantes do paraquat, e restrições vêm sendo adotadas em diferentes países, mas a proteção da saúde pública continua chegando muito depois da exposição das populações.
Para o Brasil, essa discussão é particularmente urgente. O país permanece entre os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, convive com a pulverização aérea, com a proximidade entre grandes lavouras e escolas, territórios indígenas, quilombolas e comunidades rurais, além de um sistema de fiscalização frequentemente incapaz de impedir episódios recorrentes de contaminação.
Esperar que décadas de exposição produzam uma epidemia de doenças neurodegenerativas para somente então rever políticas públicas representa uma completa inversão do princípio da precaução. As evidências científicas já são suficientemente robustas para justificar medidas preventivas mais rigorosas.
Nesse sentido, o Vale do Rio Grande não é uma exceção. É apenas um espelho que reflete os riscos de um modelo agrícola cuja dependência química continua sendo apresentada como sinônimo de modernidade e eficiência, quando, na realidade, reproduz uma economia que privatiza os lucros, socializa os danos ambientais e distribui doenças segundo a posição que cada território ocupa na divisão internacional do trabalho. O avanço do Parkinson no coração agrícola do Texas é um alerta contundente de que o verdadeiro custo dos alimentos produzidos sob esse modelo está sendo pago, silenciosamente, pela saúde das populações expostas — no Texas, no Brasil e em todas as regiões transformadas em zonas de sacrifício pela expansão da agricultura química.
