Ao anunciar um curso técnico de Cinema e Audiovisual para uma unidade cujo projeto pedagógico ainda não foi discutido pelos colegiados, a Reitoria da UENF corre o risco de inverter prioridades e transformar o legado de Darcy Ribeiro em justificativa para decisões que deveriam resultar de planejamento, debate acadêmico e construção coletiva.
A declaração da reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Rosana Rodrigues, durante a abertura do II Festival Internacional Goitacá de Cinema, merece ser examinada com atenção. Segundo a reitora, Campos dos Goytacazes deverá ganhar “em breve” um curso técnico de Cinema e Audiovisual, a ser instalado no Colégio Universitário de Aplicação da Uenf, que deverá funcionar nas instalações da antiga Escola Agrícola Antônio Sarlo. Na mesma ocasião, Rosana Rodrigues vinculou a iniciativa ao desejo de Darcy Ribeiro de implantar uma Escola de Cinema na Universidade e afirmou que, nos primeiros anos da Uenf, talvez tenha faltado “maturidade suficiente” para acolher aquele projeto.
A possibilidade de a UENF desenvolver atividades permanentes nas áreas de cinema e audiovisual pode, em princípio, ser recebida positivamente. A universidade nasceu sob a inspiração de Darcy Ribeiro, que efetivamente pretendia incorporar uma Escola de Cinema ao projeto institucional que havia concebido. Recuperar essa dimensão cultural e educacional da proposta original pode representar um enriquecimento da UENF e produzir impactos importantes para Campos dos Goytacazes e para o Norte Fluminense. O problema, portanto, não está necessariamente na ideia de criar um curso técnico de Cinema e Audiovisual, mas na forma pela qual sua criação está sendo anunciada e, sobretudo, na aparente inversão da ordem que deveria orientar uma decisão dessa natureza.
A primeira pergunta a ser feita é bastante simples: qual Colégio de Aplicação receberá esse curso? A questão evidentemente não diz respeito à existência de um prédio, pois o espaço físico existe e foi incorporado à Uenf. O que ainda precisa ser estabelecido é qual instituição educacional deverá existir dentro dele. Até onde essa questão foi discutida nos colegiados da Universidade, ainda não existe um projeto político-pedagógico amplamente debatido que estabeleça claramente qual será a natureza do Colégio Universitário de Aplicação, quais serão seus objetivos educacionais, que níveis e modalidades de ensino oferecerá, qual será sua relação com os cursos de graduação e pós-graduação, como serão incorporadas as atividades de pesquisa e extensão e, principalmente, que papel essa nova unidade deverá desempenhar na formação de professores e na experimentação pedagógica.
É justamente a ausência dessa definição institucional construída coletivamente que torna particularmente estranho o anúncio de que um curso técnico específico deverá funcionar “em breve” no Colégio de Aplicação. A questão que se coloca é elementar: como definir um curso que fará parte de uma instituição cuja concepção pedagógica ainda não foi estabelecida? Quando a ordem é essa, surge a impressão de que primeiro se definem cursos, atividades e ocupações do espaço físico e, posteriormente, procura-se construir um projeto pedagógico capaz de acomodar decisões previamente tomadas.
Primeiro o curso, depois o projeto pedagógico?
Um Colégio de Aplicação não deveria ser simplesmente um edifício pertencente a uma universidade no qual diferentes cursos são instalados à medida que aparecem oportunidades ou interesses circunstanciais. Historicamente, os colégios de aplicação vinculados às universidades públicas brasileiras possuem funções muito mais complexas, pois, além de oferecerem educação básica, constituem espaços de formação inicial e continuada de professores, realização de estágios, desenvolvimento e avaliação de metodologias pedagógicas, pesquisa educacional, extensão universitária e experimentação de novas práticas de ensino. Sua própria existência pressupõe, portanto, uma articulação orgânica entre educação básica e universidade.
Por essa razão, a discussão sobre quais cursos e modalidades de ensino deverão funcionar em seu interior deveria decorrer de seu projeto pedagógico, e não antecedê-lo. Não se trata, novamente, de ser contrário à criação de um curso técnico de Cinema e Audiovisual, mas de perguntar de qual concepção de Colégio de Aplicação esse curso resulta e qual função deverá cumprir dentro de um projeto educacional mais amplo. Seria necessário saber como essa formação dialogará com a educação básica, que centros, laboratórios e cursos da Uenf participarão de sua concepção, quem constituirá seu corpo docente, quais serão suas instalações e equipamentos, qual será sua matriz curricular, como será financiado, qual será a forma de ingresso dos estudantes e de que maneira se relacionará com pesquisa, extensão e formação de professores.
Essas não são questões burocráticas que possam ser resolvidas depois. Elas constituem precisamente aquilo que diferencia a criação de uma instituição educacional da simples abertura de um curso. Se o futuro Colégio de Aplicação pretende ser efetivamente uma unidade universitária de educação, pesquisa, extensão, formação docente e experimentação pedagógica, sua identidade precisa preceder a definição das atividades que serão colocadas dentro dele.
A Escola de Cinema que Darcy realmente imaginou
A referência feita pela reitora ao desejo de Darcy Ribeiro de criar uma Escola de Cinema acrescenta uma dimensão particularmente importante ao problema. Nesse caso, sequer precisamos especular sobre o que Darcy pensava, porque ele deixou isso registrado. Em abril de 1996, no artigo “A universidade do 3º milênio“, publicado na Folha de S.Paulo, Darcy fez um balanço extremamente revelador da Universidade que havia ajudado a conceber e confirmou seu empenho na implantação de uma Escola de Cinema e Televisão.
Mas há um detalhe fundamental: a Escola de Cinema não aparece isoladamente no pensamento de Darcy. No mesmo texto, ele menciona outros projetos para os quais havia buscado recursos, entre eles o Herbarium, um Seminário de Estudos Internacionais e uma Faculdade de Educação e Comunicação, esta última relacionada à formação de professores e à articulação entre educação, comunicação, informática e meios audiovisuais. A Escola de Cinema, portanto, integrava uma arquitetura institucional muito mais abrangente e estava relacionada a uma determinada concepção sobre o papel que a Uenf deveria desempenhar na produção do conhecimento, na formação profissional e no desenvolvimento da sociedade.
Esse contexto é particularmente importante porque impede que a referência à antiga Escola de Cinema seja reduzida à ideia de que “Darcy queria cinema na Uenf”. Evidentemente queria, mas a pergunta relevante é por que queria, de que maneira pretendia institucionalizar essa proposta e como ela se articulava ao restante da Universidade que estava concebendo. Retirar a Escola de Cinema dessa arquitetura intelectual e institucional e transformá-la simplesmente em antecedente histórico de um curso técnico contemporâneo significa correr o risco de preservar a ideia enquanto se perde o método que lhe dava sentido.
O fracasso anterior também precisa ser estudado
Há ainda uma questão que não deveria ser evitada: por que a Escola de Cinema imaginada nos primeiros anos da Uenf não conseguiu se consolidar? A tentativa não fracassou simplesmente por ausência de ambição intelectual ou pela inexistência de pessoas qualificadas. Nomes reconhecidos do campo cinematográfico como Geraldo Sarno e Orlando Sena foram atraídos para participar daquele projeto. Ainda assim, a Escola de Cinema não se institucionalizou. Por isso, afirmar que teria faltado “maturidade suficiente” à universidade para acolher a Escola de Cinema parece uma explicação excessivamente simples para um processo que merece ser estudado com muito mais cuidado. Faltaram condições institucionais? Houve problemas de financiamento? O projeto encontrou dificuldades para se integrar à estrutura acadêmica que estava sendo construída? Existiam conflitos entre diferentes concepções sobre o perfil da nascente Universidade? Houve obstáculos para constituir e manter um corpo permanente de professores, técnicos e pesquisadores? Que papel desempenharam as escolhas administrativas feitas naquele momento?
Responder a essas perguntas não representa um exercício de arqueologia institucional. Ao contrário, constitui uma condição importante para que uma nova iniciativa não reproduza dificuldades já experimentadas pela própria Universidade. Uma instituição que pretende recuperar um projeto fracassado deveria começar estudando as razões de seu fracasso. A experiência histórica só se transforma em aprendizado quando seus problemas são examinados, e não quando são convertidos em uma narrativa simplificada sobre oportunidades que teriam sido perdidas.
Não existia em Darcy uma lógica de “criação pela criação”
Há, portanto, um risco de que a invocação da figura de Darcy Ribeiro acabe substituindo uma análise mais cuidadosa da própria experiência histórica da UENF. Recuperar o nome de Darcy sem recuperar o método pelo qual ele pensava a construção institucional pode produzir uma espécie de “darcynismo” meramente cerimonial, no qual determinadas ideias do fundador são lembradas quando ajudam a legitimar iniciativas da administração, enquanto outras dimensões fundamentais de seu pensamento deixam de orientar concretamente as práticas de gestão.
Darcy Ribeiro possuía, sem dúvida, um espírito arrojado e não hesitava em propor instituições e experiências educacionais inovadoras. Mas dificilmente conceberia a criação de uma nova estrutura acadêmica como um fim em si mesmo, desvinculada dos objetivos estratégicos atribuídos à Uenf e de sua contribuição para o desenvolvimento econômico, social, científico, educacional e cultural do Norte Fluminense. A ousadia de Darcy Ribeiro não deveria ser confundida, portanto, com uma espécie de método de “criação pela criação”. Ao contrário, a inovação institucional concebida por Darcy estava associada a uma determinada visão de universidade e à função transformadora que esta deveria desempenhar sobre o território em que estava inserida.
O próprio artigo de 1996 reforça essa interpretação. Darcy descrevia a Uenf como uma universidade concebida para preparar o Brasil para dominar as ciências e tecnologias que estruturariam o futuro. Para Darcy, a Uenf se tratava de uma universidade criada com finalidade estratégica e não de uma coleção de cursos ou estruturas independentes entre si. Por isso, se a atual administração pretende recorrer ao desejo de Darcy de criar uma Escola de Cinema para justificar a implantação de um curso técnico de Cinema e Audiovisual, deveria responder também a uma questão essencialmente darcyniana: de que maneira esse curso se articula com a missão estratégica da Uenf, com o projeto pedagógico ainda por construir de seu Colégio de Aplicação e com as necessidades econômicas, sociais, educacionais e culturais do Norte Fluminense?
O alerta de Darcy sobre os órgãos-meio e os órgãos-fim
O artigo de 1996 contém ainda uma advertência que deveria receber atenção especial da atual administração. Ao fazer um balanço dos primeiros anos da universidade, Darcy Ribeiro reconheceu ter cometido aquilo que chamou de um “erro fatal” na estruturação institucional da UENF e lamentou o domínio dos órgãos-meio sobre os órgãos-fim. Mais significativo ainda, associou problemas institucionais ao afastamento de professores que haviam sido atraídos para Campos dos Goytacazes justamente para implantar laboratórios de pesquisa e programas de pós-graduação. Essa reflexão estabelece uma conexão direta com outra advertência conhecida de Darcy Ribeiro, feita na aula inaugural da universidade. Naquela ocasião, ele alertou a comunidade universitária para que não se deixasse inebriar pelos prédios novos, laboratórios, equipamentos e demais estruturas materiais que estavam sendo construídas. O essencial eram as pessoas, pois uma universidade não existe simplesmente porque possui edifícios e equipamentos; ela existe porque uma comunidade de professores, técnicos, estudantes e trabalhadores a constrói diariamente.
As duas reflexões precisam ser lidas conjuntamente. O Darcy Ribeiro de 1996 já havia aprendido, a partir da própria experiência da Uenf , que estruturas administrativas inadequadas poderiam comprometer projetos acadêmicos e afastar justamente as pessoas necessárias para realizá-los. A advertência de Darcy sobre prédios e equipamentos, portanto, não era uma frase ornamental sobre a importância abstrata das pessoas. Essa advertência continha a defesa de uma concepção profundamente institucional sobre como universidades são construídas e sobre o lugar que sua comunidade acadêmica deve ocupar nesse processo.
Um prédio não é um Colégio de Aplicação
No caso do Colégio de Aplicação, essa advertência assume uma atualidade evidente. A incorporação da antiga Escola Agrícola Antônio Sarlo oferece à UENF um patrimônio físico importante e abre possibilidades educacionais igualmente relevantes, mas possuir o espaço físico não significa possuir um Colégio de Aplicação. Para que este efetivamente exista, será necessário construí-lo acadêmica e pedagogicamente, definindo coletivamente suas finalidades antes de simplesmente ocupá-lo administrativamente.
Isso pressupõe discutir sua concepção dentro da Uenf , ouvir seus centros e colegiados, envolver os professores que trabalham com educação, incorporar as licenciaturas, os servidores técnico-administrativos e os estudantes e dialogar com os setores da sociedade que serão diretamente afetados pela criação da nova instituição. Assim, será somente a partir dessa construção coletiva será possível definir de maneira coerente quais cursos, modalidades de ensino e atividades deverão integrá-lo.
A questão assume ainda maior importância porque um Colégio de Aplicação não deveria funcionar como espaço residual para acomodar iniciativas que não encontram lugar na estrutura existente da Universidade. A criação de um colégio de aplicação deverá representar uma oportunidade para a Uenf pensar sua relação com a educação básica, com a formação docente e com os desafios educacionais do Norte Fluminense. Desperdiçar essa oportunidade pela ausência de um projeto pedagógico construído coletivamente seria transformar uma iniciativa potencialmente estratégica em simples ocupação de um novo espaço físico.
A melhor homenagem a Darcy é praticar Darcy
Um festival internacional de cinema pode representar uma excelente oportunidade cultural para Campos dos Goytacazes e para a própria Uenf . Um evento deste tipo pode aproximar a universidade de cineastas, produtores, estudantes e movimentos culturais e estimular uma discussão séria sobre a presença do audiovisual na instituição. Da mesma forma, um curso técnico de Cinema e Audiovisual poderá perfeitamente vir a fazer parte do futuro Colégio de Aplicação e poderá se transformar em uma iniciativa inovadora e relevante para o Norte Fluminense. Mas um festival não substitui um projeto acadêmico, assim como a memória de uma Escola de Cinema imaginada por Darcy Ribeiro não constitui, por si mesma, um projeto pedagógico para um curso técnico de Cinema e Audiovisual.
Se a atual gestão da Uenf deseja realmente recuperar o espírito do projeto de Darcy, deveria começar justamente por sua recomendação mais elementar: colocar as pessoas no centro da construção da universidade. Na prática, isso significa substituir a lógica do anúncio pela lógica da discussão, decisões apresentadas como encaminhadas pela elaboração colegiada e a simples ocupação de espaços físicos pela construção de instituições acadêmicas dotadas de identidade, finalidade e legitimidade. O curso de Cinema e Audiovisual poderá surgir desse processo, mas deveria chegar como consequência de uma concepção educacional previamente construída, e não aparecer no início como um fato aparentemente consumado ao qual o futuro projeto pedagógico terá de se adaptar.
Em minha opinião, existe aí uma ironia histórica que não deveria passar despercebida. No mesmo artigo de 1996 em que reafirmava seu compromisso com a criação da Escola de Cinema, Darcy Ribeiro fazia uma dura autocrítica sobre escolhas realizadas na implantação da Uenf. Ele demonstrava, assim, que fidelidade a um projeto não significa repetir indefinidamente suas ideias originais, mas possuir capacidade para aprender com seus erros, rever caminhos e preservar os objetivos fundamentais que justificaram sua criação.
Por isso, a melhor homenagem que os atuais gestores da Uenf podem prestar a Darcy Ribeiro não consiste em repetir seu nome em cerimônias, recuperar seletivamente seus projetos inconclusos ou transformar suas ideias em justificativas históricas para decisões presentes. Consiste em praticar aquilo que Darcy ensinou: construir instituições com finalidade estratégica, submeter grandes projetos ao debate, colocar os órgãos-fim acima dos órgãos-meio e reconhecer que nenhuma universidade se sustenta apenas por prédios, equipamentos ou anúncios. Se a Uenf pretende continuar sendo a universidade que Darcy imaginou para transformar o Norte Fluminense e contribuir para o desenvolvimento do país, será preciso lembrar que uma universidade não é aquilo que seus gestores anunciam que ela será, mas aquilo que sua comunidade universitária consegue construir coletivamente todos os dias.
Há, finalmente, um problema de credibilidade institucional que não pode ser ignorado: anunciar publicamente para “em breve” a criação de um curso quando ainda não foram cumpridos passos elementares para sua concretização — começando pela discussão colegiada do próprio projeto pedagógico da unidade que deverá abrigá-lo — cria expectativas que a universidade poderá não ser capaz de cumprir nos prazos sugeridos. Quando anúncios antecedem projetos, decisões colegiadas, condições acadêmicas e planejamento institucional, há a criação objetiva do risco de transformar iniciativas potencialmente relevantes em promessas e, pela repetição desse procedimento, comprometer a confiança da própria comunidade universitária e da sociedade na palavra institucional da universidade.
