60,5% dos peixes da espécie Stellifer naso analisados pelos cientistas apresentaram malformações nos otólitos, estruturas localizadas na cabeça
Estudo analisou 38 indivíduos da espécie peixes da espécie Stellifer naso. Foto: Rafael Lima Oliveira / Acervo Pesquisadores
No litoral do Espírito Santo, cientistas verificaram a maior taxa de anomalias já documentadas em peixes costeiros de todo o Brasil, de acordo com a literatura científica disponível. No local, 60,5% dos peixes da espécie Stellifer naso têm deformidades nos otólitos sagitais, estruturas calcificadas localizadas na cabeça, assemelhadas a pequenas “pedrinhas”, que servem para a orientação no espaço e percepção sonora.
Publicado na revista Ocean and Coastal Research, o estudo analisou os otólitos de 38 espécimes que foram coletados na foz do Rio São Mateus, nas proximidades do município capixaba de Conceição da Barra, em maio de 2022. A equipe encontrou anomalias em duas regiões específicas dos otólitos – a porção ventral e a margem caudal do sulco acústico –, sinalizando um padrão específico nas alterações morfológicas.
Os resultados foram comparados aos percentuais relatados em estudos anteriores com outras espécies – para se ter uma ideia, a maior taxa de deformações em otólitos observada até então havia sido de 27,11%, referente ao bagre Cathorops spixii.
A alta incidência de malformações pode estar relacionada à contaminação ambiental severa e prolongada causada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), no ano de 2015. O desastre liberou toneladas de rejeitos de mineração de ferro no Rio Doce, que acabaram se depositando no sedimento oceânico. Peixes como o Stellifer naso, que vivem no fundo do mar em águas rasas, ficam expostos aos poluentes presentes na lama e na areia.
“Comparando com outros trabalhos similares no Brasil e também expandindo para outras regiões, o nosso trabalho teve um resultado bem acima da média em quantidade de peixes com anomalias, o que possivelmente está relacionado às marcas do desastre”, destaca o pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que assina o artigo com Marcelo R. Britto, da mesma instituição, e com Rafael Menezes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Os autores observam que a persistência desse cenário evidencia a lentidão na recuperação do ecossistema costeiro do Espírito Santo. Os peixes utilizados na pesquisa foram coletados quase sete anos após o rompimento da barragem, e ainda assim apresentaram altas taxas de malformações.
A equipe pondera que a ausência de amostras de peixes coletadas na região antes de 2015 impossibilitou uma comparação exata e irrefutável entre os cenários pré e pós-tragédia. Para Andrade, isso mostra a urgência de se financiar coleções biológicas regionais de referência em universidades locais, para que futuros estudos possam avaliar efeitos precisos da contaminação ambiental sobre os organismos.
Agora, os cientistas planejam compreender a fundo a gravidade da contaminação a partir de análises químicas para identificar a composição dos minerais retidos nos otólitos. Eles pretendem expandir o escopo do estudo para observar anomalias externas, como deformações nas nadadeiras dos peixes.
A equipe também buscará atuar em parceria com instituições locais focadas na recuperação do ecossistema e planeja repetir a pesquisa na região daqui a cinco ou dez anos. O objetivo a longo prazo é monitorar a área de forma contínua para avaliar se o ambiente costeiro impactado apresentará algum sinal positivo de recuperação com o passar do tempo. “Mais do que um diagnóstico de contaminação, o estudo reforça a necessidade de diálogo entre a ciência e a sociedade para garantir a segurança do ecossistema e das populações locais”, conclui Jonas Andrade.
Fonte: Agência Bori