Novo acidente da CSN em Congonhas mostra que as mineradoras continuam brincando com a tragédia em Minas Gerais

Vazamento de minério atinge cursos d’água e se soma a uma sequência de incidentes ocorridos em Congonhas em 2026. Depois de Mariana e Brumadinho, a pergunta inevitável é: quantos sinais ainda serão necessários para que o princípio da precaução prevaleça sobre os interesses das mineradoras?

Um novo acidente envolvendo a mineração em Congonhas, Minas Gerais, deveria acender todas as luzes vermelhas dos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e pela segurança das estruturas minerárias. Na quinta-feira, 6 de agosto, ocorreu um vazamento em uma tubulação utilizada pela CSN Mineração para transportar pellet feed na Mina Casa de Pedra. Segundo informações divulgadas após fiscalização, o material extravasado alcançou o córrego Maria José, e a ocorrência foi caracterizada como acidente ambiental. A empresa deverá ser autuada por dano ambiental.

A CSN procurou minimizar o episódio, afirmando que teria ocorrido um vazamento “pontual” e “limitado”, rapidamente interrompido após a identificação do problema. O ponto fundamental, entretanto, não é apenas a quantidade de material que escapou desta vez, mas a recorrência de incidentes em uma região intensamente ocupada pela mineração e na qual estruturas industriais e áreas urbanas convivem perigosamente próximas.

Este já é o quarto incidente envolvendo estruturas de mineradoras registrado em Congonhas somente em 2026. Os três anteriores ocorreram em janeiro, período em que fortes chuvas provocaram diferentes ocorrências envolvendo estruturas da Vale e da própria CSN. Entre elas esteve um episódio na área de Fraile, pertencente à CSN. Naquele momento, a sucessão de problemas já havia levado a Prefeitura de Congonhas a adotar medidas de paralisação temporária de atividades minerárias.

A repetição dos episódios deveria produzir uma pergunta bastante simples: até quando será considerado aceitável manter normalmente atividades minerárias diante de uma sequência tão curta de acidentes, extravasamentos e falhas em estruturas de contenção e transporte?

Não se trata de defender que qualquer ocorrência isolada determine automaticamente o encerramento definitivo de um empreendimento. Trata-se de aplicar seriamente o princípio da precaução. Diante da recorrência dos incidentes, seria perfeitamente razoável perguntar por que determinadas operações não permanecem suspensas até que auditorias técnicas efetivamente independentes demonstrem que as causas dos episódios foram identificadas, que as estruturas estão seguras e que medidas capazes de impedir novas ocorrências foram implementadas.

Em Minas Gerais, essa pergunta possui um peso histórico impossível de ignorar. Em novembro de 2015, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, matou 19 pessoas e lançou rejeitos de mineração ao longo da bacia do Rio Doce. Pouco mais de três anos depois, em janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho matou 270 pessoas. Os dois episódios transformaram Minas Gerais numa espécie de símbolo mundial das consequências que podem resultar da combinação entre mineração intensiva, estruturas de rejeitos de grande porte e falhas nos sistemas de prevenção, fiscalização e responsabilização.

E Congonhas possui um componente que torna qualquer complacência ainda mais preocupante: a Barragem Casa de Pedra, pertencente à CSN Mineração.

Há anos existem preocupações públicas acerca da proximidade dessa estrutura com bairros da cidade. Em 2019, o Ministério Público de Minas Gerais chegou a anunciar ação civil pública contra a CSN diante de incertezas relacionadas à segurança da barragem, destacando justamente que um eventual rompimento poderia atingir a área urbana de Congonhas. Naquele mesmo período, moradores cobravam a paralisação das atividades diante dos riscos percebidos associados à estrutura.

É importante registrar que a CSN afirma atualmente que a Barragem Casa de Pedra é estável, construída pelo método a jusante, atende aos critérios de segurança previstos na legislação e passa periodicamente por auditorias externas independentes. Essa posição da empresa, contudo, não elimina a dimensão do dano potencial associado à localização de uma grande estrutura de rejeitos nas proximidades de áreas habitadas.

É justamente aí que reside a questão central. Segurança de barragens não pode ser avaliada apenas pela probabilidade estatística de rompimento, mas também pela magnitude das consequências caso uma falha efetivamente aconteça. Quando uma estrutura possui potencial para atingir bairros inteiros, a tolerância institucional ao risco deveria ser próxima de zero.

Depois de Mariana e Brumadinho, ninguém em Minas Gerais pode alegar desconhecimento sobre o que uma barragem de rejeitos é capaz de produzir. Em ambos os casos, o desastre mostrou brutalmente que avaliações técnicas, sistemas de monitoramento e mecanismos formais de licenciamento não constituem, por si mesmos, garantia absoluta contra uma catástrofe.

Por isso, o novo acidente envolvendo a CSN não deveria ser tratado simplesmente como mais um “vazamento pontual”. Ele precisa ser interpretado dentro de um quadro mais amplo de recorrência de incidentes minerários em Congonhas e de uma atividade econômica cujo potencial de dano ambiental e humano já foi demonstrado de maneira trágica em Minas Gerais.

O problema fundamental passa então a ser político e institucional: quantos incidentes são necessários para que os órgãos ambientais e de fiscalização considerem que a continuidade normal das operações representa um risco que não pode mais ser administrado apenas por multas, notificações e promessas empresariais de correção?

Multas aplicadas depois dos acidentes não recuperam integralmente cursos d’água contaminados. Tampouco sistemas de emergência conseguem devolver vidas depois de uma ruptura catastrófica. Mariana e Brumadinho deveriam ter ensinado definitivamente que, quando se trata de mineração e grandes estruturas de rejeitos, prevenir custa infinitamente menos — ambiental, social e humanamente — do que reparar.

Congonhas não pode ser transformada no local onde Minas Gerais descobrirá, pela terceira vez, que os sinais estavam presentes antes da tragédia. E quando esses sinais começam a se repetir, a pergunta deixa de ser apenas o que a CSN fará para reparar o vazamento desta semana. A pergunta que precisa ser dirigida ao governo de Minas Gerais, aos órgãos ambientais, à Agência Nacional de Mineração e ao Ministério Público é muito mais incômoda: o que ainda precisa acontecer para que a proteção da população e dos ecossistemas de Congonhas seja colocada acima da continuidade da produção mineral?

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