Algo muito diferente aconteceu em Campos dos Goytacazes no segundo turno da eleição presidencial de 2026. O presidente Lula recebeu 115.927 votos, um acréscimo de 24.822 votos em relação ao primeiro turno. Já Flávio Bolsonaro totalizou 159.470 votos, o que representou uma perda líquida de 1.389 votos. Essa é uma situação efetivamente inusitada, que merece uma análise mais cuidadosa do que aquelas apresentadas por comentaristas que, após o primeiro turno, atribuíram o resultado a um suposto elitismo da esquerda local. A diferença observada entre os dois turnos coloca em xeque essas interpretações rasteiras, e vou tentar oferecer uma explicação que não caia na vala comum das análises mequetrefes.
Em primeiro lugar, não me parece crível que esse resultado seja consequência da atuação dos militantes do PT de Campos. O passado imediato, e aqui me refiro ao primeiro turno, indica que, se dependêssemos exclusivamente da militância petista, o resultado poderia ter sido ainda pior no segundo turno, repetindo a tendência observada quando Lula enfrentou Jair Bolsonaro. Em 2022, Jair Bolsonaro passou de 159.381 votos (58,01%) no primeiro turno para 171.999 votos (63,14%) no segundo, enquanto Lula saiu de 93.870 votos (34,16%) para 100.427 votos. Como explicar, então, a discrepância entre os dois turnos de 2026 e, mais ainda, a diferença em relação ao que aconteceu em 2022? Para mim, um fator decisivo foi a disposição da juventude de arregaçar as mangas por aqui, como também ocorreu no restante do país. Como Campos possui um contingente considerável de estudantes secundaristas e universitários, a entrada desse segmento nas manifestações e no corpo a corpo nas ruas deu uma energia significativa à campanha de Lula. Houve ainda divergências explícitas entre os integrantes da principal corrente política local, ligada ao ex-governador Anthony Garotinho, com uma divisão que se manifestou até mesmo nas escolhas eleitorais de membros de sua família e do secretariado municipal.
Mas há outro elemento que presenciei diretamente em diversos locais: o engajamento de pessoas comuns na campanha, seja por meio de suas próprias redes interpessoais, seja pela participação no agora famoso Exército do Lula, organizado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG). Foi essa militância não partidária que desempenhou um papel decisivo para alcançar pessoas que haviam anulado o voto, votado em branco ou sequer comparecido às urnas no primeiro turno. Na minha avaliação, foi justamente essa militância invisível, formada por pessoas comuns, que contribuiu para a situação insólita de termos Campos dos Goytacazes entre os municípios em que Flávio Bolsonaro perdeu votos de um turno para outro. Mais do que uma simples mudança nos números eleitorais, esse movimento sugere a existência de uma capacidade de mobilização popular que não passa necessariamente pelas estruturas partidárias tradicionais e que, por isso mesmo, tende a escapar das análises convencionais sobre o comportamento do eleitorado campista.
Se a minha tese estiver correta, abre-se uma grande janela de oportunidades para quem estiver disposto a romper o ciclo de hegemonia histórica dos partidos de direita sobre a política municipal. Isso porque, ao contrário do que parece ou do que se tenta fazer crer, existe uma consciência clara de que as políticas sociais que aliviam as dificuldades enfrentadas por milhares de cidadãos pobres precisam ser preservadas e de que os direitos dos trabalhadores devem ser garantidos. Digo isso também com base em conversas que tive com pessoas que me reconheciam no supermercado ou na padaria, ocasiões em que pude perceber que a população não está tão desconectada da realidade quanto muitos querem fazer parecer. O problema talvez esteja menos na ausência de consciência sobre os próprios interesses e mais na falta de canais permanentes de organização política capazes de transformar essa percepção em ação coletiva.
A pergunta de um milhão de reais, agora, é quem estará disposto a estudar esses resultados para identificar as áreas do município com maior potencial de mudança e nelas estabelecer as bases de uma perspectiva de organização política da população. Como o período que temos pela frente tem mais cara de tempestade do que de dia ensolarado, existe uma oportunidade concreta de transformar em organização política a energia que emergiu no segundo turno. Resta saber quem estará disposto a realizar o trabalho duro de elevar a consciência política e dar continuidade a uma mobilização que demonstrou ser capaz de produzir resultados inesperados nas urnas.
