Vacinação suspensa por falta de doses sinaliza 3a. onda ainda mais mortal da COVID-19 no Brasil

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Como os leitores deste blog já foram informados, fui vacinado contra a COVID-19 na última 6a .feira (30/04) com uma vacina produzida pela Astrazeneca/Oxford. Após dois dias sentindo uma leve e ininterrupta dor de cabeça e dores musculares, amanheci neste domingo sem qualquer sintoma colateral.  Como ouvi narrativas de efeitos bem mais fortes do que os que tive, posso me sentir duplamente felizardo.  É que além de ter adentrado a ínfima parcela de brasileiros já vacinados contra a COVID-19, tive efeitos colaterais leves.

Mas o duro mesmo é verificar na página oficial da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes que por “falta de envio de novas doses pelo Ministério da Saúde, tivemos que suspender momentaneamente o calendário de vacinação de 1ª dose dos grupos prioritários“.  Em outras palavras, algo que já vinha ocorrendo de forma lenta pela ação negligente do governo federal, agora está temporariamente suspenso. Com isso, as possibilidades de que teremos uma terceira onda ainda mais forte de contaminações da COVID-19 em Campos dos Goytacazes, como de resto no Brasil, cresce assustadoramente (ver informe completo abaixo). 

vacinação suspensa

Não custa lembrar que o número de mortos no Brasil já ultrapassou a estratosférica quantidade de 408 mil mortos, sendo que só em Campos dos Goytacazes perdemos até o  dia em que fui vacinado 1.127 campistas, o que representa um verdadeiro desastre social, que enluta um número impressionante de famílias.

E aqui não cabe nada mais do que um forte repúdio à ação do governo Bolsonaro que tem sistematicamente sabotado as medidas de isolamento social e uso de medidas preventivas, além de ter agido para postergar a compra de vacinas, como ficou demonstrado na ação displicente em relação à oferta da vacina da Pfizer, que já se encontra aprovada pela Anvisa. Isto se falar da ação, no mínimo, peculiar que atrasando a liberação da vacina russa Sputnik V

Ainda que não seja nenhum consolo para as famílias enlutadas, a história registrará esse capítulo horrendo como algo que foi causado pela existência de um governo anti-pobre que é sustentado pelo ódio de classe e pela extrema desvalorização da vida humana.

Governos são cúmplices dos agrotóxicos e suas violações de direitos

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Nocivo para a saúde e o ambiente, os agrotóxicos são praticamente isentos de impostos

Por Redação RBA

São Paulo – Governos de países da América Latina são coniventes com a expansão do uso de agrotóxicos e com violações ao direito humano à alimentação e nutrição adequadas. Esta é a principal conclusão do informe regional 2020 Agrotóxicos na América Latina: violações contra o direito à alimentação e à nutrição adequadas, lançado esta semana pela FIAN Brasil. Essa conivência se deve, basicamente, “à fidelidade ao modelo agroalimentar, econômico e político destrutivo, de pilhagem, e à sua suspeita cumplicidade com os interesses corporativos e comerciais que estão por trás da promoção desses tóxicos”, diz trecho do documento.

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Uma fidelidade, aliás, que envolve benefícios e estímulos aos fabricantes de insumos agrícolas venenosos. É o que acontece no Brasil, que sob o governo de Jair Bolsonaro já liberou 1.172 agrotóxicosem 845 dias de mandato. Em média 1,39 agrotóxico liberado por dia.

Fabricantes de agrotóxicos

Além disso, historicamente os governos brasileiros dão subsídios tributários ao setor. Enquanto a população tem uma pesada carga tributária, pagando impostos diretos e indiretos, essas empresas têm redução de 60% da alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) – redução esta que pode chegar à isenção total. Além disso, os agrotóxicos têm isenção completa do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e de contribuições como o PIS/Pasep.

“As mudanças nos regulamentos e na arquitetura institucional de nossos Estados, que foram adotadas para favorecer o aumento da demanda e o uso de agrotóxicos, são contrárias aos princípios dos direitos humanos. A falta de vontade política para reverter essas mudanças aumenta as violações de direitos e faz crescer o poder de influência e captura corporativa das empresas multinacionais e de outros atores políticos e econômicos que lucram com os agrotóxicos”, diz outro trecho do documento.

Engrenagem do agronegócio

Os agrotóxicos são engrenagens na máquina do agronegócio baseado no monocultivo em latifúndios que plantam basicamente soja, milho e algodão. Além de que essas substâncias contaminam os solos e as águas, causando intoxicações e doenças graves e letais, o latifúndio está associado à violência no campo.

É a disputa por terras que faz vítimas entre assentados, pequenos proprietários, povos indígenas e outras populações tradicionais. E que também avança sobre florestas, colocando em risco a manutenção da biodiversidade. E tudo isso sem produzir comida de verdade para a população.

A notícia boa, segundo o informe, é que no continente crescem as ações de resistência contra os agrotóxicos e o modelo que os sustenta. Uma luta que precisa de outros atores e de mais visibilidade. Até porque, reforça o texto, os danos e impactos decorrentes do uso de agrotóxicos não se limitam à nossa espécie, à nossa geração e nosso território.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Por que apoiar a “Ocupa Novo Horizonte”?

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Famílias mobilizadas contra o despejo no conjunto Novo Horizonte. Foto: Juliana Rocha e Daniela Abreu

Por Bruna Machel*

Estamos acompanhando nas últimas semanas a ação judicial da Realiza Construtora contra centenas de famílias sem-teto em Campos dos Goytacazes.  A ação se deu em função da ocupação realizada no dia 13 de Abril, quando mais de 200 famílias adentraram o conjunto habitacional Novo Horizonte (Pq Aeroporto), oriundo do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). Segundo noticiado, essas casas estariam finalizadas desde 2016 sem cumprir sua função social.

Na ocasião da ocupação, tão logo tomaram ciência, advogados populares acionaram a Defensoria Pública Estadual, enquanto movimentos sociais passaram a prestar apoio à ocupação. Nosso objetivo sempre foi impedir qualquer tipo de violação aos direitos humanos durante o cumprimento da liminar de reintegração de posse, como também defender, por princípio, o direito à moradia para todas as famílias que de fato precisam.

A partir da nossa presença na ocupação podemos estimar que são aproximadamente mil pessoas vivendo todos esses dias com falta de água e energia elétrica, e acesso muito restrito a alimentação, viabilizada graças à cozinha comunitária que funciona com a solidariedade de apoiadores.

É importante dizer que não se trata de pessoas que escolheram viver uma “aventura inglória” em meio a pandemia e sob forte risco de violência policial. Ao contrário, encontraram na luta um lugar político de esperança frente ao contexto de tragédia social a que estão submetidos.

Porém, nesta sociedade orientada pela cultura capitalista, o debate sobre a ocupação logo ganharia um tom moralista com reiteradas tentativas de deslegitimação. Acusações de “oportunismo” e “baderna” passaram a circular nas redes sociais.

Não demoraria muito para que algumas das famílias contempladas pelo programa MCMV se somassem às vozes divergentes, realizando alguns pequenos protestos – embora muitas outras tenham se incorporado à ocupação.

Diante da polêmica sobre a questão da legitimidade, nos cabe uma reflexão atenta.  Notem, as famílias da “Ocupa Novo Horizonte” não possuem situação social diferente das que foram sorteadas pelo MCMV, todas da faixa 1 com renda familiar total de até 1.800,00 (menos de 1 salário mínimo e meio). Constitui, nesse sentido, certa unidade social de trabalhadores pobres periféricos, formada por uma maioria populacional negra. Todas em situação que se enquadram pela Assistência Social como condição de pobreza.

O que as divide objetivamente? A questão da segurança jurídica.

Um povo dividido pela incompetência do Estado Capitalista

A quem restou um pouco de bom-senso nesses tempos de obscurantismo, convido a refletir sobre o papel do Estado (burguês) aqui. Há um sorteio que define quem terá e quem não terá assegurado o direito à moradia, garantida nos marcos da Constituição Federal de 1988. Pois bem. Então, na ausência de um projeto público universal de moradia, coloca-se em seu lugar a força do “acaso”, onde quem não é contemplado pela SORTE é excluído da possibilidade de morar dignamente, ainda que esteja comprovadamente em situação de vulnerabilidade social. Depois, como se não fosse humilhante o bastante, este sujeito social é apontado como marginal, pois, afinal, por que haveria de organizar uma ocupação e não aceitar a sarjeta? Sim, é o que chamamos de criminalização da pobreza.

A dimensão do problema é gravíssima e afeta pelo menos 7,78 milhões de famílias brasileiras. Uma massa de pessoas que vivem amontoadas em casas de parentes ou pagam aluguel abrindo mão de pelo menos uma alimentação por dia, ou, quando no extremo da dificuldade, param em abrigos para pessoas em situação de rua. São relatos que podemos ouvir nas ruas da Ocupa Nova Horizonte ou em qualquer periferia deste Brasil.

Por isso afirmamos que as ocupações urbanas, sejam elas espontâneas ou organizadas por movimentos de luta por moradia, são fundamentais para viabilizar uma saída emergencial às situações extremas, além de denunciar a incompetência do Estado e todo o modelo capitalista de sociedade. Em via de regra, por serem ações radicalizadas de classe, são tratadas como inconvenientes a serem resolvidos pela violência policial. Há poucos dias, por exemplo, 38 famílias foram acordadas com tratores derrubando suas casas no Distrito Federal. A ação extremamente truculenta colocou abaixo até mesmo uma escola comunitária que atendia às crianças. E assim acontece sem qualquer constrangimento em todo o território nacional.

Logo, o Estado diante da Ocupa Novo Horizonte tende a operar a proteção jurídico-policial a favor da propriedade privada, criminalizando, por sua vez, a pobreza. Em poucos dias está previsto o despejo em Campos e estaremos ao lado dessas famílias.

Em resumo, podemos concluir que assinam juntos a “certidão de barbárie”, todos os entes federativos da União que estão mais ou menos enfiados nessa tragédia. Desde a omissão política da Prefeitura Municipal de Campos quando não oferece aproximação, acolhimento e projeto que atenda a demanda concreta dessa multidão de sem-tetos; Tanto do Governo Estadual que nada faz de efetivo pelo povo do Rio de Janeiro; Até o Governo Federal que vem desmontando o programa MCMV, suspendendo a construção de novas casas populares destinadas a pessoas pobres – Faixa 1; E todas as outras instâncias públicas que atuam para fortalecer as desigualdades sociais, perpassando evidentemente pelo papel estratégico do Judiciário.

Já aos bons deputados, juízes e gestores públicos que possuem alguma dimensão de comprometimento com a classe trabalhadora pobre deste município, haverá espaço para se somar a disputa institucional a favor do direito à moradia digna. A hora é agora de comprovar quem é quem no tabuleiro político deste Estado. Daqui da base seguiremos firmes na luta.

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Bruna Machel – Designer, assessora de comunicação sindical e presidente da associação Resista Campos. 

Estudo mostra que por causa do avanço da degradação florestal, a Amazônia passou de sumidouro a fonte de CO2 atmosférico

amazonia-degradacaoO processo de degradação florestal por extração de madeira, garimpos e incêndios transformaram a Amazônia em uma fonte significativa de carbono atmosférico

No dia 11 de setembro de 2020, a revista Science publicou o artigo “Long-term forest degradation surpasses deforestation in the Brazilian Amazon” produzido por um grupo de pesquisadores liderados pelo professor Eraldo Matricardi do Departamento de Engenharia Florestal da UNB, da qual fui dos co-autores.  Nesse trabalho, mostramos que o processo de degradação do bioma amazônico por atividades de extração de madeira e fogo havia ultrapassado a área desmatada.

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A fumaça sobe de um incêndio ilegalmente aceso na reserva da floresta amazônica, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty Images

No artigo citado, adiantamos que outros pesquisadores poderiam utilizar nosso estudo para produzir estimativas sobre, por exemplo, os efeitos do avanço da degradação sobre o estoque de carbono nas florestas amazônicas.  Eis que na última 5a. feira (29/04), a revista “Nature and Climate Change” publicou um artigo intitulado “Carbon loss from forest degradation exceeds that from deforestation in the Brazilian Amazon” que parte exatamente da ideia de que a degradação florestal é um importante agente não apenas de mudança da paisagem, mas também um fator central nas alterações que estão ocorrendo nos estoques de carbono, o que altera significativamente não apenas o ciclo do carbono, mas também o clima e as taxas de biodiversidade.

O grupo liderado pelos pesquisadores Xiangming Xiao (da Universidade Estadual de Oklahoma nos EUA) e Jean-Pierre Wigneron (do INRA Nouvelle-Aquitaine da França) constatou que “a perda de área bruta de floresta foi maior em 2019 do que em 2015, possivelmente devido ao recente afrouxamento das políticas de proteção florestal‘, mas que, no entanto, “a perda líquida de  biomassa acima do solo (AGB) foi três vezes menor em 2019 do que em 2010“.  Além disso, eles também observaram que “durante o período entre 2010–2019, a Amazônia brasileira teve uma perda bruta cumulativa de 4,45 PgC contra um ganho bruto de 3,78 PgC, resultando em uma perda líquida de AGB de  0,67 PgC“. Assim, sendo “a degradação florestal (73%) contribuiu três vezes mais para a perda bruta de AGB do que o desmatamento (27%), dado que a extensão da área de degradação excede a do desmatamento (refletindo o que havíamos indicado no artigo publicado pela revista Science)”.

A consequência dessas descobertas é que o processo de degradação florestal “se tornou o maior responsável pela perda de carbono na Amazônia”, enterrando de vez a ideia de que os problemas causados pela mudança da cobertura florestal estão circunscritos ao desmatamento e, mais importante ainda, que não haverá um controle efetiva da transformação da Amazônia em fonte, em vez de sumidouro, de carbono atmosférico sem políticas públicas que contenham o acesso descontrolado a áreas que ainda estão relativamente fora da ação de grupos que agem ilegalmente para extrair madeira e riquezas minerais (como o caso dos garimpos ilegais de ouro). 

Finalmente, a confirmação de que a degradação florestal da Amazônia é hoje o elemento central para se formular políticas que a mantenham como um importante fator de controle das mudanças climáticas deverá colocar desafios particularmente incumpríveis durante a vigência do governo de Jair Bolsonaro e por causa das ações objetivas de seus ministros anti-ambiente Tereza Cristina e Ricardo Salles. 

 

Levantamento inédito indica que planos nacionais fracos ameaçam naufragar Green Deal europeu

Levantamento inédito indica que planos nacionais fracos ameaçam naufragar Green Deal europeu

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Hoje (30/4) é o prazo oficial para os Estados-membros da União Europeia (UE) apresentarem seus Planos de Recuperação e Resiliência (PRR), a fim de acessar fundos do Mecanismo de Recuperação e Resiliência no valor de 672,5 bilhões de euros. Em 2020, os países concordaram que esses planos nacionais devem impulsionar a implementação do Acordo Verde Europeu, e por isso deveriam comprometer ao menos 37% dos gastos para apoiar objetivos climáticos, com o restante condicionado a “não causar danos significativos” ao ambiente.

Um estudo divulgado hoje indica que a participação de “gastos verdes” na recuperação europeia é bastante inferior – 24% em média.

Green Recovery Tracker é um projeto conjunto do Instituto Wuppertal, E3G e especialistas nacionais e analisou até o momento 14 planos, incluindo Alemanha, Bélgica, Bulgária, Espanha, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, França, Finlândia, Letônia, Polônia, Portugal, República Tcheca e Romênia.

Segundo a análise, com apenas 24% dos recursos dedicados a medidas climáticas, somente 68 bilhões de euros (de 422 bilhões de euros) estão indo para atividades que apoiam totalmente a transição verde. O projeto indica que os planos finlandeses (42%), espanhóis (31%) e eslovacos (30%) estão entre os que têm melhor desempenho em relação à parcela de gastos verdes. Portugal (19%), Polônia (18%) e Eslovênia (5%) têm a pior performance.

“Cada euro gasto em atividades contrárias à transição verde, como investimentos em gás fóssil, mina politicamente o Green Deal europeu e é uma aposta contra o seu sucesso”, afirma Felix Heilmann, pesquisador da E3G.

De acordo com o estudo, embora os Estados-membros tenham aproveitado a oportunidade para introduzir investimentos em eficiência energética, energias renováveis e soluções de transporte limpas, as medidas raramente vão além de melhorias incrementais. Também de acordo com a análise, esforços da sociedade civil contribuíram para excluir algumas das ações mais prejudiciais, mas ainda há riscos de que projetos que parecem verdes à primeira vista possam acabar apoiando os combustíveis fósseis. Entre os exemplos está a destinação de 3,2 bilhões de euros para aumentar a eficiência energética na Polônia, que pode eventualmente se reverter em investimentos em gás.

O documento indica que boa parte dos recursos está sendo usada para financiar programas que já existiam, como é o caso da Alemanha, que usará 80% do orçamento do PRR para refinanciar medidas previamente acordadas. Apenas alguns países concentraram seu planejamento em estratégias de longo prazo, como é o caso da Espanha, que utilizou fundos de recuperação para implementar metas de transição energética mais ambiciosas.

“Nossa análise mostra que a maioria dos governos europeus alocou fundos da próxima geração da Europa sem colocar firmemente a próxima geração no centro de seus planos”, lamenta Johanna Lehne, Conselheira Sênior de Políticas do E3G. “Os planos propostos ficam aquém do potencial de transformação”.

Os próximos dois meses apresentam um importante teste de credibilidade para a Comissão dos Planos de Recuperação. Para que a Comissão se torne uma instituição da UE com maiores prerrogativas fiscais no futuro, ela precisa de uma implantação bem-sucedida do Mecanismo de Recuperação e Resiliência.

Municípios têm até 30 de abril para reportar os dados sobre gestão de resíduos sólidos

Alerta é da Abetre (Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes). Prefeituras que descumprirem prazos não receberão verbas do Lixão Zero

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Os gestores municipais e estaduais de todo o País devem preencher as informações relativas à gestão de resíduos sólidos do ano de 2020 até o dia 30 de abril próximo. Os dados devem ser inseridos no site do Sinir (Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão de Resíduos Sólidos): http://sinir.gov.br/. Luiz Gonzaga Alves Pereira, presidente da Abetre, salienta que, além de atender à lei e não perder recursos financeiros, é importante que as cidades atendam ao prazo e aos requisitos do sistema porque isso contribui para a gestão do lixo e a melhoria do meio ambiente urbano.

O preenchimento das informações atualizadas é uma obrigatoriedade determinada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010). Os municípios que descumprirem ficarão em desconformidade com a legislação e não poderão receber recursos do programa Lixão Zero em 2021. Os Estados e municípios devem fornecer ao órgão responsável todas as informações necessárias sobre os resíduos.

O Programa Nacional Lixão Zero promove melhorias na gestão de resíduos em todo o Brasil, por meio de repasses de recursos, acordos setoriais, termos de compromisso e decretos para logística reversa, avanços regulatórios, educação ambiental, treinamento e capacitação. Na área de tecnologia e inovação, essa iniciativa concretizou o Sinir, que estava previsto há dez anos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, mas jamais havia saído do papel.

“Objetivo é ajudar os gestores públicos a melhorar a coleta, reciclagem e destinação final do lixo”, enfatiza Luiz Gonzaga. Ele lembra que a Abetre colaborou com o Ministério do Meio Ambiente para a efetivação do Sinir, assim como a criação do Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), que representaram avanço significativo nessa área.

Desmatamento causado por carne e soja dobrou no Brasil em um ano, diz Mighty Earth

ONG internacional inicia uma campanha para que as redes de supermercados da Europa cortem vínculos com empresas envolvidas na destruição da Amazônia e do Cerrado

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Um monitoramento feito pela ONG Mighty Earth e divulgado nesta sexta-feira (30/04) mostra que o desmatamento atrelado à cadeia de fornecimento das principais empresas de soja e carne bovina do Brasil dobrou entre abril de 2020 e março de 2021 (260 mil hectares) ante o período anterior, entre março de 2019 e abril de 2020 (128 mil hectares).

Ao mesmo tempo, a esmagadora maioria dos consumidores de Alemanha, França, Holanda e Reino Unido acha que os supermercados não devem fazer negócios com as empresas que estão impulsionando a destruição das florestas no Brasil, revela uma nova pesquisa do Instituto YouGov realizada a pedido da ONG Mighty Earth e também divulgada hoje.

A Mighty Earth está usando essas duas informações em uma nova campanha que pede expressamente que as redes varejistas da europa parem de fazer negócios com empresas ligadas ao desmatamento no Brasil. Todos os anos, entre junho e setembro, os maiores comerciantes mundiais de soja unem forças com os maiores produtores de soja do Brasil para negociar contratos de compra para o próximo ano. A campanha tem o objetivo claro de influenciar as negociações sobre requisitos contratuais, como cláusulas que impedem a compra de soja cultivada em terras desmatadas após o prazo de 2020.

O monitoramento da Mighty Earth começou em março de 2019 e mostra que os dois maiores importadores europeus de soja, Bunge e Cargill, são os comerciantes com pior desempenho ambiental. A Cargill está ligada a mais de 66 mil hectares de desmatamento, uma área seis vezes maior do que a de Paris, enquanto a Bunge está ligada a quase 60 mil hectares de desmatamento.

Apesar desta espiral de desmatamento, houve apenas um caso em que uma das empresas citadas cortou laços com um fornecedor envolvido no desmatado, dos 235 casos registrados e reportados pelo Mighty Earth em seu monitoramento.

“A destruição das florestas no Brasil, impulsionada pela carne de supermercado, está piorando a cada ano. Isto está acelerando a mudança climática e dizimando a pátria da onça-pintada”, diz Martin Caldwell, Diretor da Mighty Earth na Alemanha.

Mercados: Alemanha e França

A pesquisa do Instituto YouGov entre os consumidores alemães indicou que 87% quer que os supermercados parem de fazer negócios com fornecedores que impulsionam o desmatamento no Brasil. Esse percentual é maior (89%) entre os clientes da EDEKA, o maior grupo de supermercados da Alemanha, com 24% de participação no mercado e mais de 4300 lojas. A empresa promove fortemente suas credenciais de sustentabilidade e estreou recentemente uma campanha publicitária sobre o tema na TV e nas redes sociais.

“Já é hora de a EDEKA ouvir seus clientes e abandonar as empresas de pior desempenho que estão provocando a destruição das florestas brasileiras – JBS, Cargill e Bunge”, afirma Caldwell. “A hora de impulsionar a mudança no Brasil é agora.”

Na França, o resultado é semelhante: 89% dos clientes do Carrefour no país querem que a rede deixe de comprar produtos com origem no desmatamento praticado no Brasil. No ano passado, o Carrefour liderou uma campanha voluntária neste setor que resultou em todos os grandes supermercados franceses se comprometendo a utilizar somente soja sem desmatamento em suas cadeias de abastecimento. Após seis meses, o Carrefour não fez nenhum progresso significativo na redução de suas ligações com os comerciantes de soja de pior desempenho Cargill e Bunge, e está falhando em conduzir mudanças reais no terreno, afirma a Mighty Earth.

Já a EDEKA assumiu fortes compromissos para remover o desmatamento em todas as suas cadeias de abastecimento, mas em seu relatório de 2019 , a empresa alemã admite que houve pouco progresso para melhorar a sustentabilidade de suas cadeias de abastecimento de carne e soja. Apesar disso, a varejista alemã, ainda não excluiu os comerciantes de soja de pior desempenho, que são a Cargill e a Bunge.

“Os consumidores estão preocupados, pois não suportam mais o gosto residual do desmatamento e a extinção de espécies ameaçadas que a carne comprada nas lojas do grupo Carrefour deixa”, afirma Fatah Sadaoui, Campaigner da ONG SumOfUs. “Em resumo, o que esperamos do Carrefour é menos conversa e mais ação.”

Vacinado contra a COVID-19: momento feliz e triste. E a luta continua!

Hoje fui finalmente vacinado contra o Sars-Cov-2 nas dependências da Fundação Municipal de Esportes (FME), e dei meu passo pessoal para ser imunizado e deixar de ficar propenso aos sintomas mais graves da COVID-19. Como definiu a cantora Anitta, esse é um momento  feliz porque com a vacina, Astrazeneca por sinal, eu me coloco para mais longe dos efeitos mortíferos do novo coronavírus, mas é triste porque minha condição de vacinado está ainda dentro de uma ínfima minoria não apenas no Brasil, mas em todo o planeta.  Neste momento, por exemplo, o vírus faz sua corrida mortal em alta velocidade na Índia, com centenas de milhares de novos casos de contaminação todos os dias.

Por isso, ser vacinado para mim não é um momento de baixar a guarda, mas de me manter como alguém que procura disseminar informação de qualidade sobre a epidemia com base no conhecimento científico existente, suas causas, responsáveis pelo seu descontrole, e da necessidade de que cobremos que a cobertura vacinal seja a mais ampla possível no Brasil.  Mas não só isso, precisaremos nos manter ativos politicamente para que os crimes cometidos contra o povo brasileiro, especialmente os segmentos mais pobres e socialmente marginalizados, não fiquem impunes.

Por ora, o meu agradecimento aos profissionais da saúde de Campos dos Goytacazes e ao pessoal que atua no suporte em todas as unidades de vacinação, mas especialmente para os que me atenderam na FME onde tive um tratamento exemplar desde que me coloquei na fila. Ao contrário do que se diz, os servidores públicos brasileiros são essenciais para que se construa uma sociedade verdadeiramente democrática e livre das chagas criadas pela profunda desigualdade social que existe em nosso país.

Estudo da Fiocruz mostra que queimadas na Amazônia aumentam problemas respiratórios

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● Em 10 anos, o Brasil gastou quase 1 bilhão de reais com doenças respiratórias causadas pela fumaça das queimadas na região.
● A associação da pandemia com as queimadas pode ter agravado a situação de saúde da população da Amazônia legal.
Estudo da Fiocruz e do WWF-Brasil aponta que as queimadas na Amazônia foram responsáveis pela elevação dos percentuais de internações hospitalares por problemas respiratórios nos últimos 10 anos (2010-2020) nos estados com maiores números de focos de calor: Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre. Estas internações custaram quase 1 bilhão aos cofres públicos. O levantamento aponta ainda que a associação da situação da pandemia com as queimadas florestais na Amazônia pode ter agravado a situação de saúde da população da Amazônia legal, pois os poluentes oriundos das queimadas podem causar uma resposta inflamatória persistente e, assim, aumentar o risco de infecção por vírus que atingem o trato respiratório.1
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O estudo mostra que mesmo com a possível subnotificação, por conta de inconsistências na base de dados do DataSUS, os valores diários de poluentes são extremamente elevados e contribuíram paraaumentar em até duas vezes o risco de hospitalização por doenças respiratórias atribuíveis à concentração de partículas respiráveis e  inaláveis finas (fumaça) nos estados analisados.
 
No Amazonas, 87% das internações hospitalares no período analisado estão relacionadas às altas concentrações de fumaça (partículas respiráveis e inaláveis). O percentual foi de 68% no Pará, de 70% em Mato Grosso e de 70% em Rondônia.  Já as doenças respiratórias associadas às altas concentrações de partículas de poluentes emitidas pelas queimadas respondem por 70% das internações hospitalares registradas no Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.
 
A pesquisadora Sandra Hacon, da Ensp/Fiocruz, afirma que embora os percentuais de internação hospitalar por doenças respiratórias na região tenham se mantido estáveis entre 2010 e 2020, uma parte considerável dessas internações podem ser atribuídas às concentrações de partículas respiráveis finas e inaláveis emitidas por incêndios florestais. “As micropartículas que compõem a fumaça ficam depositadas nas cavidades dos pulmões, agravando os problemas respiratórios. Elas são um fator de risco para pessoas que já possuem comorbidades. Vemos, portanto, um impacto à saúde e perda da qualidade de bem-estar das pessoas, além do elevado custo econômico das doenças respiratórias para o SUS”, explica. “A fragilização do sistema respiratório é extremamente preocupante no atual cenário de uma pandemia que também causa problemas respiratórios.  Essa sobreposição sugere que a região da Amazônia legal tenderá a ter seu sistema de saúde pressionado, já que as queimadas são mais intensas nos meses de seca, que se iniciam dentro de poucas semanas”, alerta.
 
Importante salientar que no ano de 2020 o Brasil alcançou o maior número de queimadas na década. Segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a floresta amazônica registrou 103.161 focos ante 89.171 em 2019, um aumento de 15,7%. Essa tendência contínua de destruição impacta diretamente não só na saúde das pessoas, mas em todo o ecossistema, que sofre todos os anos durante o ciclo das queimadas intensificado no período de seca, ressalta Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil. Ele  aponta que “as queimadas fazem parte da dinâmica de destruição da Amazônia. As áreas desmatadas são posteriormente queimadas para “limpar” o terreno, abrindo espaço para a pastagem, a agricultura, ou a simples especulação fundiária. A associação entre o desmatamento, queimadas e degradação da floresta traz um custo muito alto para todos nós, especialmente para os povos da floresta, e para o clima do planeta”, afirma.
 

O Estudo traz algumas recomendações para o poder público

– Os sistemas oficiais de vigilância e monitoramento em saúde precisam de evolução e melhorias sistemáticas, especialmente aqueles direcionados às populações indígenas da Amazônia;
 
– Políticas consistentes de redução do desmatamento e queimadas na Amazônia são críticas e imediatas, pois o combate ao desmatamento e à degradação do bioma amazônico é fundamental para a garantia de direitos básicos das populações locais, como acesso à saúde e um ambiente saudável e sustentável;
 
– Desenvolvimento e implementação de programas de vigilância epidemiológica e ambiental efetivos, direcionados à população amazônica exposta aos incêndios florestais, principalmente os grupos mais vulneráveis, como gestantes, crianças, idosos, e aquelas pessoas que apresentam comorbidades precisam de atenção dedicada;
 
– Necessidade iminente de esforço preventivo no controle de zoonoses, pois os custos associados aos esforços preventivos são substancialmente menores, comparados com os custos econômicos, sociais e de saúde no controle de potenciais epidemias e ou pandemias.
 

Metodologia do estudo

Foi analisada a relação das tendências da morbidade hospitalar (a taxa de internações registradas em hospitais) por doenças do aparelho respiratório no período de 2010 a 2020 e as concentrações estimadas de emissões de partículas respiráveis finas (PM2,5), presentes na fumaça de incêndios florestais no mesmo período, investigando os potenciais impactos à saúde nos estados com os maiores registros de focos de calor provenientes das queimadas na Amazônia Brasileira, segundo o INPE – Pará, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Acre, que apresentaram  maior número de focos de queimadas registrados no período analisado – 2010-2020.
 
O estudo observou as séries temporais diárias de morbidade hospitalar por doenças do aparelho respiratório obtidas no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), pelo Sistema de Informação sobre internação hospitalar (SIH) e analisados por dia, mês e ano no período de 1º de janeiro de 2010 a 31 de outubro de 2020, segundo a unidade de federação de residência. As internações hospitalares por doenças respiratórias relacionadas ao COVID-19 para cálculo da tendência retrospectiva foram excluídas. Portanto, as internações hospitalares derivadas do COVID-19, não entraram no conjunto das causas de hospitalizações.
Os pesquisadores selecionaram informações referentes ao valor em reais (R$) gasto com as hospitalizações de baixa e alta complexidade (Unidades de Terapia Intensiva – UTI) por doenças do aparelho respiratório para estimativa do custo econômico em saúde dessas hospitalizações que pudesse ser atribuível à poluição decorrente das queimadas.
As estimativas de concentração do material particulado (PM2,5) foram obtidas por meio de dados de satélite da NASA, com as informações de profundidade óptica de aerossóis (Aerosol Optical Depth – AOD) convertidas por modelagem matemática em estimativas de concentração de PM2,5 e disponibilizadas para acesso público pelo Copernicus Atmosphere Monitoring Service (CAMS), que é o mais recente conjunto de dados de reanálise global de composição atmosférica produzida pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF).

[1]  Travaglio, M., Yu, Y., Popovic, R., Selley, L., Leal, N. S., & Martins, L. M. (2021). Links between air pollution and COVID-19 in England. Environmental Pollution, 268, 115859.
 

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Este texto foi originalmente publicado pela WWF Brasil [Aqui!].

Qualis CAPES “quântico” abriga revistas científicas potencialmente predatórias e deixa cientistas brasileiros à mercê dos tubarões

Businessman chased by shark

A classificação de revistas científicas se tornou uma das formas mais práticas para pesquisadores escolherem o potencial destino do resultado de suas pesquisas.  Com o crescimento exponencial do número de revistas que se colocam no mercado editorial, a tarefa de classificar se tornou um grande desafio, pois é preciso orientar de forma confiável o resultado de grandes investimentos com o dinheiro público. No Brasil, o instrumento de classificação mais conhecido é o chamado “Qualis Capes“. A prática é que todo pesquisador que tem em mãos um trabalho potencialmente publicável se dirige ao sítio que abriga o “Qualis” para verificar a “nota” que uma dada revista alcançou. 

Mas aí é que começam os problemas de quem quer fazer a escolha correta, pois o Qualis continua adotando um tipo de classificação que pode dar notas completas díspares para uma mesma revista, dependendo do comitê setorial que a avalia, criando o que o jornalista Mauricio Tuffani, do Direto da Ciência, já classificou como sendo um “sistema quântico de notas“.  Com isso, todo pesquisador que sinceramente deseja publicar em uma revista qualificada acaba sem saber qual é efetivamente o nível de qualidade de uma dada publicação.  Para piorar a situação, a difusão das chamadas “revistas de acesso aberto” colocou no mercado editorial científico milhares de publicações que hoje aposentado bibliotecário da Universidade do Colorado-Denver, Jeffrey Beall, denominou de “revistas predatórias“, tendo impulsionado uma lista que se tornou célebre entre os pesquisadores e fortemente perseguida pelos donos das editoras que eram identificadas como predatórias (ou como eu chamo produtoras de “trash science“.

A situação é tão grave que desde o nascimento deste blog venho abordando a situação criada pelas revistas predatórias na disseminação de ciência de baixíssima qualidade ou mesmo de pseudo ciência sobre a qualidade das publicações científicas, além das inúmeras distorções que isso causa nos sistemas de premiação e concessão de recursos públicos para a ciência, inclusive no Brasil. 

Entretanto, confesso que tinha deixado um pouco de lado a questão das revistas predatórias pela premência de outros assuntos, incluindo principalmente as consequências do retrocesso ambiental imposto pelo governo Bolsonaro. Mas hoje um colega me fez uma provocação sobre a presença de uma possível revista predatória no Qualis Capes que havia lhe enviado um e-mail “convite” para que enviasse um artigo para ser publicado, no caso a “International Journal of Advanced Engineering Research and Science (IJAERS Journal)”. A peculiaridade da IJAERS é que o e-mail enviado por seus diretores citava explicitamente ter a nota A2 (o segundo mais alto) no Qualis (ver imagem abaixo).

IJAERS 0

Curioso para ver a a IJAERS estava realmente indexada no Qualis Capes, e não ser apenas um caso de propaganda enganosa, acessei a plataforma e inseri o título da revista para verificar se a mesma estava listada, obtendo o resultado mostrado abaixo.

IJAERS 1

Como pode se ver o IJAERs possui uma dispersão razoável no Qualis,  com C em Astronomia/Física e Engenharias IV, B4 em Engenharias III, B3 em Ciências Ambientais, e atinge o pico na área Interdisciplinar com um A2 (confirmando parcialmente o conteúdo do e-mail convite do editor da revista).

Após verificar se a IJAERs estava mesmo indexada no Qualis Capes e tendo confirmado a sua classificação “quântica”, acessei a Lista de Beall para verificar se esta revista foi incluída como predatória por Jeffrey Beall. Para nenhuma surpresa minha, a IJAERS está classificada como uma “standalone predatory journal” (ou em um português, uma revista predatória independente).

Dois detalhes ficaram evidentes após eu acessar o site da IJAERS, verifiquei várias questões peculiares: 1) a inexistência de informações claras sobre os custos de publicação, apesar de haver uma menção de que isto deveria  estar explicitado para os interessados em publicar ali, 2) a ampla dispersão de assuntos, muitos sem qualquer ligação aparente com o avanço da pesquisa em engenharia ou em ciência, 3) a forte presença de pesquisadores brasileiros que no “current issue” representam a imensa maioria dos artigos publicados, e 4) o tamanho relativamente pequeno dos artigos, sendo que um deles tem apenas 2 páginas.

Uma curiosidade final sobre o IJAERS é que o mesmo é supostamente publicado na cidade de Jaipur, no estado do Rajastão,  que fica localizada a 260 km da capital da Índia, New Delhi. Essa curiosidade geográfica reforça a minha curiosidade de como uma publicação indiana logrou chamar a atenção de tantos pesquisadores brasileiros, a ponto de ser ranqueada, ainda que quanticamente, no Qualis Capes.

Finalmente, o que o caso da IJAERS me mostra é que não há revista predatória que se sustente se não houver interessados em adquirir o produto que elas oferecem, no caso publicações publicadas no máximo após 60 dias após serem submetidas para serem supostamente avaliadas pelo sistema de revisão por pares. Eu particularmente estou aguardando há quase 2 anos que uma renomada revista brasileira da área dos estudos ambientais decida se vai publicar um artigo do qual sou co-autor.  Mas, apesar de toda essa demora, não irei tomar a “rota das Índias”, enquanto que outros já o fizeram, e provavelmente já ostentam os produtos dessa “viagem” em seus respectivos CV Lattes.   

Quanto ao Qualis Capes, fica evidente que é preciso fazer uma descontaminação e remover da lista as revistas identificadas como predatórias. Do contrário, ficará impossível que se cobre qualidade dos pesquisadores brasileiros que usam justamente o Qualis para se orientar sobre onde publicar.