Dos riscos de brincar com um poder imperial: a possível participação de Eduardo Bolsonaro na invasão do Capitólio

Apoiadores de Donald Trump invadem CongressoApoiadores do ex-presidente Donald Trump invadindo o congresso estadunidense no dia 06 de janeiro de 2021

Apesar da mídia corporativa ainda estar ignorando uma matéria produzida pelo advogado, escritor e colunista do jornal “The New York Times”, Seth Abramson, uma bomba de tempo pode estar repousando solenemente no colo do presidente Jair Bolsonaro neste momento.

É que Abramson publicou no site “Proof'” uma matéria intitulada “Brazil’s Murky Connection to Trump’s Secretive January 5 War Council Is Getting Clearer—and It Raises New Questions” (ou em bom português “A conexão obscura do Brasil com o conselho secreto de Trump, 5 de janeiro, está ficando mais clara – e levanta novas questões”), onde ele implica o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) em uma reunião que teria tramado a invasão que ocorreu na sede do congresso estadunidense no dia 06 de janeiro de 2021.

proof abramson

Há que se enfatizar que Seth Abramson, professor da University of New Hampshire, não é nenhum desconhecido ou observador marginal da realidade estadunidense.  Na verdade, Abramson, é que Abramson tem estado na crista da onda com uma série de livros que denunciam os desmandos cometidos pelo ex-presidente Donald Trump, o que o credencia como uma fonte que será ouvida dentro e fora dos EUA.

Mas é principalmente dentro dos EUA que as apurações que essa matéria escrita por Abramson certamente terão mais repercussão, na medida em que o congresso, as forças policiais e a justiça daquele país ainda estão realizando processos de ajuste de contas não apenas com aqueles que participaram diretamente da invasão do congresso, mas, principalmente, com os autores intelectuais da operação. 

Assim, se confirmada a participação de Eduardo Bolsonaro na reunião preparatória para a invasão do congresso estadunidense, não será de estranhar se ele e seu pai (afinal de contas, o presidente da república) se tornarem alvo de algum tipo de retaliação por parte do governo de Joe Biden.

E nisso tudo uma lembrança que parece ter sido esquecida: não se mexe com um poder imperial, sem que haja repercussões graves.  É que países já foram bombardeados e líderes de determinados países já foram eliminados por acusações muito mais brandas. A ver!

Governo Bolsonaro comete “pedalada sanitária” e isola Brasil no mundo

pedalada

A derrubada da primeira presidente da história do Brasil se deu com base em sua culpabilização em função da realização de uma nebulosa “pedalada fiscal”.  Agora, nos vemos diante de uma pedalada do governo Brasil que é de natureza sanitária. É que ao procrastinar e até sabotar o processo de vacinação em massa, o presidente Jair Bolsonaro coloca em risco a saúde de toda a população brasileira. Mas onde está esta pedalada sanitária?  Ela está não apenas no crescimento exponencial de novas infecções pelo novo coronavírus e dos mortos pela COVID-19, mas também, e principalmente, no andamento pífio do processo de vacinação.

O gráfico abaixo mostra que o Brasil, provavelmente o único país que possui um sistema de saúde unificado nos padrões requeridos pela pandemia da COVID-19, ocupa hoje o mirrado 40o. lugar mundial em termos de vacinas aplicadas em doses por 100 habitantes, atrás de países como Marrocos e Romênia, perdendo de longe para o Chile que ocupa hoje o 7o. lugar em nível mundial.

vacina ranking

Sem a Coronavac, a situação da vacinação contra a COVID-19 estaria ainda pior

CoronaVac: os quatro países além do Brasil que planejam usar a vacina  contra Covid-19 | Vacina | G1

A posição brasileira seria ainda pior se não fosse pela utilização da vacina “Coronavac” produzida pela “Sinovac” que move o Brasil de uma posição ainda mais constrangedora (62o.), demonstrando o acerto da estratégia utilizada pelo governador de São Paulo, João Dória (PSDB), que apostou firme na parceria do Instituto Butantã com a empresa chinesa.

Mas como o que está ruim sempre pode piorar, o Ministério da Saúde, anunciou ontem que reduzirá a disponibilidade de vacinas para o mês de março de 37,4 milhões para 30 milhões em função da falta de autorização para uso da vacina Covaxin, fabricada pela empresa indiana Baharat Biontech. Note-se que nesse lote esperado de 30 milhões de doses, 77,7% será composto por doses da vacina Coronavac.

Diante desse quadro, configurada a pedalada sanitária realizada pelo governo federal, sob a batuta do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Saúde, o general de logística Eduardo Pazuello, fica a pergunta sobre quando haverá a devida responsabilização pelo que está sendo feito contra a saúde da maioria da população brasileira. Seria natural que todos aqueles que no dia do impeachment de Dilma Rousseff apareceram para declarar amor pelas suas famílias, voltassem suas atenções para seus entes queridos e saíssem da inércia letal em que se encontram. É que do jeito que a crise sanitária está evoluindo no Brasil, cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), não haveria família que não tenha sido tocada pela catástrofe que se apresenta diante de nossos olhos.

Brasil vive seu pior momento na pandemia e vira líder mundial de mortes e novas infecções nas últimas 24 h

cemitérios

Neste momento,  o Brasil está arcando com as consequências das políticas negacionistas do governo Bolsonaro, que vão desde a procrastinação na compra de vacinas até as ações de pura sabotagem para medidas de proteção que envolvem o uso de máscaras faciais e o isolamento social.

Com mais 1.498 mortos e 67.477 novas contaminações nas últimas 24 horas, o Brasil se tornou o líder mundial nesses dois quesitos, superando até os EUA que lideravam esta corrida macabra desde o início de 2020.

Há ainda que se lembrar que apenas na última semana o Brasil somou 10 mil mortos pela COVID-19, chegando a um total de 264.446 oficiais. Nesse ritmo, e dada a completa lotação de UTIs em todo o território nacional, não será nenhuma surpresa se o Brasil chegar a 300 mil mortos pela COVID-19 antes do final de março.

O brasileiro e seu prato cheio de venenos: depois do feijão, agora o arroz pode estar contaminado com dioxinas do 2,4-D

Sem fiscalização, agrotóxico usado no arroz , o 2,4-D, pode estar contaminado por agentes danosos à saúde.  Descontrole das impurezas na indústria pode estar deixando dioxinas no 2,4-D em níveis acima do permitido. O agrotóxico está associado ao câncer e seu contaminante a malformações fetais. É um veneno envenenando o outro

rice pesticides

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Agrotóxico muito usado nas plantações de arroz, soja, milho, trigo, cana e algodão, entre outros, o 2,4-D é classificado pela Agência Internacional do Câncer (Iarc, da sigla em inglês) como possivelmente cancerígeno. E mais: estudos mostram que a substância pode alterar funções reprodutivas, o DNA das células e também afetar o sistema nervoso central, chegando a causar o Mal de Parkinson, além de outras doenças graves.

Mas os problemas não param por aí. Há fortes indícios de que o 2,4-D – pelo menos o fabricado no Brasil – esteja contaminado com dioxinas em níveis muito além do limite máximo tolerável. Essas substâncias são as mais tóxicas entre todas as já conhecidas até o momento.

As chamadas dioxinas são compostos com efeitos comprovadamente teratogênicos (capazes de produzir alterações embrionárias e anomalias no desenvolvimento fetal), carcinogênicos (provocam o aparecimento de diversos tipos de câncer), mutagênicos (que causam alterações permanentes e hereditárias no DNA das células), além de alterações na produção e ação dos hormônios e danos ao aparelho reprodutor. Ou seja, os danos à saúde de um forte veneno estão sendo potencializados por outro, ainda mais perigoso.

Contaminação descontrolada

Essas suspeitas não são por acaso. Como essa contaminação por dioxinas é inerente ao processo de fabricação do 2,4-D e outros compostos, as indústrias do agrotóxico devem purificá-lo. Ou pelo menos reduzir seus níveis ao limite máximo tolerável. Uma Instrução Normativa (IN 2/2008), assinada pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura, fixa uma concentração máxima de 0,0001 grama de dioxina em cada quilo de 2,4-D. Quando puro, esse princípio ativo se apresenta como um pó branco e amarelo.

Mas documentos da Anvisa a que a RBA teve acesso indicam que essa observância dos limites máximos estabelecidos pode não estar sendo feita. Tampouco a purificação prevista na legislação. Os fabricantes do chamado produto técnico à base de 2,4-D – substância obtida diretamente de matérias-primas e destinada à fabricação de agrotóxicos prontos para uso – não estariam conseguindo fazer os testes. Em reunião com representantes do Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama em julho de 2015, representantes do sindicato da indústria de agrotóxicos, o Sindiveg, já admitiram o descontrole.

Conforme a ata daquela reunião, um grupo de trabalho criado na época pela entidade para acompanhar o tema afirmou que é até possível fazer as análises dos níveis de impurezas relevantes lote a lote. Porém, isso não é “razoável frente ao número limitado de laboratórios e ao histórico de controle dos processos de produção”. E foi além: “Não há laboratório capacitado para tal análise no Brasil”

Trecho da ata da reunião de grupos de trabalho do governo e dos fabricantes

Questão gravíssima

“É grande o risco de haver dioxinas além do que é permitido por lei em agrotóxicos à base de 2,4-D. Para fazer essa análise é necessário todo um aparato técnico, laboratórios e pessoas treinadas. E o Brasil tem poucos. A maioria desses equipamentos está restrita a algumas empresas e universidades”, disse a professora de Química Sonia Hess, que leciona nos cursos de Engenharia Florestal e Agronomia do campus Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A questão é gravíssima, segundo a professora. O Brasil não tem ideia do nível de contaminação do segundo agrotóxico mais vendido em todo o país há mais de dez anos.

Outra dificuldade para avaliar a presença de impurezas é justamente o tamanho da produção do agrotóxico para atender um mercado que segue com a demanda. De 2009 a 2017 a fabricação do 2,4-D passou de 12 mil toneladas em 2009 para 19,4 mil toneladas, no ano seguinte. O aumento foi se mantendo até 2015, quando foram comercializados mais de 38 mil toneladas. E nos dois anos seguintes mantiveram o salto.

Em 2015 e 2016, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberou comercialmente cinco plantas geneticamente modificadas para resistir a quantidades maiores 2,4-D. Foram duas de soja e três de milho.

Vendas a todo vapor

Dados da Anvisa de 2018 mostram que havia no país 45 produtos técnicos (de 24 empresas) e 71 produtos formulados (de 21 empresas) a base de 2,4-D para uso agrícola no Brasil. Esses números aumentaram desde então. Das mais de 1.030 novas liberações de agrotóxicos desde o início do governo de Jair Bolsonaro, 23 são de produtos à base do 2,4-D.

Com números de produção bem mais modestos, a Europa consegue avaliar os níveis de impurezas relevantes. Estão nesse grupo substâncias que, segundo dados toxicológicos, tragam efeitos teratogênicos, carcinogênicos, mutagênicos ou de alterações hormonais e danos ao aparelho reprodutor.

Outro problema sério é que as dioxinas contaminam por muito tempo o meio ambiente e ainda se acumulam no organismo humano e de animais. Tanto que as dioxinas estão na lista de poluentes orgânicos persistentes (POPs) da Convenção de Estocolmo. Signatário do tratado internacional que visa eliminar de maneira segura todos esses poluentes, o Brasil não sai do lugar.

Convenção de Estocolmo

Em 2009 o país começou a elaborar o Plano Nacional de Implementação da Convenção de Estocolmo, com o lançamento de um projeto de desenvolvimento. Para cumprir sua parte, o país tem de desenvolver estratégias e planos de ação para a redução e eliminação de substâncias químicas listadas nos anexos da Convenção, entre elas o agrotóxico 2,4-D.

E o mais difícil: avaliar a capacidade de infraestrutura e propor opções de gerenciamento, incluindo arranjos institucionais, arcabouço regulatório, e requisitos para a capacitação, conscientização de parceiros, pesquisa e desenvolvimento, para garantir a implementação efetiva e sustentável das estratégias propostas e dos planos de ação e, assim, facilitar a transição do Brasil para a plena implementação da Convenção.

“O Brasil assinou a convenção. Mas como poderá cumprir? Só se as empresas admitirem a produção dessas substâncias perigosas. E como vão comprovar que estão seguindo as regras, que estão monitorando? É obrigação das empresas fazer essa purificação, pois já têm muitos subsídios”, ponderou Sonia Hess.

Perigos negados

Longe de admitir os graves problemas, as empresas fazem de tudo para camuflar ou fugir do debate. Questionado pela reportagem sobre medidas que estão sendo tomadas para a retirada das dioxinas do 2,4-D, o sindicato dos fabricantes de agrotóxicos (Sindiveg) desconversou, respondendo apenas que não se posiciona sobre produtos específicos. Ou seja, se reservam o direito de esconder da população informações que têm tudo a ver com sua vida.

Já uma força-tarefa formada pela Dow AgroSciences, Basf e a antiga Milenia, hoje Adama, produziu uma mini cartilha com respostas para 35 perguntas mais comuns envolvendo o agrotóxico 2,4-D.

Segundo os autores, que negam todos os efeitos danosos do agrotóxico à saúde e meio ambiente, não há relação da dioxina que contaminou o Agente Laranja com o produto que fabricam. Isso porque a dioxina 2,3,7,8 (TCDD) foi produzida por outro herbicida, o 2,4,5-T. No entanto, parece que não é bem assim.

Diretor da Associação de Combate aos Poluentes (ACPO) e pesquisador no Núcleo de Estudos Pesquisas e Extensão em Saúde Socioambiental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Jeffer Castelo Branco também avalia como gravíssimos os riscos aos quais os brasileiros estão expostos. Primeiro porque o 2,4-D, por si só, é muito perigoso. “É da classe química dos organoclorados, que são extremamente tóxicos e persistentes no meio ambiente. Não se degradam na natureza e vão reagindo com outros organoclorados, podendo resultar em inúmeras substâncias ainda desconhecidas, que podem até ser mais tóxicas que as dioxinas.”

A título de comparação, o hexaclorobenzeno, utilizado na produção de agrotóxicos destinados a matar fungos, é muito menos persistente que o 2,4-D. Segundo Castelo Branco, uma pessoa contaminada por doses mínimas desse composto precisaria de 200 a 250 anos para ter seu corpo livre do contaminante.

Hormônios em perigo

E depois, porque o agrotóxico 2,4-D comprovadamente altera o sistema endócrino, que tem uma importante função na produção de hormônios que atuam na regulação de outros órgãos. Segundo o pesquisador, as moléculas do princípio ativo são formadas por átomos de carbono e hidrogênio, com grande atuação biológica.

“Essas substâncias confundem o organismo, que as vê como parte dele . O problema é que essas moléculas têm ainda o cloro, extremamente tóxico, que navega pelo organismo, competindo com os hormônios que têm ação inibida ou bloqueada. São hormônios relacionados a diversas funções, como a de multiplicar células para a formação e desenvolvimento de um embrião sadio.”

“Agora imagine tudo isso contaminado por dioxinas. Para se ter ideia da sua toxicidade, uma quantidade equivalente a uma tampinha de garrafa é suficiente para matar um estádio inteiro de pessoas. E tudo isso ocorre bem debaixo das barbas dos órgãos ambientais e de saúde pública do Brasil. Quem vai ser responsabilizado?”

Veneno maquiado

Até agosto de 2019, o 2,4-D era considerado extremamente tóxico pela Anvisa. Naquele ano, o primeiro do governo de Jair Bolsonaro, a agência criada para a vigilância sanitária no país rebaixou para pouco tóxica a categoria da substância. O passe de mágica do órgão vinculado ao governo federal para facilitar registros e estimular o uso, no entanto, não afetou a sua constituição química.

O ácido diclorofenoxiacético, nome técnico do agrotóxico, continua sendo o mesmo usado na Segunda Guerra no âmbito do programa da guerra química e biológica. E que na guerra do Vietnã foi misturado a outro herbicida, o 2,4,5-T e ao pentaclorofenol, formando assim o terrível Agente Laranja. Entre 1962 e 1973, o Exército dos Estados Unidos despejou sobre as florestas e lavouras vietnamitas mais de 200 milhões de litros dessa mistura contaminada com uma dioxina. Se não fosse realmente perigoso, será que teriam sido usados como arma?

Passados 50 anos do fim da guerra, ainda nascem crianças em “formas que escapam à morfologia genérica da espécie humana”, como disse à RBA o ativista e escritor francês André Bouny, fundador e líder do Comitê Internacional de Apoio às Vítimas Vietnamitas do Agente Laranja.

“Bebês nascem com espinha bífida, às vezes sem cérebro, sem olhos, ou com embriões de braços e pernas, como minúsculas barbatanas. Estes últimos são chamados de ‘crianças focomele’. A lista é cruel e interminável. Nas cidades, geralmente são registradas crianças com deformidades. Nas províncias, às vezes estão escondidos.”

Vitória do agronegócio

Depois de muita pressão, em julho de 2006 a Anvisa anunciou a reavaliação toxicológica do ingrediente ativo devido à suspeita de efeitos tóxicos que impedem o registro desse agrotóxicos no Brasil.

Em 2014, após consultar estudos toxicológicos disponíveis na literatura científica e analisar relatórios de autoridades regulatórias internacionais, semelhantes à própria Anvisa e à CTNBio, a agência “constatou a segurança do produto”. Com base na “força de evidências de estudos disponíveis” foi convencida de que não há características teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas. Que tampouco o 2,4-D provoca distúrbios hormonais ou danos ao aparelho reprodutor relevantes para seres humanos.

Dois anos depois, colocou o parecer de reavaliação em consulta pública. Dos mais de 5.600 participantes, apenas 14% se manifestaram favoráveis à manutenção do registro por entender a importância agronômica da substância e a necessidade de uso adequado pelos trabalhadores – os mais prejudicados pela exposição aos venenos.

E 86% dos participantes reivindicaram o banimento do agrotóxico 2,4-D justamente pelos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Esse mesmo grupo apresentou questionamentos sobre a total liberdade dada pela Anvisa às indústrias para continuar produzindo, vendendo e lucrando com produtos sem controle de suas impurezas que podem ser letais em muitos casos.

Mas a agência mais uma vez sucumbiu às pressões dessas indústrias.E manteve o produto no mercado apesar de a maioria das manifestações em consulta pública irem no sentido oposto.

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Coronavírus: variante de Manaus é mais contagiosa, mais perigosa e menos sensível a anticorpos

manaus cemitérioEm janeiro, Manaus experimentou uma grande onda de coronavírus, com uma média de mais de 1.000 mortes por dia. Na foto, um cemitério com pessoas infectadas com Sars-CoV-2 que morreram em janeiro. Raphael Alves / EPA

Por Stephanie Lahrtz para o Neue Zürcher Zeitung

Tem sido confundido desde janeiro se uma nova variante Sars-CoV-2 chamada P.1 ou uma imunidade já em declínio é responsável pelo aumento maciço de pessoas infectadas por coronavírus e mortes na cidade brasileira de Manaus. Epidemiologistas e residentes também esperavam que Manaus não tivesse mais que sofrer uma segunda onda digna de nota. De acordo com um estudo de anticorpos, dois terços das pessoas foram infectadas em abril e maio e, portanto, deveriam estar imunes.

Uma equipe de pesquisa brasileiro-britânica agora tem certeza de que a variante do vírus P.1 tem um papel significativo na brutal segunda onda na metrópole amazônica. Isso pode transformar o caso de Manaus em um sinal do que novas variantes do vírus podem fazer, mesmo em uma população com alta imunidade.

Variante dominante em Manaus

Por um lado, de acordo com os pesquisadores, a sequência temporal fala por uma clara influência de P.1. Pelas análises genéticas, a variante foi criada em Manaus no início de novembro. A segunda onda atingiu a cidade a partir de meados de dezembro. Em apenas sete semanas, P.1 assumiu o controle de Manaus, por assim dizer: quase 90% de todas as pessoas infectadas lá agora o usam.

Por outro lado, devido às 17 alterações genéticas acumuladas, o vírus tornou-se mais contagioso em comparação com as variantes do Sars-CoV-2 que circulavam anteriormente em Manaus e no Brasil. Os cientistas escreveram que P.1 é mais fácil de transferir por um fator de 1,4 a 2,2. Isso o torna um pouco mais contagioso do que a variante britânica. Ainda não é possível dizer se as pessoas infectadas com P.1 têm uma carga viral mais alta ou são infecciosas por mais tempo – ou se ambas são verdadeiras.

Além disso, o risco de um resultado fatal de uma infecção P.1 pode ser aumentado. No entanto, ainda não está claro se o aumento que agora foi calculado é exclusivamente uma consequência das novas propriedades de P.1, enfatizam os pesquisadores. Como os hospitais de Manaus ficaram completamente sobrecarregados em janeiro, parte do aumento da mortalidade na segunda onda também pode ser devido a isso.

Os anticorpos se ligam mal a P.1

As mutações dão a P.1 outra propriedade preocupante. Esta variante corona pode levar a uma infecção renovada em 25 a 61 por cento das pessoas que se recuperaram em Manaus. Atualmente não há dados sobre se as reinfecções são mais brandas. No entanto, a alta proporção de infecções graves e mortes desde dezembro sugere que nem sempre é esse o caso.

Também é possível que a resposta imune desencadeada por uma vacinação contra P.1 seja mais fraca do que contra outras variantes do vírus. Vários experimentos de neutralização sugerem isso. Os soros de pessoas vacinadas são misturados na cultura de células com células que carregam Sars-CoV-2 em sua superfície. Você testa se os anticorpos contidos no soro se ligam aos vírus e assim os neutraliza. Se as pessoas do teste foram vacinadas com a vacina chinesa Coronavac , amplamente utilizada no Brasil, cinco meses após a vacinação quase não havia anticorpos eficazes contra o P.1. Os soros de pessoas vacinadas com vacinas Biontech / Pfizer mostraram uma neutralização reduzida em de duas vezes .

Variantes de Sars-CoV-2

As três variantes questionáveis ​​compartilham mutações diferentes, duas das quais estão particularmente em foco: o N501Y aparentemente aumenta a transferibilidade do vírus; E484K permite que ele evite alguns anticorpos.
Variantes de Sars-CoV-2 - As três variantes questionáveis ​​compartilham mutações diferentes, duas das quais estão especificamente em foco: o N501Y aparentemente aumenta a transferibilidade do vírus;  E484K permite que ele evite alguns anticorpos.

Comparações com a variante do vírus chamada B.1.351, que foi descoberta na África do Sul e atualmente domina lá, também sugerem que as vacinas disponíveis na Europa e nos EUA contra a variante do vírus brasileiro oferecem menos proteção. Porque algumas das mutações contidas em P.1 também ocorrem em B.1.351 e levam ao fato de que os anticorpos se ligam mais fracamente aos vírus.

Em experiências de neutralização, os soros de indivíduos vacinados que receberam as vacinas Biontech / Pfizer e Moderna foram seis a dez vezes menos eficazes contra B.1.351 do que contra variantes de vírus “antigas”. E em estudos clínicos, as vacinas da AstraZeneca, Johnson & Johnson e Novavax ofereceram menos proteção contra a variante sul-africana.

Como as outras novas variantes de vírus, P.1 não é apenas um problema local. P.1 também está se espalhando pelo globo. De acordo com a base de dados Gisaid, na qual especialistas de todo o mundo publicam dados do genoma do Sars-CoV-2, foram encontrados mais de 450 casos de P.1 em 19 países. Já na Suíça foram registrados 15 casos de P.1. Esta variante do vírus ainda não foi encontrada na Alemanha.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].

Uma feminista indígena luta contra a destruição de suas terras no Brasil

korap mundurukuFoto: AFP / Yasuyoshi Chiba

Por  Niklas Franzen para o Neues Deutschland

Estranhos passaram muito devagar pela vila em carros com vidros escuros, tirando fotos e enviando um monte de mensagens. As ameaças, diz Alessandra Korap Munduruku, aumentaram nas últimas semanas. “Sua única maneira é eliminar pessoas como eu.”

Korap é uma ativista dos direitos das mulheres e representante do povo indígena Munduruku. A mulher baixa de 36 anos com o rosto tatuado cresceu às margens do Rio Tapajós, no meio da floresta tropical brasileira. Mas a idílica Amazônia está ameaçada: represas e projetos de mineração poluem a natureza, garimpeiros e madeireiros estão penetrando à força em áreas indígenas, cada vez mais áreas florestais estão dando lugar a pastagens de vacas e campos de soja. Pessoas que resistiram são ameaçadas.

Korap diz que é ativista desde que nasceu. Mas por muito tempo ela não se atreveu a falar publicamente. “Não havia lugar para nós, mulheres, nas reuniões da aldeia. Só os homens falavam. ”Mas quando as escavadeiras chegaram e os garimpeiros começaram seus acampamentos em sua área, a mãe de dois filhos falou cada vez com mais frequência. Hoje, diz ela, muitas mulheres estão na linha de frente da luta. Korap é agora uma das faces mais famosas da floresta amazônica, falou em 20 de setembro de 2019 no Portão de Brandemburgo na frente de 270.000 pessoas no comício final da greve climática global. A associação de mulheres Wakoborûn, que ela cofundou, é considerada uma importante voz do feminismo indígena.

Um projeto em particular preocupa Korap e seus colegas: o Ferrogrão. A linha ferroviária planejada para ser construída na área de Munduruku para transportar soja do sul até os portos do rio Tapajós e de lá diretamente para a Europa e China. Numerosas empresas estrangeiras também ganham dinheiro com negócios sujos na Amazônia. Além disso: para cultivar soja, a floresta tropical deve ser desmatada ainda mais. “Os agrotóxicos usados ​​envenenam nosso rio e os peixes”, diz Korap. “O veneno da soja tem consequências terríveis – tanto para os brancos quanto para nós.”

Korap é uma mulher que não mede as palavras: em 2019, ela dobrou políticos de alto escalão em uma sessão parlamentar. Outra vez, ela atacou diretamente uma empresa de mineração. Um vídeo de seu discurso se tornou viral, inúmeras ameaças de morte se seguiram e Korap foi parar nas listas de morte. E não eram apenas ameaças. Pouco depois do discurso,  a sua casa foi arrombada e  parcialmente destruída. Documentos, um cartão de memória e um telefone celular estavam faltando, outros objetos de valor não. Korap tem certeza: “Foi um aviso.” Há muitos pistoleiros na região – gente que é paga para matar. Por um curto período, ela teve que se esconder. Hoje ela evita aparições públicas, não revela seu paradeiro.

O fato de pessoas como Korap terem que temer por sua saúde também tem a ver com um homem: o presidente Jair Bolsonaro. Já durante a campanha eleitoral, o extremista de direita anunciou que nenhum outro centímetro de terra seria designado como área protegida para comunidades indígenas. Ele insultou os indígenas de forma racista e protestou contra os ambientalistas. Desde a posse em 2019, o governo vem reduzindo sistematicamente as medidas de proteção ambiental e lutando pela exploração comercial da floresta amazônica. Recentemente, o governador do estado de Roraima, aliado do clã Bolsonaro, anunciou que aprovaria a mineração de mercúrio na região. “Isso terá consequências devastadoras para os povos indígenas”, diz Korap.

Nesse ínterim, até defensores da feminista indígena são ameaçados, mais recentemente seu advogado. Korap está com medo? “Não devo mais ter medo”, diz ela com segurança. “Porque tenho que ser um modelo para as outras mulheres.” O único medo: perder o país.

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Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

General Santos Cruz oferece análise devastadora sobre a gestão da pandemia da COVID-19 pelo governo Bolsonaro

santos cruz

O general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz já ocupou uma série de posições importantes dentro e fora do Exército brasileiro, e foi uma das primeiras cabeças roladas pela chamada ala ideológica do governo Bolsonaro.  Apesar de ter sido defenestrado precocemente do governo, as posições do general Santos Cruz são tidas como sendo importantes dentro das forças armadas brasileiras, sendo visto com um crítico das práticas do presidente Jair Bolsonaro.

Pois bem, no vídeo abaixo, o general Santos Cruz apresenta uma análise devastadora das responsabilidades do presidente Jair Bolsonaro acerca da situação sanitária catastrófica em que o Brasil se encontra neste momento. A análise é particularmente devastadora porque Santos Cruz coloca a responsabilidade do que está acontecendo nos ombros do chefe do executivo federal, enquanto envia sinais para dentro dos quartéis sobre o desgaste que está sendo causado pela excessiva presença de militares no governo Bolsonaro.

O que parece transparecer no conjunto das afirmações do general Santos Cruz é que, pelo menos em segmentos das forças armadas, já há uma clareza sobre o momento político que o Brasil atravessa em função do crescente número de mortos pela COVID-19. Resta ver se Santos Cruz é uma voz solitária ou não.

Indígenas denunciam grupo francês Casino por venda de carne de área de desmatamento ilegal

Casino-carne-de-desmatamento

Representantes de comunidades indígenas do Brasil e da Colômbia processaram a multinacional varejista Casino, controladora do Grupo Pão de Açúcar (GPA), em um tribunal da França nesta 4ª feira (3/3), acusando-a de vender carne bovina relacionada a crimes ambientais na Amazônia. Segundo a denúncia, a Casino violou a legislação francesa ao não impor critérios e sistemas de monitoramento de fornecedores (em particular, o frigorífico JBS), facilitando assim a ocorrência de crimes como desmatamento e grilagem de terras.

Encabeçada por entidades como a Coordenadoria das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre outros, a ação também acusa a Casino de violações aos Direitos Humanos. Entre os casos citados pela denúncia, está o da Terra Indígena (TI) Uru Eu Wau Wau (RO), invadida ilegalmente por pecuaristas que forneceram gado para a JBS que, depois vendeu a carne para o Pão de Açúcar no Brasil.

A denúncia foi abordada por FolhaReutersRFI e UOL, entre outros.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui! ].

Vídeo explica “Custo Bolsonaro” de forma didática

custo bolsonaro

Em meio à crise sanitária, social e econômica que varre o Brasil neste momento, temos sinais de vida inteligente aparecendo por todos os lados, com mentes brilhantes sendo utilizadas para explicar de forma didática todas as implicações que são trazidas pela vigência do governo comandado por Jair Bolsonaro. 

Um exemplo é o vídeo que segue abaixo que sumariza os principais elementos do que está sendo causado ao Brasil e ao seu povo por um governo que já demonstrou não ser comandado pelos interesses nacionais.

E como diz o fechamento do vídeo diz “com o custo Bolsonaro, a conta não fecha”. Definitivamente, não fecha.

Estudo afirma que corte de emissões precisa crescer dez vezes para conter emergência climática

Pesquisa se soma às evidências de que mundo não está no caminho de frear aquecimento global; Aplicativo permite comparar emissões dos países
 
emissões
 Foto: Kevin Frayer Getty Images
 
O mundo precisa multiplicar por dez o atual volume de cortes de emissões de CO2 para conter a emergência climática. É o que indica um novo estudo publicado na revista Nature Climate Change e que analisou as emissões de 64 países entre 2016 e 2019. A pesquisa foi conduzida por professores das universidades de East Anglia (UEA) e Stanford, além de cientistas do Projeto Carbono Global.
 
Os autores quiseram medir o progresso feito pelos países desde a criação do Acordo de Paris, e seus resultados mostram a clara necessidade de uma ambição muito maior antes da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP26), que será realizada em Glasgow, em novembro.
 
Os cortes anuais de 0,16 bilhões de toneladas de CO2 são apenas 10% dos cortes de 1-2 bilhões de toneladas de CO2 que são necessários em todo o mundo a cada ano para enfrentar a mudança climática. Embora as emissões tenham diminuído em 64 países, elas aumentaram em outros 150. Globalmente, as emissões cresceram em 0,21 bilhões de toneladas de CO2 por ano durante 2016-2019, em comparação com 2011-2015. 
 
Em relação a 2020, os cientistas dizem que as medidas de confinamento para enfrentar a pandemia COVID-19 reduziram as emissões globais em 2,6 bilhões de toneladas de CO2, cerca de 7% abaixo dos níveis de 2019. Para os pesquisadores, 2020 é um “botão de pausa” que não pode continuar realisticamente enquanto o mundo depende esmagadoramente de combustíveis fósseis. Além disso, as políticas de confinamento não seriam uma solução sustentável nem desejável para a crise climática.
 
“A queda nas emissões de CO2 das respostas à COVID-19 destaca a escala das ações e da adesão internacional necessária para enfrentar a mudança climática”, afirma a autora principal da análise, a professora Corinne Le Quéré, da Escola de Ciências Ambientais da UEA. “Agora precisamos de ações em larga escala que sejam boas para a saúde humana e boas para o planeta. É do melhor interesse de todos reconstruir melhor para acelerar a transição urgente para a energia limpa”.
 
Bons exemplos
 
No âmbito deste projeto, um aplicativo foi desenvolvido pelo pesquisador Anthony De-Gol na UEA para mostrar dados de emissão por país desde 1990. Entre os 36 países mais ricos, 25 viram suas emissões diminuírem durante 2016-2019 em comparação com 2011-2015, incluindo os EUA (redução média anual de -0,7%), a União Européia (-0,9%) e o Reino Unido (-3,6%). As emissões diminuíram mesmo quando se contabiliza a pegada de carbono de bens importados produzidos em outros países. Trinta dos 99 países de renda média alta também reduziram emissões entre 2016-2019 em comparação com 2011-2015, sugerindo que ações para reduzir as emissões estão agora em andamento em muitos países do mundo.
 
O México (-1,3%) é um exemplo notável nesse grupo, enquanto as emissões da China aumentaram 0,4%, muito menos do que os 6,2% de crescimento anual de 2011-2015. O número crescente de leis e políticas sobre mudança climática parece ter desempenhado um papel fundamental na contenção do crescimento das emissões durante 2016-2019. Existem agora mais de 2000 leis e políticas climáticas em todo o mundo.
 
Um retorno completo em 2021 para os níveis anteriores de emissão de CO2 parece improvável. Entretanto, os autores dizem que, a menos que a recuperação da COVID-19 direcione investimentos em energia limpa e na economia verde, as emissões provavelmente começarão a aumentar novamente dentro de alguns anos. A natureza da interrupção em 2020, afetando particularmente o transporte rodoviário, significa incentivo para acelerar a implantação em larga escala de veículos elétricos e incentivar as caminhadas e ciclismo nas cidades. 
 
A resiliência da energia renovável durante a crise, a queda dos custos e os benefícios da qualidade do ar são incentivos adicionais para apoiar sua implantação em larga escala. Os investimentos pós-COVID continuam a ser dominados esmagadoramente pelos combustíveis fósseis na maioria dos países, em contradição com os compromissos climáticos, inclusive nos Estados Unidos e na China. A União Europeia, a Dinamarca, a França, o Reino Unido, a Alemanha e a Suíça estão entre os poucos países que até agora implementaram pacotes de estímulo verde limitando investimentos em atividades baseadas em combustíveis fósseis.

Rob Jackson, da Universidade de Stanford e co-autor do estudo, afirma que os compromissos crescentes dos países para alcançar emissões líquidas zero dentro de décadas fortalecem a ambição climática necessária na COP26. “Uma ambição maior é agora apoiada pelos líderes dos três maiores emissores: China, Estados Unidos e a União Europeia”, salienta.
 
Uma cópia do artigo publicado em 3/3/2021 está disponível aqui :