A aposta brasileira em medicamentos não comprovados para combater a COVID-19

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Por Por Jose Brito e Shasta Darlington para a CNN

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, há muito é um campeão das drogas cloroquina e hidroxicloroquina para curar a Covid-19, apesar de vários estudos que mostram que elas não são eficazes . Agora, os documentos mostram que seu governo gastou fundos de emergência com os medicamentos e continuou a produzi-los e distribuí-los a taxas sem precedentes ao longo de 2020, enquanto rejeitava pelo menos uma oferta de compra de uma vacina já em estágio final de testes porque os termos eram “abusivos”.

Depois de promover repetidamente o potencial da cloroquina e da hidroxicloroquina para prevenir e mitigar os efeitos do COVID-19, o próprio Bolsonaro testou positivo em julho passado. “Se eu tivesse tomado hidroxicloroquina como medida preventiva, ainda estaria trabalhando”, disse ele, embora a droga, mais comumente usada contra a malária, não tivesse se mostrado eficaz contra o coronavírus e a Organização Mundial da Saúde (OMS) tivesse interrompeu um grande ensaio com hidroxicloroquina.

Durante a quarentena, ele postou um vídeo nas redes sociais mostrando-o tomando o que ele disse ser sua terceira dose de hidroxicloroquina.

Estou me sentindo muito bem. Estava me sentindo mais ou menos no domingo e mal na segunda. Hoje na terça, estou me sentindo muito melhor do que no sábado, então, sem dúvida”, disse ele enquanto segurava um comprimido e engolia. isto. “Está funcionando.”

Ainda na semana passada, Bolsonaro voltou a admitir que poderia ser provado que estava errado e que a droga poderia não ter nenhum impacto sobre o coronavírus, mas acrescentou “pelo menos não matei ninguém. Agora, se por acaso, prova ser eficaz no futuro, aqueles de vocês que criticaram, parte da mídia, vocês serão responsabilizados. “

De acordo com documentos exclusivos obtidos pela afiliada da CNN Brasil, Bolsonaro não estava apenas falando sobre as drogas no ano passado, seu governo estava usando ativamente fundos de emergência destinados a combater a pandemia de Covid-19 para comprá-los e distribuí-los mesmo depois de terem sido comprovados ineficaz.

Um vendedor exibindo comprimidos de hidroxicloroquina em uma farmácia.

Um vendedor exibindo comprimidos de hidroxicloroquina em uma farmácia.

Em maio , o Ministério da Saúde do Brasil recomendou oficialmente a cloroquina para o tratamento precoce da COVID-19 e, em junho, estendeu a recomendação para crianças e mulheres grávidas, no mesmo dia em que a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA revogou sua autorização de uso emergencial de hidroxicloroquina e apesar evidências crescentes de que não foi eficaz na prevenção ou cura da COVID-19.

Dois dias depois, no dia 17 de junho, a Sociedade Brasileira de Doenças Infecciosas publicou carta aberta dizendo que era “urgente e necessário” suspender o uso da hidroxicloroquina no tratamento do COVID-19. O Ministério da Saúde, entretanto, não mudou suas recomendações nos meses seguintes e os médicos relataram ter sido pressionados a prescrevê-las.

Em setembro, o escritório estratégico de medicamentos do Ministério da Saúde confirmou à CNN Brasil que está em processo de aquisição de mais cloroquina com recursos destinados ao combate à COVID-19, pois seu estoque caiu para 375,5 mil doses. Não especificou quanto estava sendo pedido ou quanto custaria.

“Em 2020, o programa de malária teve um aumento no número de casos no Brasil e, como tem sido anunciado diariamente, o número de casos de COVID-19 no Brasil ainda é alto”, disse o departamento em resposta por escrito. “Com isso, a expectativa é que a demanda dos estados e municípios por esse medicamento continue alta no segundo semestre de 2020.”

Eles não especificaram qual parte foi usada para seu programa de malária e qual parte para combater a COVID-19, mas de acordo com dados obtidos pela CNN Brasil, um total de 3,23 milhões de comprimidos foram produzidos pela unidade farmacêutica do exército brasileiro em 2020. Isso se compara com 265.000 comprimidos produzidos em 2017 e nenhum produzido em 2018 ou 2019.

E de acordo com os próprios números do Ministério da Saúde, o número de casos de malária foi de 60.713 nos primeiros seis meses de 2020, 16% abaixo do primeiro semestre de 2019.

Documentos obtidos pela CNN Brasil por meio da Lei de Liberdade de Informação do Brasil mostram que, entre os meses de abril e agosto, a Coordenadoria de Medicamentos Estratégicos do Ministério da Saúde solicitou 1,5 milhão de comprimidos de cloroquina a serem distribuídos às secretarias estaduais de saúde pelo laboratório farmacêutico do Exército.

De acordo com os documentos, a distribuição teve como objetivo “combater a pandemia COVID-19” e as pílulas foram distribuídas com base no número de casos suspeitos em cada estado.

As distribuições continuaram na segunda metade do ano, mesmo depois que o FDA revogou sua autorização de uso de emergência e vários estudos concluíram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não foram eficazes no tratamento de COVID-19. O Exército disse à CNN Brasil que entre setembro de 2020 e janeiro de 2021, foram distribuídas 420 mil doses.

Um contrato visto pela CNN Brasil mostra que, em setembro, o exército gastou US $ 144 mil com a matéria-prima necessária para a produção da cloroquina, pagando 167 por cento acima do valor de mercado – uma compra que foi sinalizada como suspeita pelo Escritório de Contabilidade Geral Federal. Em nota à CNN, o Exército disse que os preços subiram por causa das oscilações da taxa de câmbio e do aumento da demanda internacional.

No mesmo mês, o Brasil recebeu uma carta do CEO da Pfizer, Albert Bourla, instando o país a assinar um contrato para comprar 70 milhões de doses de sua vacina Covid-19 e se oferecendo para se reunir com o governo. A Pfizer já estava em fase final de testes com sua vacina neste momento. A CNN Brasil informou pela primeira vez sobre a existência da carta no mês passado. Foi enviado a Bolsonaro e a vários ministros em 12 de setembro, quando o número de mortos no Brasil já era o segundo maior do mundo, com 131 mil, e o número de casos confirmados foi de 4,3 milhões.

Mas as negociações com a Pfizer fracassaram e não terminaram em acordo. A notícia da carta gerou raiva quando surgiu no mês passado, enquanto o governo lutava para lançar um programa de vacinas.

O Ministério da Saúde do Brasil respondeu à CNN Brasil dizendo que os termos da oferta, que incluía um acordo para não responsabilizar a Pfizer por efeitos colaterais negativos, eram “abusivos”. O ministério disse estar preocupado também com o pequeno número de doses oferecidas no primeiro lote: 500 mil, mas acrescentou que as negociações ainda estão em andamento.

A Pfizer não quis comentar.

Um hospital em Manaus, no Estado do Amazonas, no mês passado.

Um hospital em Manaus, no Estado do Amazonas, no mês passado.

Quando o Brasil finalmente lançou seu programa nacional de vacinação em 18 de janeiro, após repetidos atrasos, ele começou com apenas seis milhões de doses para uma população de mais de 210 milhões.

O governo de Bolsonaro apostou na vacina Oxford /AstraZeneca como peça central de seu programa. Mas, devido aos atrasos, eles acabaram recorrendo à CoronaVac, a vacina desenvolvida pela chinesa Sinovac e testada no Brasil em parceria com o governador do estado de São Paulo, que também é inimigo político de Bolsonaro.

Até agora, 2,2 por cento da população recebeu a primeira dose do regime de duas doses exigido pelas vacinas CoronaVac e Oxford/AstraZeneca.

Mas mesmo quando as autoridades começaram a disponibilizar vacinas em janeiro, o governo federal continuou a promover a cloroquina como um tratamento em seus aplicativos e no protocolo que não tinha sido atualizado desde que foi publicado em maio passado e onde foi caracterizado como um componente chave da ‘tratamento precoce.

Quando questionado por que o ministério ainda recomendava o medicamento, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse a jornalistas no mês passado que nunca havia recomendado um medicamento específico. “Defendemos, incentivamos e orientamos os enfermos a irem imediatamente ao posto de saúde, ao médico, e o médico fará o diagnóstico clínico do paciente. Os remédios que o médico prescrever, isso é domínio privado do paciente”.

Bolsonaro nomeou Pazuello, general do exército, quando seu segundo ministro da Saúde se demitiu, após se recusar a emitir diretrizes federais para o uso de hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento de COVID-19.

“Fui eleito para tomar decisões e a decisão sobre a cloroquina passa por mim”, declarou Bolsonaro em maio passado. No dia seguinte, Nelson Teich renunciou. Seu substituto, Pazuello, emitiu as diretrizes demandadas pelo presidente.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Rede CNN [Aqui!].

Na “The Lancet”, docentes da UNB afirmam que no Brasil tomado pela COVID-19, a necropolítica vive

COVID-19 no Brasil: muito além da biopolítica

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Por  Rafael Dall’Alba,  Cristianne Famer Rocha,  Roberta de Pinho Silveira, Liciane da Silva Costa Dresch,  Luciana Araújo Vieira e  Marco André Germanò*

Richard Hortonpropôs a importância da biopolítica de Foucault como conceito para a compreensão do COVID-19. Ao elogiarmos seu comentário, acrescentaríamos que em países como o Brasil, COVID-19 não trata apenas da política do corpo, mas da política da morte.

Em meio a uma crise que não é apenas econômica, mas também política e ética, o Brasil tem se destacado por suas desastrosas ações governamentais na batalha contra a COVID-19: uma tentativa frustrada de privatizar a atenção básica durante a pandemia, a ausência de um plano de resposta nacional completo, falhas logísticas graves na campanha de vacinação e o forte negacionismo científico na alta administração do governo.

Necropolítica de Achille Mbembe explica o que está acontecendo no BrasilA ideia de necropolítica, que descreve como as condições de risco, doença e morte operam seletivamente em favor das políticas econômicas neoliberais, reflete as narrativas nutridas que afetaram predominantemente as populações pobres, negras e indígenas.

Na periferia do mundo, COVID-19 ampliou especialmente as consequências deletérias das políticas de austeridade.Enquanto os EUA, o Reino Unido e outros países aumentaram os gastos sociais em resposta à sindemia,o governo brasileiro optou por fortalecer as políticas econômicas que impossibilitaram grande parte da população de se isolar adequadamente do contato físico – 40% da força de trabalho brasileira está empregada no setor informal. No Brasil, as políticas monetárias direcionadas ao setor financeiro somaram cerca de US $ 230 bilhões,enquanto as iniciativas fiscais voltadas para os impactos sociais da pandemia receberam menos da metade dessa quantia.

Decidir seletivamente quem deve pagar pelos impactos da pandemia, forçando os pobres a escolher entre a fome ou a contaminação em estado de morto-vivo, foi naturalizado sob o argumento de sustentar a economia. “E daí?” Do presidente Jair Bolsonaro em resposta ao número crescente de casos COVID-19 aponta para as políticas sistemáticas implementadas durante sua presidência para enfraquecer as instituições, criando um cenário diferente e muito mais dramático do que o controle biopolítico. No Brasil, a fragilidade da administração pública tem sido incapaz de combater tanto a crise socioeconômica quanto a de saúde, deixando um rastro danoso de fome, violência e doença, “subjugando a vida ao poder da morte”.Assim, a resposta à pandemia do Brasil não pode ser avaliada apenas pelas lentes biopolíticas.

A comunidade internacional de saúde, além de ter o papel de questionar o protecionismo econômico em vista da preservação da vida, deve ampliar sua análise da sindemia COVID-19 para entender o que está acontecendo nas regiões subdesenvolvidas, em particular, para descolonizar o conhecimento e apreender plenamente particularidades geopolíticas e territoriais. Com mais de 227 500 vidas perdidas na COVID-19, até 4 de fevereiro de 2021, podemos dizer que a necropolítica está, ironicamente, viva no Brasil.

* Rafael Dall’Alba,  Cristianne Famer Rocha,  Roberta de Pinho Silveira, Liciane da Silva Costa Dresch,  Luciana Araújo Vieira e  Marco André Germanò são docentes da Faculdade de Ciências Médicas da Unb.
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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “The Lancet” [Aqui!].

A mudança climática será repentina e cataclísmica. Precisamos agir rápido

geloO derretimento do gelo polar pode causar um ponto crítico. Imagem: REUTERS / Hannah McKay

Por Peter Giger, Diretor de Risco do Zurich Insurance Group

  • Os pontos de inflexão podem perturbar fundamentalmente o planeta e produzir mudanças abruptas no clima.
  • Uma liberação em massa de metano pode nos colocar em um caminho irreversível para o derretimento total do gelo terrestre, fazendo com que o nível do mar suba em até 30 metros.
  • Devemos tomar medidas imediatas para reduzir o aquecimento global e construir resiliência com esses pontos de inflexão em mente.

A velocidade e a escala da resposta ao COVID-19 por parte de governos, empresas e indivíduos parecem dar esperança de que possamos reagir à crise das mudanças climáticas de uma maneira igualmente decisiva – mas a história nos diz que os humanos não reagem a movimentos lentos e ameaças distantes. Nossa evolução selecionou o instinto de “lutar ou fugir” para lidar com as mudanças ambientais, então, como a metáfora do sapo em água fervente, tendemos a reagir muito pouco e tarde demais às mudanças graduais.

A mudança climática é freqüentemente descrita como aquecimento global, com a implicação de mudanças graduais causadas por um aumento constante nas temperaturas; de ondas de calor ao derretimento de geleiras.

Mas sabemos por evidências científicas multidisciplinares – da geologia, antropologia e arqueologia – que a mudança climática não é incremental. Mesmo em tempos pré-humanos, é episódico, quando não é forçado por uma aceleração humana das emissões de gases de efeito estufa e do aquecimento.

Existem partes do ciclo do carbono em nosso planeta, as formas como a Terra e a biosfera armazenam e liberam carbono, que podem ser acionadas repentinamente em resposta ao aquecimento gradual. Esses são pontos de inflexão que, uma vez ultrapassados, podem perturbar fundamentalmente o planeta e produzir mudanças abruptas e não lineares no clima.

Um jogo de jenga

Pense nisso como um jogo de Jenga e o sistema climático do planeta como a torre. Por gerações, removemos lentamente os bloqueios. Mas, em algum momento, removeremos um bloco fundamental, como o colapso de um dos principais sistemas de circulação do oceano global, por exemplo, a Circulação Meridional de Virada do Atlântico (AMOC), que fará com que todo ou parte do sistema climático global caia em uma emergência planetária.

Mas, pior ainda, pode causar danos descontrolados: onde os pontos de inflexão formam uma cascata semelhante a um dominó, onde a violação de um provoca violações de outros, criando uma mudança imparável para um clima em mudança radical e rápida.

Um dos pontos de inflexão mais preocupantes é a liberação em massa de metano. O metano pode ser encontrado no armazenamento de congelamento profundo no permafrost e no fundo dos oceanos mais profundos na forma de hidratos de metano. Mas o aumento das temperaturas do mar e do ar está começando a descongelar essas reservas de metano.

Isso liberaria um poderoso gás de efeito estufa na atmosfera, 30 vezes mais potente do que o dióxido de carbono como agente de aquecimento global. Isso aumentaria drasticamente as temperaturas e nos precipitaria em direção ao rompimento de outros pontos de inflexão.

Isso poderia incluir a aceleração do degelo em todos os três grandes mantos de gelo terrestres do globo – Groenlândia, Oeste da Antártica e a Bacia de Wilkes no Leste da Antártica. O colapso potencial do manto de gelo da Antártica Ocidental é visto como um ponto de inflexão importante, já que sua perda poderia eventualmente elevar os níveis globais do mar em 3,3 metros, com variações regionais importantes.

Mais do que isso, estaríamos no caminho irreversível para o derretimento total do gelo terrestre, fazendo com que o nível do mar subisse até 30 metros, aproximadamente a uma taxa de dois metros por século, ou talvez mais rápido. Basta olhar para as praias elevadas ao redor do mundo, na última elevação do nível do mar global, no final do período Pleistoceno por volta de 120.000 anos atrás, para ver a evidência de um mundo tão quente, que era de apenas 2 ° C mais quente do que hoje.

Cortando a circulação

Além de devastar áreas baixas e costeiras em todo o mundo, o derretimento do gelo polar pode desencadear outro ponto de inflexão: a desativação do AMOC.

Esse sistema de circulação impulsiona um fluxo de água quente e salgada para o norte nas camadas superiores do oceano, dos trópicos para a região nordeste do Atlântico, e um fluxo para o sul de água fria nas profundezas do oceano.

A correia transportadora oceânica tem um grande efeito no clima, nos ciclos sazonais e na temperatura no oeste e no norte da Europa. Isso significa que a região é mais quente do que outras áreas de latitude semelhante.

Mas o gelo derretido do manto de gelo da Groenlândia pode ameaçar o sistema AMOC. Isso diluiria a água salgada do mar no Atlântico Norte, tornando a água mais leve e menos capaz ou incapaz de afundar. Isso diminuiria a velocidade do motor que impulsiona a circulação do oceano.

Pesquisas recentes sugerem que a AMOC já se enfraqueceu em cerca de 15% desde meados do século XX. Se isso continuar, pode ter um grande impacto no clima do hemisfério norte, mas particularmente na Europa. Pode até levar à cessação da agricultura arável no Reino Unido, por exemplo.

Também pode reduzir as chuvas na bacia amazônica, impactar os sistemas de monções na Ásia e, ao trazer águas quentes para o Oceano Antártico, desestabilizar ainda mais o gelo na Antártica e acelerar o aumento do nível do mar global.

A Circulação de Virada Meridional Atlântica.
A Circulação de Virada Meridional do Atlântico tem um grande efeito no clima.
Imagem: Praetorius (2018)

É hora de declarar uma emergência climática?

Em que estágio, e em que aumento nas temperaturas globais, esses pontos de inflexão serão alcançados? Ninguém está totalmente certo. Pode levar séculos, milênios ou pode ser iminente.

Mas, como COVID-19 nos ensinou, precisamos nos preparar para o esperado. Estávamos cientes do risco de uma pandemia. Também sabíamos que não estávamos suficientemente preparados. Mas não agimos de maneira significativa. Felizmente, conseguimos acelerar a produção de vacinas para combater o COVID-19. Mas não há vacina para as mudanças climáticas, uma vez que ultrapassamos esses pontos de inflexão.

Precisamos agir agora em nosso clima . Aja como se esses pontos de inflexão fossem iminentes. E pare de pensar nas mudanças climáticas como uma ameaça lenta e de longo prazo que nos permite chutar o problema adiante e deixar que as gerações futuras lidem com ele. Devemos tomar medidas imediatas para reduzir o aquecimento global e cumprir nossos compromissos com o Acordo de Paris e criar resiliência com esses pontos de inflexão em mente.

Precisamos planejar agora para mitigar as emissões de gases de efeito estufa, mas também precisamos planejar os impactos, como a capacidade de alimentar todos no planeta, desenvolver planos para gerenciar o risco de inundações, bem como gerenciar os impactos sociais e geopolíticos humanos migrações que serão consequência de decisões de luta ou fuga.

Romper esses pontos de inflexão seria cataclísmico e potencialmente muito mais devastador do que COVID-19. Alguns podem não gostar de ouvir essas mensagens ou considerá-las no reino da ficção científica. Mas se isso injeta um senso de urgência para nos fazer responder à mudança climática como fizemos com a pandemia, então devemos conversar mais sobre o que aconteceu antes e acontecerá novamente.

Caso contrário, continuaremos jogando Jenga com nosso planeta. E, no final das contas, haverá apenas um perdedor – nós.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “World Economic Forum” [Aqui!].

Vacinação contra COVID-19 virou bagunça e Ministério da Saúde está nas mãos de amadores, diz Drauzio Varella

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 Em sua coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo, o médico Drauzio Varella afirma que a vacinação contra o coronavírus no Brasil virou uma “bagunça”. De acordo com o médico, “sem autonomia para coordenar a estratégia de vacinação”, o Programa Nacional Imunizações (PNI) “houve por bem pulverizar pelo país as poucas vacinas existentes, como se a epidemia ameaçasse todos os municípios com igual virulência”. 

“Ao lado desse equívoco, facultou a estados e municípios a adoção dos critérios para estabelecer prioridades, de acordo com as realidades locais”, continua Varella. 

Segundo o médico, “a falta de uma coordenação centralizada com regras válidas para o país inteiro gerou essa confusão de grupos e de pessoas que subvertem a ordem prioritária e confundem a população, incapaz de entender porque em cada cidade a vacinação chega para uns e não para outros”.

Varella constata amargamente: “Profissionais formados em psicologia, biologia, veterinária, educação física, além de trabalhadores da área da saúde que nem sequer chegam perto dos doentes com Covid, são vacinados antes das mulheres e homens com mais de 80 anos. Enquanto nos entretemos com as imagens dos telejornais que mostram senhoras e senhores de 90 anos, infantilizados pelo repórter que lhes pergunta se estão felizes com a vacina, passa a boiada dos mais jovens que furam a fila.

Tem cabimento vacinar veterinários, terapeutas, personal trainers, escriturários de hospitais, antes dos mais velhos, que representam mais de 70% dos mortos? É justo proteger essa gente antes dos professores, dos policiais e de outras categorias mais expostas ao vírus?”

Ele conclui com uma crítica direta ao governo Bolsonaro: “Que azar. Quando o Brasil mais precisava de técnicos treinados para executar a difícil tarefa de vacinar seus habitantes, única forma de reduzir a mortalidade e dar alento à economia, caímos nas mãos de um Ministério da Saúde fragilizado, dirigido por amadores”.

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Este texto foi originalmente publicado pelo portal Brasil 247 [Aqui!].

Quanto custa um câncer? Bayer faz ‘conta de padaria’: lucro com glifosato compensa custo de processos por danos à saúde

Empresa gasta US$ 12 bilhões em indenizações, mas continua fabricando – e vendendo muito – o agrotóxico. “É a prova cabal de que não existe, nem de longe, possibilidade de qualquer tipo de ética no sistema capitalista”, afirma analista

Manifestação de mulheres camponesas em frente à sede nacional da Bayer, em São Paulo
Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – A Bayer não fala em lucros com a venda do herbicida glifosato, o mais vendido do mundo. Mas certamente é gigantesco, já que é suficiente para cobrir, com sobra, os acordos bilionários que tem proposto à Justiça nos Estados Unidos para pagar milhares de indenizações a doentes de câncer expostos ao RoundUp, produto a base de glifosato.

A companhia alemã que comprou a Monsanto – desenvolvedora do glifosato –, desembolsou em 2020 US$ 10 bilhões (cerca de R$ 54 bilhões) para liquidar 95 mil processos por efeitos danosos do agrotóxico. Restaram ainda 30 mil ações. Na semana passada propôs outro acordo, no valor de US$ 2 bilhões (R$ 10,8 bilhões), para cobrir futuros pedidos de indenização de pessoas que, por exposição ao glifosato, desenvolveram linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer que atinge o sistema imunológico. O teto de indenização e cobertura de assistência à saúde será de até US$ 200 mil. A homologação da oferta depende de decisão do juiz Vince Chabbria, da Corte Distrital de São Francisco.

“Os acordos de US$ 10 bilhões do ano passado, somado aos U$2 bi de agora, superam o faturamento total da indústria de agrotóxicos no Brasil no ano passado. São cifras, portanto, astronômicas, mesmo para transnacionais do porte da Bayer”, diz o engenheiro Alan Tygel, coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida.

Segundo ele, quando a Bayer concluiu a compra da Monsanto em 2018, por US$ 63 bilhões, já sabia que herdaria milhares de processos e teria de desembolsar bilhões de dólares em pedidos de indenização contra o RoundUp. Mesmo assim a empresa decidiu comprar a Monsanto e seguirá vendendo o produto.

Bayer e câncer

“É a prova cabal de que não existe, nem de longe, possibilidade de qualquer tipo de ética no sistema capitalista. Fizeram a conta de padaria: quanto temos de receita, quanto custa cada câncer causado pelo produto, e chegaram à conclusão de que mesmo assim dá lucro”, disse Tygel.

Para ele, os acordos já firmados e o agora proposto não terão influência no cenário brasileiro. Apesar da gravidade dos danos, a agenda em favor da indústria de agrotóxicos por parte da Anvisa e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) seguirão. “Esperamos, porém, que pelo menos processos judiciais semelhantes possam prosperar e reparar, ainda que de forma meramente financeira, a dor e o sofrimento das famílias vitimadas pelas intoxicações por agrotóxicos.

Embora a proposta possa sugerir que a Bayer esteja finalmente admitindo o potencial carcinogênico da substância que produz, a empresa está protegendo seu caixa. É o que acredita o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski. “A Bayer não está reconhecendo que o glifosato faz mal, mas implicitamente está se protegendo ao propor limite de dois bilhões de dólares para futuros casos. Ou seja, para pessoas que ainda não constituíram advogado para entrar com ação.”

Ruralistas na contramão

Estudioso dos agrotóxicos, Pedlowski concorda com Tygel. O “hiper domínio da bancada ruralista” está atrasando o Brasil no debate sobre o glifosato. E o latifúndio e a economia brasileira podem tomar prejuízo em médio prazo.

“A Nestlé barrou o café do Espírito Santo pelo excesso de glifosato. No início de 2019, a Rússia sinalizou que faria o mesmo com a soja, caso o Brasil não reduzisse o uso de agrotóxico. A Europa já não compra soja para uso humano, só para alimentar animais. E há um grande movimento nos países escandinavos e na Alemanha contra a soja brasileira. Cedo ou tarde, o Brasil pode tomar uma moratória sanitária. Os ruralistas contam com a dependência mundial da soja nacional. Mas esquecem de que chineses e latifundiários brasileiros estão plantando soja em Moçambique”, alertou.

Em dezembro, a Anvisa concluiu a reavaliação toxicológica do glifosato. Manteve a permissão do uso, mas com restrições. Entre elas, adoção de tecnologia para reduzir a deriva (espalhamento das gotículas para além da área pulverizada. No mesmo mês, o governo de López Obrador determinou que até o final de 2024 o produto será banido no México.

Argentina, Uruguai e Costa Rica aprovaram medidas de redução de uso. A Alemanha quer banir até 2023. Em julho, a Áustria decidiu proibir o uso do produto por considerar cada vez mais robustas as evidências do potencial carcinogênico da substância. A França está em vias de aprovar nova legislação para redução seguida de banimento até 2023. Outros países, como Itália, Holanda e República Tcheca também têm restrições ao uso de herbicidas com o glifosato como princípio ativo.

Sinal verde

O produto tem sinal verde também do Ministério da Agricultura. Em janeiro, quando o governo de Jair Bolsonaro completou dois anos, sob seu mandato já haviam sido liberados 1.033 novos agrotóxicos, segundo levantamento de Pedlowski. Desse total, foram autorizados 22 pedidos para fabricação de novos produtos à base de glifosato. O princípio ativo só ficou atrás do fungicida Mancozebe, com 24 pedidos.

O agrotóxico mais usado no Brasil tende a ganhar ainda mais espaço. No último dia 5, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança atendeu pedido do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) para fazer experiências em campo com uma cana de açúcar desenvolvida geneticamente para resistir a pulverizações intensas de glifosato. Os testes serão feitos nos municípios paulistas de Piracicaba, Barrinha e Valparaiso. A cana é hoje a terceira cultura em termos de consumo de pesticidas (11%), ficando atrás da soja (48%) e do milho (13%).   

Hipocrisia da Bayer

Professor de Ecotoxicologia, Agroecologia e Cooperativismo no campus Viamão do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), o agrônomo Cláudio Fioreze considera “hipócrita” a oferta de tais acordos pela Bayer. “Pelo valor que eles pagaram na Monsanto (US$ 63 bilhões) o pelo que lucram com a venda do agrotóxico mais vendido no mundo, é uma hipocrisia fazer esse tipo de acordo, em que se reconhece haver o dano, quando se trata de um dano incalculável a longo prazo, um dano ecossistêmico”.

Entretanto, enxerga disputas com a justiça dos Estados Unidos um ponto de partida para mudanças. “Foram longas batalhas judiciais que levaram a legislações bastante restritivas aos cigarros. Antes se fumava dentro de todo lugar, na sala de aula, no taxi, no hotel. E hoje há propagandas expondo os males do tabagismo”, comparou.

Nesse sentido, defende, deveria ser adotada uma espécie de certificação negativa da produção de alimentos. “Hoje em dia, o ônus da certificação é de quem produz alimento ecológico, orgânico, limpo. Então os alimentos produzidos no modelo de agronegócio convencional, muitas vezes com uso de substâncias proibidas em outros países, teriam de trazer aviso na embalagem. Algo como esse produto foi produzido com agrotóxico X, que pode causar câncer, danos ao sistema nervoso”.

Edição: Fábio M Michel

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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Em Campos dos Goytacazes, o servidor municipal está diante de uma escolha macabra: morrer de COVID-19 ou de fome

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Eu venho tentando não escrever muito sobre os caminhos percorridos pelo prefeito Wladimir Garotinho, já que eu lhe dei 100 dias de tolerância, mas existem ações “tão sem pé, nem cabeça” que não período de graça que resista. Esse é o caso do Decreto Municipal No. 059/2021 que determina a volta ao trabalho presencial de “servidores ou empregados públicos” maiores de 60 anos, conforme foi divulgado na página oficial do Sindicato dos Profissionais dos servidores Públicos de Campos (Siprosep) (ver imagem abaixo).

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A primeira questão que salta aos olhos é a determinação de servidores considerados como sendo parte dos grupos mais sob mais risco pela COVID-19 ao trabalho presencial, sem que haja qualquer garantia de que os ambientes de trabalho estarão devidamente higienizados. Além disso, há que se considerar que inexistindo o regime de Dedicação Exclusiva na Prefeitura de Campos dos Goytacazes, a proibição de que o servidor cumpra quaisquer “outras atividades laborativas presenciais, seja em locais públicos ou privados” beira a ilegalidade. É isto, lembremos, em um contexto em que existem milhares de servidores a quem a mesma prefeitura deve salários.

Também considero curioso que embora não tendo como garantir ambientes laborais completamente imunes à contaminação a um grupo servidores em grupo de alto risco e a quem deve salários, o prefeito Wladimir Garotinho ainda resolve se valer da ameaça de “deflagração de sindicância ou do processo administrativo disciplinar”, e ainda com ameaças de penalidades. aliás, alguém há que lembrar ao prefeitoladimir Garotinho que só é possível abrir processo administrativo disciplinar após a realização e conclusão de um processo de sindicância. Ou é isso, ou já se está antecipando a aplicação dos efeitos mais perniciosos da reforma administrativa que recentemente começou a tramitar no congresso nacional.  Aliás, fica parecendo que no governo de Wladimir Garotinho a reforma administrativa do governo Bolsonaro já entrou em vigência de forma antecipada.

Noto ainda que há uma estipulação de que o servidor que “não aceitar ser vacinado deverá retornar imediatamente ao trabalho” que, na inexistência objetiva de vacinas para serem aplicados em todos os servidores que assim desejarem, não passa de uma ameaça vazia e que se auto desmoraliza. E, pior, uma ameaça que só serve para acirrar ânimos e para criar um ambiente hostil para uma administração que precisaria ter os servidores fervorosamente comprometidos com o seu sucesso.

Quero aproveitar o tom do texto usado pelo Siprosep para divulgar uma medida que pode colocar em risco a vida de muitos de seus representados. Não noto nesse texto nem um tipo de crítica ao decreto, aliás, parece até que o sindicato é uma espécie de estafeta do prefeito quando oferece explicação em vez de crítica.

Finalmente, a minha dúvida é sobre o que se pretende dos servidores municipais, especialmente aqueles acima de 60 anos, quando se impõe um decreto como esse: querem que morram de COVID-19 ou de fome?

Investigação revela que Walmart, Costco e Kroger vendem nos EUA, carne da JBS que está ligada à destruição da Amazônia

Walmart, Costco e Kroger estão vendendo carne bovina importada do Brasil pela subsidiária Sampco da JBS.Walmart, Costco e Kroger estão vendendo carne bovina importada do Brasil pela subsidiária Sampco da JBS. Fotografia: Brendan McDermid / Reuters

Por Andrew Wasley e Alexandra Heal para o “The Guardian”

Três das maiores redes de supermercados dos Estados Unidos vendem carne brasileira produzida por uma polêmica empresa de carnes ligada à destruição da floresta amazônica , revelou uma investigação.

As gigantes do setor alimentício Walmart, Costco e Kroger – que juntas totalizaram vendas líquidas de mais de meio trilhão de dólares no ano passado – estão vendendo carne bovina brasileira importada da JBS, a maior empresa de carnes do mundo , que está associada ao desmatamento .

A carne bovina brasileira foi identificada como um dos principais impulsionadores do desmatamento na Amazônia, onde trechos de floresta são derrubados para pastagens usadas na pecuária. A Amazônia é um amortecedor crucial na estabilização do clima regional e global. Especialistas dizem que preservar as florestas tropicais do mundo é essencial para evitar a intensificação da emergência climática .

Pesquisa do Guardian, do Bureau of Investigative Journalism e da agência de análise de dados sem fins lucrativos C4ADS apurou que, nos últimos anos, a subsidiária da JBS Sampco Inc importou para os Estados Unidos milhares de toneladas de carne bovina brasileira, destinada a cadeias de supermercados e outras empresas de alimentos.

Os produtos incluem carne desfiada e enlatada (corned), bem como carne congelada e bifes. Em dezembro, a carne desfiada da marca Sampco, produzida em uma fábrica da JBS em São Paulo, estava sendo vendida online tanto pelo Walmart quanto pela Costco, e os dados de envio apontam as exportações da JBS de carne enlatada brasileira sendo fornecida para venda nas lojas Kroger.

Entre julho de 2017 e novembro de 2019, a Sampco importou mais de 5.000 remessas de produtos bovinos brasileiros, totalizando 7.884 toneladas, mostram os recordes obtidos pelo C4ADS.

Em resposta a essas descobertas, os ativistas pediram às cadeias de supermercados que tomassem medidas rápidas para livrar as cadeias de suprimentos de produtos associados ao desmatamento.

“Os supermercados precisam ir além de sua retórica de sustentabilidade, estabelecendo requisitos estritos para seus fornecedores, proibindo o desmatamento, monitorando seus fornecedores para conformidade e cancelando contratos com os piores infratores como a JBS”, disse Lucia von Reusner, diretora sênior de campanha da organização internacional de campanha Mighty Terra.

Costco se recusou a responder perguntas, mas apontou para suas políticas de sustentabilidade , que afirmam: “Nossa intenção não é obter carne de regiões de alto risco de desmatamento até que sistemas abrangentes de rastreabilidade e monitoramento estejam em vigor.”

Um porta-voz do Walmart disse: “O Walmart leva essas alegações a sério e analisará as alegações feitas. Acreditamos que as florestas saudáveis ​​sustentam a biodiversidade, sustentam a subsistência e desempenham um papel importante na mitigação das mudanças climáticas. O Walmart está trabalhando com fornecedores na certificação, monitoramento, apoio a regiões de compras sustentáveis, promovendo ações colaborativas e defendendo políticas eficazes. ” 

JBS, gigante da carne do Brasil, se compromete com fornecedores ligados ao desmatamento

Um porta-voz da Kroger disse: “Levamos o desmatamento a sério, conforme demonstrado pelo nosso compromisso de não desmatamento , e continuamos a envolver nossos fornecedores na busca por este compromisso e para garantir que nenhum desmatamento ocorra em nossas cadeias de fornecimento relevantes.”

As exportações de carne bovina da JBS foram vinculadas a fazendas envolvidas em 300 km2 de desmatamento por ano. A empresa abate quase 35 mil cabeças de gado por dia no Brasil.

Um porta-voz da JBS disse: “A falsa alegação de que as exportações da JBS estão ligadas ao desmatamento é irresponsável e baseada em análises superficiais e imperfeitas da correlação entre a concentração do desmatamento em nível municipal e a localização de nossas fábricas. Correlação não é causa ”.

Os ativistas disseram que as últimas revelações destacaram a necessidade urgente de leis americanas que combatam o desmatamento. Até o momento, não houve nenhuma proposta significativa nos Estados Unidos para uma legislação federal proibindo as importações agrícolas relacionadas ao desmatamento tropical, ao contrário da Grã-Bretanha e da UE, onde o ímpeto por novas regras recentemente ganhou força .

“Os EUA são cúmplices em impulsionar o desmatamento global por meio de suas vendas de produtos de carne bovina do Brasil”, disse Sarah Lake, vice-presidente e diretora da Mighty Earth para a América Latina. “O governo Biden tem a oportunidade de fazer avançar uma legislação para restringir a importação de produtos ligados ao desmatamento, assim como a UE, o Reino Unido e a França já estão fazendo.”

Brian Schatz, senador democrata pelo Havaí, disse antes da pandemia de COVID-19 que planejava introduzir essa legislação . E na semana passada, um projeto de lei foi apresentado à assembléia estadual da Califórnia exigindo que empreiteiros forneçam produtos ao estado para garantir que eles não estejam vinculados ao desmatamento no exterior.

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Este texto foi escrito originalmente em inglê e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Paradoxo verde

Duas novas publicações falham ao tentar combinar proteção climática e teoria econômica,  pois omitem que esse é todo o conflito.

O estado deve definir os preços dos combustíveis fósseis diretamente e torná-los mais caros. dpa

O tempo é essencial: a Alemanha deve ser quase neutra em termos de clima até 2035 se quisermos ajudar a evitar que a Terra aqueça mais de 1,5 graus. Mas o que isso significa para a economia alemã? Duas novas publicações tratam dessa questão.

Primeiro, há a antologia da “economistsforfuture”: 25 economistas alemães descrevem como a Economia teria de mudar para capturar adequadamente a crise climática. Infelizmente, a maioria dos textos permanece em um meta-nível destacado e exige que a economia seja “pluralista”, “reflexiva”, “transparente”, “holística” e “interdisciplinar”. Isso não está errado, mas não fica mais correto com a repetição constante.

Apenas o breve texto de Helge Peukert se destaca. O professor de economia de Siegen dá uma explicação concisa e clara sobre as teorias que existiam na economia até agora e como elas poderiam ser aplicadas à crise climática. Tudo ocorre da economia institucional ao feminismo. Seria desejável que este pequeno texto fosse a introdução – e que todos os outros autores tivessem feito o trabalho específico para iluminar economicamente a crise climática. Mas talvez isso aconteça, é de se esperar.

Sem conceitos viáveis

Também o ex-economista-chefe da Unctad (Conferência Mundial de Comércio e Desenvolvimento), Heiner Flassbeck , afirma que não existem conceitos viáveis ​​para resolver a crise climática. Por isso escreveu um texto polêmico em que acertou contas com os verdes, os neoliberais e os “representantes da transição energética”, entre outros.

Flassbeck está claramente descobrindo por que os impostos sobre o CO 2 causariam o caos nos mercados de energia. Em vez disso, o estado deve definir os preços dos combustíveis fósseis diretamente e tornar o gás, o petróleo e o carvão cada vez mais caros – para que as empresas possam fazer cálculos previsíveis e investir cada vez mais em energias renováveis.

Flassbeck também está convencido de que a cooperação global entre todos os países é necessária. Se a Alemanha renunciasse à energia fóssil, a demanda por petróleo ou gás cairia neste país – mas a consequência seria que os preços da energia fóssil também cairiam, o que deveria encorajar outros países a consumir ainda mais petróleo, porque isso acontece qunado o petróleo é tão barato.

Flassbeck escreve furioso, como se fosse o único a reconhecer que a proteção do clima, de todas as coisas, pode levar ao consumo de ainda mais petróleo. Mas, na verdade, esse “paradoxo verde” é tão óbvio que o economista neoliberal Hans-Werner Sinn escreveu um livro inteiro sobre isso em 2008. Estranhamente, o significado não aparece em nenhum lugar de Flassbeck. Isso não é apenas cientificamente desonesto, mas afasta os leitores da compreensão de que os economistas keynesianos e conservadores ocasionalmente concordam.

Crise climática subestimada

Além disso, surge a suspeita de que Flassbeck está subestimando a crise climática. Ele felizmente escreve: “No futuro, as mudanças climáticas irão determinar nossas vidas da mesma forma que o clima hoje, ou seja, de forma alguma.”

Essa presunção danifica o livro. Flassbeck é um economista importante, mas quando se trata de proteção climática, ele permanece muito abaixo de seu potencial.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo “TAZ” [Aqui!].

Uma grande rebordosa paira inquieta no horizonte do Brasil

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Não sei quantos já leram o texto postado pelo professor Roberto Moraes, do Instituto Federal Fluminense, em seu blog pessoal sob o título de “Independência do BC é o abre alas da avalanche neoliberal que sustenta o capitão cloroquina: Faria Lima desconfia que não terá dois anos pela frente!“. Mas quem ainda não leu, sugiro fortemente que leia. Acredito que dentre as centenas de análises feitas pela atual conjuntura política brasileira, a análise feita por Roberto Moraes vai no ponto fundamental que são os prognósticos de que o prazo de “validade” do presidente Jair Bolsonaro pode estar com os dias contados e, por causa disso, os verdadeiros “players” da economia política brasileira, i.e., o setor financeiro rentista e especulativo, está tentando atravessar o rio com a boiada inteira.
Eu não tenho retoque a fazer na postagem do Prof. Roberto Moraes, apenas um pequeno acréscimo no sentido de que provavelmente a rebordosa está mais próxima no horizonte do que a mídia corporativa brasileira nos permite ver, muito em parte por causa da concordância com seus proprietários com o desmanche dos direitos sociais e trabalhistas que lhes permite continuar mantendo seus navios acima da linha d´água.
Quem olha as principais manchetes e matérias secundárias vai imaginar que vivemos um momento de completa paralisia política em que inexiste sequer a latência de conflitos originados pela aplicação das medidas ultraneoliberais impostas pelo dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, o Sr. Paulo Guedes. Como observo outras fontes de informação, seja a mídia alternativa ou as redes sociais, sei que isto não é verdade, e que focos de intensos conflitos estão espalhados pelo Brasil em função do inevitável confronto que ocorre no chão entre os segmentos que se favorecem do atual governo com aqueles que estão perdendo tudo. A situação ainda não está evidente porque vivemos em meio a uma pandemia letal que objetivamente dificulta movimentos de massa.
Mas apesar de todas as sabotagens realizadas pelos ocupantes dos diferentes níveis de governo (do federal aos municipais), a pandemia eventualmente vai arrefecer e aí as situações de conflito tenderão a se avolumar, se tornando mais difíceis de serem ocultadas. Em seu livro “Minha Vida“, o revolucionário russo Leon Trotsky disse que não houve quem ficasse mais surpreso do que os líderes bolcheviques com a vitória da revolução de 1917. Segundo Trotsky, isso teria se dado porque não a própria direção revolucionária não teria avaliado corretamente o grau de maturidade da classe trabalhadora russa para pôr fim à tirania do Czarismo.
E aqui que ninguém se confunda e pense que estou prevendo o início de uma revolução no Brasil. Eu sou muito simplório para fazer previsões tão robustas. De fato, estou apenas dizendo que uma grande rebordosa já está armada no horizonte Brasil, e só ainda não estamos vendo por causa das estratégias de distração impostas não apenas pela máquina bolsonarista de propaganda, mas também pela mídia corporativa.
Não me surpreenderei se, tal como os líderes bolcheviques, os dirigentes dos partidos da esquerda institucional se declararem se subitamente a rebordosa estourar. Entretanto, o que me preocupa mesmo é quantos deles se colocaram às ordens do “exército branco” que irá se colocar em ação para sufocar as demandas por justiça social e emprego pleno.

Estudo revela o alcance da política anti ambiental do governo Bolsonaro: 59 iniciativas contra o meio ambiente

Estudo mostra que o governo brasileiro tem usado sistematicamente a distração corona para facilitar o desmatamento da floresta tropical

Outbreak of the coronavirus disease (COVID-19), in Manacapuru

Agentes de saúde municipais carregam vacinas da AstraZeneca / Oxford para a COVID-19 ao longo das margens do rio Solimões, onde vivem os ribeirinhos, em Manacapuru, estado do Amazonas. REUTERS / Bruno Kelly

RIO DE JANEIRO taz | Durante uma reunião do gabinete ministerial brasileiro realizada em abril de 2020, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi visto orientando como usar o foco da mídia na pandemia da COVID-19  para mudar as leis ambientais brasileiras sem a aprovação do Congresso. O pedido de Salles no vídeo para “passar a boiada” se tornou uma metáfora para a política ambiental do governo brasileiro.

Agora, um grupo de pesquisadores investigaram quais são as consequências da distração causada pela COVID-19 para a proteção ambiental. Conclusão: “Temos que concluir que o atual governo está explorando a pandemia da COVID-19 para enfraquecer a proteção ambiental no Brasil.” No estudo, que foi publicado pela revista Biological Conservation , os autores identificam um total de 59 iniciativas com as quais o o governo Bolsonaro enfraqueceu ou pretende enfraquecer as diretrizes de proteção ambiental existentes no Brasil.

Logo no início do governo Bolsonaro, o Ministério do Meio Ambiente tentou afrouxar a proteção da Mata Atlântica. Como resultado, o desmatamento ilegal em 20.000 km2 de áreas de florestas pode agora ficar impune. Outros 110.000 km2 de vegetação protegida em ilhas e áreas de mangue estão ameaçados de destruição. Após protestos, a iniciativa foi paralisada por enquanto. Mas o presidente Jair Bolsonaro questiona a constitucionalidade da lei de proteção ambiental perante a Suprema Corte. A decisão está pendente.

Além disso, as autoridades ambientais foram sistematicamente reestruturadas. Os servidores com experiência técnica ou em política ambiental tiveram que sair, em muitas áreas protegidas as autoridades agora estão com falta de pessoal ou sem gestão. Servidores foram demitidos por fazerem campanha contra o desmatamento.

Cortes drásticos em órgãos ambientais

Em abril, um dos programas de TV mais populares do Brasil exibiu gravações de funcionários do órgão ambiental Ibama realizando operações contra madeireiros e garimpeiros na área do povo indígena Ituna Itatá. Dois dias depois, o diretor de proteção ambiental do Ibama e dois funcionários tiveram que desocupar seus cargos. Além disso, o governo Bolsonaro cortou drasticamente o financiamento das autoridades ambientais e restringiu as oportunidades de participação da sociedade civil.

De acordo com os autores do estudo publicado pela Biological Conservation, tudo isso tem levado a cada vez menos multas para crimes ambientais. Nos primeiros sete meses da pandemia – que o estudo está analisando – o número de multas foi 72% menor do que o período anterior. Isso, por sua vez, levou ao aumento das taxas de desmatamento. Esses também alcançaram novos máximos durante a pandemia.

O que aconteceu após o período analisado pelos pesquisadores? “Acreditamos que o governo continua a usar a pandemia para relaxar as diretrizes de proteção ambiental”, disse a coautora Rita Portela, que é bióloga e professora de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Planos para fundir órgãos ambientais

Ela estava particularmente preocupada com os planos atuais do governo de fundir o Ibama com o Instituto de Conservação da Biodiversidade (ICMBio ).“Isso significaria uma reestruturação completa dos órgãos e que vai fragiliza-los ainda mais.” Há poucos dias, o governo também apresentou seus planos para 2021. Isso inclui vários projetos polêmicos – como a legalização de projetos de mineração em terras indígenas.

Segundo os pesquisadores, essa política não apenas ameaça a perda de espécies, mas mais gases de efeito estufa serão emitidos e comunidades indígenas serão dizimadas. A perda dos abrigos fornecidos pelas florestas acarreta outro risco: infecções zoonóticas e, portanto, o risco de novas pandemias.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal TAZ [Aqui!].