Desmatamento no mês de agosto chega a 1.661 km², sendo o segundo pior da série histórica

Dados divulgados pelo Inpe mostra que o registrado em agosto perde apenas para o ano de 2019 e acumulado desde janeiro é o maior da série 

fogoImagem aérea de desmatamento e queimadas no maior desmatamento registrado na Amazônia em 2022 | Foto: Nilmar Lage/Greenpeace

São Paulo, 9 de setembro de 2022  Dados do Programa DETER-B do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje (9), mostram que agosto registrou 1.661 km2, o segundo pior área acumulada com alertas de desmatamento da série histórica do Deter, perdendo apenas para o ano de 2019, também no governo Bolsonaro. Pará lidera, seguido do Mato Grosso e Amazonas. O registrado em agosto representa um aumento de 81% em relação ao ano anterior, e o acumulado de janeiro a agosto de 2022 foi o maior da série histórica, com 7.135 km2.

O que chama a atenção é a intensidade da destruição nos últimos meses quando comparado ao ano anterior: em agosto de 2022, o desmatamento cresceu e as queimadas dos primeiros sete dias ultrapassaram setembro do ano anterior. Para Cristiane Mazzetti, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil: “A destruição ambiental nos últimos anos ganhou velocidade e escala já que as porteiras foram escancaradas por um governo que abraça e incentiva o crime ambiental através de suas ações e omissões, não se sabe o dia de amanhã e é melhor garantir enquanto a porteira está aberta”.

O desmonte das políticas e instituições socioambientais promovidos pela gestão Bolsonaro, a exemplo do sucateamento de órgãos ambientais, cortes e baixa execução de orçamentos, omissão quanto à invasões fortemente denunciadas em terras indígenas, levou à explosão do desmatamento e da violência no campo: em média, a taxa de desmatamento pré e pós Bolsonaro aumentou 52% e de acordo com o relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as invasões em terras indígenas aumentaram três vezes quando comparadas à 2018, e o assassinato de indígenas tem virado rotina. “Estamos fazendo uma volta para o passado para o que há de mais retrógrado, agora, esse projeto de morte e destruição precisa ser imediatamente interrompido e revertido”, alerta Cristiane Mazzetti.

Para o Greenpeace Brasil é urgente a reversão do desmonte ambiental e a adoção de ações e medidas que consigam derrubar as altas taxas de desmatamento. “É necessário adotar uma meta de desmatamento zero, além de restabelecer um plano articulado de combate ao desmatamento, e fortalecer uma economia que conviva com a floresta em pé. Isso inclui o fortalecimento dos órgãos ambientais, a destinação de florestas públicas não destinadas para conservação e uso sustentável, a demarcação dos territórios indígenas reivindicados pelos povos originários, além de promover a proteção das áreas já destinadas com a desintrusão de invasores de Unidades de Conservação e Terras indígenas”, finaliza Cristiane Mazzetti.

Fotos e vídeos recentes de queimadas e desmatamento na Amazônia disponíveis aqui

A agropecuária impulsiona mais de 90% do desmatamento mundial mostra pesquisa inédita publicada na Science

CATTLE DEFORESTATION

Parar o desmatamento exigirá uma mudança radical na forma como o problema é abordado. Para serem eficazes, as medidas precisam contemplar tanto os papéis diretos quanto indiretos da agropecuária. Um novo estudo publicado hoje na proeminente revista Science aponta que entre 90% e 99% de todo o desmatamento nos trópicos é causado direta ou indiretamente pela agropecuária. No entanto, apenas algo entre metade e dois terços disso de fato resulta em expansão da produção agrícola nas terras desmatadas.

O estudo é uma colaboração entre muitos dos principais especialistas em desmatamento do mundo, e fornece uma nova síntese das relações entre desmatamento e agropecuária.

Após uma análise dos melhores dados disponíveis, o novo estudo mostra que a quantidade de desmatamento tropical causado pela agropecuária é superior a 80%, o número mais citado na última década.

Isso ocorre em um momento crucial após a Declaração de Glasgow sobre Florestas na COP26 e antes da Conferência de Biodiversidade da ONU (COP15) no final deste ano. Os resultados podem ajudar a garantir que os esforços urgentes para combater o desmatamento sejam guiados e avaliados por uma base de evidências adequada ao propósito.

Nossa análise deixa claro que entre 90 e 99 por cento de todo o desmatamento nos trópicos é causado direta ou indiretamente pela agropecuária, mas o que nos surpreendeu foi que uma parcela comparativamente menor do desmatamento — entre 45 e 65 por cento — resulta na expansão da produção agrícola real nas terras desmatadas. Essa descoberta é de profunda importância para criar medidas eficazes para reduzir o desmatamento e promover o desenvolvimento rural sustentável”, diz Florence Pendrill, principal autora do estudo na Chalmers University of Technology, na Suécia.

O fato de a agropecuária ser o principal motor de desmatamento tropical não é novidade. Entretanto, as estimativas anteriores de quanta floresta foi convertida em terras agrícolas nos trópicos variavam muito — de 4,3 a 9,6 milhões de hectares por ano entre 2011 e 2015. As novas descobertas neste estudo reduzem esse intervalo para 6,4 a 8,8 milhões de hectares por ano, e ajudam a explicar a incerteza nos números.

Uma grande peça do quebra-cabeça é quanto desmatamento é ‘para nada‘”, observou o Prof. Patrick Meyfroidt da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. “Embora a agropecuária seja o motor final, as florestas e outros ecossistemas são frequentemente desmatados para especulação de terras que vieram a ser usadas, projetos que foram abandonados ou mal concebidos, terras que se mostraram impróprias para o cultivo, bem como devido a incêndios que se espalharam para florestas vizinhas a áreas desmatadas”.

Compreender a importância desses fatores é fundamental para os formuladores de políticas — seja em mercados consumidores, como a legislação de devida diligência, recentemente proposta pela União Europeia para “produtos livres de desmatamento”, sejam iniciativas do setor privado para commodities específicas, ou ainda para políticas de desenvolvimento rural em países produtores.

O estudo deixa claro que um punhado de commodities é responsável pela maior parte do desmatamento ligado à produção em terras agrícolas. Mais da metade está ligada apenas a pastagens, soja e óleo de palma (dendê). Nesse sentido, o estudo também chama a atenção para as falhas de iniciativas setoriais específicas, geralmente limitadas para lidar com os impactos indiretos.

Iniciativas setoriais para combater o desmatamento podem ter um valor inestimável, e novas medidas para proibir a importação de commodities ligadas ao desmatamento nos mercados consumidores — como as que estão em negociação na UE, Reino Unido e EUA — representam um grande passo para além dos esforços quase todos voluntários até agora para combater o desmatamento‘, disse o Dr. Toby Gardner do Instituto do Meio Ambiente de Estocolmo e Diretor da iniciativa Trase, de transparência para cadeia de fornecimento. “No entanto, como mostra o nosso estudo, fortalecer a governança florestal e do uso da terra nos países produtores deve ser o objetivo final de qualquer resposta política. As cadeias de fornecimento e as medidas de sustentabilidade tomadas pelos consumidores precisam ser concebidas de maneira que também lidem com as formas indiretas através das quais a agropecuária está ligada ao desmatamento. Eles precisam levar a melhorias no desenvolvimento rural sustentável, caso contrário as taxas de desmatamento permanecerão teimosamente altas em muitos lugares”, acrescentou o Dr. Gardner.

Os resultados do estudo apontam para a necessidade de as intervenções nas cadeias de fornecimento irem além do foco em commodities específicas e em mera gestão de risco. Elas precisam ir além e ajudar também a impulsionar parcerias entre produtores e mercados consumidores e governos. Isso precisa incluir fortes incentivos para tornar a agropecuária sustentável mais economicamente atraente ao mesmo tempo em que desincentiva a conversão de vegetação nativa e apoia os pequenos produtores mais vulneráveis.

Os autores dizem que isso deve incluir um foco mais forte nos mercados domésticos, muitas vezes os maiores impulsionadores da demanda por commodities, como o caso da carne bovina no Brasil, além de um fortalecimento de parcerias entre empresas, governos e sociedade civil nas jurisdições produtoras.

Por fim, o estudo destaca três lacunas importantes onde mais evidências são necessárias para orientar os esforços de redução do desmatamento; “A primeira é que, sem uma base de dados global e temporalmente consistente sobre desmatamento, não podemos ter certeza sobre as tendências gerais de conversão.

A segunda é que, com exceção do dendê e da soja, carecemos de dados sobre a cobertura e expansão de commodities específicas para saber quais são mais importantes. A nossa compreensão global sobre pastagens é das que mais precisam de melhoria. A terceira é que sabemos comparativamente muito pouco sobre florestas tropicais secas e sobre as florestas na África”, disse o professor Martin Persson, da Chalmers University of Technology.

O que é mais preocupante, dada a urgência da crise”, acrescentou o Prof. Persson, “é que cada uma dessas lacunas de evidência impõe barreiras significativas à nossa capacidade de reduzir o desmatamento da maneira mais eficaz — sabendo onde os problemas estão concentrados, ou compreender o sucesso dos esforços até agora”.

Apesar dessas lacunas de conhecimento e incertezas remanescentes, o estudo enfatiza que uma mudança radical nos esforços é urgentemente necessária para combater e conter efetivamente o desmatamento, assim como para evitar a conversão de outros ecossistemas e promover o desenvolvimento rural sustentável.

A Declaração de Glasgow sobre Florestas reconheceu a importância de abordar conjuntamente as crises do clima e da perda de biodiversidade, e estabeleceu um novo nível de ambição para combater o desmatamento e promover a agropecuária sustentável. Os autores deste novo estudo enfatizam que é fundamental que os países e seus formuladores de políticas comecem a priorizar esses objetivos.

Articulação Agro é Fogo publica dados sobre a conexão entre incêndios e conflitos por terra

Incêndios são armas em conflitos por terra na Amazônia e no Cerrado, onde o agronegócio continua a invadir e ameaçar as comunidades tradicionais

fogo

Na semana em que celebramos as duas maiores regiões do país (Dia da Amazônia e Dia do Cerrado), ainda precisamos denunciar que elas são as mais ameaçadas por incêndios, conflitos e o avanço do agronegócio.

card_fogo_e_violencia_01-3-1-1024x1024

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 90% dos focos de incêndio estão na Amazônia e no Cerrado. E é justamente nessa época do ano, período de estiagem, entre agosto e setembro, que a dita “temporada de fogo”, que na verdade é temporada de crimes, tem maior incidência.

card_fogo_e_violencia_02-1024x1024

Conforme levantamento do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno — CPT, a partir dos dados do Caderno de Conflitos no Campo 2021, temos um sério diagnóstico: é no Cerrado, Amazônia e na região de transição do Cerrado que 72% dos conflitos por terra envolvendo o uso do fogo (incêndios florestais, queima de roçados, queima de casa, queima de casas de reza e queima de pertences), estão localizados. Isso significa 83% (31.355) das famílias afetadas por ocorrências envolvendo o uso criminoso do fogo no país e em regiões de conflitos agrários.

card_fogo_e_violencia_04-1024x1024

O uso de falácias e promoção de desinformação como “o agronegócio e o meio ambiente andam juntos”, “agronegócio sustentável”, “o agro sustenta o país” ou “são os ribeirinhos que tacam fogo na Amazônia”, silencia vários crimes do qual os incêndios estão envolvidos. Há três anos do chamado “dia do fogo”, e, 2022 já tivemos picos de focos de incêndio bem maiores, que inclusive formaram nuvens de fumaça tóxica em municípios da região Amazônica e causaram e causam prejuízos a saúde das pessoas.

card_fogo_e_violencia_05-1024x1024

Ainda segundo o levantamento e como reforça o DOSSIÊ AGRO É FOGO, existe uma sobreposição de violências que incidem, cotidianamente, sobre povos e comunidades tradicionais lançados à linha de frente do fogo, literalmente. A melhor forma de manter o Cerrado e a Amazônia de pé é mantendo os povos e comunidades tradicionais em seus territórios de direito.

NA AMAZÔNIA E NO CERRADO TEM GENTE, PAREM DE INCENDIAR NOSSAS CASAS!
Acesse o infográfico e saiba mais em nossa matéria completa: clique aqui

7 de Setembro/2022 sintetizado por uma imagem de Copacabana

A cidade do Rio de Janeiro é um dos bolsões principais dos apoiadores de Jair Bolsonaro, mas também é um local onde ocorrem manifestações de oposição cotidiana, principalmente pelos mais pobres que estão sendo diretamente afetados pelas políticas ultraneoliberais do atual governo.

Por isso, a imagem abaixo me parece uma síntese da tensão social que existe entre os apoiadores de Bolsonaro, que uma minoria, com a maioria, especialmente os mais jovens.

wp-1662585044160

No frigir dos ovos, nada que já não se saiba, mas é sempre bom ter essas imagens para que não caiamos no conto do vigário das fotomontagens bolsonaristas.

Manifestações pró-Bolsonaro no 7 de setembro sofrem encolhimento, apesar de continuarem estridentes

bolsonaro 7 de setembro

A captura do dia 7 de setembro pela campanha eleitoral do presidente Jair Bolsonaro ainda será estudada pelos historiadores e cientistas sociais do futuro.  É que hoje se completam os duzentos anos da independência política do Brasil, mas que são marcadas pela presença ostensiva de apoiadores de um governo claramente anti-nacional, apesar de todo o discurso em contrário. É que tendo entregue estatais estratégicas ao controle de governos estrangeiros (o da China inclusive), o governo Bolsonaro completou sua obra com uma escancarada abertura à influência de grupos estrangeiros que aagenda, ainda que informalmente, por exemplo, na exploração ilegal de ouro na Amazônia.

Do ponto de vista interna, o governo Bolsonaro implantou políticas que agravaram a fome e a miséria, e tornaram insustentáveis as vidas de milhões de brasileiros. Com seu nacionalismo castiço, Bolsonaro criou um país que não tem empregos, pois aliados como Luciano Havan aproveitam os incentivos para inundar o comércio brasileiro com bugigangas que ninguém mais consome. 

wp-1662583987470

As multidões (pequenas e barulhentas) que estão hoje nas ruas para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro atendem ao seu chamado por se enxergarem como parte dos milhões que sofrem os efeitos desse governo anti-nacional e anti-povo. Apenas podemos entender essa adesão se olharmos para a estrutura social herdada do período colonial escravocrata que ainda se mantém relativamente intacta. É apenas a negação de olhar para a história brasileira pode explicar que segmentos das classes médias baixas possam aderir a um governante que só tem agido para precarizar suas vidas.  É o poder da ideologia obscurecendo o entendimento da realidade, pura e simplesmente.

A boa notícia é que apesar de estridentes, as multidões bolsonaristas encolheram até no Rio de Janeiro

Imagens aéreas se espalham e internautas apontam que 7 de setembro  bolsonarista em Brasília fracassou: “flopou” - Brasil 247

Pessoas honestas que olham hoje para as pequenas multidões bolsonaristas ficam impressionadas com a quantidade de pessoas que ainda saem às ruas para apoiar Jair Bolsonaro.  O grau de impressão que é causada varia do estado onde a manifestação ocorre para aquela onde ela é mostrada.  Eu que moro em um estado fortemente controlado pela ideologia bolsonarista não me impressiono mais, pois já multidões muito maiores, por exemplo, no período anterior ao golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.

Ao menos nas imagens que vi de Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro, o grau de estridência foi o costumeiro, mas as quantidades foram visivelmente menores.  Além disso, o uso de imagens fechadas para mostrar o apoio a Bolsonaro é uma demonstração a mais que está se tentando inflar a real afluência aos atos, pois quando as imagens são abertas, é possível ver que não é tanta gente assim (apesar de ainda serem muitas).

O resultado final disso é que nem estamos tendo o golpe de estado que é temido para o segundo sete de setembro seguido, nem houve uma mudança para cima dos presentes nos atos. O resultado disso é que a única esperança real de que os ideólogos da campanha presidencial de Jair Bolsonaro podem ter é que o uso extensivo das imagens fechadas sirva para aquecer uma campanha que nem o aporte milionário tardio em auxílio financeiro para os pobres está aumentando as intenções de voto. 

E com um detalhe: o relógio para o dia do primeiro turno continua avançando de forma inapelável.

Dia da Amazônia é celebrado pelo agronegócio com muita queimada e fumaça

Desde 1º de janeiro até domingo (4), Amazônia teve 58 mil focos de queimadas, total que representa 20% a mais do que o registrado em 2021

bolso fogo

Jair Bolsonaro é um aliado preferencial na destruição orquestrada pelo agronegócio na Amazônia

O dia de ontem (5 de setembro) é marcado por ter sido definido como  o “Dia da Amazônia” para celebrar a biodiversidade e os povos que transformaram aquela parte da Terra em um berçário de vida e importantes serviços ambientais.  Mas ao em vez de termos celebrações e, mais importante ainda, políticas para garantir a proteção e o uso racional da biodiversidade amazônica, o que as imagens de satélite mostram que no “Dia da Amazônia”  boa parte de região estava ardendo em chamas (pontos vermelhos) e coberta por uma espessa camada de fumaça (ver imagens abaixo).

fumaçadia da fumaça

Se a dramaticidade dos acontecimentos em curso na Amazônia não são suficientes com imagens congeladas, mostro abaixo um pequeno clipe da espessa camada de fumaça que cobre boa parte da bacia, em uma demonstração que a insanidade dos operadores do agronegócio (desde aqueles sentados confortavelmente em um algum “headquarter” corporativo do hemisfério até o operador de trator que desmata usando correntão para deixar o patrão brasileiro ainda mais rico) não tem limites.

Como venho mostrando de forma repetida em diferentes postagens, não há nada de muito avançado na lógica que o agronegócio utiliza para destruir os ecossistemas amazônicos, na medida em que o que vale mesmo é o avanço da mancha de desmatamento e de degradação sobre áreas intocadas, na medida em que as áreas antigas perdem rapidamente a capacidade de gerar produção sem pesados investimentos, coisa que os operadores do agronegócio não querem nem pensar em ter de fazer.

O problema é que a conta desta destruição virá na forma de secas prolongadas, dentro e fora da Amazônia, o que agravará o processo de ressecamento de áreas extensas do planeta, inclusive no Brasil. Com isso, a possibilidade é de que tenhamos um agravamento das mudanças climáticas que, por sua vez, ameaçarão as áreas que ainda possuem florestas relativamente intactas, criando uma espécie de feedback positivo que poderá resultar na realização da hipótese da savanização da Amazônia. 

E tudo isso para quê? Apenas garantir que o agronegócio gere ainda mais riqueza para um grupo diminuto de pessoas. Ah, e antes que eu me esqueça: em vez de matar a fome,  com sua voracidade por devorar florestas, o agronegócio está preparando um ciclo de fome sem precedentes na história moderna.

 

 

Grandes partes da Amazônia atingiram ponto de inflexão, podendo nunca mais se recuperar, diz grande estudo

Faixas da floresta tropical atingiram o ponto de inflexão, conclui pesquisa de cientistas e organizações indígenas

qieomada novo progresso

Fumaça sobe de uma queimada ilegal em uma reserva de floresta tropical ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. Fotografia: Carl de Souza/AFP/Getty Images

Por André Downie para o “The Guardian”

A destruição ambiental em partes da Amazônia é tão completa que faixas da floresta tropical atingiram o ponto de inflexão e podem nunca mais se recuperar, descobriu um grande estudo realizado por cientistas e organizações indígenas.

“O ponto de inflexão não é um cenário futuro, mas uma etapa já presente em algumas áreas da região”, conclui o relatório. “Brasil e Bolívia concentram 90% de todo desmatamento e degradação combinados. Como resultado, a savanização já está ocorrendo em ambos os países.”

Cientistas da Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (RAISG) trabalharam com a Coordenadoria de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) para produzir o estudo Amazônia Contra o Relógio, um dos maiores até agora, abrangendo todos os nove as nações que contêm partes da Amazônia.

Descobriu-se que apenas dois dos nove, o minúsculo Suriname e a Guiana Francesa, têm pelo menos metade de suas florestas ainda intactas.

Organizações indígenas da Amazônia representando 511 nações e aliados estão pedindo um pacto global para a proteção permanente de 80% da Amazônia até 2025.

A meta de 80% é um grande desafio, uma vez que apenas 74% da floresta original permanece. Ações urgentes são necessárias não apenas para proteger a floresta ainda em pé, mas também para restaurar as terras degradadas e voltar a esse nível de 80%.

“É difícil, mas factível”, disse Alicia Guzmán, cientista equatoriana que coordenou o relatório. “Tudo depende do envolvimento das comunidades indígenas e das pessoas que vivem na floresta. Isso e a dívida.”

Guzmán disse que dar aos grupos indígenas a administração de mais terras – e, crucialmente, fornecer proteção estatal para elas e remover brechas legais que permitem a entrada de indústrias extrativas – é a maneira mais segura de garantir a preservação.

Quase metade da Amazônia foi designada como área protegida ou território indígena, e apenas 14% de todo o desmatamento ocorre lá. Atualmente, cerca de 100 milhões de hectares de terras indígenas estão em disputa ou aguardando reconhecimento formal do governo.

“Ter indígenas no processo de tomada de decisão significa que contamos com o conhecimento de quem mais conhece a floresta”, disse Guzmán. “E eles precisam de orçamentos.”

Eles também precisam que suas terras sejam protegidas de grileiros e indústrias extrativas.

A mineração é uma das ameaças crescentes, com áreas protegidas e terras indígenas entre as áreas mais cobiçadas pelos garimpeiros. Grande parte da mineração é clandestina e ilegal, mas cerca de metade em áreas protegidas é feita legalmente, e os cientistas pediram aos governos que rejeitem ou revoguem as licenças de mineração.

O petróleo é outra ameaça, principalmente no Equador, fonte de 89% de todo o petróleo exportado da região.

Os blocos de petróleo cobrem 9,4% da superfície da Amazônia e 43% deles estão em áreas protegidas e terras indígenas. Mais da metade da Amazônia equatoriana é designada como um bloco de petróleo, segundo o relatório, e as porções no Peru (31%), Bolívia (29%) e Colômbia (28%) também são preocupantes.

De preocupação ainda maior é a agricultura. A agricultura é responsável por 84% do desmatamento, e a quantidade de terras destinadas à agricultura triplicou desde 1985, segundo o relatório. O Brasil é um dos principais exportadores de alimentos do mundo, com soja, carne bovina e grãos alimentando grande parte do mundo e faturando bilhões de dólares a cada ano.

Uma das principais recomendações do estudo é mais colaboração entre governos regionais, instituições financeiras internacionais e empresas de private equity que detêm grande parte da dívida das nações amazônicas.

A América Latina é a região mais endividada do mundo em desenvolvimento e a anulação dessa dívida em troca de compromissos de preservação seria significativa.

“Eles têm uma oportunidade única diante deles de perdoar dívidas existentes em troca de compromissos para acabar com a extração industrial e promover proteções em áreas prioritárias, territórios indígenas e áreas protegidas”, diz o relatório.

Entre as outras 13 “soluções” propostas no relatório estão: a suspensão completa de novos licenciamentos e financiamentos para mineração, petróleo, pecuária, grandes barragens, extração de madeira e outras atividades; maior transparência e responsabilidade ao longo das cadeias de suprimentos; a restauração de terras desmatadas; novos modelos de governança que permitem maior representação e reconhecimento dos povos nativos.

Embora a tarefa seja enorme, há motivos para otimismo e principalmente no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro enfrenta o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma eleição tensa em 2 de outubro.

Lula lidera nas pesquisas. Durante seu tempo no poder nos anos 2000, o desmatamento caiu mais de 80%.

color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

 

Inverno mais uma vez se prova um aliado inabalável da Rússia em mais um conflito militar

inverno russia

A recente decisão da Gazprom, estatal que é maior empresa de gás da Rússia e também do mundo, de suspender indefinidamente os seus suprimentos para a Europa gerou um efeito dominó em termos de forte alta de preços e depreciação do Euro e da libra esterlina. Esse movimento, baseado na mais básica noção de uso de uma commodity com finalidades estratégicas, promete transformar o próximo inverno europeu em um pesadelo para os povos do continente, mas também para os governantes que optaram por transformar o conflito entre Rússia e Ucrânia em um proxy de uma futura 3a. guerra mundial.

Gazprom corta gás natural para Europa em 31 de agosto | Plásticos em Revista

As elites europeias, pressionadas pelo governo de Joe Biden, deveriam ter feito um mínimo de lição de casa, pois tanto Napoleão Bonaparte como Adolf Hitler viram suas aspirações imperiais atolarem no território gelado da Rússia. E tudo indica que dessa vez os russos vão passar um inverno em meio às baixas temperaturas nas ruas, mas com temperaturas mais elevadas dentro de casa, ao contrário dos europeus que estão neste momento quebrando a cabeça para ver como vão se virar sem o gás russo.

Mas antes que se culpe o governo de Vladimir Putin por agir dentro de uma lógica fria e calculista, há que se lembrar que a ideia de impor uma articulação entre os mercados consumidores europeus e a Rússia foi dos governos neoliberais que comandam com mão de ferro o Conselho Europeu.  A questão é que quando impuseram atrasos pensados na adoção de energias alternativas ao gás russo, as elites europeias provavelmente desprezaram a ideia de que essa dependência poderia se voltar contra seus interesses na forma de uma arma de guerra.

Por outro lado, está ficando claro, e as manifestações populares já estão começando em diferentes países europeus, que não se pode declarar guerra contra um país que detém tamanho controle de uma commodity estratégica em um continente que, apesar e por causa das mudanças climáticas, pode ter invernos bem rigorosos.

Thousands Protest in Prague Over Energy Crisis - Bloomberg

Manifestação realizada em Praga no sábado (03/09), capital da República Tcheca, demanda neutralidade no conflito bélico na Ucrânia em troca de garantia de fornecimento de gás. Foto: Petr David Josek/AP

Como o gás fornecido pelos EUA é muito mais caro que o russo, a batata quente está cada vez mais nas mãos dos governantes que decidirar, na prática, declarar guerra à Rússia, ainda que usando a Ucrânia como anteparo.

Finalmente, não deixa de ser curioso que em pleno Século XXI, uma estação do ano possa estar se provando uma arma de guerra tão eficiente e devastadora, antes mesmo de ter sido acionada. Por isso mesmo, a lentidão que muitos analistas veem na ação das forças militares russas seja apenas um cálculo bem feito de que o principal reforço está pronto para entrar em ação  de forma brutal em pouco mais de 3 meses e vai estar claramente presente no campo de batalha até março de 2023. E isso certamente irá testar a disposição dos europeus em permanecer em guerra com a Rússia. 

Em editorial, “The Lancet” abre exceção, aborda eleição presidencial no Brasil e diz que país precisa de mudança urgente

Novos começos para a América Latina?

lula

Editorial

As apostas são altas para as próximas eleições presidenciais do Brasil. Se as previsões atuais estiverem corretas, o presidente Jair Bolsonaro será derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, seja no primeiro turno, em 2 de outubro, ou no segundo turno, em 30 de outubro. . Há temores no país de que Bolsonaro, conhecido por sua volatilidade e incitação indireta à violência, não vá em silêncio. Ele já criticou o sistema de votação eletrônica do Brasil na presença de embaixadores estrangeiros.

O manejo desastroso de Bolsonaro com a pandemia de COVID-19 e seu desrespeito às mulheres, minorias étnicas, povos indígenas e meio ambiente são amplamente conhecidos. Durante o reinado de Bolsonaro, as medidas de proteção social foram prejudicadas pelo financiamento reduzido, as desigualdades e a pobreza aumentaram acentuadamente, e o Brasil voltou a aderir ao Mapa da Fome da ONU. De acordo com dados da 2ª Pesquisa Nacional de Insegurança Alimentar divulgados em junho, estima-se que 30,7% dos brasileiros estejam passando por insegurança alimentar moderada ou grave devido à combinação da pandemia, aumento do desemprego, enfraquecimento de programas sociais e desmantelamento de políticas de bem-estar. Mais de 3,5 anos do regime de Bolsonaro deixaram o Brasil em sua pior posição em décadas. As questões perenes de desigualdade, pobreza, e a corrupção continuam a prejudicar os brasileiros e sua saúde. A violência baseada em gênero e com armas ainda é galopante e a decisão de Bolsonaro de relaxar as leis de armas foi um passo na direção errada. Correspondência publicada emThe Lancet descreveu como cientistas e instituições científicas foram prejudicados. O Brasil precisa de uma mudança urgente.

Se as previsões para a eleição do Brasil estiverem corretas, ela se juntará a outros países latino-americanos onde há uma esperança renovada de mudança social progressiva. Os dois líderes mais recentemente eleitos na América Latina são Gustavo Petro (na Colômbia), ex-guerrilheiro que assumiu em agosto, e Gabriel Boric (no Chile), no cargo desde 11 de março. promessas de renovar a saúde e a educação, combater a corrupção e a pobreza e proteger os direitos dos trabalhadores, muitos ainda não produziram mudanças substanciais. Como Boric e Petro diferem está na inclusão de proteção climática e sustentabilidade, proteção dos direitos das mulheres e inclusão política de minorias étnicas em seus manifestos.

Pela primeira vez na história do Chile, a maior parte do gabinete e metade dos ministros são mulheres. A vice-presidente é Francia Márquez, ativista ambiental e de direitos humanos afro-colombiana. Boric tem uma forte agenda ambiental com um claro entendimento de que os combustíveis fósseis pertencem ao passado, uma espécie de exceção em uma região onde muitos governos ainda apoiam as exportações de mineração e petróleo. Em 4 de setembro, os chilenos votarão em um referendo sobre uma nova constituição, que inclui o direito ao aborto eletivo e afirma que o sistema nacional de saúde é universal. A Petro se comprometeu a combater a desigualdade fornecendo educação universitária gratuita, reformas previdenciárias e altos impostos sobre terras improdutivas. Os desafios são enormes,

A região também precisa de uma organização de saúde forte e líder para apoiar os Estados membros em seus esforços para melhorar a saúde e o bem-estar de suas populações. Um novo diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) será escolhido em votação secreta na 30ª Conferência Sanitária Pan-Americana de 26 a 30 de setembro. Brasil, Colômbia, México, Panamá, Haiti e Uruguai têm todos os candidatos indicados e o novo diretor começará um mandato de 5 anos em 1º de fevereiro de 2023. A estabilidade financeira está no topo da agenda dos candidatos, pois a OPAS estava perto da insolvência em 2020 , durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19, com os estados membros atrasando os pagamentos e os EUA sob o presidente Trump interrompendo seu apoio à OMS. Mas a OPAS também precisa de uma agenda claramente priorizada, mais urgentemente, para examinar as lições aprendidas e as mudanças necessárias para a região após a pandemia.

Há uma chance sem precedentes de novos começos na América Latina; uma oportunidade de fazer mudanças positivas para aliviar a profunda negligência, desigualdade e violência. Esperemos que o Brasil escolha aproveitar esta oportunidade.

Para mais informações sobre a pobreza alimentar no Brasil, consulte https://olheparaafome.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Relatorio-II-VIGISAN-2022.pdf

Para saber mais sobre como os cientistas e a ciência brasileiros foram prejudicados, veja Correspondence Lancet 2021; 397: 373–74 e Correspondência Lancet 2022; 399: 23-24

Para saber mais sobre o programa tributário da Columbia, consulte https://www.ft.com/content/35d3eae3-5166-42f6-b0b0-a66c6c709116

Para mais informações sobre os candidatos a Diretor da OPAS, consulte World Report Lancet 2022 399: 2337–38

Para acessar o arquivo pdf deste artigo basta clicar Aqui!


compass black

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “The Lancet” [Aqui! ].