Pesquisadores da UFPR alertam que nova lei de agrotóxicos pode envenenar o mundo

Para pesquisadores do Observatório de Agrotóxicos da UFPR, o Congresso deveria instituir um programa nacional de redução de agrotóxicos em vez de abrir as portas do Brasil para produtos amplamente proibidos no mundo

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Por Afonso Murata, André Cavalcante, Natali Miller, Laís Carneiro, Larissa Faria e Jean Vitule para o “Ciência UFPR”

 Já aprovado na Câmara dos Deputados, tramita agora no Senado um controverso projeto de lei (PLS 526/1999) que flexibiliza a atual legislação de pesticidas. Sob o argumento de que o registro de novos produtos é um processo muito moroso, este PL propõe mudanças na avaliação e autorização de novos pesticidas, excluindo o Ibama e a Anvisa do processo de decisão final. Algo ainda mais preocupante é que as substâncias previamente banidas poderão ser reavaliadas sob estas novas regras. Ou seja, este PL segue a tendência política de enfraquecer a legislação ambiental, priorizando o setor produtivo em detrimento do meio ambiente e da saúde pública do país.

Só em 2022, foi autorizado o uso de 562 novos agrotóxicos no Brasil, muitos deles importados da Europa e da América do Norte. Vários destes pesticidas têm seu uso proibido nos países onde são produzidos, mas as empresas continuam exportando para lugares com legislação mais permissiva, como o Brasil.

O uso indiscriminado de agrotóxicos sem a devida avaliação é, sobretudo, uma questão de saúde pública. Na última década, intoxicações e mortes relacionadas ao envenenamento por agrotóxicos aumentaram em 94% em nosso país.

Em casos de exposição contínua, os agrotóxicos podem acumular nos organismos, causando inflamações crônicas e doenças autoimunes. Esses compostos também podem passar ao longo da cadeia alimentar e serem encontrados até mesmo no leite materno.

Um dos grandes problemas é que os agrotóxicos são altamente persistentes, ou seja, permanecem na água e solo por muito tempo, além de serem carregados pelo ar, o que aumenta o seu potencial de contaminação. Dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, mostram que neste ano foi detectada, em mais de 2,3 mil cidades brasileiras, água “potável” contaminada por agrotóxicos.

São 27 substâncias persistentes ao tratamento convencional da água e quando combinadas atingem 99% do valor máximo tolerado pela legislação brasileira, que é 2.706 vezes o limite dos países europeus, segundo apresentado por pesquisadores e entidades em audiência pública da Fiocruz Brasília em 2019 sobre o tema.

Não podemos esquecer que se a água pós-tratamento está contaminada, aquela presente nos corpos hídricos o está continuamente. E isso compromete a conservação da biodiversidade, o funcionamento de ecossistemas e, consequentemente, a segurança hídrica.

A Associação Brasileira de Limnologia ao apontou isso ao portal de notícias UOL, em maio. A produção de água, de acordo com a bióloga Vivian Cionek, ultrapassa a capacidade da infraestrutura de concreto das estações de tratamento, que, por sua vez, demanda mais que as capacidades de mão de obra técnica e recursos de muitos municípios. Para ela, produzir água potável integra um ciclo biogeoquímico dependente da conservação da bacia hidrográfica com sua vegetação natural e livre de lançamentos de resíduos e efluentes.

O Brasil abriga, respectivamente, 20 % do total de espécies e 13,7 % da água doce disponível do planeta. Recursos nacionais, porém, importantíssimos para o equilíbrio do mundo.

Além disso, o uso indiscriminado dos agrotóxicos pode causar sérios problemas para a biodiversidade, afetando serviços ecossistêmicos essenciais para a vida dos seres humanos. Alguns dos ingredientes ativos dos agrotóxicos são inseticidas fatais para as abelhas. Esses insetos contribuem para a manutenção de populações de plantas nativas que sustentam a existência de diversas espécies e também para a produtividade agrícola.

No Brasil, as abelhas estão associadas a 132 (92%) cultivos diferentes, sendo polinizadores exclusivos de 74 deles.

É estimado que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país gira em torno de R$ 43 bilhões anuais (cálculo realizado para 67 plantas, entre elas soja, café, laranja e maçã que representam 80% desta quantia). Por isso, a redução das populações de abelhas, além de ter um impacto negativo para a biodiversidade, também pode levar a prejuízos econômicos para o setor agrícola.

O Brasil é um dos líderes na exportação de culturas agrícolas, como a soja, que é destinada a diversos países, especialmente para a produção animal. Por isso, a possível aprovação deste PL (que agora aguarda avaliação pelo Senado Federal) deveria ser uma preocupação global, uma vez que o uso de insumos produzidos com agrotóxicos na alimentação animal afeta também a qualidade do produto final. Como já avaliado em um relatório da Organização das Nações Unidas em 2017, nós não precisamos de mais agrotóxicos para alimentar o mundo. Existem soluções que já são bem conhecidas para aumentar a produtividade e que não requerem o uso intensivo de agrotóxicos, como a agroecologia.

Inclusive um projeto de lei alternativo (PL 6670/2016) poderia colocar o Brasil em uma direção melhor, iniciando um programa nacional de redução de pesticidas. Porém, esta proposta tem recebido menos atenção e é improvável que se torne lei sob o governo atual. O fortalecimento das agências ambientais e o investimento em ciência e tecnologia, especialmente baseados em espécies e produtos nacionais, são medidas necessárias para atingirmos o desenvolvimento sustentável no agronegócio.

Autores
AFONSO MURATA é professor titular do Departamento de Fitotecnia e Fitossanitarismo e membro do Observatório de Agrotóxicos da UFPR
ANDRÉ CAVALCANTE é engenheiro ambiental e mestrando em Engenharia Ambiental (PPGEA) da UFPR
NATALI MILLER é bióloga, mestre em aquicultura e desenvolvimento sustentável e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LAÍS CARNEIRO é engenheira ambiental (UNIFEI) e doutoranda em Ecologia e Conservação pela UFPR
LARISSA FARIA é mestre em Ecologia e Conservação pela UFPR
JEAN VITULE é professor no Departamento de Engenharia Ambiental e coordena o Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR
➕ Artigo baseado no comentário “Brazilian pesticides law could poison the world“, publicado na seção de cartas da revista Science em abril.

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Este texto foi originalmente publicado pela Ciência UFPR [Aqui!].

Estudo aponta que florestas tropicais estão menos úmidas e resistentes, ficando mais vulneráveis

sequia-bosques-996x567A Amazônia apresenta uma redução de umidade mais acentuada do que nas florestas tropicais africanas e asiáticas. Crédito da imagem: Antonio Alberto Nepomuceno/Flickr , sob licença Creative Commons (CC BY-NC 2.0)

Enquanto na floresta latino-americana a redução foi de 93%, especialmente no sul e sudoeste, nas florestas tropicais africanas e asiáticas a redução foi de 84 e 88%, respectivamente.

Além disso, nos três continentes, as florestas tropicais apresentam baixa resiliência à seca, ou seja, pouca capacidade de retornar às condições que apresentavam antes dos períodos de déficit hídrico . Os dados, publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States (PNAS) , apontam o quão limitada é a capacidade desses biomas de resistir a futuras secas.

Com base na observação de imagens de radar de longo prazo (entre 1992 e 2018), com base nos satélites ERS e ASCAT, o estudo relata uma crescente vulnerabilidade dessas florestas à seca.

“Usamos um conjunto de dados que penetra na densa cobertura de nuvens sobre florestas tropicais intactas. Como resultado, vemos uma vulnerabilidade crescente às secas”, disse Shengli Tao, principal autor do estudo, pesquisador do Centro Nacional de Estudos Espaciais de Toulouse, na França, e professor assistente do Instituto de Ecologia da Universidade da França. disse à SciDev.Net Pequim, na China.

“Após o período de estresse causado pela seca, espera-se que a floresta tenha capacidade de retornar à sua condição anterior. O que os autores dizem neste estudo é que isso não aconteceu, antecipando que, com as mudanças climáticas, haverá secas cada vez mais prolongadas.”

Marcos Pedlowski, Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais, Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Rio de Janeiro, Brasil

De acordo com o estudo, as variações nos sinais de radar refletem a dinâmica do dossel florestal (a cobertura florestal superior formada pela copa das árvores) e, portanto, estão relacionadas às mudanças na biomassa das árvores, que inclui folhas, galhos, troncos etc.

Ao comparar as mudanças no sinal do radar durante os eventos de seca, os cientistas descobriram que a diminuição da intensidade do sinal do radar durante as secas estava relacionada à diminuição da biomassa. Isso ocorre porque as secas repetidas resultam na redução da produtividade florestal. Ou seja, menos sinal, menos vegetação.

“Em nosso estudo encontramos uma tendência de longo prazo de diminuição do sinal de radar e vimos que essa diminuição reflete em parte uma redução da biomassa nas florestas tropicais e uma mudança na umidade da floresta”, explica o autor.

Segundo o especialista, algumas secas ocorridas após 1992 provocaram reduções de sinais que não se recuperaram até 2018. Isso é alarmante porque as florestas desempenham um papel importante na regulação do clima. Não ser capaz de recuperar seu estado anterior afeta suas funções de retenção de água e armazenamento de carbono.

Segundo o geógrafo Marcos Pedlowski, professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), no Rio de Janeiro, Brasil, o artigo traz uma má notícia e um alerta importante.

“Após o período de estresse causado pela seca, espera-se que a floresta tenha capacidade de retornar à sua condição anterior. O que os autores dizem neste estudo é que isso não aconteceu, antecipando que, com as mudanças climáticas , haverá secas cada vez mais prolongadas”, diz o pesquisador, que não esteve envolvido no estudo.

Em entrevista por telefone ao SciDev.Net , Pedlowski também afirmou que a pesquisa é oportuna para desconstruir o equívoco de que as florestas podem ser abusadas, porque elas acabarão voltando ao seu ponto original.

“Sempre houve a noção de que as florestas terão essa capacidade ‘mágica’ de autocorreção, e este estudo mostra que não é bem assim. Já temos evidências de que o lado brasileiro da bacia amazônica não é mais um sumidouro de carbono, ou seja, a Amazônia brasileira está confirmando as afirmações feitas nesta pesquisa”, disse ele, referindo-se a um estudo recente publicado na revista Nature , segundo ao qual a Amazônia, em nove anos, liberou mais CO 2 na atmosfera do que absorveu .

Shengli concorda. “Se essa vulnerabilidade continuar, ou até piorar, pode significar que as florestas tropicais não funcionarão mais como sumidouros de carbono atmosférico. Consequentemente, para alcançar o Acordo de Paris, precisaremos considerar mais estratégias de mitigação dos setores de energia e industrial”.

Segundo os pesquisadores entrevistados, a mitigação climática não pode ser pensada apenas com foco nas florestas. Além da preservação desses biomas, outras estratégias são necessárias, pois os cenários climáticos modelados para o século XXI indicam um aumento na frequência de secas e na temperatura do ar nos trópicos.


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Este artigo foi produzido pela edição da América Latina do SciDev.Net e foi publicado em espanhol [Aqui!].

Nova matéria da UOL revela que UERJ alterou procedimento rotineiro para pagar contratados fantasmas

Após um período de relativa calmaria, uma nova matéria da lavra dos jornalistas Ruben Berta e Igor Mello que foi publicada hoje pelo site UOL revela que a reitoria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro utilizou de procedimentos no mínimo estranhos para permitir o pagamento de salários vultosos a contratados em alguns dos ditos “programas especiais” que foram financiados pelo governo de Cláudio Castro com verbas obtidas pela privatização da CEDAE.

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Um procedimento apontado na reportagem foi o de isentar contratados em um tal “núcleo estruturante” dos denominados projetos especiais de terem de passar sequer por um processo seletivo simplificado. Com isso, a matéria mostrou que vários contratados eram ou estavam ligados a políticos diretamente relacionados ao governador acidental Cláudio Castro, incluindo um condenado por porte ilegal de armas.

Esses aliados políticos, ainda segundo a matéria, teriam recebido apenas entre julho e dezembro de 2021 a “bagatela” de R$ 8,3 milhões os quais teriam pagos em folhas secretas que já sabemos eram regularmente pagas na “boca do caixa”, uma forte indicação de que os beneficiários dos pagamentos eram “fantasmas”.

Em uma curiosidade a mais, um dos programas especiais que mais abrigou este tipo de contratado “Gasparzinho” foi o chamado “Observatório Social do Segurança Presente”, o que não deixa de ser curioso, na medida em que o tal observatório deveria se ocupar do correto cumprimento de um programa de policiamento urbano.

Uma das coisas que mais me impressionam nessa situação toda é que fora dos chamados programas especiais, a Uerj tem enfrentado muitas dificuldades financeiras para levar a cabo suas atividades fim, que incluem projetos de ensino, pesquisa e extensão.  Ao que parece, o dinheiro só aparece mesmo quando os beneficiários são ligados a algum político aliado de Cláudio Castro.

Finalmente, a reitoria da Uerj claramente deve explicações críveis à sociedade fluminense e à sua propriedade comunidade universitária. O fato é que a reportagem de hoje aumentará a pressão por explicações. Resta saber se a reitoria terá algum crível para apresentar.

Depois de vídeo promocional sair pela culatra, “empresário” bolsonarista que negou marmita se “arrepende”

Veja quem é o bolsonarista que humilhou eleitora de Lula em vídeo

Cassio Cenali, o “empresário” bolsonarista que decidiu entregar de marmitas a mulher pobre após saber que ela irá votar no ex-presidente Lula

Uma das situações mais bizarras (entre tantas) da atual campanha eleitoral envolve o apoiador do presidente Jair Bolsonarista, o “empresário” Cassio Cenali que gravou e difundiu um vídeo em que comunicava a uma habitante da periferia pobre da cidade de Itapeva (SP) que pararia de doar refeições a ela em função da mesma ter se declarado eleitora do ex-presidente Lula.

Se ameaçar alguém que precisa de apoio para ter comida dentro de casa já seria bizarro,  Cassio Cenali se deu ao trabalho de produzir um vídeo ainda mais bizarro que tratou de difundir em suas redes sociais. Como tanta bizarrice não teria como passar em branco em um tempo de redes fortemente monitoradas, o malfeito de Cenali ganhou notoriedade oposta à que ele desejava (aliás, o que desejava Cenali ao humilhar uma mulher pobre em condição de vulnerabilidade alimentar?).

Com o caso ganhando um vulto maior do que o esperado, Cenali tardiamente gravou outro vídeo, só que agora de suposto arrependimento em relação ao que fez com a mulher pobre de Itapevi. Com isso, Cenali agora ganhou ainda mais notoriedade, negativa é claro, já que poucos acreditam em sua sinceridade.

Agora, o que me deixa curioso é sobre o que se passava na cabeça de Cassio Cenali quando ele decidiu que negar comida a quem declarou voto em Lula lhe traria algum benefício e, pior, algum tipo de vantagem eleitoral a Jair Bolsonaro?

É essa falta de racionalidade que mais me impressiona nos apoiadores mais aguerridos de Jair Bolsonaro que costumeiramente têm esse tipo de posição, e quando flagrados tentam operar um cavalo de pau para não ficar tão mal na fotografia.

Mas  é exatamente esse tipo de pessoa que se declara “gente de bem” que luta contra o mal, apenas para se revelarem essencialmente maus e desprovidos de niveis mínimos de empatia humana, e que não raramente se encontram enrolados com algum tipo de situação problemática.  Porém, como se surpreender com pessoas que se dispõe a apoiar a um político cuja coisa mais lembrada em seus 30 anos de congresso foi declarar apoio a um torturador do quilate do coronel Brilhante Ustra?

Fico ainda pensando nos líderes evangélicos que estão alinhados até o último de cabelo a Jair Bolsonaro e no que eles diriam a Cassio Cenali. O problema é que não tenho certeza que a maioria das declarações seria de apoio e reforço.

Homem nega marmita a eleitora de Lula e vídeo gera críticas | Itapetininga  e Região | G1

Por outro lado, a boa notícia é que ao ficar pública a humilhação imposta por Cassio Cenali, diversas organizações sociais (incluindo o MST) já se dispuseram a apoiar a habitante pobre de Itapeva. Há ainda a possibilidade de que ela tenha um encontro com seu candidato a presidente nos próximos dias. Se isso realmente acontecer, mesmo sem querer, Cenali terá prestado contribuição para a derrota de Jair Bolsonaro. 

 

IPAM lança novo Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado

Utilizando algoritmos de inteligência artificial, SAD Cerrado está disponível para acesso aberto em plataforma virtual a partir desta segunda

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Com algoritmos avançados para detecção de desmatamento, o Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado (SAD Cerrado) será lançado em plataforma virtual aberta nesta segunda-feira, 12, pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em parceria com a rede MapBiomas e com o Lapig (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento), da UFG (Universidade Federal de Goiás). O IPAM é responsável pelo desenvolvimento da tecnologia que funciona por meio de inteligência artificial e utiliza imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, com resolução de 10 metros.

“Devido à heterogeneidade das paisagens e à sazonalidade da vegetação, monitorar o desmatamento no Cerrado sempre foi muito desafiador. Áreas de vegetação nativa exuberantes na época de chuva podem perder todo o seu vigor na seca, se assemelhando a áreas desmatadas. Além disso, áreas afetadas pelas frequentes queimadas no bioma podem ser confundidas com desmatamento. Nesse contexto, o uso de inteligência artificial e imagens de satélite de alta resolução permite detectar áreas desmatadas com maior detalhamento e acurácia”, explica Juan Doblas, pesquisador no IPAM responsável pelo SAD Cerrado.

O SAD Cerrado detectou mais de 50 mil alertas de desmatamento em 2022, totalizando 472,8 mil hectares desmatados até o dia 31 de julho. Somente no último trimestre, houve um aumento de 15% na área desmatada no bioma em relação ao mesmo período do ano passado: foram 291,2 mil hectares derrubados, entre maio e julho de 2022, contra 253,4 mil hectares desmatados nos mesmos meses de 2021.

Mais de 70% da área desmatada corresponde a alertas maiores que 10 hectares. A área média dos alertas detectados pelo SAD Cerrado é de 9,43 hectares, com maior frequência de detecção nos meses de maio a julho, período do início da estação seca no Cerrado.

O sistema revelou uma maior concentração de áreas desmatadas no Maranhão, que, com 124,7 mil hectares desmatados, acumula 26,4% de todo o desmatamento detectado no bioma em 2022. O Tocantins apresentou a segunda maior área de alertas, 108,7 mil hectares, a maior parte na região norte do estado, em áreas de expansão do cultivo de soja.

Entre os municípios que mais desmataram, Balsas, no Maranhão, foi o que mais desmatou, com mais de 12 mil hectares. Em segundo lugar está o município de São Desidério, na Bahia, com 9,5 mil hectares desmatados. A cidade baiana concentra a terceira maior produção de soja no país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A velocidade média do desmatamento foi de mais de 2 mil hectares por dia e a maior parte da área de supressão está em vegetações do tipo savana, com 69,2% da área desmatada. As áreas privadas representaram 78,9% do desmatamento no bioma.

“Recentemente o ritmo do desmatamento no Cerrado tem acelerado, principalmente em áreas privadas e nos remanescentes de vegetação nativa no Matopiba (região de Cerrado que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que acumulou 65% da área desmatada no bioma no primeiro semestre deste ano. Estamos perdendo a savana mais biodiversa do mundo para a agropecuária, com importância vital para a estabilidade climática e hidrológica regional, precisamos agir rapidamente para protegê-la”, acrescenta Julia Shimbo, pesquisadora no IPAM e coordenadora científica do MapBiomas.

A plataforma virtual completa do SAD Cerrado pode ser acessada neste link disponível a partir de segunda-feira, 12, às 10h30 (horário de Brasília).

O objetivo é que o sistema forneça alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês, considerando todos os tipos de vegetação nativa do Cerrado. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado pode se constituir como uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

O SAD Cerrado estará disponível em um painel de acesso virtual gratuito e intuitivo a partir desta segunda-feira, 12, data que ecoa o Dia Nacional do Cerrado, celebrado em 11 de setembro.

Serviço

Acesse a plataforma do SAD Cerrado. Disponível a partir de segunda-feira, 12, às 10h30 (horário de Brasília).

Assista ao webinário de lançamento. Segunda-feira, 12, às 10h30 (horário de Brasília). O IPAM terá porta-vozes disponíveis para entrevistas depois do evento.

Alemanha vai proibir exportação de agrotóxicos banidos na União Europeia. Medida irá atingir duramente agronegócio brasileiro

Em 2021, empresas alemãs produziram e exportaram 8.525 toneladas de agrotóxicos proibidos na União Europeia.  A proibição deve atingir o Brasil, um dos principais compradores de substâncias banidas no bloco.

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O ministro alemão da Agricultura, Cem Özdemir, confirmou neste domingo (11/09) os planos do governo da Alemanha para proibir no país a exportação de agrotóxicos nocivos à saúde que foram banidos na União Europeia (UE). A proibição deve entrar em vigor já no próximo ano e deve atingir produtos importados pelo Brasil.

Não é aceitável que continuemos a produzir e exportar pesticidas que proibimos no nosso próprio país para proteger a saúde da população“, afirmou o político do Partido Verde numa entrevista ao grupo de mídia alemão Funke.

Özdemir ressaltou que o direito à saúde é universal e se aplica também a agricultores de outros países. Segundo a reportagem, a proposta para a mudança na legislação alemã com a proibição de exportação de alguns agrotóxicos deve ser apresentada até o final deste ano.

A proibição de exportação de agrotóxicos que foram banidos na UE está prevista no acordo de coalizão do governo da Alemanha, formado por verdes, social-democratas e liberais. Özdemir também afirmou que o país vai apoiar a França para estender essa proibição em toda a União Europeia.

O ministro ressaltou ainda que essa mudança também terá um efeito secundário positivo para os agricultores alemães ao criar um pouco mais de equidade na concorrência com o fim do uso no exterior de produtos banidos no país.

Segundo o Ministério da Agricultura da Alemanha, mais de 53 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos foram exportadas pelo país no ano passado. Destas, 8.525 toneladas eram de substâncias proibidas na União Europeia.

Proibição deve atingir o  Brasil

Muitos dos agrotóxicos proibidos na União Europeia continuam sendo produzidos por empresas sediadas nos países do bloco para a exportação, como as alemãs BASF e Bayer. As empresas defendem a venda destes produtos alegando que as substâncias são liberadas por autoridades de saúde nos países compradores.

A proibição na Alemanha deve atingir o Brasil. Um levantamento de 2019 realizado pela ONG suíça Public Eye revelou que o país era o segundo maior comprador de agrotóxicos fabricado em solo europeu, mas banidos no bloco. Em 2020, o Greenpeace mostrou que a BASF e Bayer detinham a produção de 12% dos pesticidas aprovados no Brasil. As empresas alemãs produzem, por exemplo, os inseticidas Imidacloprid e Chlorfenapyr, que são proibidos na Europa.

cn (dpa, AFP, ots)


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Este texto foi inicialmente publicado pela Deutsche Welle Brasil [Aqui!].

Portos e estruturas eólica e solar em alto mar ameaçam a existência da pesca artesanal no Norte Fluminense

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Uma matéria escrita pela jornalista Mariana Londres para o site UOL sobre a pressa do governo Bolsonaro em aprovar um marco regulatório para a produção de energia eólica e solar em áreas marinhas passou despercebida, mas ela representa novas más notícias para os pescadores artesanais de águas oceânicas, especialmente no Norte Fluminense.

Vejamos, por exemplo, a situação criada pela implantação do Porto do Açu que causou fortes abalos na sobrevivência dos pescadores artesanais que atuavam nas áreas hoje tornadas de exclusão no município de São João da Barra.  Mas o problema poderá ser agravado se forem confirmadas as construções do Porto Central em Presidente Kennedy (ES) e do Porto Norte Fluminense em São Francisco de Itabapoana (ver imagem abaixo).

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Mas a situação poderá ser bastante piorada se for confirmada a instalação em áreas marinhas de unidades de produção de energia elétrica com base eólica e solar (ver imagem abaixo). A má notícia é agravada pelo fato de que para porto construído ou em planejamento parece haver a previsão de uma dessas mega unidades de produção de energia elétrica dentro do mar.

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A questão é que para nova estrutura construída na costa ou dentro das águas marinhas há um aumento de áreas de exclusão para a pesca e outras atividades econômicas realizadas por comunidades tradicionais que dependem do acesso a direto a recursos que se tornam escassos ou inexistentes.

São Francisco de Itabapoana, onde a pressão será forte, não parece ainda entender o problema

Se olharmos as figuras acima veremos que o município de São Francisco de Itabapoana está em uma posição particularmente frágil, na medida em que sua área costeira se tornará virtualmente cercada por portos e fazendas de energia caso todos os projetos previstos sejam de fato construídos.

O problema irá além das áreas de exclusão para a pesca artesanal, devendo incluir aí um aumento do processo erosivo que já incomoda parte da área litorânea do município, apenas para começo de conversa. O curioso é que a própria prefeitura de São Francisco de Itabapoana ainda não acordou para o problema, na medida que também há ali apoio entusiasmado para a construção do chamado Porto Norte Fluminense que representa uma ameaça para a pesca artesanal e para a comunidade quilombola da Barrinha.

 

O custo político e humanitário da adesão da Suécia à Otan: o sacrifício dos refugiados curdos

Para poder aderir à OTAN, a Suécia fez concessões de longo alcance à Turquia. Parece que os curdos no país estão agora sentindo isso com toda a severidade

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Parte da população sueca será sacrificada? O secretário-geral da OTAN Jens Stoltenberg com a primeira-ministra Magdalena Andersson em Harpsund. Foto: Henrik Montgomery, Imago

Por Florian Siber para o Woz

A Suécia e a Finlândia querem se juntar à Otan, e nenhum país se esquivará de fazer grandes concessões ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan. A adesão deve ser aprovada por unanimidade pelos membros da aliança – e a Turquia, como membro, está cobrando caro pelo seu sim.

A lista de concessões que Ancara conseguiu negociar na cúpula da Otan em Madri no final de junho é longa. Mas todos eles têm uma coisa em comum: eles servem na guerra de Erdogan contra o movimento independentista curdo. Restrições à venda de armas para a Turquia impostas após a invasão de Rojava em 2019 foram retiradas; Finlândia e Suécia se comprometeram a não impor futuros embargos de armas à Turquia. Além disso, os EUA estão vendendo à Turquia quarenta novos caças F16 e atualizando caças que a Turquia comprou dos EUA. O jato foi usado contra Rojava, a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria.

Processos realmente rotineiros?

Com um dos acordos, Suécia e Finlândia estão até sacrificando parte de sua própria população para a política de poder de Erdogan: a delegação turca deixou claro na cúpula da OTAN que seu sim para a Finlândia e especialmente a Suécia ingressarem na OTAN dependeria se os refugiados políticos curdos fossem extraditados para a Turquia . Este acordo afeta principalmente os curdos na Suécia, onde sua comunidade é particularmente grande.

Após as negociações em Madri, Erdogan disse em entrevista coletiva que a Suécia concordou em extraditar 73 pessoas. Não houve negação de Estocolmo – apenas um comentário de que a lei seria seguida.

O medo agora é desenfreado na diáspora curda da Suécia.

Agora, as primeiras consequências do acordo parecem estar aparecendo. Em meados de agosto, o governo sueco anunciou que iria extraditar um turco curdo condenado por fraude de cartão de crédito – um “assunto de rotina”, como disse o ministro da Justiça, Morgan Johansson. A extradição de um criminoso comum? Segundo pesquisa da emissora pública SVT, o homem foi condenado injustamente. Além disso, ele já havia sido reconhecido como refugiado na Itália por causa de sua conversão ao cristianismo e sua recusa em prestar serviço militar.

Uma semana após o anúncio do governo, o refugiado curdo Zinar Bozkurt foi preso na Suécia. Ao solicitar asilo há oito anos, Bozkurt ofereceu a sua homossexualidade, sua identidade curda e seu apoio ao partido de esquerda HDP como razões para fugir. Depois que a polícia de segurança sueca Säpo o acusou de ter contatos com o PKK, o pedido foi rejeitado pelas autoridades de imigração – mas não houve extradição por enquanto. “Por que a polícia decidiu que Zinar representava um risco de segurança para a Suécia e por que o caso acabou com o Säpo não está claro para nós”, disse seu advogado Miran Kakaee à WOZ.  A Säpo não quer dizer nada quando perguntado.

Então, os dois casos são processos realmente rotineiros, como alega o Ministério da Justiça sueco? O atual acúmulo de entregas possíveis fala uma linguagem diferente, diz Kakaee. Nos últimos trinta anos, a Suécia extraditou apenas cinco pessoas para a Turqui. Além disso, a extradição de pessoas com perfil político é incomum. Dos 33 pedidos de extradição de Ancara até agora, 19 foram respondidos negativamente, 5 não foram respondidos e uma decisão ainda está pendente em 9 casos. “Muitos dos afetados são ameaçados de tortura na Turquia”, diz Kakaee, justificando a relutância anterior da Suécia. 28 dos 33 pedidos são pelo menos suspeitos de serem membros do PKK, de outros grupos de esquerda ou do movimento Gülen.

Um precedente?

No entanto, o medo agora é desenfreado na diáspora curda da Suécia. Kakaee diz que muitos de seus clientes estão perguntando a ele o que os acordos da OTAN significam para eles. Ridvan Altun, do Centro Curdo para uma Sociedade Democrática, também confirma que há medo entre os curdos na Suécia: “Nós, curdos, fugimos para a Europa da opressão de Erdogan. E agora, sob pressão turca, também estamos sendo perseguidos aqui.”

Zinar Bozkurt está em greve de fome desde sua prisão. “O caso de Zinar ficou preso nas negociações de adesão à Otan”, diz seu advogado, Kakaee. Mesmo que sua prisão não tenha sido consequência das negociações da OTAN: “O desfecho da questão também terá consequências políticas” – a extradição pode se tornar um precedente. Enquanto isso, o governo de Erdogan continua a ameaçar derrubar os pedidos de adesão do norte da Europa se suas demandas não forem atendidas.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo “Woz” [Aqui!].

Amazônia em chamas tem cidades sitiadas pelo fogo

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A mídia corporativa está propositalmente ocultando a grave situação que ocorre na Amazônia brasileira em função do número recorde de queimadas, propiciado pelo avanço agressiva da franja de desmatamento em áreas ainda relativamente intocadas daas florestas ali existentes. Mas a observação da imagem abaixo pemite observar duas coisas básicas: o número recorde de focos de calor e a concentração dos mesmos em torno de várias cidades importantes nos estados da região Norte, especialmente nos estados do Amazonas, Acre e Rondônia e Mato Grosso.

A principal razão para a ocultação objetiva do que está acontecendo na Amazônia é simples: impedir que seja feito um debate mais substancial sobre a relação entre a agricultura extensiva de exportação de commodities e a destruição da biodiversidade brasileira, bem como sobre os povos indígenas.

O problema é que a grossa camada de fumaça que está sendo gerada pelo número recorde de queimadas já começou no centro sul do Brasil e poderá propiciar situações críticas na qualidade do ar em regiões metropolitanas que já convivem com a poluição gerada localmente como no caso de São Paulo (ver imagem abaixo).

sp fumaçaNo dia de ontem (09/09), a cidade de SP amanheceu coberta por fumaça cinza e moradores relatam cheiro de queimado — Foto: Reprodução/TV Globo

Talvez com a chegada das nuvens de fumaça, em vez das que traziam chuva, sirva para que o que está acontecendo na Amazônia possa ocupar um mínimo de espaço dentro da agenda da mídia corporativa e, por extensão, do debate eleitoral que agora ignora este problema.

E é como eu digo sempre, o agro não é pop, o agro é fogo.

 

Briefing: Seca leva maior economia da Europa à beira da recessão

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Os níveis extremamente baixos da água no rio Reno, que quase paralisaram a principal rota de transporte de carga, podem reduzir o crescimento do PIB da Alemanha e ajudar a levar o país a uma recessão.

Os danos econômicos na Alemanha chegam em um momento em que a previsão de crescimento da China é reduzida devido a fatores que incluem fechamentos de fábricas por estresse térmico devido à onda de calor. Simultaneamente, as colheitas na Europa tiveram sua produção reduzida pela maior seca em 500 anos. Esse conjunto tem sido chamado de “inflação térmica“.

A única boa notícia é que o governo alemão está reforçando as medidas para reduzir as emissões.

Carga paralisada no Reno

Normalmente, cerca de 200.000 milhões de toneladas de carga por ano são transportadas em rios alemães, a maioria via Reno, a mais importante hidrovia interior da Europa. O rio atingiu níveis tão baixos neste verão que os barcos foram forçados a reduzir sua carga em até 70%, e a navegação parou em grande parte – um grande problema já que uma barcaça pode transportar a carga de 40 caminhões.

seca deste ano foi ainda pior do que em 2018, quando os baixos níveis no Reno contribuíram para uma redução de até 0,7% do PIB da Alemanha. Em 17 de agosto deste ano, os níveis de água no ponto de medição em Pegel atingiram um nível mínimo histórico; um cenário preocupante, já que os níveis mais baixos do ano são normalmente atingidos em setembro ou outubro. 

Relação entre mudança climática e a seca no rio

Um inverno ameno seguido de chuvas excepcionalmente baixas e intensas ondas de calor se combinaram para secar o rio. As ondas de calor recordes que atingiram a Europa neste verão, como todas as ondas de calor, foram provavelmente agravadas pelas mudanças climáticas, conforme os mais recentes relatórios climáticos previam.

“O aquecimento do clima (…) leva a uma seca crescente dos solos, que pode ser compensada cada vez menos por precipitações fortes ocasionais no verão. De um ponto de vista físico, é bastante claro que o risco de secas – especialmente nas áreas já muito secas – vai aumentar drasticamente. A prolongada seca de 2018 a 2020, bem como a nova seca em 2022, são provas disso”, diz Karsten Haustein, pesquisador da Universidade de Leipzig.

Os modelos de mudança climática prevêem verões cada vez mais quentes e secos na Europa. Especialistas advertem que sem cortes de emissões, os níveis de água no Reno cairão ainda mais e os períodos de pouca água durarão mais tempo, sendo que os baixos níveis de água serão a norma até o final do século.

Ameaça à indústria e ao fornecimento de energia

Em uma declaração, a Associação Federal da Indústria Alemã disse: “O persistente período seco e o baixo nível de água estão ameaçando a segurança do abastecimento para a indústria. As empresas estão se preparando para o pior. A política, as empresas e a sociedade devem se ajustar ao fato de que tais períodos secos não serão mais a exceção, mas a regra”.

Eles apontam que como o clima aquece é “apenas uma questão de tempo” até que as mudanças climáticas induzam baixos níveis de água no Reno causando “gargalos na entrega, cortes na produção ou paralisações e trabalho de curta duração” para a indústria alemã. 

O principal grupo de lobby da indústria do país explica que os baixos níveis atuais de água estão contribuindo para a crise energética – à medida que a Alemanha aumenta o uso de carvão para se desfazer do gás russo, os baixos níveis de água têm causado estrangulamentos no transporte de combustíveis fósseis. Cerca de 30% do carvão, petróleo bruto e gás natural da Alemanha são transportados por barcaças.

Com o fluxo do Reno caindo, o transporte de combustíveis fósseis se tornará cada vez mais difícil, com as usinas de carvão já reduzindo a produção devido a problemas de fornecimento. Isto se soma ao risco de superaquecimento nas usinas de carvão e nucleares que precisam de enormes volumes de água para resfriamento.

Secas, ondas de calor, economias desenvolvidas em todo o mundo

Os três principais institutos de pesquisa econômica da Alemanha estão indicando recessão ou diminuição do crescimento do PIB alemão em 2023. O IfW disse que a economia alemã diminuiria em 0,7% enquanto a IWH viu uma contração mais drástica de 1,4%. O instituto RWI baixou sua previsão para 2023, mas ainda previu um crescimento de 0,8%.

A perda do PIB vem em meio a uma crise energética que aumentou a inflação. Joachim Nagel, chefe do banco central alemão, disse que a prolongada baixa de água, além de um aumento da inflação, poderia levar o país à recessão. Ocke Hamann, diretor administrativo da Câmara de Indústria e Comércio do Baixo Reno, adverte que “Se assumirmos cautelosamente uma perda do PIB de 0,6%, então esse é exatamente o empurrão que nos levará para uma recessão”. O economista-chefe do Deutsche Bank, Stefan Schneider, estima que se os níveis de água continuarem a cair, a Alemanha poderá crescer menos de um por cento em 2022. Carlen Brzeski, analista do ING, disse que “seria necessário um milagre econômico para evitar uma recessão” na Alemanha.

Em 2021, os danos causados por condições climáticas extremas na Alemanha foram de 80 bilhões de euros – resta saber quantos danos as condições climáticas extremas causam este ano.

A Alemanha não está sozinha em perder o crescimento do PIB para as condições climáticas extremas este ano. A China foi forçada a fechar fábricas para economizar energia em meio à pior onda de calor já registrada, em qualquer parte do mundo, e isto está contribuindo para reduzir a previsão de crescimento do país, que foi de 3,3% para 2,8% e agora 2,7%, segundo a Nomura. O fechamento afetou as fábricas de semicondutores usados em produtos eletrônicos, peças de automóveis e componentes para painéis solares para empresas como ToyotaApple, e Intel.

Enquanto isso, ondas de calor e secas que quebram recordes estão afetando as colheitas e a energia em toda a Europa, levando a temores de aumento dos preços dos alimentos, chamados de “inflação de calor“. Além da crise energética causada pela guerra na Ucrânia, a seca pode contribuir para a recessão em todo o continente.

Com as ondas de calor e a seca também atingindo os EUA, as três maiores economias do mundo têm sofrido com o clima extremo ao mesmo tempo. Quase 75% dos agricultores dos EUA dizem que a seca atingiu seus rendimentos agrícolas – e sua renda.

Os economistas advertem que se as emissões continuarem a aumentar, os impactos econômicos da mudança climática se agravarão rapidamente e atingirão duramente até mesmo as grandes economias.

Alemanha prioriza os cortes de emissões “mais do que nunca”

Como as crises convergentes destacam a dependência da Europa do gás russo e sua vulnerabilidade aos impactos da mudança climática, a Alemanha está dando prioridade à redução das emissões e à redução da dependência de combustíveis fósseis agora mais do que nunca“, disse o chanceler Scholz.

No final de julho, o governo adotou um pacote climático de 177 bilhões de euros com um volume de financiamento anual similar (~35 bilhões de euros) ao da Lei de Redução da Inflação dos EUA (~40 bilhões de euros), embora o orçamento público alemão seja apenas um décimo do tamanho do orçamento dos EUA. As principais áreas de investimento incluem renovação de edifícios, transformação industrial e e-mobilidade.

A Alemanha obteve recentemente a aprovação de um esquema de 3 bilhões de euros para descarbonizar o aquecimento predial, o que reduzirá sua dependência das importações de gás. Em apenas 18 meses, o país pretende transformar seu mercado de aquecimento predial fóssil em um mercado predominantemente centrado em bombas de calor, e a partir de janeiro de 2024, todos os novos sistemas de aquecimento precisarão funcionar com 65% de energias renováveis.

O país também trabalha para atingir 80% de eletricidade renovável até 2030 – uma meta apresentada em resposta à guerra na Ucrânia. A nova legislação permitirá a duplicação da capacidade eólica terrestre da Alemanha para 115 gigawatts (GW) e uma triplicação da energia solar para 215 GW.

No entanto, o país não está no caminho certo para atingir suas metas climáticas para 2030, já que a transição energética não tem sido implementada com rapidez suficiente nas últimas décadas. O progresso tem sido particularmente lento no setor de transportes não há melhorias imediatas à vista.