Estudo de pesquisadores da USP mostra resultados positivos de anticoagulante na reversão de casos graves de COVID-19

heparina

Uma pesquisa conduzida no Hospital Sírio-Libanês de São Paulo com 27 pacientes constatou que o uso da heparina, remédio indicado para prevenir trombose, reduziu o tempo de internação e de intubação, mostrando-se uma estratégia promissora para os casos graves da enfermidade.  O estudo foi publicado on-line pela revista British Medical Journal (BMJ), e adiciona peso científico para outras pesquisas  realizadas em outras partes do mundo que também apontaram os anticoagulantes como um tratamento eficaz para evitar a falência dos pulmões

Como em outros tratamentos em andamento, a equipe liderada pela pneumologista Elnara Marcia Negri, docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) trata os resultados promissores com cuidado.  Isso decorre do fato de que todas as pesquisas com a heparina são experimentais, e os pesquisadores  alertam que é necessário realizar mais testes com numerosos pacientes, incluindo grupos de controle, para validar a descoberta.

De toda forma, os autores do estudo acrescentam em suas conclusões, que apesar de suas suas descobertas fornecem elementos para reflexão, e “talvez uma justificativa para justificar o uso de um medicamento prontamente disponível e bem conhecido, como a heparina”  para melhorar o sombrio prognóstico de pacientes com COVID-19, enquanto  dados mais sólidos para tratamento da doença ainda são produzidos.

Em que pese as corretas salvaguardas pela equipe liderada pela pneumologista Elnara Marcia Negri, os resultados deste estudo são efetivamente alvissareiros e demonstram a importância da ciência brasileira na busca do controle e combate à pandemia causada pelo coronavírus.

Quem desejar acessar o artigo publicado pelo BMJ, basta clicar Aqui!

Depois da pantomima Moro-Bolsonaro, voltemos à pandemia da COVID-19

Bolsonaro chora em reunião no Planalto por crise do coronavírus e ...

Depois de termos uma 6a. feira que mais pareceu uma pantomima mal enjambrada dada a crise mais do que anunciada entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, creio que podemos voltar a abordar os resultados do trágico avanço da pandemia da COVID-19 que continua se espraiando desde os grandes centros metropolitanas até o interior do Brasil.

Para não ficar apenas no plano teórico, mostro a situação atual da pandemia entre os 11 países mais afetados pelo coronavírus, chamando a atenção para o número oficial de óbitos do Brasil que agora é de 3.963 óbitos, o que torna o Brasil o 10.o colocado em termos de pessoas que morreram em decorrência da infecção.

placar coronavirus

Em grupos de negacionistas da pandemia, o número de mortos pela COVID-19 é comumente desprezado, pois outras causas matariam mais, e tudo o que está sendo dito pelo coronavírus seria, digamos, exagerado. Entretanto,  este desprezo não possui base real. É que, segundo dados oficiais para o estado de São Paulo, o novo coronavírus pode ser considerado a quinta causa mais letal, superando todo os tipos de câncer, dos acidentes de transporte, da diabetes e de doenças por hipertensão.

E é preciso lembrar que neste momento há uma forte subnotificação de casos de infecção de coronavírus em uma ordem que não foi corretamente estimada, já que o Brasil continua com o pior nível de testagem dentre os países que estão sendo mais impactados pela pandemia.  Eu já li e ouvi acerca de vários estimativas, variando na ordem de 7 a 100 casos não notificados para cada caso oficializado como COVID-19.

Uma das formas que tem sido utilizada para estimar as taxas reais de letalidade da COVID-19 é verificar o número de pessoas mortas por insuficiência respiratória (a chamada Síndroma Respiratória Aguda Grave – SRAG) que explodiu em 2020 em relação a anos anteriores, o que levado a vários especialistas médicos a apontar que essa diferença está diretamente ligada às infecções pelo novo coronavírus.

O problema é que os números persistentemente baixos de testes realizados no Brasil impedem uma estimativa mais próxima se já chegamos próximos do ponto de achatamento da curva das mortes ou não. O mais provável é que ainda estejamos na fase de disseminação comunitária do vírus, muito em parte por causa das pressões realizadas pelo presidente Jair Bolsonaro e seus aliados patronais contra as medidas de isolamento social que foram adotadas por governadores e prefeitos. 

Desta forma, me parece crucial que haja uma priorização das questões que estão postas para os brasileiros neste momento. A prioridade é e continuará sendo impedir que o Brasil se torne o próximo epicentro mundial da pandemia do coronavírus. Mas para impedir que o pior aconteça, vai ser preciso não apenas ampliar as medidas de contenção sanitária da dispersão do coronavírus, mas também os mecanismos de suporte aos segmentos mais pobres da população onde a pandemia está fincando raízes neste momento. Ainda que tenhamos exemplos interessantes de auto-organização das comunidades como nos casos de Paraisópolis em São Paulo e no Santa Marta no Rio de Janeiro, é preciso que haja uma coordenação desses esforços, já que sozinhas essas comunidades não terão como fazer frente à pandemia.

Muito se fala sobre os mecanismos de diálogo com a população, de modo a quebrar a inércia política em que o país está imerso. Pois bem,  para que haja a quebra da inércia, as pessoas vão ter que estar vivas após a pandemia. Assim, impedir a explosão descontrolada da COVID-19 é a principal, e talvez única, prioridad que todos os democratas deveriam ter neste momento no Brasil.  As querelas palacianas, convenhamos, podem esperar.

Registros de mortes por SRAG disparam, revelando os efeitos devastadores da COVID-19 no Brasil

efeito manadaO número de mortes por insuficiência respiratória bate recordes, revelando real impacto das infecções por coronavírus no Brasil

No dia 07 de Abril publiquei uma nota sobre o f aumento explosivo da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em meio à pandemia da COVID-19, e que servia para ocultar a grave subnotificação que está ocorrendo no Brasil em relação às infecções e óbitos causados pelo coronavírus.

Pois bem, graças aos registros de todos os óbitos ocorridos nos 114 dias iniciais de 2020 que estão no Portal da Transparência do Registro Civil, agora já se pode ter uma ideia da gravidade com que a SRAG está se abatendo sobre a população brasileira, ainda que os registros oficiais de infecção do coronavírus continue na ordem de 14 casos por um milhão de habitantes.

É que, como mostra o gráfico abaixo, apenas no período de 114 dias já morreram 43.407 brasileiros por insuficiência respiratória contra um total de 46.074 para todo o ano de 2019.

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Essa discrepância toda ocorre em meio à pandemia da COVID-19 e enfrenta uma ausência óbvia de testes, especialmente em áreas consideradas como epicentros como é o caso dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e Amazonas.  No quesito de testes, por exemplo, o Brasil realizou até agora uma taxa de 1.373 testes por milhão de habitantes, enquanto a Venezuela (tão apontada como o espelho do caos pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro) realizou 12.211 testes por milhão de habitantes. 

bolson covid 19Ao contrário do que afirma publicamente, o presidente Jair Bolsonaro deve saber que a COVID-19 não é uma simples “gripezinha”

Para piorar o Brasil já é segundo colocado no número de casos graves no mundo, com um total de 8.318 pacientes, contra 14.016 casos dos EUA que possuem oficialmente 20 vezes mais casos de infectados que o nosso país.

Nesse sentido, é interessante notar a fala do governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, que apontou o Brasil como um mau exemplo onde os governantes estão aplicando a teoria do “efeito de manada” para que haja um aumento exponencial do número de infectados na expectativa de que isso aumente o grau de imunidade da população, deixando que os que tiverem que morrer, morram.

O uso do “efeito de manada” pode até parar a pandemia, mas terá efeitos devastadores

O resultado objetivo da aceitação (e naturalização) dos efeitos mortíferos do uso do “efeito de manada” será o aumento exponencial de mortes nas próximas semanas.  É que, ao contrário das estimativas fictícias apresentadas pelo ministro da Saúde Nelson Teich de que o Brasil está com uma taxa de letalidade pequena para a COVID-19, os dados dos cartórios mostram que há sim um efeito devastador sobre milhares de famílias brasileiras. Por isso, a abertura do comércio em diversos estados e municípios que estavam aplicando o distanciamento social deverá ampliar ainda mais o alcance do vírus e, consequentemente, o número de mortos.

Em poucas palavras, o Brasil está sendo palco de uma política deliberada de “deixar o vírus se espalhar”, claramente na expectativa de que a maioria dos mortos fique circunscrita às regiões periféricas das grandes cidades, onde corriqueiramente os mortos passam despercebidos.

Santa Catarina deu o pontapé para virar o novo epicentro da pandemia da COVID-19 no Brasil

Qualquer semelhança com o naufrágio do Titanic não será coincidência

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A reabertura do comércio (shoppings centers inclusos) em Santa Catarina está gerando a afluência de pessoas de todas as faixas etárias (como mostra o vídeo abaixo mostrando a abertura de um shopping na cidade de Blumenau) que saem à procura de sabe-se lá o que para comprar, levando idosos e crianças a uma mistura nada recomendável para um período de pandemia em progressão.

Dado tudo o que eu já estudei sobre as formas de disseminação do coronavírus, especialmente em áreas de aglomeração, não fica difícil fazer o prognóstico de que o estado, incluindo a capital Florianópolis, estará nos noticiários nas próximas semanas na condição do próximo epicentro da pandemia da COVID-19 no Brasil. Lembro que no momento, existem ao menos quatro epicentros (São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas e Ceará), o que é uma das características da propagação espacial do coronavírus.

A pressão pelo consumo é uma das ferramentas mais poderosas que o Capitalismo possui sobre as pessoas, e evidentemente é dessa condição que deriva a necessidade de que os governantes ajam com a devida responsabilidade. Mas, lamentavelmente, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro, não é isto o que está ocorrendo.

Assim, não é à toa, que mesmo com a óbvia subnotificação que está ocorrendo, o Brasil já é o 11o. colocado tanto no número de infecções como no de mortes causadas pelo coronavírus.  

Finalmente, sou só eu que fico com a impressão de que o pessoal entrando nesse shopping em Camboriú poderia bem estar na condição de passageiros do Titanic no dia em que ele afundou? Primeiro, a música, e depois, o naufrágio.

Žižek: Bem-vindo ao deserto do viral! Coronavírus e a reinvenção do comunismo

As infecções virais operam de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual. Se a epidemia do coronavírus desencadeou um enorme surto de vírus ideológicos (teorias conspiratórias paranoicas, explosões de racismo e xenofobia), também é verdade que a situação deve nos estimular a reinventar o comunismo.

Por Slavoj Žižek

* Publicado originalmente no SUPLEMENTO PERNAMBUCO. A tradução é de Artur Renzo

 

A atual propagação da epidemia do coronavírus também desencadeou um enorme surto de vírus ideológicos que se encontravam em estado dormente em nossas sociedades: fake news, teorias conspiratórias paranoicas, explosões de racismo… A necessidade concreta e bem fundamentada de se implementar quarentenas reverberou nas pressões ideológicas de se erguer fronteiras claras e submeter “inimigos” que representariam uma ameaça à nossa identidade a condições de isolamento.

Mas é possível que outro vírus ideológico, este muito mais benigno, também deva se alastrar e, com sorte, infectar a todos nós: o vírus de começarmos a pensar em possibilidades alternativas de sociedade, possibilidades para além do Estado-nação, e que se atualizam nas formas de cooperação e solidariedade globais. Muito se especula hoje que o coronavírus pode levar à queda do governo comunista na China, da mesma forma que (como o próprio Gorbatchov admitiu) a catástrofe de Chernobyl foi o acontecimento que deflagrou o fim do comunismo soviético. Mas há um paradoxo aqui: pois o coronavírus também deve nos estimular a reinventar o comunismo com base na confiança no povo e na ciência.

na cena final de Kill Bill: Volume 2, de Quentin Tarantino, a protagonista Beatrix (Uma Thurman) debilita o malvado Bill (David Carradine) e o golpeia com a “técnica dos cinco pontos que explodem o coração”, o golpe mais mortífero de todas as artes marciais. A técnica consiste em uma combinação de cinco golpes aplicados com a ponta dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do oponente – depois de sofrer o golpe, assim que a vítima virar as suas costas e completar cinco passos, seu coração explode e ela desaba. (Esse golpe, desnecessário dizer, é parte da mitologia de artes marciais de matriz chinesa mas não pode ser reproduzido na realidade.) No filme, depois que Beatrix aplica o golpe em Bill, ele calmamente faz as pazes com ela antes de dar seus cinco passos e morrer… O que faz esse golpe ser tão fascinante é o intervalo que ele comporta entre sua execução e o momento da morte: uma vez golpeado posso ainda ter uma conversa tranquila contanto que eu permaneça sentado calmamente, embora esteja plenamente ciente de que a partir do momento que me eu levantar para andar, meu coração irá explodir e eu cairei duro.

Não poderíamos dizer que a ideia por trás das especulações sobre como o coronavírus pode levar à queda do governo comunista na China passa um pouco por aí? Como se essa epidemia operasse como uma espécie de ataque social ao regime comunista chinês com “técnica dos cinco pontos que explodem o coração”? Uma vez golpeados, eles ainda podem permanecer sentados, comentando a situação com tranquilidade e tocando os procedimentos rotineiros de quarentena etc., mas toda e qualquer mudança real na ordem social (como efetivamente confiar nas pessoas) inevitavelmente levará a seu colapso… Minha modesta opinião, contudo, é muito mais radical que essa: arrisco dizer que essa epidemia do coronavírus é uma espécie de ataque com a “técnica dos cinco pontos que explodem o coração” a todo o sistema capitalista global – um sinal de que não podemos mais continuar tocando as coisas da mesma forma, que é necessária uma mudança radical.

Alguns anos atrás, o crítico literário e ensaísta Fredric Jameson chamou atenção ao potencial utópico presente nos filmes sobre catástrofes cósmicas. Isto é, uma ameaça global como um asteroide ameaçando a vida no planeta Terra ou uma pandemia que está aniquilando a humanidade traz a potencialidade de ensejar uma nova solidariedade global: diante dela nossas pequenas diferenças tornam-se insignificantes e todos passamos a trabalhar juntos para encontrar uma solução. E aqui estamos nós hoje, na vida real. Veja, o ponto não é se aproveitar sadicamente do sofrimento generalizado contanto que ele contribua com nossa causa. Muito pelo contrário. Trata-se de refletir sobre o triste fato de que precisamos de uma catástrofe dessa magnitude para nos fazer repensar as características básicas da sociedade em que vivemos.

O primeiro modelo ainda vago desse tipo de coordenação global é a Organização Mundial de Saúde (OMS), que não vem nos oferecendo a bobageira burocrática usual, mas sim alertas precisos, divulgados sem alarde. Devemos conceder a tais organizações mais poder executivo. Bernie Sanders vem sendo ridicularizado por céticos por defender atendimento universal gratuito de saúde nos EUA – mas será que a lição desta epidemia do coronavírus não é de que é necessário ainda mais do que isso, de que devemos começar a montar algum tipo de rede global de atendimento de saúde?

Um dia depois do vice-ministro iraniano da saúde, Iraj Harirchi, realizar uma coletiva de imprensa para tentar minimizar o alarde sobre a disseminação do coronavírus e afirmar não haver necessidade de implementar quarentenas de massa, ele soltou uma declaração breve admitindo que ele próprio havia contraído o coronavírus e se colocado em situação de isolamento (já durante a primeira aparição televisiva, ele chegou a apresentar repentinos sintomas de febre e fraqueza). Harirchi acrescentou: “Este vírus é democrático, e não discerne entre pobres e ricos ou entre políticos e cidadãos comuns.” Nesse sentido, ele está profundamente correto – estamos todos no mesmo barco.

E não estamos lidando apenas com ameaças virais – outras catástrofes também rondam nosso horizonte, se já não estão ocorrendo: secas, ondas de calor, tempestades massivas etc. Em todos esses casos, a resposta correta não deve ser um pânico generalizado, mas sim o trabalho duro e urgente de se estabelecer algum tipo de coordenação global eficiente.

A primeira ilusão da qual devemos nos desvencilhar é aquela formulada por Trump durante sua visita à Índia – a saber, de que a epidemia vai regredir logo e que só precisamos esperar chegar o pico pois em seguida a vida voltará ao normal… A China, aliás, já está se preparando para esse momento: a mídia deles chegou a anunciar que, terminada a epidemia, as pessoas terão de trabalhar de sábado e de domingo para tirar o atraso. Contra essas esperanças demasiadamente fáceis, a primeira coisa a admitir é que a ameaça veio para ficar: mesmo se essa onda recuar, ela voltará a surgir em novas formas, talvez até mais perigosas.

Por esse motivo, é de se esperar que as epidemias virais terão impacto nas nossas interações mais elementares com outras pessoas, com os objetos à nossa volta e inclusive com nossos próprios corpos. Evite entrar em contato com coisas que poderiam estar “contaminadas”, não toque em livros, não sente em privadas públicas ou em bancos públicos, procure não abraçar os outros e apertar suas mãos… talvez até fiquemos mais ciosos sobre nossos gestos espontâneos: não mexa muito no nariz, evite esfregar os olhos e coçar o corpo. Ou seja, não é apenas o Estado e outras instâncias que nos controlarão: devemos aprender a controlar e disciplinar a nós mesmos.

Talvez apenas a realidade virtual seja considerada segura, e se deslocar livremente em um espaço aberto se torne algo reservado para as ilhas privativas dos ultrarricos. Mas mesmo no nível da realidade virtual e da internet, vale lembrar que nas últimas décadas os termos “vírus” e “viral” eram usados principalmente para designar fenômenos digitais que estavam infectando nosso espaço-virtual e dos quais não estávamos cientes, ao menos não até que seu poder destrutivo (digamos, de corromper nossos dados ou torrar nossos HDs) fosse liberado. O que estamos testemunhando agora é um retorno massivo ao significado literal originário do termo. As infecções virais operam de mãos dadas em ambas as dimensões, real e virtual.

Outro fenômeno esquisito que podemos observar é o retorno triunfal do animismo capitalista de se tratar fenômenos sociais, tais como mercados ou capital financeiro, como entidades vivas. Ao lermos algumas das principais manchetes da grande mídia, a impressão que fica é que o que realmente deve nos preocupar não são os milhares que já morreram (e milhares que ainda vão morrer) mas o fato de que “os mercados estão ficando nervosos” – o coronavírus está perturbando cada vez mais o bom funcionamento do mercado mundial, e, como nos é dito, o crescimento pode sofrer uma queda de 2 ou 3 por cento… Será que isso tudo não assinala claramente a necessidade urgente de reorganizarmos nossa economia global de modo a não deixá-la mais à mercê dos mecanismos de mercado? Não me refiro aqui ao comunismo à moda antiga, é claro, mas simplesmente de algum tipo de organização global capaz de controlar e regular a economia, bem como limitar a soberania de Estados-nação quando assim for necessário. Países inteiros foram capazes de fazer isso em condições de guerra, e estamos efetivamente efetivamente nos aproximando, todos nós, de um estado de guerra médica.

Além disso, também não devemos temer apontar certos efeitos colaterais potencialmente benéficos dessa epidemia. Um dos símbolos da epidemia são passageiros presos (postos em quarentena) em grandes cruzeiros – que ironia do destino, fico tentado a dizer, para a obscenidade que representam essas embarcações. (Só precisamos tomar cuidado para que a viagem para ilhas desertas ou para outros resorts exclusivos não se torne privilégio da minoria de ricos, como décadas atrás ocorria com a viagem de avião). A produção automobilística ficou seriamente afetada – bem, isso pode até nos obrigar a pensar em alternativas para nossa obsessão com veículos individuais… A lista pode ser prolongada indefinidamente.

Em um discurso recente, Viktor Orbán disse o seguinte: “Não existe liberal. Um liberal não é nada mais que um comunista diplomado.” Mas e se no fundo o oposto for verdadeiro? Se chamarmos de “liberais” aqueles que se importam com nossas liberdades, e “comunistas” aqueles que estão cientes de que só podemos salvar essas liberdades com mudanças radicais visto que o capitalismo global se aproxima de uma crise, então devemos dizer que, hoje, aqueles que ainda se consideram comunistas são liberais diplomados – liberais que estudaram seriamente por que nossos valores liberais estão sob ameaça e tornaram-se conscientes de que apenas uma mudança radical pode salvá-los.

Como o coronavírus mata? Os médicos traçam um percurso feroz no corpo, do cérebro aos dedos dos pés

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Por Meredith Wadman, Jennifer Couzin-Frankel, Jocelyn Kaiser, Catherine Matacic para a Science

Em rodadas em uma unidade de terapia intensiva de 20 leitos, ocorridas em recentemente, o médico Joshua Denson avaliou dois pacientes com convulsões, muitos com insuficiência respiratória e outros cujos rins estavam em uma perigosa descida. Dias antes, suas rondas foram interrompidas quando sua equipe tentou, e falhou, ressuscitar uma jovem cujo coração parou. Todos compartilhavam uma coisa, diz Denson, médico pulmonar e de cuidados intensivos da Escola de Medicina da Universidade de Tulane. “Eles são todos COVID positivos.”

À medida que o número de casos confirmados de COVID-19 ultrapassa os 2,2 milhões em todo o mundo e as mortes superam os 150.000, médicos e patologistas estão lutando para entender os danos causados ​​pelo coronavírus enquanto este atravessa o corpo. Eles estão percebendo que, embora os pulmões sejam o ponto zero, seu alcance pode se estender a muitos órgãos, incluindo o coração e os vasos sanguíneos, rins, intestino e cérebro.

“[A doença] pode atacar quase tudo no corpo, com consequências devastadoras”, diz o cardiologista Harlan Krumholz, da Universidade de Yale e do Hospital Yale-New Haven, que lidera vários esforços para reunir dados clínicos sobre o COVID-19. “Sua ferocidade é de tirar o fôlego e humilhante.”

Compreender o tumulto poderia ajudar os médicos nas linhas de frente a tratar a fração de pessoas infectadas que ficam desesperadas e às vezes misteriosamente doentes. Uma tendência nova e perigosa à coagulação do sangue transforma alguns casos leves em emergências com risco de vida? Existe uma resposta imune excessivamente zelosa por trás dos piores casos, sugerindo que o tratamento com drogas supressoras do sistema imunológico possa ajudar? O que explica o surpreendentemente baixo oxigênio no sangue que alguns médicos estão relatando em pacientes que, no entanto, não estão ofegando? “Adotar uma abordagem sistêmica pode ser benéfico quando começamos a pensar em terapias”, diz Nilam Mangalmurti, intensivista pulmonar do Hospital da Universidade da Pensilvânia (HUP).

O que se segue é um instantâneo do entendimento em rápida evolução de como o vírus ataca as células ao redor do corpo, especialmente em aproximadamente 5% dos pacientes que ficam gravemente doentes. Apesar dos mais de 1000 artigos que estão sendo lançados em periódicos e em servidores de pré-impressão a cada semana, uma imagem clara é ilusória, pois o vírus age como nenhum patógeno que a humanidade jamais viu. Sem estudos maiores e prospectivos controlados que estão sendo lançados apenas agora, os cientistas precisam extrair informações de pequenos estudos e relatos de casos, geralmente publicados em alta velocidade e ainda não revisados ​​por pares. “Precisamos manter a mente muito aberta à medida que esse fenômeno avança”, diz Nancy Reau, médica em transplante de fígado que trata pacientes com COVID-19 no Rush University Medical Center. “Ainda estamos aprendendo.”

A infecção começa

Quando uma pessoa infectada expele gotículas carregadas de vírus e outra pessoa as inala, o novo coronavírus, chamado SARS-CoV-2, entra no nariz e na garganta. Ele encontra um lar bem-vindo no revestimento do nariz, de acordo com uma pré-impressão de cientistas do Instituto Wellcome Sanger e de outros lugares. Eles descobriram que as células são ricas em um receptor da superfície celular chamado enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2). Em todo o corpo, a presença de ACE2, que normalmente ajuda a regular a pressão sanguínea, marca os tecidos vulneráveis ​​à infecção, porque o vírus exige que o receptor entre na célula. Uma vez dentro, o vírus seqüestra as máquinas da célula, fazendo inúmeras cópias de si mesmo e invadindo novas células.

À medida que o vírus se multiplica, uma pessoa infectada pode lançar grandes quantidades dele, principalmente durante a primeira semana. Os sintomas podem estar ausentes neste momento. Ou a nova vítima do vírus pode desenvolver febre, tosse seca, dor de garganta, perda de olfato e paladar ou dores na cabeça e no corpo.

Se o sistema imunológico não repelir o SARS-CoV-2 durante esta fase inicial, o vírus marcha pela traqueia para atacar os pulmões, onde pode se tornar mortal. Os ramos mais finos e distantes da árvore respiratória do pulmão terminam em pequenos sacos aéreos chamados alvéolos, cada um revestido por uma única camada de células que também são ricas em receptores ACE2.

Normalmente, o oxigênio atravessa os alvéolos para os capilares, pequenos vasos sanguíneos que ficam ao lado dos sacos de ar; o oxigênio é então transportado para o resto do corpo. Mas enquanto o sistema imunológico luta com o invasor, a própria batalha interrompe essa transferência saudável de oxigênio. Os glóbulos brancos da linha de frente liberam moléculas inflamatórias chamadas quimiocinas, que por sua vez convocam mais células imunes que têm como alvo e matam células infectadas por vírus, deixando para trás um guisado de células mortas e fluidas – pus. Esta é a patologia subjacente da pneumonia, com seus sintomas correspondentes: tosse; febre; e respiração rápida e superficial (ver gráfico). Alguns pacientes com COVID-19 se recuperam, às vezes com mais apoio do que o oxigênio inspirado pelas pontas nasais.

Outros, porém, deterioram-se, freqüentemente de repente, desenvolvendo uma condição chamada síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Os níveis de oxigênio no sangue caem e eles se esforçam cada vez mais para respirar. Nas radiografias e nas tomografias computadorizadas, seus pulmões estão cheios de opacidades brancas onde o espaço negro – o ar – deveria estar. Geralmente, esses pacientes acabam usando ventiladores. Muitos morrem. As autópsias mostram que seus alvéolos ficaram cheios de líquido, glóbulos brancos, muco e detritos das células pulmonares destruídas.

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O impacto de um invasor

Em casos graves, o SARS-CoV-2 aterrissa nos pulmões e pode causar danos profundos lá. Mas o vírus, ou a resposta do corpo a ele, pode ferir muitos outros órgãos. Os cientistas estão apenas começando a investigar o alcance e a natureza desse dano.

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Alguns médicos suspeitam que a força motriz em muitas trajetórias de downhill (morro abaixo) de pacientes gravemente doentes seja uma reação exagerada desastrosa do sistema imunológico conhecida como “tempestade de citocinas”, que outras infecções virais são conhecidas por desencadear. Citocinas são moléculas químicas de sinalização que orientam uma resposta imune saudável; mas em uma tempestade de citocinas, os níveis de certas citocinas sobem muito além do necessário e as células imunológicas começam a atacar tecidos saudáveis. Pode ocorrer vazamento de vasos sanguíneos, queda da pressão arterial, formação de coágulos e falência catastrófica de órgãos.

Alguns estudos mostraram níveis elevados dessas citocinas indutoras de inflamação no sangue de pacientes com COVID-19 hospitalizados. “A verdadeira morbimortalidade desta doença provavelmente é causada por uma resposta inflamatória desproporcional ao vírus”, diz Jamie Garfield, pneumologista que cuida de pacientes com COVID-19 no Temple University Hospital.

Mas outros não estão convencidos. “Parece ter havido uma mudança rápida para associar o COVID-19 a esses estados hiperinflamatórios. Eu realmente não vi dados convincentes de que esse seja o caso ”, diz Joseph Levitt, médico de cuidados intensivos pulmonares da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford.

Ele também está preocupado que os esforços para atenuar uma resposta de citocinas possam sair pela culatra. Vários medicamentos direcionados a citocinas específicas estão em ensaios clínicos em pacientes com COVID-19. Mas Levitt teme que esses medicamentos possam suprimir a resposta imune de que o corpo precisa para combater o vírus. “Existe um risco real de permitirmos mais replicação viral”, diz Levitt.

Enquanto isso, outros cientistas estão se concentrando em um sistema orgânico totalmente diferente, que eles dizem estar causando a rápida deterioração de alguns pacientes: o coração e os vasos sanguíneos.

Golpeando o coração

Em Brescia, Itália, uma mulher de 53 anos entrou na sala de emergência de seu hospital local com todos os sintomas clássicos de um ataque cardíaco, incluindo sinais reveladores em seu eletrocardiograma e altos níveis de um marcador de sangue sugerindo danos nos músculos cardíacos. Testes posteriores mostraram inchaço e cicatrização cardíaca, e um ventrículo esquerdo – normalmente a câmara de força do coração – tão fraco que só podia bombear um terço da quantidade normal de sangue. Mas quando os médicos injetaram corante nas artérias coronárias, procurando o bloqueio que significa um ataque cardíaco, eles não encontraram nenhum. Outro teste revelou o porquê: A mulher tinha COVID-19.

Como o vírus ataca o coração e os vasos sanguíneos é um mistério, mas dezenas de pré-impressões e documentos atestam que esse dano é comum. Um artigo de 25 de março da JAMA Cardiology documentou danos cardíacos em quase 20% dos pacientes de 416 hospitalizados por COVID-19 em Wuhan, China. Em outro estudo de Wuhan, 44% dos 36 pacientes internados na UTI tiveram arritmias.

A perturbação parece se estender ao próprio sangue. Entre 184 pacientes com COVID-19 em uma UTI holandesa, 38% tinham sangue coagulado de maneira anormal e quase um terço já tinha coágulos, de acordo com um artigo de 10 de abril da Thrombosis Research. Os coágulos sanguíneos podem se romper e aterrissar nos pulmões, bloqueando as artérias vitais – uma condição conhecida como embolia pulmonar, que teria matado pacientes com COVID-19. Coágulos das artérias também podem se alojar no cérebro, causando derrame. Muitos pacientes têm níveis “dramaticamente” altos de dímero D, um subproduto de coágulos sanguíneos, diz Behnood Bikdeli, pesquisador em medicina cardiovascular no Columbia University Medical Center.

“Quanto mais parecemos, maior a probabilidade de que os coágulos sanguíneos sejam os principais atores na gravidade e mortalidade da doença por COVID-19”, diz Bikdeli.

A infecção também pode levar à constrição dos vasos sanguíneos. Estão surgindo relatos de isquemia nos dedos das mãos e dos pés – uma redução no fluxo sanguíneo que pode levar a inchaço, dígitos dolorosos e morte de tecido.

Nos pulmões, a constrição dos vasos sanguíneos pode ajudar a explicar relatos anedóticos de um fenômeno desconcertante observado na pneumonia causada pelo COVID-19: alguns pacientes têm níveis extremamente baixos de oxigênio no sangue e ainda não estão ofegando. É possível que, em alguns estágios da doença, o vírus altere o delicado equilíbrio de hormônios que ajudam a regular a pressão sanguínea e contrai os vasos sanguíneos que vão para os pulmões. Portanto, a captação de oxigênio é impedida por vasos sanguíneos contraídos, e não por alvéolos entupidos. “Uma teoria é que o vírus afeta a biologia vascular e é por isso que vemos esses níveis realmente baixos de oxigênio”, diz Levitt.

Se a COVID-19 atingir os vasos sanguíneos, isso também pode ajudar a explicar por que os pacientes com danos pré-existentes nesses vasos, por exemplo, devido a diabetes e pressão alta, enfrentam maior risco de doenças graves. Dados recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) de pacientes hospitalizados em 14 estados dos EUA descobriram que cerca de um terço tinha doença pulmonar crônica – mas quase o mesmo apresentava diabetes e metade deles apresentava pressão alta pré-existente.

Mangalmurti diz que ficou “chocada com o fato de não termos um grande número de asmáticos” ou de pacientes com outras doenças respiratórias na UTI do HUP. “É muito impressionante para nós que os fatores de risco parecem ser vasculares: diabetes, obesidade, idade, hipertensão”.

Os cientistas estão lutando para entender exatamente o que causa o dano cardiovascular. O vírus pode atacar diretamente o revestimento do coração e dos vasos sanguíneos, que, como o nariz e os alvéolos, são ricos em receptores ACE2. Ou talvez a falta de oxigênio, devido ao caos nos pulmões, danifique os vasos sanguíneos. Ou uma tempestade de citocinas pode devastar o coração, assim como outros órgãos.

“Ainda estamos no começo”, diz Krumholz. “Realmente não entendemos quem é vulnerável, por que algumas pessoas são afetadas tão severamente, por que ocorre tão rapidamente … e por que é tão difícil [para alguns] se recuperar”.

Vários campos de batalha

Os temores mundiais de falta de ventilação por falha nos pulmões têm recebido muita atenção. Não é uma disputa por outro tipo de equipamento: máquinas de diálise. “Se essas pessoas não estão morrendo de insuficiência pulmonar, estão morrendo de insuficiência renal”, diz a neurologista Jennifer Frontera, do Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, que tratou milhares de pacientes com COVID-19. Seu hospital está desenvolvendo um protocolo de diálise com diferentes máquinas para dar suporte a pacientes adicionais. A necessidade de diálise pode ser porque os rins, abundantemente dotados de receptores ACE2, apresentam outro alvo viral.

De acordo com uma pré-impressão, 27% dos 85 pacientes hospitalizados em Wuhan apresentaram insuficiência renal. Outro relatou que 59% dos cerca de 200 pacientes hospitalizados com COVID-19 nas províncias de Hubei e Sichuan na China tinham proteína na urina e 44% tinham sangue; ambos sugerem danos nos rins. Aqueles com lesão renal aguda (LRA) tiveram uma probabilidade cinco vezes maior de morrer do que os pacientes com COVID-19 sem ela, informou a mesma pré-impressão chinesa.

Inside Rome's San Filippo Neri Hospital During The Fight Against CoronavirusA equipe médica trabalha para ajudar um paciente COVID-19 em uma unidade de terapia intensiva na Itália. ANTONIO MASIELLO / GETTY IMAGES

“O pulmão é a principal zona de batalha. Mas uma fração do vírus possivelmente ataca o rim. E, como no campo de batalha real, se dois lugares estão sendo atacados ao mesmo tempo, cada um fica pior ”, diz Hongbo Jia, neurocientista do Instituto de Engenharia Biomédica e Tecnologia de Suzhou da Academia Chinesa de Ciências e co-autor desse estude.

Partículas virais foram identificadas em micrografias eletrônicas de rins de autópsias em um estudo, sugerindo um ataque viral direto. Mas lesões nos rins também podem ser danos colaterais. Os ventiladores aumentam o risco de danos nos rins, assim como os compostos antivirais, incluindo o remdesivir, que estão sendo implantados experimentalmente em pacientes com COVID-19. As tempestades de citocinas também podem reduzir drasticamente o fluxo sanguíneo para o rim, causando danos freqüentemente fatais. E doenças pré-existentes como diabetes podem aumentar as chances de lesão renal. “Há um balde inteiro de pessoas que já têm alguma doença renal crônica que apresentam maior risco de lesão renal aguda”, diz Suzanne Watnick, diretora médica do Northwest Kidney Centers.

Golpeando o cérebro

Outro conjunto impressionante de sintomas em pacientes com COVID-19 centra-se no cérebro e no sistema nervoso central. Frontera diz que os neurologistas são chamados para avaliar de 5% a 10% dos pacientes com coronavírus em seu hospital. Mas ela diz que “provavelmente é uma subestimação grosseira” do número cujos cérebros estão lutando, principalmente porque muitos são sedados e usam ventiladores.

Frontera viu pacientes com encefalite por inflamação cerebral, convulsões e uma “tempestade simpática”, uma hiper-reação do sistema nervoso simpático que causa sintomas semelhantes a convulsões e é mais comum após uma lesão cerebral traumática. Algumas pessoas com COVID-19 perdem a consciência brevemente. Outros têm derrames. Muitos relatam ter perdido o olfato. E Frontera e outros se perguntam se, em alguns casos, a infecção deprime o reflexo do tronco cerebral que detecta a falta de oxigênio. Essa é outra explicação para observações anedóticas de que alguns pacientes não estão buscando ar, apesar dos níveis perigosamente baixos de oxigênio no sangue.

Os receptores ACE2 estão presentes no córtex neural e no tronco cerebral, diz Robert Stevens, médico intensivista da Johns Hopkins Medicine. Mas não se sabe em que circunstâncias o vírus penetra no cérebro e interage com esses receptores. Dito isto, o coronavírus por trás da epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS) de 2003 – um primo próximo do culpado de hoje – pode se infiltrar nos neurônios e às vezes causar encefalite. Em 3 de abril, um estudo de caso no International Journal of Infectious Diseases, de uma equipe do Japão, relatou traços de novos coronavírus no líquido cefalorraquidiano de um paciente com COVID-19 que desenvolveu meningite e encefalite, sugerindo que também pode penetrar no sistema nervoso central.

cor 3Uma mulher de 58 anos com COVID-19 desenvolveu encefalite, resultando em danos nos tecidos do cérebro (setas). N. POYIADJI ET AL., RADIOLOGY, (2020) DOI.ORG/10.1148/RADIOL.2020201187

Mas outros fatores podem estar danificando o cérebro. Por exemplo, uma tempestade de citocinas pode causar inchaço no cérebro, e a tendência exagerada do sangue para coagular pode desencadear derrames. O desafio agora é mudar de conjectura para confiança, em um momento em que a equipe está focada em salvar vidas e até mesmo em avaliações neurológicas, como induzir o reflexo de vômito ou transportar pacientes para exames cerebrais que correm o risco de espalhar o vírus.

No mês passado, Sherry Chou, neurologista do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, começou a organizar um consórcio mundial que agora inclui 50 centros para extrair dados neurológicos dos cuidados já recebidos pelos pacientes. Os objetivos iniciais são simples: identificar a prevalência de complicações neurológicas em pacientes hospitalizados e documentar como eles se saem. A longo prazo, Chou e seus colegas esperam coletar exames, testes de laboratório e outros dados para entender melhor o impacto do vírus no sistema nervoso, incluindo o cérebro.

Chou especula sobre uma possível rota de invasão: pelo nariz, depois para cima e pelo bulbo olfativo – explicando relatos de perda de olfato – que se conecta ao cérebro. “É uma teoria interessante”, diz ela. “Nós realmente temos que provar isso.”

A maioria dos sintomas neurológicos “são relatados de colega para colega de boca em boca”, acrescenta Chou. “Acho que ninguém, e certamente não eu, pode dizer que somos especialistas”.

Atingindo o intestino

No início de março, uma mulher de 71 anos de Michigan retornou de um cruzeiro no rio Nilo com diarréia com sangue, vômitos e dor abdominal. Inicialmente, os médicos suspeitavam que ela tivesse um problema estomacal comum, como Salmonella. Mas depois que ela desenvolveu uma tosse, os médicos tomaram um cotonete nasal e a acharam positiva para o novo coronavírus. Uma amostra de fezes positiva para RNA viral, bem como sinais de lesão do cólon observada em uma endoscopia, apontaram para uma infecção gastrointestinal (GI) com o coronavírus, de acordo com um artigo publicado online no The American Journal of Gastroenterology (AJG).

Seu caso se soma a um crescente corpo de evidências sugerindo que o novo coronavírus, como seu primo SARS, pode infectar o revestimento do trato digestivo inferior, onde os receptores cruciais da ACE2 são abundantes. O RNA viral foi encontrado em até 53% das amostras de fezes dos pacientes da amostra. E em um artigo publicado na Gastroenterology, uma equipe chinesa relatou ter encontrado a casca de proteína do vírus nas células gástrica, duodenal e retal nas biópsias de um paciente com COVID-19. “Eu acho que provavelmente se replica no trato gastrointestinal”, diz Mary Estes, virologista da Baylor College of Medicine.

Relatórios recentes sugerem que metade dos pacientes, com média de cerca de 20% nos estudos, sofre de diarréia, diz Brennan Spiegel, do Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles, co-editor-chefe da AJG. Os sintomas gastrointestinais não estão na lista de sintomas do COVID-19 do CDC, o que poderia fazer com que alguns casos do COVID-19 passassem despercebidos, dizem Spiegel e outros. “Se você tem principalmente febre e diarréia, não fará o teste para o COVID”, diz Douglas Corley, da Kaiser Permanente, norte da Califórnia, co-editor de Gastroenterologia.

A presença de vírus no trato gastrointestinal aumenta a possibilidade inquietante de que ele possa ser transmitido pelas fezes. Mas ainda não está claro se as fezes contêm vírus infecciosos intactos ou apenas RNA e proteínas. Até o momento, “não temos evidências” de que a transmissão fecal seja importante, diz Stanley Perlman, especialista em coronavírus da Universidade de Iowa. O CDC diz que, com base nas experiências com SARS e com o vírus que causa a síndrome respiratória no Oriente Médio, outro primo perigoso do novo coronavírus, o risco de transmissão fecal é provavelmente baixo.

Os intestinos não são o fim da marcha da doença pelo corpo. Por exemplo, até um terço dos pacientes hospitalizados desenvolvem conjuntivite – olhos rosados ​​e lacrimejantes – embora não esteja claro se o vírus invade diretamente o olho. Outros relatórios sugerem danos no fígado: mais da metade dos pacientes com COVID-19 hospitalizados em dois centros chineses apresentavam níveis elevados de enzimas indicando lesão no fígado ou nos ductos biliares. Mas vários especialistas disseram à Science que a invasão viral direta provavelmente não é a culpada. Eles dizem que outros eventos em um corpo em falha, como drogas ou um sistema imunológico em excesso, são mais prováveis ​​de causar danos ao fígado.

Este mapa da devastação que o COVID-19 pode causar no corpo ainda é apenas um esboço. Levará anos de pesquisas minuciosas para aprimorar o quadro de seu alcance e a cascata de efeitos cardiovasculares e imunológicos que ele pode desencadear. À medida que a ciência avança, de sondar tecidos sob microscópios a testar medicamentos em pacientes, a esperança é de tratamentos mais astutos do que o vírus que parou o mundo.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista Science [Aqui!].

Pesquisadores criam ferramenta para mapear risco de avanço do coronavírus no Brasil

•Movimento Brasil Sem Corona disponibiliza mapa nacional de risco de contágio de COVID-19 com base em relatos de sintomas postados pelo aplicativo Colab

•Ferramenta aberta de vigilância participativa ajuda pesquisadores e órgãos de saúde a prever as tendências da pandemia no Brasil

corona detect

São Paulo, 20 de abril de 2020 – Pesquisadores brasileiros lançaram uma ferramenta de crowdsourcing e vigilância participativa que vai permitir aos cientistas e órgãos de saúde prever as tendências de avanço da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Pelo site do MovimentBrasiSeCorona é possível acessar gratuitamente um mapa nacional de risco de contágio, atualizado em tempo real e feito a partir de relatos de sintomas de brasileiros. A iniciativa é encabeçada pelas startups Colab e Epitrack e conta com o apoio de empresas, instituições e governos de todo o Brasil.

Pelo Colab, plataforma de engajamento de cidadãos e governos, os brasileiros estão respondendo diariamente a um questionário sobre seu estado de saúde. As informações reportadas são analisadas e organizadas como casos suspeitos, graves e confirmados pelo algoritmo desenvolvido pela Epitrack, startup de inteligência de dados para o monitoramento e controle de doenças que já ofereceu soluções para grandes eventos de massa como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos realizados no Brasil.

A Epitrack é comandada por Onicio Leal, epidemiologista, PhD em Saúde Pública e pesquisador sênior do departamento de Economia da Universidade de Zurich, e Jones Albuquerque, cientista da computação com pós-doutorado em epidemiologia computacional e pesquisador do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami, da Universidade Federal de Pernambuco.

Eles estão analisando os dados gerados a partir do aplicativo para elaborar previsões sobre como o vírus está se espalhando em diferentes territórios, além de previsões de casos que podem surgir em até 14 dias.

“A nossa ferramenta funciona como um complemento aos sistemas de vigilância da saúde. Saber que há uma aglomeração de pessoas relatando sintomas semelhantes em um determinado período e território ajuda os órgãos acompanhar a pandemia, fazer predições, monitorar os casos suspeitos e planejar ações de combate”, diz Onicio Leal, epidemiologista cofundador da Epitrack.

Desde que o questionário Brasil Sem Corona foi ao ar pelo aplicativo Colab, no dia 20 de março, a ferramenta já conta com a participação de mais de 17 mil brasileiros. O aplicativo já era usado por mais de 300 mil usuários e 100 prefeituras em todo o Brasil. As gestões públicas de Maceió (AL), Santo André (SP) e Ipojuca (PE) já utilizam os dados como complemento às informações oficiais de seus sistemas de saúde. O Movimento Brasil Sem Corona também fornecerá gratuitamente planilhas para gestores públicos que quiserem ter acesso às informações detalhadas do território em que atuam.

Tanto Colab como Epitrack usam serviços de computação em nuvem da da Amazon Web Services (AWS), que doou US$ 75 mil em créditos de servidores para a plataforma Brasil Sem Corona.

Combate à subnotificação

A ferramenta de vigilância participativa é um dos métodos alternativos ao sistema de saúde oficial que pode ajudar a combater o problema da subnotificação de casos de infecção pelo novo coronavírus.

Um estudo em andamento do Centro de Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres* estima a quantidade de casos de COVID-19 em países com mais de 10 mortes e a porcentagem de notificação. Segundo o estudo, no Brasil apenas 7,8% dos casos chegam a ser notificados

Os modelos para correção das estimativas deste estudo são revisados e atualizados quase que diariamente, à medida em que a epidemia evolui nos diferentes países. Os ajustes são necessários para considerar os diferentes contextos e características sócio-demográficas

Vantagens da vigilância participativa

Estudos científicos apontam que a vigilância participativa por plataformas de crowdsourcing conseguem antecipar o surgimento de alguns surtos e epidemias em até duas semanas. Além disso, a vigilância participativa possibilita que os cidadãos que estão relatando seus sintomas tenham visibilidade para o comportamento da epidemia no seu entorno.

E fazer isso por meio de um aplicativo de celular ainda traz vantagens como possibilidade de fazer pesquisas randomizadas, obtenção de dados geolocalizados, atualização em tempo real e criação de um canal direto entre população, governos e pesquisadores.

Na Coreia do Sul, um dos países que mais conseguiu frear a disseminação do novo coronavírus, o governo usou um aplicativo para monitorar o estado de saúde de visitantes que chegavam de áreas de risco, que tinham que responder diariamente sobre seus sintomas. A ferramenta também foi usada para acompanhar o estado de saúde da população durante a quarentena. Esse tipo de monitoramento pode ajudar a orientar os testes em massa com a população, outra estratégia-chave adotada pela Coreia do Sul para o controle da COVID-19.

Como participar

Para participar, basta responder ao questionário “Brasil Sem Corona” no aplicativo Colab, disponível para sistemas Android e IOS. Primeiro, o usuário irá informar se está se sentindo bem ou não. Se disser que está bem, será questionado sobre se entrou em contato com alguém que apresenta os sintomas da COVID-19, o que também poderia indicar certo grau de risco, e se mora com um idoso, para detectar o risco desse grupo.

detecta corona

Se o usuário disser que não está se sentindo bem, irá responder a uma série de perguntas sobre sintomas e se chegou a procurar o sistema de saúde, o que pode ser um indicativo de que seus sintomas são graves.

Dúvidas e denúncias

Pelo Colab, também é possível tirar dúvidas sobre a COVID-19 com a assistente virtual inteligente Cloudia, chatbot da área da saúde para clínicas e hospitais que foi incorporada no aplicativo. Ela informa, entre outras coisas, sobre números recentes da contaminação no Brasil e no mundo, sintomas da doença, dicas de como se proteger e esclarece mitos ou notícias falsas.

Os usuários ainda podem denunciar a prática de preço abusivo de um produto básico, evento ou comércio aberto irregularmente, filas e aglomerações de pessoas em hospitais e postos de saúde e falta de abastecimento de alimento, remédios e produtos básicos.

As denúncias chegam diretamente por um sistema de gestão para as prefeituras que usam o Colab, e os gestores responsáveis podem atuar com agilidade para resolver o problema

*Estudo: Usindelayadjustecasfatalitratitestimatunderreporting; Autores: Timothy W Russell, Joel Hellewell1, Sam Abbott1, Christopher I Jarvis, Kevin van Zandvoort, CMMID nCov working group, Stefan Flasche, Rosalind Eggo, W John Edmunds & Adam J Kucharski.

Mais sobre a Epitrack

A Epitrack atua no segmento de Digital Health com a missão de proporcionar acesso inteligente à saúde. Suas plataformas contam com mapas interativos que mostram como doenças se comportam no território. Criada em 2013, a startup já se tornou referência na construção de plataformas baseadas em crowdsourcing e inteligência epidemiológica.

A startup desenvolveu plataformas de vigilância participativa em eventos de massa, como a Saúde na Copa, para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, e a Guardiões da Saúde, para os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Durante esses eventos, o Ministério da Saúde instalou um gabinete de monitoramento com uma equipe central de vigilância que ficava acompanhando as tendências de risco de epidemias e, quando avaliava necessário, enviava equipes de investigação em campo para averiguar se de fato estava ocorrendo o início de um surto. Também desenvolveu outras soluções que foram aplicadas em países como Estados Unidos, Canadá, Suíça e Porto Rico.

www.epitrack.tech

Mais sobre o Colab

Colab é uma plataforma que conecta cidadão a governo, para dar mais voz ao cidadão e permitir que o governo pratique uma gestão mais compartilhada e eficiente. A população posta demandas de zeladoria urbana no aplicativo Colab e elas são levadas em tempo real às prefeituras pelo sistema da plataforma, sem paradas burocráticas ou empecilhos. E os gestores se baseiam nas propostas e pedidos dos cidadãos para conduzir a administração pública. Pelo aplicativo, os cidadãos também respondem a consultas públicas realizadas pelas prefeituras, para que sua opinião seja levada em conta em tomadas de decisão.

Fundado em 2013 e eleito o melhor aplicativo urbano do mundo pela New Cities Foundation, o Colab já recebeu prêmios nacionais e internacionais pela inovação na gestão pública. Também é a plataforma escolhida pelo ONU-Habitat, o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, para aplicar uma pesquisa anual nacional de percepção dos brasileiros sobre a condição de vida em suas cidades.

www.colab.re

Certeza matemática: atos pró-Bolsonaro geraram centenas de novos infectados pelo coronavírus

atos infecçãoAtos promovidos por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro vão, com certeza matemática, gerar novos casos de infecção por coronavírus que vão sobrecarregar ainda mais  hospitais que já se encontram em fase de colapso

Desde ontem vejo muita coisa sendo escrita para descrever as ações realizadas ao longo do dia de ontem por um segmento ínfimo da população brasileira em prol da instauração de um novo Ato Institucional para retornar o Brasil ao período mais obscuro do regime militar que se instaurou em 1964 e governou o nosso país até 1985.

A verdade é que observadas imagens geradas nas redes sociais pelos próprios participantes das mobilizações, a afluência de pessoas foi, com exceção de São Paulo, um fiasco. Mesmo o “ato principal” em Brasília, e que contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro, reuniu pouquíssima gente, revelando o grau de isolamento político a que os defensores de um novo ato institucional estão relegados (abaixo o momento em que o presidente Jair Bolsonaro é obrigado a parar seu discurso por tossir copiosamente).

Mas deixando de lado o ato político em si, o que tivemos ontem pelo Brasil afora foi a transformação de ruas e avenidas de muitas cidades brasileiras em focos de infecção pelo coronavírus. É que também foi possível observar que a maioria dos participantes não portava máscaras de proteção, e que estavam presentes grupos de idosos e crianças, sendo que os primeiros são alvos preferenciais para os casos mais graves da COVID-19, e os segundos são tidos como potenciais vetores de disseminação do coronavírus.

O interessante é que a estas altura do campeonato, os participantes desses grupos já foram informados de formas as mais variadas sobre os riscos que todos estão correndo ao formarem aglomerações e de forma desprotegida. A maioria dessas pessoas está colocada não apenas em degraus mais altos da pirâmide econômica, mas como são supostamente mais educados (formalmente pelo menos) do que os milhões de brasileiros que vivem em condições de extrema pobreza.

Como os efeitos da contaminação do coronavírus é normalmente de 5 dias, é provável que já ao fim da semana que se inicia teremos centenas de novos casos de COVID-19, sobrecarregando ainda mais um sistema de saúde que já se encontra fortemente sobrecarregado.  Resta saber como se comportarão aqueles que, por irem a estes focos de infecção, caírem vítimas do coronavírus.

Por último, é preciso notar que não foram apenas em atos de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro aconteceram ontem. Aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, centenas de pessoas acorreram ao Morro do Itaoca para fazerem lazer a céu aberto, transformando aquela área de proteção ambiental (APA do Itaoca) em um grande foco de infeccção. E novamente há que se apontar que não estavam ali presentes membros das comunidades mais pobres da cidade. É tipo de descaso ao conhecimento científico e às normas sanitárias que resultará em um aumento exponencial de casos de contaminação. E, convenhamos, tanto nos atos políticos como no uso de áreas ambientais para lazer, os infectados o fazem sabendo dos riscos. Depois que não se reclama a Deus ou da má sorte.

COVID-19: Brasil já é o 3o. em casos de pacientes em condições críticas

brasil

Com dados disponibilizados pelo site “Worldmeters“, a  tabela abaixo mostra a situação dos 15 países com maior número de casos infecção pelo coronavírus, com um destaque para o Brasil que já subiu para o 12o. lugar em termos de infectados.

quadro geral

Um fato que me chamou a atenção é a discrepância do número total de casos com o de número de doentes em situação crítica (aqueles que requerem a internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e até o uso de respiradores mecânicos. É que enquanto no número de infecções o Brasil é apenas o 12o. colocado, o nosso país é o 3o. em termos de pacientes considerados como estando em condição crítica.

Essa discrepância leva à inexorável questão que o eventual colapso das unidades hospitalares que abrigam pacientes em condições críticas terá na quantidade de óbitos. É que segundo um estudo realizado por pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, a taxa de mortalidade nos casos críticos é de pelo menos 49%.

Contra uma estimativa mais exata do número de mortes que poderão ocorrer no Brasil conspira a alta subnotificação de pessoas infectadas, o que é agravado pelo baixíssimo número de testes que já foram realizados e tiveram seus resultados confirmados.  Nessa variável, o Brasil continua com apenas 62.985 testes realizados, com uma taxa de 296 testes por milhão de habitantes. No caso da Espanha, que é o segundo país com mais pacientes em condição crítica, o número de testes realizados é 930.230, com uma taxa de 19.986 testes realizados por milhão de habitantes. A nota aqui é que a Espanha se encontra em um processo de achatamento da sua curva de novas infecções e de óbitos, justamente porque impôs normas de isolamento social associadas ao aumento do número de pessoas testadas.

Em síntese, a situação do Brasil continua extremamente preocupante, pois, além do número de pacientes em condições críticas, o nosso país não está tomando as medidas necessárias para estimar as principais áreas em condições críticas em termos de novos casos de infecção, o que seria possível com a realização massiva de testes.

O coronavírus coloca a Teologia da Prosperidade contra a parede

teologia da prosperidadeAlgumas das principais lideranças neopentecostais brasileiras no entorno do presidente Jair Bolsonaro na 27ª edição da Marcha para Jesus, em São Paulo.| Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Não tenho nem conhecimento suficiente nem pretensão de ter em relação ao alinhamento do presidente Jair Bolsonaro com determinadas lideranças  de uma variante cristã que é popularmente conhecida como “Teologia da Prosperidade“. Outros pesquidadores, entretanto, já escreveram textos interessantes sobre os esforços de Bolsonaro em associar sua imagem à lideranças ligadas à Teologia da Prosperidade, um esforço que aumentou com a queda flagrante de sua popularidade em função de sua forma particular de negar a pandemia criada pelo coronavírus.

Um desses pesquisadores, o doutor em Ciências da Religião, que atua no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Fábio Py, acaba de publicar um artigo intitulado “Cristologia pascoal bolsonarista“, onde traça um itinerário para que seja possível entender os esforços do presidente Bolsonaro em ligar a sua imagem e trajetória no trato da pandemia a uma lógica messiânica que, em última instância,  tenta relativizar as consequências mortais da pandemia.

Apresentada a análise do Dr. Fábio Py,  volto ao que realmente me chama a atenção não em relação ao presidente Bolsonaro, mas sim às lideranças neopentecostais que se associaram tão fortemente ao atual presidente, e que também estão colocadas em xeque pelo coronavírus. Sem entrar em nomes, uma característica comum a várias destas lideranças religiosas tem sido a sua oposição ao isolamento social, sob o argumento de que não se pode impedir o direito de culto, mesmo em face do risco real de disseminação do coronavírus entre os seus fiéis. 

Várias análises já foram postas sobre a posição das principais lideranças neopentecostais brasileiras, com a maioria dos analistas insistindo em uma explicação que tem a ver com o aspecto financeiro, já que fica mais difícil coletar dízimos e outras formas de contribuição se não houver a presença física dentro dos templos. Eu diria que essa não é a questão chave que faz com que uma parte significativa dessas lideranças insistam em reabrir templos em tempos de pandemia.

rr-soaresO missionário R.R. Soares, líder  da Igreja Internacional da Graça de Deus, inovou ao solicitar a entrega online de dízimos pelos fiéis em função da ausência de cultos presenciais por causa do coronavírus.

O problema me parece muito mais existencial, pois a Teologia da Prosperidade possui uma tônica que são as promessas de saúde e prosperidade que são os sustentáculos da congregação de seus seguidores. Como o coronavírus desconhece qualquer obediência aos clamores feitos em púlpitos, a própria existência dessa variante cristã está em xeque em face da incapacidade de oferecer uma imunidade concedida ou obtida pela fé.

Muitos analistas do fenômeno neopentecostal tendem a apresentar as congregações que a adotam como sendo monolíticas em termos de práticas e estáveis em termos de congregados.  Eu diria que nem uma coisa, nem outra. E a incapacidade de entregar as promessas de saúde que está ficando evidente por causa da virulência com que o coronavírus está atingindo a todos, independente da opção religiosa. Por isso mesmo, arrisco a dizer que período que se abrirá após a passagem do pico da pandemia criará grandes movimentos das “placas tectônicas” dentro das grandes denominações neopentecostais no Brasil. Suspeito ainda que as denominações protestantes que não abraçaram essa variante estarão atentas para, provavelmente, experimentar uma grande afluência de fiéis desencantados com a Teologia da Prosperidade.