Jeffrey Beall publica lista de 2017 e mostra o trash science em franco crescimento

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Graças ao trabalho voluntário do professor Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado-Denver, que lança desde 2011 a sua lista de editoras e revistas predatórias, pesquisadores de todo o mundo vem gradativamente sendo municiados com as informações necessárias para que evitem contribuir para a expansão do que eu rotulei como “trash science”.  Esse trabalho é particularmente importante para países como o Brasil que vivem sobre a pressão crescente para que seus cientistas publiquem mais, mesmo que o ambiente de financiamento de suas pesquisas enfrentem cenários de completa incerteza como o que é atualmente oferecido pelo governo “de facto” de Michel Temer.

Pois bem, o professor Beall acaba de liberar a sua lista anual de editoras e revistas predatórias, e ainda acrescentou dados relativos a métricas fajutas e revistas legítimas que foram sequestradas por editoras predatórias (Aqui!).   Uma rápida olhada nas tabelas abaixo vai mostrar que a invasão do “trash science” está se tornando um problema crucial para a ciência mundial, pois o avanço em todos os indicadores escolhidos é impressionante.

Esse crescimento exponencial na produção de “trash science” se deve a uma combinação de variáveis que estão invariavelmente ligadas à s da produção científica em mais uma commodity. Mas obviamente sobram os aspectos relacionados à distribuição de verbas públicas e privadas para pesquisadores, bem como benefícios funcionais, seja no aumento de salários ou na obtenção da almejada estabilidade empregatícia dentro de universidades e instituições de pesquisa.

No caso brasileiro, todas as evidências apontam para a penetração irrestrita das editoras e e revistas predatórias dentro da nossa comunidade científica. Um fato que vem contribuindo para isso é a adoção de uma opção quantativa (no caso o número de publicações alcançadas por um determinado pesquisador) para se definir todo tipo de premiação, seja no plano individual ou dos programas de pós-graduação. 

E, pior, a única manifestação pública que ouvi nos últimos anos sobre a lista preparada pelo professor Beall foi um repúdio coletivo por parte de editores de revistas científicas brasileiras contra uma postagem que ele publicou acerca do alcance limitado da plataforma Scielo  (Aqui!).

Mas como nunca é tarde para se aprender, espero que os pesquisadores e instituições de pesquisa brasileiros comecem a prestar mais atenção no trabalho de Jeffrey Beall. É que se isso não acontecer, corremos o risco de virarmos uma espécie de mais um paraíso do “trash science” ao modo do que já ocorre em muitos países da periferia capitalista.   A verdade é que continuar fingindo que o problema não existe vai atrasar ainda mais a evolução do nosso sistema nacional de ciência.

Nunca é demais lembrar que os próximos anos serão marcados por uma forte contenção de verbas para a pesquisa científica no Brasil.  Isto nos obriga a cobrar critérios mais claros para o que vai ser distribuído. Do contrário, acabaremos vendo o grosso dos recursos indo para as mãos dos que não hesitam recorrer ao trash science para turbinar seus currículos.

Por ora, resta-me saudar o incansável trabalho de Jeffrey Beall. É que sem ele não teríamos a menor ideia do tamanho do problema ou de como evitar cair nas milhares de arapucas que vendem gato por lebre.

 

Jeffrey Beall e os “super achievers” da ciência salame

O Professor Jeffrey Beall, que costumeiramente traz análises e revelações sobre os efeitos da propagação exponencial de revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas, acaba de produzir uma postagem lapidar sobre o irmão siamês do “Trash science“, o também pernicioso “Salami science” (Aqui!).

E Jeffrey Beall faz isto tratando do caso de dois “super achievers” (pesquisadores que se notabilizam por produzirem “solo” ou acompanhados um número acima da média de publicações anuais) da ciência mundial cuja produção combinada é de deixar a maioria dos que conhecem o caminho que um determinado artigo precisa percorrer para ser finalmente publicado se perguntando qual é o segredo de tamanha produtividade.   O próprio Jeffrey Beall desvenda parte do mistério ao destrinchar as publicações, e as claras repetições de conteúdos, dos professores Shahaboddin Shamshirband e Dalibor Petković em revistas científicas aparentemente sérias.

Eu mesmo já tratei neste blog do papel negativo que a prática do “Salami science” causa tanto na qualidade da ciência, como nos sistemas de premiação e distribuição de recursos para a pesquisa científica , e que é potencializada pela existência do mercado de “Trash science (Aqui! e Aqui!).

Uma coisa que é citada por Jeffrey Beall e com a qual eu concordo é sobre o risco de que a tolerância ao “Salami science” acarreta para a comunidade científica, na medida em que o sistema do “peer review” se funda no compromisso de que um dado experimento seja submetido apenas numa dada revista, impedindo a multiplicação de submissões e, consequentemente, de publicações de um mesmo resultado. Ao se romper com essa regra básica, tudo se torna possível. Até o rompimento dos padrões éticos que deveriam guiar a busca de publicar um artigo científico. É que se isto se tornar prática, não haverá muito o que se esperar em termos de qualidade e rigor.

Outro aspecto que Jeffrey Beall é a política de “hands off” que os chamados “super achievers” gozam em suas instituições. Eu mesmo já tenho presenciado a existência de pesquisadores extremamente prolíficos em seu número de publicações, mas que são claramente incapazes de contribuir minimamente para a qualidade intelectual dos programas de graduação e pós-graduação nos quais participam. A estes “super achievers” resta a desculpa de que são “ratos de laboratório”  que se ocupam apenas de suas pesquisas.  Mas até aí morreu o Neves. É que apesar de todas as suas omissões e incongruências, os “super achievers” são vendidos dentro de suas instituições como o exemplo a ser seguido, já que seriam eles os pilares da captação de recursos tão escassos quanto necessários.

Entretanto, o que pouco se fala é que ao se sobrevalorizar os supostos “super achievers“, o que se faz é contribuir para a privatização das pesquisas já que eles acabam por monopolizar espaços físicos dentro de suas instituições e a distribuição de verbas pelas agências de fomento.

Ainda que o aparecimento do “Salami science” e do “Trash science” seja parte de uma evolução da indústria das publicações científicas e da comodificação da ciência mundial, ignorar os seus efeitos deletérios por mais tempo poderá trazer danos irreparáveis para a produção e evolução do conhecimento científico, especialmente nos países localizados da periferia do Capitalismo.  O problema aqui é saber se haverá quem queira enfrentar os dois irmãos siameses de frente.  É que com raras exceções, como as do Professor Jeffrey Beall nos EUA (Aqui!) e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) no Brasil, a maioria dos que conhecem o problema prefere olhar para  o outro lado.

A expansão das revistas de”trash science”: por que devemos nos importar?

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Não sei se estou sendo alvo pessoal de uma campanha de marketing de diferentes “editoras” de revistas que disseminam “trash science”, mas minhas contas de correio eletrônico estão sendo especialmente bombardeadas nas últimas semanas com anúncios me convidando a publicar artigos em áreas que vão desde a pediatria até a engenharia de materiais (vejam abaixo três amostras destes convites)

A coisa é tão escancarada que nem é preciso visitar o blog do Prof. Jeffrey Beall (Aqui!) para verificar se editora e revista estão na sua lista de revistas predatórias.  E só esse fato explicita o fato de que o mercado de lixo científico está em processo de florescimento e não o contrário.

A pergunta que se sucede, por que o mundo do “trash science” para estar tão bem a despeito de esforços localizados para mostrar a verdadeira natureza dessa parte da indústria das publicações científicas? A primeira ideia que me ocorre é que seguindo as leis de mercado, oferta e demanda acabam se retroalimentando. Mas a coisa me parece ser mais complexa, pois se olharmos os custos envolvidos para que se publique nessas revistas caça-níqueis, há também que se introduzir análises sobre quais são os ganhos que os pesquisadores ou proto-pesquisadores acabam recebendo em troca pelos investimentos que fazem.

O mais crítico disso tudo é que ao se banalizar e incorporar como válidos artigos que não seriam publicados em revistas que sejam minimamente sérias no uso do processo de revisão por pares (ou peer-review), temos uma contaminação perigosa não apenas no que é tomado como sendo ciência, mas também nos processos de premiação e contratação. 

Outro aspecto que me preocupa com o caminho praticamente livre que essas revistas trash possuem é o processo anti-pedagógico que elas cumprem junto às novas gerações de pesquisadores. É que se tacitamente legitimar a publicação nesses veículos, e ainda por cima premiar quem faz isto, o que estamos dizendo a jovens pesquisadores é que o vale-tudo está oficializado na disseminação do conhecimento científico. Se isto já é um problema em países onde a comunidade científica já é robusta e bem consolidada, imaginemos o que isto causa nos países da periferia capitalista.

Finalmente, no caso brasileiro afora algumas tentativas de expor os malefícios do “trash science” (cito explicitamente os esforços do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!)), o silêncio é quase total e as publicações de baixa qualidade em inglês canhestro abundam.  No caso brasileiro, o silêncio sepulcral do CNPq e da CAPES  sobre este problema, bem como a objetiva falta de ação para coibir  a premição do “trash science” são sinais de que temos um árduo desafio pela frente. Resta saber quem vai querer comprar esta briga, especialmente num tempo em que convivemos com um encurtamento brutal de verbas para a pesquisa.

Jeffrey Beall desmonta um dos mitos do “trash science”: revistas predatórias e a transferência da propriedade intelectual

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Um dos mitos que cercam a rendição de muitos pesquisadores às revistas de “acesso aberto” é de que estas permitem, em troca de um taxa pela publicação de um dado artigo científico, que os autores mantenham seus direitos intelectuais sobre suas pesquisas. Essa “regra de ouro” das publicações de acesso aberto (muitas delas comprovadamente apenas esquemas de captação de dinheiro de pesquisadores incautos ou não) serve como desculpa para que muitos evitem as editoras tradicionais, onde o procedimento do “peer review” ainda é majoritariamente utilizado para que um artigo seja aceito.

Eu digo majoritariamente porque já existem evidências suficientes de que este não é necessariamente o caso, bastando para isso visitar sites como o “Retraction Watch” (Aqui!) para que se verifique que os problemas envolvendo a retirada de artigos publicados atingem tanto editores predatórios como as grandes corporações que dominan a publicação de documentos científicos.

Entretanto, voltando à questão do mito de que as revistas de “acesso aberto” não demandam a entrega de direitos intelectuais dos autores dos artigos que puiblicam, o professor Jeffrey Beall, responsável entre outras contribuições pela “Beall´s List” de editoras e revistas predatórias, acaba de demonstrar que isto não é verdade. Segundo o que o professor Beall apurou a maioria das revistas de acesso aberto mantidas por editoras predatórias demandam sim que os autores abram mão de seus direitos de propriedade intelectual, em que pese o pagamento de taxas nem sempre módicas para publicar artigos científicos (Aqui!).

A derrubada deste mito deveria levantar algumas questões preciosas sobre o que motiva muitos pesquisadores no Brasil, e fora dele, a recorrerem a revistas cujo padrão de controle sobre a qualidade do que publicam é, no mínimo, muito precário.  Como já observei aqui, na base desta ação está o fato de que agências de fomento e bancas examinadoras formadas para contratar docentes em instituições de ensino superior faz algum tempo optaram por premiar a quantidade em vez da qualidade. Como a maioria dos pesquisadores já sabe disso, a opção lógica para muitos deles foi de jogar na privada qualquer escrúpulo com o rigor científico para poderem multiplicar o número de artigos publicados, a maioria deles sem nenhuma contribuição real para o avanço do conhecimento.

Aliás, tudo estaria “tranquilo e dominado” se não fosse por indivíduos (dentro da comunidade científica e fora dela) que decidiram não se omitir em relação à naturalização de práticas de publicação que atentam contra o desenvolvimento da ciência. Dentre estes nomes eu sempre destaco os casos do Professor Jeffrey Beall (Aqui!)e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) cujos trabalhos  em prol da qualidade científico venho acompanhando. Mas certamente existem muitos outros que hoje fazem um trabalho semelhante de defesa da integridade e do rigor que deveria acompanhar a ciência como é o caso do já citado Retraction Watch.

Lamentavelmente não vejo ainda uma reação mais coordenada e coerente para que o lixo científico produzido por editoras e revistas predatórias seja tratado de forma adequada em prol do desenvolvimento da ciência brasileira.  No caso brasileiro, o silêncio oficial das principais agências de fomento (CNPq e Capes) e das principais sociedades científicas (como a Academia Brasileira de Ciência (ABC) e a SBPC) contribui diretamente para que não haja um debate mais amplo sobre os malefícios da adesão ao “trash science“.

A minha expectativa é depois dessa contribuição do professor Jeffrey Beall sobre a questão da propriedade intelectual, alguma ação mais abrangente seja adotada para que se recoloque a qualidade sobre a quantidade do que se é publicado. A ver!

 

Trash science: as conferências caça-níqueis são apenas a ponta do iceberg

As atribulações dos últimos dias não me permitiram abordar de forma rápida ao material que o jornalista Maurício Tuffani publicou na plataforma “Direto da Ciência” acerca da volta com força total das conferências científicas caça-níqueis ao Brasil (Aqui!).

O fato das conferências caça-níqueis serem as irmãs gêmeas das revistas de “trash science” apenas reforça o caráter predatório das mesmas. É que como já mostrou o próprio Maurício Tuffani em determinados casos há uma espécie de ligação direta entre a conferência caça-níquel e uma revista predatória, a qual é normalmente publicada online pelos mesmos “empreendedores” da área da publicação científica.

Para mim a pergunta que realmente importa é de porque pesquisadores em diferentes níveis de desenvolvimento de sua carreira científica se submetem a este tipo de esquema de vulgarização da ciência. As respostas são muitas, mas a principal parece ser a preferência dada pelos órgãos de fomento por premiar a quantidade e não a qualidade do que é publicado como sendo produto de investigação científica.

Algo que chama a minha atenção toda vez que este assunto surge é o quase completo silêncio que se forma por parte da ampla maioria da comunidade científica, e não apenas da brasileira. Esse é definitivamente um fenômeno global e que responde a um processo de comodificação da ciência. A diferença é que no Brasil enquanto muitos participam ativamente dos eventos e revistas que produzem e disseminam lixo científico, poucos falam aberta e criticamente do problema.

Felizmente um núcleo de resistência a este processo de vulgarização do conhecimento científico está se formando, graças ao trabalho de indíviduos como Maurício Tuffani e Jeffrey Beall que vem apontando não apenas para a existência do problema, mas também para a necessidade urgente de que saiamos de uma posição de negação do óbvio para outra que recoloque a produção da ciência dentro dos marcos rigorosos que permitiram avanços impressionantes no entendimento de processos naturais e sociais nos últimos quatro séculos.

Finalmente, para os interessados em não cair nas malhas das conferências caça-níqueis, sugiro a leitura dos critérios propostos pelo professor Jeffrey Beall para identificar quando nos deparamos com esse tipo de pseudo evento científico, o qual pode ser acessado (Aqui!).

Em carta à editores da Nature, Jeffrey Beall conclama ação coletiva contra os jornais de trash science

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Em uma dura carta publicada nesta 5a. feira (16/06) (ver imagem abaixo) na seção “Letter to the editor” de uma das principais revistas do mundo, a Nature, o professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver demanda uma ação clara contra as revistas que publicam “trash science” (que ele chama de predatórias) (Aqui!).

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Em linhas gerais, o que Jeffrey Beall aponta é que as revistas predatórias estão ameaçando a credibilidade da ciência ao fingir ou negligenciar a realização de uma séria revisão de suas publicações por outros cientistas que não os autores (o chamado processo de peer review).   Beall aponta em sua carta que, ao ignorar a avaliação rigorosa por pares, as revistas predatórias estão poluindo a literatura científica com informações periféricas ou mesmo com simplesmente lixo científico.

Mas em sua carta aos editores da Nature, o prof. Beall vai além da mera denúncia quando insta as instituições de ensino superior a que parem de utilizar o número de artigos científicos publicados como uma medida de desempenho acadêmico. Além disso, Beall argumenta que pesquisadores e revistas científicas sérias não deveriam mais citar artigos oriundos de revistas envolvidas na publicação de “trash science“, e bibliotecas de universidades deveriam excluir as revistas científicas de suas bases de metadados. 

Entretanto, Jeffrey Beall também cobra ações claras de empresas que ofereçam serviços à editoras científicas no sentido de que parem de se relacionar com revistas de “trash science“.  As cobranças de Beall pela eliminação de editoras e revistas predatórias envolvidas na publicação de “trash science” atingem até gigantes do setor de referenciamento como a Scopus, a Web of Science da Thomson Reuters, e o US National Center for Biotechnology Information.

Uma cobrança final do prof. Beall é dirigida aos defensores das publicações de acesso aberto. Para Beall, esses defensores deveriam parar de fingir que o modelo de acesso aberto baseado na regra de ouro do “autor paga, revista publica” está totalmente livre de sérios problemas estruturais de longa duração.

Como alguém que vem acompanhando a questão dos impactos do “trash science“, penso que o prof. Jeffrey Beall está prestando um grande serviço à ciência mundial, e em especial à de países como o Brasil, onde a construção de uma vigorosa comunidade científica ainda está engatinhando. Particularmente ara mim, a ditadura oficializada da quantidade sobre a qualidade serve apenas para a criação de uma casta de tigres de papel cuja serventia ao avanço da ciência é basicamente nenhuma. Além disso, a negligência em rejeitar a premiação de autores “trash science” está criando sérias distorções não apenas na distribuição de verbas públicas para a pesquisa científica, mas também a realização de concursos públicos para professores nas universidades públicas. Com isso, o que temos é a possibilidade de um gigantesco salto para o passado que já está causando graves danos à ciência brasileira.

Lamentavelmente no caso brasileiro esse importante alerta do prof. Jeffrey Beall chega num momento de desarranjo da sistema científico nacional como resultado da dissolução do Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Em função disso, é bem provável que as medidas cirúrgicas que Beall sugere caiam em ouvidos completamente surdos.  Os pesquisadores brasileiros que vem turbinando seus CVs Lattes com lixo científico agradecem!

Segunda geração de “revistas trash” amplia risco de vulgarização da ciência

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O professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall publicou em seu site há poucos dias a ocorrência de uma segunda onda de editores de revistas de “trash science” (Aqui!). Esses editores nada mais seriam do que indivíduos que tendo trabalhado nas primeiras editoras “trash” decidiram criar seus próprios veículos para angariar recursos com autores incautos ou não. 

Eis que na manhã deste sábado (05/03) as minhas caixas de correio eletrônico amanheceram repletas de convites de revistas científicas obscuras, mas que estranhamente conseguiram me achar.

E, como não sou o único que deve ter sido “premiado”,  isto me leva a pensar que se há oferta, há demanda. Em outras palavras, se o número de revistas está proliferando é porque a competição permite que isto ocorra. Mas ainda há que se considerar que a relação custo/benefício deve estar ao lado dos editores destas revistas predatórias, já que só é preciso enviar um arquivo e depois pagar para que um pseudo-artigo possa ser citado como tendo sido publicado.

No caso brasileiro onde a adaptação a este tipo de oferta vem se dando sem nenhum tipo de amarra mais consistente, é bem provável que quem se serviu da primeira geração de editores “trash”, agora parta para abraçar sem nenhum remorso essa segunda onda de editores predatórios.

O pior é que naqueles poucos casos onde há algum tipo de cobrança de transparência como foi o caso do evento noticiado pelo jornalista Maurício Tuffani no seu blog (Aqui!) envolvendo a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que se vê é a procrastinação em oferecer as respostas devidas.

O problema é que ao não se ignorar e rechaçar (em vez de abraçar) as revistas que proliferam lixo científico, corremos o risco de que em algum tempo não possamos mais separar o que é ciência real e o que simplesmente lixo científico. No caso de países como o Brasil, os custos desta complacência com os editores “trash” compromete o avanço científico que conseguimos com tanta dificuldade

A crescente economia paralela das publicações acadêmicas

Por Jeffrey Beall, publicado originalmente em inglês Aqui!

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Identifcador de objeto científico?

Há evidências de uma economia paralela está se  desenvolvendo em torno da indústria das publicações  acadêmicas. Os componentes desta economia paralela incluem editoras predatórias, empresas de métricas fictícias, falsos serviços de revisão de línguas, e agora, uma empresa fornecedora  de

A empresa que vende a identificação de um indicador não-padrão é chamado  de Identificador de Objeto Científico (SOI). É evidente que esta é uma tentativa de criar uma identificação ao longo das linhas do DOI, ou  Identificador de Objetos Digitais.

Contudo, o termo  Identificador de Objeto Cientifico é mal escolhido, pois “objeto científico” soa como um termo para uma peça de equipamento de laboratório – como um microscópio – Ao invés de um objeto digital,  que essencialmente é um arquivo de computador.

A principal coisa que promove o mercado cinza de publicações acadêmicas é o sistema de pagamentos de autores. Existem inúmeras pequenas e  “start-ups“,  ou  mesmos empresários individuais, que copiam funções e os planos de negócios das editoras tradicionais e das empresas que lhes dão suporte.

O mercado cinza fornece serviços diretamente aos autores acadêmicos ou a empresas que os vendem para os autores.

Todos estas empresas procuram receitas obtidas da venda de serviços a autores acadêmicos, direta ou indiretamente. Eles querem o dinheiro obtido de agências de fomento, fundos pessoais, dinheiro de fundos, de bibliotecas acadêmicas, e de decanatos.

O problema é que empresas   como a empresa Scientific Object Identifier – são cópias tolas de empresas legítimas.

Geralmente  a criação de uma nova empresa neste ramo significa o envio de milhares de mensagens “spams” para os membros da comunidade científica.

Embora seja ótimo que o movimento de acesso aberto tenha o acesso à publicação de artigos científicos seja mais fácil, ele também resultou na desestabilização da publicação acadêmica e o estabelecimento do caos.

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Vencendo a batalha do acesso aberto, perdendo a guerra científica

  1. Agradeço a Ravi Murugesan por  me alertar sobre o artigo sobre halitose Aqui!.

Sequestro de nomes de revisas científicas: a nova tática do “trash science” para garantir freguesia

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Em seu blog, Prof. Jeffrey da Colorado University-Denver abordou recentemente mais um caso de sequestro de nome de revista científica tradicional por um editor predatório (Aqui!). A estratégia aparentemente básica de sequestrar nomes de revistas é mais uma das muitas que estão sendo adotadas por editores de “trash science” para atrair cientistas incautos (ou não) para continuar garantindo os lucros de um mercado em visível expansão.  Como o próprio professor Jeffrey Beall já identificou, e o jornalista Maurício Tuffani repercutiu em seu blog, a lista de editoras predatórias cresceu 33% apenas em 2015 (Aqui!) sem que haja qualquer indicação de que o fenômeno vá começar a regredir num futuro imediato.

A questão da expansão mundial do “trash science” é particularmente aguda para países com sistemas científicos em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, por causa da ênfase na quantificação da produção que, muitas vezes, acaba permitindo que muito lixo científico seja produzido e, pior, que os seus produtores sejam generosamente irrigados com um pool de verbas que está bastante curto por causa da crise econômica mundial.

Como em tantas outras empreitadas, há que se perguntar como pesquisadores que se pretendem sérios se permitem atrair por revistas que se valem de esquemas como o do sequestro de títulos para oferecerem seus préstimos.  A questão é que se as agências de fomento, como o CNPq e a Capes não se dão ao trabalho o joio do trigo (ou melhor, ciência de verdade de lixo científico de baixíssima qualidade ), o que está se fazendo de forma prática é a autorizar a abertura de uma temporada interminável de produções que não merecem nem um pingo da tinta que é usada para passá-las dos ambientes virtuais das revistas “trash” para a condição de cópias impressas. A pouca disposição das agências de fomento de identificar e punir quem se vale de “trash science” paraa acessar recursos públicos escassos não isenta os pesquisadores que se valem das editoras predatórias para engordar de forma fictícia os seus currículos. Mas a combinação desses dois aspectos parecem explicar o crescimento da oferta de editoras predatórias que estão pelo mundo afora (principalmente na África e na Ásia) dispostas a colocar online qualquer coisa que alguém se habilite a pagar pela publicação.

O interessante nisto tudo é que a simples menção de que estamos metidos num momento delicado da ciência por causa da ação desenvolta das editoras predatórias cria o mesmo ambiente de silêncio sepulcral que se observa nos filmes sobre a máfia. Aliás, manifestações recentes contra o trabalho do Prof. Jeffrey Beall beiram a reação histérica que vimos em outros casos de personagens que aparecem em público para nos mostrar facetas indesejáveis do nosso cotidiano. Mas pensando bem, motivos para isso devem existir, já que a movimentação de recursos em direção às editoras predatórias nem sempre advém dos recursos privados dos pesquisadores que se dispõe a colocar seus nomes nessas “obras”. Dai que atirar no mensageiro é sempre mais fácil do que reconhecer que a mensagem que ele traz.

Um problema com a indústria das publicações acadêmicas

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Escapando para o mundo das publicações

Por Jeffrey Beall (este artigo foi publicado originalmente no blog do Prof. Jeffrey Beall Aqui!

Um problema principal com publicação acadêmica nos países ocidentais ou ocidentalizados nos dias de hoje pode não ter muito a ver com o acesso via  subscrição vs.  acesso aberto. Eu sugiro que ele pode ter mais a ver com um problema comum partilhado por muitos – senão a maioria – dos executivos, diretores e gerentes que foram contratados pela indústria das publicações acadêmicas, seja com base em assinaturas ou de acesso aberto.

Apresso-me a acrescentar que estas são pensamentos pessoais e impressionistas. Eu não fiz  estudos empíricos para tirar essas conclusões.

Um problema principal com publicação acadêmica pode ser que alguns de seus principais editores são ex-pesquisadores universitários ou médicos frustrados. Eles parecem ter, por uma razão ou outra, caído fora do mundo da pesquisa.

Talvez eles estivessem frustrados com os seus níveis salariais. Talvez eles tivessem um apetite maior para o sucesso empresarial. Talvez eles não tenham feito o corte no “publicar ou perecer”. Por qualquer motivo, eles procuraram ou foram atraídos para atuarem como empregados pela indústria da publicação acadêmica.

Que tipo de comportamentos podem ter eles adotado depois?

Alguns têm Ph.D. em Microbiologia, Química, Física ou em Ciências Médicas, ou também ter atuado por algum tempo como médicos.

Muitos também ter passado algum tempo fazendo diferentes pós-doutorados, saltando de laboratório para laboratório. Alguns podem ter publicado alguns artigos-chaves em revistas científicas, em co-autoria com seus parceiros de laboratório, mas suas carreiras (infelizmente) não conseguiram prosperar. Após este processo, eles finalmente deixaram a área da investigação científica.

Eles, então, entraram na área das publicação acadêmica, um domínio para o qual eles tiveram que ser treinados para (já que inexistem muitos programas de graduação voltados para a formação em publicação acadêmica).

Em muitos aspectos eminentemente qualificados, mesmos tangencialmente, com seus diplomas de doutorado, e com forte senso de conhecimento básico, eles entraram na indústria das publicações acadêmicas como especialistas instantâneos. Qualquer outra pessoa, afinal, teria que aprender todos esses campos por conta própria.

Eu tenho assistido a algumas conferências da indústria das publicações acadêmicas ao longo dos últimos anos. Alguns destas conferências poderiam facilmente ser confundidas com uma conferência de especialistas em Biologia Celular, dado o número de PhDs em Biologia que as frequentam. Não é que alguns ou mesmo muitos na indústria da publicação acadêmica parecem sobre-qualificados (em sua área de competência) e pedantes (na maneira de falar) – ao não se comunicar bem com aqueles “nas trincheiras” das instituições de pesquisa?

Não parece que muitos pensam sabem muito sobre publicações acadêmicas só porque trabalharam em um laboratório e publicaram um par de artigos cientíicos? Como eles foram aceitos tão ansiosamente, então, na indústria das publicações acadêmicas?

Aqueles que trabalham para editoras de acesso aberto podem também se tornar zelosos, mas também sérios defensores do acesso aberto. Eles apoiam agressivamente um sistema que pode fornecer um salário elevado, os seus contracheques. Afinal, há muitos mais autores no mundo, com potencialmente lucrativo apoios financeiros do que existem bibliotecários acadêmicos.

Alguns usam o blog “Scholarly Kitchen” como uma sirene de nevoeiro. Eles proclamam sua experiência na empresa em publicações acadêmicas, mas raramente enfatizam um histórico incompleto no mundo da ciência.

Alguns podem começar suas vidas com uma dedicação à ciência ou à Medicina com a finalidade de ajudar a humanidade. Será que eles realmente ajudam muito nos esforços de comunicação e de partilha do conhecimento, ou eles acabam ajudando principalmente a si próprios?

Você terá que concluir o resultado por si próprio