Negacionismo olímpico e o que isso nos diz dos atletas brasileiros que recusaram a vacina?

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A notícia de que 10% dos atletas que compõe a delegação brasileira se recusarem a serem vacinados antes de se dirigem para o Japão para participar dos “Jogos Olímpicos” está passando de forma quase que batida pela mídia corporativa  brasileira. Mas isto não me impede de dizer que essa posição dessa minoria é escandalosa e representa uma falta de responsabilidade grotesca. 

É que um evento de menor envergadura como foi a Copa América (ou seria Cova América?) que foi recentemente realizada no Brasil trouxe pelo menos uma nova variante da Sars-Cov-2  vinda da Colômbia para dentro do território nacional, uma adição completamente desnecessária para um cenário já complexo  que é marcado pela presença de várias cepas que, inclusive, podem estar se recombinando.

A posição do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), como era de se esperar, tem sido também de “passar o pano” e isentar esses atletas negacionistas de qualquer tipo de punição, já que o Comitê Olímpico Internacional (COI), não coloca a obrigação de vacinação como uma condição que os atletas participem das Olímpiadas. Esse movimento do COI só pde ser explicado pelos seus interesses comerciais junto aos patrocinadores desse mega evento esportivo.

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A verdade é que a realização das Olimpíadas em um momento em que diversos países estão em meio a um crescimento desenfreado da pandemia da COVID-19 já seria escandaloso. Ao permitir que que parte dos atletas participe sem ser vacinada, o COI acaba transformando o seu megaevento em uma poça biológica de onde poderão ser transportadas para todo o planeta cepas que estão confinadas em determinadas áreas. E isso com a colaboração direta dos atletas negacionistas.

O que deveria ser feito no momento de retorno da delegação brasileira seria colocar todos os atletas em um período de confinamento obrigatório para evitar que eventuais portadores do coronavírus possam passar da condição de atletas para a de difusores de coronavírus. Mas sabemos que isso não irá ocorrer dada frouxidão que está sendo observada em relação aos negacionistas da vacina.

Uma coisa curiosa é que o último levantamento pelo DataFolha mostrou que 6% dos brasileiros não querem se vacinar contra a COVID-19, um valor muito próximo do total dentro da delegação olímpica brasileira que se recusa a ser vacinada. 

Finalmente, para surpresa de ninguém, já se sabe que o hotel que hospeda a delegação brasileira  de judô que está no Japão para participar das Olimpíadas se transformou no foco de um surto de COVID-19. É quase certo que os  judocas negacionistas estejam sendo os primeiros a ser infectados, mas certamente não serão os únicos, o que apenas reforça a irresponsabilidade com que eles trataram o cuidado com seus colegas de delegação.

O antiambientalismo sob pressão

Por  Helena Margarido Moreira*

 
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São Paulo, 14 de dezembro de 2020 – A cada novo mês, nos deparamos com quebras de recordes nos desmatamentos e queimadas de nossa vegetação nativa. Até o dia 22 de outubro, o número de queimadas na Amazônia já havia superado os registros do ano de 2019, quando a média mensal de áreas que receberam alertas de desmatamentos pelo Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real) foi de 1.189 Km2, enquanto que entre 2015 e 2018 foi de 576 Km2.

Os focos de calor no mês de outubro de 2020 já foram 73% superiores ao do mês de setembro e também é superior a anos anteriores. Esta espiral do fogo e do desmatamento, porque os dois estão diretamente relacionados, vem consumindo a biodiversidade brasileira e ameaçando a sobrevivência das comunidades indígenas. Também, mudanças no uso do solo e o agronegócio são os principais vetores de emissão dos gases de efeito estufa (GEE), que intensificam o aquecimento global, o que coloca o Brasil como o sétimo maior emissor do mundo.  

Os últimos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) já apontavam que riscos associados ao clima para os sistemas natural e humano são maiores para o aquecimento global de 1,5°C que para o atual (que já está em torno de 1℃), mas ainda menores que para 2°C. Esses riscos dependem da magnitude e ritmo do aquecimento, localização geográfica, níveis de desenvolvimento e vulnerabilidade, de escolhas e da implementação de políticas de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação das emissões de GEE. A cada aumento de temperatura, aumentam também os riscos associados ao clima para a saúde, para os meios de subsistência, para a manutenção da biodiversidade, para a segurança alimentar, o abastecimento de água e para o crescimento econômico. Estes efeitos são sentidos de forma ainda mais severa pela população de baixa renda, intensificando as desigualdades socioeconômicas entre os indivíduos.

A este cenário desafiador, se soma uma pressão cada vez maior da comunidade internacional, que será liderada a partir de janeiro de 2020 pelo presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e sua agenda prioritária de combate à crise climática. A pressão, portanto, para que o Brasil garanta o cumprimento de nosso aparato de proteção ambiental e se empenhe não só a cumprir as metas do Acordo de Paris, mas renová-las com mais ousadia, aumenta bastante com o início do governo Biden-Harris nos EUA. Neste contexto, o Brasil deve, junto aos demais países signatários do Acordo de Paris, submeter até o final deste ano metas e planos de ação mais ousados que permitam que o aumento da temperatura global da Terra se limite à 2℃ (o que já traz consequências bastante graves).

Naomi Klein afirma que o negacionismo climático não será mais voltado à negação da ciência do clima, mas sim às políticas de proteção às populações mais vulneráveis que necessariamente deverão ser tomadas pelos governantes no combate à crise climática que vem se intensificando, e que traz impactos desiguais nas diferentes regiões do planeta. E as respostas passam necessariamente, portanto, por pensar em desigualdade e crise climática. É preciso garantir a proteção dos biomas, zerar o desmatamento ilegal, proteger as populações indígenas e as populações mais vulneráveis.

*Helena Margarido Moreira é doutora em Geografia pela USP e Professora de Relações Internacionais. 

O preço final do negacionismo da COVID-19 será calculado em vidas perdidas

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Como já foi dito aqui, o presidente Jair Bolsonaro está em uma restrita lista de líderes mundiais que ainda negam a gravidade da crise sanitária causada pela COVID-19. Se esse negacionismo não tivesse efeitos práticos, esse negacionismo do presidente do Brasil não teria nada de novidade, pois ele se somaria a uma lista de negações que ele professa (a começar pela que nega a natureza hedionda da tortura).

O problema é que, como presidente da república, e um líder que arrasta uma parcela da população brasileira para abraçar suas negações, Jair Bolsonaro produz uma conta social que é contada no número de pessoas mortas pela negação de colocar todas as forças e recursos disponíveis ao governo federal para conter o avanço da pandemia no Brasil..

Essa conta social nos apresentada não apenas em número de mortes, mas também de pessoas que ficarão sequeladas pelas diversas mazelas que são causadas pela COVID-19 em casos mais drásticos da infecção. Mas, por enquanto, os números (subnotificados, é preciso que se frise) já colocam o Brasil como o 9o colocado em número total de casos, o 6o colocado no número de mortos, e o 2o em número de casos graves (ver imagem abaixo).

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Há que se notar ainda que o crescente número de mortos está se localizando nas áreas mais pobres, o que indica que são os trabalhadores e a juventude pobre que estão arcando com o principal peso da negação disseminada por Jair Bolsonaro e pelos detentores de grandes fortunas que o seguem.

Por outro lado,  o Brasil, ao contrário de outros países, está tendo uma concentração de infecções pelo novo coronavírus na faixa de 20 a 39 anos, o também derruba a tese do isolamento vertical que tem sido defendida pelo presidente da república. Essa diferença é fundamental para que se entenda as vias pelas quais o coronavírus está disseminando na população brasileira,  de forma até a minimizar o baixíssimo número de testes realizados para determinar se uma pessoa está contaminada ou não.

O avanço rápido da pandemia deverá implicar em um aprofundamento das medidas de isolamento social e não o contrário, como vem sendo apregoado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. Esse aprofundamento será a única forma de se deter um aumento ainda mais acelerado no número de infectados e, por consequência, no número de pessoas mortas pela COVID-19. 

Uma coisa é certa: depois que o pior da pandemia passar, o Brasil terá que fazer um ajuste com os responsáveis para que tenhamos chegado ao ingrato posto de um dos principais focos mundiais da pandemia. Isto será o mínimo que se poderá fazer para honrar a memória dos milhares que morrerão por causa da insistência em se negar a Ciência e o conhecimento que ela disponibilizou para que o pior fosse evitado.

 

O que mais poderia se esperar de um governo composto por negacionistas, senão negação?

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Vejo em muitas pessoas a completa surpresa pela postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro em relação aos riscos colossais que estão sendo impostos sobre a população brasileira, especialmente sobre suas porções mais pobres, por causa da pandemia do coronavírus. 

Pessoalmente eu fico surpreso com esse elemento de surpresa, visto que o governo Bolsonaro é composto por negacionistas de várias estirpes em algumas áreas estratégicas. O ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo é um negacionista das mudanças climática, negação essa que é compartilhada de forma velada pelo ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

Já a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, não apenas nega o perigo imposto pelo uso extensivo e intensivo de agrotóxicos altamente perigosos e banidos em outras partes do mundo.  Tereza Cristina transformou a negação sobre os ricos riscos  trazidos por agrotóxicos para a saúde humana e o meio ambiente em um verdadeiro tsunami de aprovações de agrotóxicos altamente tóxicos que até os países produtores, incluindo a China, querem distância, apesar de vendê-los de forma frugal no Brasil. 

Por outro lado, o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda Paulo Guedes, o Posto Ipiringa de Jair Bolsonaro, nega o óbvio naufrágio de suas políticas ultraneoliberais e ainda tenta surfar na crise do coronavírus para empurrar mais privatização e mais perda da soberania nacional como a única solução para que o Brasil saia da recessão prolongada em que se encontra.

Também temos a ministra Damares Alves que nega até a necessidade de termos políticos que protegem a saúde e a integridade das mulheres brasileiras, apesar de seu ministério ser, em tese, voltado justamente para garantir a proteção delas.

No timão dessa nau de negacionistas, temos Jair Bolsonaro que antes de negar a gravidade da pandemia do coronavírus já havia negado tantas outras coisas, incluindo a existência de um regime militar entre 1964 e 1985, sendo ele próprio um defensor dos instrumentos de coerção que marcaram os 21 anos de duração do regime de exceção.

Então por que poderia se esperar qualquer ação racional e lógica, a começar pela imediata retomada dos investimentos em ciência que pudesse dotar os cientistas brasileiros dos recursos de que necessitam para desenvolver uma vacina para o coronavírus? A resposta é simples: não há como esperar qualquer coisa que beire o reconhecimento de que vivemos um momento singular na história do Brasil, momento este que requer uma participação ativa da comunidade científica, dos serviços público de saúde e da ação solidária da nossa população para que possamos atravessar a pandemia como  um mínimo de perdas de vidas humanas.

Felizmente para todos nós, a conta do custo de tantos negacionismos acumulados desde janeiro de 2019 está chegando para Jair Bolsonaro. E eu me arrisco a dizer que as próximas semanas poderão ser palco de uma mudança drástica na forma com que a maioria dos brasileiros se relaciona com a postura negacionista de Jair Bolsonaro e seus ministros negacionistas em questões chaves nacionais.

O negacionismo climático de Ricardo Salle serve a interesses explícitos

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Ricardo Salles, mostrado ao lado da ministra Tereza Cristina em visita à área indígena onde ocorre cultivo ilegal de soja, associou Alemanha ao nazismo em reação a crítica de jornalista da Voz da Alemanha.

O ainda ministro (ou como diz o jornalista Bernardo Mello Franco, o antiministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vem repetindo uma afirmação que só pode decorrer de uma opção pelo desconhecimento ou, pior ainda, de cinismo frente ao conhecimento existente em relações às mudanças climáticas globais.  É que em uma de suas declarações sobre as mudanças climáticas, Ricardo Salles afirmou a seguinte pérola: ” o clima “deve ser tratado no âmbito da academia, pela … e o poder público, para ser eficienteprecisa “cuidar de problemas tangíveis“. 

O problema é que ao se posicionar de forma que claramente nega a importância das mudanças climáticas, o que Ricardo Salles está fazendo é propositalmente ignorar não apenas o que já estabelecido pela imensa maioria da comunidade científica que estuda o assunto, mas que os tais problemas tangíveis serão fortemente agravados com o estabelecimento de novos padrões climáticos que deverão ser marcados pela frequência de eventos atmosféricos de alta intensidade.  Um exemplo recente de como os mais pobres sofrerão efeitos desproporcionais das mudanças climáticas foi a passagem do ciclone Idai que devastou regiões inteiras de Moçambique, tendo causado centenas de mortes e a destruição de 500 mil hectares de plantações.

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Passagem do ciclone Idai causou forte destruição e grande número de perdas humanas na região central de Moçambique.

Mas a verdade é que para constatar problemas “tangíveis” associados aos novos padrões atmosféricos associados às mudanças climáticas Ricardo Salles não precisaria nem sair de Brasília. É que no dia de ontem (21/04), no dia do aniversário de Brasília, a região do Distrito Federal foi palco de uma tempestade que inundou rapidamente bairros após uma hora de duração. Entre as áreas mais afetadas está o campus da Universidade de Brasília (UNB) que fica bastante próximo da sede do Ministério do Meio Ambiente (ver vídeo abaixo mostrando a inundação de um auditório da UNB).

Assim, que ninguém se engane, o ainda ministro (ou antiministro) do Meio Ambiente não está dando de ombros para as evidências de que as mudanças climáticas são um fato real e que afetarão com mais dureza os mais pobres por falta de conhecimento ou de provas empíricas próximas de seus olhos. 

A questão é muito clara: Ricardo Salles nega a necessidade urgente do Brasil ter políticas que nos preparem para as inevitáveis catástrofes que se abaterão sobre o território nacional em função de novos padrões climáticos, os quais serão marcados por sua forte intensidade. Ricardo Salles opta por um discurso que, como eu já disse, oscila entre o desconhecimento e o cinismo, para garantir os interesses de quem o colocou em um cargo para o qual ele claramente não possui a devida capacitação.  E eu falo aqui das mineradoras e do latifúndio agro-exportador cujos líderes defendem abertamente a liquidação do sistema nacional de proteção ambiental, ainda que isto venha a ser obtido a um custo incalculável seja econômica ou socialmente. 

Como já escrevi várias vezes e já declarei em entrevista ao jornal português Diário de Notícias, estamos sob a égide de governantes  que são caracterizados por suas posturas acientíficas ou anticientíficas.  Mas é importante lembrar que o são assim por terem propósitos que vão de encontro à modelos de exploração econômica que não desprezam o conhecimento científico já estabelecido em torno das mudanças climáticas e seus efeitos. E sse é exatamente o caso de Ricardo Salles, o que torna a sua permanência no MMA um risco continuado ao meio ambiente e as instituições criadas para fazer o oposto do que deseja o ainda ministro do Meio Ambiente.