Agronegócio e pandemia da COVID-19: uma mistura explosiva

Já abordei anteriormente a íntima ligação entre a variante estadunidense da fazenda industrial com o aparecimento de pandemias, incluindo a da COVID-19.  Pois bem, para quem quiser saber mais sobre esta questão em geral, bem como no caso específico do Brasil, a edição brasileira do jornal Le Monde Diplomatique acaba de ser publicada é um prato cheio de conhecimento. É que boa parte da edição é dedicada a investigar e demonstrar a relação íntima entre grandes criações de animais e abatedouros industriais no espalhamento da COVID-19 no Brasil e nos EUA.

le monde pandemia

No caso brasileiro, o artigo assinado pelos professores Fernando Mendonça Heck, do Instituto Federal de São Paulo, Campus Avançado Tupã (SP),  e Lindberg Nascimento Júnior do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina, teve como foco o papel jogado pelos frigoríficos no espalhamento da COVID-19 na região Sul do Brasil, onde ficou patente uma clara sincronia entre a presença dos abatedouros e o grau de disseminação da pandemia (ver figura abaixo).

le monde covid frigorificos

Os professores Heck e Nascimento Junior mostram que ao impedir o isolamento social dos seus trabalhadores, os frigoríficos impuseram a difusão da pandemia não apenas nos municípios sede, mas também nas regiões de entorno, onde parte dos seus contratados reside.  Somado a esse padrão geográfico, os pesquisadores mostram que as condições de alta precariedade em que o trabalho dentro dos frigoríficos ocorre contribui de forma direta para o adoecimento dos seus empregados, bem como das famílias destes.

Já o artigo assinado pelos professores Larissa Bombardi do Departamento de Geografia da USP,  Immo Fiebrig, professor associado honorário da Escola de Biociências a Universidade de Nottingham na Inglaterra, e Pablo Luiz Maia Nepomuceno do Departamento de Geografia da USP.  Em seu artigo, os três pesquisadores abordaram  a possível correspondência espacial entre as áreas com criação intensiva de porcos e aquelas com altas taxas de população infectada por COVID-19 nos EUA. Essa investigação teve início com a divulgação na imprensa, a partir de abril de 2020, de diversos casos de trabalhadores da indústria da carne infectados pelo novo coronavírus, já que as plantas industriais onde ocorre o abate de animais teriam se transformado em hotspots de disseminação do SAR-Cov-2. 

Ao relacionar a presença de grandes rebanhos de suínos com as plantas de abate, Bombardi e seus colegas confirmaram a existência de uma relação inequívoca   na distribuição espacial entre as áreas com grande presença de suinocultura e/ou de frigoríficos e aquelas com alta taxa da população infectada por Covid-19 nos EUA (ver figura abaixo).

le monde covid suinocultura

Bombardi e colegas argumentam que a transformação de porcos em uma mera “massa de proteína animal” tem se mostrado deletéria não apenas para os animais, mas também para os seres humanos e para o meio ambiente.  Por causa disso eles concluem que não é de se estranhar que novas cepas tenham surgido na velocidade com que o fizeram neste século.

Outros artigos também sinalizam a incompatibilidade do modelo de fazenda industrial com a manutenção de níveis aceitáveis de segurança alimentar, de condições de vida minimamente dignas para os animais, bem como a prevalência de condições adequadas para os trabalhadores da indústria da carne animal.  Um elemento que aparece de forma eloquente, por exemplo, no artigo assinado  pelo  doutor José Raimundo Sousa Ribeiro Junior, professor visitante do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp. Em seu artigo, Ribeiro Junior coloca em xeque a falácia de que o “agronegócio mata a fome do mundo”. É que segundo dados levantados por , a pandemia pode ser responsável pelo crescimento de 83 milhões a 132 milhões na quantidade de pessoas cronicamente desnutridas no mundo. em que pese os lucros fabulosos auferidos pelas corporações que controlam a produção e distribuição de alimentos no mundo.

Quem desejar acessar a íntegra da edição de janeiro de 2020 do Le Monde Diplomatique Brasil, basta clicar [Aqui!]. 

Fim do auxílio emergencial em meio à avanço da pandemia equivale a jogar fósforo aceso na gasolina

bolso nero

Com o anunciado fim do chamado “Auxílio Emergencial, em poucas semanas nem as maiores peripécias do presidente Jair Bolsonaro irão impedir que a dura realidade se instaura em milhões de lares brasileiros, onde faltarão os recursos necessários para colocar um pouco de comida na mesa.  Quem se dá ao trabalho de olhar o que está acontecendo nas ruas das cidades brasileiras com milhões de pessoas vagando em busca de comida não consegue entender como o governo Bolsonaro está cometendo um erro de cálculo político tão imenso, especialmente em um contexto de expansão da pandemia da COVID-19 que imporá uma redução na atividade econômica, jogando ainda mais pessoas em um já imenso exército de desempregados.

A resposta para esse aparente mistério está no apego do ministro Paulo Guedes a um receituário econômico que foi abandonado pela imensa maioria dos governos nacionais que, para combater a expansão da pandemia da COVID-19,  optou por destravar as torneiras dos recursos necessários par manter a suas respectivas populações com condições mínimas de sobrevivência. Em outras palavras, o fim do “Auxílio Emergencial” é uma consequência direta da manutenção da ortodoxia neoliberal pelo governo Bolsonaro. 

O presidente Bolsonaro, entre um mergulho em outro em praias ocupadas por seus apoiadores, sintetizou a disposição do seu governo com a singela frase “Toca a vida“.  A questão é que Bolsonaro sabe que dadas as condições estruturais da economia brasileira, não há como “tocar a vida”, a não ser que seja passando fome e sede.

O agravamento do cenário difícil que vivemos em 2020, e que jogará ainda mais brasileiros na condição de miséria extrema (o número inicialmente é de 15 milhões de pessoas), colocará uma pressão extraordinária sobre prefeitos e governadores. O problema é que estes também estão sendo pressionados a abraçar as mesmas políticas ultraneoliberais da dupla Bolsonaro/Guedes. Como governadores e prefeitos se comportarão ainda é um mistério, mas suponho que as eventuais resistências serão pontuais, e a maioria optará por apertar as contas para alcançar um impossível equilíbrio das contas públicas, optando por restringir gastos com políticas sociais.

Todo esse cenário disparado pelo fim do pagamento do “Auxílio Emergencial” acabará mostrando rapidamente o seu potencial de gerar uma forte explosão social nas principais cidades brasileiras. E que ninguém venha depois alegar algum tipo de surpresa, pois a decisão de jogar fósforo aceso em gasolina foi anunciada publicamente e adotada sem maiores resistências.

Nem quase 200 mil mortos pela COVID-19 interrompem o “Neymarpalooza”

Neymar-basquete

O Brasil conta hoje com mais de 191 mil mortes causadas pela COVID-19, podendo chegar a 200 mil ainda na primeira semana de 2021. Enquanto isso, o jogador de futebol do Paris Saint Germain, Neymar Junior, promove uma festa de arromba no município de Mangaratiba com a participação de 150 a 500 convidados. O evento é tão bem estruturado que já ganhou o apelido de “Neymarpalooza”.  Para evitar que as imagens do que acontecer do evento não vazem rapidamente para a internet “on time” haverá o recolhimento de telefones celulares. Também circula a informação de que um espaço acusticamente isolado foi construído para evitar que os vizinhos da sede do “Neymarpalooza” se sintam incomodados.  

Em um país com um mínimo de regramento social, essa festa macabra resultaria no banimento de Neymar Junior da seleção nacional de futebol, além da perda de patrocinadores importantes.  Mas como estamos no Brasil, Neymar Junior não deve estar nenhum pouco preocupado com eventuais punições, mesmo porque ele deverá arrastar outros membros da seleção brasileira para o evento.

A verdade é que em um país onde o que vale é o montante de dinheiro que a pessoa possui em suas contas bancárias, não há mesmo com que Neymar Junior se preocupar, pois está “tudo dominado”.  Além disso, como Neymar é um apoiador conhecido do presidente Jair Bolsonaro, eu não me surpreenderia se o próprio chefe do executivo federal e seus filhos dessem uma passada no “Neymarpalooza”. Afinal, para eles está tudo “normal” e “dominado”.

Agora, convenhamos, aos que ainda possuem um pouco de responsabilidade em relação ao que está acontecendo no Brasil neste momento, a simples existência do “Neymarpalooza” enquanto milhares de famílias sequer podem se despedir dos seus mortos é uma demonstração de que as coisas no nosso país estão muito fora do lugar, como, aliás, sempre estiveram desde que os portugueses primeiro aportaram nas costas da Bahia. O problema é que, neste evento, os participantes estarão literalmente sambando sobre uma montanha de mortos.

E depois ainda tem gente que ainda não entendeu como foi o possível o Brasil perder de 7 a 1 para a Alemanha. Basta olhar para o que andam fazendo os profissionais do futebol alemão nestes dias pandêmicos e veremos a explicação do massacre germânico em pleno Mineirão. 

Deu no New York Times! ‘Brincando com Vidas’: o Plano de Vacinação da COVID-19 do Brasil está mergulhado no caos

Lutas políticas internas, planejamento aleatório e um crescente movimento antivacinas transformaram o país em um conto de advertência na era do coronavírus

Victor Moriyama para o The New York Times

Ernesto LondoñoManuela Andreoni e 

RIO DE JANEIRO – Enquanto os países se apressavam em seus preparativos para inocular cidadãos contra o coronavírus, o Brasil, com seu programa de imunização mundialmente conhecido e uma robusta capacidade de fabricação de medicamentos, deveria ter levado uma vantagem significativa.

Mas lutas políticas internas, planejamento aleatório e um movimento antivacinas nascente deixaram o país, que sofreu o segundo maior número de mortes da pandemia, sem um programa de vacinação claro. Seus cidadãos agora não têm noção de quando podem obter alívio de um vírus que colocou o sistema de saúde pública de joelhos e esmagou a economia.

“Eles estão brincando com vidas”, disse Denise Garrett , epidemiologista brasileiro-americano do Sabin Vaccine Institute, que trabalha para expandir o acesso às vacinas. “É quase um crime.”

Os especialistas tinham esperança de que a capacidade de imunização do Brasil poderia permitir que ele lidasse com o fim da pandemia melhor do que com o início.

 

 Logo depois que a COVID-19 foi identificada pela primeira vez no país em fevereiro, o Brasil se tornou um epicentro da crise global de saúde. O presidente Jair Bolsonaro rejeitou as evidências científicas, chamou o vírus de um resfriado “miserável” que não justificava o fechamento da maior economia da região e repreendeu os governadores que impuseram medidas de quarentena e fechamento de empresas.

À medida que os esforços de vacinação estão em andamento na Grã – Bretanha nos Estados Unidos , dando às suas populações a chance de começar a imaginar uma vida pós-pandemia, o momento encontrou as autoridades brasileiras mais uma vez despreparadas e atoladas em fortes disputas sobre a política de vacinas.

Uma manifestação no mês passado contra a vacina Sinovac em São Paulo.Amanda Perobelli / Reuters

O Ministério da Saúde apresentou na semana passada um plano de vacinação em resposta a uma ordem do Supremo Tribunal Federal. O plano estabelecia a ordem em que os grupos vulneráveis ​​seriam vacinados, mas faltava um cronograma detalhado e uma estimativa clara de quantas doses estarão disponíveis. O ministério já havia informado que pretendia iniciar a campanha de vacinação em março.

Dias após o anúncio, o Ministério da Saúde ainda estava lutando para fazer pedidos a fornecedores de vacinas sobrecarregados. Funcionários do ministério também enfrentaram dúvidas sobre por que o país não tinha seringas e frascos suficientes para embarcar na ambiciosa campanha de vacinação, necessária para cobrir um país com 210 milhões de habitantes, onde mais de 180.000 sucumbiram ao vírus.

Além disso, a Anvisa, agência reguladora da saúde no Brasil, ainda não aprovou nenhuma vacina contra o coronavírus para uso geral.

“As pessoas vão entrar em pânico se o Brasil continuar atrasado em ter um plano, uma estratégia clara e objetiva”, disse Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, no dia 7 de dezembro, alertando que o Congresso tomará as rédeas do processo se o ramo executivo continuou a tatear.

O governador João Doria de São Paulo, centro, e autoridades de saúde com uma embalagem da vacina CoronaVac após sua chegada da China neste mês.Nelson Almeida / Agence France-Presse – Getty Images

A discussão sobre o acesso e a segurança da vacina também se tornou envolvida em uma disputa partidária.

Bolsonaro criticou repetidamente a vacina CoronaVac, que está sendo desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech, e rejeitou o plano de seu ministério da saúde de comprar 46 milhões de doses.

Em vez disso, o governo confiou na vacina desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, que está atrasada na corrida para receber a aprovação dos reguladores de saúde.

A cruzada do presidente contra a vacina chinesa criou uma oportunidade política de ouro para um de seus principais rivais políticos, João Doria, o governador do estado de São Paulo. Doria negociou diretamente com os chineses as doses da vacina, que está sendo desenvolvida em parceria com o centro de pesquisas do Butantan, de São Paulo.

Doria disse que as autoridades estaduais não podiam esperar que o governo federal, que passou por três ministros da saúde ao longo da pandemia, agisse em conjunto.

“Não podemos esperar até março para começar a usar uma vacina que pode ser usada em janeiro”, disse ele em entrevista. “Há um consenso no estado de São Paulo e em outros estados de que a espera representa um grande risco para a população, afetando as taxas de mortalidade e o sistema público de saúde.”

Doria prometeu a seus constituintes na semana passada que São Paulo pretende começar a vacinar as pessoas no final de janeiro – uma promessa que depende da aprovação dos reguladores federais, que ainda não receberam os resultados finais dos estudos sobre a eficácia e segurança da vacina.

O gabinete do presidente condenou o plano de Doria de começar a vacinar as pessoas em janeiro, chamando-o de “populismo barato e irresponsável”.

A briga cada vez mais acirrada entre Doria, que deve concorrer à presidência em 2022, e o governo federal politizou perigosamente os planos de vacinação no Brasil.

Carla Domingues , epidemiologista que dirigia o programa de imunização do Brasil até o ano passado, lamentou que a vacina contra o coronavírus tenha se tornado uma questão partidária.

“Isso nunca aconteceu nos esforços de imunização”, disse ela. “Isso vai deixar as pessoas confusas. É surreal. ”

Vários governadores convergiram na capital, Brasília , na semana passada para se reunir com o ministro da Saúde e exigir um plano nacional de imunização. Um grupo que representa os governos municipais, a Federação Nacional de Municípios, também emitiu um comunicado pedindo ao governo federal que compre e distribua “todas as vacinas reconhecidas como eficazes e seguras contra a COVID-19”.

Alguns governadores, inclusive nos estados do Paraná e da Bahia, o segundo localizado na região Nordeste do Brasil, começaram a tentar obter e, por fim, produzir doses da vacina Sputnik V de fabricação russa.

Testando a vacina contra o coronavírus Sputnik V da Rússia em uma clínica em Moscou.  Alguns estados brasileiros têm interesse em adquirir a vacina.Sergey Ponomarev para The New York Times

Carlos Lula, presidente do conselho nacional de secretários de saúde, disse que a onda de diplomacia e negociação de vacinas em nível estadual foi surpreendente em um país que passou décadas construindo um dos programas de imunização mais respeitados no mundo em desenvolvimento.

“É um orgulho para o país porque se tornou um modelo para outras nações”, disse ele. “Ainda assim, de repente, não podemos lidar com as tarefas que são o mínimo.”

Mesmo quando os desafios de abastecimento e logística forem superados, especialistas em saúde dizem que o Brasil enfrentará um novo problema: um crescente movimento antivacinação que, segundo eles, o presidente e seus aliados alimentaram com falsidades.

Roberto Jefferson, um ex-deputado que apóia o presidente, afirmou no início deste mês em uma mensagem no Twitter que “os globalistas estavam preparando uma vacina para mudar nosso DNA”.

A mensagem , que foi retuitada mais de 3.000 vezes, afirmava que Bill Gates, o bilionário e filantropo americano, estava por trás de um esquema “genocida” para “matar milhões de pessoas e substituir nosso DNA pela marca da besta”, uma referência ao o diabo.

O crescente movimento antivacinas levou alguns governadores, incluindo Doria, a defender a obrigatoriedade de certas vacinações.

Bia Kicis, legisladora que é uma das principais representantes de Bolsonaro, argumentou que as vacinações contra o coronavírus não deveriam ser obrigatórias porque são “experimentais” e podem alterar o DNA das pessoas. Os especialistas em vacinas consideram as afirmações infundadas.

Bolsonaro disse que as vacinas deveriam ser obrigatórias apenas para cães.

Embora as vacinas nunca tenham sido obrigatórias para adultos no Brasil, sua eficácia e segurança nunca foram amplamente questionadas.

Uma pesquisa divulgada no fim de semana pelo Datafolha, um conceituado instituto de pesquisa de opinião pública brasileira, descobriu que 22% dos entrevistados disseram não ter a intenção de receber a vacina contra o coronavírus, ante 9% em agosto.

A questão está agora no Supremo Tribunal Federal, que neste mês está ouvindo dois casos que poderiam dar às autoridades de saúde a autoridade para tornar certas vacinas obrigatórias.

A Dra. Garrett, do Instituto Sabin, estudou a ascensão do movimento antivacinação nos Estados Unidos, onde trabalhou por duas décadas nos Centros de Controle de Doenças. Ela disse que temia há muito tempo que o movimento encontrasse um ponto de apoio no Brasil, mas ficou consternada com a velocidade e intensidade de sua ascensão na era Bolsonaro.

“Isso encorajou os antivaxxers no Brasil a se apresentarem antes do que deveriam”, disse ela. “Eles têm poder e têm uma voz alta.”

Ernesto Londoño e Manuela Andreoni reportaram do Rio de Janeiro e Letícia Casado de Brasília.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The New York Times” [Aqui!].

Vacina contra o coronavírus fabricada na China está no centro do confronto político no Brasil

 Choque em curso entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo sobre a vacina Sinovac ameaça implantação de imunização.  Desentendimentos sobre quais vacinas fornecer à população brasileira vêm fermentando desde outubro

mascaraMulher usando máscara protetora no Brasil, o segundo país mais atingido pela pandemia de coronavírus depois dos Estados Unidos. Foto: Reuters

Por Eduardo Baptista para o South China Morning Post

O Brasil se tornou um campo de batalha à medida que facções políticas disputam sobre qual vacina contra a Covid-19  vai  usada para imunizar 212 milhões de cidadãos – uma decisão que terá implicações para toda a região da América Latina.

O presidente do Brasil Jair Bolsonaro emitiu um decreto em agosto para reservar US $ 356 milhões para comprar e eventualmente produzir 100 milhões de doses da vacina desenvolvida em conjunto pela Universidade de Oxford e a empresa farmacêutica AstraZeneca.

Enquanto isso, João Doria, governador do estado mais rico do Brasil, tem pressionado ativamente  pelo uso da CoronaVac, uma vacina desenvolvida pela Sinovac Biotech, sediada em Pequim, no que os especialistas dizem ser um movimento inicial para a candidatura presidencial de 2022.

Um confronto está se preparando desde outubro, quando Bolsonaro vetou um acordo entre o ministério da saúde e o governo paulista de Doria para a compra de 46 milhões de doses do CoronaVac. Ele passou a igualar isso a “morte e invalidez” e disse que não o incluiria no programa nacional de imunização do país.

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As primeiras doses da vacina CoronaVac Covid-19 da China chegam ao Brasil

Conhecido como o “Trump dos Trópicos”, Bolsonaro também se recusou a ser vacina contra a COVID-19 e minimizou a gravidade da epidemia.

Ao mesmo tempo, o Instituto Butantan, com sede em São Paulo, quase concluiu os testes de Fase 3 da vacina chinesa e cooperou com Doria para construir a infraestrutura necessária para a produção em massa.

A crise da Covid-19 no Brasil foi de mal a pior. O país está enfrentando o segundo surto mais mortal depois dos Estados Unidos, com mais de 6,7 milhões de casos e 179.000 mortes. Vários governadores estaduais, incluindo Doria, criticaram o plano federal de imunização por não garantir um suprimento diversificado de vacinas.

A pressão sobre Bolsonaro também está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus próprios suprimentos de vacinas. Dimas Covas, chefe do Instituto Butantan, disse em agosto que estava em negociações com Argentina, Colômbia e a Organização Pan-Americana da Saúde para fornecer o CoronaVac.

Na quinta-feira, Covas disse que o número de países interessados ​​cresceu e inclui Peru, Uruguai, Paraguai e Honduras. Falando na mesma conferência, Doria disse que 11 estados brasileiros entraram em contato com o Butantan em busca do CoronaVac.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março.  A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas.  Foto: ReutersO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março. A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas. Foto: Reuters

Doria disse na segunda-feira que a implantação da vacina em todo o estado começaria em 25 de janeiro, com 18 milhões de doses a serem distribuídas no total. Os primeiros a receber a vacina serão grupos vulneráveis, como profissionais de saúde e povos indígenas, seguidos por qualquer pessoa com mais de 60 anos.

Nada disso será possível, porém, sem a aprovação do órgão regulador de saúde do Brasil, a Anvisa. Poucas horas após o anúncio de Doria, a Anvisa expressou surpresa e preocupação com o fato de a data escolhida invalidar o andamento da avaliação da vacina.

A Anvisa também observou que ainda havia dois bloqueios de estradas antes que a vacina pudesse ser aprovada para uso emergencial. Uma revisão da fábrica na China onde a vacina será feita ainda estava em andamento e os resultados finais dos testes de Fase 3 do Instituto Butantan ainda não haviam sido apresentados.

O ministro da Saúde e aliado do Bolsonaro, Eduardo Pazuello, disse nesta terça-feira – durante reunião com governadores de estados brasileiros – que a Anvisa precisava de cerca de 60 dias para aprovar uma vacina e que a primeira da fila era a da AstraZeneca. Isso tornaria a data anunciada de Doria inatingível.

Doria criticou as declarações de Pazuello, dizendo que o governo federal tinha uma oposição ideológica e política ao CoronaVac. Em resposta, Pazuello garantiu aos governadores que o governo federal compraria qualquer vacina aprovada pela Anvisa a preços razoáveis.

Ativistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia.  Foto: AFPAtivistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia. Foto: AFP

Em entrevista à CNN Brasil no dia seguinte, Pazuello disse que se o governo federal fechar um acordo com a farmacêutica norte-americana Pfizer, o uso emergencial de sua vacina pode começar já em dezembro.

Milhares de pessoas receberam a vacina CoronaVac na China, onde a vacina tem autorização de uso emergencial.

Doria disse que os dados finais dos ensaios clínicos da Fase 3 serão apresentados na terça-feira, e que a Anvisa havia prometido uma decisão em 30 dias.

Ao longo da disputa entre Doria e Bolsonaro, a Anvisa reafirmou seu compromisso de avaliar vacinas com base em critérios científicos e não políticos.

Doria já questionou várias vezes a independência da Anvisa, afirmando nesta quarta-feira que a agência não deve ser refém de interesses do governo federal, da presidência ou de uma ideologia.

Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, indicou o tenente-coronel aposentado Jorge Kormann para o conselho da Anvisa no mês passado. Se a indicação for aprovada no Senado, três dos cinco diretores da Anvisa serão aliados do Bolsonaro, aumentando as chances de boicote da CoronaVac.

Kormann, atualmente trabalhando no ministério da saúde de Pazuello, não tem experiência anterior em medicamentos ou vacinas, mas deve liderar a unidade da agência responsável pela aprovação de vacinas. Sua indicação foi contestada pelo sindicato dos trabalhadores da Anvisa.

O Brasil, que tem a quinta maior população do mundo, precisa de mais de 400 milhões de doses para que o governo cumpra sua promessa de vacinar toda a população até o final do ano que vem

Pazuello disse na terça-feira que a AstraZeneca forneceria 260,4 milhões de doses – 100,4 milhões no primeiro semestre de 2021 e 160 milhões no segundo semestre. Setenta milhões de doses viriam da Pfizer e de um consórcio liderado pela Organização Mundial da Saúde, o Consórcio Covax , que forneceria 42,5 milhões de doses.

Na quinta-feira (10/12), o segundo funcionário mais graduado do Ministério da Saúde, Elcio Franco, disse que a Pfizer e a CoronaVac estavam “no mesmo nível” e aguardando a aprovação da Anvisa. No entanto, o ministério ainda não disse quantas doses de CoronaVac serão lançadas.

Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado por South China Morning Post [Aqui].

Vacinação já!

Basta do descaso homicida de Bolsonaro! Quase nada mais importa que imunização

vacina

Frasco rotulado como vacina contra Covid-19 em foto de ilustração 10/04/2020 REUTERS/Dado Ruvic/Illustration

Editorial do jornal Folha de São Paulo

Passou de todos os limites a estupidez assassina do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de coronavírus. É hora de deixar de lado a irresponsabilidade delinquente, de ao menos fingir capacidade e maturidade para liderar a nação de 212 milhões de habitantes num momento dramático da sua trajetória coletiva. Chega de molecagens com a vacina!

Mais de 180 mil pessoas morreram de Covid-19 no Brasil pela contagem dos estados, subestimada. A epidemia voltou a sair do controle, a pressionar os serviços de saúde e a enlutar cada vez mais famílias. Trabalhadores e consumidores doentes ou temerosos de contrair o mal com razão se recolhem, o que deprime a atividade econômica. Cego por sua ambição política e com olhos apenas em 2022, Bolsonaro não percebe que o ciclo vicioso da economia prejudica inclusive seus próprios planos eleitorais.

O presidente da República, sabotador de primeira hora das medidas sanitárias exigidas e principal responsável por esse conjunto de desgraças, foi além. Sua cruzada irresponsável contra o governador João Doria esbulhou a confiança dos brasileiros na vacina. Nunca tão poucos se dispuseram a tomar o imunizante, segundo o Datafolha.

Com a ajuda do fantoche apalermado posto no Ministério da Saúde, Bolsonaro produziu curto-circuito numa máquina acostumada a planejar e executar algumas das maiores campanhas de vacinação do planeta. Como se fosse pouco, abarrotou a diretoria da Anvisa com serviçais do obscurantismo e destroçou a credibilidade do órgão técnico.

Abandonada pelo governo federal, a população brasileira assiste aflita ao início da imunização em nações cujos líderes se comportam à altura do desafio. Não faltarão meios jurídicos e políticos de obrigar Bolsonaro e seu círculo de patifes a adquirir, produzir e distribuir a máxima quantidade de vacinas eficazes no menor lapso temporal.

O caminho da coerção, no entanto, é mais acidentado e longo que o da cooperação entre as autoridades federais, estaduais e municipais. Perder tempo, neste caso, é desperdiçar vidas brasileiras, o bem mais precioso da comunidade nacional.

Basta de descaso homicida! Quase nada mais importa do que vacinas já —e para todos os cidadãos.

fecho

Este texto foi originalmente publicado na forma de um editorial pelo jornal Folha de São Paulo [Aqui!].

Academia Nacional de Medicina emite nota sobre crise sanitária causada pela COVID-19

academia nacional

A Academia Nacional de Medicina, em seus 191 anos de luta pela saúde da população brasileira e como instituição apolítica, manifesta enorme indignação pelo descaso, descuido e negligência por parte das autoridades governamentais e da classe política que seguem omissas e servis a interesses eleitorais, menosprezando a vida dos cidadãos. 

Como entidade de assessoramento à política de saúde do país, nos cabe apresentar, novamente, propostas e conclamar a sociedade brasileira a não ficar omissa, sob o risco de sermos corresponsáveis por erros que seguem prejudicando de maneira grave o Brasil. 

A Academia Nacional de Medicina acompanha com extrema preocupação a evolução da pandemia pela COVID-19, que recrudesce no Brasil. O negacionismo irresponsável de muitos gestores e políticos precisa cessar já. Grande parte das 200 mil mortes que logo contabilizaremos poderia ter sido evitada. O tempo perdido com a falsidade, matou dezenas de milhares e vai seguir matando!

Quanta falta de decoro sanitário e inacreditável leviandade. Ignorância vergonhosa!

Sem dúvida, os executivos federal, estadual e municipal têm a maior responsabilidade, mas também o poder legislativo tem obrigação de assumir seu protagonismo, sendo indispensável o entendimento entre os gestores ao invés de inúteis debates político-demagógicos. Também, muitos governadores e prefeitos ardilosamente se omitem, não exercendo o poder de disciplinar e controlar as atividades sociais.  

A Sociedade tem de dar um basta!

É preciso impedir que a população se infecte. Não há outra solução. Sim, a vacina é indispensável e prioritária, mas não bastará. Serão muitos meses para se conter a epidemia e, antes, durante e depois, teremos que seguir usando máscaras e condutas sociais cientificamente comprovadas. 

Há necessidade imediata de implementação de exemplos e de medidas de proteção individual e coletiva, controlando-se o risco aumentado pelas atividades recreativas e sociais, atualmente descontroladas pela falta de liderança.

A vacina segue sendo explorada, de forma irresponsável, por autoridades que podem se merecer, mas o povo brasileiro não os merece. 

Para se evitar uma tragédia ainda maior, é imprescindível a priorização da avaliação técnica das diferentes vacinas e a imediata liberação de todas as que forem aprovadas pela Anvisa. 

Há necessidade premente da vacinação, como ocorre em outros países, nos quais, inclusive, já vem sendo aplicada.

Não há razão para punirmos mais o Brasil com a morosidade proposta de se aguardar meses. 

Estamos muito atrasados e precisamos construir estratégia sólida que permita, já no início de 2021, a realização segura da vacinação em massa da população. É impossível a vacinação contra a COVID-19 dar certo com planos nacionais e estaduais paralelos.

Uma irresponsável disputa levou à perda de precioso tempo na definição de um plano nacional de imunização efetivo, apesar de termos um extraordinário e bem-sucedido programa nacional de imunizações pelo SUS, reconhecido mundialmente por sua qualidade.

Além da vacina, é necessário educar e estimular exemplos e programas de informação adequados para o uso obrigatório de máscaras, do afastamento entre as pessoas, de coibir, a todo custo, as aglomerações. 

A testagem em massa é outra medida imprescindível, capaz de detectar casos e definir medidas epidemiológicas e de saúde pública que reduzam drasticamente a propagação da epidemia.

Enfim, uma coordenação das ações de forma eficiente em todas as esferas. 

Na defesa de milhares e milhares de vidas que certamente serão ainda perdidas, se essa política suicida e criminosa não for de imediato inteiramente modificada, a Academia Nacional de Medicina, mais uma vez, manifesta enorme preocupação e conclama a todos da sociedade brasileira a exigir de nossos governantes e políticos o que o Brasil tem direito e não vem recebendo.

Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 2020

academia assinatura

“A gestão da COVID-19 lembra a do aquecimento global: a mesma procrastinação do poder diante da certeza do desastre”

Ignorar sinais fracos, deixar o desastre acontecer, tentar curar em vez de prevenir: esta é a abordagem da maioria dos governos na crise relacionada à COVID-19, na França e em outros lugares

AQUECIMENTOEm uma convocação para um dia mundial da ação climática, em Berlim, 25 de setembro de 2020. HANNIBAL HANSCHKE / REUTERS

Por  Stephane Foucart para o Le Monde

A informação mais perturbadora dos últimos dias não é sobre a COVID-19, mas sobre o clima, e deveria aterrorizar a todos nós. Na quarta-feira, 2 de dezembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgou seu relatório preliminar sobre o final do ano e indica que se classificará nos três anos mais quentes já registrados, sendo a maior probabilidade que ela é colocada no segundo degrau do pódio. Nada, até agora, tão esperado. Como a acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera não cessou, não é incomum que cada ano seja provavelmente mais quente do que o anterior.

O que é notavelmente novo e preocupante aqui é que o ano de 2020 foi marcado por um fenômeno conhecido como “La Niña” – durante o período frio do famoso Niño – que tem um forte efeito de resfriamento na temperatura média global. Para dar apenas um exemplo, o ano de 2000 (La Niña) foi quase 0,25°C mais frio que o ano de 1998 (El Niño). Duas décadas depois, a mesma onda de frio não impediu, mesmo que apenas temporariamente, a rápida progressão do aquecimento. Apostemos aqui que este novo aviso enviado pela máquina climática não seja levado em consideração: é chegado o momento de relançar, e qualquer outra consideração é, na melhor das hipóteses, secundária.

Ignorar sinais fracos, deixar o desastre acontecer, tentar tratar em vez de prevenir: este é um modus vivendi comum à maioria dos governos, na França e em outros lugares. Para estar convencido disso, basta observar a forma como se gere a crise ligada à COVID-19: enquanto os sinais de alarme parecerem tênues e se limitarem a curvas e gráficos, nada se faz. E quando o que está previsto acontece, o poder político é geralmente reduzido a fingir espanto e tomar medidas drásticas.

Ressentimento e raiva

Assim, no dia 28 de outubro, Emmanuel Macron anunciou a contenção, especificando que na Europa todos estavam “surpresos com a evolução do vírus” . Um olhar retrospectivo sobre os números das internações, entretanto, indica que a curva começou a inflar em meados de julho. E que dez dias depois, em seu oitavo parecer, o conselho científico do Palácio do Eliseu considerou “altamente provável que uma segunda onda epidêmica apareça no outono/inverno próximos”. “A maioria dos políticos não entende que, nesse tipo de dinâmica, é quando passamos de 2 casos para 4 casos que temos que reagir” , comenta um bioestatístico.

Do contrário, medidas radicais de confinamento e privação de liberdade acabam tendo que ser tomadas, muito rapidamente, sem o tempo necessário para discussão e deliberação. E uma vez que tudo é decidido com mais ou menos urgência, as injustiças, os excessos ou as decisões vividas como abuso de poder são inevitáveis. Eles alimentam ressentimento e raiva, o sentimento de uma erosão dos princípios de justiça e democracia.

De muitas maneiras, o gerenciamento da pandemia COVID-19 está reproduzindo, embora em um período de tempo muito curto, o aquecimento global. A mesma imprudência diante da emergência do perigo, a princípio distante: as terras aráveis ​​de Bangladesh submersas pela elevação do oceano não nos convenceram da realidade do perigo climático mais do que os sacos de cadáveres que se amontoaram na província chinesa de Hubei, nas primeiras semanas da epidemia, não nos preocupou com os perigos da nova doença. A mesma procissão de pseudo-especialistas chegando para fraudar a conversa pública, instigando dúvidas com sucesso: o povo da garantia de ambição substituiu os céticos do clima e, por sua vez, povoou os aparelhos de televisão. A mesma procrastinação do poder, enfim, diante da certeza do desastre.

Desestabilizar toda a sociedade

Isso não é tudo. Diante do novo coronavírus como do aquecimento global, nossas sociedades individualistas não estão equipadas com uma grade de análise adaptada à percepção de certos perigos. Sofremos da incapacidade de compreender totalmente os fenômenos que produzem riscos individuais baixos, mas riscos sistêmicos elevados. A probabilidade de morrer de Covid permanece baixa para grande parte da população, assim como morrer por causa das mudanças climáticas parece ser um evento muito improvável.

aquecimento global já começou a desestabilizar a produção de alimentos, a acentuar a migração, a degradar certos ativos imobiliários

Mas, assim como a doença coloca uma pressão insuportável no sistema de saúde e tende, com isso, a desestabilizar toda a sociedade, o aquecimento global já começou a desestabilizar a produção de alimentos, a acentuar a migração, a degradar certos ativos imobiliários. . Tudo isso, cujos efeitos não são diretamente perceptíveis nem facilmente atribuíveis, passa – pelo menos no início – como sem importância.

A analogia entre gerenciar doenças e controlar o aquecimento tem seus limites. Primeiro, nunca haverá uma vacina contra o aquecimento global. Em segundo lugar, não é certo que os governos algum dia tomarão medidas de emergência na frente climática semelhantes às que têm tomado em face das ondas epidêmicas nos dias de hoje. Mas é difícil ver como poderia ser de outra forma, no horizonte de algumas décadas. Essas medidas seriam, então, muito mais restritivas do que aquelas, temporárias, decididas em todo o planeta para conter o coronavírus.

Assim, aqueles que hoje denunciam uma “ditadura verde” à menor medida de inspiração ecológica podem não estar errados em ter medo. A administração da COVID-19 é uma ilustração disso: ao encorajar a paralisia e a procrastinação, eles são, sem dúvida, os melhores arquitetos do que afirmam temer.

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Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui! ].

Agronegócio e pandemias mortais: uma mistura virulenta

Há pouco tempo recebi da Editora Elefante, a minha cópia do livro “Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, Capitalismo e ciência” que reúne uma série de artigos do epidemiologista evolutivo estadunidense Rob Wallace, mas só agora estou tendo a chance de começar a lê-lo.

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Sem me alongar no conteúdo, pois isso sempre desanima as pessoas de querer comprar a sua própria cópia, eu diria que a leitura de apenas dois dos trinta artigos que compõe a obra me forneceu mais informação sobre as origens, interações e caminhos percorridos pelo SARS-Cov-2, gerador da pandemia da COVID-19, do que meses de matérias e aparições de outros especialistas em programas da mídia corporativa.

É que Wallace nos apresenta uma visão muito bem conectada do papel jogado pelo grande capital e o seu forte controle sobre os meios de produção na criação das condições para a mobilização e interação de diferentes vírus e seus vetores, incluindo os seres humanos, no estabelecimento de um cenário propenso a uma ocorrência de apenas uma, mas de múltiplas pandemias que ocorrem de forma concomitante, sem que possamos sequer nos aperceber disso.

Na raiz do problema está o modelo de agricultura intensiva que reduz o campo a uma forma não natural de produção de alimentos em número de variedades cada vez mais restrito. Com isso, ocorre o aumento do desmatamento e a destruição de equilíbrios sensíveis entre vírus, seus habitats e hospedeiros.  Para Wallace entender essa combinação é mais importante do que cair na crença de que a COVID-19 tem mais a ver com “aquele famoso mercado em Wuhan” do que com a forma pela qual o capital financeiro globalizado controla o processo de produção e circulação da comida.

Mas para não estragar a surpresa, sugiro que quem quiser sair da redoma criada para nos isolar de um entendimento mais completo das causas e trajetórias da COVID-19 que se dirija ao site da Editora Elefante e adquira a sua própria cópia do livro de Rob Wallace.  Como o próprio Wallace avisa, essa é uma obra virulenta, mas essencial para que possamos entender o tamanho do buraco em estamos metidos.

A COVID-19 avança no Brasil em meio a um silêncio sepulcral

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O crescimento das internações por covid-19 em alguns hospitais privados de São Paulo já ligou o sinal de alerta sobre uma possível segunda onda da pandemia

A tabela abaixo mostra os números para o comportamento da pandemia da COVID-19 após quase 8 meses desde que a mesma foi declarada oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  Ao contrário do que parece indicar o desaparecimento da pandemia das manchetes principais dos jornais, o Brasil continua em uma condição bastante precária, estando entre os 3 países como mais casos de infecção e mortes pela COVID-19, tendo chegado a quase 170 mil mortos e mais de 6 milhões de infectados pelo coronavírus.

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Enquanto isso, uma simples caminhada pelas ruas da maioria das cidades brasileiras vai mostrar que apenas uma minoria das pessoas está portando máscaras corretamente, levando a vida em uma aparente normalidade. Além disso, aparecem todos dias, principalmente nas mídias sociais, informações de festas clandestinas para onde ocorrem membros de todas as classes sociais, mas principalmente por segmentos mais jovens e ricos da população.

Essa  situação aponta para o inevitável prolongamento e um novo período de alto número de novas infecções e mortes.  A chamada segunda onda que está agora correndo solta na Europa não está ocorrendo ainda no Brasil, simplesmente pelo fato de que ainda não conseguimos sequer sair da primeira.

O governo Bolsonaro é a origem do descontrole sanitário que permitiu a manutenção da pandemia em níveis altos e que está causando uma nova fase de superlotação de unidades de saúde. Mas o governo liderado por um negacionista convicto não é o único culpado, pois os governos estaduais e municipais em sua maioria decidiram passar a priorizar os interesses do empresariado, deixando principalmente para os pobres o maior peso desse novo ascenso da pandemia no Brasil.

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Da forma que está se prolongando, a pandemia da COVID-19 ainda ceifará milhares de vidas no Brasil (que hoje tem 1 em cada 6 mortos por COVID-19 no mundo) até que se comece a fazer a aplicação em massa de uma ou mais vacinas contra o SARS-Cov-2. 

Para aqueles que não querem fazer parte das estatísticas oficiais de contaminados e mortos pela COVID-19 resta adotar medidas estritas de autocontrole pessoal que deve se estender para todo o círculo familiar mais próximo. É que se for depender da ação do Estado, a coisa ainda vai ficar muito pior antes que comece a melhorar.