Agronegócio e pandemia da COVID-19: uma mistura explosiva

Já abordei anteriormente a íntima ligação entre a variante estadunidense da fazenda industrial com o aparecimento de pandemias, incluindo a da COVID-19.  Pois bem, para quem quiser saber mais sobre esta questão em geral, bem como no caso específico do Brasil, a edição brasileira do jornal Le Monde Diplomatique acaba de ser publicada é um prato cheio de conhecimento. É que boa parte da edição é dedicada a investigar e demonstrar a relação íntima entre grandes criações de animais e abatedouros industriais no espalhamento da COVID-19 no Brasil e nos EUA.

le monde pandemia

No caso brasileiro, o artigo assinado pelos professores Fernando Mendonça Heck, do Instituto Federal de São Paulo, Campus Avançado Tupã (SP),  e Lindberg Nascimento Júnior do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina, teve como foco o papel jogado pelos frigoríficos no espalhamento da COVID-19 na região Sul do Brasil, onde ficou patente uma clara sincronia entre a presença dos abatedouros e o grau de disseminação da pandemia (ver figura abaixo).

le monde covid frigorificos

Os professores Heck e Nascimento Junior mostram que ao impedir o isolamento social dos seus trabalhadores, os frigoríficos impuseram a difusão da pandemia não apenas nos municípios sede, mas também nas regiões de entorno, onde parte dos seus contratados reside.  Somado a esse padrão geográfico, os pesquisadores mostram que as condições de alta precariedade em que o trabalho dentro dos frigoríficos ocorre contribui de forma direta para o adoecimento dos seus empregados, bem como das famílias destes.

Já o artigo assinado pelos professores Larissa Bombardi do Departamento de Geografia da USP,  Immo Fiebrig, professor associado honorário da Escola de Biociências a Universidade de Nottingham na Inglaterra, e Pablo Luiz Maia Nepomuceno do Departamento de Geografia da USP.  Em seu artigo, os três pesquisadores abordaram  a possível correspondência espacial entre as áreas com criação intensiva de porcos e aquelas com altas taxas de população infectada por COVID-19 nos EUA. Essa investigação teve início com a divulgação na imprensa, a partir de abril de 2020, de diversos casos de trabalhadores da indústria da carne infectados pelo novo coronavírus, já que as plantas industriais onde ocorre o abate de animais teriam se transformado em hotspots de disseminação do SAR-Cov-2. 

Ao relacionar a presença de grandes rebanhos de suínos com as plantas de abate, Bombardi e seus colegas confirmaram a existência de uma relação inequívoca   na distribuição espacial entre as áreas com grande presença de suinocultura e/ou de frigoríficos e aquelas com alta taxa da população infectada por Covid-19 nos EUA (ver figura abaixo).

le monde covid suinocultura

Bombardi e colegas argumentam que a transformação de porcos em uma mera “massa de proteína animal” tem se mostrado deletéria não apenas para os animais, mas também para os seres humanos e para o meio ambiente.  Por causa disso eles concluem que não é de se estranhar que novas cepas tenham surgido na velocidade com que o fizeram neste século.

Outros artigos também sinalizam a incompatibilidade do modelo de fazenda industrial com a manutenção de níveis aceitáveis de segurança alimentar, de condições de vida minimamente dignas para os animais, bem como a prevalência de condições adequadas para os trabalhadores da indústria da carne animal.  Um elemento que aparece de forma eloquente, por exemplo, no artigo assinado  pelo  doutor José Raimundo Sousa Ribeiro Junior, professor visitante do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp. Em seu artigo, Ribeiro Junior coloca em xeque a falácia de que o “agronegócio mata a fome do mundo”. É que segundo dados levantados por , a pandemia pode ser responsável pelo crescimento de 83 milhões a 132 milhões na quantidade de pessoas cronicamente desnutridas no mundo. em que pese os lucros fabulosos auferidos pelas corporações que controlam a produção e distribuição de alimentos no mundo.

Quem desejar acessar a íntegra da edição de janeiro de 2020 do Le Monde Diplomatique Brasil, basta clicar [Aqui!]. 

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