E agora Quaquá? Sérgio Moro condena Lula a 9,5 anos de prisão

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Após a aprovação da contra-reforma trabalhista, o dia de hoje está sendo marcado pela esperada condenação do ex-presidente Lula pelo juiz Sérgio Moro em um dos vários processos abertos pela chamada operação Lava Jato a 9,5 anos de prisão [Aqui!].  Estes dois acontecimentos simbolizam o enterro definitivo da política de cooperação de classes que levou e manteve Lula no poder, e reforça as perspectivas de um forte acirramento na luta de classes no Brasil.

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É que se Lula for condenado em segunda instância, a sua eventual candidatura será jogada ao mar e o cenário eleitoral para 2018 se tornará um completa incógnita. Além disso, se a inviabilização da candidatura se confirmar, o mais provável é que o PT acabe sendo forçado a apoiar uma candidatura saída de outro partido, provavelmente a de Cyro Gomes pelo PDT.

O interessante é que ao inviabilizar Lula, o que as elites econômicas que deram sustentação a Sérgio Moro estão fazendo é tirar de cena a única figura política capaz de manter em pé um governo de coalizão de classes.  A inexistência de um substituto para Lula sinaliza para a manutenção de uma condição de crise aguda no Brasil, que já sofre com pelo menos dois anos de profunda recessão econômica e caos na sua estrutura política.

Assim, ainda que erradicar Lula da cena política seja um objeto de desejo dos setores mais reacionários da sociedade brasileira, a confirmação desta condenação servirá como um rastilho de pólvora que poderá resultar numa grave crise social, visto que a maioria da população já sente na pele os retrocessos sociais e econômicas que esta crise profunda vem impondo aos pobres. Em outras palavras, condenar Lula pode até alegrar os corações mais reacionários, mas tem o potencial de fazer explodir o sistema político brasileiro, com consequências imprevisíveis para o Brasil.

Por fim, agora vamos ver como se comportarão as lideranças do PT, começando pelo presidente do PT fluminense, Washington Quaquá, que prometerão levar a luta aberta às ruas caso Lula fosse condenado por Sérgio Moro [Aqui!].   Pois bem, agora que a condenação veio está dada a chance para Quaquá cumprir sua ameaça, ou não.

 

 

O sábio que Sérgio Moro pretendia censurar

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Foto: Verbena Editora / Divulgação

*Por Moisés Mendes

O juiz Sergio Moro não reage com naturalidade quando se sente contrariado. Em outubro do ano passado, o juiz de Curitiba incomodou-se com um artigo que o criticava, publicado na Folha de São Paulo, e fez o que muita gente faz.

Escreveu para o jornal e reclamou. Mas fez também o que uma minoria insegura faz. Sugeriu que o autor do artigo fosse censurado pela Folha, por considerar que o texto era panfletário e tinha conteúdo partidário, entre outros defeitos.

O autor do texto acusara Moro de “intolerância moralista”. O artigo dizia: “A história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sergio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública”.

O juiz devolveu, na carta ao jornal: “Embora críticas a qualquer autoridade pública sejam bem-vindas e ainda que seja importante manter um ambiente pluralista, a publicação de opiniões panfletárias-partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual, deveria ser evitada, ainda mais por jornais com a tradição e a história da Folha”. Evitada como?

O juiz não sabia (o que é grave para quem contesta quem o critica) que o autor do artigo ajudou e continua ajudando a Folha a fazer história. O ‘panfletário’ é integrante do conselho editorial do jornal e um de seus principais articulistas há quatro décadas.

Pois agora a ignorância do juiz Moro poderá ser sanada, porque seu alvo faz história pelo país e merece um livro que conte sua trajetória. Chega amanhã às livrarias Um Aprendiz de Quixote: Memórias de Arruá (Verbena Editora), com as memórias do físico, engenheiro e pensador Rogério Cerqueira Leite.

Cerqueira Leite, o ‘rancoroso’ que acionou o mecanismo autoritário do juiz de Curitiba, é um dos grandes brasileiros do século 20. É cientista respeitado, contribuiu para a resistência à ditadura, defende a democracia em sua plenitude, faz e reflete sobre ciência, universidade, ambiente e as questões essenciais do humanismo. Desde o começo das manobras da direita, fez campanha contra o golpe de agosto.

Moro deveria conhecê-lo, antes de atacá-lo por suas discordâncias em relação à seletividade da Lava-Jato. Não se trata de desinformação, mas de ignorância mesmo. Um juiz não pode dizer que desconhece Rogério Cerqueira Leite.

A Folha trouxe na segunda-feira um breve resumo dos feitos do cientista, destacando um ponto: ele é um dos raros oráculos brasileiros que junta ciência e humanidades, sempre fazendo uma abordagem sociológica e literária dos temas que o inspiram.

Cerqueira Leite criou, nos anos 80, uma das loucuras nacionais, o Laboratório de Luz Síncrotron, em Campinas, que atua em várias frentes da pesquisa científica e é considerado o similar brasileiro dos aceleradores de partículas da Europa.

Mas ele não é apenas um professor pardal metido em discussões sobre energia nuclear, combustíveis fosseis (que abomina) e fontes alternativas de energia, como professor da Universidade de Campinas.

É um provocador, um polemizador, um intelectual ativo no debate das grandes controvérsias. Como fez agora ao provocar Sergio Moro e obter como reposta uma sugestão de que deveria ser eliminado do quadro de colaboradores da Folha.

No artigo que contrariou o juiz, Cerqueira fez referência aos embates de ideias de tempos medievais e alertou Moro para o que aconteceu com Girolamo Savonarola, o padre que desafiou a Igreja e foi queimado vivo em Roma.

O cientista escreveu que, depois da caçada a Lula, o juiz poderia ser abandonado pelos que sustentam sua atuação na Lava-Jato: “Cuidado, Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes”.

O juiz levou tão a sério a ameaça da fogueira que, na resposta à Folha, lamentou o fato de o cientista “chegar a sugerir atos de violência contra o ora magistrado”.

Cerqueira teve de escrever de novo à Folha, em carta à seção do leitor, para esclarecer e ironizar, num texto curto e brilhante. Eis um trecho: “O fogo a que me refiro é o fogo da história. Intelectos condicionados por princípios de intolerância não percebem a diferença entre metáforas e ações concretas”.

É como se estivesse falando com uma criança. Mas Sergio Moro, o concreto, deve encontrar tempo para ler o livro deste senhor de 85 anos. Quem sabe se arrependa do dia em que teve a ideia de que seria possível censurar o pensamento de um dos últimos sábios brasileiros.

Peço desculpas por tirar o prazer da surpresa, mas a própria Folha esclarece, ao destacar que Cerqueira Leite tem vocação para a encrenca, que o arruá do subtítulo do livro quer dizer arisco, bravio, indócil e brigão. Com quem um juiz previsível, cartesiano, esquemático e simplório foi se meter.

*Moisés Mendes | Jornalista, autor do livro Todos querem ser Mujica – Crônica da Crise (Diadorim Editora, 154 páginas).

FONTE: http://www.extraclasse.org.br/exclusivoweb/2017/03/o-sabio-que-sergio-moro-pretendia-censurar/

O Brasil na encruzilhada: democracia ou ditadura, o que vai ser?

A situação política brasileira está se encaminhando rapidamente para uma encruzilhada sob a batuta do governo “de facto” de Michel Temer e sua base parlamentar sempre disposta a cortar mais direitos sociais e trabalhistas.  E essa encruzilhada foi representada no dia de ontem (21/03) por dois fatos aparentemente desconexos, mas que explicitam bem como a nossa conjuntura está mais trovoadas e relâmpagos do que para de céu brigadeiro.

O primeiro fato foi a esquisitíssima prisão do blogueiro Eduardo Guimarães do blog Cidadania (Aqui!) para que ele revelasse a identidade da fonte (que aparentemente já era conhecida pelas autoridades policiais e judiciárias) que lhe passou a informação de que o presidente Lula seria levado a depor e teria seus sigilos quebrados (Aqui! e Aqui!).  A prisão é “esquisita” porque se baseou no fato de que o juiz Sérgio Moro decidiu sequetrar judicialmente um crítico para que ele informasse algo que a Constituição Federal Brasileira o desobriga a fazer. Em outras palavras, um produtor de informações foi levado preso para quebrar o sigilo da fonte que é uma garantia constitucional!

Mais esquisita ainda foi a reação da maioria dos jornalões e revistas brasileiros que trataram esse problema como algo pertencente à esfera judicial, como se Eduardo Guimarães fosse mais um dos encrencados no caso de corrupção conhecido como Lava Jato. Eu fico imaginando o que os jornalistas que trabalham para a mídia corporativa estão sentindo, e não é nada muito tranquilizador.  Mas, aparentemente, os donos das empresas de jornalismo decidiram proteger a narrativa vigente que postula que Sérgio Moro é um paladino na luta contra a justiça em vez de defenderem a Constituição Federal.

O segundo fato foi o recuo do presidente “de facto” de impor uma reforma draconiana na Previdência Social ao retirar os servidores públicos estaduais e municipais do alcance destruidor de sua proposta de privatização da seguridade social. E isso foi feito com claro constrangimento e irritação em parte dos principais idealizadores deste achaque estatal, como narra hoje o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO” (Aqui!). Esse é o primeiro sinal objetivo de que Michel Temer reconheceu a sua precariedade enquanto representante de uma política geral de retrocesso social, e literalmente arregou.

Pior para governos estaduais com o liderado pelo (des) governo Pezão que terão de se enfrentar com seus servidores enquanto são anunciados pela mídia corporativa nas listas do mesmo juiz Sérgio Moro que mandou prender Eduardo Guimarães.  Em outras palavras, as chances dos conflitos se espalharem pelos diferentes níveis de governo aumentaram, e de forma exponencial dado que é em estados e municipais onde se acumulam as maiores estripulias com os fundos de previdência dos servidores. Basta ver o caso do “Rio Oil Finance Trust” que quebrou o RioPrevidência.

Mas qual é a encruzilhada que a junção desses dois fatos aparentemente desconexos nos leva? É a encruzilhada entre um Estado que se move, ao menos formalmente, com base num regime democrático de leis e a adoção de uma ditadura aberta e sem pudor. É que quem manda prender quem informa, indiferente da matiz ideológica do informante, não hesitará em enjaular quem se rebela contra medidas que considera injustas. 

E, por favor, não me incluam entre os que estão vendo teorias da conspiração pululando pelo céu. A identificação dessa encruzilhada decorre apenas de memória histórica, pois esse enredo já foi repetido pela burguesia em outras partes do mundo, apenas variando o nível do terror imposto a quem foi identificado como inimigo da ordem que se queria estabelecer.

Finalmente, nunca é preciso dizer que a democracia em seus níveis elevados nunca foi garantida por juízes e políticos, mas pelos trabalhadores organizados e ocupando as ruas em prol de seus direitos. Gostando ou não, essa ainda é a fórmula que vai livrar a república brasileira de mais um ciclo ditatorial.  A ver!

Prêmio Isto É e as mostras de amizade explícita entre Sérgio Moro e Aécio Neves

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Foto de Diego Padgurschi

A mídia corporativa e a blogosfera estão hoje mostrando imagens da entrega de prêmios para personalidades que é feita anualmente pela revista IstoÉ (que alguns chamam maldosamente de “QuantoÉ”).  Entre os premiados estava o juiz Sérgio Moro que foi premiado como “Homem da Justiça do Ano” (Aqui!).

Até aí tudo bem, pois Sérgio Moro é uma estrela, especialmente entre aqueles setores que prezam menos a justiça, e mais o justiçamento, o que anda bastante abundante no Brasil nos dias de hoje. Especialmente se o alvo do justiçamento for um político visto como sendo de esquerda ou minimamente comprometido com os setores populares.

Agora, como o respeito à justiça depende em grande medida da expectativa que todos são iguais perante à lei (e por extensão perante aos juízes), o que dizer das imagens abaixo que mostram um congraçamento para lá de animado entre o juiz Sérgio Moro e o senador tucano Aécio Neves? Não custa lembrar que quase todo o Brasil já sabe que Aécio Neves é um dos políticos mais citados por delatores do escândalo da Lava Jato, e ainda continua completamente impune.

Fotos de Diego Padgurschi

Antes que alguém apareça para dizer que essas fotos foram editadas no Photoshop para fazer Sérgio Moto aparecer mal, me desculpem o trocadilho, na fotografia, avise logo que elas estão disponíveis de forma ampla, inclusive em veículos da mídia corporativa.

O que me espanta nesse congraçamento entre Moro e Aécio Neves é o descuido com, pelo menos, a imagem de isonomia no tratamento de acusados. Esse descuido poderá, inclusive, facilitar a vida de personagens que efetivamente praticaram crimes contra o Brasil. É que agora ficará muito mais difícil defender a imparcialidade de Sérgio Moro, já que a amizade dele com Aécio está agora documentada.

Aos que acreditam que Sérgio Moro é o salvador da Pátria, estas imagens certamente não vão abalar muito, pois muitos são eleitores de Aécio Neves. Agora aos que sempre duvidaram da imparcialidade da Lava Jato, essas imagens servirão como uma confirmação do que sempre foi dito. E isto certamente aumentará as clivagens já existentes na sociedade brasileira. Até por causa disso, Sérgio Moro deveria ter sido mais cuidadoso. 

Rodrigo Janot e sua estranha matemática no meio do fogo cruzado entre Gilmar Mendes e Sérgio Moro

O procurador geral da república, Rodrigo Janot, emitiu uma nota onde contesta a aprovação pela Câmara de Deputados de um projeto de lei com medidas anti-corrupção que segundo ele representam um retrocesso (Aqui!).

Até aí morreu o Neves, pois cada um pode defender posições que melhor lhes convenha, e Rodrigo Janot não está impedido de discordar do projeto aprovado pela Câmara Federal. Agora o que parece estranho é ele ter afirmado que 2 milhões de assinaturas representam um apoio maciço em uma população composta atualmente por 206 milhões de pessoas, o que representa menos de 1% do total.

Aliás, o ilustre ministro Gilmar Mendes (ilustre ao menos para paneleiros e para o pessoal da Rede Globo), o problema com essas 2 milhões de assinaturas é que “nem sempre as pessoas sabem do que estão falando ou defendendo (Aqui!)”. E eu acrescento, ou assinando. 

Finalmente, eu fico imaginando o tamanho do nó que deve ter se formado na cabeça de ilustres globais como Miriam Leitão, Merval Pereira e William Waack durante a audiência no Senado Federal quando Gilmar Mendes criticou o juiz Sérgio Moro e o pessoal da Lava Jato por terem se insurgido contra a Câmara de Deputados. É que os dois (Mendes e Moro) são ídolos dos paneleiros e do pessoal da Rede Globo. Ter que decidir entre um dos dois deve estar sendo difícil para esse pessoal. Pior ainda quando Gilmar Mendes apoiou o projeto aprovado pela Câmara de Deputados.

Procuradores e o juiz da Lava Jato: os heróis da classe média podem não ser tão probos quanto querem parecer

Acabo de voltar de uma viagem de trabalho ao extremo sul catarinense e, por causa disso, não tive como atualizar este blog por alguns dias. Mas é claro que a roda política não esperou a minha volta para continuar a girar, e agora temos o tiroteio entre a maioria dos deputados federais e os procuradores do Ministério Público Federal que atuam no âmbito da chamada Operação Lava Jato por causa das alterações feitas no pacote de medidas supostamente voltadas para combater a corrupção no Brasil.

A primeira coisa dessa gritaria dos procuradores da Lava Jato que me espanta é o fato de que parecem ter achado que suas propostas seriam automaticamente sancionadas pelo congresso nacional. Ora, quem legisla são os deputados e senadores, cabendo aos membros do Ministério Público aplicar as leis. Na hora que eles poderem fazer as leis, me parece que estaremos entrando num terreno ainda mais pantanoso para a frágil democracia brasileira.

Mas movidos pelos reclamos de seus heróis tivemos a volta ontem dos paneleiros das classes médias e altas que fizeram ruído depois de meses de silêncio sepulcral. Nem é preciso lembrar que nesse meio tempo de silêncio obsequioso daquela multidão de pele alva e olhos claros tivemos o desmanche de programas sociais, o processo de privatização branca da PETROBRAS e o começo do desmanche do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. No meio disso tudo, a aprovação da PEC 241 pela Câmara de Deputados (depois rebatizada no Senado Federal como PEC 55) cuja aplicação deverá jogar o Brasil com índices de desenvolvimento dos países mais pobres da África e da Ásia. Enquanto isso tudo era aprovado, o silêncio das panelas foi total.

Então é preciso reconhecer que as chamadas e apelos de cunho moralista que partiram dos procuradores da Lava Jato possuem um forte eco em determinados segmentos da população brasileira, a ponto de fazê-los voltar a bater panelas. A curiosidade que eu tenho sobre esse fenômeno é se os paneleiros já olharam seus heróis de mais perto para ver se eles são mais probos do que os deputados federais e senadores que eles tanto possuem ojeriza. A minha resposta é não, ainda que isto ocorra por um misto de comodidade e cinismo. É que para esses setores conservadores há essa mescla de probidade seletiva. Basta ver o ódio ao programa Bolsa Família, enquanto se enriquecem com a especulação financeira que é uma forma de bolsa família dos endinheirados.

Contudo, duas situações envolvendo dois dos heróis dos paneleiros me fazem pensar que haveria algum desencanto caso eles decidissem aplicar os mesmos critérios de probidade aplicados a deputados e senadores em seus personagens ideais. Vejamos o caso do misto de pastor e procurador da república, Deltan Dallagnol, que foi flagrado adquirindo dois apartamentos construídos pelo Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV)na cidade de Ponta Grossa (Aqui!).  Apesar de não haver nada de ilegal com o uso de dinheiro pessoal para a compra de imóveis está claro que as unidades do MCMV foram adquiridas por Dallagnol para lucrar com um programa que deveria garantir a casa própria para setores menos abastados da população. Não tão probo assim, certo?

Agora o segundo caso que é o do herói mor dos paneleiros, o dublê de juiz federal e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Sérgio Moro, que solicitou e obteve autorização para se licenciar do Brasil para estudar nos Estados Unidos da América, supostamente após a conclusão da Operação Lava Jato, o que deverá ocorrer em 2018 ou 2019 (Aqui!).  Afora o pedido peculiarmente adiantado no tempo que Sérgio Moro fez à UFPR, as relações mal explicadas que ele possui com o FBI  e os processos que correm na justiça estadunidense deveriam suscitar perguntas sobre a pertinência dessa viagem de “estudos”. Entretanto, nada disso parece abalar até agora a adoração que os paneleiros destinam a Sérgio Moro. Eu fico imaginando apenas o que mais ainda vai aparecer sobre as relações entre Moro e o governo dos EUA, e isto importaria de algum modo aos seus fãs.

Para mim o que fica claro é que nos déssemos ao trabalho de olhar outros heróis dos paneleiros com lupas mais apuradas é provável que encontraríamos outros pequenos desvios da imagem de completa e integral probidade que eles gostam de passar. E o que temos no Brasil no momento é apenas um momento em que o passe livre que partes do judiciário se auto-concederam está gestando uma crise institucional sem precedentes na nossa história recente, enquanto os paneleiros seletivamente cutucam suas panelas reluzentes. E, sim, enquanto isso a depressão econômica avança inclemente e milhões de brasileiros estão sendo recolocados rapidamente abaixo da linha de miséria. Nada que impressione ou importe aos paneleiros. Afinal, eles continuam lucrando bastante com as estratosféricas taxas de juros que o Brasil paga.

Desvendando Moro

Por Rogério Cezar de Cerqueira Leite*

O húngaro George Pólya, um matemático sensato, o que é uma raridade, nos sugere ataques alternativos quando um problema parece ser insolúvel.

Um deles consiste em buscar exemplos semelhantes paralelos de problemas já resolvidos e usar suas soluções como primeira aproximação. Pois bem, a história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sergio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública.

Dentre os exemplos se destaca o dominicano Girolamo Savonarola, representante tardio do puritanismo medieval. É notável o fato de que Savonarola e Leonardo da Vinci tenham nascido no mesmo ano. Morria a Idade Média estrebuchando e nascia fulgurante o Renascimento.

Educado por seu avô, empedernido moralista, o jovem Savonarola agiganta-se contra a corrupção da aristocracia e da igreja. Para ele ter existido era absolutamente necessário o campo fértil da corrupção que permeou o início do Renascimento.

Imaginem só como Moro seria terrivelmente infeliz se não existisse corrupção para ser combatida. Todavia existe uma diferença essencial, apesar das muitas conformidades, entre o fanático dominicano e o juiz do Paraná -não há indícios de parcialidade nos registros históricos da exuberante vida de Savonarola, como aliás aponta o jovem Maquiavel, o mais fecundo pensador do Renascimento italiano.

É preciso, portanto, adicionar um outro componente à constituição da personalidade de Moro -o sentimento aristocrático, isto é, a sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de “síndrome do escolhido”.

Essa convicção tem como consequência inexorável o postulado de que o plebeu que chega a status sociais elevados é um usurpador. Lula é um usurpador e, portanto, precisa ser caçado. O PT no poder está usurpando o legítimo poder da aristocracia, ou melhor, do PSDB.

A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT.

Savonarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença.

Em Roma, Savonarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.

Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não.

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE *, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha*

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/10/1821713-desvendando-moro.shtml

Brasil em tempos de Minority Report: Lava Jato prendeu Palocci por falta de provas

Há uma semanas atrás a polícia do estado de São Paulo (mais conhecido como tucanistão) armou uma cilada e prendeu dezenas de estudantes sob a acusação de que iriam cometer crimes. Essa novidade que remonta ao filme de ficção científica estrelado por Tom Cruise, o Minority Report (Aqui!), foi considerado por muitos analistas políticos como mais um dos muitos exageros da polícia comandada por Geraldo Alckmin.

Mas não! Agora, graças ao site CONJUR, ficamos sabendo que o ex-ministro Antonio Palocci teve sua prisão decretada pelo inusitado fato de que inexistem provas contra ele no tocante ao recebimento de propinas que teriam sido pagas pela construtora Odebrecht (Aqui!).

Como assim? Preso por falta de provas é da mais absoluta novidade num país onde normalmente ninguém era preso sem provas, mesmo que se preciso fosse fabricá-las.

Essa novidade é uma pequena adaptação do tema do Minority Report, mas representa uma ameaça muito grande para as liberdades individuais, especialmente dos brasileiros mais pobres. É que enquanto Palocci e sua turma possuem advogados bastante caros e capacitados para defendê-los, o brasileiro pobre normalmente é desprovido da condição de sequer pagar um rábula para tratar de seus interesses legais.

Aos que vibram com a prisão de Palocci, lembro que todos os presos da tal Operação Arquivo X já foram colocados em liberdade pelo juiz Sérgio Moro. Agora, os muitos ladrões de galinha que estão presos pelo Brasil afora por crimes completamente bisonhos continuam enjaulados, com ou sem provas. Entretanto, com o padrão Minority Report que a Lava Jato está consolidando, os ladrões de galinha continuarão sendo mantidos presos mesmo sem provas. É que se pode com o Palocci, pode com qualquer um.

Ação da Lava Jato é claramente partidária. Mas não haverá bateção de panelas por causa disso

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A prisão hoje do ex-ministro Antonio Palocci (PT) é mais uma das demonstrações cabais que a chamada Operação Lava Jato é dotada de uma forte seletividade partidária e com efetivo senso de influência eleitoral.

Não que eu morra de amores por Antonio Palocci com quem militei na mesma organização nos 1980. Vejo sempre nele um quê de traição a ideais e causas. Mas que ele teve sua prisão premonizada ontem em um comício do PSDB em sua cidade pelo atual ministro da (in) justiça Alexandre Barros, isso ele teve.

Não é de hoje que há uma forte conotação seletiva nas ações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal na apuração dos caso conhecido como “Petrolão”. E mais o uso corriqueiro da prisão preventiva que normalmente recai sobre dirigentes do PT é algo que já se tornou escancarado. Por isso, até juristas que defenderam a suposta capacidade higienizadora da Lava Jato já se mostram preocupados com as ações de exceção que marcam as suas ações de delação, prisões e julgamentos.

O fato é que se ilude quem acha que a corrupção é debelada pela justiça agindo de forma solitária e seletiva.  O maior exemplo disso foi a chamada Operação Mãos Limpas na Itália que fez e aconteceu, mas não tornou o sistema político italiano menos corrupto.  

A verdade é que corrupção é um dos muitos mecanismos de apropriação privada dos bens públicos  e é uma marca do sistema capitalista. Não há país capitalista que não tenha seu nível de corrupção, ainda que uns sejam mais afetados do que outros. A saída contra a corrupção é, contraditoriamente, política. E passa mais pela organização coletiva da sociedade do que pela crença de que um grupo de messias bem intencionados vão limpar o sistema político e econômico.

Mas nada disso vai trazer aquelas massas coxinhas que iam às ruas vestidas com um dos maiores símbolos mundiais de como hospedar corruptos em quadros dirigentes,  a CBF. É que os “coxinhas” que se indignam com os casos de corrupção envolvendo o PT estão se lixando quando a coisa vai para partidos que representam os seus interesses públicos e privados. É uma forma bem brasileira de indignação seletiva que apenas reforça o fato de que a direita brasileira ama corruptos “bem nascidos” e detesta com a mesma intensidade quem ouse se intrometer nos seus nichos de bem vivência.

Placar das delações mostra Aécio 8 x Mantega 1. Por que só o ex-ministro foi em cana?

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Tenho amigos que acreditam piamente na imparcialidade dos procuradores da Lava Jato e do juiz Sérgio Moro. Eu, confesso, nunca me deixei levar por essa euforia punitiva que cerca os torquemadas curitibanos.

É que tendo Sérgio Moro conduzido os casos do Banestado e de uma tal operação “Castelo de Areia” que acabaram anulados pela própria justiça por erros de condução do ilustríssimo magistrado, sempre me reservei ao direito da desconfiança. Deve ser que como paranaense da região dos Campos Gerais, sei bem como funciona a justiça no Paraná.

Agora, vejamos dois casos bastante díspares em termos de delações e os rumos completamente opostos que eles tiveram até o momento.  O primeiro é o do senador e ex-governador tucano Aécio Neves que foi delatado em pelo menos 8 depoimentos.  E o que aconteceu até agora com ele? Absolutamente nada!

Já o ex-ministro Guido Mantega (PT) foi denunciado uma única vez, e logo por Eike Batista! O que aconteceu com ele? Foi indiciado e finalmente preso hoje no momento em que acompanhava uma operação cirúrgica de seu esposa que sofre de câncer.

Ainda que posteriormente Sérgio Moro tenha revogado a prisão temporária de Guido Mantega, a exposição dele e do PT já se deu com evidentes prejuízos pessoais para o ex-ministro e eleitorais para o seu partido.

A pergunta que não quer calar é a seguinte: não dá para o pessoal da Lava Jato pelo menos tentar disfarçar a parcialidade de suas ações?

Finalmente, quem é que hoje compraria um prego que fosse de Eike Batista? Será que ele como delator é mais confiável do que como empresário? Sei lá, posso ser apenas eu, mas Eike Batista não me parece confiável nem como dedo duro.