Se o Porto do Açu é o “Brasil que dá certo”, tremo só em pensar no que seria viver no que “dá errado”

A imagem abaixo reproduz parcialmente uma matéria assinada pelo jornalista Arnaldo Neto e foi publicada pelo jornal Folha da Manhã  (Aqui!)

prumo

O título da matéria “Aposta no Brasil que dá certo” aproveita uma frase de efeito que foi proferida pelo presidente da Prumo Logística, José Magela Bernardes, durante a inauguração de três terminais dentro do Porto do Açu (o que será inaugurado depois ainda é um mistério) no dia de ontem.  Bernardes, provavelmente num momento de empolgação teria declarado que “Hoje é um dia que celebramos o Brasil que dá certo. O Porto do Açu deu certo porque é um projeto que tem fundamentos sólidos“.

Não conheço pessoalmente o Sr. Bernardes, mas suponho que ele jamais se deu ao trabalho de transitar pelas áreas vizinhas ao Porto do Açu onde até 2009 viviam pacificamente milhares de famílias de pequenos agricultores e pescadores artesanais, e que depois disso foram submetidas a todo tipo de privação e violência.

Aliás, bastaria que o presidente da Prumo Logística saísse da redoma de cristal com ar condicionado em que ele gerencia os projetos bilionários que diz estar implantando, para verificar que o Porto do Açu representa para os moradores atingidos pelos planos mirabolantes de Eike Batista, o que há de pior no Brasil.

E a lista de de razões para que haja tamanho descompasso entre os discursos pomposos dentro do Porto do Açu e a dura realidade dos que vivem do lado de fora é grande. Podemos incluir desapropriações que ainda não foram pagas, a salinização de águas e solos, e erosão costeira.  E, sim, a falta de empregos e a disseminação de um tipo de violência que não existia antes da chegada de Eike Batista e seu projeto bilionário.

A matéria assinada por Arnaldo Neto traz um dado adicional que é apresentado como algo a ser celebrado, mas que eu considero pífio. É que nos é dada a informação de que no auge de sua operação, o Terminal de Óleo representará minguados 10% a mais no recolhimento de Imposto sobre Serviços (ISS) em São João da Barra. Eu digo pífio porque seria de se esperar que um projeto bilionário impactasse de forma mais ampla um município que vem concentrando os piores aspectos das chamadas externalidades negativas. Em outras palavras, por todos os problemas já gerados e pelos que ainda serão gerados, 10% a mais no ISS é pouco, alías, muito pouco.

Finalmente, é preciso reconhecer que o presidente da Prumo Logística tem a obrigação de vender o seu peixe da melhor forma que lhe convier. Afinal, ele deve ganhar um belíssimo salário para cumprir essa tarefa. Agora, o que não se pode aceitar é que os representantes do poder público se comportem como despachantes da Prumo Logística, em vez de cobrar publicamente que haja um esforço maior para que a empresa faça mais pelos municípios afetados direta e indiretamente pelo Porto do Açu. 

E, finalmente, pela minha experiência concreta e pelos estudos de que já participei sobre o Porto do Açu, se este empreendimento representa “o Brasil que dá certo”, eu detestaria ter que viver no que dá errado.

Um pensamento sobre “Se o Porto do Açu é o “Brasil que dá certo”, tremo só em pensar no que seria viver no que “dá errado”

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s