Desmatamento na Amazônia: números explosivos são apenas a ponta do iceberg

O jornalista Maurício Tuffani abordou hoje no seu “Direto da Ciência” o problema expresso pelos últimos dados sobre o desmatamento raso na Amazônia brasileira, e lembrou que existem ainda outros fatores importantes de degradação como o fogo e a extração seletiva de madeira para que se componha uma imagem mais acabada da perda da biodiversidade naquele bioma (Aqui!).

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Acredito que é fundamental a lembrança feita por Maurício Tuffani sobre o fato de que o corte raso é apenas uma fração (talvez até menor) da perda de biodiversidade na Amazônia. É que já em 2010 fui co-autor de um artigo publicado pela revista “Remote Sensing of Environment” (Aqui!) onde ficou estimado que 70% das florestas amazônicas possuíam algum nível de degradação por causa da extração seletiva de madeira. Além disso, também apontamos a forte sinergia existente entre extração seletiva, penetração de fogo e a prática do corte raso.

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De lá para cá, as evidências que já foram obtidas por meio de pesquisas subsequentes e que ainda serão publicadas é que houve um espalhamento considerável das áreas sendo afetadas pela extração seletiva de madeira, o que permite a inferência de que o aumento já detectado nas novas que tiveram a floresta completamente erradicada ainda não deve ser um momento de pico. Em outras palavras, as taxas anuais de desmatamento ainda deverão aumentar nos próximos anos.

A pergunta que pode ser feita imediatamente é a seguinte: por que estamos assistindo ao retorno de taxas explosivas de corte raso na floresta Amazônica? Para mim que fui pela primeira vez no estado de Rondônia em fevereiro de 1991 quando ainda havia muita floresta nativa na sua região central e que hoje está totalmente desmatada, o que estamos presenciando é o equivalente a uma tempestade perfeita. 

É que se pegarmos variáveis como a expansão da pecuária de corte, das monoculturas de cana de açúcar e soja, a perda de controle sobre a extração de madeira, a diminuição da proteção às unidades de conservação, e somar tudo isso aos projetos de rodovias e hidrelétricas que foram fomentados por meio do chamado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o resultado não poderia ser outro que não um aumento explosivo nas diversas formas de degradação da floresta Amazônica.

Para completar essa tempestade perfeita ainda tivemos a aprovação do novo Código Florestal, (ao qual brevemente se juntará a reforma do Código de Mineração, é preciso lembrar ), que sob o argumento de modernizar a legislação, acabou por facilitar a vida dos diferentes agentes responsáveis pelo desmatamento, aí podemos ter uma fotografia completa da tragédia.

Mas como naquela Lei de Murphy que dita que aquilo que está ruim sempre pode piorar, o governo “de facto” de Michel Temer abandonou o discurso pragmático que reinou por mais de uma década que ditava que era possível combinar desenvolvimento com conservação, e partiu para liberar geral. De quebra, ainda tivemos o retorno de Zequinha Sarney ao comando do Ministério do Meio Ambiente, enquanto no Ministério da Agricultura foi colocado o dublê de senador e mega latifundiário Blairo Maggi. Esse descompasso de figuras e de poderes entre os dois ministérios sugere um novo elemento para jogar mais energia na tempestade perfeita que está engolindo rapidamente grandes áreas de floresta para transformá-las rapidamente em territórios do “agrobusiness” e das mineradoras.

Toda esse contexto obrigará a comunidade científica a sair de uma posição quase chapa branca que perdurou ao longo dos anos Lula/Dilma para uma ação mais diligente para estabelecer o real tamanho do problema que estamos enfrentando na Amazônia neste momento. O duro vai ser fazer isso com o orçamento congelado nas universidades e instituições de pesquisa.

2 pensamentos sobre “Desmatamento na Amazônia: números explosivos são apenas a ponta do iceberg

  1. […] da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), publicou em seu Blog do Pedlowski o post “Desmatamento na Amazônia: números explosivos são apenas a ponta do iceberg”, no qual comenta a degradação não computada no corte […]

  2. […] via Desmatamento na Amazônia: números explosivos são apenas a ponta do iceberg — Blog do Pedlowski […]

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