Rio de Janeiro como principal laboratório neoliberal da América Latina

O imbróglio envolvendo o chamado “plano de recuperação fiscal” imposto pelo governo “de facto” de Michel Temer sobre o cambaleante (des) governo Pezão seria patético se não fosse trágico. Após exigir e conseguir enormes concessões por parte da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Michel Temer e seu ainda ministro/banqueiro Henrique Meirelles não conseguem (ou não querem conseguir) dar andamento ao que foi obtido. De sua parte, o (des) governador Pezão é a expressão máxima da incapacidade ao demonstrar completa inépcia para dar conta de questões básicas quanto mais de resolver os graves problemas que afogam o Rio de Janeiro numa grave crise neste momento.

Mas esqueçamos por um momento dos personagens toscos que povoam os cargos diretivos para nos concentrar no que efetivamente está sendo feito no Rio de Janeiro. É que somando tudo o que ocorreu após a chegada de Sérgio Cabral et caterva no Palácio Guanabara, o que temos de fato é a transformação do estado num laboratório avançado das piores expressões das políticas de recorte neoliberal em toda a América Latina.

Exagerado? Basta dar uma percorrida na imprensa internacional para se verificar que inexiste caos semelhante na área de pagamentos de servidores e aposentados. Como também inexiste tamanha apropriação indevida de recursos públicos por membros dos governos. E olha que estamos falando de América Latina, onde a inexistência de instituições democráticas sólidas sempre dá espaço para a ação de aventureiros e lacaios das grandes corporações multinacionais.  Por todas as medidas e considerações possíveis, o que está acontecendo no Rio de Janeiro não possui paralelos. Digamos que vivemos um caos planejado para que haja uma completa apropriação da coisa pública por um punhado de pessoas que sequer representam os interesses da burguesia local.

Eu aproveito ainda para mencionar que neste caldeirão neoliberal existe a repetição de casos de expropriação de territórios ocupados por grupos que são tradicionalmente marginalizados social e economicamente. Os exemplos mais grotescos são das expropriações conduzidas para a implantação dos portos Sudeste (Itaguaí) e Açu (São João da Barra), mas também tivemos milhares de tomadas de lotes urbanos na cidade do Rio de Janeiro para a realização dos megaeventos esportivos, começando com os Jogos Panamericanos de 2007, passando pela Copa do Mundo de 2014 e desembocando nas Olimpíadas de Verão de 2016. Em todos estes casos, o Estado agiu para desterritorializar os pobres para entregar suas terras aos ricos fossem eles indivíduos ou grandes corporações multinacionais.

Mas a ação do Estado não se resumiu ao plano do executivo, pois legislativo e judiciário deram e continuam dando grandes contribuições para que o Rio de Janeiro vire uma pocilga neoliberal que é inabitável para a maioria pobre e negra da sua população. Ao se examinar a formulação, aplicação e a fiscalização de leis, veremos que os interesses da maioria da população não têm sido sequer levados em consideração, pois os exemplos de ação preferencial em prol dos ricos são incontáveis.

Alguém poderia me perguntar qual seria o cenário mais provável para o Rio de Janeiro nos próximos anos, no que eu teria de responder que vejo que viveremos um período marcado por uma forte conflagração com riscos de convulsão social generalizada. É que. apesar da desorganização política e da inexistência de líderes comprometidos com a reversão desse caldo neoliberal, não haverá como impedir que as pessoas se mobilizem para cobrar condições melhores de existência. Aliás. as demonstrações de que a paciência da maioria dos fluminenses já está esgotada são múltiplas. Resta saber apenas qual será o evento que acenderá a fagulha.

E, sim, depois não culpem os pobres se os caos completo se instalar.  É que na vida social como na Natureza, existem sempre limites, que se forem transpostos, sempre acarretarão mudanças de proporções compatíveis com as transgressões cometidas contra o fino balanço instável que rege todas as relações.

9 pensamentos sobre “Rio de Janeiro como principal laboratório neoliberal da América Latina

  1. Elisa disse:

    Concordo com o blog…Estamos chegando no limite..O Estado está completamente desgovernado…com a cumplicidade dos tres Poderes estaduais…e a total omissão do governo federal..mais preocupado em se manter no Poder..e distribuindo bilhões pra verbas parlamentares…A bancada federal do RJ também calada …nada faz ..Parece um complo …Nem o tal decreto presidencial a equipe do Min.Fazenda elaborou…Temos um Governador desacreditado…desarticulado …incompetente…Em um mes que não houve nenhum bloqueio pela Uniao…Não ha justificativa possível pra não pagar aos servidores públicos discriminados..ativos, aposentados e pensionistas abandonados…confiscaram seus direitos universais…da Dignidade da pessoa humana…e o STF os condenou a morte…”Que Pais é esse?????”…

    • Elisa, muito bem pontuado! E obrigado por contribuir com esta importante reflexão.

    • Marco Antônio disse:

      Elisa não acredito que estejamos chegando no limite, em minha opinião o carioca (e o brasileiro) ainda aguentam calados muita porrada. O Estado não está (e nunca esteve) desgovernado, assim como Sérgio Cabral não é o líder (acredito piamente que este papel é desempenhado pelo Italiano na ALERJ) desta quadrilha que se apoderou do RJ com a conivência (para se dizer o mínimo) do TJRJ e do MPRJ. O RJ tem dinheiro em caixa (como já foi demonstrado pelo Prof. Marcos em outros posts neste Blog), e a crise é seletiva (também já demonstrado neste Blog exaustivamente). Você pergunta que País é esse e eu te respondo que é o país que reelegerá a mesma cambada de ladrões em 2018.
      Prof. Marcos só faltou o senhor mencionar a Ciência e Tecnologia (neste post) que também está sendo destruída no RJ como está sendo destruída pelo Brasil. Pois volto a perguntar para o senhor: Para que um simples país exportador de matéria prima irá precisar de indústria e ciência de ponta?
      Por fim, escutei no Faixa Livre hoje de manhã que Temer pretende fazer igual ao Pezão: irá elevar a contribuição do servidor federal para a previdência de 11% para 14%… afinal de contas ele precisará de mais dinheiro para dar aos nobres deputados em decorrência da segunda denúncia que será apresentada pelo Janot após a rejeição comprada pelo governo da primeira denúncia. E assim Elisa todos os brasileiros vivem felizes para sempre… the end.

      • Marco Antônio, nem tanto o céu, nem tanto a terra. Eu avalio que a situação não está tão sob o controle do que você estima. A própria colocação das FAAs nas ruas do Rio de Janeiro demonstra o temor pela instabilidade que já está sendo sentida nas ruas. Sobre a questão da ciência e tecnologia, me parece óbvio que quem quer que o Brasil seja recolonizado não tem interesse no desenvolvimento de ciência e tecnologia de base nacional. Por isso, cabe a nós defender que o que já foi constituído não seja destruído.

  2. Marco Antônio disse:

    Professor Marcos: 1- as FAAs estão nas ruas porque foi dado pelas empresas transportadoras um prazo (ou ultimato se o senhor preferir) até o dia 21/08 para que as (des)autoridades tomassem uma atitude na área de segurança pública, pois se não fosse feito nada até esta data estas empresas não abasteceriam mais o Estado do RJ ante os prejuízos causados pelos roubos de carga já que as seguradoras não cobrem mais os caminhões com destino ao RJ. Bem que eu queria que o senhor estivesse certo quanto aos motivos das FAAs estarem nas ruas da região metropolitana do Rio. 2- Por que o senhor acha que estimo a atual situação do país ou os causadores dela? É porque não compartilho a visão do brasileiro honesto, ordeiro, trabalhador e solidário tão propagada pela Rede Globo? Ou por ser descrente nas mudanças que só podem ser realizadas através das eleições? O senhor já reparou que a democracia em nosso país só se restringe as eleições? Concordo plenamente com o senhor que cabe a nós defendermos o que já foi constituído, mas devo lembra-lo que quem se preocupa com isso é uma parcela minúscula (microscópica me atrevo a dizer) da população. O tal brasileiro pintado pela Globo está feliz da vida que Temer garantiu o carnaval no Rio, que o Timão e o Urubu estão dando um show no campeonato brasileiro e por aí vai… o senhor espera muito de pessoas que não respeitam um simples sinal de trânsito, ou um direito básico da pessoa ao seu lado ( e não os culpo por isso pois são criados e (mal) educados para isso mesmo). Estimo a educação que está esquecida tanto por “coxinhas” quanto por “mortadelas”, estimo a ciência e a tecnologia, estimo o senhor e os demais professores do Brasil, estimo a família e por aí vai… Não sejamos ingênuos, tudo o que está acontecendo no RJ é planejado (como o senhor mesmo mostra no post), até acredito em uma pequena perda de controle da situação (como Cabral mesmo admitiu na cadeia que exagerou um pouco), mas não no descontrole total. A quadrilha continua firme e forte no comando do RJ e com apoio da mídia (Rede Globo), da ALERJ, do TJRJ e do MPRJ. E vai continuar lá até 2018 quando reelegerá seus membros pelo voto dos tais brasileiros honestos, ordeiros, trabalhadores e solidários… plim plim.

    • Marco Antônio, a história está cheia de exemplos acerca de minorias que causaram mudanças estruturais. Assim, mesmo que você esteja certo sobre a letargia ser dominante, existem sinais óbvios de que há uma minoria significativa que está se movendo. Assim, não dê tanto crédito às explicações sobre o papel das transportadoras na chegada das FAAs às ruas do Rio de Janeiro, pois o motivo me parece claro: impedir que haja um crescimento de manifestações que contestem o que está sendo feito por aqui para desmantelar o serviço público e as garantias mínimas que estavam sendo dada aos mais pobres.

  3. Marco Antônio disse:

    Professor Marcos quero dizer ao senhor que sou um leitor assíduo de seu blog e que sempre que tenho oportunidade faço a divulgação do mesmo. Sou pessimista mas também procuro mudar a situação a minha volta.

  4. Marco Antônio disse:

    De cabeça o único caso em que foi benéfico ser pessimista foi na Alemanha em 1933 / 1935, onde os judeus que foram pessimistas e saíram da Alemanha sobreviveram. Os que foram otimistas condenaram a si e suas famílias.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s